Domingo, 28 de Fevereiro de 2010

HOJE

Dito isto, Benjamim levantou voo. Quem sou eu no meio disto tudo? – questionava-se o pombo, quando uma ventania danada o empurrou aos trambolhões para o tecto do mundo. Benjamim fora apanhado por uma cornucópia de vento. Sugado aos ésses, estonteou mais ainda do que já estonteado voejava. Penetrou uma nuvem escuríssima, uma nuvem gorda de trovões e de granizo, pronta a rebentar um oceano inteiro sobre a terra. Arrastado para aquele inferno, Benjamim julgou-se no paraíso. O seu momento de vingança caíra-lhe, não do céu, onde se encontrava, mas da estratosfera, ou então levantara-se do chão para ao chão ir voltar. Benjamim afiou o bico e pôs-se a bicar a nuvem, assim como quem pica balões com alfinetes, mas furiosamente, com aquela cabecita de pombo num vai e vem desvairado de cabeçadas no ar que pretendiam fazer explodir sobre a cidade, fazer explodir raivosamente, uma nuvem carregada de desgraça. E tanto bicou a nuvem, que a nuvem cedeu. Sobre a terra caiu um temporal sem fim, um temporal que era ele próprio o fim, ou assim parecia, o fim do mundo, uma coisa nunca vista, pois antes apenas o princípio do mundo fora avistado sem que alguém tivesse sobrado para contar como nasceu esta coisa que agora acabava deixando por testemunha um simples pombo, um pombo assassino. Cruel, vigarista, ressabiado, remoído de ódio e desejos de vingança, o pombo Benjamim olhou-se no aguaceiro vazado sobre o universo e imaginou cada um dos gatos persas de Bianca afogando-se no leito do seu ódio, aqueles escaldados gatos persas afogando-se na água fria do seu ódio, e imaginou Bianca e Baltazar de mão dada, ela boiando, como um navio insuflável, sobre as águas nervosas da tempestade, e ele flutuando como uma rolha de cortiça sem rumo. Imaginou as águas subindo, subindo, subindo, deixando submersa a torre erguida no centro centralíssimo do mundo, subindo até ao ponto onde agora se encontrava, ele mesmo, o pombo Benjamim, imaginando coisas destas. E quando assim imaginava, pressentindo o temporal a chegar-lhe às patas, o pombo afastou de si a imaginação. Era um pombo, um simples pombo, um ser reles que inspirara algumas páginas a Darwin por não ter o nobre Charles, no seu tempo, sabido antecipar a desesperada vida de um pombo doméstico. Que vida esta? Não poder ser o que era, vendo-se obrigado a ser o que jamais seria pudesse ele ser tão-somente o que era. Era um campeão traído pelo amor entre dois seres solitários, era um ser solitário sem ter o que amar, era um ser tão solitário que nada mais lhe restava para amar senão ele próprio. E num amor-próprio desvairado Benjamim continuou barafustando contra o mundo: vejam, vejam, o povo, essa escumalha adestrada para o bom senso que passa o tempo todo a reclamar da refeição que o próprio cozinha.

Escrito para O Indesmentível.

Sábado, 27 de Fevereiro de 2010

BREVE PROGRAMA PARA UMA INICIAÇÃO AO CANTO


Ao escrever, e independentemente do valor do que escrevo, tenho às vezes a vaga consciência de que contribuo, embora modestamente, para o aperfeiçoamento desta terra onde um dia nasci para nela morrer um dia para sempre. Dou palavras um pouco como as árvores dão frutos, embora de uma forma pouco natural e até anti-natural porquanto, sendo como o é a poesia uma forma de cultura, representa uma alteração, um desvio e até uma violência exercidos sobre a natureza. Mas, ao escrever, dou à terra, que para mim é tudo, um pouco do que é da terra. Nesse sentido, escrever é para mim morrer um pouco, antecipar um regresso definitivo à terra.
Escrevo como vivo, como amo, destruindo-me. Suicidando-me nas palavras. Violento-me. Altero uma ordem, uma harmonia, uma paz que, mais do que a paz invocada como instrumento de opressão, mais do que a paz dos cemitérios, é a paz, a harmonia das repartições públicas, dos desfiles militares, da concórdia doméstica, das instituições de benemerência. Ao escrever, mato-me e mato. A poesia é um acto de insubordinação a todos os níveis, desde o nível da linguagem como instrumento de comunicação, até ao nível do conformismo, da conivência com a ordem, qualquer ordem estabelecida.
O poeta deve surpreender-se e surpreender, recusar-se como instituição, fugir da integração, da reforma que até mesmo pessoas e grupos aparentemente progressivos lhe começam subtilmente a tentar impor o mais tardar aos trinta anos. Abaixo o oportunismo, a demagogia, seja a que pretexto for. O poeta deve desconfiar dos aplausos, do êxito e até passar a abominar o que escreveu logo depois de o ter escrito. Numa sociedade onde quase todos, pertencentes a quase todos os sectores, procuram afinal instalar-se o mais cedo possível, permanecer fiéis à imagem que de si próprios criaram pessoalmente ou por interpostas pessoas, o poeta denuncia-se e denuncia, introduz a intranquilidade nas consciências, nas correntes literárias ou ideológicas, na ordem pública, nas organizações patrióticas ou nas patrióticas organizações.
Escrever é desconcertar, perturbar e, em certa medida, agredir. Alguém se encarregará de institucionalizar o escritor, desde os amigos, os conterrâneos, os companheiros de luta, até todas aquelas pessoas ou coisas que abominou e combateu. Acabarão por lhe encontrar coerência, evolução harmoniosa, enquadramento numa tradição. Servir-se-ão dele, utilizá-lo-ão, homenageá-lo-ão. Sabem que assim o conseguirão calar, amordaçar, reduzir.
É claro que falo do poeta e não do poetastro, do industrial e comerciante de poemas, do promotor da venda das palavras que proferiu. Falo do homem que nunca repousou sobre o que escreveu, que se recusou a servir-se a si e a servir, que constantemente se sublevou.
Falo do homem que, ombro a ombro com os oprimidos, empunhando a palavra como uma enxada ou uma arma, encontrou ou pelo menos procurou na linguagem um contorno para o silêncio que há no vento, no mar, nos campos.
O poeta, sensível e até mais sensível porventura que os outros homens, imolou o coração à palavra, fugiu da auto-biografia, tentou evitar a todo o custo a vida privada. Ai dele se não desceu à rua, se não sujou as mãos nos problemas do seu tempo, mas ai dele também se, sem esperar por uma imortalidade rotundamente incompatível com a sua condição mortal, não teve sempre os olhos postos no futuro, no dia de amanhã, quando houver mais justiça, mais beleza sobre esta terra sob a qual jazerá, finalmente tranquilo, finalmente pacífico, finalmente adormecido, finalmente senhor e súbdito do silêncio que em vão tentou apreender com palavras, finalmente disponível não já tanto para o som dos sinos como para o som dos guizos e chocalhos dos animais que comem a erva que afinal pôde crescer no solo que ele, apodrecendo, adubou com o seu corpo merecidamente morto e sepultado.


Ruy Belo, de Transporte no Tempo, in Obra Poética de Ruy Belo, vol. 2, Editorial Presença, 2.ª edição, 1990.

FORTE E VIGOROSO


«Tudo aquilo que não aconteceu a Ruy Belo mostra os mecanismos da merda em que nos fazem chafurdar» (Joaquim Manuel Magalhães). Ruy Belo nasceu em São João da Ribeira, aldeia do concelho de Rio Maior, a 27 de Fevereiro de 1933. Quem o conheceu, diz que era um rapaz tímido. Como praticamente toda a gente daquelas bandas, teve uma educação religiosa. Em 1943, matriculou-se no Liceu de Santarém. Concluído o Liceu, foi estudar Direito para Coimbra. Foi por essa altura que se comprometeu com o Opus Dei, organização que, segundo o próprio, veio a abandonar alguns anos depois por lhe ter sido proibida a escrita de poesia. Magalhães conta que Ruy Belo falava inclusive de um livro que fora obrigado a destruir por ordem do seu orientador espiritual. Isento do Serviço Militar, transferiu-se para a Universidade de Lisboa em 1954. A Licenciatura em Direito foi concluída em 1956. Partiu então para Roma, onde se doutorou em Direito Canónico com uma tese intitulada Ficção Literária e Censura Eclesiástica. Regressado a Lisboa, foi, durante praticamente três anos, Director Literário da Editorial Aster e chefe da Redacção da revista Rumo. Fez um estágio para advocacia, proferiu palestras sobre literatura na Emissora Nacional, foi adjunto do Director do Serviço de Escolha de Livros do Ministério da Educação Nacional, demitindo-se quando ia ser nomeado Director. 1961 é um dos anos mais marcantes da sua biografia. Abandona o Opus Dei, publica o primeiro livro, intitulado Aquele Grande Rio Eufrates, e conhece Maria Teresa, futura mulher, como bolseira da Gulbenkian na Faculdade de Letras de Lisboa. Eugénio de Andrade lembra o aspecto físico do poeta: «era forte e vigoroso, como se tivesse praticado basquetebol, ou coisa assim, e ficasse para sempre grandalhão e gauche». Mas lembra mais. O primeiro livro de Ruy Belo fora concorrente ao Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores, perdendo para Poesia III de José Gomes Ferreira. Entretanto, Ruy Belo foi traduzindo vários autores, publicou O Problema da Habitação, organizou a edição de livros de Camilo e Antero, casou com Maria Teresa, publicou o terceiro livro, Boca Bilingue, foi chefe do serviço de edições da União Gráfica, concluiu a licenciatura em Filologia Românica, foi pais duas vezes e, em 1969, candidatou-se a deputado por Lisboa nas listas da CEUD. Armando Pereira da Silva lembra que, por esta altura, «a sua ligação contratual a estruturas editoriais da Igreja entrou em colapso. E as portas profissionais seguintes foram-se fechando, apesar das duas licenciaturas e um doutoramento». Em 1971, além de ter prefaciado Sob Sobre Voz, de João Miguel Fernandes Jorge, conseguiu um lugar de leitor de português na Universidade de Madrid. A polícia política tentou limitar-lhe as acções procurando impor que falasse apenas de literatura. Ruy Belo manteve-se em Madrid durante seis anos, continuando a publicar os seus livros em Portugal, passando férias na Praia da Consolação, intervindo civicamente na cooperativa Proelium, regressando definitivamente no ano de 1977. No regresso, algo debilitado fisicamente, foi recebido com indiferença pela Academia, que lhe barrou a entrada como professor numa Faculdade. O Ministério da Educação e Cultura também lhe negou um pedido de equiparação a bolseiro. Tudo o que havia para o poeta, independentemente das habilitações, era um horário nocturno na Escola Técnica do Cacém. «Ficou muito quieto, bebendo muito sem nunca se embriagar, tomando muitos banhos frios para não entorpecer, tentando esquecer nos psicofármacos as mandíbulas dos que lhe fingiam apreciar os versos, para o despedir em seguida para o limbo dos inofensivos» (Joaquim Manuel Magalhães). O autor de A Margem da Alegria morreu no dia 8 de Agosto de 1978, na sua casa de Queluz, vítima de um edema pulmonar. Deixou três filhos e uma obra ímpar que os doutores da Academia podem agora apreciar, confortavelmente instalados nos lugares distribuídos onde vão refastelando o descaso:

O VALOR DO VENTO

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em Agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2010

AULA DE POESIA

Em Portugal não há aulas de poesia. Quando muito, uns cursos de intensidade média-baixa, workshops de escrita criativa, ou seja, uma escrita sem criatividade alguma. Porque, em Portugal, há um gene poético que predispõe qualquer português não só para se tornar poeta como também para tudo saber e tudo poder ensinar acerca dessa ciência do disfarce que dá pelo nome de Poesia (vai com maiúsculas, para fazer justiça à grandeza do país). Que um poeta e crítico de poesia (dupla condição que prolifera entre nós) chame Aula de Poesia a uma recolha de textos sobre livros de outros poetas, só pode denotar um saudável sentido da ironia que é viver num país onde toda a produção poética, para não falar da produção crítica, interessa apenas àquela meia dúzia de gatos-pingados que ainda lê poemas. Desconfio mesmo que, desta meia dúzia, metade sejam poetas ou aspirantes a. Se subtrairmos o professorado, que, como sabemos, acaba muitas vezes por ser indistinguível daquela metade, ficamos com uma ínfima parte de leitores sem aspirações. A dúvida é: será que lhes interessa uma aula de poesia? Duvido.

