quarta-feira, 30 de junho de 2010

PORTUGAL

Satisfeito por ter cumprido os mínimos,
ainda mais por ter perdido
com uma grande selecção.
Facilmente consolável, estéril de ambição.

COLOU-SE-ME A LÍNGUA AO PALATO


Colou-se-me a língua ao palato.
Tenho uma sede ardente de expressão.
Porém não posso construir uma frase.
Já se cumpriu a maldição da minha sogra:
Colou-se-me a língua ao palato.

O que estará a acontecer no inferno
Que se me põem as orelhas vermelhas?

Tenho uma dor que não me deixa falar.
Posso dizer palavras isoladas:
Árvore, árabe, sombra, tinta-da-china,
Porém não posso construir uma frase.

Posso apenas manter-me de pé
Estou feito num cadáver ambulante
Não suporto nem a água da torneira.

Colou-se-me a língua ao palato.
Não suporto nem o ar do jardim.

Deve estar a passar-se algo no inferno
Porque estão a arder-me as orelhas
Está a sair-me sangue das narinas!

Sabem o que se passa com a minha noiva?
Surpreendia-a beijando-se com outro
Tive que dar-lhe um bom sermão
Caso contrário o tipo desflora-a.

Mas agora quero divertir-me
Começar a cavar a minha sepultura
Quero dançar até cair de morto
Mas não me chamem de bêbado!
Vejo perfeitamente onde ponho os pés
Vêem como posso fazer o que me agrada?
Posso fazer o quatro
Posso assobiar uma melodia imaginária
Posso dançar uma valsa imaginária
Posso beber um copo imaginário
Posso dar-me um tiro imaginário.

Além disso, hoje faço anos
Ponham todas as cadeiras à mesa
Vou dançar uma valsa com uma cadeira
Colou-se-me a língua ao palato.

Eu ganho a vida como posso
Ponham todas as cadeiras à mesa
Não privo os meus amigos de nada
Ponho tudo à sua disposição
─ Podem fazer o que bem entenderem ─

Mesa à disposição dos amigos
Bebida à disposição dos amigos
Noiva à disposição dos amigos
Tudo à disposição dos amigos.

Mas não me venham com abusos!

Que o álcool me faz delirar?
A solidão faz-me delirar!
A injustiça faz-me delirar!
O delírio faz-me delirar!

Sabem o que me disse um capuchinho?
Nunca comas doce de pepino!
Sabem o que me disse um cristão?
Não limpes o cu com a mão!

Colou-se-me a língua ao palato.



Nicanor Parra, de Versos de Salón (1962)
Versão de HMBF

terça-feira, 29 de junho de 2010

O PEQUENO BURGUÊS

Aquele que quiser chegar ao paraíso
Do pequeno burguês tem que percorrer
O caminho da arte pela arte
E engolir grandes quantidades de saliva:
O noviciado é quase interminável.

Lista do que tem de saber:

Dar com arte o nó da gravata
Entregar o cartão de visita
Dar dinheiro por sapatos de luxo
Consultar o espelho veneziano
Estudar-se de frente e de perfil
Ingerir uma dose de conhaque
Distinguir uma viola de um violino
Receber as visitas em pijama
Impedir a queda do cabelo
E engolir grandes quantidades de saliva.

Tudo tem de estar nos seus arquivos.
Se a sua mulher se entusiasmar com outro
Recomendo-lhe os seguintes truques:

Barbear-se com lâminas de barbear
Admirar as belezas naturais
Fazer crepitar um pedaço de papel
Aguentar uma conversa por telefone
Disparar com um fuzil de salão
Arranjar as unhas com os dentes
E engolir grandes quantidades de saliva.

Se deseja brilhar nos salões
O pequeno burguês
Deve saber andar de gatas
Espirrar e sorrir ao mesmo tempo
Dançar uma valsa à beira do abismo
Endeusar os órgãos sexuais
Despir-se diante de um espelho
Desfolhar uma rosa com um lápis
E engolir grandes quantidades de saliva.

Perante tudo isto cabe perguntar-se
Se Jesus Cristo foi um pequeno burguês?

Está visto que para se poder chegar
Ao paraíso do pequeno burguês
Há que ser um perfeito acrobata:
Para poder chegar ao paraíso
Há que ser um perfeito acrobata.

Com razão o verdadeiro artista
Se entretém a matar libelinhas!

Para sair do círculo vicioso
Recomendam o acto gratuito:

Aparecer e desaparecer
Caminhar em estado cataléptico
Dançar uma valsa num monte de escombros
Embalar um ancião entre os braços
Sem soltar os olhos dos seus olhos
Perguntar as horas ao moribundo
Cuspir na palma da mão
Apresentar-se de fraque nos incêndios
Irromper com o cortejo fúnebre
Ir mais além do sexo feminino
Levantar essa tampa funerária
Ver se cultivam árvores lá dentro
E passar de uma vereda a outra
Sem referências ao porquê nem ao quando
Pela solitária virtude da palavra
Com seu bigode de galã cinematográfico
À velocidade do pensamento.



Nicanor Parra, de Versos de Salón (1962)
Versão de HMBF

segunda-feira, 28 de junho de 2010

ÚLTIMA HORA

O futuro dos jornalistas do Público, depois de resultados de vendas humilhantes no último semestre, é um exercício de adivinhação. Mas há exemplos suficientes para se temer o pior. Tivessem eles alcançado os objectivos e seriam recompensados como heróis. Apartamentos, carros, benesses várias. Mas os resultados humilhantes frente à concorrência mais directa, podem ter consequências imprevisíveis para os jornalistas da redacção. E imprevisíveis significa mesmo impossíveis de prever, porque ninguém saberá dizer com algum grau de certeza quais os castigos que podem estar à sua espera, quando o Belmiro tomar conta do caso. Uma das hipóteses: os jornalistas vão ser enviados para os armazéns dos hipermercados Modelo, ou qualquer campo de trabalhos forçados similar, para o resto da vida. Outra: os jornalistas perderão alguns dos seus privilégios e dificilmente voltarão a escrever em jornais, sendo o mais provável tornarem-se caixas de supermercado. Outra ainda, se bem que talvez menos provável: os jornalistas escaparão incólumes.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

DO INCONVENIENTE DE TER NASCIDO

Do Inconveniente de Ter Nascido (Abril de 2010) é o segundo volume de E. M. Cioran (1911-1995), com tradução de Manuel de Freitas, a ser publicado pela Letra Livre no espaço de um ano. O primeiro foi Silogismos da Amargura (Maio de 2009), que dava conta, em nota de badana, da existência em língua portuguesa de mais dois livros do filósofo de origem romena: A Tentação de Existir (Relógio d’Água, 1988) e História e Utopia (Bertrand, 1994). Fica assim o leitor português com uma excelente porta de entrada para aquele que terá sido, certamente, o mais pessimista dos filósofos de expressão francesa. Apesar de ter nascido na Roménia, mais propriamente em Rasinari, na Transilvânia, Cioran partiu para Paris, em 1937, e aí se fixou mais tarde, abandonando a língua materna e adoptando a língua francesa. Para trás haviam ficado uma tese de licenciatura sobre Bergson, os primeiros períodos de esgotamento nervoso e algumas obras iniciais. O primeiro livro da fase francesa foi Précis de décomposition (1949), ao qual se seguiram Syllogismes de l’amertume (1952), La tentation d’exister (1956) e, entre outros, Histoire et Utopie (1960) e De l’inconvénient d’être né (1973).

Não se pode dizer que E. M. Cioran tenha edificado um sistema filosófico. Na verdade, a sua prática reflexiva aponta não só para a perversidade da sistematização do pensamento como mesmo para a própria impossibilidade da filosofia. A escolha do aforismo enquanto forma de expressão, à maneira dos Pensées de Blaise Pascal (1623-1662), é um dado relevante, mais ainda quando o autor coloca a sua opção nestes termos: «O aforismo? Fogo sem chama. Compreende-se que ninguém se queira aquecer com ele» (p. 136). É deste «fogo sem chama» que sobrevive o pensamento de Cioran, um pensamento desassossegado, em permanente conflito com a sua própria natureza, realizando-se no limite mais marcante das situações-limite: a consciência interna da morte. Esta consciência lança o autor num labirinto de dúvidas existenciais, do qual é impossível sair sem a sensação muito concreta da banalidade da vida, da inutilidade do pensamento, do vazio que a evidência do fim provoca a quem dela tome o significado. O aforismo resulta, neste contexto, como uma prática especialmente pertinente, pois ele tem a capacidade de nos colocar, pela sua brevidade, no extremo mais afiado da conclusão de um argumento. É como se o autor prescindisse das premissas para nos lançar de imediato nas suas conclusões, mesmo quando essas indicam o único desfecho possível para a itinerância de um raciocínio, ou seja, a voracidade do tempo e a eficácia da morte.

