Domingo, 31 de Janeiro de 2010

PRIVATE JOKE?

Por mim, a melhor frase que até agora li sobre o assunto:

Age como se a burka devesse tornar-se, por tua vontade, no personal trainer que há em ti.

Ainda hoje olhava tantas e tantas e tantas mulheres na porcaria do Centro Comercial onde trabalho e dentro de mim ecoava uma interrogação: mas para quê tanto sofrimento? Para quê tanta fachada? Como não sofrerão aquelas mulheres com as pernas equilibradas sobre saltos impraticáveis. Imagino o frio que terão nas pernas, no peito, sobre os ombros, só para que a tatuagem seja mostrada, as mamas salientadas pelo decote, as pernas motivo de interesse. E as dietas? As roupas apertadas? A depilação? As mulheres são, de facto, escravas da estética. Se por vontade própria, necessidade ou respeito à religião da imagem, não sei. É lá com elas. Desejo-lhes sorte.

ENTARDECER

Sol-posto ungindo o mar: incensos de ouro!

Recolhe funda a tarde em sonho e mágoa.
Surdina fluida: anda o silêncio a orar –
E há crepúsculos de asas e, na água,
O céu é mármore extático a cismar!


E nas faces marmóreas dos rochedos
Esboçam-se perfis,
- Cintilações,

Penumbra de segredos!

Ó painéis de nuvens sobre a terra,
Ogivas delirantes
Na água refractando…
Encheis de sombra o mar de espumas rasas,
Iniciando
A hora pânica das asas!


E, à meia luz da tarde,
Na areia requeimada,
São vultos sonolentos
As proas dos navios…


Ó tristeza dos balões
Iluminando,
Na água prateada,
Os pegos e baixios…


Dormentes constelações
Que, em fundos lacustres
E musgosos,
Pondes reverberações
Em nossos olhos ansiosos.


Ó tardes de aquático esplendor,
Descendo em meu olhar!


Num sonho de regresso,
Numa ânsia de voltar,
Em mim todo me esqueço
E fico-me a cismar.


A tarde é toda um sonho moribundo.
É já olor da cor que amorteceu.
O céu vive no mar: sono profundo.
A asa do rumor no ar adormeceu!




Luís de Montalvor é o pseudónimo do poeta, ensaísta e editor Luís Filipe de Saldanha da Gama da Silva Ramos. Nasceu a 31 de Janeiro de 1891, em S. Vicente, Cabo Verde, mas veio para Portugal com apenas dois meses de vida. Residiu no Brasil entre 1912 e 1915, regressando a Lisboa com a ideia de fundar uma revista modernista. Fundou a Orpheu (1915), a Centauro (1916) e, anos mais tarde, a editorial Ática (1942), um órgão fundamental na divulgação sistemática das obras completas de Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Enquanto poeta, foi, certamente, um dos nomes maiores do modernismo português, assim como um interessante prossecutor da poesia da Decadência. Devemos-lhe também a divulgação dos inéditos de Camilo Pessanha que viriam a ser reunidos no volume intitulado Clepsidra. A poesia de Luís de Montalvor ficou dispersa por várias publicações, entre as quais se destacam as revistas supracitadas e as colaborações com a Presença, Exílio, Athena, Contemporânea, Sudoeste, Cadernos de Poesia e Seara Nova. Só postumamente os seus versos foram coligidos num único volume. «Não nos ilude Luís de Montalvor na expressão essencial dos seus versos: vive num mundo seu, como todos nós; mas vive com vida num mundo seu, ao passo que a maioria, em verso ou prosa, morre o universo que involuntariamente cria» (Fernando Pessoa). Faleceu a 2 de Março de 1947, afogado no rio Tejo, num acidente de viação que vitimou, igualmente, a sua mulher e o filho único de ambos. Acidente? Suicídio? «Façamos com a dor, sem um queixume, / as guirlandas formosas desta vida!»

Sábado, 30 de Janeiro de 2010

OS PRETERIDOS

Baltazar e Bianca andaram de mão dada durante tempos indetermináveis, provocando tempestades no peito do pombo Benjamim, o renegado, o preterido, que agora circulava de cá para lá no poleiro da solidão, observando-se espelhado nas águas turvas dos bebedouros e pensando de si para si: que terei feito eu para merecer tal desprezo, tamanha omissão, que voo terei falhado para que as medalhas do respeito me fujam desta maneira, deixando-me neste piar depenado, deixando-me deprimidamente só neste cucurrucucu sem dó nem piedade? O pombo começava a deprimir, de tanta ausência notar em seu dono. Via-se-lhe no bico cada vez mais atraído pelo chão que não andava, quer dizer, que não voava nada bem. Inclinara-se para a poesia decadentista, arriscou melodias neo-country, mas tudo o que almejou foi um bocejo pouco mais que entediante. O pombo Benjamim era o espelho humano do que havia de animal em seu dono Baltazar. Ora, pergunte-se o leitor, que resta a um pombo desprezado senão rastejar como as víboras pelos ares da vacuidade? Nisso mesmo se arrastou esta empobrecida ave, outrora campeã de orientação, agora desistente e deambulante. Enfiou as asas nos bolsos das penas e seguiu cabisbaixo pelos alcatrões da cidade. Cruzou-se com ratazanas indigentes e sentiu-se uma delas, cruzou-se com baratas insidiosas e invejou-lhes a sorte, cruzou-se com sardaniscas desterradas e reviu-se em seu desterro, cruzou-se com crápulas mais crápulas que os crápulas e sentiu-se… como peixe na água. E então pensou: perdido por cem, perdido por mil. Regressou à torre erigida na rotunda do centro centralíssimo do mundo e pôs-se a discursar para quem o quisesse ouvir. Que a torre era uma farsa, um cárcere, um aproveitamento indecoroso e desumano do reino animal, que se tornava cada vez mais óbvio para qualquer bicho na terra que os homens haviam perdido toda a sua humanidade transformando-se em bestas e que essa humanidade era agora própria das espécies animais, das mais selvagens às domesticadas ou domesticáveis, e que os ursos estavam a transformar-se em homens e que os burros há muito se haviam metamorfoseado em humanos, daí se explicando estarem em vias de extinção, pois os próprios homens eram uma espécie em vias de extinção, ao contrário das vacas e das víboras, e que urgia recuperar o sentido da humanidade junto das mais lúcidas espécies do reino animal, essas sim bondosas, misericordiosas e solidárias a ponto de se deixarem domar e dominar pelo mais estúpido dos animais, o homem, predispondo-se inclusivamente a serem cozinhadas por esse desvirtuado ser agora transfigurado numa besta gananciosa, numa estranha criatura usurária, numa coisa abjecta e desprezível que era preciso subjugar. Perante o discurso, os leões presentes ronronaram, lançaram as garras sobre meia dúzia de galinhas muito atentas e satisfizeram o dente. Os canídeos bocejaram. Quase todas as espécies presentes bocejaram. O próprio pombo Benjamim deu por si a bocejar, raio de verbo contagiante. Mas os gatos mostraram-se intrigados e atentos, tendo o pombo Benjamim ficado a saber que também um dos gatos persas de Bianca havia ali proferido discurso semelhante há não muitas horas.

Escrito para O Indesmentível.

MY GIRLS





Há um ano, a funcionária dos Correios informou-me de que os livros não são material frágil. Eu tinha acordado com a sensação de que o pensamento pesava mais do que o sono. Tinha acordado com os acentos trocados e, por isso, inventariei alguns dos epítetos começados por i com que até então tinha sido brindado: incauto, indigente, inteligente, irresponsável, irritante, incoerente, inconsequente, instável, invejoso, idiota, irascível, incrível, ínclito... Mas hoje acordei com a sensação de que devia comprar um moleskine para anotar a fragilidade dos livros que não escrevo. Ou então aderir a uma rede social, fazer muitos amigos, contá-los diariamente na esperança de vir a ser muito amado à distância. Mas para que me servem amigos que não poderei abraçar? Para nada. De que nos vale o sol a espreitar se as ruas continuam cinzentas?

INSÓNIA

À noite, nenhuma tempestade é tão medonha como o silêncio. O silêncio abre a cicatriz de onde verte a insónia, essa medalha com que fomos premiados na puta da vida.

CAUSA E EFEITO

Quanto maior o ressentimento, menor o discernimento.

SEM PRESSAS


Sinto a pulsação aos dias e faço como Pipilotti Rist ao som do Chris Isaak, pego num ramo de tulipas e desfaço tudo à minha volta, deixo as paredes em cacos, caminho com um sorriso nos lábios, a alegria de ver tudo a desmoronar dança-me nos lábios. Penso como seria a minha voz sob a tua voz, Pipilotti. Talvez pudéssemos andar pelo país a recolher cantigas antigas. Recriaríamos as tradições e dançaríamos ao som de tempos perdidos. Mas, sabes, não julgo que os tempos perdidos tenham sido melhores que os dias imaginariamente estilhaçados ao som de Chris Isaak. O que eu queria mesmo era ter-te a andar dentro de mim, estilhaçando com o teu ramo de tulipas as janelas do meu imo, enquanto por ti passariam anjos da guarda, os fardados do sistema, e dariam os bons dias a cada espelho retrovisor esmagado pelo sorriso da tua doce perversidade. Se te perguntares sobre o que tem a música dos Animal Collective a ver com isto, pensa nas raparigas murmuradas sob loops que parecem carrosséis. E eles cantam: I don't mean to seem like I care about material things like a social status / I just want four walls and adobe slabs for my girls. E eu pergunto-me há quanto tempo não ofereço um ramo de flores a mim próprio. Talvez tenha medo. Não tenho pressa. Bato palmas, estalo os dedos, sinto o frio que me chega num vento amistoso, abro a garganta e deixo saltar cá para fora aquele ohhhhhhhhh pelo qual vale a pena ouvir uma torneira avariada a pingar. Sabes, dentro de nós há tribos domésticas a pedirem o desbravamento do corpo. Dentro de nós há aquela sensação permanente de que reduzimos a vida a meia dúzia de dias em que nos damos o direito de estarmos, de sermos, realmente felizes. Porque os restantes dias são apenas dias restantes. Apesar de tudo, acho que vou no bom caminho para pôr as concertinas a fantasiar realisticamente. Vê só, é muito simples e não preciso sequer de ser claro como os chatos pretendem, porque os chatos não querendo ver literatura em nada em tudo transformam literatura. (Se eu quiser ser claro, arranjo um patrão.) Lembra-te, por exemplo, do som da palha arrastada pelas forquilhas no celeiro; lembra-te do som do trigo quando o vento passa; lembra-te do restolhar dos milheirais na Costa Vicentina; lembra-te dos teus próprios passos sobre as ervas secas do açude onde outrora mergulhaste o corpo puro para depois vires ao de cima conspurcado pelos óleos que vinham na corrente. Lembra-te dos canaviais. O Verão é agora mesmo, na casa hermética dos meus sonhos desfeitos. Pode parecer confuso, mas é óbvio que a minha cama se transformou subitamente numa piscina enquanto as paredes em chamas me obrigam a repensar os mandamentos do relógio despertador. Portanto, deixo-me ficar mergulhado na banheira e penso nas horas que ando a desperdiçar comigo mesmo. O programa hoje é outro: desrespeitar os horários, dançar ao som dos auto-rádios esvoaçantes, andar pelas ruas com um ramo de tulipas na mão, partir as janelas íntimas do corpo, parti-las, o programa hoje é outro: não é preciso esconder que o desassossego e a insónia se tornaram bastante apelativos com os anos, não é preciso confessar que nesta música há o plágio disfarçado de cut-up com que camuflaremos a nova roupagem das tribos. Ponto assente: se alguma coisa posso dizer ao som dos Animal Collecive é que há muito sei o peso da rotina. Ando encafuado no tráfego e nem a rádio sintonizada numa cassete meticulosa me salva, ando sem esperança a passar os dias, a enchê-los de um pouco, vá lá, de conforto possível, ando, isso mesmo, num andar por andar até que se formem calos na base dos pés e a dor se torne insuportável, ando, isso mesmo, a certificar-me de que os parques públicos respeitam as regras de segurança necessárias para que os filhos possam continuar a sorrir. Agora diz-me, que vida é menos vida do que esta vida consciente de si? Uma rotina que já nem deprimente é. Por isso, para o próximo Natal peço uma Pipilotti Rist a desfazer-me as paredes do corpo interno. Mas deixa lá o Chris Isaak sossegado no deserto. Mete as tulipas a dançar ao som de um leão em coma. Sem pressas, por favor. Sem pressas. Com o andar vagaroso dos aborígenes.

Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

PROFESSOR LIGHT



É o Yvo San Laurent da poesia
a suspirar por tudo e por nada
entre palavras estilo Hugo Boss.
Que está demodée escrever sobre
seringas, pó branco, cuspo e
esperma, mais as enfermidades
dos minutos do dia a dia. Solidões
e paixões são dum horror.

Este petinga de salão não sabe
sofrer sem um psicólogo, nem fode
sem desinfectar o corpo e o carro.
Escreve coisas onde a picareta
não entra, senão, entra o suor
sem abrigo a encharcar a miséria
do ordenado do trolha e o livrito
ficaria empestado de catinga.

Nega de pestana encravada
o desejo de ser prémio literário
e muito menos
best-seller:
Às páginas impressas deste
scone que escreve na moda
líricas
dandy entre o health club
e o salão de chá das tias,
dei o destino certo um dia
em que faltou o papel higiénico.


Jorge Aguiar Oliveira, in Insónia em Segunda Mão, Edição do Autor, Janeiro de 2010, p. 94.

INSÓNIA EM SEGUNDA MÃO


Após um dia bem passado na companhia de amigos, sugiro-vos um livro para cegos. O título e o nome do autor estão em braille na capa, mas eu faço o obséquio de revelar a ficha técnica: Autor – Jorge Aguiar Oliveira; TítuloInsónia em Segunda Mão; Argumento – Henrique Manuel Bento Fialho; Pinturas da capa e contra-capa – Maria João Lopes Fernandes; Fotografias e paginação – Sukar Vintém; Edição – do autor; Impressão e acabamento – Impriluz; Tiragem – 300 exemplares; Data da Primeira Impressão – Janeiro de 2010; Depósito Legal – 304668/10. Agora tomem lá a primeira cena do argumento:


THE HOST OF SERAPHIM


Argumento
baseado num livro de poemas de
Jorge Aguiar Oliveira


CENA I

Este filme dispensa um genérico inicial. Sugerimos antes a audição do tema "The Host Of Seraphim", dos Dead Can Dance, com a "Parábola dos cegos", de Pieter Brueghel, em plano de fundo. O primeiro acto tem lugar na Rua das Montras, em Caldas da Rainha, junto à velha livraria 107. É aí que um vulto se distingue entre os demais. De sandálias calçadas, calções vestidos, t-shirt e chapéu panamá, o vulto aguarda-me para tornar físico o encontro virtual. Cumprimentamo-nos como se há muito nos conhecêssemos, sem qualquer tipo de distância a intrometer-se entre a imagem que fazemos dos outros e aquilo que somos na realidade. Na realidade, somos sempre uma coisa virtual nos olhos dos outros. Mas há encontros que actualizam o desnorte, dão-lhe um sentido, um corpo, gestos, o toque, tudo aquilo que precisamos quando ainda não podemos viver unicamente de palavras. É nestes corpos que caminham, se cumprimentam e tocam que descemos à esplanada do Café Populus no Parque D. Carlos I. O mesmo parque catita, com os mesmos cisnes, com as mesmas criancinhas junto ao mesmo lago onde o refinado Luiz Pacheco fez desaparecer um ódio sem cura. Porque o tempo não sara nada, «nem se sabe bem ao certo quando sara, isto é, quando começa a criar bolor na alma». E «um desgosto de amor é uma ferida / que mesmo sarando, deixa sempre / uma cicatriz de disfarce impossível». Antes que o bolor atinja a alma, bebamos umas cervejas e uns licores, reguemos os corpos com as histórias vivas de existências extraviadas, contemos disto e daquilo, falemos de projectos sem criar fossos no presente entre o vivido e o ainda por viver. Não há qualquer tipo de optimismo neste cantar-se assim a vida, há apenas a ficção, sem genérico inicial, subjectiva e solitária, que é a presença de cada um neste mundo pavorosamente patético. Dispensemos também as despedidas no terminal rodoviário. São apenas o desejo adúltero de um regresso adiado. Ficou a promessa de um prefácio, de uma introdução, de um pórtico, de um prólogo ou lá o que lhe queiram chamar. Eu chamo-lhe argumento e sugiro que se atentem à música dos Dead Can Dance, para que cegos sigamos pelos textos dentro, não sem antes vos contar o resto desta minha aventura. Arrisquemos uma narrativa entrecruzada, façamos com o tempo desta história um flashback aos solavancos. É que já não me lembro bem quando foi, mas lembro-me que foi na livraria dos cinemas King, em Lisboa, talvez em 2002 ou 2003, que peguei nos "Homens sem Soutien", do poeta Jorge Aguiar Oliveira (n. 1956). É importante que se diga da beleza gráfica do livro, a qual me chamou a atenção, sobretudo, por tratar-se de uma edição do autor (como, de resto, tantas outras do mesmo). Já antes andara à briga com estas palavras, numa antologia da Frenesi, organizada pelos poetas AI Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião (refiro-me, obviamente, a "Sião", 1987), e num opúsculo editado pela &etc ("Os Lábios do Rio", 1987). O poeta estreara-se alguns anos antes, nos inícios da década de 1980, com poemas de circulação muito restrita editados em conjunto com outros autores. Mas nessas edições originais eu nunca meti mão, ao contrário do que sucedeu alguns anos depois com um livro simplesmente intitulado "João Alves". Foram estes os livros que proporcionaram o primeiro encontro, um encontro de palavras que nunca pensei poder vir a tornar-se físico. No entanto, antes ainda de se tornar físico, o encontro foi virtual. No dia 17 de Janeiro de 2008 recebi um inesperado e-mail do Jorge Aguiar Oliveira propondo-me uma colaboração no Insónia, weblog que mantenho desde Maio de 2005. Não hesitei um segundo. E não só não me arrependi como posso confessar ser eu quem está grato ao Jorge por ter ele tomado a iniciativa de bater à minha humilde janela virtual, pelo que espero poder agora retribuir essa gratidão batendo-lhe à porta dos poemas coligidos neste volume com um título que, sem vaidade nem soberba, faço meu pela metade.

(…)

P.S.: Fiquei hoje a saber que o Jorge faz anos, precisamente, a 17 de Janeiro. Ele há coisas…

NEGÓCIO

O pai foi um comerciante de sucesso. Todos os anos, pelo Natal, oferecia um cabaz aos fiscais. O filho herdou do pai o negócio, mas não a mesma sabedoria. Deixou de oferecer o cabaz aos fiscais e levou o negócio à falência.

FEITIO

Diziam-lhe que ia pagar caro aquele feitio. Mas ele não percebia. Não queria comprar nada.
É isto que eu gosto nos blogues, em vários vejo a notícia de que Salinger morreu, consternação e tudo. Aqui nos blogues parece que vivemos num Portugal a fingir, idílico, feito de uma percentagem razoável de gente (5 a 10% vá) que sabe quem é o Salinger.

Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

O TRIUNFO DA MEDIOCRIDADE

O que me surpreende nas escutas escutadas não é a política de favores que aparece ali ilustrada com extraordinário realismo. Pinto da Costa pede um sumaríssimo contra Liedson, Valentim Loureiro responde-lhe que vai “falar ao homem”. O tom é típico. Quem tenha privado minimamente com agentes decisores neste país, sabe perfeitamente que, do mais baixo ao alto nível, a chafurdice não tem outro tom. A linguagem é aquela, o modus operandi é aquele, as chamadas práticas instaladas são aquelas, o registo é sempre, sempre, sempre, o mesmo. E «quanto mais os homens rastejam perante os superiores de que necessitam, mais arrogantes e cruéis se tornam para os que estão abaixo deles» (Frei Servando). A impunidade é total, como se vê.

O que mais me surpreende também não é a completa ausência de sensibilidade com que Pinto da Costa se refere ao roupeiro do Sporting, uma figura querida de todos os sportinguistas que comove só de ver. Pinto da Costa bem pode passar o resto da vida a recitar José Régio e a levar putas ao Papa, que depois de ter tratado o Paulinho, mesmo que numa conversa privada tornada pública, como “aquele gajo que é atrasado mental”, não merece senão o mais profundo desprezo como cidadão. Neste, como noutros casos, aplica-se bem a observação de Reinaldo Arenas: «como tinha dinheiro perdoavam-lhe todas as ridicularias e até as louvavam». Podem substituir dinheiro por poder que vai dar ao mesmo. Não me surpreende igualmente que, depois disto tudo, esta gente ainda tenha cara para aparecer. Já não há vergonha na cara, valores só mesmo os da carteira.

Mas há algo que me surpreende. Pinto da Costa é o rosto do FCP, Valentim Loureiro é o rosto de Gondomar. Esta gente ainda tem cara para aparecer e, pelos vistos, sob os aplausos de hordas seguidistas e cegas de tanta dedicação, sob os encómios de uma «corja de oportunistas e gabirus». Rui Moreira e Miguel Sousa Tavares dizem-se incomodados, mas as casas do FCP enchem a cada visita do presidente. Não vejo nenhum movimento sério interessado em pô-lo a andar para fora do clube, assim como vou vendo Valentim repetidamente elevado à condição de herói gondomarense. A cultura do burgesso dá nisto: mesmo as pessoas mais esclarecidas resvalam num silêncio medonho, um silêncio que não sei se hei-de classificar de apenas cobarde ou cúmplice. Seja como for, é um silêncio que anuncia o triunfo da mediocridade.

Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

JÁ ÉS VELHO



─ Já és velho, Pai Guilherme ─ disse o menino.
─ Mais careca do que um frade
Mas estás sempre a fazer o pino;
Achas que é próprio da idade?

─ Quando era novo ─ disse o Pai ao presumido ─
─ Receava que me fizesse mal à cabeça;
Mas como estou certo de a ter perdido,
Faço-o sempre que me apeteça.

─ Já és velho ─ disse o jovem. ─ Estou-te a avisar!
E mais gordo do que um abade;
Mas deste uma cambalhota a andar:
Não achas uma brutalidade?

─ Quando era novo ─ disse o pai de fronte luzidia ─
─ Fiquei leve que nem uma pluma,
Tomando esta loção: uma colher por dia;
Não queres que te venda nenhuma?

─ Já és velho – tornou o jovem. ─ E ao almoço,
Com os teus dentes de ancião mastigaste um faisão,
Mesmo com as cartilagens, o bico e o osso;
Diz-me lá se há alguma razão.