Muito por culpa de uma saudosa coluna mantida durante vários anos na revista LER, Eduardo Pitta (n. 1949) foi-se afirmando, sobretudo, como crítico literário. Preferiria chamar-lhe leitor atento, com um sentido crítico muito próprio, pois a escrita de Pitta raramente se aventura por uma análise especulativa das obras. Ao relermos os textos agora coligidos, percebemos claramente que o registo é outro. A recolha intitulada Metal Fundente (Quasi Edições, Maio de 2004) já havia sublinhado o interesse pelo apontamento biográfico, tendência que volta a manifestar-se determinante nos textos de Aula de Poesia (Quetzal Editores, Janeiro de 2010). Esta propensão para o biografismo acarreta um problema evidente: não havendo biografia, os textos perdem fôlego. Não admira, pois, que das recensões agora recuperadas, as menos interessantes sejam, regra geral, aquelas que têm por objecto um livro de um autor mais recente. O texto dedicado a Gonçalo M. Tavares, por exemplo, é de uma pobreza exasperante. Em 35 linhas, 8 ocupam um primeiro parágrafo onde se enumeram alguns autores contemporâneos mais prolixos, 8 linhas são para informações genéricas sobre a obra do autor, duas citações do livro ocupam 13 linhas, restando, sobre a obra, basicamente 4 interrogações e uma hipótese: «Podia ser uma reacção ao excesso de legibilidade dos anos 90, mas nem isso é, porque a estranheza da forma não oblitera o fio do discurso» (pp. 80-81). Fala-se ainda de poesia como mantra, mas fica a sensação de que nada havia para dizer.

Ao contrário, alguns textos sobre “autores menos novos” revelam-se assaz atraentes, quer pela informação biográfica que proporcionam, quer pelo enquadramento que sugerem da obra. Sublinho, entre outros, o texto de uma conferência sobre António Botto e as prosas dedicadas a Camilo Pessanha e Judith Teixeira, mas também os dois textos onde Eugénio de Andrade aparece evocado, sobretudo por neles ter entrevisto comentários muito mais desinibidos do que as leituras fastidiosamente apologéticas que geralmente são dedicadas ao autor de As Mãos e os Frutos. Os textos sobre Rui Knopfli, Luís Miguel Nava e João Miguel Fernandes Jorge cabem no que de melhor tem esta recolha, sendo igualmente de registar algumas leituras onde podemos descobrir enumerações, correcções, lembretes que permitem montar, como se de um puzzle se tratasse, o olhar do crítico sobre a actualidade literária: «A poesia portuguesa do século XX não tem uma antologia decente» (p. 34), «a poesia não é um jogo de salão» (p. 84), «a representatividade releva do conjunto da obra (muitas vezes desdobrada em vários géneros) e da intervenção do autor na sociedade, a qual se deve não confundir com visibilidade mediática» (p. 93), «a poesia portuguesa tornou-se um feudo académico» (p. 146), etc.

No entanto, o estilo de Eduardo Pitta deixa-me sempre dúvidas sobre uma real conformidade entre o afirmado e o praticado. Não sei até que ponto é necessário frequentar os salões para se poder dizer que a poesia não é um jogo de salão, ou se as cedências ao “feudo académico” e uma especial atenção a um putativo “cânone”, com apreciáveis excepções, como é óbvio, não legitimam e reforçam esse mesmo feudo. Pormenores de estilo, talvez, que permitem citar Carlo Vittorio Cattaneo, Barthes, Ducrot, Joaquim Manuel Magalhães (em dose dupla), Harold Bloom, Américo António Lindeza Diogo e Manuel Frias Martins, num mesmo texto, breve, a propósito de um livro de Nuno Júdice. O uso e abuso de estrangeirismos, locuções latinas, entre outras, reforça a pose: ars erotica, ars poetica, avant la lettre, bon vivant, bric-à-brac, close reading, corpus, deadline, diktat, engagement, establishment, ex aequo, expertise, freedom fighters, free lance, happy few, in progress, insert, intelligentzia, Kenosis, Kitsch, lead, leitmotiv, lobby, malgré, naïveté, nonsense, notebook, outsider, overact, plot, post scriptum, private joke, queer, scholar, script, soixante-huitard, success d’estime, tour d’horizon, travelling, turning point e, last but not least, virtuose. Enfim, caso para dizer que não havia necessidade.

Escrito para o Rascunho.

Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2010

SÓ EU SEI

Últimos dois jogos do Everton: 2 vitórias sobre Manchester United e Chelsea (coisa pouca). Últimos 2 jogos do Sporting: empates a zero com Olhanense e Paços de Ferreira... Mas o futebol não é matemática.
RFF dixit

NÃO É CERTO QUE TENHA MORRIDO SEM DEIXAR UM LIVRO

José Joaquim Cesário Verde nasceu em Lisboa a 25 de Fevereiro de 1855. O pai tinha uma loja de ferragens e dedicava-se à lavoura numa quinta em Linda-a-Pastora, nas imediações da capital. Terá contribuído para que a vocação poética do filho fosse retraída, tendo-o educado, sobretudo, para a vida de comerciante. Ainda criança, Cesário começou a trabalhar na loja do pai. Após os estudos secundários, matriculou-se no Curso Superior de Letras, sem nunca ter marcado presença nos exames finais. Valeu-lhe a experiência para travar conhecimento com Silva Pinto, um amigo de grande proximidade com quem Cesário manteve uma relação que tem sido alvo de várias especulações. O próprio recordará o dia do primeiro encontro no prefácio à primeira edição de O Livro de Cesário Verde: «Encontrámo-nos pela primeira vez no Curso Superior de Letras. Foi em 1873. Cesário verde matriculara-se no Curso, em homenagem às Letras, como se as Letras lá estivessem ─ no Curso. Eu matriculara-me, com a esperança de habilitar-me um dia à conquista duma cadeira disponível. Encontrámo-nos e ficámos amigos ─ para a vida e para a morte. Para a vida e para a morte». A decepção com o mundo universitário e uma inclinação literária que chocava com a vida de comerciante, transformam o poeta num indivíduo solitário. Comerciante de profissão, jamais seria aceite na cátedra dos homens de letras. Entre estes, como é sabido, os balcões são mais baixos e as negociatas menos translúcidas. Diz-se, portanto, que Cesário Verde escreveu poesia nas horas vagas, incapaz de cortejar os seus pares no mundo das letras e evitando o convívio com os seus pares no mundo do comércio. Foi publicando em jornais e revistas, provocando o sarcasmo de Ramalho Ortigão ─ deve tornar-se «menos Verde e mais Cesário» ─ e, num tom menos irónico, alguma polémica: «…o seu folhetim, onde cada verso é simplesmente um vomitório…» 12 de Novembro de 1873 marca a estreia do «poeta-negociante» no Diário de Notícias. Frequentou, igualmente, as páginas do invicto Diário da Tarde. Em 1874, mais uma de muitas desilusões literárias: Teófilo Braga não inclui nenhum dos poemas de Cesário na antologia Parnaso Português Moderno. Burguês, algo dândi, atraído pela boémia, Cesário Verde afoga as mágoas e as amarguras com absinto bebericado nas tascas e nos cafés. «Era um rapaz alto, direito, elegante, simpático, cabelo curto, alourado, olhos azuis, vestindo sempre fato azul, de jaquetão, de corte inglês, sapatos amplos, com todo um ar britânico»… Cada vez mais afastado da vida literária, substitui o pai nos afazeres mercantis. Publica raramente, adia a edição de um livro, perde uma irmã e um irmão com tuberculose, começa a manifestar o pavor da doença. O trabalho leva-o a Inglaterra e França, onde terá assistido ao funeral de Vítor Hugo. Deambula pela capital portuguesa, procura conforto no campo, mas a doença persegue-o, agrava-se, acaba por colhê-lo. Ignorado pelos seus contemporâneos, queixava-se aquando da publicação de O Sentimento dum Ocidental: «Uma poesia minha, recente, publicada numa folha bem impressa, limpa, comemorativa de Camões, não obteve um olhar, um sorriso, um desdém, uma observação. Ninguém escreveu, ninguém falou, nem num noticiário, nem numa conversa comigo; ninguém disse bem, ninguém disse mal!... Literariamente parece que Cesário Verde não existe». Cesário Verde morreu a 19 de Julho de 1886, com trinta e um anos. O Diário de Notícias, jornal onde o poeta se estreara, fez-lhe o necrológio: «malogrado poeta e comerciante». Meses após a morte do poeta, o amigo Silva Pinto publicou, a expensas próprias, a primeira edição do Livro de Cesário Verde. O resto é história:

CINISMOS

Eu hei-de-lhe falar lugubremente
Do meu amor enorme e massacrado,
Falar-lhe com a luz e a fé dum crente.

Hei-de expor-lhe o meu peito descarnado,
Chamar-lhe minha cruz e meu calvário,
E ser menos que um Judas empalhado.

Hei-de abrir-lhe o meu íntimo sacrário
E desvendar-lhe a vida, o mundo, o gozo,
Como um velho filósofo lendário.

Hei-de mostrar, tão triste e tenebroso,
Os pegos abismais da minha vida,
E hei-de olhá-la de um modo tão nervoso,

Que ela há-de, enfim, sentir-se constrangida,
Cheia de dor, tremente, alucinada,
E há-de chorar, chorar enternecida!

E eu hei-de, então, soltar uma risada.

Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2010

A FOTOGRAFIA



Uma tarde, no comboio, um homem, de pé, sentiu uma mão tocar-lhe e reparou que um jovem soldado lhe oferecia o seu lugar, como se faz com os velhos. Aceitou, cheio de vergonha, por ser a primeira vez que lhe sucedia e, de olhos perdidos naquela noite que se escapava pelas janelas, de repente, sentiu-se desolado pela sua idade. Depois fechou-se em casa e a sua tristeza trespassava os muros, circulando pelas estradas. Era manhã, quando a carta chegou de uma cidade distante. Abre-a e encontra a fotografia de uma senhora anciã, completamente nua. Nenhum comentário ou assinatura. Mete os óculos para procurar nas velhas feições da mulher se, por acaso, a conhecia. Descobriu que se tratava do único grande amor da sua vida. E, conhecendo a grandeza da sua alma, de imediato percebeu a intenção da mensagem: a mulher, sabendo que ele vivia triste, não se envergonhava de lhe mostrar o próprio corpo, para o fazer perceber que não devia angustiar-se e que os sentimentos são mais fortes do que a carne.


Tonino Guerra, in Histórias Para Uma Noite de Calmaria, trad. Mário Rui de Oliveira, Assírio & Alvim, Novembro de 2002, p. 73.

