Quarta-feira, 30 de Junho de 2010

CEGOS, SURDOS E MUDOS

O pessimista perguntou ao optimista: mas tu não vês o mundo à tua volta? O optimista respondeu-lhe: não sejas parvo.

MORRER DA CURA

O psiquiatra disse: você tem de ter calma.
Eu disse: é para isso que aqui estou.
O psiquiatra disse: primeiro acalme-se.

COLETE-DE-FORÇAS

Meteram-me num colete-de-forças. Senti-me como peixe na água.

NARCISO

Ela disse: amo-te.
Ele disse: eu também.
Ela disse: amo-te tanto.
Ele disse: eu também.
Ela disse: morria por ti.
Ele disse: eu também.

Ela ficou muito espantada quando ele morreu ao ver-se reflectido nas águas do rio.

PORTUGAL

Satisfeito por ter cumprido os mínimos,
ainda mais por ter perdido
com uma grande selecção.
Facilmente consolável, estéril de ambição.

A SELECÇÃO

Não gosto, nunca gostei, jamais gostarei de uma selecção com jogadores naturalizados. Não gosto do seleccionador. Não gosto de vedetas saloias, muito menos do vedetismo pacóvio que em momentos decisivos as transforma em vulgares perdedores. Não gosto de mundiais porque odeio a FIFA. Gostei do Eduardo, do Fábio Coentrão, do Raul Meireles, do Ricardo Carvalho e do Bruno Alves, do Pedro Mendes, do Tiago. Não gostei que o João Moutinho tivesse ficado em casa, assim como o Nuno Assis. Não gosto desta selecção nem deste seleccionador. Não gostei da aposta num Pepe sem pernas, num Deco palavroso, num Amorim de férias. Levou dois defesas direitos para acabar a jogar com um central adaptado. Deixou João Pereira em casa. Por que foi Nani para casa? O Sabrosa devia ter ficado a comer hambúrgueres. Não gosto do Madail. E o Cristiano, se nunca mereceu a braçadeira de capitão, dificilmente voltará a merecer a camisola das quinas. A que o Eusébio mereceu, e o Simões, e o Figo (esse sim, o melhor!)… Gosto do Simões e do Eusébio. Não gosto de putos mimados, endinheirados, vaidosos, que jogam mais para a fotografia do que para a equipa, que não defendem quando é preciso, que não são solidários. Não gosto de quem gosta desses putos, de quem se curva ao talento e não tem coragem, nem punho para o assoberbamento do talento.

COLOU-SE-ME A LÍNGUA AO PALATO


Colou-se-me a língua ao palato.
Tenho uma sede ardente de expressão.
Porém não posso construir uma frase.
Já se cumpriu a maldição da minha sogra:
Colou-se-me a língua ao palato.

O que estará a acontecer no inferno
Que se me põem as orelhas vermelhas?

Tenho uma dor que não me deixa falar.
Posso dizer palavras isoladas:
Árvore, árabe, sombra, tinta-da-china,
Porém não posso construir uma frase.

Posso apenas manter-me de pé
Estou feito num cadáver ambulante
Não suporto nem a água da torneira.

Colou-se-me a língua ao palato.
Não suporto nem o ar do jardim.

Deve estar a passar-se algo no inferno
Porque estão a arder-me as orelhas
Está a sair-me sangue das narinas!

Sabem o que se passa com a minha noiva?
Surpreendia-a beijando-se com outro
Tive que dar-lhe um bom sermão
Caso contrário o tipo desflora-a.

Mas agora quero divertir-me
Começar a cavar a minha sepultura
Quero dançar até cair de morto
Mas não me chamem de bêbado!
Vejo perfeitamente onde ponho os pés
Vêem como posso fazer o que me agrada?
Posso fazer o quatro
Posso assobiar uma melodia imaginária
Posso dançar uma valsa imaginária
Posso beber um copo imaginário
Posso dar-me um tiro imaginário.

Além disso, hoje faço anos
Ponham todas as cadeiras à mesa
Vou dançar uma valsa com uma cadeira
Colou-se-me a língua ao palato.

Eu ganho a vida como posso
Ponham todas as cadeiras à mesa
Não privo os meus amigos de nada
Ponho tudo à sua disposição
─ Podem fazer o que bem entenderem ─

Mesa à disposição dos amigos
Bebida à disposição dos amigos
Noiva à disposição dos amigos
Tudo à disposição dos amigos.

Mas não me venham com abusos!

Que o álcool me faz delirar?
A solidão faz-me delirar!
A injustiça faz-me delirar!
O delírio faz-me delirar!

Sabem o que me disse um capuchinho?
Nunca comas doce de pepino!
Sabem o que me disse um cristão?
Não limpes o cu com a mão!