─ Quando era novo ─ disse o Pai, com amargura ─
─ Fartava-me de discutir com a minha mulher;
E o exercício reforçou-me a dentadura
Que me há-de durar até morrer.

─ Já és velho, quem diria ─ tornou o petiz. ─
─ Que terias um olhar tão certo;
Balouças uma enguia na ponta do nariz:
Como podes ser tão esperto?

─ Respondi a três perguntas e já me estou a chatear ─
Disse o Pai. ─ E sabes o que é que eu acho?
Tenho mais que fazer que te aturar:
Ainda te empurro pelas escadas abaixo.


Lewis Carroll (n. 27 de Janeiro de 1832 — m. 14 de Janeiro de 1898), in As Aventuras de Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho, trad. Margarida Vale de Gato, Relógio D’Água, Maio de 2000, pp. 54-56.

REVENDO BLACKMAIL


Este post não é sobre escutas. Nem sei se é sobre um filme de Hitchcock chamado Blackmail (1929), concebido inicialmente para ser filmado num registo mudo. A versão sonora terá sido uma opção posterior, algo que fica evidente nos minutos iniciais. Blackmail começa com uma detenção cujo significado é meramente introdutório. Os detectives da New Scotland Yard são representados a partir de gestos teatrais que falam pelas personagens. Os planos do rosto dispensam palavras, intensificam expressões que dialogam entre si sem que nos seja necessário escutar os diálogos induzidos pelos lábios em movimento. O som surge após este primeiro momento. Escutam-se passos, o estrado de um antigo carro da polícia, uma buzina, algumas vozes. No entanto, o jogo de silêncios percorre o filme como um jogo de sombras. Há mensagens cifradas, códigos imperceptíveis, é-nos dado ouvir o riso provocado por segredos que nunca serão desvendados. Os recados silenciosos, os segredos e as insinuações dão corpo ao suspense. O silêncio alimenta-o, é a acção por detrás da intenção, ou seja, é o não audível, já como decisão, que sustenta a intenção com que se concretizará este ou aquele gesto. Para quem desconheça a história, aqui fica um resumo:
1. Alice é vítima de uma tentativa de violação, conseguindo escapar depois de assassinar o violador, de nome Crew, com uma faca;
2. Alice namora com um detective da Scotland Yard que, encarregado de investigar o caso, encontra uma luva da namorada no local do crime;
3. Frank, o detective, tenta encobrir a namorada, acabando vítima de chantagem por parte de um indivíduo que não só tinha visto Alice com Crew antes do crime, como penetrara no local e encontrara a outra luva que provava ter sido Alice a assassina;
4. O chantagista, homem com cadastro, acaba por falecer numa perseguição da Scotland Yard, depois de ter sido apontado por uma vizinha de Crew como possível autor do crime.
O que Alfred Hitchcock filma nesta história é a fragilidade daquilo que tomamos por verdadeiro. Há sempre uma sombra vigilante disposta a aproveitar-se do mal dos outros, máxima relevante num contexto moral. Neste filme, a questão essencial é epistemológica. Os “jogos de sombra sonoros” que matizam a fita são o elemento intensificador do suspense, mas também revelam uma especial atenção a certos pormenores com que apuramos a verdade dos factos. Repare-se na importância do registo áudio como prova. Costuma-se dizer que «nem tudo aquilo que parece, é». Também se diz que aquilo que por aí se vai ouvindo não corresponde necessariamente à verdade. Não acredites em tudo o que ouves. Mas a verdade é que a confissão, não garantindo a verdade, pelo menos oferece-nos uma verdade possível. Ademais, nenhuma escuta logra ouvir o que nos vai no coração. Hitchcock distorce as falas, entrega-nos a sussurros imperceptíveis. Numa cena magistral, toda a sua genialidade vem à superfície no rosto de Alice. Esta encontra-se a tomar o pequeno-almoço com a família e olha para a faca do pão, induzindo no espectador uma relação traumática entre aquela faca e a faca com que fora cometido o crime da noite passada. Não satisfeito, Hitchcock coloca na mesma sala uma vizinha bisbilhoteira que não se cansa de falar do crime. Não percebemos bem o que ela diz, porque o realizador distorce-lhe a voz, mantendo apenas clara a pronúncia de uma palavra que se repete ad nauseam: justamente a palavra faca, faca, faca, faca, faca. A perturbação no rosto de Alice é evidente. O eco é interrompido abruptamente quando Alice larga a faca no chão. Algo se passa com a pobre rapariga. A consciência moral começa a tomar-lhe conta do corpo, das emoções, dos medos, dos anseios. A verdade, que só ela e o namorado ficarão a saber, a verdade que nos é mostrada enquanto espectadores, é também a prova da farsa que subsidia o apuramento dessa mesma verdade. Ora, num diálogo entre Frank e Alice é mantida uma conversa sobre o cinema:
─ Ainda não viste o filme «Impressões Digitais». Aposto que falharam em todos os pormenores.
─ Não sei porquê. Até contrataram um criminoso para realizador.
O cinema, meus caros, assim como qualquer outra arte, é a impressão digital da realidade. E o realizador, o artista, um criminoso que distorce essa mesma realidade em função do que pretenda mostrar-nos. Isto é, em função do que pretenda manter oculto, silencioso, como um segredo irrevelável.

A GRANDE POCILGA

Desconheço as razões que poderão justificar manter-se este ou aquele indivíduo sob escutas. As escutas são uma espécie de mosca que entra na vida privada do vigilado para chafurdar o mais possível na merda que este possa andar a fazer. Ouvidas as conversas, reproduzidas por escrito, deixados os registos áudio (e por vezes visuais) a cargo de responsáveis sérios, formados na mais elevada civilidade de um Estado de Direito, espera-se que a sujidade observada fique hermeticamente retraída nos armazéns onde a porcaria há-de ter, ou não, o seu julgamento próprio e adequado. Por vezes, algo falha neste processo. A mais elevada civilidade do chamado Estado de Direito revela-se bastante baixa, eu diria mesmo rasa, e a imundície aparece acessível a todos - deixando no ar a sua inconfundível fragrância. Perante tal cenário, há duas opções: assobiar para o lado e desviar o pé do cagalhão, ou apontar a porcaria chamando a atenção dos transeuntes para o campo minado em que circulam. Prefiro a última. Julgo, pois, espantoso, embora já nada me espante neste país, que estando a porcaria à vista de todos, venham agora alguns moralistas, todos cheios de reservas, apregoar que o tal Estado de Direito bateu no fundo dos fundos. Torna-se evidente que sim. Mas, felizmente, há sempre um fundo mais fundo que o fundo dos fundos dos moralistas. E o que se torna evidente nesta história é que, estando a porcaria aos ouvidos de todos, o fundo mais fundo talvez não seja suficientemente fundo para arrecadar de uma vez por todas no seu devido lugar aqueles que, certamente movidos pelas melhores intenções, andaram e andam a merdalhar o mundo. Daqui lavo as minhas mãos, a minha linguagem não é aquela, podem meter-me sob escuta, os meus modos não são aqueles, repugna-me tanto o que ali se ouve como verificar mais uma vez a existência de gente que finge não querer ouvir, que mete as mãos sobre os ouvidos para depois dizer que nunca ouviu, que prefere a hipocrisia do silêncio a mostrar o mínimo de indignação contra o estado do Estado de Direito: que, para todos os efeitos, está torto não só por terem sido divulgadas as escutas, mas também por não terem sido devidamente removidos de “funções públicas” os escutados.

HORA AFLITIVA

Na hora aflitiva, a moral não tem valor. O ser humano age egoisticamente, em função da conveniência própria, marimba-se para o outro, para a lei, para o dever, arruma a consciência moral a um canto e deixa o instinto trabalhar. Sucede que a hora aflitiva tem, no mínimo, 24 momentos por dia para se mostrar. E mostra-se tanto que somos levados a crer andar meio mundo aflito e outro meio numa grande aflição.

ORÇAMENTO DE ESTADO

Unidos pela tragédia no Haiti, os nossos políticos de direita concordaram sobre o congelamento. É preciso travar o enriquecimento dos portugueses, o qual se afigura vergonhoso perante a miséria que se abateu sobre essas terras que agora anseiam a chegada da jangada de pedra. Lá longe, o John Travolta e a Angelina Jolie consolidam os seus corações solidários. Nós por cá também. Mas pensemos positivo. O que há de bom nestas catástrofes é que enquanto elas duram pelo menos metade do mundo desaparece. Tinha sido assim com o tsunami, volta a ser assim com o terramoto. Que bom é não ser já notícia a fome em África, a miséria na Ásia, a criminalidade na América do Sul, as trafulhices de colarinho branco que vêm arruinando paulatinamente o mundo civilizado. Alguém ainda se lembra de Darfur? Onde fica o Afeganistão? E o Iraque, ainda existe? Alguém sabia qual era a capital do Haiti antes do terramoto? Eis algumas questões que o nosso orçamento de estado congelará durante mais uns anitos.

Terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

MOCKINGBIRDS




Ilya Ehrenburg também se queixava do “é a vida, o que é que se há-de fazer”. Com uma ligeira inflexão, o poeta soviético falava dos tempos, no plural, e não propriamente da vida. Terminava o poema profetizando que «diante de todos se responderá / pelo seu tempo e não por si só». Duvido. Mal temos mão sobre a nossa própria vida, quanto mais sobre a vida dos tempos. A verdade é que somos arrastados e o pouco mais que podemos fazer é esbracejar, espernear contra a corrente para que o naufrágio seja adiado e o corpo se console de apaziguadores, mas momentâneos, mergulhos. Não falo sequer de mudar o mundo, tão só o nosso mundo. Não falo de coisas heróicas e inumanas. Falo da vidinha figurante, cada vez mais complexa e infernal. Por exemplo, falo de não ter que responder a um inquérito para poder satisfazer a secura com uma simples água com gás:

─ Quero uma água com gás.
─ Fresca ou natural?
─ Fresca.
─ Das Pedras ou Frize?
─ Das Pedras.
─ Com ou sem sabor?
─ Sem sabor.
─ E vai desejar copo?
─ Sim.

O MACACO PENSA NESSE TEMA



Porque será tão atraente ─ pensava o Macaco noutra ocasião, quando lhe deu para a literatura ─ e ao mesmo tempo tão desinteressante esse tema do escritor que não escreve, ou o do que passa a vida a preparar-se para criar uma obra-prima e que pouco a pouco se vai transformando num mero leitor mecânico de livros cada vez mais importantes, mas que na realidade não lhe interessam, ou o já conhecido (o mais universal) do escritor que quando aperfeiçoa um estilo descobre que não tem nada a dizer, ou o daquele que quanto mais inteligente é, menos escreve, enquanto à sua volta outros talvez não tão inteligentes quanto ele e os quais ele conhece e de alguma forma despreza publicam obras que toda a gente comenta e que de facto às vezes até são boas, ou o do que de alguma forma conseguiu fama de inteligente e se tortura a pensar que os seus amigos esperam dele que escreva alguma coisa, e fá-lo, tendo como único resultado os seus amigos começarem a suspeitar da sua inteligência, o que o leva ao suicídio de vez em quando, ou o do parvo que se crê inteligente e escreve coisas tão inteligentes que os inteligentes ficam admirados, ou o do que nem é inteligente nem parvo nem escreve nem ninguém o conhece nem existe nem nada?