HOJE FARTEI-ME DE FAZER BROCHES


Três cartazes publicitários onde dois rapazes e uma rapariga de cigarro na boca simulam sexo oral com um homem mais velho, está [sic] a suscitar a ira das associações de famílias e feministas francesas. O anúncio faz parte de uma campanha pelos direitos dos não-fumadores na qual se argumenta que fumar é como ser obrigado a fazer sexo oral. (aqui, via Peão)
Aliás, vou agora mesmo fazer mais um broche. Voluntariamente. Mnham, mnham…


P.S.: O mundo está mesmo perigoso. Ora tomem lá mais esta.

ELEGIA


Conhecia Isabel Coixet (n. 1960, Barcelona) do filme The Secret Life of Words. Em Elegy, pude confirmar a inclinação da realizadora para relações amorosas contaminadas pelo lado trágico da vida. Tudo num tom de apreciáveis sobriedade e contensão, ainda que o aparente realismo das imagens perca autenticidade na improbabilidade de uma retórica demasiado confiante e esclarecida. Talvez o defeito seja meu, acredito mais nas estribeiras perdidas do que na capacidade das pessoas para resolverem os seus problemas de um modo, digamos assim, civilizado e polido. É verdade que a predilecção da realizadora por pares que juntam homens mais velhos a jovens moças ajuda a maturar os discursos e a manter um certo equilíbrio, se bem que, nos dois filmes, os homens pareçam crianças ao pé das suas jovens paixões. Que o estereótipo da jovem moça virginal e ingénua, ou simplesmente depravada, seja transposto por uma opção que prefere jovens amadurecidas por experiências traumáticas, sublinha apenas um certo olhar feminino sobre o lado macho da questão. Se Tim Robbins (n. 1958) parecia ter mais a aprender com Sarah Polley (n. 1979) em The Secret Life of Words do que o contrário, Ben Kingsley (n. 1943) não parece ter menos a aprender com Penélope Cruz (n. 1974) neste Elegy. O argumento adapta The Dying Animal, um romance de Philip Roth sobre a paixão entre um velho professor de literatura e uma das suas jovens estudantes. Ao (re)descobrir o amor com Consuela Castillo, o professor Kepesh, divorciado e algo licencioso em matéria de paixões, vê-se numa espécie de terreno pantanoso que o obriga a uma constante racionalização dos sentimentos. A diferença de idades é o principal problema que se intromete na relação, a qual favorece igualmente uma crítica muito clara e certeira ao casamento enquanto instituição castradora da vontade e moralizadora do desejo. Tudo menos problematizado do que seria expectável, nomeadamente a emergência do ciúme e da possessão num professor que camufla o desespero ao piano e à conversa com um amigo poeta. Temo que a intelectualização das personagens lhes tenha usurpado alguma humanidade, a qual apenas se revelará convincente nas sequências finais, nomeadamente as que focam a perda do amigo poeta, sucumbido na hora da consagração, e aquela em que Consuela Castillo reaparece na vida do professor-amante para lhe dar a notícia de uma operação que obrigará à amputação de uma mama. A amputação da beleza, inteligentemente contornada pelo corpo de Penélope Cruz, reconfigurará todo um elo sentimental que havia sido recalcado, tornando assaz comovente a cena em que o professor Kepesh fotografa, pela última vez, o corpo inteiro de Consuela Castillo, diligenciando, quem sabe, o registo de uma beleza que pode ter motivado a paixão mas, perdida, não ameaça o amor. Ironicamente, acaba por reforçá-lo. Ou, pelo menos, acordá-lo das zonas reprimidas. Matéria para filmes, pois claro. Fosse a vida real assim, não precisaríamos da arte para nada.

EM LEFTERIS


Em Lefteris é que eu me quero. No colorido vário
da sua pequena praia. No seu ar selvagem a concordar
contigo, quando esfarelas as folhas do tabaco
e, alheadamente, as misturas com o que sempre
compras no agitado mercado de Potamos.
Ágios Lefteris, escreves tu com uma navalha,
numa das tábuas do chão, debaixo do alpendre.
A mesma com que em mim, náufrago a intuir caminhos
jamais representáveis, também escreves sentires
de que não falamos. Ou então é de nós que traças

breve e rigoroso esboço. Desta nossa vocação translúcida
para apascentar palavras, que, devendo ser sagradas,
tantas vezes atraiçoamos na espinhosa gramática
dos afectos. Com um graveto remexes os seixos
junto à linha d'água e o silêncio é uma planície
súbita e felinamente apanhada pelo desejo. O desejo.
Não o cego impulso sem fonte nem direcção, mas
essa infinda avidez de ser o outro, como coisa nossa
que nos prolonga e individua, bem longe do ser
gratuito, que, divisa deste tempo, a tantos mata

de vida sem contornos nem alimento. O desejo.
O pulsar-me das veias ao despique com o comedido
desgoverno da alma. O agradável tormento de nós
ante a imensidão do mar e o esmorecer do sol
(só em Lefteris há um pôr-do-sol assim!),
enquanto o teu galgo corpo galga galhardamente a casa
e, ridente e rígido, ressurge com a luminosa voz
de Angélica Ionatos por detrás:
Lygmos Aggelon.
É uma canção que fala do transido soluçar dos anjos.
Uma canção que fala desses soluços, desse pretexto

para que soltemos nossos pássaros e com eles cantemos
debaixo das janelas que insistem em fechar-se-nos.
É em Lefteris que eu me quero, decididamente!
Lugar do mais admirável deslumbramento, dos mais
inexprimíveis sinais em mim atento e despojado.
Mas, entretanto, enquanto o tempo ainda é e não resiste,
tu, que estás e me seduzes, põe de novo a canção
que fala dos soluços dos anjos, a irresistível voz
de Ionatos e, com teus decididos gestos, abre-me
com doçura a janela, o corpo, a morte pressentida.


Victor Oliveira Mateus, in A Irresistível Voz de Ionatos, Labirinto, Março de 2009, pp. 15-16. Também na antologia Divina Música, Conservatório Regional de Música Dr. José de Azerêdo Perdigão, Dezembro de 2009, pp. 168-169.

Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2010

ARREDORES


UM FILHO DIPLOMÁTICO


Passa-me subitamente pela cabeça a infeliz ideia de que não aguentarei mais este frio, a trovoada, o gelo que cai dos céus, mas logo sou percorrido pelas imagens da tragédia e me vejo arrastado pela lama, levado para o afogamento, naufragado debaixo dos destroços deixados pela passagem de um terramoto, de um furacão, de um tsunami. Passa-me subitamente pela cabeça que não mais aguentarei esta fraqueza de me condenar sucessivamente à fraqueza das intempéries. Tão pobres as nossas vidas, que nem um tsunami, um terramoto sério, um tornado devastador, que nem uma catástrofe natural para nos tirar debaixo dos pés o tapete do conforto em que vivemos e sobre o qual nos queixamos. Ainda os mortos não estão contados, e já tudo parece tão distante, comigo aqui indeciso perante a melhor cor para passear junto dos olhos caridosos da cultura. Sou subitamente assaltado por um sentimento que julgava esquecido, por um xilofone juvenil, uma percussão tribal que me remete para um algures entre África e as Caraíbas, e lembro-me da alegria infantil que o meu amigo ska despejava sobre o ar antes de ter sido engolido por uma onda adversa. Clash. Onde andarão os olhos desse meu amigo? Lembro-me dele e apetece-me saltar descalço para o meio da chuva, apetece-me desafiar as poças de água, as pedras de gelo que caem do céu, apetece-me desafiar o tempo com os meus pés descalços, apetece-me borrifar o ar com o peso do meu corpo, bailar o dub de uma anunciada pneumonia. Queremos um mundo melhor, exigimos um mudo melhor, estamos obsoletos. O nosso mundo começa em nós. Porém, fico-me diplomaticamente pela hesitação de ter de escolher entre um castanho-escuro e um preto com muitas cores para assistir as madalenas que se passeiam nas avenidas da grande capital do consumo, olhando as montras com olhos ávidos de desejo, fazendo negociar como quem toma comprimidos para a depressão, pagando os pecados do orgulho e da inveja com um pouco de auto-ajuda, porque dizem sempre a si próprias: também mereço, também mereço. Mas, na realidade, que temos nós feito para que não mereçamos a tempestade, a verdadeira e real e limite tempestade que nos arrastaria definitiva e irreversivelmente para o naufrágio? Que temos feito? Temo-nos limitado a imaginar quem vive dentro dos apartamentos cinzentos que ladeiam as nossas caminhadas, temos imaginado as vidas que descansam sentadas dentro de cada um dos corpos dessa gente que ocupa prédios, moradias, que atola centros comerciais aos fins-de-semana, que enche discotecas de infernal e insuportável ruído, que paga para se divertir com o circo mediático, o circo desportivo, o circo cultural ao mesmo tempo que recolhe as migalhas abandonadas no chão pelos dedos gordos de um afanado deus. Uma pergunta pertinente: why are the horses racing taxis in the winter? Daí que pense não mais poder esperar pelas férias, não posso mais medir os meus dias entre 15 dias de liberdade que arrumo no centro de um ano inteiro de servidão, não posso permitir que me aconteça o mesmo que aconteceu ao meu amigo ska, mergulhou e não mais voltou, falta demasiado tempo para as férias, as férias são agora, aqui, descalço no meio da chuva, a dançar os violinos hilariantes da melancolia, a fumar parado, trémulo, o cigarro elegíaco da desesperança. Não sei, simplesmente não sei, e já nem procuro saber o sentido de ter sido acossado por um saudável senso de dignidade. É o que me dizem, é o que me dizem. Meto a imaginação numa viagem digitalizada, passo por África, vou às Caraíbas, meto um pé na Madeira, faço uma jangada e já estou na Ásia, onde espero poder ser novamente agredido pelos calhaus que caem do céu, porque pondero seriamente pôr-me novamente em Amesterdão à procura da tarte de maçã que aí me fez feliz numa manhã de Agosto ou então partirei para Veneza em busca da talhada de melancia que me matou a sede debaixo de 42 graus centígrados, ou seja, mais graus do que é possível suportar na insuportável aristocracia com que obstruímos desejos, contrariamos vontades, porque assim nos obrigam as obrigações. Não sou nenhuma vítima, aproveito-me da desgraça para escrever textos que ninguém lê mas muito me acodem. Em boa verdade vos confesso: nunca fui justo para com o estilo conservador da minha revolucionária família, daí que a minha canção do momento seja só uma: Run.

A MATÉRIA DO AR



Bom dia. Também eu sou feito de marfim.
Estes são os meus amigos d'hoje: folhedo
para entreter as mãos, pontas de madeira
grossa para depois comer. Hoje havia água
e a minha boca é cheia.
Nunca o mínimo deus me salvou.

Nem luz nem a treva. Às vezes, de madrugada,
visito as mulheres que lavam e que cantam.
Trabalho com elas e há um forno transparente
onde cozer o pão. Depois elas perguntam sempre
quem sou e eu respondo: sou alguém que come pão
e que se senta fora da casa com as mãos na terra.
E elas começam a cantar e nunca me falam de
amor.

Ainda tenho pensamentos mas já não os penso.
Falo como o sono nutre a sua teia e o seu
veneno. Só os bichos da terra e os que andam
no céu são brancos. E digo:
Acende uma fogueira ao que sobrar do
mundo.


Rui Costa, in A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, Quasi Edições, Maio de 2005, p. 45.