Não admira que a uma filosofia destas seja imediatamente associado o niilismo, mas o niilismo de Cioran sucumbe perante a total indiferença da acção. Uma certa simpatia do autor pelo hinduísmo permite-nos julgar o que aqui está verdadeiramente em causa: perante a impossibilidade de suspender a acção, luz ao fundo de um túnel sem fundo para a supressão da dor e da angústia, perante a dificuldade de transcender as sensações, entorpecidas pela tristeza e pela amargura, resta ao homem sobreviver no seio de um pavor acusado pela sua evidente insignificância. O radicalismo desta perspectiva vai a ponto de afirmar que: «Não nascer é, sem sombra de dúvida, a melhor fórmula que existe. Ela não está, infelizmente, ao alcance de ninguém» (p. 187). Sendo a nossa necessidade de consolo impossível de satisfazer, seria de esperar, no mínimo, a mesma solução para Cioran que Stig Dagerman ofereceu aos seus tormentos, mas Cioran escapa a essa tentação com o mais irónico dos fundamentos: «Não vale a pena matarmo-nos, visto que nos matamos sempre demasiado tarde» (p. 32). O que pode inspirar no leitor este tipo de argumentação? Adesão? Simpatia? Não. Apenas a percepção de uma paradoxal condição, a de que para se suportar o vazio é absolutamente necessário estar-se cheio de nada.

É natural que a certa altura esta sujeição radical da vida aos ditames da morte enfade o leitor que, apesar de tudo, logra encontrar na existência o sentido que escapa a pessimismo tão “absolutizante”. E esse sentido pode ser, por exemplo, o de não fazer sentido algum buscar sentido onde ele jamais se encontrará, permitindo ao ser, desse modo, realizar-se nas alegrias momentâneas, efémeras, superficiais da vida. Se estar vivo é estar sujeito à morte, também não deixa de ser estar sujeito à vida. Daí que a patologia que estruma o pessimismo, no seu horror de uma liberdade inexequível, descambe sempre numa espécie de nostalgia do divino e do sagrado, como aquele lugar onde pode o homem encontrar conforto para o seu desconforto, bálsamo para o absurdo, a angústia, o sofrimento. Viver depois da morte de Deus leva a estes fatalismos, a uma acusação medievalesca da miserabilidade das sensações, como se estar vivo fosse mais uma condenação do que uma bênção. Creio não haver nada mais inconsequente do que um homem revoltar-se contra a sua mais íntima condição, até porque foi isso que ele sempre fez desde que se assumiu como um macaco pensante e ocupado. A história do homem é a história da sua negação. Preferível seria que ele se deixasse de tretas e investisse um pouco do seu parco tempo na sua afirmação. Afirmar o homem significa sentir, sentir tudo de todas as maneiras, sentir até ao ponto de mais nada haver a sentir. E isso leva uma vida inteira. E às vezes nem uma vida inteira chega.

Escrito para o Rascunho.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

UMA QUESTÃO DE CONFIANÇA

P.S.: isto é uma prenda de aniversário para a Maria João.

VERSOS SOLTOS


Um olho níveo não me diz nada
Até quando posar de inteligente
Para quê completar um pensamento
Há que lançar as ideias ao vento!
A desordem também tem seu encanto
Um morcego agita-se contra o sol:
A poesia não molesta ninguém
E a fúchsia parece bailarina.

Se não é sublime a tormenta aborrece
Estou farto de deus e do diabo
Qual é o preço desse par de calças?
O galã livra-se da sua noiva
Nada há mais antipático que o céu
O orgulho, retratam-no de pantufas:
Nunca discute a alma que se estima
E a fúchsia parece bailarina.

Se embarca num violino naufraga
A donzela casa-se com um velho
Gente desgraçada não sabe o que diz
Com o amor não se lhe suplica a ninguém:
Em vez de leite saía-lhe sangue
As aves cantam tão-só por diversão
E a fúchsia parece bailarina.

Uma vez desejei suicidar-me
O rouxinol ri-se de si próprio
A perfeição é uma vasilha sem fundo
Todo o transparente nos arrebata:
Não há maior prazer do que espirrar
E a fúchsia parece bailarina.

Já não resta catraia que violar
Na sinceridade está o perigo
Eu ganho a minha vida aos pontapés
Entre peito e espada há um abismo
Há que deixar o moribundo morrer:
Minha catedral é a casa de banho
E a fúchsia parece bailarina.

Reparte-se presunto ao domicílio
Poder-se-á ver as horas numa flor?
Vendem-se crucifixos de ocasião
A velhice também tem o seu prémio
Os funerais apenas deixam dívidas:
Júpiter ejacula sobre Leda
E a fúchsia parece bailarina.

Todavia convivemos num bosque
Não sentis o murmúrio das folhas?
Porque não me direis que estou a sonhar
Aquilo que digo deve ser assim
Estou convencido que tenho razão
Eu também sou um deus à minha maneira
Um criador que não produz nada:
Eu dedico-me a bocejar a full
E a fúchsia parece bailarina.



Nicanor Parra, de Versos de Salón (1962)
Versão de HMBF





P.S.: há neste poema vários pormenores irónicos que me obrigaram a algum contorcionismo. Entre eles, o facto de o autor utilizar decassílabos. Tentei respeitar esse aspecto, embora nem sempre me tenha sido possível.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

FOI COMIGO

Podia ter sido com outro qualquer. Afinal, andava apenas à procura que fosse com alguém.

BORBOLETA


No jardim que parece um abismo
A borboleta chama a atenção:
Interessa o seu voo recortado,
Suas cores brilhantes
E os círculos negros que decoram as pontas das asas.

Interessa a forma do abdómen.

Quando passeia no ar
Iluminada por um raio verde
Como quando descansa do efeito
Que lhe causam o orvalho e o pólen
Unida ao anverso da flor
Não a perco de vista,
E se desaparece
Para lá do gradeamento do jardim
Porque o jardim é pequeno
Ou por excesso de velocidade
Sigo-a mentalmente
Por alguns segundos
Até que recupero a razão.


Nicanor Parra, de Versos de Salón (1962)
Versão de HMBF

terça-feira, 22 de junho de 2010

TRÊS POESIAS

1
Já não me resta nada para dizer.
Tudo o que tinha que dizer
Foi dito não sei quantas vezes.

2
Perguntei não sei quantas vezes mas
Ninguém responde às minhas perguntas.
É absolutamente necessário
Que o abismo finalmente responda
Porque já vai restando pouco tempo.


3
Apenas uma coisa é clara:
Que a carne se enche de vermes.



Nicanor Parra, de Versos de Salón (1962)
Versão de HMBF

PERGUNTAS DIFÍCEIS

Ó mãe, o que quer dizer cona da mãe?
Matilde, 7 anos, depois de ouvir a Catarina a ler Nuno Bragança.

domingo, 20 de junho de 2010

SULSCRITO #3


Sulsscrito - Revista de Literatura
N.º 3, Junho de 2010
Direcção de Fernando Esteves Pinto
4águas editora, Tavira

Pai e Mãe, p. 63; À Partida, p. 65.

DISCURSO FÚNEBRE



É um erro acreditar que as estrelas
Podem servir para curar o cancro.
O astrólogo diz a verdade
Mas equivoca-se a este respeito.
Médico, o caixão cura tudo.

Acaba de morrer um cavalheiro
E pediu-se ao seu melhor amigo
Que pronunciasse as últimas palavras,
Mas eu não quisera blasfemar,
Apenas quisera fazer umas perguntas.

A primeira pergunta da noite
Refere-se à vida depois da morte:
Quero saber se há vida depois da morte
Nada mais que se há vida depois da morte.

Não quero perder-me neste bosque.
Vou sentar-me nesta cadeira negra
Próxima do catafalco do meu pai
Até que me resolvam o meu problema.
Tem de estar alguém em segredo!

Como não o saberão o marmorista
Ou aquele que muda a camisa ao morto?
O que constrói o vão sabe mais?
Que cada qual me diga o que sabe,
Todos estes trabalham com a morte.
Estes devem tirar-me da dúvida!

Coveiro, diz-me a verdade,
Como não vai existir um tribunal,
Ou os próprios vermes são os juízes?
Tumbas que pareceis botequins,
Respondei-me ou arranco os cabelos
Porque já não tenho mão nos meus actos,
Só quero rir e soluçar.

Os nossos antepassados foram destros
Na confecção da morte:
Disfarçavam o morto de fantasma,
Como que para afastá-lo ainda mais,
Como se a distância da morte
Não fosse por si só já incomensurável.

Há uma grande comédia funerária.

Diz-se que o cadáver é sagrado.
Mas todos se livram dos mortos.
Com que objectivo os põem em fileiras
Como se fossem latas de sardinhas?

Diz-se que o cadáver deixou
Um vazio difícil de preencher
E compõem-se versos em sua honra.
Falso, porque a viúva não respeita
Nem o caixão nem o leito do defunto!

Um professor acaba de morrer.
Por que se despedem os amigos?
Para que por acaso ressuscite?
Para elucidarem seus dotes oratórios!
E por que se arrancam os cabelos?
Para estirar os dedos da mão!

Em suma, senhoras e senhores,
Só eu me compadeço dos mortos.

Esqueço-me da arte e da ciência
Ao visitar as suas miseráveis choças.

Só eu, com a ponta do meu lápis,
Faço sonhar o mármore das tumbas.