Augusto Monterroso, in A Ovelha Negra e Outras Fábulas, trad. Ana Bela Almeida, Janeiro de 2008, pp. 77-78.

ISRAEL SKETCHBOOK

Ou porque me são sugeridos pela freguesia, ou porque estão arrumados em secções que raramente visitava enquanto cliente, ou porque simplesmente nunca me interessei pelos géneros em causa, há livros que dificilmente habitariam as minhas estantes não se desse o caso de estar a trabalhar numa livraria. Israel Sketchbook, de Ricardo Cabral (n. 1979), é um deles. Provavelmente encontrá-lo-ão na secção de BD, mas podia estar arrumado junto à literatura de viagem. Com uma ressalva: neste caso, praticamente toda a literatura é garantida pelo traço do desenhista. Os apontamentos escritos, simples, directos e até algo pueris são meras notas de um viajante ao encontro das terras de Israel numa viagem que começa por Telavive e os seus lugares de acolhimento, os amigos, o calor abrasador, a humidade, recantos de repouso e momentos de descoberta. Desenhos de um realismo minado pela manipulação dos elementos que compõem a paisagem. Nas páginas de Safed a deambulação cruza-se com rostos estranhos em bairros de artistas, uns olhos lindos que nunca nos são mostrados. Em Jerusalém, o desenho força para dentro das páginas uma cúpula que, na realidade, não se avista. A vontade do desenhista sobrepõe-se ao horizonte, ainda que os desenhos nos pareçam de um convincente realismo. Esta manipulação torna-se evidente num desenho de Sderot, quando a mesma criança que brinca junto a um abrigo aparece em três posições distintas num mesmo momento. Uma espécie de jogo que se repete num desenho que capta a vida nas ruas de Ashqelon. A realidade é o que os nossos olhos vêem. Os olhos não mostram, limitam-se a captar aquilo que cada corpo projectará conforme os seus filtros mais íntimos. Deixo uma árvore de exemplo:



Ricardo Cabral, in Israel Sketchbook, Asa, Outubro de 2009.

NÃO É COISA QUE SE RECOMENDE

Fotografia de Daniel Mordzinski.



Não é coisa que se recomende.
Vem no meu rasto alimenta-se do débito

dos amigos e do abafo das insónias.
Vai esconder-se no lintel das portas

e acorda quando eu passo. Piora
em noites de uma emoção cítrica

quando a solidão se deita
com o fôlego de uma concertina

que mãos alheias manejaram,
num vaivém de nervos e divisas. E

será possível ensinar a um bávaro
que a idade se sacia no derrame

embora o Euro reprove o sexo
com turcos centauros e talheres?

Não é bonito pendurar um homem
dessangrado no gancho dos versos.


António Cabrita, da sequência Memória do Vento – Do Corpo como Moeda Única, in Carta de ventos e Naufrágios, Teorema, Novembro de 1997, p. 24.

AS POETISAS SÃO COMO AS CEREJAS

Judith Teixeira levou-me à uruguaia Delmira Agustini (1886-1914). Delmira casou com Enrique Reyes a 14 de Agosto de 1913, deixando-o mais ou menos um mês após o casamento. Divorciaram-se a 15 de Junho de 1914. Passado um mês, Enrique assassinou-a com dois tiros na cabeça. Depois suicidou-se.

O DIAMANTE
Hoje, numa grosseira mão instintiva, disforme, vi o mais belo diamante que talvez possa atear o Milagre… Parecia vivo e doloroso como um espírito desolado… Vi dimanar da sua luz uma sombra tão triste, que chorei por ele e por todos os belos diamantes extraviados em mãos disformes…


Versão minha.

Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

PARA QUE TUDO FIQUE NA MESMA


«Alguém se recorda deste nome: Judith Teixeira? Não será fácil, sobretudo aqueles que, embora interessados pela nossa poesia, se satisfazem apenas consultando compêndios da especialidade que lhes orientam as leituras: as histórias, os ensaios, as antologias» (António Manuel Couto Viana, 1974). Passados tantos anos, a interrogação continua a fazer sentido e a desmemória prevalece. Judith Teixeira é um desses casos que nos levam a sublinhar a mesquinhez de um país e a desconfiar da putativa autonomia dos mais novos, por neles continuarmos a observar os mesmos vícios de uma cultura subserviente a cânones instalados e amortalhados por academias que não gostam de sujar as mãos na terra. Nasceu a poeta, segundo consta, a 25 de Janeiro de 1880 na cidade de Viseu. Não se sabe muito das suas origens, mas informa o assento de baptismo que a sua mãe se chamava Maria do Carmo. Perfilhada por um tal de Francisco dos Reis Ramos, terá estado casada com um empregado comercial. O casamento foi dissolvido em 1913, tendo Judith sido acusada de adultério. Voltou a casar um ano depois, com um advogado. Apesar de se ter estreado em livro já com 42 anos cumpridos, terá começado a escrever em tenra idade aquela que foi considerada por Couto Viana a única mulher modernista portuguesa. Seja como for, publicou algumas narrativas, sob pseudónimo, em 1918 e 1919, no Jornal da Tarde, e colaborou com a revista Contemporânea no ano de 1922. No ano seguinte, publicou a primeira colectânea de poemas, intitulada Decadência, causando forte e irremediável polémica: «Trago nos nervos a morte! / Sou uma sombra em recorte / de tristeza e de ruína… // Uivou dentro em mim a dôr... / Só lhe perco o som e a côr / em orgias e morfina!». A Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa insurge-se contra esta e outras obras. Sodoma Divinizada, de Raul Leal, Canções, de António Botto, e Decadência, de Judith Teixeira, são retirados das livrarias e queimados publicamente junto ao Governo Civil. O medievalismo da época não contrasta muito com o moralismo acéfalo da actualidade, mas o silêncio que se abateu sobre Judith não pode deixar de causar embaraço. Fernando Pessoa indigna-se contra as acções moralistas dos estudantes. É conhecida a sua defesa das Canções de António Botto. No entanto, cala-se acerca de Decadência. Só Aquilino Ribeiro (e poucos mais) se manifesta(m) a favor do talento da autora que, no mesmo ano, fez publicar Castelo de Sombras, um «outro livro de versos, muito serenos, muito espirituais e que não devem ofender a moralidade literária da polícia...» De nada lhe valeu a cautela. A ignominiosa poesia de Judith estava marcada pelo ferro em brasa da boa moral. Em 1925, dirigiu três números da revista Europa. No ano seguinte, apareceu o seu último livro de poemas, Nua – Poemas de Bizâncio, e a conferência intitulada De Mim, onde a autora procurava defender-se do enxovalho e da ridicularização a que fora sujeita. A instauração da ditadura sentenciou a quase morte da poeta. Voltará a publicar apenas um volume de contos, Satânia, onde eram anunciados livros que nunca viram a luz do dia, cujos manuscritos permanecem desconhecidos. Pouco se sabe sobre os seus últimos anos de vida. Colaborou com a revista Terras de Portugal, terá andado fora do país, morreu viúva, sem filhos, completamente só, a 17 de Maio de 1959, em Lisboa: «Choro?! Oh, sim, perdidamente! / Mas sabes tu, por que este pranto / Assim amargo e soluçado vem? / É que na hora da partida / Eu nunca pude sem chorar / Dizer adeus a ninguém!» Voltou a não caber nas antologias. (A visitar, sobre Judith Teixeira, este e este lugares).

CAFÉ DA BERNARDA

Baltazar convidou Bianca para um lanche no Café da Bernarda. Bianca acedeu. E nada de gatos persas nem de pombos-correios eruditos a intrometerem-se nos caminhos da paixão. Foram sozinhos. O Café da Bernarda evoluíra ao longo dos tempos, adaptando-se ao gosto das populações. Outrora tabernáculo de visitação restrita, possuía agora o rosto detergente duma pastelaria de bairro. A banca de mármore e tijolo dera lugar à arca de vidro e inox, as mesas e as cadeiras de madeira foram substituídas por umas coisas de pedra falsa e ferro fingido. Com as mudanças operadas na moldura, mudara também o recheio humano. Da velha clientela, sobrava apenas o coveiro, sua mulher e sete filhos. Clientes fiéis da Bernarda, eram a salvação económica do lugar. Devoravam que nem porcos tudo o que era sumo de lata e doçaria de plástico. Apesar do cheiro a mortos que o coveiro arrastava atrás de si, ninguém se atrevia a pôr ali em causa a higiene e boas maneiras daquela família. Caso contrário, teria de se ver com Bernarda. Em clientela tão rica ninguém se atreva a pôr defeito. Baltazar e Bianca acomodaram-se numa mesa a beber limonada e a mastigar caramelos. Evitaram o cheiro a mortos do coveiro e tentaram passar despercebidos perante seus sete filhos. Os putos, com dentes de piranha, só não comiam os próprios dedos. Lambuzavam-se em cremes, chantily, natas e chocolates, com as fuças pintadas de baba e massa, digladiavam-se que nem hienas pelo último pacote de pintarolas. As bestinhas, insuportavelmente obesas, tresandavam a morte, de tão gordas e inchadas que pareciam prontas a estourar. Não havia tempo a perder. Comiam, comiam, comiam e comiam. Baltazar e Bianca acomodaram-se numa mesa a beber limonada e a mastigar caramelos. Olhavam-se em silêncio, mas é bem provável que já soubessem o que cada um pensava. Baltazar pensava que há muito não pensava em nada. Bianca pensava se não teria sido Baltazar a deixar-lhe à porta de casa um aquário com peixinhos falantes.

Escrito para O Indesmentível.

Sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010

ALÔ, ALÔ, MARCIANO


Curioso: há precisamente um ano, acordei com o sacro deslocado. A história repete-se. É o eterno retorno a manifestar-se na base da coluna vertebral. Entretanto, toma lá um mail partilhado para topares do espírito que por aqui reina:

É um gozo ler essas histórias, saber-te do outro lado da linha, reparar, mais uma vez, que afinal o outro tinha razão: isto anda mesmo tudo ligado. Ele só não sabia, não podia prevê-lo, que seria uma coisa sem fronteiras a ligar-nos todos uns aos outros, uma coisa já extravasada deste lugar, dizes bem, atolado na porcaria. Sim, Portugal é uma coisa estranha no coração de quem o vive. E eu nem o vivo, mas tenho que me viver dentro dele. Ou não tenho. Sonho com pôr-me a andar daqui para fora, mas vou ficando, ficando, ficando, à espera que a pilha se quine e eu vá com ela para outro lugar qualquer, um lugar bem longe desta mesquinhez poluente. Ainda assim, sempre vão chegando boas novas. Umas de cá, outras de lá, tanto faz. Agarram-nos à vidinha e levam-nos a fortalecer a espera, como dizia outro outro, a espera de que algo aconteça.

P.S.: estarei ausente durante as próximas horas. Irei desenjoar para norte, com pedras a ferver sobre as costas e muita vontade de me desligar do mundo. Passem bem na minha ausência. Passem pel’O Indesmentível. É provável que amanhã a cidade tussa.