A VERDADE

A juntou-se a B na defesa de uma questão fracturante. A estes juntaram-se C, D, E, F, G, H, I, J, K, L e muitos outros. Almoçaram e jantaram juntos, partilharam salas, em alguns casos deram de guarida uns aos outros, mostraram-se unidos em prol da causa. Depois, B subiu na vida, indicou G para seu assessor, chamou a atenção de X, homem poderoso e influente, para as boas qualidades de I, que foi prontamente chamado a desempenhar cargos de relevo nas esferas do poder. A ficou a olhar para todas aquelas movimentações, chuchava no dedo, desabafava amargurado com C, D, E, F, entre outros, o ter sido esquecido nesta nobre distribuição de competências. Ele já nem sabia quem era B, de tão ofuscado que andava pelo remorso. E, que era rato, escutou os desabafos de A e foi dar conta do sucedido a B, o qual agradeceu a confiança e aproveitou a oportunidade para perguntar a E se este não estaria disponível para fazer parte dos quadros de uma Central de Informação do Governo. E disse que ia pensar no assunto, mas passadas umas horas já estava a telefonar para dar conta da sua disponibilidade e agradeceu a B o convite. Ofendido, remoído, desesperado, A armou um grande escarcéu na imprensa. Escreveu artigos, deu entrevistas, fez denúncias, insinuações, tudo em nome da verdade, porque nada mais lhe interessava senão a verdade.

Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2010

CONHECERAM-SE NO DIA DO CASAMENTO


Wystan Hugh Auden , W. H. Auden para os amigos, nasceu em York, a 21 de Fevereiro de 1907. Filho de George Augustus Auden, médico reputado, e de Rosalie (Bicknell) Auden, foi educado no internato de St. Edmund’s Hindhead e na Gresham's School. Conheceu Christopher William Bradshaw-Isherwood, um amigo íntimo com quem veio a partilhar viagens e produção literária, no internato. Antes dessas intimidades, Auden andou por Oxford. T.S. Eliot, então director da Faber & Faber, rejeitou-lhe uma primeira colecção de poemas. Por iniciativa de Stephen Spender, Poems acabará por sair em 1928, em edição privada, sendo posteriormente republicado, em 1930, já na Faber & Faber . Entretanto, em 1928, Auden partiu para Berlim, descobriu Brecht, o cabaré alemão, a liberdade sexual: «Auden e os amigos eram apenas rapazes que gostavam de frequentar os concorridos bares homossexuais da cidade, pejados de jovens do proletariado dispostos a tudo (a depressão económica da República de Weimar fizera disparar a prostituição masculina). Gide também andava por lá, mas as suas preferências iam para miúdos» (Eduardo Pitta, in Metal Fundente). No regresso a Inglaterra, o poeta vendeu aulas em várias escolas britânicas. Viajou à Islândia, na companhia de Louis MacNeice, ganhou fama como intelectual de esquerda, escreveu algumas obras a meias com Christopher Isherwood, casou-se com Erika Mann, filha de Thomas Mann, uma jornalista e actriz lésbica que, pelos vistos, também partilhava a cama com Carson McCullers. O casamento foi apenas uma forma de Erika conseguir passaporte britânico. Na verdade, conheceram-se no próprio dia do casamento. Em 1937, viaja a Espanha com o objectivo de apoiar as forças republicanas. Porque não era membro do Partido Comunista, acaba por ser ignorado. No ano seguinte, viaja à China na companhia de Isherwood. «Sex, according to Isherwood, gave their friendship an extra dimension». Assim foi que, por essa altura, resolveram emigrar para os Estados Unidos. Auden converteu-se ao catolicismo e levou uma vida de recolhimento até se mudar para um prédio em Brooklyn Heights onde residiam vários artistas em “atmosfera de despreocupada licenciosidade”. No decorrer de uma leitura de poemas na League of American Writers, Auden conheceu o jovem Chester Kallman. Será a paixão de uma vida, consolidada também literariamente com a escrita a duas mãos de vários libretos de ópera. Em 1946, o poeta adquiriu a nacionalidade americana. Eleito Professor de Poética, foi firmando cada vez mais a sua reputação enquanto escritor. Apesar de visitar a Europa com regularidade, só em 1972 abandonou em definitivo o território norte-americano. Fixou-se em Oxford, onde foi professor convidado de poesia, mas passava os verões numa casa que mantinha na Áustria. No dia 28 de Setembro de 1973, sentiu-se mal após uma leitura de poesia no Palácio Palffy, em Viena. Chester Kallman encontrou-o morto, vítima de ataque cardíaco, na cama do Hotel onde estavam instalados. Kallman morreu em 1975, sem quaisquer recursos, na cidade de Atenas:

BLUES FÚNEBRE

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,
Silenciem os pianos e com os tambores em surdina
Tragam o féretro, deixem vir o cortejo fúnebre.


Que os aviões voem sobre nós lamentando,
Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,
Ponham laços de crepe em volta dos pescoços das pombas da cidade,
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão.


Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Este e Oeste,
A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,
O meio-dia, a minha meia-noite, a minha conversa, a minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: enganei-me.


Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;
Emalem a lua e desmantelem o sol;
Despejem o oceano e varram o bosque;
Pois agora tudo é inútil.


Abril 1936


W. H. Auden, in Diz-me a verdade acerca do amor – Dez poemas, trad. Maria de Lourdes Guimarães, Relógio D’Água, 1994, p. 39. Na imagem ao alto: W. H. Auden, Stephen Spender e Christopher Isherwood.

TRÊS TESOUROS PERDIDOS


Uma tarde, eram quatro horas, o sr. X... voltava à sua casa para jantar. O apetite que levava não o fez reparar em um cabriolé que estava parado à sua porta. Entrou, subiu a escada, penetra na sala e... dá com os olhos em um homem que passeava a largos passos como agitado por uma interna aflição.
Cumprimentou-o polidamente; mas o homem lançou-se sobre ele e com uma voz alterada, diz-lhe:
─ Senhor, eu sou F..., marido da senhora Dona E...
─ Estimo muito conhecê-lo, responde o sr. X...; mas não tenho a honra de conhecer a senhora Dona E...
─ Não a conhece! Não a conhece!... quer juntar a zombaria à infâmia?
─ Senhor!...
E o sr. X... deu um passo para ele.
─ Alto lá!
O sr. F... , tirando do bolso uma pistola, continuou:
─ Ou o senhor há de deixar esta corte, ou vai morrer como um cão!
─ Mas, senhor, disse o sr. X..., a quem a eloqüência do sr. F... tinha produzido um certo efeito, que motivo tem o senhor?...
─ Que motivo! É boa! Pois não é um motivo andar o senhor fazendo a corte à minha mulher?
─ A corte à sua mulher! não compreendo!
─ Não compreende! oh! não me faça perder a estribeira.
─ Creio que se engana...
─ Enganar-me! É boa!... mas eu o vi... sair duas vezes de minha casa...
─ Sua casa!
─ No Andaraí... por uma porta secreta... Vamos! ou...
─ Mas, senhor, há de ser outro, que se pareça comigo...
─ Não; não; é o senhor mesmo... como escapar-me este ar de tolo que ressalta de toda a sua cara? Vamos, ou deixar a cidade, ou morrer... Escolha!
Era um dilema. O sr. X... compreendeu que estava metido entre um cavalo e uma pistola. Pois toda a sua paixão era ir a Minas, escolheu o cavalo.
Surgiu, porém, uma objeção.
─ Mas, senhor, disse ele, os meus recursos...
─ Os seus recursos! Ah! tudo previ... descanse... eu sou um marido previdente.
E tirando da algibeira da casaca uma linda carteira de couro da Rússia, diz-lhe:
─ Aqui tem dois contos de réis para os gastos da viagem; vamos, parta! parta imediatamente. Para onde vai?
─ Para Minas.
─ Oh! a pátria do Tiradentes! Deus o leve a salvamento... Perdôo-lhe, mas não volte a esta corte... Boa viagem!
Dizendo isto, o sr. F... desceu precipitadamente a escada, e entrou no cabriolé, que desapareceu em uma nuvem de poeira.
O sr. X... ficou por alguns instantes pensativo. Não podia acreditar nos seus olhos e ouvidos; pensava sonhar. Um engano trazia-lhe dois contos de réis, e a realização de um dos seus mais caros sonhos. Jantou tranqüilamente, e daí a uma hora partia para a terra de Gonzaga, deixando em sua casa apenas um moleque encarregado de instruir, pelo espaço de oito dias, aos seus amigos sobre o seu destino.
No dia seguinte, pelas onze horas da manhã, voltava o sr. F... para a sua chácara de Andaraí, pois tinha passado a noite fora.
Entrou, penetrou na sala, e indo deixar o chapéu sobre uma mesa, viu ali o seguinte bilhete:
"Meu caro esposo! Parto no paquete em companhia do teu amigo P... Vou para a Europa. Desculpa a má companhia, pois melhor não podia ser. ─ Tua E…'
Desesperado, fora de si, o sr. F... lança-se a um jornal que perto estava: o paquete tinha partido às oito horas.
─ Era P... que eu acreditava meu amigo... Ah! maldição! Ao menos não percamos os dois contos! Tornou a meter-se no cabriolé e dirigiu-se à casa do sr. X..., subiu; apareceu o moleque.
─ Teu senhor?
─ Partiu para Minas.
O sr. F... desmaiou.
Quando deu acordo de si estava louco... louco varrido!
Hoje, quando alguém o visita, diz ele com um tom lastimoso:
─ Perdi três tesouros a um tempo: uma mulher sem igual, um amigo a toda prova, e uma linda carteira cheia de encantadoras notas... que bem podiam aquecer-me as algibeiras!...
Neste último ponto, o doido tem razão, e parece ser um doido com juízo.


Machado de Assis, in O Alienista e Outras Raridades, selecção e prefácio de João Camilo, OVNI, Novembro de 2007, pp. 19-21.

QUEM?

─ Tem livros do António Ramos Rosa?
─ Na poesia.
─ Ah, é poesia. Então não gosto.
A jovem saca do telemóvel e lê uma mensagem.
─ E do Arturo Pérez-Molière, tem alguma coisa?

OUTONO


Fui colega de curso do Gonçalo Salvado, um dos filhos do António Salvado. Em 1998, se não me falham as contas, acompanhei-o à Casa Fernando Pessoa para marcar presença na apresentação do livro Rosas de Pesto (A Mar Arte). Tive oportunidade de conhecer pessoalmente o poeta, pai de um companheiro que encontrei uma ou duas vezes, de raspão pela capital, nos últimos anos. Desde então, o António Salvado tem a gentileza de me enviar por correio postal todos os livros que vem publicando. Vão para a morada de Lisboa, dedicados ao poeta Manuel Bento, como então eu assinava algumas leviandades que tornei públicas. Celebro este ano dez primaveras de afastamento lisboeta, mas a casa de família onde residi ainda existe, alugada a estudantes que se encarregam de fazer chegar aos meus pais a correspondência que para lá me é dirigida. Outono chega-me com três meses de atraso, precisamente um dia depois de, por mera coincidência, ter escrito este post. É uma edição trilingue (castelhano, português, japonês) que une a Editorial Verbum à Trilce Ediciones, cabendo a tradução espanhola a A. P. Alencart e a japonesa a An Oshiro. Aos versos de António Salvado juntam-se as “ilustrações” de Kousei Takenaka. O resultado é acolhedor:




São corpos desgastados
que não deixam fugir
bem para longe as almas.



Obrigado António Salvado.

DO ESPANTO



Acrescento que ainda os mortos não estavam contados e já havia quem encontrasse na tragédia um pretexto para criticar o primeiro-ministro. Esta frieza de raciocínio é que não deixa de me espantar. E esta, sempre com um mas para acrescentar à desgraça alheia, também não.