Ponho as caveiras no seu sítio.

Os pequenos ratos sorriem-me
Porque sou o amigo dos mortos.

Estou velho, não sei o que se passa comigo.
Por que sonho pregado a uma cruz?
Caíram os panos derradeiros.
Passo a mão pela nuca
E vou cavaquear com os espíritos.


Nicanor Parra, de Versos de Salón (1962)
Versão de HMBF

sábado, 19 de junho de 2010

MULHERES



A mulher impossível,
A mulher de dois metros de estatura,
A senhora de mármore de Carrara
Que não fuma nem bebe,
A mulher que não quer despir-se
Por temer ficar grávida,
A intocável vestal
Que não quer ser mãe de família,
A mulher que respira pela boca,
A mulher que caminha
Virgem até à câmara nupcial
Mas que reage como um homem,
A que se desnudou por simpatia
Porque adora música clássica,
A pele vermelha que caiu,
A que só se entrega por amor,
A donzela que olha com um olho,
A que só se deixa possuir
No divã, à beira do abismo,
A que odeia os órgãos sexuais,
A que só se une com o seu cão,
A mulher adormecida
(O marido alumia-a com um fósforo),
A mulher que se entrega porque sim
Porque a solidão, porque o olvido…
A que chegou donzela à velhice,
A professora míope,
A secretária de óculos escuros,
A menina pálida de lentes
(Ela não quer nada com o falo),
Todas estas walkirias,
Todas estas matronas respeitáveis
Com seus lábios maiores e menores
Acabarão por tirar-me do sério.


Nicanor Parra, de Versos de Salón (1962)
Versão de HMBF

sexta-feira, 18 de junho de 2010

UM MESTRE

Por volta das 10:30, já em pleno local de trabalho, respondia ao Changuito sobre um encomenda de livros importados que lhe fiz. Lá ia o desabafo: «atrás do balcão, a arrumar lixo lixo e mais lixo». Pouco depois, caiu a notícia no e-mail. Morreu o escritor José Saramago. Seguiam-se algumas palavras de consternação e a indicação de regra em situações similares: pede-se que dêem especial destaque aos livros do autor. A quem está de fora pode parecer mero oportunismo comercial, mas a quem está por dentro é como se uma lufada de ar fresco tivesse entrado pela livraria. Pelo menos, vamos poder destacar como deve ser um grande autor, um dos maiores. A quantidade de lixo que chega todos os dias não permite que haja espaço para destaques destes. Só quando o rei faz anos, ou seja, quando o escritor morre. Ter de o arranjar, o espaço, varrendo para os becos alguma porcaria, é missão que alivia o desapontamento do “livreiro” empenhado. Eu hoje já ouvi muita coisa sobre José Saramago, também já li muita opinião e recordei variadíssimas citações dos seus livros. De tudo, vou guardar para memórias futuras o prazer com que pude destacar os seus livros. A biografia do autor está disponível, pelo que não perderei tempo com ela. Limito-me a sublinhar alguns dados deveras relevantes: as origens humildes (nascido em Azinhaga, no seio de uma família com nome que as famílias de nome tiveram que aprender a pronunciar); uma vida de trabalho, de serralheiro a jornalista, de jornalista a escritor, sem pôr pé nas fábricas de cérebros a que é costume dar-se o nome de Universidades; o “autodidactismo”, dos poucos ismos apreciáveis num país de doutores e engenheiros que, muitas vezes, mal sabem escrever o próprio nome; a perseverança, a que alguns chamam teimosia por não entenderem que teimosos são os burros quando mal montados; o ateísmo, outro ismo muito respeitável por quem não espera do céu senão bom tempo para se caminhar sobre a Terra; e, por fim, a capacidade de polemizar sem procurar impor, sem o ímpeto missionário daqueles que, incomodados com as ideias alheias, estão sempre à espera do momento da conversão que lhes possa tornar menos aflitiva a diversidade de pensamento. Convicto e firme, sim, mas sem que se lhe pudesse detectar um qualquer tique de superioridade. Uma lição. Neste sentido, estou em crer que José Saramago foi o mais filosófico dos escritores portugueses. Há nos seus romances uma tendência aforística que por vezes passa despercebida, porque nela há também todo um desenvolvimento reflexivo que, partindo de ideias simples, não se limita a descansar sobre o preconceito. De resto, as alegorias não são outra coisa senão o pretexto para desenvolver toda uma reflexão sobre o que nelas possas estar implícito. Daí que o autor alertasse para a relevância das epígrafes que abrem os seus romances. «Está lá tudo», dizia, naquelas citações retiradas de livros imaginários. Duvido que exista melhor forma de compor uma ficção. Foi isso que me fascinou quando, em 1992, li O Evangelho segundo Jesus Cristo. Entrei na obra de Saramago por essa porta monumental. À época, acabado de aportar nas salas da Católica, em Lisboa, discutia-se muito aquele romance. Vi doutores salivando de raiva pelos cantos da boca por causa do livro, vi parte substancial de uma Assembleia da República aplaudir considerações inquisitórias sobre o romance (o nosso actual PR era então PM, uma desgraça de PM que os portugueses, sempre atentos, resolveram prendar pelo bem que fez à nação). Está hoje à vista de todos a completa ausência de bom senso dos energúmenos. E eram tantos. E foram tantos. E são tantos. Porque há sempre muitos dispostos a aplaudirem outros tantos. José Saramago, o escritor, nunca há-de ser consensual. É assim com os grandes. José Saramago, o homem, converge com o escritor. É assim com os grandes. À obra da juventude, peço as últimas palavras:

«Vive-se sempre de menos… A Natureza é pródiga, excessiva, para o que não pode ser destruído. Para nós é duma avareza mesquinha, que faz pagar bem caras as poucas migalhas que nos atira com desdenhosa complacência! Apesar de tudo, nós continuamos, e ainda há-de ver-se quem é que ganha a batalha…»

José Saramago, in Terra do Pecado, 3.ª edição, Caminho, p. 186. A 1.ª edição data de 1947 e, publicada pela Minerva, foi o primeiro livro do autor.

JOSÉ SARAMAGO (1922-2010)