MÃE-NATUREZA



Não há dúvida de que, depois de tudo ter feito, a Mãe-Natureza se imobilizou. Ficou ali a olhar ─ e até nem sempre olhava. Mas eu sei que não se recusava a responder quando a interpelavam.
Um dia, um homem, que achava que os outros homens obstruíam tudo e que ele não encontrava maneira de avançar, berrou, dirigindo-se à Mãe-Natureza: "Porque é que não me arranjaste um lugar?"
A Mãe-Natureza olhou e ficou surpreendida com a situação: "A tua espécie ocupa tudo. Nota bem que, se ela não enchesse tudo, tu até nem terias nascido. É por isso que, mesmo que eu resolvesse intervir, não seria a teu favor!"
Um outro gritou: "Porque é que me criaste?" E ela respondeu: "Eu criei o todo, e tanto quanto sei ele evolui pacificamente. Se tu te sentes diferente do todo, em boa verdade não sei quem te enviou. Não é a mim que pertences."
Um terceiro gritou-lhe: "Quero sossego, quero calma!"


Italo Svevo, in Fábulas, trad. Célia Henriques, &etc., Dezembro de 2001, p. 31.

«UM DOS MAIORES POETAS DO DESEJO»


Ela diz-me que aprecia o entusiasmo com que falo da obra alheia. Respondo-lhe que sou como Picabia: porque me é impossível compreender o que se passa entre o frio e o quente, julgo necessário vomitar os mornos. Ela desconhece. Prometo-lhe, então, o dia seguinte. Francis Picabia nasceu em Paris a 22 de Janeiro de 1879. Breton chamou-lhe «detractor, que assim se quis, de todas as convenções morais e estéticas». Este enfant terrible veio ao mundo pela mão de pai cubano e mãe francesa, num berço aristocrato-burguês que começou a revelar-se algo desconfortável depois de Marie Cécile Davanne, a mãe, ter sido devorada pela tuberculose. Tinha o artista sete anos, para logo de seguida perder igualmente a avó materna. O avô era fotógrafo, entusiasmou o neto para a coloração de fotografias, mas este inclinava-se mais para as «fantasias exteriores e espirituosas» que habitam «pessoas às quais ninguém “rói a corda”». A Ecole des Arts Décoratifs foi, neste contexto, uma opção previsível. Em 1899, estreia-se como “artista” no Salon des Artistes Français, embora tenha vindo a preferir o Salon d’Automne e o Salon des Indépendants para começar a impressionar o “espírito parisiense”, isto é, aquele que «possui o segredo de fazer da chicória chicória, dos espinafres espinafres, e da merda caca». Estas palavras, oriundas da revista 391, fundada e dirigida por Picabia entre 1917 e 1924, são ilustrativas do que se seguiu aos primeiros anos de afirmação “reputativa”. 1909 é o ano do casamento com Gabrielle Buffet. Novas músicas embalam o coração do artista. Rupturas estéticas, do impressionismo ao abstracto, da aceitação ao repúdio, banido por galerias, público e críticos, passeando-se pelo fauvismo, futurismo, cubismo, modernismo e todos os demais ismos que serão posteriormente e sistematicamente triturados pela liberdade dadaísta. A amizade com Duchamp foi, pois claro, fundamental. Assim como o encontro com Apollinaire. A Primeira Grande Guerra rebenta, Picabia zarpa para Cuba, passa por Nova Iorque, desenha máquinas, pinta-as, mostra-as, ao mesmo tempo que a neurastenia e a depressão o perseguem. Mas ele foge. Barcelona, Caraíbas, Nova Iorque serão os refúgios da guerra exterior e interior. É em Barcelona que começa a escrever poesia, publicando aí a sua primeira colecção sob o título Cinquante-deux-miroirs (1917). Também é nesta altura que surge a revista 391:

Braque acaba de comprar um Citroën para continuar a fazer arte. Ultimamente entrou em casa com a mudança de velocidades dentro das calças.
Derain acaba de comprar um Citroën para levar a passeio Louis Vauxcelles e Jacques Blanche.
Picasso acaba de comprar um Citroën que sobe maravilhosamente às árvores. Diz que a viatura lhe urina na mão.
Matisse tem realmente um Citroën.
Metzinger comprou uma capota Citroën.
Juan Gris comprou um assento Citroën.
Archipenko comprou um limão Citroën.
Francis Picabia tem um Citroën de socorro.
Citroën comprou um quadro cubista e o cubismo é todo ele um quadro Citroën.

Tradução portuguesa de Mário Cesariny. Do Citroën não sabemos, mas Gabrielle Buffet foi trocada por Germaine Everling no regresso a Paris. Tratamentos na Suiça afastam-no da pintura, mas aproximam-no da poesia. Contacta com Tristan Tzara, separa-se da primeira mulher e dos quatro filhos, parte para a aventura dadaísta na companhia de Germaine. Com Tzara e Breton, a festa Dada desdobra-se em revistas, publicações de ordem diversa, happenings, livros. Picabia publica Jesus-Christ Rastaquouère em 1921. Depois é o que se sabe: conflitos internos, inveja, egos hiperbólicos, desmembraram o grupo. Picabia prossegue sozinho, compõe colagens, polemiza com panfletos apontando espingardas contra o surrealismo, instala-se na Côte d’Azur levando uma vida que dará azo a todo o tipo de especulações, apaixona-se por Olga Mohler, uma jovem contratada para tomar conta de Lorenzo, filho de Picaia com Germaine Everling. Tornam-se famosas as soirées do casino organizadas por Picabia, a quantidade infindável de veículos que adquire, o dinheiro que esbanja durante os anos passados entre o Château de Mai, construído perto de Cannes, e Paris. Picabia é a estrela dos clubes nocturnos, das galas, da vida mundana. Vive a três, com o coração dividido entre Germaine e Olga. As relações com Gabrielle Buffet, Germaine Everling e Olga Mohler acabam por pautar-lhe os períodos artísticos. A Segunda Grande Guerra apanha-o já na companhia de uma só mulher: Olga Mohler. Continua a trabalhar, regressando às fases figurativas dos primeiros anos. Distancia-se dos movimentos vanguardistas, assume posições apolíticas, abandona a ostentação e o luxo, pinta de um modo cada vez mais realista. Sofre a primeira hemorragia cerebral. Regressa com Olga a Paris, ao mesmo tempo que regressa também às letras. Publica Thalassa dans le desert (1945). Em 1949 é organizada uma retrospectiva da sua obra, são instantes de celebração efémera: assaltam-lhe a casa no momento da estreia e deixam-no sem cheta. Os últimos anos não serão especialmente felizes. A arteriosclerose rouba-lhe a fonte de sobrevivência, a pintura. Morre a 30 de Novembro de 1953.

A CRIANÇA

Gastou-se o Outono
pela criança
de quem se gostou.
Como um abutre
sobre uma carcaça,
diminui a família
e já desaparece
como borboleta.


Francis Picabia, in Antologia do Humor Negro, org. Andre Breton, trad. Jorge Silva Melo, Edições Afrodite, Abril de 1973, p. 306

Quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

A CICATRIZ DO AR

A aventura de Jorge Fallorca (n. 1949) na selva das letras portuguesas pauta-se por nunca ter o aventureiro andado em busca da esmeralda perdida. Lançou dois livros na década de 1970: Imitação da Morte dos Outros (&etc., 1976) e A Luva In Love (Assírio & Alvim, 1977). Depois, quando nada o profetizava, resolveu desaparecer. Em entrevista cedida a António Cabrita, agora recordada, à laia de errata, no final deste A Cicatriz do Ar (edição de autor, Novembro de 2009), as razões do sumiço são explicadas pela consequência: «Felizmente proporcionei-me tempo suficiente para me cansar de mim, e creio ter corrigido o atrevimento». Sucede que a mossa estava criada. Os mais desatentos desconhecerão o texto de guerrilha que Luiz Pacheco dedicou ao segundo livro de Fallorca, apontando «jogos de palavras, brinquedos de garotos viciados, passatempos patetas», continuando, naquele estilo exercitado que alguns lhe reconhecerão, com o diagnóstico de um “livrito” que «não passa de um arroto, mal-humorado como tu próprio em pessoa», para culminar nesta sentença: «Foleirices, fallorquices, fumarada idiota para os nossos narizes» (Diário Popular, 15 de Setembro de 1977).

Luiz Pacheco era «contraditoriamente insurrecto e conservador» (Torcato Sepúlveda), escolhia bem os alvos e reagia à desconstrução como outros, noutras épocas, reagiram aos libertinos que ele próprio idolatrava. Estávamos nos 70s portugueses, distantes no tempo mas próximos, em termos de convulsão social, dos 50s norte-americanos. Não admira que por cá tenha aparecido um conjunto de autores a escrever ao som do eco beatnik. Alguns dos mais relevantes terão sido Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Jorge Fallorca. Em 2001, este resolveu remontar os livros iniciais, reorganizando (quase) tudo no volume Fruta da Época (frenesi). De resto, não me recordo de um autor relevante dessa fornalha que não tenha, posteriormente, revisitado os textos inaugurais. Suponho que isso se deva ao facto de haver, nestes autores, uma indissociável correlação de forças entre a escrita e a vida. Ou seja, estes são autores que escrevem em relação com o tempo habitado, não buscam nas palavras o saguão da intemporalidade, manifestam antes um completo desprezo pela cultura pretensamente universalista que as academias procuram impor como sendo de todos e para todos, não fosse ela para cada um conforme as especificidades de cada qual.

Acontece que, por vezes, a escrita torna partilháveis as singularidades de uma vida concreta, provocando encontros, gerando simpatias (ou antipatias), alimentando vítimas de uma fome insaciável. Há um poema do livro Longe do Mundo (frenesi, Maio de 2004) que toca, precisamente, na ferida: «Decorrido meio século de existência, li e escrevi o suficiente para considerar a escrita ─ como qualquer acto criador ─ antropófaga até à vileza» (p. 16). Os corpos que servem de alimento à escrita são as vidas que nela se põem, agora desconstruídas pelo simulacro da palavra ou, se preferirem, reconstruídas pela misteriosa e inexplicável existência do texto. A Cicatriz do Ar volta a lembrá-lo no seu Bloco-Notas introdutório. Nessa parte do livro, a vida literária é não só a daquele que escreve como também a daquele que lê. O escritor desdobra-se no papel de leitor, cita as suas referências, evoca o “prazer da leitura”, os textos que o acompanharam pelos lugares trazidos à página: as casas de Monte Alto e Carnaxide, Huelva, Lisboa, Tânger, o Sul. A geografia do corpo é a geografia da escrita, a qual se revelará, na parte que oferece título ao volume, transfronteiriça, sem lugar que não seja o do corpo solitariamente entregue aos seus exercícios de ir vivendo «com o horizonte esticado pela crueza dos panos da viagem adiada e silenciosa/ à tona da vida, lastrada pelo remorso e a saudade» (p. 76).

Os apontamentos biográficos indicam que as décadas de 1980 e 1990 foram, para Fallorca, décadas de dispersão por folhetos breves, colaborações avulsas com suplementos da imprensa escrita, trabalhos radiofónicos, participações em algumas antologias. A dispersão encontrou termo em 1999, com a publicação de Água Tatuada (&etc). Seguiu-se a tal revisitação da obra inicial, duas narrativas de viagem para a Teorema, Entre Chipiona e Tarifa (2002) e Al-Khaïma (2004), a colectânea Longe do Mundo. A Cicatriz do Ar é, pois, pelo que foi dito e não só, um livro que oferece continuidade à “vagabundagem” literária. As partes que agora se reúnem e se relacionam mostram-nos um autor despreocupadamente entregue à escrita do seu mundo. A palavra tranquilidade que se repete em alguns dos textos coligidos induziria em erro não fosse a clareza do desabafo: «Decorridos cinquenta anos, aprendi a não dramatizar e a não dar mais importância ao que me acontece do que o simples facto de ter acontecido. Repugna-me, fatiga-me a lufa-lufa da necessidade de criação; sufoca-me a excitação da espera, frequentemente frustrante» (p. 21). Entre esta passagem e a passagem de Longe do Mundo supracitada, o leitor não carecerá de mais explicações: o que neste, como noutros livros de Fallorca, se sustenta é o gozo da deambulação, o prazer da errância e o culto de uma certa vagabundagem (intelectual) que ousa embriagar-se com a língua em que se exprime ao mesmo tempo que se deixa embriagar pela vida que a expressa.