Colou-se-me a língua ao palato.



Nicanor Parra, de Versos de Salón (1962)
Versão de HMBF

Terça-feira, 29 de Junho de 2010

QUE ROSTO DE MULHER TERÁ A MINHA DOR?


Dizem que o dinheiro é do demónio. Será. Mas é por elle que os clérigos dizem missa.

*

Dormir é bom. E’ ainda aquela porção que a gente leva da vida isenta de asneiras e inépcias.

*

O desinteresse é uma linda palavra. Tão linda que tem dado bem bom interesse a muita gente.

*

Homens honrados não são aqueles que não precisaram nunca de fazer falcatruas. São aquelles de quem se não conhece as falcatruas que fizeram.

*

Nunca te abras inteiramente com a mulher a quem amas. Não tem já mysterios o sacco, quando se lhe vê o fundo.

*

A moda. E’ uma atoarda lançada por um tolo, que faz a fortuna de muitos tolos com a vaidade de outros mais tolos ainda.

*

Os poetas! Ora ahi está um género de bicho que só existe entre os homens.

*

Se muita gente se não suicida é por saber que ninguém se importaria com isso.

*

O homem é apenas uma luz accesa entre duas sombras. A de um útero e a de uma sepultura.

*

Queres conhecer a tua insignificância? Viaja.

*

Deus tem sempre abertas, de par em par, as portas da sua misericórdia. Mas cá fora os padres vendem bilhetes.

*

O Amor dizem que é cego. Creio bem. Há coisas que se ele as visse, emigrava.

*

Quando a gente vence, até os obstáculos ajudaram. Mas quando a gente cáe, os próprios amigos nos empurram.




Albino Forjaz de Sampaio, in Mais Além da Morte e do Amor, Guimarães, Março de 1922.

A MÁQUINA DO TEMPO


O paradoxo é evidente: tendo deixado de acreditar na vida depois da morte, o homem frio sustenta a sua angústia com a ilusão da imortalidade. Onde vai ele buscar essa ilusão? À capacidade de criar. Néscios aqueles que se julguem imortais por se terem transformado em máquinas produtivas. A arte é um acessório no pântano da desgraça, oferece-nos um braço invisível enquanto nos enterramos na lama. As palavras que desenhamos sobre a forma de poemas, as peças que representamos, as imagens que reproduzimos, tudo aquilo que montamos através de um diálogo profícuo mantido entre a experiência da realidade e a mais pura imaginação não passa de um artifício que nos consola momentaneamente.

Nesses lugares buscamos refúgio, respiração, buscamos mais um pouco de coragem para enfrentar o desassossego que a ideia do fim imprimiu nas ossadas. Vem dos tempos primitivos essa tomada de consciência: somos débeis, frágeis, dependentes perante os enigmas da natureza. Talvez compreendê-los nos torne um pouco mais fortes, talvez a palavra logre a decifração dos mistérios. Uns fizeram filhos, talvez porque supunham na carne dos filhos a continuidade da sua efemeridade intrínseca. Outros (também podendo fazer filhos) optaram por investir as garantias de um futuro insensitivo na metafísica das obras. Criaram, talvez supondo ser a obra criada um depósito da perenidade, da imortalidade, quiçá da eternidade.

Que a desilusão não desfigure a esperança: o tempo devorará as máquinas do tempo, a sua avidez é inexpugnável, a ele estamos irremediavelmente sujeitos. E, está visto, não lhe somos indiferentes. Não queremos, pois, saber da eternidade. Para quê insistir nessa tonta ilusão? Não queremos sequer saber da imortalidade. À excepção da própria morte, tudo nos parece mortal. Talvez uma palavra nova, uma imagem, um dito que fique e ganhe asas e voe e se repita pelos séculos e se torne uma vulgaridade, uma tradição, um desses lugares comuns com que adornamos a insuficiência dos sonhos, um lugar anónimo. Chega a ser ridícula a presunção com que os mortais declaram: a sua obra ficará. Ficará até quanto? Entre quem? Quantos darão por ela? Dêmo-nos ao trabalho de, pelo menos uma vez na vida, olharmos bem para os nossos pés. Cada passo que damos é um passo para o abismo do esquecimento.

No entanto, prosseguimos e damos e damo-nos e matamo-nos lentamente em cada passo que damos. Life lies a slow suicide. A nossa preocupação já não é tanto decifrar os enigmas da natureza como se tornou acrescentar-lhe outros enigmas. Penso na justeza daqueles que muito antes de Deus ter sido inventado, se inventavam a si próprios a partir das fraquezas com que se depararam. Não devia ser fácil, há 30 ou 60 000 anos, esboçar um sorriso de conforto perante as tormentas. Não devia ser fácil encontrar razão para a catástrofe. Anterior à catástrofe propriamente dita era a inexistência de uma explicação para a catástrofe, uma explicação mitológica que fosse, uma simples resposta ao eterno porquê das coisas.