FALA O FICCIONISTA

Há pessoas que me parecem absolutamente convencidas de que têm vidas especiais, vidas que vale a pena expor ou simplesmente contar aos outros. Não duvido que assim seja, embora eu não esteja muito interessado nessas vidas. Contudo, estou convencido de que comigo se passa exactamente o contrário. A minha vida é tão desinteressante que passo a maior parte do meu tempo a pensá-la, a sonhá-la e a inventá-la. Resta-me, portanto, muito pouco tempo para vivê-la.

Domingo, 21 de Fevereiro de 2010

QUERES UM POUCO DE ÁGUA?




A água levanta-se acirrada
de excitação, sensível, egoísta.
Não temos que ser peixes
para compreender os que não têm vontade
ou intenção de aferir a sua herança
a etno-génese do oceano
da chuva.

Sorvemo-la como bebés, engolindo cada gota
da natureza nutriente das vagas,
nascentes secas acordam de súbito
e inundam o inconsciente, jorrando
gorgolhando, embaraçadoras

não é apenas a água a correr
mas também um presságio

se um dia viermos a ser traídos
a ser afogados em vogais agudas
que depois fluem até planetas ignotos

não valerá a pena, será quase inútil
contrariar-lhes as intenções

A água não sabe quando é demais.


Katica Kulavkova, in Poesia No Porto Santo, trad. Helena Barbas, Secretaria Regional do Turismo e Cultura / Direcção Regional dos Assuntos Culturais, Maio de 2004, p. 101.

O DISCURSO OPCIONAL OBRIGATÓRIO

Seria incorrecto afirmar a inexistência de interesse pela poesia contemporânea espanhola antes de Joaquim Manuel Magalhães ter começado a publicar, na Relógio D’Água, os Trípticos Espanhóis. Os três volumes organizados pelo poeta e crítico português limitaram-se a desbravar caminho na redescoberta de uma poesia tão ou mais cativante do que aquela que por terras lusas vai sendo dada à estampa, divulgando de um modo consistente alguns poetas de um país vizinho onde os debates em torno da produção poética não diferem muito dos que por cá vão fazendo escola. É óbvio que os nomes seleccionados por Joaquim Manuel Magalhães servem, embora não tão linearmente quanto possa parecer, a defesa de uma poesia realista que Jorge de Sena já apregoava e Magalhães se limitou a reforçar. Dito isto, no primeiro de três volumes, publicado em Maio de 1998, foram traduzidos e apresentados José Luis García Martín, Abelardo Linares e Julio Martínez Mesanza. Seguiram-se, no segundo volume, datado de Junho de 2000, José Ángel Cilleruelo, Vicente Valero e Diego Doncel. Por fim, em Outubro de 2004, o terceiro volume dos Trípticos Espanhóis apresentou-nos Amalia Bautista, Luis Muñoz e Pablo García Casado. Quem julgar que a poesia espanhola se reduz a estes nomes está redondamente enganado. Estas vozes são apenas as mais facilmente ajustáveis a um programa que a editora Averno se encarregou de prosseguir, publicando, em Junho de 2005, Antologia de José Ángel Cilleruelo, para reincidir, em Novembro de 2007, com Em Nenhum Paraíso, volume de Diego Doncel. De resto, ambos os livros foram traduzidos e introduzidos pelo próprio Joaquim Manuel Magalhães, acontecendo o mesmo com A Névoa (Maio de 2006), de José Mateos. Mais recentemente, coube a Manuel de Freitas a tradução de A Caixa Negra (Fevereiro de 2009), de Josep M. Rodríguez, e O Discurso Opcional Obrigatório (Novembro de 2009), de Mariano Peyrou (n. 1971).

Ao contrário do que se passou em Espanha, e se exceptuarmos um certo modernismo à moda portuguesa, Portugal chegou sempre atrasado às vanguardas. O nosso surrealismo foi um pós-surrealismo. Surgiu, em reacção ao neo-realismo (“poesia de comício”?), praticamente vinte anos depois dos manifestos de Breton. Andámos sempre na sombra do que lá por fora se foi fazendo, ainda que cá por dentro o excesso metafórico, a radical arritmia metonímica, os misticismos de pacotilha e o culto inconsequente de um hermetismo vazio tenham, muito naturalmente, obrigado à defesa de uma poesia voltada para o real. Mas esta poesia não deve ser confundida com mero relato quotidiano, estória disfarçada de poema, confessionalismo exacerbado, politiquice rasteira. Nos dois lados da barricada, o folclore tem o seu lugar. Então, de que real estamos a falar quando falamos de um regresso ao real? O Discurso Opcional Obrigatório pode servir-nos de paradigma. Na introdução a esta antologia seleccionada por Manuel de Freitas, José Ángel Cilleruelo caracteriza a poesia de Mariano Peyrou chamando a atenção para uma «distorção constante da racionalidade», para terminar com a afirmação que a seguir se reproduz: «A incompreensão da realidade, que aumenta à medida que mais intensamente se vive e actua nela, converte-se no emblema do vitalismo arracional ─ se me é permitido o neologismo ─ que Mariano Peyrou estabelece como a razão estruturante da sua obra poética» (p. 13). Sublinhamos «incompreensão da realidade» e «vitalismo arracional», por nos parecerem as chaves para o entendimento não só destes poemas como da melhor poesia dita realista que se vai publicando entre nós.

De facto, o que sobressai nestes poemas colhidos de quatro livros anteriormente publicados pelo autor ─ La voluntad de equilibrio (2000), A Veces Transparente (2004), La Sal (2005), Estudio de lo visible (2007) ─ é a consciência da subjectividade contaminadora da apreensão do real. Esta “poesia do conhecimento” distingue-se de outras por radicalizar o papel do sujeito perante o objecto: «Mais tristes do que os seus melhores versos / são as tardes estéreis do poeta / em que despojado do acaso e da vaidade / (que chama talento ao acaso) / sabe que não encontrará esperança na metáfora» (p. 19). Não se vislumbra, nestes versos, qualquer veleidade cognitiva. Apenas e tão-só um «solipsimo» radical. A ideia da poesia enquanto verdade, ou, se quisermos, enquanto apreensão ou revelação (da verdade), cai por terra, para passarmos a ter apenas a manifestação de uma cisão impossível de transpor entre a realidade e o poeta. Não havendo qualquer pretensão de atingir uma verdade ─ podendo até existir essa pretensão, embora consciente do fracasso para que remete ─ o que é, então, o poema? Talvez uma «radiografia do silêncio» (p. 25) ou um «desejo de silêncio» (p. 29). O poema A Corola Inteira pode servir de resposta: «Ninguém é alguém mas / talvez alguém seja ninguém como / eu, pensa este candidato à / esperança enquanto estuda a / margarida de duas pétalas. O / melhor nestes casos é arrancar o / caule, iludir a lógica disjuntiva / e manter a corola inteira. Não / haverá resposta, e é nisso / que consiste a flor» (p. 27).

Refém da racionalidade, o poeta manifesta racionalmente a arracionalidade do seu discurso, intenta uma retórica contra as pretensões da lógica, chega a fazer filosofia sobre o nonsense que sustém, de um modo invariavelmente débil, a esperança de um conhecimento, resvala, ele próprio, nesse nonsense irónico, conjuga a um só tempo a disjuntiva e resume-se num título: O discurso opcional obrigatório. O que há de mais estimulante nestes poemas é a assumpção das antinomias, o equilíbrio com que nos oferecem uma hermenêutica do mundo invadindo a reflexão lógica, penetrando, inclusive, nos domínios da filosofia da linguagem, sem resvalarem no facilitismo palavroso das academias nem cederem a uma imagética pretensamente transgressora que redunda sempre num nada ter para dizer. De certa forma, são poemas reflexivos. Porém, o que há de menos estimulante nestes poemas é, precisamente, não recusarem a impossibilidade da poesia, tornando-se, eles próprios, paradoxalmente poéticos. Porque, na verdade, se «a representação da dor / é aquilo que dói» ─ e não duvidamos que assim seja ─, para quê escrevê-lo num poema? Digamos que o sentido da poesia talvez esteja em não ter sentido algum. O silêncio não se escreve. Quando muito, pressente-se. A conclusão pode parecer algo niilista: talvez a poesia não exista, talvez existam tão-somente homens que chamam poesia a qualquer coisa que escrevem não sabem bem porquê nem para quê. Talvez por nada, talvez para nada… nem ninguém.

Escrito para o Rascunho.

Sábado, 20 de Fevereiro de 2010

BENJAMIM FALA SOBRE BIANCA

A amargura de Benjamim só encontrou pouso junto a um charco de vinho entornado. Bebericou a pinga e voltou a dar asas ao despautério. Agora pensava em Bianca, a obesa amada do seu infiel treinador. Afinal, quem era aquele mostrengo? Um barril de banha com pernas enlodado em livros de auto-ajuda, uma estroina mal fodida convencida de uma beleza que não tem nem à vista de um cego, uma porca parideira em eterno pousio, por entre aquelas coxas já não conseguir desenvencilhar-se nem um fio de linho, quanto mais a cabeça, tronco e membros de uma pobre criança. Bianca ou Branca ou lá o que era, com seus peitos mastodônticos, que imaginar uma boquinha recém-nascida a alimentar-se naqueles mamilos-piaçaba é o mesmo que imaginar um gatito a afogar-se nas mamas do grande Leviatã ou uma formiga a ser sugada pela tromba do elefante. Sufoco, sufoco. Bianca disfarçada de bolinhos e chá, sorrisinho amarelo de orelha a orelha, atravessando-lhe as bochechas como um vale ente duas montanhas, antevendo o crime que se apresta para cometer. A mim não me engana, a víbora – prosseguia Benjamim –, pressinto-lhe o veneno até nos molares encobertos, sei que esconde naquele corpo almofadado um vulcão de ódio por tudo o que é belo e livre e esvoaçante. Ah, sim, desconfio dos corações presunçosos e auto-convencidos, da moleza das boas intenções, como o coração dessas mulheres que se julgam apetecíveis por terem espelhos enganosos em casa, espelhos que não mostram para lá das carnes o cadáver putrefacto em que já estão transformadas, espelhos que disfarçam o esqueleto das nádegas, mera carne dependurada num osso, pronta para ser consumida, a qualquer hora, como qualquer carne, pelos vermes da grande ditadora: a morte. Corações amortalhados numa esperança comezinha, armando-se aos cucos com uma inteligência farsante, erguida na base da literatura mais balofa ou das relações mais interesseiras ou da maquilhagem insinuada das ideias feitas, dos lugares comuns, dos estereótipos, da banalidade, da vulgaridade. Ah, sim, é disso que inúteis como Baltazar mais gostam, porque comendo disso não mais têm de se inquietar com nada: perdê-las ou não é indiferente, são boas porque descartáveis, despreocupáveis, dispensáveis. São mães com quem se pode foder. Mulheres-pastilha-elástica enterradas na mais desprezível da solidão, essa que não se mata por ser já ela o caixão onde jaz o alma morta de um corpo-objecto. Bianca, conto com a tua pureza ilusória, com as simulações da tua caridade, conto com a falaciosa e aparente ingenuidade dos teus quereres, porque a mim não enganas tu, nunca ludibriaste, nunca burlarás, ó energúmena com asinhas de lã e plumas camufladas. Meninas como tu, pilinhas no cu.

Escrito para O Indesmentível.