Escrito para o Rascunho.
Perante o enorme entusiasmo de Ginsberg em conhecê-lo, aos 83 anos, Ezra Pound confidenciou: "A minha obra, exceptuando meia dúzia de bons momentos, é pura vaidade."
aqui

A CRIANÇA DIABÓLICA

Armando, o catequista, não gostava de crianças. Tinha a seu cuidado um conjunto de seis, das quais cinco eram simplesmente parvas, fáceis de impressionar, manipuláveis. A restante mostrava-se obstinada e teimosa. Armando contava às crianças histórias aberrantes sobre a importância da dimensão inestética nos apelos da fé, chamando a atenção para os pregos nas mãos e nos pés de Jesus crucificado. Aqueles pregos não podiam ter sido assim pregados, o peso romperia as carnes e Jesus estatelar-se-ia no chão como um quadro mal pendurado numa parede. As cinco crianças parvas ficavam muito impressionadas com aquelas histórias, sentiam um arrepio na espinha que era denunciado por um ar ao mesmo tempo enojado e sensibilizado. Armando chamava-lhes crianças de fé. Mas a sexta criança não ia em cantigas, dizia que aquilo tudo era só para impressionar, para manipular os sentimentos das pessoas, que importava mais a mensagem do homem do que a sua figura espetada numa cruz oferecendo à imaginação das pessoas sugestionáveis, gente que até por um porco a sangrar suspiraria de piedade, rios de sangue e de sofrimento. Armando chamava diabólica a esta criança, pondo-se então a perorar sobre energúmenos, os filhos do demónio que espumavam ódio da boca e se contorciam de raiva perante a devoção misericordiosa do Senhor. E enquanto assim perorava, Armando sofreu um ataque de epilepsia. Caiu ao chão com convulsões, espumava da boca que parecia um barril de imperial a ser encetado, contorcia-se, esperneava, afastando tudo o que havia a seu lado, atirando cadeiras pelo ar movidas por uma qualquer força sobrenatural. Terminado o ataque, as cinco crianças parvas, as de fé, mostraram-se muito impressionadas, pensaram que Armando era um daqueles energúmenos da prédica anterior. Nunca mais apareceram na catequese. A criança diabólica sugeriu que Armando consultasse um médico quanto antes. Assim fez o catequista. E o médico sugeriu a Armando, entre outras coisas, a prática da hidroginástica. A primeira sessão foi reveladora do que esperava o pobre catequista que não gostava de crianças. Não só era o mais novo da turma, como o único homem. Rodeado de velhas sexagenárias e septuagenárias, de touca enfiada na cabeça e óculos de natação apertados contra o cachaço, Armando descobria agora que não só não gostava de crianças como desprezava os velhos. Num dos exercícios, foi obrigado a dançar, ele que odiava dançar, uma música qualquer que falava de bombas e indicava aos bailantes que assentassem uma mão na cintura, outra na cabeça, fizessem um movimento sexy. Armando fez aquilo tudo olhando envergonhadamente à sua volta. Mas rapidamente a vergonha se transformou num nojo quase impossível de conter. Apeteceu-lhe vomitar, tal era o ridículo da situação: ele ali rodeado de velhas de sessenta e setenta anos a tentarem compor movimentos sexy com a cintura. Conteve-se. Depois foi empurrado para um jogo com argolas. A ideia era só partilhar com um parceiro uma argola. Calhou-lhe de parceria uma velha tão gorda que nem dentro de água conseguia elevar-se um centímetro do chão. A primeira vez que lhe lançou a argola, Armando ficou estupefacto ao vê-la enfiar-se directamente na cabeça da velha, ficando dependurada à volta do pescoço como se fosse um colar. Depois era suposto a velha dobrar-se e passar a argola por debaixo das pernas, para que Armando, situado nas costas da velha, pudesse tê-la novamente em sua posse. Acontece que a velha mal se conseguia dobrar. Armando agachou-se e tentou apanhar a argola metendo o braço entre as pernas da velha. Como não gostava de perder nem a feijões, foi enfiando cada vez mais o braço, ficando preso entre as banhas das coxas da velha que mal se conseguia dobrar mas dava agora uns pulinhos muito ligeiros enquanto pronunciava um Ai menino, ai menino que Armando se esforçava por não ouvir. Com o braço enganchado entre as pernas da velha, Armando conseguiu finalmente alcançar a argola, fazendo-a deslizar contra o corpo da velha por não haver outra possibilidade de a fazer passar sob aquelas banhas descomunais. Armando sentiu enorme satisfação ao ver-se livre daquele cenário, mas quando voltou a olhar a velha nos olhos e reparou que esta lhe oferecia um arqueado de sobrancelhas acompanhado de movimento sexy, a satisfação transformou-se em choque. Nunca mais regressou à hidroginástica. Dedicou-se ao catecismo, agora com uma única criança a seu cargo. A criança diabólica.

Quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010

A LER

A Parúsia de Cláudio Anaia, por Luís Rainha. Ou então este magnífico currículo que ilustra bem a índole de quem nos (des)governa. Começa assim:

Cláudio Manuel Maurício Anaia, filho de mãe solteira, nasceu a 19 de Dezembro de 1972, na cidade de Montijo. Com dois anos foi morar para o Barreiro com sua mãe e padrasto. Aos cinco começou a destacar-se das demais crianças pela sua forma de Ser e Estar. Esse facto veio a reflectir-se mais acentuadamente entre os 8 e 12 anos, período em que participou em vários Festivais da Canção Infantil nas festas do seu bairro, tendo ganho alguns deles. Também a prática de ténis de mesa o levou a ser conhecido pelas vitórias que obteve em quase todos os torneios onde se inscreveu na fase da sua adolescência.

CALENDÁRIO


Tiro o dia para apanhar o prego virado para cima.

Troco várias vezes de roupa até ficar uma linha apenas, do lado de fora, sobre a pele.

Olho para o correio que tenho recebido e percebo que só faltaria uma vez, a primeira, para o carteiro chapar as mãos em Hollywood, ser de cera.

Corro para o kiwi, esmago-o na cabeça, distribuo-o pelas madeixas, guedelhudo, mais que a mosca, mais que todas as moscas da casa na banana do pintor bacon.

Todo o dia sem me ocorrer tocar no tecto. Toco às vezes com o dedo no nariz, na marca das cuecas, no chão.

Uso o atacador no bolso do casaco, solto um pé de cada vez.

Peço uma planta de localização nos serviços da câmara. Envio-a por correio, digo ao amor para ele ir ter ao x.

Deito-me de costas, viro, misturo com o vento das janelas abertas. Não sei qual é a fibra nem a ponta molhada deste frio.

Vou à porta, são duas meninas a pedirem-me emprestado o resto que me sustenta, para saltarem um bocadinho ali por baixo, ao elástico, na rua.

No silêncio da noite, a noite na minha frente, pouco escuro há para trás, a luz está de cabeça para baixo, procura no grão da lã da alcatifa um luminoso, um espelho.

Tiro o dia virado para este lado, por trás do ombro.

Pensar como será, quando eu tiver cinquenta e um por cento de mim para fora.

Ponho duas molas de roupa nos ombros, espero um dia sem chatices.

Se conseguirmos montar os dois cubos gigantes em cima um do outro chegaremos a algum local novo.

Tiro o dia para o queixo tocar no peito mas nem levitando.

Pernas magras, este cabelo apanhado, um quarto pago por mim, mas um vazio que me enche como um prato cheio de comida, os meus olhos no prato, duas cerejas adormecidas.

Vamos de táxi, vamos de carro, eu não sei ir de carro, vamos depressa, vá mais depressa, buzine, vamos depressa, já perdi muito sangue, toma o meu, vamos depressa, não brinques.

Grito de dentro do meu saco posto à porta.

O tapete mágico leva-me o sono para trás do muro. A sardanisca está lá, no seu banho, com a sua touca, com as suas luvas. Depois a sardanisca vai para o sol. À noite a sardanisca vai para o céu. No dia a seguir é a mesma coisa.

Depois de cantar à janela, os pássaros mais novos picam-me os restos de chá na barba e, antes da lua estar pronta, as nuvens não abrem.

Comprar uma bola, usar a cabeça mesmo que vá para fora.

E no fim pensar, a passagem secreta ri-se de mim, este mundo já eu conheço.

Nuno Moura, in Calendário das dificuldades diárias, &etc., Setembro de 2002, pp. 11-15.

POSSIVELMENTE TALVEZ


Levanta-te, diz-me o anjo de dentes afiados, sentado na ombreira a jogar as cartas do destino. Não me queixo, estou silenciado por um exército íntimo em armistício permanente com o mundo à minha volta. Fui atacado pela agonia apática da simpatia. Agora, está nas minhas mãos salvar-me dos anjos de dentes afiados. Não tocam guitarra, manipulam teclas, vertem palavras, são académicos na abordagem participativa. Digamos que nos olham como Piaget olhava para os filhos. Mas ao longe uma voz ecoa e o meu coração bate pop por essa voz. Não vivo numa montanha verde visitada por ursos, onde pastam ovelhas e cabras, não vivo numa montanha onde seja preciso rachar troncos de madeira para aquecer a sopa, não vivo numa montanha com casas de madeira, onde fosse, digamos, poético adormecer o corpo numa cadeira de balouço com os pulmões refrescados pelo cachimbo, não vivo numa montanha a salvo das vistas ruinosas. Posso mesmo afirmar que, não vivendo numa montanha, vivo num monte de ruínas com hábitos pouco aconselháveis para o começo de um dia. Por exemplo, acordar. Estranho hábito, este de ir acordando todos os dias com o coração a bater-me pop pela voz que se ergue lá do longínquo horizonte atravessado pela neblina. Porém, todos os dias avisto os cavalos na hora do repasto, todos os dias avisto o milhafre na oliveira morta, todos os dias avisto os bichos mortos na auto-estrada, todos os dias a coruja chora para mim um pouco da sua dor, todos os dias as nuvens formam lá no alto o corpo da tua voz, todos os dias um violino repercute a solidão dos meus olhos, todos os dias me levanto e banho o corpo na contemporânea água quente dos banheiros, todos os dias penso: está um belo dia para mudar de casaco, vestir a camisa de flanela e rachar lenha no cume da montanha imaginária. Ah, sim, eu ponho-me a imaginar coisas enquanto o meu coração bate pop ao som da tua voz. Peço boleia ao primeiro carro que passa e parto sem destino, vou a nado para Moçambique, meto-me a dançar ao som das engrenagens irritantes do consumo, os ruídos monocórdicos, desesperantes, afiados, das máquinas. Ah, sim, eu ponho-me a imaginar que o mundo foi sempre esta coisa meio desesperada de andarmos para aqui aos trambolhões sem razão para nada que não seja metermos toda essa nossa desesperança num pequeno caderno preto. Mas depois olho à minha volta e reparo que nem por isso os cadernos pretos têm sido bom negócio. Talvez as pessoas escrevam com o sarro das unhas, talvez não precisem da brancura das páginas, talvez necessitem apenas daquele ssshhhhhh que a Björk assobia para dentro dos sinos, enquanto acalma a criatura chamada desejo que vive dentro do coração, talvez as pessoas dancem melhor ao som dos fusíveis que atribuem às discotecas aquele não sei quê de santuário hiperbólico do disfarce. É isto mesmo, aquietado na modorra dos dias, o meu coração bate pop à chegada da tua voz. Aperto o pescoço aos anjos de dentes afiados, retorço-lhes o pescoço, arranco-lhes a cabeça, atiro-os ao chão, espezinho-os, esmago-os com o peso das minhas frustrações, divirto-me muito a formular desejos: I wish I’d only look and didn’t have to touch. Ah, sim, eu gosto de entregar o corpo a estes ritmos, de programá-lo em consonância com os tiquetaques das tribos e imaginar-me a orar contra o quebranto da espera. Levanta-te, diz-me o anjo de dentes afiados, sentado na ombreira a jogar as cartas do destino. Mas levanto-me para que alto? O tecto dos sonhos comprimiu-me contra a fundura da realidade, estou aqui que não me posso mexer, coitadinho de mim, dêem-me espaço, dêem-me tempo, estou aqui que não me posso, nana na nana.