As figuras desenhadas na pedra são de uma violência avassaladora. Mesmo quando representam rituais inocentes, simples cenas quotidianas, essas figuras de autores anónimos indicam-nos a frugalidade de tudo o que hoje fazemos e assinamos. Quis o homem frio tornar-se autor, deus das suas circunstâncias, dominador comum, quis ser o guia, o farol, o comandante, o ditador da sua solitária caminhada. Ele trabalha para ser reconhecido enquanto tal, enquanto autor. Trabalha para que um dia digam: a sua obra ficará. Já nenhum resquício de sagrada inocência se encontra nas suas obras, apenas a vanglória e a fatuidade do reconhecimento pessoal. Para ele, a eternidade reside na prorrogação do nome. Em vida, quer-se admirado, seguido, bajulado, idolatrado. Procura, anseia, desespera por fãs. Em morte, escusa de querer-se. Em morte, estará morto.


Ao alto: artefacto visual de Nicanor Parra.

O PEQUENO BURGUÊS

Aquele que quiser chegar ao paraíso
Do pequeno burguês tem que percorrer
O caminho da arte pela arte
E engolir grandes quantidades de saliva:
O noviciado é quase interminável.

Lista do que tem de saber:

Dar com arte o nó da gravata
Entregar o cartão de visita
Dar dinheiro por sapatos de luxo
Consultar o espelho veneziano
Estudar-se de frente e de perfil
Ingerir uma dose de conhaque
Distinguir uma viola de um violino
Receber as visitas em pijama
Impedir a queda do cabelo
E engolir grandes quantidades de saliva.

Tudo tem de estar nos seus arquivos.
Se a sua mulher se entusiasmar com outro
Recomendo-lhe os seguintes truques:

Barbear-se com lâminas de barbear
Admirar as belezas naturais
Fazer crepitar um pedaço de papel
Aguentar uma conversa por telefone
Disparar com um fuzil de salão
Arranjar as unhas com os dentes
E engolir grandes quantidades de saliva.

Se deseja brilhar nos salões
O pequeno burguês
Deve saber andar de gatas
Espirrar e sorrir ao mesmo tempo
Dançar uma valsa à beira do abismo
Endeusar os órgãos sexuais
Despir-se diante de um espelho
Desfolhar uma rosa com um lápis
E engolir grandes quantidades de saliva.

Perante tudo isto cabe perguntar-se
Se Jesus Cristo foi um pequeno burguês?

Está visto que para se poder chegar
Ao paraíso do pequeno burguês
Há que ser um perfeito acrobata:
Para poder chegar ao paraíso
Há que ser um perfeito acrobata.

Com razão o verdadeiro artista
Se entretém a matar libelinhas!

Para sair do círculo vicioso
Recomendam o acto gratuito:

Aparecer e desaparecer
Caminhar em estado cataléptico
Dançar uma valsa num monte de escombros
Embalar um ancião entre os braços
Sem soltar os olhos dos seus olhos
Perguntar as horas ao moribundo
Cuspir na palma da mão
Apresentar-se de fraque nos incêndios
Irromper com o cortejo fúnebre
Ir mais além do sexo feminino
Levantar essa tampa funerária
Ver se cultivam árvores lá dentro
E passar de uma vereda a outra
Sem referências ao porquê nem ao quando
Pela solitária virtude da palavra
Com seu bigode de galã cinematográfico
À velocidade do pensamento.



Nicanor Parra, de Versos de Salón (1962)
Versão de HMBF

Segunda-feira, 28 de Junho de 2010

OKUPA

O okupa estava decepcionado. Afinal, o coreto não tinha sido okupado. Os okupas não pedem autorização para okupar, assim como eu não tinha solicitado autorização para okupar aquele banco de jardim. Será que a alma que okupava o corpo do okupa tinha pedido autorização para aquela okupação? E porque pediu a voz do okupa autorização aos meus ouvidos okupados para poder okupar? O Estado não me pediu autorização para me okupar. O Estado é o derradeiro, o puro, o único e verdadeiro okupa.