Conheci Saramago em Maputo em 1999. Inteligência brilhante, perspicácia cultural e política supra-apurada: nessa altura logo percebeu onde e como estava, tão ao contrário de tantos outros literatos que chegavam naquele “comboio descendente”. Não li Saramago, pelo que não tem sentido escrever um post sobre a sua morte. Escreveu, desassossegou, construiu mundos ficcionais & escrita da terra, tomou posições políticas assumidas (qualidade de homem livre), deixou-nos coisas luminosas e boas. obrigada pelas gargalhadas que provocaste ao meu Pai durante a leitura d'O Memorial do Convento. Surpreendeu-me a surpresa que me causou a notícia. Era esperada. E agora um pequeno desabafo: se há coisa que me irrita é ouvir alguém dizer: não gosto de ler Saramago... ele não sabe pontuar. O que entendem estas pessoas por pontuação? Rumores de que escrevia sem acentos e sem vírgulas e a texto corrido são completamente falsos, só quem não o lê é que pensa assim. O Ano da Morte de Ricardo Reis continua a ocupar um lugar mágico na minha memória. Desde 1976 que vivia exclusivamente do seu trabalho literário. Fixou-se definitivamente na ilha de Lanzarote, arquipélago das Canárias, em 1993. O meu livro favorito dele é o Levantado do Chão. Pela geografia, está ali um Alentejo que não vivi, mas que ficou a viver em mim. A sensação que tenho, com a morte de José Saramago, é que ele (e também Agustina) foi o último dos grandes -- não no sentido da qualidade literária, porque, felizmente, enquanto houver Literatura haverá sempre quem faça uso das palavras para acrescentar mundos ao mundo; mas no da aproximação simbólica ao escritor demiurgo, maitre à penser ou não, alguém doutro patamar, transportando consigo a aura dos que sentem mais fundo e mais longe. Deus chamou-o para autografar O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Romancista, poeta e dramaturgo, autodidacta, José Saramago, segundo consta na sua biografia, apenas concluiu estudos secundários, dadas as dificuldades económicas familiares. Foi jornalista e militante do partido comunista, tendo sido também serralheiro e tradutor. O escritor português e Prémio Nobel da Literatura em 1998 José Saramago morreu hoje aos 87 anos em Lanzarote. O autor português encontrava-se doente mas em estado «estacionário», mas a situação agravou-se, explicou o seu editor, Zeferino Coelho. Como não vou poder actualizar o blogue nas próximas horas, justamente por causa desta infeliz notícia, assinalo para já o meu desgosto e a minha tristeza pela perda de um grande, de um imenso escritor. A última década e meia trouxe-lhe o reconhecimento internacional. Oriundo do proletariado, conseguiu impor a obra à revelia da tutela universitária. A História não diz a verdade. A Literatura, sim. Saramago renovou a antiga arte de contar histórias e, sendo dotado de uma imaginação prodigiosa, não a usou para fugir a este mundo, mas para denunciar a estreiteza do real e a possibilidade de outros mundos. Fez o que queria. Ignorou os ignorantes. Saramago é um escritor que se conquistou a si mesmo, que encontrou a sua maneira em pleno percurso. Que fez o seu caminho, caminhando. "Él decía que en el epitafio había que ponerle: aquí yace José Saramago en discordia". Era um homem de fibra, dos antigos. Mr. Saramago loved to tell a story of how he came by his surname. His real family name was de Sousa. But when, as a 7-year-old boy, he showed up for his first day of school and presented his birth certificate, it was discovered that the clerk in his home village had registered him as José Saramago. “Saramago,” which means “wild radish,” a green that country people were obliged to eat in hard times, was the insulting nickname by which the novelist’s father was known. O seu livro mais importante para mim foi «Levantado do Chão». Escrito para homenagear José Adelino dos Santos e Germano Vidigal, dois militantes do PCP assassinados pela PIDE na GNR de Montemor-o-Novo, o livro nasceu em casa de João Basuga onde José Saramago viveu perto de 6 meses, ouvindo com atenção e tomando notas das histórias das gentes do Lavre. Menino da Penha de França (Rua Carlos Ribeiro), filho de um subchefe da PSP e de uma doméstica, agradeceu as histórias contadas na dedicatória com os 16 nomes dos homens e mulheres do Lavre. Nunca imaginei a morte deste senhor. Agora que morreu - ouvi há pouco na rádio - tenho apenas duas certezas: homens destes já não se fazem e vão definhando um a um. O elefante fez a última viagem para se encontrar com a morte de Ricardo Reis. O “interesse jornalístico” canibaliza a memória do homem, do comunista, a sua dimensão ética, humana e política. Morreu abraçado às palavras. Deviam ser umas 3 horas quando me apercebi de que José Saramago estava no pavilhão da Caminho para dar autógrafos. E sem ninguém a fazer fila, o que para mim foi surpreendente - nunca tinha pedido um autógrafo a Saramago, exactamente por causa das filas...a verdade é que a ausência do Chefe de Estado enquanto tal, acarretando a de Cavaco Silva enquanto sua expressão acidental particularmente ridícula, só pode honrar um "homem de convicções e literatura" como José Saramago... As vuvuzelas não tardarão a silenciar-se. Uma vida, como sempre, reduzida a cinzas. A erisipela deixará de afligir os de olhar torvo. Blimunda, no entanto, permanece, e o espírito do morto será lido pelos vivos. O José Saramago era o meu preferido dos escritores vivos. Agora o José Saramago é um dos meus preferidos dos escritores imortais. Morre Saramago e, como sempre que morre alguém incómodo, o baixo-nível das figuras do regime vem ao de cima. Fui apanhado (fomos todos) completamente de surpresa. Ainda me custa a acreditar. Não se tem de gostar do homem para se gostar dos livros. Ou vice-versa. Talvez até a maioria dos bons escritores não seja flor que se cheire. É possível. Hoje os jornais noticiam que Cavaco e Jaime Gama não irão ao seu funeral. Fazem mal. Porque Cavaco e Gama não são o senhor Silva e aquela viscosidade que encima o parlamento. São, como dizem os reclamantes indignados, pessoas a quem pagamos para isto. Um escritor aprende também muito nascendo e vivendo num país onde as elites são medíocres e mesquinhas, e cujas imaginações não aceitam que pode ter nascido um génio na Azinhaga, Ribatejo. Nem os estudos secundários os completou o Nobel da língua portuguesa. Não foi pois o sistema formal do ensino que lhe suscitou a gramática e a criatividade artística. José Saramago, Prémio Nobel, é uma obra exclusivamente sua.

Nota: isto é apenas um pequeno apanhado de citações que fui respigando em weblogs que acompanho diariamente. Se clicar nas citações será encaminhado para as fontes.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

HOMEM AO MAR


Já não estou em minha casa.
Ando por Valparaíso.

Há muito que estava
A escrever poemas espantosos
E a preparar aulas espantosas.
Terminou a comédia:
Dentro de alguns minutos
Parto de bicicleta para Chillán.

Não fico nem mais um dia aqui.
Estou só à espera
Que me sequem um pouco as penas.

Se perguntarem por mim
Digam que ando pelo sul
E que não regressarei até ao mês que vem.

Digam que fui atacado pela varíola.

Atendam o telefone.
Que não ouvem o ruído do telefone?
Esse ruído maldito do telefone
Vai acabar por me enlouquecer!

Se perguntarem por mim
Podem dizer que me levaram preso.
Digam que fui a Chillán
Visitar a campa do meu pai.
Não trabalho nem mais um minuto.
Já chega o que fiz.
Que não chega tudo o que fiz?
Que diabo! Até quando
Querem que continue a fazer o ridículo?

Juro nunca mais escrever um verso.
Juro não mais resolver equações.
Acabou-se para sempre a coisa.

Bilhetes para Chillán!
Vou percorrer os lugares sagrados!


Nicanor Parra, de Versos de Salón (1962)
Versão de HMBF

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O GALÃ IMPERFEITO

Um casal de recém-casados
Pára diante de uma tumba.
Ela veste um branco rigoroso.

Para ver sem ser visto
Escondo-me atrás de uma coluna.

Enquanto a triste noiva
Limpa a tumba do seu pai
O galã imperfeito
Entretém-se a ler uma revista.



Nicanor Parra, de Versos de Salón (1962)
Versão de HMBF

terça-feira, 15 de junho de 2010

ADVERTÊNCIA


Eu não permito que alguém me diga
Que não compreende os antipoemas.
Devem todos rir às gargalhadas.

Para isso dou cabo da cabeça,
Para chegar à alma do leitor.

Deixem-se de perguntas.
No leito da morte
Cada qual coça-se com as suas unhas.

E mais uma coisa:
Não tenho nenhum inconveniente
Em meter-me onde não sou chamado.


Nicanor Parra, de Versos de Salón (1962)
Versão de HMBF

segunda-feira, 14 de junho de 2010

A MONTANHA RUSSA

Durante meio século
A poesia foi
O paraíso do tonto solene.
Até que cheguei eu
E instalei-me com a minha montanha russa.

Subam, se o desejarem.
Claro que não me responsabilizo se descerem
Deitando sangue pela boca e pelas narinas.



Nicanor Parra, de Versos de Salón (1962)
Versão de HMBF

domingo, 13 de junho de 2010

THE WORLD'S SHORTEST STORIES

Há dois anos, a Ana trouxe-me este livro de Nova Iorque: The World’s Shortest Stories (Running Press, 1998). Trata-se da primeira de duas antologias organizadas por Steve Moss (1948 – 2005), ex-editor do New Times que, em 1987, lançou na Califórnia um concurso de Fifty-Five Fiction, ou seja, estórias que não ultrapassassem as 55 palavras. É óbvio que num objecto deste tipo a qualidade é sempre inconstante, mas o resultado, organizado em 5 campos de acção ─ policial, romance, realismo, ficção científica e fantástico (designações pessoais para títulos bem menos fechados) ─, apresenta-se assaz agradável. Como dificilmente poderia deixar de ser, a maioria das estórias não escapa à ditadura do anedótico. Mas isso não é necessariamente mau quando falamos de pequenas estórias ou de “Flash Fiction”. O anedótico, neste caso, resulta de uma quase que inevitável dependência do humor para que seja conferida à brevidade da narrativa alguma profundidade. Repare-se que não reduzo o anedótico ao fútil, ao superficial, à brejeirice inconsequente e gratuita. Prefiro antes elevar o termo à condição de toda e qualquer experiência narrativa que possa ter no uso da ironia o seu jogo predilecto. É um jogo perigoso, de regras difusas, para o qual existirão poucos parceiros capazes de dar luta. No entanto, parece-me aceitável a ideia de que, muitas vezes, uma pretensa espessura de pensamento no campo da narrativa resvala com facilidade para uma comicidade trágica. Afinal, nada há de mais anedótico que os dramas humanos. Contá-los chorando baba e ranho ou rindo às gargalhadas é apenas um pormenor de estilo pessoal. Daí que a diversidade de tons seja acompanhada por uma extraordinária heterogeneidade formal, o que não deixa de ser surpreendente para quem esteja obrigado a contar uma estória em apenas 55 palavras. Da narrativa mais convencional aos diálogos de tipo dramático, há de tudo um pouco. Repare-se, por exemplo, neste substantivo encontro a dois da autoria de Dick Skeen (versão minha):

PELA NOITE DENTRO

Olhar, sorriso, dentes, lábios, voz, sensual, carro, sentir, apartamento, sofá, música, dança, luzes, bebida, húmido, seco, suave, firme, rápido, lento, fácil, difícil, perna, joelho, coxa, ombros, peito, dedos, macio, áspero, hálito, sala, quarto, banheiro, cozinha, cave, cama, almofada, lençóis, duche, cigarro, café, meias, soutien, vestido, blusa, nu, ruído, porta, marido, luta, matança, roupas, janela.