UMA BOA NOTÍCIA

O presidente da AMI anunciou a sua candidatura a PR. Foi uma boa notícia. A única boa notícia da vida pública de que me lembro, nos últimos tempos. Há alguém, espante-se, parecido com as pessoas normais, com uma profissão e colegas de trabalho, que se declara disposto a representar a marabunta e a fazer sacrifícios pessoais por esta gente sem vergonha nem autocrítica. Pois veio logo a malta de serviço aos partidos. (...)Ora o que a candidatura de Nobre tem de positivo é precisamente essa relativa exterioridade ao sistema politico, essa dose de descomprometimento com a agenda miudinha partidária . Nobre terá inevitavelmente os Vitorinos. O povo quer circo. Mas enquanto durar, Nobre será sempre melhor que qualquer funcionário do regime a arengar sobre os valores, enquanto negoceia apoios com as direcções dos partidos. Não há democracia sem partidos. Mas com estes maus partidos não haverá outra democracia.

Aqui.

O MAIS NOVO DE CINCO FILHOS

fotografia respigada aqui


O poeta António Salvado nasceu em Castelo Branco, a 20 de Fevereiro de 1936. Era o mais novo de cinco filhos. Fez os primeiros estudos na cidade onde nasceu, partindo depois para Lisboa onde se licenciou em Filologia Românica. O primeiro livro de poemas surgiu em 1955, tinha o poeta apenas 18 anos, com o título A Flor e a Noite:

IMITADO DE CATULO

Odeio e amo. Inconsciente,
vós julgais talvez que eu minto
amando assim o que dói…
Mas é só isto o que eu sinto ─
um amor-ódio fervente
que a cada instante me rói!...


Ainda na fase universitária, foi, conjuntamente com os então jovens poetas José Sebag, Helder Macedo, Herberto Helder e José Carlos González, um dos organizadores da revista Folhas de Poesia, da qual se publicaram quatro números, entre 1957 e 1959, com capas de René Bértholo, Lopes Alves, Lurdes Castro e José Escada. Em 1959, António Salvado publica Recôndito:

SEGREDO

A David Mourão-Ferreira

Um queixume de rua envolve,
silenciosamente molhada,
aquele que marcha sozinho…

Pla sua face já não sabe
se correm lágrimas ou chuva,
desfeito o expedito sonho…

Apenas a rua molhada…
E bem dentro dele, aninhado,
pra sempre eterno, o inexprimível!


Após a licenciatura, repartiu as suas actividades profissionais pelo ensino e pela museologia. Foi Professor do Ensino Técnico-Profissional e do Ensino Liceal, frequentou cursos relacionados com as actividades que desempenha, desde há alguns anos, como Director-Conservador do Museu Tavares Proença Jr. (Castelo Branco), foi membro para a Educação e Cultura, do Conselho Distrital de Castelo Branco, é membro da Cátedra de Poética "Fray Luís de León" da Universidade Pontifícia de Salamanca, recebeu vários prémios e condecorações, entre as quais se destaca a Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura de Portugal. Além de poeta com vastíssima obra publicada, Salvado escreveu ensaios, críticas, organizou antologias, traduziu autores estrangeiros, colaborou com variadíssimas publicações literárias e suplementos de jornais. Em 1997, a editora A Mar Arte coligiu-lhe a primeira e segunda partes da sua Obra: Obra I (1955-1975) e Obra II (1975-1995). Seguiu-se, em 1999, Obra III, mas António Salvado não pára de publicar livros. Está traduzido em castelhano, francês, italiano e inglês. Não coube na antologia:

COBERTO DE…

Coberto de vaidade,
mendigas um olhar
que rebrilhe contigo.

Por mim… passo-te ao lado:
nunca soube implorar
em vestes de mendigo.

CONSISTÊNCIA

O jornal Sol, que andava a precisar de audiência como de pão para a boca, apanhou-se com uma bombinha de mau cheiro na mão e toca de a fazer explodir contra as fuças da nação. O Correio da Manhã não lhe seguiu os passos, porque o Correio da Manhã sempre foi um catálogo de pornografia. O povo gosta. O jornal Sol é que resolveu seguir os conselhos do Correio da Manhã. A jornalada funciona assim, sem qualquer preocupação que não seja o lucro imediato de quem paga aos serviçais escudados numa carteira que vale para tudo. Mal seria, obviamente, se fossem imparciais. Todo o bom jornalismo se quer parcial. Não é essa a questão. O busílis está no aproveitamento político da intoxicação. É básico: quem se serve, para fazer política, da porcaria onde alguns jornalistas gostam de chafurdar para justificarem o seu papel de jornalistas, desce ao mesmo nível desses paladinos da liberdade de expressão. Para eles, investigação significa disparar sem critério a arma que lhes é colocada nas mãos. Nem sequer se dão ao trabalho de questionarem o porquê daquela arma lhes ter ido parar às mãos. O que interessa é o estardalhaço. Os danos colaterais provocados pela irresponsabilidade serão apenas medalhas curriculares.

Confundem liberdade e independência com coscuvilhice e manipulação, mas não passam de marionetas, mais ou menos ingénuas, ao serviço de polvos, esses sim, que espalham o seu veneno pelos variadíssimos poderes que podem ajudar a manter o estado de corrupção em que vivemos. Beijam a mão à gente da alta finança, para quem tudo e mais alguma coisa é simplesmente negócio, beijam-lhes a mão e lambem-lhes as botas políticos ansiosos de uma esmola para a campanha, jornalistas sequiosos de publicidade, advogados sempre dispostos a tapar buracos a troco de muita massa, trogloditas disseminados pelas polícias, juízes mansos, para não lhes chamar outra coisa, que não raramente vislumbram boas oportunidades num relacionamento de piscina ao léu. O país é pequeno. Esta gente almoça e janta nos mesmos lugares, conhecem-se uns aos outros, estabelecem algumas hierarquias entre si, não vá o diabo tecê-las, mas, no fundo, estão todas ao mesmo nível, no mesmo barco, com as mesmas intenções. Querem assegurar o futuro dos filhos, se têm filhos; encher os bolsos de futuro, se só se têm a si próprios.

O que os jornais Sol e Correio da Manhã têm vindo a propagandear é apenas o modo mais superficial do funcionamento político. Uns pategos quaisquer, lacaios desejosos de mostrar serviço, foram apanhados na conversa sórdida (alguém julga que a política se faz de outra maneira?); quem os apanhou viu naquilo uma bomba capaz de arrasar um cacique para que outro cartel possa ocupar o lugar daquele; toca de fazerem chegar aos excitáveis jornalistas a bombinha de mau cheiro, que estes logo se encarregaram de fazer rebentar. Ora, costuma-se dizer que jornalismo é selecção. A minha dúvida é esta: porquê seleccionar uma notícia e não outra?; porquê, dentro desta notícia, seleccionar este aspecto e não aquele?; porquê, nestas conversas a que temos acesso, seleccionar certos excertos e não outros? Será que os meus leitores estão convencidos de que aquela gente quer o bem dos demais? Será que passa pela cabeça dos meus queridos leitores que aquela gente está minimamente preocupada com a (política de) verdade? Fico a pensar que talvez isso seja possível, que ainda exista quem ponha fé nas boas intenções do poder, que ainda haja alguém a acreditar, por exemplo, que um político pretende ganhar eleições porque está deveras convencido de que as suas políticas (mas quais?) são melhores para todos do que as da oposição. Fico a pensar que, no meio deste esterco todo, ainda possa haver gente com esperança na filantropia, no altruísmo, até num certo paternalismo dos poderes, sejam eles o político, hoje refém do jornalístico, este, hoje refém do económico, o económico, hoje refém da sua agilidade na influência exercida sobre o político e no controle do jornalístico.


Fico a pensar que sim, que possa haver por aí um bom coração com esperança nos detentores do poder, e esmoreço. Lembro-me logo daquelas semanas que me eram pagas por debaixo da mesa quando colaborei no jornal Semanário, o mesmo onde publicavam prosa alguns dos moralistas de hoje tão preocupados com a verdade mas que nunca deixaram de assobiar para o lado perante a pouca vergonha que se passava naquele jornal. E quem investigou? Quem alguma vez se preocupou com o modo de funcionamento/financiamento daquele órgão ao serviço da liberdade de expressão? Quem alguma vez se interrogou de onde vinha o dinheiro? E que é feito das famosas dívidas do director desse jornal, aquele que no mesmo dia publicou e desmentiu uma manchete afirmando que a ministra da Justiça recebera da PJ uma lista de suspeitos no escândalo da Casa Pia onde constariam os nomes de membros do Governo? Foram saldadas? Sabemos de alguma coisa? Houve notícia? Que jornalismo se deu alguma vez ao trabalho de fazer jornalismo de investigação sobre o próprio jornalismo? De onde vem o dinheiro que sustenta os jornais? De onde vem, realmente? Velhas escolas, velhos hábitos. Para mim é tudo a mesma merda, só muda a consistência.

Sexta-feira, 19 de Fevereiro de 2010

DIA DE MATAR PORCO



Aos setenta anos, Onofre era velhinho sem moral. Bebia desde manhã e, borracho, maltratava a mulher. Por vezes, recolhia dama no sítio, atropelando a companheira. Os filhos casados, a pobre pedia pouso na vizinhança. Enfim o recado que voltasse para ele. Onofre tornava a beber e batia sem dó.
Fugiu Sofia para casa de uma filha, descansar um pouco das surras e, ao mesmo tempo, esperar que se acalmasse. O velho resolveu carnear um porco, avisou que viesse lidar com o bicho. Quem atendeu foi a filha Natália.
─ E a mãe, onde está?
─ Lá em casa.
─ Se ela não vem, eu vou lá. Esfolo uma por uma.
Recebido o recado, a dona achou melhor voltar. Deu com a porta aberta, garrafa vazia por todo canto. Acendeu o fogo para derreter a banha.
─ Ah, você está aí? É bom, porque é teu dia. Hoje acabo com tua vida.
Onofre investiu a soco e pontapé:
─ Outra vez fique em casa e cuide do teu homem.
A velha livrou o braço, ferrou-lhe as unhas no rosto:
─ Eu ando onde quero. Você não me manda.
A muito custo, Sofia chegou até à janela. O velho empinou a garrafa para cobrar fôlego. Ela rolou no monte de lenha picada. Onofre saiu cambaleando:
─ Será que esta cadela fugiu?
Escondida debaixo da carroça, ouvia-o estralar o chicote.
─ Se não fugisse, hoje o fim da tua vida.
Era ela o porco que o velho pretendia carnear. Onofre a buscava no paiol. Ela entrou em casa, armou-se com a espingarda pica-pau, de chumbo perdigoto.
─ Ah, você está aí.
─ Olhe o que me fez, seu bandido.
Onofre espiou de longe, meio ressabiado. A velha toda ferida era uma sangueira.
─ É só pelanca. Já não preciso de você. Outra mais moça.
Sentou-se no banco diante da casa. Bebeu no gargalo: ia embora do sítio, antes acabava com todos. Fingiu de dorminhoco para que Sofia se distraísse.
Com grande alarido vibrava chicotadas na perna, gostando de ver os pulos aflitos da mulher, que trazia na orelha esquerda a marca de uma dentada.
─ É certo, velha, que teve um filho em solteira?
─ Isso eu não conto. Isso não há-de saber até o dia de tua morte.
Aos gritos chegou a filha Natália:
─ Que é isso, pai?
─ A porqueira me fugiu.
Sofia surgiu de trás da cerca.
─ Não fugi. Estou aqui.
Apesar de embriagado, Onofre estava firme. Corria de um lado para outro, estralava o chicote. Então a espingarda explodiu, levantando um bando de passarinhos no caquizeiro, o velho foi ao chão. Era tiro de espingarda pica-pau e foi para assustar, mas acertou na barriga de Onofre. Caiu de costas, meio que se ergueu e voltou a cair.
─ Velha, me acuda. Estou atirado.
Olho branco, estirou-se no terreiro. Pediu um gole d'água. Sofia trouxe a caneca. Estava mudo, a garrafa na canhota, o chicote na destra. Bem quieto, assim escutasse o pio dos pardais que anunciavam chuva.