ÚLTIMA HORA

O futuro dos jornalistas do Público, depois de resultados de vendas humilhantes no último semestre, é um exercício de adivinhação. Mas há exemplos suficientes para se temer o pior. Tivessem eles alcançado os objectivos e seriam recompensados como heróis. Apartamentos, carros, benesses várias. Mas os resultados humilhantes frente à concorrência mais directa, podem ter consequências imprevisíveis para os jornalistas da redacção. E imprevisíveis significa mesmo impossíveis de prever, porque ninguém saberá dizer com algum grau de certeza quais os castigos que podem estar à sua espera, quando o Belmiro tomar conta do caso. Uma das hipóteses: os jornalistas vão ser enviados para os armazéns dos hipermercados Modelo, ou qualquer campo de trabalhos forçados similar, para o resto da vida. Outra: os jornalistas perderão alguns dos seus privilégios e dificilmente voltarão a escrever em jornais, sendo o mais provável tornarem-se caixas de supermercado. Outra ainda, se bem que talvez menos provável: os jornalistas escaparão incólumes.

O QUE VAI ACONTECER AOS JOGADORES DA SELECÇÃO DE FUTEBOL DA COREIA DO NORTE?

O Público já sabe, isto é, faz «um exercício de adivinhação», ou seja, supõe «consequências imprevisíveis», «e imprevisíveis significa mesmo impossíveis de prever, porque ninguém saberá dizer com algum grau de certeza quais os castigos que podem estar à sua espera, quando regressarem à Coreia do Norte», mas serão castigados, lá isso é ceramente previsível, embora ninguém possa ter a certeza, mas várias hipóteses sejam possíveis:

Uma das hipóteses: os jogadores vão ser enviados para minas de carvão, ou qualquer campo de trabalhos forçados, para o resto da vida. Outra: os jogadores perderão alguns dos seus privilégios e dificilmente voltarão a deixar o país. Outra ainda, se bem que talvez menos provável: os jogadores escaparão incólumes.

A isto chama-se jornalismo de MERDA. Aliás, nem jornalismo chega a ser. Entre o Público e o Professor Karamba, venha o povo e escolha.

O VÍCIO DO CHEQUE-LIVRO

A pouca fé que tinha na humanidade, a pouca esperança que tinha no povo, esvaeceu-se desde que me tornei caixeiro. O povo é o maior inimigo do povo. Subjugado ao chicote manipulador das elites, o povo vinga-se das suas mais íntimas frustrações junto do próprio povo. O povo prefere roubar o povo a afrontar as elites, o povo prefere ser roubado pelas elites a tornar-se cúmplice do povo, o povo só é solidário para com o povo se esse gesto de solidariedade for compensado pelo putativo reconhecimento das elites.

Não falo de quem pede que embrulhemos um balão de cada cor, nem quem julga ser possível nós sabermos qual é o livro “não sei quê da escritora não sei quantos” (SIC). Não me refiro apenas ao cliente que quer reclamar porque entre as t-shirts de oferta não está nenhuma que lhe sirva ou porque não temos um gabinete onde as t-shirts possam ser experimentadas. Note-se que estamos a falar de uma livraria, um local onde era suposto venderem-se livros e pouco mais. Não.

Ontem, por exemplo, passou-se isto com uma colega. Uma cliente perguntou se era possível pagar um livro de 6,54€ com um cheque-livro no valor de 10€. A minha colega explicou-lhe que sim, mas que não dávamos troco. Nisto, a senhora voltou-se para a filha e disse: vez querida, não dá. Perante a tristeza da menina, a mãe pediu à minha colega que lhe vendesse um cheque-livro no valor exacto de 6,54€. Assim o fez a minha colega. Comprado o cheque-livro, a mãe colocou-o nas mãos da menina e disse: pronto, já podes pagar o livro com o cheque-livro. A minha colega ficou atónita, descontou o cheque-livro acabado de ser vendido. A menina já não estava triste. E a mãe explicou: sabe, é que ela gosta muito de pagar os livros com estes cheques.



Aí tendes, caro leitor, o povo em (form)a(c)ção.

NORMAL

Queixei-me ao psiquiatra de que andava a ouvir vozes. Ele disse que era normal. Normal? – perguntei, com ar de espanto. Sim, normal – respondeu-me −, você não tem problemas auditivos, logo é normal que ouça vozes. Mas são vozes que não existem – tentei explicar-lhe. Perguntou-me como podia eu saber que as vozes não existem. E, de facto, não posso estar certo de que as vozes não existam. Logo, nada de anormal.

ALTERNATIVA

Mas se as vozes que ando a ouvir existem, então de onde vêm elas? Se calhar vêm de onde veio o Universo. O Universo veio de onde veio. Assim as vozes, vêm de onde vêm. Temos um problema, doutor. Quero deixar de ouvir as vozes, as vozes atormentam-me. Nesse caso – sugeriu-me – tape os ouvidos, ouça música se as vozes persistirem. Se não for possível abstrair-se das vozes, tome estes comprimidos. Efeitos secundários: vertigens. De que me vale deixar de ouvir as vozes para passar a ter vertigens? Prefiro continuar a ouvir as vozes.