Gosto deste tipo de exercícios. Entre outras, têm a vantagem de desmistificar a escrita e desinchar o autor. Percebo que entrem em conflito com aqueles que, advogando a necessidade de retirar o escritor do alto pedestal da importância, teimam, paradoxalmente, em falar de literatura como se esta não proviesse dos mesmos rasos artifícios do ser humano. O mundo das letras é uma selva de paradoxos. Ao ler a historieta de Glen Starkey, escrita com 55 palavras começadas pela letra W, lembrei-me precisamente disto. Apesar de todas aquelas palavras terem significados diferentes, começam pela mesmíssima letra. Um mesmo começo para variadíssimos sentidos. Assim o acto de escrever, mais ainda o de contar uma história. Assim a vida, mais ainda o vivê-la.

MUDANÇAS DE NOME

Aos amantes das belas letras
Faço chegar os meus melhores desejos,
Vou mudar o nome de algumas coisas.

A minha posição é esta:
O poeta não cumpre a sua palavra
Se não muda o nome das coisas.

Por que razão há-de o sol
Continuar a chamar-se sol?
Peço que se lhe chame Micifuz
O das botas de quarenta léguas!

Os meus sapatos parecem caixões?
Saibam que de hoje em diante
Os sapatos chamam-se caixões.
Comunique-se, anote-se e publique-se
Que os sapatos mudaram de nome:
A partir de agora chamam-se caixões.

Bom, a noite é larga,
Todo o poeta que se estime a si mesmo
Deve ter o seu próprio dicionário.
E antes que me esqueça
Ao próprio deus há que mudar o nome.
Que cada qual o chame como quiser:
Esse é um problema pessoal.


Nicanor Parra, de Versos de Salón (1962)
Versão de HMBF (também na Di Versos n.º12, embora com ligeiras alterações)

quinta-feira, 10 de junho de 2010

DIA DA RAÇA

Camarada Van Zeller, se há doença que nunca se me pegou foi a desse sentimento pátrio que afecta tantos dos meus compatriotas. Assim que me lembre, só uma vez me arrepiei a ouvir o hino nacional (que por acaso é bem ranhoso, já Alçada Baptista o dizia em modos mais diplomáticos): foi quando o ouvi cantado pela selecção nacional de Rugby (que por acaso é um desporto bem pateta). Já escrevi muito sobre Portugal, pelo que me dispenso de voltar a dizer porque me agrada o clima, a gastronomia, a geografia, a cena marítima, a costa (que por acaso tem vindo a ser, ao longo dos tempos, destruída pela incúria e irresponsabilidade dos políticos e dos interesses imobiliários, etc. e tal). Se tivermos em conta a dimensão do país, podemos afirmar com segurança o valor mais que evidente da nossa cultura (artística, científica, literária…). Na filosofia, fomos sempre a modos que cãezinhos domésticos. Vivemos na sombra dos alemães e dos franceses. Não nos podemos gabar da existência de um grande filósofo português, mesmo que possamos sublinhar o contributo de muitos deles para o pensamento da nossa identidade. Temos grandes poetas, lá isso temos. Temos dos maiores poetas que alguma vez existiram neste mundo. E o melhor que temos é a raiz multicultural onde se fundamenta tudo o que somos. De norte a sul, é impressionante a variedade de sons, de tons, de sabores, de trajes que caracterizam um país minorca como Portugal. É mesmo impressionante, porra. Basta escutarmos com atenção o nosso folclore ou saborearmos com paciência a nossa gastronomia. Ora aí tem, camarada Van Zeller, dois elementos do património cultural português que nos devem merecer toda e mais alguma atenção: o folclore e a gastronomia. Não sou apreciador de fado, mas consigo extasiar-me com uma guitarra portuguesa bem tocada. Enfim, somos um país catita. O que lixa tudo, o que sempre lixou tudo, é o povo, é a raça deste povo, na medida em que a entendermos como consequência da vontade das elites. Eu sei que esta ideia é polémica, camarada, mas que se lixe. E que se lixe você também, que tem estado sempre ao lado dos que mais lixam isto tudo. Limito-me a dizer o que penso sem pensar no que digo, camarada. Não me leve a mal o desabafo. Ainda temos um povo deveras inculto, inculto não no sentido vulgarmente empregue de cultura, mas no sentido mais básico, ou seja, naquele sentido em que a cultura é o garante da mais elementar civilidade. Um povo de doutores e engenheiros que não sabem escrever uma porcaria de uma reclamação com princípio, meio e fim. Somos um povo de gente mal-educada (detesto a expressão, mas não me lembro de outra que se aplique melhor ao povo que temos). Por outro lado, somos demasiado bem-educados quando toca a lamber as botas do poder. Isto nota-se, verifica-se, prova-se, sente-se no dia-a-dia, na vida quotidiana, nas ruas. E se demos passos importantes ao nível das liberdades e de uma mentalidade menos tacanha, esses passos foram sempre sombreados por um desinvestimento gritante na educação. Tem sido assim, pelo menos, desde os tempos do cavaquistão (a maior desgraça que aconteceu a este país nos tempos da democracia foi o cavaquistão). Curiosamente, um dos grandes responsáveis por aquilo que somos, por aquilo em que nos tornámos nos tempos da democracia, é nem mais nem menos do que o nosso Presidente da República actualmente. Que mais pode ser dito acerca da qualidade dos portugueses? Um primeiro-ministro ignóbil que voltou ao poleiro com a complacência do povo, o mesmo povo que aguentou 50 anos de ditadura metafascista, esse mesmo povo para quem o poder político se tem estado sempre a borrifar. O PEC e a balela das medidas de austeridade e os pedidos de sacrifício aí estão a prová-lo. Os pintos que paguem a crise, que lá do alto do poleiro as galinhas e os galos continuarão a cagar-se para eles.

MULHER AO MAR

Após um interregno de vários anos, sempre mais que os desejáveis, a Mariposa Azual regressou à actividade editorial com livros novos de Paulo Condessa, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Miguel-Manso (uma reedição) e, entre outros, este Mulher ao Mar (Abril de 2010). O nome de Margarida Vale de Gato será certamente mais familiar aos leitores de poesia pelas traduções dos Poemas de Oscar Wilde (Relógio D’Água), da Obra Poética Completa de Edgar Allan Poe (Tinta-da-China), d’As Aventuras de Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho (Relógio D’Água), de Lewis Carroll, ou de um excelente livro, com o qual, aliás, a poesia de Margarida Vale de Gato mantém algumas afinidades, como o é Satanás Diz (Antígona), de Sharon Olds. No entanto, os menos distraídos, entre os quais, se me dão licença, me faço incluir, não terão sido completamente surpreendidos com a edição do primeiro volume de poemas da autora.

Poemas como Mulher ao Mar, Intercidades, Do consumo do desejo, Aniversário ou Émulos, já haviam sido anteriormente editados em revistas, antologias ou publicações colectivas. Destaco uma publicação de 1995, simplesmente intitulada Dez, onde se reuniram autores que tinham «dado os primeiros passos literários no DN Jovem, suplemento do Diário de Notícias. Entre eles, encontramos nomes como os de José Mário Silva, Pedro Mexia ou Joaquim Cardoso Dias. Não cometerei nenhuma inconfidência se chamar igualmente a atenção do leitor para os poemas que foram sendo publicados no weblog «d'ama», muitos deles agora transportados das páginas digitais para o papel. Pelo que foi dito, fica claro que Mulher ao Mar é uma compilação de poemas que foram sendo paridos em circunstâncias e tempos diversos.

Que os soldados da uniformidade não façam má cara a tais factos. Na heterogeneidade pode haver muita homogeneidade, e se há coisa que une os poemas deste livro é, precisamente, uma linguagem apurada pelo tempo (outros chamar-lhe-ão maturidade). Torna-se inclusivamente curiosa a constatação de que o hiato temporal que separa um poema como Intercidades (inicialmente publicado em Dez, 1995) e Mulher ao Mar (que li, pela primeira vez, no n.º1 da revista Sulscrito, editado no Verão de 2007) não cria entre os dois textos um qualquer conflito, digamos assim, estilístico. E se há marca que pode, de facto, distanciar esta poesia de outras que têm vindo a lume é o esforço e a disciplina que os poemas fazem transparecer ao nível da sua construção sintáctica.

A experimentação exercida sobre formas poéticas mais clássicas, aliada a uma linguagem que nos transporta, por vezes, para tempos antigos, muito por culpa de jogos rítmicos que vão buscar aos vocábulos dimensões fonéticas perdidas, pode criar no leitor mais arreigado ao prosaísmo reinante um certo desconforto. Note-se, a título de exemplo, como no excelente soneto intitulado Cat People modernidade e um certo maneirismo classicista se equilibram sem mácula: «Curiosa a tribo que formamos, sós / que somos sempre e à noite pardos, / fuzis os olhos, garras como dardos, / mostrando o nosso assanho mais feroz: // quando me ataca o cio eu toda ardo, e pelos becos faço eco, a voz / esforço, estico e, como outras de nós, / de susto dobro e fico um leopardo // ou ando nas piscinas a rondar ─ / e perco o pé com ganas sufocantes / de regressar ao sítio que deixei // julgando ser mais fundo do que antes. / A isto assiste a morte, sem contar / as vidas que levei ou já gastei» (p. 10).