Dalton Trevisan, in Cemitério de Elefantes, pref. Fernando Assis Pacheco, Relógio D’Água, Março de 1984, pp. 82-84.

ORGIA

As notícias começaram a despir-se. Ficaram todos à espera, ninguém iniciaria uma orgia sem a presença do anfitrião – um tipo muito parecido com o Philip Seymour Hoffman. Ele nunca mais aparecia. As notícias começaram a sentir algum frio. Estavam nuas. Foi então que ouvimos uma canção dos Xutos & Pontapés na voz do José Cid: ai meu amor o que eu já chorei por ti. Vinha do fundo da sala. O tipo muito parecido com o Philip Seymour Hoffman chegou para dirigir a orgia. Pegou num microfone e enfiou-o na rata de uma das notícias. Algumas pessoas começaram a caminhar na direcção da canção. Outros desapareceram. Mas muitos meteram a boca no microfone que penetrava a rata da notícia. Eu fiquei na companhia da Rossy de Palma, os dois sozinhos, a olhar alguns peixes enormes nas águas poluídas de um mar parado. O mar parado era a realidade. Os peixes enormes eram pessoas reais, gente consecutivamente agredida pelo desinteresse, pelo descaso, pela incúria daqueles que se entretinham na orgia noticiosa.

ATÉ PARECE MENTIRA

Conta o DN de hoje: o MP pediu 15 meses de pena suspensa para o dono dos quatro rottweilers que em 2007 mataram uma mulher na Várzea de Sintra, alegando que este agiu com leviandade e descuido quando deixou os cães fora do canil, à solta dentro de uma propriedade que possuía uma rede exterior fraca e, além disso, não comunicando o desaparecimento dos animais, na véspera, às autoridades, como era obrigado. Nas alegações finais, pode ler-se: “A detenção dos animais implicava especiais atenções que não foram cumpridas. Foi a sua conduta [do proprietário] que permitiu a fuga e o ataque consequente com especial violência”. A defesa, por seu lado, não está convencida de que as acusações tenham sido provadas e pede a absolvição. “Se alguém falhou, foram aqueles que não deviam”, nomeadamente a PSP e a GNR, que, “avisadas por particulares, pegaram numa questiúncula de territorialidade e andaram num jogo do empurra”, disse o advogado. A defesa vai mais longe e afirma que não resulta que a mulher, uma ucraniana de 59 anos, tenha sido morta pelos cães: “Fica a dúvida se a vítima não estaria já morta quando foi atacada.” Creio que só por incompreensível timidez, a defesa não chegou a colocar a hipótese que faltava: a de ter sido a vítima a atacar os cães, suicidando-se em seguida.

Aqui.

Quinta-feira, 18 de Fevereiro de 2010

A POESIA VAI


A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
─ Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? ─


1966



Manuel António Pina, do livro Ainda Não É O Fim Nem O Princípio Do Mundo / Calma É Apenas Um Pouco Tarde (1974), in Poesia Reunida, Assírio & Alvim, Novembro de 2001, p.38.

UM LUXO

Ser traduzido por uma leitora:

En los últimos días, he ido a trabajar con una camiseta que tenía una frase de Rilke estampada a la altura del pecho: “Amor son dos soledades protegiéndose una a la otra”. Hoy, al terminar un libro de Mariano Peyrou que publicó Averno a fines del año pasado, me encuentro con este verso: “el amor es solipsimo compartido, tan poco”. Me parece que existe aquí una agradable coincidencia entre “dos soledades protegiéndose” y “solipsimo compartido”. Sin embargo, en la secuencia de este encuentro, soy impulsado a pensar que el amor es antes la ausencia del egoísmo. Porque instintivamente egoístas, las personas tienden a defenderse del amor mezclándolo con la pasión, el deseo, la amistad. Lo disfrazan, enmascaran, se enmascaran. Desvelado, el amor se revela cuando estamos dispuestos a prescindir de nuestra comodidad en pos del bien de aquellos que nos inspiran ese mismo amor. Sean nuestros hijos, nuestras mujeres o nuestros hombres, o nuestros amigos. De allí que sea tan oneroso amar. El precio a pagar será siempre superior al beneficio más directo, que, si notamos bien, es el único que interesa a la mayoría de la razón de los corazones egoístas.



Aqui.

MITOLOGIA E VICE-VERSA


Sabrina é a única palavra legível. Só, no escuro. O resto são cifras, códigos, imagens dissimuladas atrás de pixéis distorcidos, uma misteriosa chuva cinzenta por cima de paisagens iniciáticas. Um compact disc pode ser uma caixa de magia, quando não é apenas uma caixinha de música com bailarinas em bicos de pés. Um compact disc é sempre um carrossel, um pouco à maneira do mundo que nos leva de lá para cá, de cá para lá, cobrando-nos planos, a vida. Ouvem-se vozes, chegam-nos através de intercomunicadores, são anjos psicadélicos praticando a escrita automática dos anacoretas do deserto, são, quem sabe, as portageiras que nos viram passar de lá para cá e agora nos observam a passar de cá para lá. Sinto-me observado neste átrio, como se estivesse no cais de embarque de um aeroporto à espera que alguém chegasse para que eu pudesse finalmente partir (para sempre é sempre demasiado tempo). A cabala dos tristes foi há muito definida pela ausência de magia, e Bright Eyes é um prestidigitador à procura do truque que o consagrará como mestre de uma qualquer coisa mais forte que a própria magia. As orquestrações não logram ocultar esse desejo: 15 minutos de fama numa revolução comprada nos saldos da contracultura. O programa aparece de um modo mais claro, talvez como a sombra que se espalha pela areia e nos persegue sem que nos dêmos conta de ser a nossa própria sombra: The Bible is blind. The Torah is deaf. The Qur’na is mute. If you burned them all together you’d get close to the truth… Pois. Em certos círculos, mais vale mesmo investir na carreira de comediante barato. Mas eu sento-me no centro à volta do qual a minha tribo caminha despercebidamente, cruzo as pernas e sobre elas pouso o papiro onde inscrevo, num alfabeto muito próprio, o futuro obscuro que visões místicas a toda o momento me revelam: um coração a rebentar de tanto espaço vazio, amigos trazidos como se fossem sedativos (pioram a doença, pioram a doença), um certo pânico de acabar com a morte antes que seja a morte a acabar comigo, porque, apesar de tudo, há que ter a desesperança necessária para encarar com alguma luxúria esta inevitabilidade esquelética, e vejo, ó se vejo, nessas visões místicas reveladas em sonhos concretos, vejo o rosto cadavérico das filhas, a pele encarquilhando-se, as unhas caindo, os cabelos apodrecendo, os ossos transformando-se no pó sobre o qual outras sombras continuarão a perseguir os seus próprios corpos, vejo-te a ti desfeita em pó e eu, em pó desfeito, sendo soprado pelo vento para poder dormir a eternidade a teu lado, vejo 1001 histórias para 1001 noites brancas, vejo uma dor travada na garganta sempre que um certo nome aí se forma como um escarro que nos cola as cordas vocais e impede a voz, vejo a minha avó deitada numa cama sobre a qual pendia um crucifixo purificador, vejo-a mais pura que qualquer crucifixo, os seus cabelos brancos, cinzentos, ardidos, transportando-me para a velhice que um dia há-de fazer-me justiça, vejo-me perdido nos crimes que me levarão ao inferno, vejo-me sem inferno onde poder levar os meus crimes a pastar, vejo um chão sobre o qual já a chuva dançou todas as mezinhas ditas pelos videntes que me tiraram o demónio do corpo para aí deixarem uma coisa bem pior, esta amorfia do desejo, este sangue de Mago exangue, um plano para alguém me amar sem cobrar impostos, uma vida curta como são todas as vidas, excepto aquelas que, sendo curtas, são mais longas do que o desejável, porque vejo também todas as coisas perdidas para sempre (é sempre demasiado tempo), como a lua onde pensámos adormecer o sol e o sol onde pensámos afogar a lua, só pelo prazer de ver qualquer coisa mais fria do que um coração a rebentar de vazio ser consumida a graus suficientemente purificadores, os mesmos que tornam o que está em baixo igual ao que está por cima e vice-versa.

Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2010

NIRVANA


Bleach, Nevermind, ln Utero,
lncesticide. Os Nirvana haviam sido
um estado de alma. Uma imprudência
feliz da juventude, cantada como desejo
e assim mantida na memória.

Ouvimo-los de novo no trajecto
flutuante: Cacilhas ─ Cais do Sodré.

Acabaríamos o curso no ano seguinte
e como calculávamos: juntos
e infelizes para sempre. A certeza,
entre outras inauditas, separou-nos.

Num espaço menos devastador ─ afinal,
sem ti ─ recuperei outras músicas,
alguma compreensão do mundo.


Artur Aleixo, in If My Heart Could Only Walk, edição do autor, p. 16, Agosto de 2007. Também na antologia Divina Música, Conservatório Regional de Música Dr. José de Azerêdo Perdigão, Dezembro de 2009, p. 35.