ANORMAL

Eu acho que estar doente passou a ser normal. É normal estar doente. Anormal seria estar saudável. De tão rara que se tornou, a felicidade é o mais anormal dos estados. E o espanto, a surpresa. Já nada me surpreende doutor, nada. E nisto, deu-me uma bofetada. Que é isso, doutor? – perguntei-lhe, surpreendido.

VENTILAN NO CORETO


Os críticos garantem: foi a melhor actuação de sempre dos Ventilan.

Domingo, 27 de Junho de 2010

Sábado, 26 de Junho de 2010

OS PENDURAS

Eram já tantos os quilómetros palmilhados que o pombo Benjamim começou a quebrantar. Em todo o lado os mesmos crápulas, a mesma hipocrisia, o mesmo desinteresse, a mesma indolência. Ali alguns milhares excitavam-se com 22 imbecis, pagos a peso de ouro, a disputarem uma bola, logo ao lado centenas de milhar definhavam, morriam à fome e à sede. Ali uma multidão exultava com uma bola atirada contra um poste, logo ao lado a turba alvoroçava-se com uma pedra atirada à cabeça de uma jovem acusada de adultério. Ali 22 criancinhas entravam em campo de mão dada aos 22 imbecis, logo ao lado 215 milhões de crianças trabalhavam para sobreviver (provavelmente a fabricarem bolas, chuteiras e outros acessórios de elevado proveito humanitário). Ali a festa, a alegria, os sorrisos, a bebedeira, a opulência, o desperdício, logo ao lado a miséria, a desgraça, a fome e as consequências do progresso: uma mancha de crude a cobrir 74000 quilómetros quadrados de mar. E foi neste cenário, com a Terra a colapsar e o homem preocupado com a eventual existência de vida em Marte, que o pombo Benjamim reparou nos penduras. Os penduras eram, entre os homens, o tipo que mais se aproximava dos símios. Aliás, havia mesmo uma enorme dificuldade em distinguir os penduras dos símios. Aliás, havia símios mais humanos que os próprios penduras. Bem vistas as coisas, os penduras eram, entre os humanos, o resquício mais rasca dos símios. Eram um híbrido de parasita e micróbio com aspecto beato, um vírus que penetrava círculos de interesse tendo em vista a caçarola do poder. O pendura era o penetra por excelência, aproximava-se, imiscuía-se, entregava-se para, depois, desfeitas as suas aspirações, malogrados os seus mais secretos desejos, vingar-se das muletas, dos trampolins e dos cavalicoques que lhe haviam falhado. Vingava-se vomitando a bílis que havia segregado nos tempos de missão, uma bílis de raiva e ressentimento, de frustração e remorso, a bílis daqueles que julgando-se atraiçoados optam por trair, julgando-se desprezados optam por desprezar, julgando-se preteridos optam por esconjurar tudo aquilo que os próprios foram e, de algum modo, continuarão a ser. Porque se há coerência no pendura é esta: uma vez pendura, toda a vida pendura. Mudarão apenas as muletas, os trampolins e os cavalicoques. No fundo, é exactamente o mesmo que se passa com os santos.

Escrito para O Indesmentível.

A GOLDEN ORIOLE

Windisch's wife sat down on the edge of the bed. "I had a dream," she said. "I went up to the loft. I had the flour sieve in my hand. There was a dead bird on the steps up to the loft. It was a golden oriole. I lifted the bird up by the feet. Under it was a clump of fat, black flies. The flies flew up in a swarm. They settled in the flour sieve. I shook the sieve in the air. The flies didn't move. Then I tore open the door. I ran into the yard. I threw the sieve with the flies into the snow.


Herta Müller, in The Passport, trad. Martin Chalmers, Serpent's Tail, 2009, p. 35.

Sexta-feira, 25 de Junho de 2010

DO INCONVENIENTE DE TER NASCIDO

Do Inconveniente de Ter Nascido (Abril de 2010) é o segundo volume de E. M. Cioran (1911-1995), com tradução de Manuel de Freitas, a ser publicado pela Letra Livre no espaço de um ano. O primeiro foi Silogismos da Amargura (Maio de 2009), que dava conta, em nota de badana, da existência em língua portuguesa de mais dois livros do filósofo de origem romena: A Tentação de Existir (Relógio d’Água, 1988) e História e Utopia (Bertrand, 1994). Fica assim o leitor português com uma excelente porta de entrada para aquele que terá sido, certamente, o mais pessimista dos filósofos de expressão francesa. Apesar de ter nascido na Roménia, mais propriamente em Rasinari, na Transilvânia, Cioran partiu para Paris, em 1937, e aí se fixou mais tarde, abandonando a língua materna e adoptando a língua francesa. Para trás haviam ficado uma tese de licenciatura sobre Bergson, os primeiros períodos de esgotamento nervoso e algumas obras iniciais. O primeiro livro da fase francesa foi Précis de décomposition (1949), ao qual se seguiram Syllogismes de l’amertume (1952), La tentation d’exister (1956) e, entre outros, Histoire et Utopie (1960) e De l’inconvénient d’être né (1973).