Se de um ponto de vista formal a convencionalidade surge enfraquecida pela experimentação, do ponto de vista temático há como que dois pilares fundamentais sobre os quais se erguem os poemas deste livro: a chamada condição feminina e uma lírica amorosa sem redes de abstrusa sentimentalidade. Repetindo-se por diversas vezes o substantivo amor ou o verbo amar, o que fica, no final, é a sensação de uma espécie de sacrifício da própria lírica amorosa, esgotada sob o credo das relações falhadas, desfeitas, encaradas agora com uma ironia distante ou recordadas com um erotismo cuja sensualidade reside mais na força com que se «manda às urtigas» a ilusão e o encantamento das relações do que noutra coisa qualquer.

É verdade que, a espaços, uma certa nostalgia parece intrometer-se nos versos, nomeadamente a nostalgia da presença, mas o que resulta evidente é a catástrofe da Vida em Comum: «dias úteis cercados / por relógios, fadiga, esquecimento» (p. 24). Não admira, pois, que Emily Dickinson, Christina Rossetti, Sylvia Plath, Virginia Woolf, Frida Kahlo, Anna Karenina sejam chamadas à liça, sem dó nem piedade. No entanto, enquanto lia este livro, foi a poesia de Sharon Olds que mais me veio à memória, não tanto pela sexualidade explícita que escapa aos poemas de Mulher ao Mar, mas mais pelo sentimento de deriva e de naufrágio que o título de Margarida Vale de Gato indicia e a poesia de Olds resolve com extrema violência. Poemas como Ressabiadas, Talvez a injecção letal ou até o mais feminino de todos estes poemas, Do teu Nascimento ─ mais feminino porque seria impossível a um homem escrevê-lo ─, remeteram-me para essa «guerra de arco em riste» (p. 49) que ainda continua a ser a das mulheres à entrada deste século XXI.

Escrito para o Rascunho.

terça-feira, 8 de junho de 2010

ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA (1923-2010)

fotografia respigada aqui


A MORTE EM MIM


À memória de Rodrigo Emílio


Perguntas quem me morreu?
Fui eu.

Eu morro de cada vez
Que me avisa o coração
Que morreu um poeta português
E eu não.

Mas ressuscito se escuto
A voz em que se exprimia,
Pois nunca visto com a dor do luto
A poesia.


(29.3.2004)


António Manuel Couto Viana, in Restos de Quase Nada e Outras Poesias, Averno, Janeiro de 2006, p. 48.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

FONTE

Os poemas de Nicanor Parra aos quais venho pedindo as versões que vou deixando por aqui, foram lidos na antologia Páginas en Blanco (Universidad de Salamanca, Outubro de 2001). A selecção e edição dessa antologia são da responsabilidade de Niall Binns. Os primeiros catorze, à excepção deste e deste, fazem parte do conjunto geralmente tomado como sendo o primeiro livro de Nicanor: Poemas y antipoemas (1954, Nascimento, Santiago de Chile, 1954). Na verdade, Cancionero sin nombre (1937) marcou a estreia do poeta em livro. Distinguido com o Premio Municipal de Poesia, esse volume foi posteriormente classificado pelo próprio autor como uma obra de juventude. Outro conjunto, intitulado Ejercicios retoricos (1943), não mereceu melhor destino. Entre estas primeiras experiências e a edição de Poemas y antipoemas, Nicanor Parra viveu nos EUA (1943-45), viajou a Inglaterra, assimilou muito da cultura poética anglo-saxónica. M.ª Ángeles Pérez López chama a atenção para os traços essenciais de uma poesia que começou a relevar-se no livro de 1954: a tensão indissolúvel entre poema e antipoema, o absurdo e o humor negro como elementos centrais do antipoema (herança surrealista), uma extraordinária carga crítica, uma certa misantropia (contaminada pela auto-ironia) e uma forte componente iconoclasta. Vale a pena citar:

«Por otra parte, pueden ya advertirse algunas de las características de la antipoesía: la ironia, la parodia, el prosaísmo, la narratividad y una importante aproximación al lenguaje coloquial o conversacional. De esta forma, Parra apunta ya lo que será una de las características centrales de la poesia hispanoamericana de los 60, la conocida como «coloquial o conversacional», que confluye con algunos elementos antipoéticos, como también, aunque desde distinto flanco, con la aproximación a la oralidad que asume Neruda en sus primeras Odas elementales (1954). Siguiendo el estúdio de Carmen Alemany, la antipoesía comparte com la poesía coloquial, en término acuñado por el poeta cubano Roberto Fernández Retamar, varias características: ruptura del hermetismo, desmitificación de la figura del poeta, presencia de contextos inhabituales para la poesía, uso del humor, desarrollo de la vertiente metapoética y atención a la relación con el lector.»

HÁ PESSOAS IGUAIS


Joan Brossa, in Poemes Visuals, Edicions 62 - Empúries, Barcelona, 2001 (1ª edição: 1975).

domingo, 6 de junho de 2010

SOLILÓQUIO DO INDIVÍDUO



Eu sou o Indivíduo.
Primeiro vivi numa rocha
(Aí gravei algumas figuras).
Logo busquei um lugar mais apropriado.
Eu sou o Indivíduo.
Primeiro tive que procurar alimentos,
Buscar peixes, pássaros, buscar lenha
(Preocupar-me-ia depois com os outros assuntos).
Fazer uma fogueira,
Lenha, lenha, aonde encontrar um pouco de lenha,
Muita lenha para fazer uma fogueira.
Eu sou o Indivíduo.
Ao mesmo tempo que me perguntava,
Fui a um abismo cheio de ar;
Respondeu-me uma voz:
Eu sou o Indivíduo.
Tratei então de mudar-me para outra rocha,
Onde também gravei figuras,
Gravei um rio, búfalos,
Gravei uma serpente,
Eu sou o Indivíduo.
Mas não. Aborreci-me das coisas que fazia,
O fogo enfadava-me,
Queria ver mais,
Eu sou o Indivíduo.
Desci a um vale regado por um rio,
Ali encontrei o que necessitava,
Encontrei um povo selvagem,
Uma tribo,
Eu sou o Indivíduo.
Vi que ali se faziam algumas coisas,
Gravavam figuras nas rochas,
Faziam fogo, também faziam fogo!,
Eu sou o Indivíduo.
Perguntaram-me de onde vinha eu.
Respondi que sim, que não tinha planos determinados,
Respondi que não, que daí em diante.
Bem.
Peguei então num pedaço de pedra que encontrei num rio
E comecei a trabalhá-la,
Comecei a poli-la,
Dela fiz uma parte da minha própria vida.
Mas isto é demasiado extenso.
Cortei umas árvores para navegar,
Buscava peixes,
Buscava coisas diferentes
(Eu sou o Indivíduo).
Até que comecei a aborrecer-me novamente.
As tempestades aborrecem,
As trovoadas, os relâmpagos,
Eu sou o Indivíduo.
Bem. Pus-me a pensar um pouco,
Vinham-me perguntas estúpidas à cabeça,
Falsos problemas.
Comecei então a vaguear pelos bosques.
Cheguei a uma árvore e a outra árvore,
Cheguei a uma fonte,
A uma foça onde se viam alguns ratos:
Aqui estou eu, disse então,
Haveis visto uma tribo por aqui,
Um povo selvagem que faz fogo?
Deste modo, desloquei-me para Oeste
Acompanhado por outros seres,
Ou ainda mais só.
Para ver há que crer, diziam-me,
Eu sou o Indivíduo.
Via formas nas obscuridade,
Talvez nuvens,
Via talvez nuvens, via relâmpagos;
Sobre tudo isto tinham passado já vários dias,
Eu sentia-me morrer;
Inventei umas máquinas,
Construí relógios,
Armas, veículos,
Eu sou o Indivíduo.
Já só tinha tempo para enterrar os meus mortos,
Já só tinha tempo para semear,
Eu sou o Indivíduo.
Anos mais tarde concebi umas coisas,
Uns moldes,
Cruzei as fronteiras
E permaneci fixo numa espécie de nicho,
Num barco que navegou quarenta dias,
Quarenta noites,
Eu sou o Indivíduo.
Logo vieram umas secas,
Vieram umas guerras,
Tipos de cor entraram no vale,
Mas eu devia seguir em frente,
Devia produzir.
Produzi ciência, verdades imutáveis,
Produzi tânagras,
Dei à luz livros de mil páginas,
Inchou-se-me a cara,
Construí um fonógrafo,
A máquina de costura,
Começaram a aparecer os primeiros automóveis,
Eu sou o Indivíduo.
Alguém segregava planetas,
Segregava árvores!,
Mas eu segregava ferramentas,
Móveis, material de escritório,
Eu sou o Indivíduo.
Também se construíram cidades,
Rotas,
Instituições religiosas passaram de moda,
Buscavam ventura, buscavam felicidade,
Eu sou o Indivíduo.
Depois dediquei-me mais a viajar,
A praticar, a praticar idiomas,
Idiomas,
Eu sou o Indivíduo.
Olhei pela fechadura,
Sim, olhei, que digo eu, olhei,
Para tirar dúvidas olhei,
Detrás de umas cortinas,
Eu sou o Indivíduo.
Bem.
Talvez seja melhor voltar àquele vale,
Àquela rocha que me serviu de lar,
E começar a gravar de novo,
A gravar de trás para a frente
O mundo do avesso.
Mas não: a vida não tem sentido.


Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

THE HUMBLING

A convicção de que a vida é como uma tragédia grega leva os escritores a transformarem a realidade num drama ainda mais trágico do que as próprias tragédias gregas. Não admira, por isso, que quem lê muitos livros se deixe assaltar pelo mais pernicioso efeito da leitura: a depressão. A depressão é um estado que subjuga as vontades do corpo aos caprichos da mioleira, ou seja, uma espécie de ditadura do ânimo sobre todas as outras faculdades. Para alguém que atravessa os horrores da depressão, não há nada melhor que uma dor de dentes ou uma otite. São dores agudas que nos desviam dos desertos intelectuais e nos obrigam a descer à terra, ainda que por vezes possam essas dores virem a revelar-se fatais, naquele sentido de fatalidade em que a pior das soluções acaba por ser o menos insuportável dos atalhos. É o que se passa quando as pessoas resolvem pôr um termo à vida.

O caso de Simon Axler pode servir-nos de exemplo. Actor de sucesso na casa dos sessenta, vê a carreira desabar depois de se olhar ao espelho e não vislumbrar senão um homem falhado, um homem que passou a vida a viver a vida de outros homens, a representar deixas encenadas pelas exigências dos palcos onde foi ovacionado, admirado, aclamado. Mas entre os palcos dos teatros e os teatros da vida real há um fosso enorme. No caso de Simon, uma mulher com um filho toxicodependente de quem se divorciará era apenas e tão-só mais um elemento de desespero numa vida sem sentido. Acaba internado num hospital, longe dos holofotes da fama, frequentando várias formas de terapia, aprendendo com os outros pacientes que quando atingimos um certo estado de miséria e tudo fazemos para explicar aos outros o que se passa connosco, só podemos esperar dos outros uma absoluta incompreensão. Porque, afinal, o que se passa dentro de nós não só não tem explicação como é impossível de ser compreendido por quem não está dentro de nós para por nós viver aquilo pelo que estamos a passar.

Ainda que alguns encontros sejam possíveis, a solidão está longe de poder ser resolvida. E pior que nada acontecer, é fingir que nada está a acontecer. O que as pessoas dizem umas às outras em situações de desespero é quase sempre o que os desesperados não precisam de ouvir, isto é, que o seu desespero não tem razão de ser. Neste sentido, os livros de auto-ajuda são o que mais se aproxima de uma nova forma de tortura (noutro sentido, The Humbling também pode ser lido como um livro de auto-ajuda). Dizem-nos que somos uns pategos por nos sentirmos como estamos a sentir, visto não haver qualquer justificação para nos sentirmos assim. Basta ler umas tretas para que as nossas autoconfiança e auto-estima rebentem na escala da felicidade. Com Simon Axler, a ressurreição parece em marcha depois de se apaixonar pela filha de uns amigos, vinte e tal anos mais nova, lésbica em processo de experimentação hetero, com uma estimulante tendência para a depravação sexual.

Qualquer indivíduo minimamente familiarizado com a vida real, sabe de antemão que uma relação deste tipo só pode descambar em nova tragédia. De resto, é algo que parece perseguir aquele género de pessoas para quem a vida se confunde frequentemente com o acto de representar e as relações com os outros se resumem a contracenas mais ou menos ensaiadas pela instintiva capacidade que todos têm, uns mais apurada que outros, de projectar o futuro sobre os mapas do presente. Terrível é pois perceber que no momento em que Simon Axler estava, finalmente, a descarna-se do actor para ser homem, tudo venha novamente a descambar por causa das experimentações de Pegeen, a tal hetero-lésbica com quem Simon se revigorara para a vida. Se quisermos ser optimistas, diremos que entre os dois houve apenas um desajustamento temporal. Ela ainda estava na fase da representação, ele já se encontrava no estádio da presentação. O derradeiro papel de Simon Axler só podia ser, pois claro, aquele que ao longo da carreira foi encontrando nas mais diversas peças:


«Sitting there amid his books, he tried to remember plays in which there is a character who commits suicide. Hedda in Hedda Gabler, Julie in Miss Julie, Phaedra in Hippolytus, Jocasta in Oedipus the King, almost everyone in Antigone, Willy Loman in Death of a Salesman, Joe Keller in Ali My Sons, Don Parritt in The Iceman Cometh, Simon Stimson in Our Town, Ophelia in Hamlet, Othello in Othello, Cassius and Brutus in Julius Caesar; Goneril in King Lear; Antony, Cleopatra, Enobarbus, and Charmian in Antony and Cleopatra, the grandfather in Awake and Sing!, Ivanov in Ivanov, Konstantin in The Seagull. And this astonishing list was only of plays in which he had at one time performed. There were more, many more. What was remarkable was the frequency with which suicide enters into drama, as though it were a formula fundamental to the drama, not necessarily supported by the action as dictated by the workings of the genre itself. Deirdre in Deirdre of the Sorrows, Hedvig in The Wild Duck, Rebecca West in Rosmersholm, Christine and Orin in Mourning Becomes Electra, both Romeo and Juliet, Sophocles' Ajax. Suicide is a subject dramatists have been contemplating with awe since the fifth century B.C., beguiled by the human beings who are capable of generating emotions that can inspire this most extraordinary act. He should set himself the task of rereading these plays. Yes, everything gruesome must be squarely faced. Nobody should be able to say that did not think it through.»

Philip Roth, in The Humbling, Jonathan Cape - Random House, 2009, p. 38-39.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

A ARMADILHA


Naquele tempo eu suspeitava dos palcos demasiado misteriosos.
Como os doentes de estômago que evitam as comidas pesadas,
Preferia ficar em casa elucidando algumas questões
Relativas à reprodução das aranhas,
Com cujo objecto me recolhia no jardim
E não aparecia em público até altas horas da noite;
Ou também em mangas de camisa, em atitude desafiante,
Costumava lançar à lua iracundas observações,
Procurando evitar esses pensamentos impetuosos
Que se colam como tumores à alma humana.
Na solidão, possuía um domínio absoluto sobre mim mesmo,
Ia de um lado a outro com plena consciência dos meus actos
Ou estendia-me ao balcão da taberna
A sonhar, a idear processos, a levar a cabo pequenos problemas.
Aqueles eram os momentos em que punha em prática o meu célebre método onírico,
Que consiste em violentar-se a si mesmo e sonhar o que se deseja,
Em fomentar cenas preparadas de antemão com avisos do além.
Deste modo, conseguia obter informações preciosas
Relativas a uma série de dúvidas que afligem o ser:
Viagens ao estrangeiro, confusões eróticas, complexos religiosos.Mas todas as precauções eram poucas
Pois por razões difíceis de precisar
Eu começava a resvalar automaticamente por uma espécie de plano inclinado,
A minha alma perdia altura como um balão que se esvazia,
O instinto de conservação deixava de funcionar
E privado dos meus mais essenciais preconceitos
Caía fatalmente na armadilha do telefone
Que atrai como um abismo os objectos que o rodeiam
E com mãos trémulas marcava esse maldito número
Que ainda continuo a repetir de cor enquanto durmo.
De incerteza e de miséria eram aqueles segundos
Em que eu, como um esqueleto de pé diante dessa mesa do infernoCoberta por uma toalha amarela,
Esperava uma resposta do outro lado do mundo,
A outra metade do meu ser prisioneira numa cova.
Esses toques intermitentes do telefone
Produziam em mim o efeito das brocas dos dentistas,
Incrustavam-se-me à alma como agulhas lançadas do alto
Até que, chegado o momento fatal,
Começava a transpirar e a gaguejar febrilmente.
Parecida a um bife de novilho, a minha língua
Interpunha-se entre o meu ser e a minha interlocutora
Como essas cortinas negras que nos separam dos mortos.
Eu não desejava sustentar essas conversas demasiado íntimas
Que, não obstante, eu mesmo provocava de forma torpe
Com a minha voz agitada, carregada de electricidade.
Ouvir-me chamado pelo apelido
Nesse tom de familiaridade forçada
Produzia em mim uma náusea difusa,
Localizadas perturbações de angústia que eu procurava impedir
Através de um método rápido de perguntas e respostas
Criando nela um estado de efervescência pseudoerótica
Que à posteriori vinha a reflectir-se em mim mesmo
Sob a forma de incipientes erecções e de uma sensação de fracasso.Ria-me então à força toda caindo depois num estado de prostração mental.
Aquelas charlas absurdas prolongavam-se algumas horas
Até a dona da pensão aparecer atrás do biombo,
Interrompendo bruscamente aquele estúpido idílio,
Aquelas contorções de aspirante ao céu
E aquelas catástrofes tão deprimentes para o meu espírito
Que não terminavam por completo ao desligar o telefone
Já que, geralmente, ficávamos comprometidos
A vermo-nos no dia seguinte numa pastelaria
Ou à porta de uma igreja cujo nome não quero recordar.

Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

NOVAS TECNOLOGIAS

We were like two runaways. Then, starting around year five, she slowly drifted away into the computer, and I was left with no one to talk to except the cats.
Philip Roth, in The Humbling, Jonathan Cape - Random House, 2009, p. 50.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

SEGUNDO POEMA



Novamente manhã, nada que fazer, talvez comprar um piano ou fazer disparates.
Pelo menos limpar o quarto, para assegurar que como o meu pai sacudi a cinza & as beatas ao pé da cama no chão.
Mas primeiro limpar os óculos e beber a água para lavar a boca mal-cheirosa.
Uma pancada na porta, entra uma gata, atrás dela o elefante bebé do Zoo exigindo panquecas ─ não suporto mais estas alucinações.
Tempo para outro cigarro e depois deixo subir as cortinas, reparo então que o lixo faz um carreiro até ao caixote.
Não frigorífico por isso uma toranja seca.
Haverá alguma coisa simples que eu possa fazer pelo meu
quarto, talvez pintá-lo cor-de-rosa ou instalar um elevador do chão para a cama ou talvez tomar um banho na cama?
De que serve viver se não posso fazer paraíso no meu próprio quarto-país?
Porque esta gota de tempo nos meus olhos
como o sofrimento de uma estrela vermelha num cigarro
faz-me sentir que a vida trespassa mais depressa do que
tesouras.
Sei que se pudesse fazer a barba as pulgas à volta do meu rosto desapareceriam para sempre.
Os buracos nos meus sapatos são só temporários, eu sei.
O meu tapete está sujo, mas de quem é que não está?
Há sempre um momento na vida em que toda a gente tem que
fazer uma mija no lavadouro ─ aqui deixem-me pintar a janela de preto por um minuto.
Atirei um prato & parti-o por maldade ─ ou talvez só inocentemente o deixasse cair por acidente quando andava à volta da mesa.
Diante do espelho pareço um fantasma do Saara,
ou na cama pareço uma múmia chorosa oláando por ar,
ou à mesa sinto-me como Napoleão.
Mas agora a principal tarefa do dia ─ lavar a minha
roupa interior ─ abusada dois meses ─ que diriam disto as formigas?
Como posso eu lavar a minha roupa ─ porque eu, eu, eu seria uma mulher se o fizesse.
Não, antes engraxar as sandálias e quanto ao chão é mais criativo pintá-lo do que limpá-lo.
Quanto aos pratos pode ser pois estou a pensar em arranjar um emprego num restaurante.
A minha vida e o meu quarto são como duas pulgas enormes perseguindo-me à volta do globo.
Graças a deus tenho uma maneira inocente de olhar para a natureza.
Nasci para recordar uma canção sobre o amor ─ numa colina uma borboleta faz uma taça donde eu bebo, caminhando sobre uma ponte de flores.

Nov. 57, Paris


Peter Orlovsky‘A minha biografia nasceu em Julho de 1933. Cresci com os pés sujos e gargalhadas. Não aguento poeira e por isso meto o dedo no nariz. Chatices na escola: sempre a pensar sonhar tristes confusos problemas. Larguei o liceu a meio do último ano & desapareci a trabalhar num manicómio para velhos. Gosto de línguas de gato & já não me lembro de sonhos. Era bom que alguém me comprasse uma montanha com uma caverna. Deixei de falar. Quis ser agricultor e fui para o liceu por causa disso & estudei a valer, a valer, posso dizer-lhes, mesmo a valer, nem acreditam. Levantei pesos com tabuletas do trânsito. Aprendi a gostar de bacon queimado com a ajuda da minha mãe. Olho para os pés & preciso de indevidas nuvens paranóicas súbitas. Gosto de lavar o chão, de limpar vomitado de gato. Gosto de nadar debaixo de água. Quero a lua para me divertir. Comecei a gostar de ficar com o cérebro vazio, especialmente na banheira. Este verão, comecei a gostar de moscas no nariz & na cara. Exijo que se venda mijo na praça, ajudaria as pessoas a conhecerem-se melhor. I. Q. no liceu, 90, agora I. Q. especializado de milhares.’ (In Antologia da Novíssima Poesia Norte-Americana, selecção, tradução, prefácio e notas de Manuel de Seabra, Editorial Futura, 1973)



Nota: depois de ler a versão original do poema, confesso que não gostei da tradução de Manuel de Seabra. Resolvi fazer algumas reparações, tendo em conta, obviamente, o trabalho já feito. Que não me levem a mal o “despautério”. Infelizmente, é-me impossível reproduzir a mancha gráfica do poema original, pelo que resolvi entregar as quebras dos versos mais longos à ditadura das margens nesta página.

terça-feira, 1 de junho de 2010

RESSURREIÇÃO



Uma vez num parque de Nova Iorque
Uma pomba veio morrer a meus pés
Agonizou durante alguns segundos
E morreu
Mas o mais insólito
Foi que ressuscitou de imediato
Sem dar-me tempo para raciocinar
E começou a voar
Como se nunca tivesse estado morta
Ao longe soaram uns sinos
E eu fiquei a vê-la ziguezaguear
Entre as estátuas de mármore
& revolveram-se-me as tripas
& pus-me a cuspir este poema

Nicanor Parra, inédito incluído na antologia Páginas en Blanco (2001)
Versão de HMBF.

ESTRANHAS CRIATURAS


Estranhas Criaturas
Deriva
Junho de 2010

Relegada durante longas eras em esconderijos longínquos, desde que fora apeada do sistema das espécies agora extintas, a outra fauna voltava à luz vinda das caves da biblioteca onde se guardavam os incunábulos, lançava-se em grandes saltos dos capitéis e dos algerozes, empoleirava-se nas cabeceiras dos dormentes. As esfinges, os grifos, as quimeras, os dragões, os hircocervos, as harpias, as hidras, os unicórnios, os basiliscos retomavam a posse da sua cidade.
Italo Calvino

EU FUI

Camarada Van Zeller, anteontem fui ao Rock In Rio. Não julgue vossa excelência que desbaratei parte substancial do meu parco vencimento para ver, e mal, um rol de guedelhudos a produzir ruído. Não. Limitei-me a não desperdiçar um presente que me haviam ofertado no Natal passado. Ainda ponderei vender o bilhete, mas achei que seria faltar ao respeito para com quem o me ofereceu. O respeitinho é uma coisa muito bonita. Pelo que, lá fui.

Quando cheguei, já tocavam os Motorhead. O camarada saberá quem são, uns anciãos com pinta de motards. A gente não percebe nada do que eles estão para ali a gritar, mas tem piada vê-los esgalhar nas cordas das guitarras o som de uma betoneira e de uma picareta em ritmo acelerado. Basicamente, ir a um concerto daqueles é como passar um dia nas obras.

Aproveitei o intervalo para dar um passeio por aquilo a que a organização do evento chama a Cidade do Rock. O que vi não é muito diferente do que se passa nas outras cidades, ou seja, muito comércio, gente parva, mais comércio, gente porca, ainda mais comércio, gente tonta e, para finalizar, um pouco de mais comércio e mais gente bronca.

Havia filas intermináveis para alguns pavilhões, pelo que quis averiguar sobre o que ali se passava. No fundo, não se passava absolutamente nada. Uns jogos, uns brindes, umas ofertas. Confesso que me espantou perceber que não consegui esperar tanto tempo para entrar no Musée d'Orsay, como algumas pessoas esperavam para adquirir um sofá insuflável da Vodafone, uma guitarra de plástico da não sei quê, um chapéu de palha do não sei quantos, perucas vermelhas e anéis fluorescentes, entre outros brindes de básico interesse. Deve ser da crise, ou então é mesmo como a crise: a malta endivida-se para comprar o bilhete, depois espera, espera e espera, sua as estopinhas pelas borlas.

Dada a voltinha do triste, fui urinar. Regressei para o recinto, comi uma bucha, bebi uma cerveja, e fui urinar novamente. Depois tentei assistir ao concerto dos Megadeth, mas faltaram-me alguns centímetros para conseguir ver alguma coisa além das cabeleiras esvoaçantes dos metálicos que à minha frente oravam contra um invisível muro das lamentações. Aproveitei para dar trabalho a uns rapazitos que por ali passavam de barril de imperial às costas. Ora bebia mais uma, ora ia evacuar as águas. Estive nisto o tempo todo, a ver se o álcool produzia algum efeito que me ajudasse, vá lá, a abanar o capacete.

Numa dessas digressões a caminho das casas de banho parei a mirar umas miúdas que tiravam fotografias ao lado de dois sapos. Mais à frente, vi as mesmas miúdas a tirarem fotografias ao lado do Fernando Ribeiro dos Moonspell. Fernando Ribeiro e sapos, o mesmo campeonato. Ainda fiquei para espiar os Rammstein. Alguns amigos afiançaram-me que seria actuação de qualidade, mas eu confesso que para festivais de pirotecnia continuo a preferir as festas de Nossa Senhora da Encarnação em Arrouquelas. Fui-me ao quarto tema, pois haviam-se-me acabado as moedas para a imperial. Enfim, não posso dizer que tenha gostado, mas também não direi que odiei. Acho que fui lá só para experimentar as casas de banho.