Terça-feira, 19 de Janeiro de 2010

LIKE A ROLLING STONE




Ainda criança, sonhava baixinho, encostado às paredes da vergonha, que um diria seria marinheiro. Não me deu oceanos a vida, senão espuma, areia, algumas ilhas. Fiquei-me na borda dos rios, a pescar à linha peixes minúsculos que depois libertava do anzol e devolvia aos caudais, por ainda ter para com a vida animal um certo respeito lúdico que já não consigo ter para com a vida dos homens. Agora adulto, sonho acordado com esses sonhos antigos. Penso que teria sido melhor resvalar na lama, ser levado pela corrente, desaguar naufragado na foz dos mortos. Mas logo me arrependo do que penso. Afinal estou hoje como aqueles peixes abocanhados no anzol, contorço-me, revoluteio-me, só não sei se quem me pescou terá para comigo o respeito lúdico que em tempos eu tive pela vida dos peixinhos de água doce.

GUARDA-ROUPA


Leitor atento levantou a questão do investimento automóvel na minha última contribuição para a imaginação de Van Zeller. Esclareço que não se trata de investimento algum. Como venho dizendo, heranças e tradições familiares permitem-me alguns luxos. Ora, tal como a “aparelhagem” SONY, também o Ibiza foi conquistado por bom comportamento. Era tradição na família presentear a Licenciatura com carrito de estilo ligeiro. Tradição que, está bem de ver, terá de ser quebrada junto das próximas gerações. Pois bem, não tendo eu sequer carta de condução quando dei por finada a exploração académica, fui pressionado pela família a inscrever-me numa escola de condução, de modo a poder-me ser ofertado o bólide a que tinha direito. Ainda tentei fazer-me à massa em troca das quatro rodas, tentativa malograda pela evidente constatação de que mais rapidamente me faria à estrada com dinheiro no bolso do que com carro para sustentar. Assim me prenderam à terra os meus queridos e prestimosos pais. Feitas as contas, encho o depósito, no mínimo, duas vezes por mês, o que me rouba mais 120€ (raciocino pelos mínimos) aos 337€ que me restavam. Ora, ficam-me 217€ por mês para a rambóia. Repare-se que excluo das contas várias despesas concernentes à circulação, das portagens que pago diariamente aos seguros, revisões, inspecções, outros que tais. A modos que fiquemo-nos pelos 217€. Tenho outra vantagem sobre a maioria dos demais. Não gasto um tostão em roupa. Esta terceira necessidade do homem (as outras são alimentação e casa) está-me garantida pelo negócio familiar do pronto-a-vestir. Dou-me inclusive à opulência de possuir um guarda-roupa pejado de fatos que nunca visto, gravatas que nunca uso, malhas que nunca teço. Limito-me a comprar sapatos (uma média de um par por ano), para não ter de andar descalço. Recuso-me a dar mais que 50€ por um par de sapatos, o que, dividido por 12, dá uma média de 4,16€ por mês. Sendo assim, já só tenho 212,84€. Talvez venha a investir em acções da CIMPOR. Dir-me-à o leitor amigo se farei bom investimento (siga o link).

CONGESTÃO CEREBRAL


Mestre do horror, pai do policial, poeta maldito, assim aparece muitas vezes recordado o génio de Edgar Allan Poe. Nasceu em Boston, filho de actores itinerantes, a 19 de Janeiro de 1809. O pai terá morrido em 1810, falecendo a mãe no ano seguinte. Deixaram três órfãos. Edgar foi acolhido por John Allan, um comerciante de tabaco, William faleceu novo e a irmã Rosalie acabou por enlouquecer mais tarde. A tragédia de Edgar Allan Poe estava traçada. Ainda criança, denota uma forte inclinação para a poesia. John Allan, o pai adoptivo, leva-o para Inglaterra, onde fez os primeiros estudos. De regresso aos states, dedica-se à poesia satírica, estuda em colégios privados de Richmond, «tem uma paixão platónica pela mãe de um dos seus colegas, Jane Stanard, que vem a morrer tuberculosa em 1824». A morte foi sempre a melhor amiga de Poe. Passeia-se pela Universidade de Virgínia, mas o vício do jogo e as dívidas contraídas acabam por dar-lhe cabo dos planos. A relação com John Allan deteriora-se. Como se não bastasse, a paixão pela jovem Elmira Royster encontra a oposição das respectivas famílias. Pior ainda quando, de visita à amada, Poe descobre-a comprometida com outro indivíduo. Conta-se que terá estado presente na festa onde foi feito o pedido de noivado, apurando com Elmira a existência de cartas de amor interceptadas. Nada havia a fazer. Poe rompe com a sua família adoptiva, parte para Boston, junta-se ao exército e publica o primeiro volume de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827), a expensas próprias. Reaproxima-se de John Allan após a morte de Frances, a mãe adoptiva. Publica Al Aaraaf, Tamerlane and Minor Poems (1829). A vida no exército não lhe correrá de feição. Poe tem um comportamento negligente, escreve versos satíricos que têm por alvo os oficiais, provoca a sua expulsão da academia, o que acontece a Janeiro de 1831. Vai viver para Baltimore, amparado pela tia Maria Clemm. Vê um conto seu ser premiado, enceta carreira nos jornais e nas revistas, mas também aprofunda o vício alcoólico. Em 1836 casa com a prima Virginia Clemm. Virginia tinha apenas 13 anos. Morrerá tuberculosa em 1847, depois de ter passado praticamente os últimos cinco anos de vida inválida. Muda-se para Nova Iorque, depois Filadélfia, colabora com a imprensa, publica contos fantásticos e recensões, faz-se valer da “vocação polemista” e, em Julho de 1838, publica a novela The Narrative of Arthur Gordon Pym. Agastado com a doença de Virginia, imerso em dívidas, refugia-se no álcool e nas drogas. Em 1843 vai a «Washington para uma entrevista relativa a um cargo nas alfândegas da administração Tyler, porém embriaga-se e arruína as hipóteses». Nesse mesmo ano inicia um circuito de conferências sobre poesia norte-americana. Almeja fama e sucesso com a publicação do poema The Raven (1845). Com a mulher bastante doente, «corteja literariamente a poetisa Frances Sargent Osgood». A depressão e acessos de loucura perseguem-no. Tenta suicidar-se com láudano. São publicados vários apelos à caridade para com Poe e a sua família. Virginia morre em 1847, Poe adoece gravemente, continua a trabalhar, é publicado em França, suscita o interesse de Baudelaire, mas já pouco havia a fazer pela sua recuperação. Mantém vários romances, dos quais os mais conhecidos terão sido com as poetisas Sarah A. Lewis e Sarah Helen Whitman. Chegou a estar noivo desta última, mas os excessos alcoólicos afogaram as núpcias. Cada vez mais dependente do láudano, quase morre novamente em Novembro de 1848. Em 1849 fica noivo de Elmira Royster Shelton, a namorada de infância agora viúva. Em Setembro desaparece por alguns dias. Perdido algures entre Richmond e Nova Iorque, é encontrado em absoluto estado de delírio numa taberna de Baltimore. Morre no hospital, a 7 de Outubro, vítima de «congestão cerebral»:

[SÓ]

Eu não fui, desde a infância
Como outros eram… não olhei
O que outros viam… não busquei
Na mesma fonte as minhas ânsias…
Não foi do mesmo poço que tirei
Minha amargura… meu coração
Não entoou, em coro, hinos de louvor…
E tudo o que eu amei, amei em solidão…
Então ─ na minha infância ─ no alvor
De minha vida atormentada, fui refém
Do mistério que ainda hoje sobrevém
Do abismo donde brota o mal e o bem…
Da torrente, da nascente…
Da rubra fraga ascendente…
Do Sol que em mim revolveu
No seu fulgor outonal…
Do clarão que ascendeu
Pelo espaço, e em mim rasou…
Do trovão, do temporal…
Da nuvem que se moldou
(Conquanto azul fosse o céu)
Em demónio e me ensombrou.


Edgar Allan Poe, in Obra Poética Completa, trad. Margarida Vale de Gato, Tinta-da-China, Março de 2009, p. 199. Do mesmo poema, publiquei ali uma versão minha em Julho de 2005. Relembro-a agora:




Desde a hora da infância eu não fui
Como outros foram - eu não vi
Como outros viram – não pude tomar
Minhas paixões duma primavera vulgar.
Da mesma nascente eu não traguei
A minha tristeza; eu não despertei
Para o júbilo comum o meu coração;
E tudo o que amei, eu amei em solidão.
Nesse tempo da infância ─ na madrugada
Da vida mais tormentosa ─ foi traçada
Das profundezas do bem e do mal
O mistério que me mantém sem igual:
Da torrente ou da fonte,
Do rubro penhasco do alto monte,
Do sol que gira em meu torno
Num matiz dourado de Outono ─
Do relâmpago no céu
Que tão perto de mim se deu ─
Da tempestade e do trovão,
E da nuvem que adquiriu a feição
(Quando azul era o resto dos Céus)
De um demónio aos olhos meus.

DRACONIANAS

Tem um livro do Jorge Amado que se chama A Andorinha Sangrenta?

*

Tem o último livro do António Lobo Antunes? Acho que se chama Os Cavalos Amarelos.

Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

DOUBT


John Patrick Shanley, realizador de Doubt, foi o argumentista de Alive (1993), um filme de que alguns se recordarão pelas cenas de “canibalismo”. Ironias da sobrevivência. Mais discreto, o filme que opõe Meryl Streep (1949) a Philip Seymour Hoffman (1967), dois actores multifacetados com vários desempenhos de excelência no currículo, volta a incidir sobre a problemática do dilema moral. Agora, já ninguém tem de comer carne humana para sobreviver. Pelo menos, literalmente. Mas no ambiente eclesiástico que suporta a acção, o dilema moral surge intensificado pela não excepcionalidade da situação vivida. Temos um padre progressista e uma freira conservadora em conflito no território – simbólico - de um colégio. Digo simbólico por naquele colégio vislumbrarmos um campo de decisão sobre o futuro, ao passo que as barreiras interpostas entre a directora do colégio e o padre estão directamente relacionadas com o passado de cada um deles. A montagem é inteligente, deixa o espectador numa expectativa nunca desmascarada. John Patrick Shanley, o realizador, joga com insinuações, sugestões, simulacros, induz-nos a pensar isto ou aquilo conforme as “constrições” de cada uma das personagens. Há uma criança problemática cujo problema desconhecemos, não é objectivado, ainda que seja sugerido. Há uma relação de índole desconhecida entre essa criança e o padre, mas várias sugestões são feitas no sentido de ficarmos a pensar que o padre poderia abusar da criança, que a criança – um preto num colégio de brancos – poderia denotar comportamentos homossexuais, que o pai da criança o agrediria por isso mesmo, etc. E depois há a desconfiança da irmã Aloysius, directora do colégio, baseada em boatos, insinuações, uma suspeição debilitada pela incerteza, fundamentada apenas numa fé que se revela demasiado frágil perante a ausência de prova. As homilias do padre vão pontuando a relação de desconfiança estabelecida entre ambos, o plano de insinuações nunca resolvidas que coloca cada um deles num problemático fosso de incertezas, como se cada um, falando com o outro, estivesse apenas a falar para si próprio, nunca sendo absolutamente claro na manifestação dos seus sentimentos e das suas dúvidas. Esta situação, geradora de qualquer tipo de boataria, gera igualmente a bisbilhotice, o desejo de ver para lá do visível. O que há de mais interessante no filme é, precisamente, esta teatralidade dos diálogos, onde o que fica por dizer parece sempre mais determinante para as acções do que aquilo que é dito. Olhamos para aqueles dois como quem lê um texto metafórico, tentando compreender o segundo sentido que se esconde por debaixo do véu dissimulador da verdade, um véu de silêncios ou de palavras, tanto faz, um véu que nos coloca o mais elementar desafio do entendimento: procurar espreitar por debaixo da fé. Jesus falava por metáforas, diz-se. Nas suas metáforas esconder-se-ia a verdade. Por que não falava ele por verdades preferindo exprimir-se através de metáforas será problema a decifrar pelos exegetas interessados no assunto. Talvez porque as metáforas exemplificam a verdade, talvez por não esperar que os crentes sentissem necessidade de bisbilhotar para lá da fé que a metáfora exige. Porque a fé, de algum modo, é já interpretação. Uma interpretação sem intriga, assente apenas no princípio do acolhimento. Faltando essa fé, instaura-se a dúvida. Instaurando-se a dúvida, abala-se a fé. O sentido crítico da fé estará sempre, por isso mesmo, mais em acreditar com dúvidas do que autoconvencer-se sem incertezas. Julgo que é isso que a irmã Aloysius descobre no final.

INSÓNIA

Hoje à noite, no Prós & Contras, debater-se-á a indiferença dos portugueses para com todo o tipo de debates. Hoje à noite, Marcelo Rebelo de Sousa escolherá as melhores fotografias da tragédia no Haiti. Hoje à noite, Martim Cabral e Nuno Rogeiro explicarão aos portugueses para que serve um Hércules C-130. Hoje à noite, António Vitorino elogiará Manuel Alegre. Hoje à noite, José Sócrates distribuirá computadores Magalhães pelas crianças do Haiti. Hoje à noite, Cavaco Silva não comentará. Hoje à noite, Vasco Pulido Valente tentará explicar aos portugueses que Portugal é o Haiti da Europa. Hoje à noite, António Barreto tenderá a concordar com Vasco Pulido Valente, passe embora o exagero da comparação. Afinal, Portugal é só o Burkina Faso da Europa. Hoje à noite, George W. Bush pedirá dinheiro para o Haiti ao mesmo tempo que o furacão Katrina pestanejará no Iraque. Hoje à noite, Fernanda Câncio promoverá o casamento gay no Haiti em prol do robustecimento demográfico e económico desta nação das Caraíbas. Hoje à noite, Angelina Jolie e Madonna darão o exemplo adoptando crianças órfãs do Haiti que deambulam pelas cidades dos EUA. Hoje à noite, Medina Carreira refutará as previsões maias. O mundo já acabou, nós é que andamos distraídos. Hoje à noite, Pedro Santana Lopes andará por aí. Hoje à noite, Pacheco Pereira argumentará contra a comunicação social servindo-se da comunicação social. Hoje à noite, Manuela Ferreira Leite aliviará os joanetes com palmilhas ortopédicas. Hoje à noite, Clara Ferreira Alves citará Michel Houellebecq a propósito do Haiti. Hoje à noite, Daniel Oliveira andará muito indignado. Hoje à noite, Catarina Furtado será nomeada embaixadora dos embaixadores. Hoje à noite, Ricardo Araújo Pereira escreverá umas piadas giras. Hoje à noite, Pedro Mexia também. Hoje à noite, o Papa descalçará os seus sapatos vermelhos, retirará o seu chapéu Saturno e o camauro, despirá a Mozzetta, rezará pelas vítimas da fome, adormecerá a ver filmes do Manoel de Oliveira. Hoje à noite, os ricos adormecerão no aconchego do lar, os pobres dormirão ao relento, povos exóticos e mediaticamente fotogénicos comercializarão restos de comida encontrados em lixeiras. Hoje à noite, à distância, eu estarei a trabalhar até às 23h. Depois, muito provavelmente, serei assolado por mais uma insónia.

POEMA MODERNO



Apesar de os poetas terem logrado inventar o verso e a linguagem que a vida moderna estava a exigir, a verdade é que não conseguiram manter ou descobrir os tipos, géneros ou formas de poemas dentro dos quais organizassem os materiais de sua expressão, a fim de tornarem-na capaz de entrar em comunicação com os homens nas condições que a vida social lhes impõe modernamente.
O caso do rádio é típico. O poeta moderno ficou inteiramente indiferente a esse poderoso meio de difusão. À excepção de um ou outro exemplo de poema escrito para ser irradiado, levando em conta as limitações e explorando as potencialidades do novo meio de comunicação, as relações da poesia moderna com o rádio se limitam à leitura episódica de obras escritas originariamente para serem lidas em livro, com absoluto insucesso, sempre, pelo muito que diverge a palavra transmitida pela audição da palavra transmitida pela visão. (O que acontece com o rádio, ocorre também com o cinema e a televisão e as audiências em geral).
Mas os poetas não desprezaram apenas os novos meios de comunicação postos a seu dispor pela técnica moderna. Também não souberam adaptar às condições da vida moderna os géneros capazes de serem aproveitados. Deixaram-nos cair em desuso (a poesia narrativa, por exemplo, ou as
aucas catalãs, antepassadas das histórias de quadradinhos), ou deixaram que se degradassem em géneros não poéticos, a exemplo da anedota moderna, herdeira da fábula. Ou expulsaram-nos da categoria de boa literatura, como aconteceu com as letras das canções populares ou com a poesia satírica.
No plano dos tipos problemáticos, tudo o que os poetas contemporâneos obtiveram, foi o chamado "poema" moderno, esse híbrido de monólogo interior e de discurso de praça, de diário íntimo e de declaração de princípios, de balbucio e de hermenêutica filosófica, monotonamente linear e sem estrutura discursiva ou desenvolvimento melódico, escrito quase sempre na primeira pessoa e usado indiferentemente para qualquer espécie de mensagem que o seu autor pretenda enviar. Mas esse tipo de poema não foi obtido através de nenhuma consideração acerca de sua possível função social de comunicação. O poeta contemporâneo chegou a ele passivamente, por inércia, simplesmente por não ter cogitado do assunto. Esse tipo de poema é a própria ausência de construção e organização, é o simples acumulo de material poético, rico, é verdade, em seu tratamento do verso, da imagem e da palavra, mas atirado desordenadamente numa caixa de depósito.

João Cabral de Melo Neto, da tese Da Função Moderna da Poesia (1954), in Prosa, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1998, pp. 100-101. Sublinhado meu.

ILLUMINATI

A conversa com José Rodrigues dos Santos foi… interessante, nomeadamente quando se relativizou a “imortalidade/posteridade” da figura do escritor. Tenho podido constatar que o autor de Fúria Divina vende imenso. Ao contrário de outras estrelas da literatura portuguesa saídas dos ecrãs de televisão, o fenómeno dos Santos devia merecer uma atenção especial. Não é simplesmente autor de best-sellers descartáveis, daqueles que rebentam com o termómetro das vendas quando surgem e depois desaparecem para nunca mais serem procurados. Os primeiros livros de José Rodrigues dos Santos são igualmente pedidos. Como nunca li nenhum deles, não me pronunciarei sobre a qualidade dos mesmos, ainda que dos Santos me pareça um homem inteligente, culto, bem informado, qualidades que, por si só, não garantem um bom escritor. Mas a pergunta que se impõe é: o que “faz” um bom escritor? E aqui a subjectividade das respostas deixa-nos sem resposta. A mais razoável delas será: o que faz um bom escritor é ter escrito bons livros. Os bons livros não serão, por certo, aqueles que vendem muito, mas também não é certo que não vender muito garanta a qualidade do que quer que seja. A universalidade e a intemporalidade são, geralmente, argumentos falsos. Em literatura, toda a universalidade está circunscrita às elites interessadas e a intemporalidade só é constatável postumamente, ou seja, quando já ninguém se lembrar de nós. Se adoptarmos uma perspectiva lúdica da literatura, os bons livros serão os que entretêm muita gente. Mas esta é uma perspectiva redutora da literatura. Prefiro pensar que a literatura ─ tenha-se, definitivamente, a coragem de fazer incluir a poesia nesta “saca de orelhas”, afastando, de uma vez por todas, a balela de uma exclusividade que coloca o discurso poético num pedestal que só prejudica a própria poesia ─ congrega um conjunto diverso de características que a tornam boa ou má conforme o equilíbrio que se estabeleça entre as mesmas. Não me custa nada admitir que este ou aquele livro seja bom ou mau, não em si mesmo, mas em relação com o público a que se dirige, tal como a música é boa ou má, não em si mesma, mas em relação ao público a que se dirige. Talvez esta seja uma noção demasiado utilitarista do fazer criativo, mas a verdade é que nem a música nem a literatura de qualidade podem ser reduzidas às exigências de erudição com que o intérprete se defronta quando procura desfrutar das mesmas. O que garante, então, que a Ilíada e a Odisseia, a Antígona e o Rei Édipo, o Fausto e a Divina Comédia, permaneçam intactos ao longo de tantos anos, mesmo que tendo poucos leitores na actualidade ou não tendo senão leitores por obrigação? O facto de haver nessas obras exemplos perenes e perfeitamente comunicáveis da complexidade que atinge o ser humano quando se vê confrontado com as suas limitações, com as suas angústias, com as suas fraquezas, mas também com a sua capacidade de se auto-superar, em suma, o facto de essas obras nos confrontarem com a nossa própria natureza, comunicando e expressando emoções e conflitos por todos (pres)sentidos. O mais espantoso é que não tendo lido a Odisseia ou a Ilíada, muitos dos leitores de José Rodrigues dos Santos ou de outro qualquer best-seller da actualidade, estão a perpetuar os chamados grandes clássicos com o seu desconhecimento. Como? Permitindo que eles continuem a ser publicados, para que uma meia dúzia de visionários possa apartar-se da plebe afirmando que os leu. Se os leu mesmo, isso é outra conversa.