Não se pode dizer que E. M. Cioran tenha edificado um sistema filosófico. Na verdade, a sua prática reflexiva aponta não só para a perversidade da sistematização do pensamento como mesmo para a própria impossibilidade da filosofia. A escolha do aforismo enquanto forma de expressão, à maneira dos Pensées de Blaise Pascal (1623-1662), é um dado relevante, mais ainda quando o autor coloca a sua opção nestes termos: «O aforismo? Fogo sem chama. Compreende-se que ninguém se queira aquecer com ele» (p. 136). É deste «fogo sem chama» que sobrevive o pensamento de Cioran, um pensamento desassossegado, em permanente conflito com a sua própria natureza, realizando-se no limite mais marcante das situações-limite: a consciência interna da morte. Esta consciência lança o autor num labirinto de dúvidas existenciais, do qual é impossível sair sem a sensação muito concreta da banalidade da vida, da inutilidade do pensamento, do vazio que a evidência do fim provoca a quem dela tome o significado. O aforismo resulta, neste contexto, como uma prática especialmente pertinente, pois ele tem a capacidade de nos colocar, pela sua brevidade, no extremo mais afiado da conclusão de um argumento. É como se o autor prescindisse das premissas para nos lançar de imediato nas suas conclusões, mesmo quando essas indicam o único desfecho possível para a itinerância de um raciocínio, ou seja, a voracidade do tempo e a eficácia da morte.

Não admira que a uma filosofia destas seja imediatamente associado o niilismo, mas o niilismo de Cioran sucumbe perante a total indiferença da acção. Uma certa simpatia do autor pelo hinduísmo permite-nos julgar o que aqui está verdadeiramente em causa: perante a impossibilidade de suspender a acção, luz ao fundo de um túnel sem fundo para a supressão da dor e da angústia, perante a dificuldade de transcender as sensações, entorpecidas pela tristeza e pela amargura, resta ao homem sobreviver no seio de um pavor acusado pela sua evidente insignificância. O radicalismo desta perspectiva vai a ponto de afirmar que: «Não nascer é, sem sombra de dúvida, a melhor fórmula que existe. Ela não está, infelizmente, ao alcance de ninguém» (p. 187). Sendo a nossa necessidade de consolo impossível de satisfazer, seria de esperar, no mínimo, a mesma solução para Cioran que Stig Dagerman ofereceu aos seus tormentos, mas Cioran escapa a essa tentação com o mais irónico dos fundamentos: «Não vale a pena matarmo-nos, visto que nos matamos sempre demasiado tarde» (p. 32). O que pode inspirar no leitor este tipo de argumentação? Adesão? Simpatia? Não. Apenas a percepção de uma paradoxal condição, a de que para se suportar o vazio é absolutamente necessário estar-se cheio de nada.

É natural que a certa altura esta sujeição radical da vida aos ditames da morte enfade o leitor que, apesar de tudo, logra encontrar na existência o sentido que escapa a pessimismo tão “absolutizante”. E esse sentido pode ser, por exemplo, o de não fazer sentido algum buscar sentido onde ele jamais se encontrará, permitindo ao ser, desse modo, realizar-se nas alegrias momentâneas, efémeras, superficiais da vida. Se estar vivo é estar sujeito à morte, também não deixa de ser estar sujeito à vida. Daí que a patologia que estruma o pessimismo, no seu horror de uma liberdade inexequível, descambe sempre numa espécie de nostalgia do divino e do sagrado, como aquele lugar onde pode o homem encontrar conforto para o seu desconforto, bálsamo para o absurdo, a angústia, o sofrimento. Viver depois da morte de Deus leva a estes fatalismos, a uma acusação medievalesca da miserabilidade das sensações, como se estar vivo fosse mais uma condenação do que uma bênção. Creio não haver nada mais inconsequente do que um homem revoltar-se contra a sua mais íntima condição, até porque foi isso que ele sempre fez desde que se assumiu como um macaco pensante e ocupado. A história do homem é a história da sua negação. Preferível seria que ele se deixasse de tretas e investisse um pouco do seu parco tempo na sua afirmação. Afirmar o homem significa sentir, sentir tudo de todas as maneiras, sentir até ao ponto de mais nada haver a sentir. E isso leva uma vida inteira. E às vezes nem uma vida inteira chega.