O LAÇO BRANCO

É uma questão tão recorrente que se tornou vulgar. E, como todas as coisas vulgares, amolece à passagem do tempo. Deixamos de pensar nelas, transformando as questões em respostas, as dúvidas em trivialidades. O problema da vulgaridade é o princípio da indiferença. Tudo o que nos deixe de espantar, indignar, perturbar, corre esse risco do desinteresse. Sabemos do vírus que é a apatia, mas pouco ou nada conseguimos contra tal risco se nos deixarmos dominar pelos estereótipos, pelas ideias feitas, pelo bom e fácil do senso comum. O que a poesia tem de melhor é a afronta a este desleixo. Pois está que, de quando em vez, a pergunta volta a emergir: o que torna possível a existência de monstros? Ou, a título de exemplo: o que tornou possível que uma nação inteira, ou quase, tivesse acompanhado Hitler nas sua humanas loucuras? Estas perguntas são tanto mais difíceis se nos lembrarmos que tendemos a esquecer, omitir, negligenciar todos aqueles que, fazendo parte da nação alemã, se recusaram a engraxar as botas do füher, esticando o braço apenas para pedir boleia para o exílio, para o cárcere ou, nos casos talvez mais bafejados pela sorte, para a vala comum. Michael Haneke ensaia uma resposta a dúvidas similares no filme O Laço Branco. Melhor seria dizer que especula sobre a origem dos monstros neste seu filme a preto e branco. Cineasta com tendências para mergulhar nos requintes da violência psicológica, acompanho-o desde Funny Games (1997). Vi La Pianiste (2001) uma única vez e jurei para nunca mais. Deve ter sido o filme mais agressivo a que alguma vez assisti. Pelo menos, perturbou-me irremediavelmente. Tocou-me nas feridas abertas que a intimidade gostaria de poder recalcar não fosse a poesia um parasita insaciável. Caché (2005) actualizou a paranóia com requintes de malvadez sem par numa época em que os filmes estão pejados de violência gratuita e na nossa vida quotidiana desfilam a toda a hora e por todo o lado imagens cujo único efeito é, ao mesmo tempo e na mesma medida, banalizar o terror e gerar um medo suicida. Paradoxal? Nem por isso. Hoje, tudo se mostra para que nada se veja. O medo suicida alimenta a indústria do proteccionismo, manipula-nos a vontade de (auto)domínio, confronta-nos com um conjunto imenso de debilidades físicas, morais, psicológicas que alimentam a mais fácil das armas massivas de autodefesa: a indiferença. Das Weisse Band (O Lenço Branco) é, neste contexto especulativo sobre a origem dos monstros, o melhor dos filmes de Haneke. É-o, também, por recusar mostrar aquilo que outros escancaram. E, verdade seja dita, não o mostrando, as coisas vêem-se muito melhor. Que ele cole a crueldade, a monstruosidade, a barbárie às imaculadas criancinhas sufocadas pelo excesso de formalismo familiar só lhe fica bem. A aldeia do filme é apenas um cenário microscópico para nações inteiras erigidas sobre os vulcões adormecidos do opróbrio, da censura, da vergonha, de papas autoflagelando-se e de pastores que violentam, açoitam, agridem, humilham os filhos por nada que justifique tamanha cólera. Da subjugação laboral a um barão despótico à raiva contida dos trabalhadores revoltados, da vergonha que leva ao suicídio ao medo que impele à fuga, do autoritarismo moral imposto pela religião à excessiva formalidade que governa os comportamentos sociais, dos segredos íntimos aos podres coscuvilhados, há toda uma conjugação de situações violentíssimas que prescindem do sangue para que a dor nos seja constantemente mostrada sem pruridos nem lacunas. O preto e o branco do filme tornam ainda mais congruentes as subtilezas do argumento, fazendo uma ligação entre a aparente ordem exterior das coisas e a latente desorganização íntima das personagens, todas elas constituídas numa posição de explosão iminente. O termo da trama será o início da Primeira Grande Guerra. O nazismo e a sua inigualável máquina de morte encontram nas personagens deste filme possíveis justificações. De facto, não será muito difícil encontrar uma resposta para as questões inicialmente aludidas depois de nos cruzarmos com os habitantes da aldeia retratada neste filme. Ainda que psicossocialmente convencional, o tiro não deixa de ser certeiro: quanto maior for a opressão exercida pela sociedade sobre o eu individual, mais facilmente se torna este numa séria ameaça à individualidade do outro. Quem duvidar que atire a primeira pedra.

Terça-feira, 16 de Fevereiro de 2010

O PAI


O bebé estava deitado numa alcofa de verga, ao lado da cama, e tinha vestido um macaquinho branco e uma touca. A alcofa tinha sido pintada recentemente, enfeitada com laços azuis e forrada com uma colcha também azul. As três irmãzinhas, a mãe, que acabara de se levantar e ainda não estava bem acordada, e a avó, estavam todas à volta do bebé a olhar para ele, levando de vez em quando à boca a sua mãozinha fechada em punho. O bebé não ria nem sorria, mas, uma vez por outra, quando uma das garotas lhe coçava o queixo, pestanejava, deitava a língua de fora e metia-a para dentro.
O pai estava na cozinha, a ouvi-las brincar com o bebé.
─ De quem é tu gostas mais, bebé? ─ perguntou Phyllis, fazendo-lhe cócegas no queixo. ─ Ele gosta de nós todos ─ continuou Phyllis ─, mas, na verdade, gosta mais do papá, porque o papá também é um rapaz.
A avó sentou-se na beira da cama e disse:
Olhem os bracinhos dele, tão gordos! E os dedinhos? Tal e qual a mãe.
─ Não é uma ternura? ─ disse a mãe. ─ Tão cheio de saúde, o meu bebezinho. ─ Inclinando-se para a frente, beijou o bebé na testa e passou a mão pela coberta que tapava o berço. ─ Nós também gostamos muito dele.
Mas com quem se parece ele? Com quem é que ele se parece? ─ gritou Alice, e todas elas se aproximaram mais da alcofa, para verem com quem se parecia o bebé.
─ Tem olhos bonitos ─ disse Carol.
─ Todos os bebés têm olhos bonitos ─ disse Phyllis.
─ Tem os lábios do avô ─ disse a avó. ─ Olhem só para aqueles lábios!
─ Não sei... ─ disse a mãe. ─ Não estou muito de acordo.
─ O nariz! O nariz! ─ gritou Alice.
─ O que é que tem o nariz? ─ perguntou a mãe.
─ Parece-se com o nariz de alguém ─ respondeu a garota.
─ Não... não sei ─ disse a mãe. ─ Não acho.
─ Aqueles lábios... ─ murmurou a avó. ─ Aqueles dedinhos disse ela, destapando a mão do bebé e abrindo-lhe os dedos.
─ Com quem se parece o bebé?
─ Não se parece com ninguém ─ disse Phyllis.
E aproximaram-se ainda mais.
─ Já sei! Já sei! ─ disse Carol. Ele parece-se com o papá!
Olharam todas para o bebé com mais atenção.
─ Mas com quem é que se parece o papá? ─ perguntou Phyllis.
─ Com quem é que se parece o papá? ─ repetiu Alice, e todas elas, ao mesmo tempo, olharam para a cozinha onde o pai estava sentado de costas para elas.
─ Ora, com ninguém! ─ disse Phyllis, e começou a choramingar.
─ Silêncio! ─ disse a avó, olhando para o lado e voltando a olhar para o bebé.
─ O papá não se parece com ninguém! ─ disse Alice.
─ Mas ele tem de ser parecido com alguém ─ disse Phyllis, enxugando os olhos com um dos laços. Todas elas, à excepção da avó, olharam para o pai, sentado à mesa.
Ele tinha-se virado na cadeira e o rosto dele estava branco e sem expressão.

Raymond Carver, in Queres Fazer o Favor de Te Calares?, trad. Carlos Santos, 2.ª edição, Editorial Teorema, Fevereiro de 2004, pp. 51-53.

Segunda-feira, 15 de Fevereiro de 2010

LICENCIADO EM LIBERDADE, DOUTORADO EM RAIVA


Espreito a badana, roubo-lhe a entrada: «Agostinho da Silva, professor, filósofo, ensaísta, novelista, poeta, orador, investigador, tradutor, de seu nome completo George Agostinho Baptista da Silva, nasceu no Porto a 13 de Fevereiro de 1906». Poucos portugueses que estes olhos viram vivos me merecem tanto respeito. José Afonso, Carlos Paredes, poucos mais. Isso não cabe num post, numa evocação desinteressada, ou, como diria Jorge Luis Borges, numa biografia sintética. Ainda assim, convém lembrá-lo as vezes que forem necessárias, não vá o esquecimento cair como uma pedra sobre nomes que importa conhecer para que a sede nos não mate. Os pais de Agostinho da Silva mudaram-se para Barca D’Alva poucos meses após o seu nascimento. Aí passou a infância, recebendo da mãe os primeiros ensinamentos. Em 1912, de regresso ao Porto, inicia uma carreira escolar exemplar. Concluído o Liceu, ingressou na Faculdade de Letras do Porto, onde cursou, primeiro, Filologia Românica e, depois, devido a desentendimentos com Hernâni Cidade, Filologia Clássica. «Em 1928 concluiu uma licenciatura em “Liberdade” com uma tese sobre o poeta latino Catulo e, no ano seguinte, doutorou-se em “Raiva” com a tese intitulada Sentido histórico das civilizações clássicas». Por esta altura, era já colaborador das revistas A Águia e Seara Nova. Após uma breve experiência como professor no Liceu Alexandre Herculano, partiu para França. Entre 1931 e 1933 foi bolseiro da Junta Nacional de Educação na Sorbonne e no Collège de France, travando conhecimento com exilados políticos tais como António Sérgio, Raul Proença e Jaime Cortesão (acabará por casar com a filha deste, Judite Cortesão). Regressou para leccionar no Liceu de Aveiro, onde tinha colaborado com a revista Labor, sendo demitido da função pública depois de ter recusado assinar a Lei Cabral, que o obrigava a jurar não ter pertencido ou vir a pertencer a qualquer associação secreta. Vai como bolseiro para o Centro de Estudos Históricos de Madrid, regressa em fuga da Guerra Civil Espanhola, abandona a Seara Nova, onde havia publicado vários artigos de crítica mordaz ao meio académico português, passa a residir em Lisboa. Entre outras curiosidades, refira-se que teve como explicando o ex-Presidente da República Mário Soares. Em 1942, foi preso pela PIDE na Prisão do Aljube. Abandonou Portugal dois anos depois, rumando ao Brasil, dali para o Uruguai, Argentina, onde leccionou em vários colégios e universidades e organizou cursos de Pedagogia Moderna. Regressou definitivamente ao Brasil em 1947. A actividade de Agostinho da Silva no Brasil será essencialmente pedagógica, trabalhando junto de vários institutos, ensinando em várias Universidades, ajudando a fundar outras, tais como a Universidade Federal de Paraíba ou a Universidade de Santa Catarina. Ao que parece, terá sido o primeiro português a leccionar Filosofia da Educação. Fundou, igualmente, diversos centros de estudos, criando pontes fundamentais entre o mundo lusófono. Em 1964, por exemplo, fundou no Japão um Centro de Estudos Luso-Brasileiros. Em 1939, escreveu O Método Montessori. São imensos os seus escritos de relevância na área da pedagogia. Também assumiu ainda cargos de relevância política junto do Presidente Jânio Quadros. Já com nacionalidade brasileira, concedida em 1958, voltou para Portugal em 1969. O ditador Salazar estava a cair de podre, falava-se na primavera marcelista, mas foi preciso esperar até 1974 para que a flora desabrochasse. Entre 1969 e 1994, ano da morte de Agostinho da Silva, o filósofo leccionou em diversas universidades portuguesas. Reformado pelo Governo Brasileiro, recebeu do Governo de Portugal os retroactivos concernentes aos anos da Ditadura. Viajou, escreveu, foi agraciado com diversas honrarias, tornou-se no mais popular dos filósofos portugueses depois da RTP1 ter emitido um programa intitulado Conversas Vadias, onde o professor se deixava entrevistar por várias figuras públicas. Da sua vastíssima obra, destaco as Sete Cartas a Um Jovem Filósofo (1945, Ed. Do Autor; 1990/1997, Ulmeiro):

«Os artistas, querido Amigo, são uma espécie de lobisomens: obedecem a um fadário, não podem deixar de sacrificar os outros em vez da obra; o que não é, nos melhores, pequeno elemento para que sofram»;

«Quem fala de Amor não ama verdadeiramente: talvez deseje, talvez possua, talvez esteja realizando uma óptima obra literária, mas realmente não ama; só a conquista do vulgar é pelo vulgar apregoado aos quatro ventos; quando se ama, em silêncio se ama: às vezes o sabe a mulher amada, mas creio até que num amor que fosse pleno, em que nada entrasse das preocupações da terra, nem ela o saberia»;

«Nada me irrita como o elogio da juventude: é uma idade pasmosa de ignorância, de petulância, de expedições aventurosas, sem força real que as apoie; famoso tempo para tolices; e se você alguma vez sair da juventude, o que não acontece a muitos homens, verá que também a idade lhe foi ingrata…»;

«Entre as palavras e as ideias detesto esta: tolerância. É uma palavra das sociedades morais em face da imoralidade que utilizam. É uma ideia de desdém; parecendo celeste, é diabólica; é um revestimento de desprezo, com a agravante de muita gente que o enverga ficar com a convicção de que anda vestida de raios de sol»;

«Para cãezinhos de pêlo encaracolado e patinhas que mal aguentam o corpo tenho um fornecimento de almofadas, pires de leite, bolacha macia, perfumes, pentes finos, e nojo».