Escrito para o Rascunho.

ISHI


Ishi, índio americano, o último do seu clã, depois de se ter escondido durante anos com medo dos Brancos, vendo-se numa situação-limite, rendeu-se um dia voluntariamente aos que haviam exterminado os seus. Julgava que lhe dariam o mesmo tratamento. Fizeram-lhe uma festa. Não tinha posteridade, era realmente o último.
Uma vez destruída, ou simplesmente extinta, a humanidade, podemos imaginar um sobrevivente, o único, que erraria pela terra, sem ter sequer
a quem se entregar…

E. M. Cioran, Do Inconveniente de Ter Nascido, trad. Manuel de Freitas, Letra Livre, pp. 110-111.

OFENSA

Ontem chamaram-me optimista. E fizeram-no como se me estivessem a ofender. Bem, peço imensa desculpa por gostar de estar vivo.

Quinta-feira, 24 de Junho de 2010

UMA QUESTÃO DE CONFIANÇA

P.S.: isto é uma prenda de aniversário para a Maria João.

VERSOS SOLTOS


Um olho níveo não me diz nada
Até quando posar de inteligente
Para quê completar um pensamento
Há que lançar as ideias ao vento!
A desordem também tem seu encanto
Um morcego agita-se contra o sol:
A poesia não molesta ninguém
E a fúchsia parece bailarina.

Se não é sublime a tormenta aborrece
Estou farto de deus e do diabo
Qual é o preço desse par de calças?
O galã livra-se da sua noiva
Nada há mais antipático que o céu
O orgulho, retratam-no de pantufas:
Nunca discute a alma que se estima
E a fúchsia parece bailarina.

Se embarca num violino naufraga
A donzela casa-se com um velho
Gente desgraçada não sabe o que diz
Com o amor não se lhe suplica a ninguém:
Em vez de leite saía-lhe sangue
As aves cantam tão-só por diversão
E a fúchsia parece bailarina.

Uma vez desejei suicidar-me
O rouxinol ri-se de si próprio
A perfeição é uma vasilha sem fundo
Todo o transparente nos arrebata:
Não há maior prazer do que espirrar
E a fúchsia parece bailarina.

Já não resta catraia que violar
Na sinceridade está o perigo
Eu ganho a minha vida aos pontapés
Entre peito e espada há um abismo
Há que deixar o moribundo morrer:
Minha catedral é a casa de banho
E a fúchsia parece bailarina.

Reparte-se presunto ao domicílio
Poder-se-á ver as horas numa flor?
Vendem-se crucifixos de ocasião
A velhice também tem o seu prémio
Os funerais apenas deixam dívidas:
Júpiter ejacula sobre Leda
E a fúchsia parece bailarina.

Todavia convivemos num bosque
Não sentis o murmúrio das folhas?
Porque não me direis que estou a sonhar
Aquilo que digo deve ser assim
Estou convencido que tenho razão
Eu também sou um deus à minha maneira
Um criador que não produz nada:
Eu dedico-me a bocejar a full
E a fúchsia parece bailarina.



Nicanor Parra, de Versos de Salón (1962)
Versão de HMBF





P.S.: há neste poema vários pormenores irónicos que me obrigaram a algum contorcionismo. Entre eles, o facto de o autor utilizar decassílabos. Tentei respeitar esse aspecto, embora nem sempre me tenha sido possível.

Quarta-feira, 23 de Junho de 2010

O ENCONTRO

Na altura, eu andava a ler o Inforscravos, do Douglas Coupland, e fiquei muito impressionado com a relação do Michael com a BarCode ─ desculpem, Amy. Quem não tiver lido o livro, fique sabendo que aquilo era tudo malta fanática dos computadores. O Michael apaixonou-se ciberneticamente por um ser que se apresentava ao mundo debaixo do pseudónimo BarCode. Soube posteriormente que se tratava de uma mulher, ficaram noivos e foram muito felizes para sempre. A história não é tão simples, nem podia, mas foi nestes termos que a partilhei com o meu amigo Palma. E ficas espantado com isso?, perguntou-me ele, a rede é um viveiro de gajas desesperadas à procura de gajos solitários. Para o meu amigo Palma era tudo tão elementar quanto isto. Eu mal sabia o que era um computador, não percebia nada de internet, ferramenta que me limitava a usar para ver páginas de jornais, mandar e-mails e espreitar alguma pornografia grátis. No entanto, depois daquela conversa a curiosidade tomou conta de mim. É a melhor porta para nos metermos em sarilhos, a curiosidade. Por outro lado, sem ela, a nossa vida seria ainda mais banal do que esta estória.

Comecei por ligar-me a um chat com o meu nome próprio, ingenuidade que poderia ser-me fatal não fosse o caso de ninguém se acreditar que o meu nome próprio era realmente o meu nome próprio. Toda a gente pensava que aquele nome era inventado. As pessoas tendem a projectar nos outros os seus comportamentos, as suas atitudes, ansiedades e desejos, tendem a ver nos outros os mesmos vícios e as mesmas virtudes, embora mais facilmente vejam os vícios que as virtudes, com que se orientam no mundo. Dantes, era muito mais néscio que agora. Um homem aprende com a experiência e, no meu caso, a experiência não é senão um somatório de erros, pelo que faz todo o sentido, pelo menos no meu caso, dizer-se que um homem aprende com os erros. Meti-me com muitas pessoas que frequentavam o chat, mas foi preciso tempo para ganhar a confiança dos frequentadores mais antigos. Era como estar a entrar num novo grupo, numa espécie de clã informal. Eu era o penetra, precisava de provar que estava ali não porque precisava de estar mas porque merecia estar, como se aquele lugar tivesse de ser conquistado, como se fosse um lugar tão apetecível que obrigasse a quem quisesse ali estar o inútil esforço de uma conquista.

Foi no chat que comecei a trocar impressões com a minha BarCode, uma eventual psicóloga, de prováveis trinta anos, supostamente solteira e presumivelmente disponível para amar. A bem dizer, eu não procurava amor. A bem dizer, não procurava nada. Queria apenas experimentar uma nova aventura, um novo mundo, uma realidade diferente daquela em que vivia todos os dias, mas apercebi-me que não havia assim grande diferença entre os mundos ditos virtual e real. Eram ambos preenchidos por pessoas. Logo, eram ambos desinteressantes. Desagradava-me falar com alguém sem lhe ver os olhos, sem lhe sentir o odor dos sovacos. Sabia lá eu com quem estava a falar. Era como se estivesse a falar para uma parede com capacidade de resposta. Era como se as pessoas não fossem pessoas. E isso era agradável. Por outro lado, estimulava-me bastante e dava-me confiança falar com alguém que eu sabia exactamente nas mesmas condições que as minhas, ou seja, alguém que não me podia sentir o odor dos sovacos ou olhar-me olhos nos olhos. Sendo assim, não correria o risco que tantas vezes senti de não saber onde meter os olhos quando do outro lado estão olhos que nos olham como se nós não tivéssemos olhar.

Outra vantagem era a extrema facilidade com que me podia dissimular, fazendo-me passar por espirituoso e agradável, irónico e bem-humorado. Bastava ter uma pilha de livros ao lado e consultá-los com destreza para fazer minhas as palavras dos outros sem que ninguém desse por nada. Foi por essa altura que descobri as vantagens da poesia enquanto acessório da sedução. A generalidade das pessoas adora poesia sem saber o que adora. Quando se atinge uma certa intimidade com alguém, um poema ajuda a romper a última barreira das emoções. Mas por vezes nem precisava de livros ou poesia. Bastava-me ser eu próprio. Fui-me apercebendo disso por causa das reacções que a BarCode tinha às minhas confissões. Sempre que eu lhe dizia a verdade, ela julgava-me a galhofar. Sempre que eu galhofava, ela julgava-me sério. Quando eu lhe dizia que cheirava mal dos pés, o que é verdade, ela respondia-me com um sorriso, mas quando eu lhe dizia que o sentido da vida está em encontrar a bomba de asma ideal, ela elaborava profundas elucubrações sobre o assunto. Partilhámos muito. Primeiro no chat, depois no Messenger, depois por e-mail, depois…

…na desgraça. Resolvemos marcar um encontro físico. Até então só tínhamos mantido contactos virtuais, nem a voz um do outro conhecíamos, apenas comunicáramos através de palavras e símbolos. Nenhum som, nenhum cheiro, nada. Quando avistei BarCode na Rua das Flores, onde havíamos combinado o nosso encontro, fiquei espantado. Ia preparado para tudo menos para aquilo. BarCode era lindíssima, inteligente e até me pareceu honesta. Como é possível, interrogava-me eu. E agora? Eu era um crápula, um inventor de histórias, um pantomineiro, um prestidigitador. Foi precisamente isso que lhe disse, mas ela riu desalmadamente e explicou-me que nada em mim a cativava mais do que aquele apurado sentido de auto-ironia que as minhas palavras revelavam. Mas é mesmo verdade, tentava explicar-lhe eu, não é auto-ironia, é mesmo verdade, eu sou um crápula, um inventor de histórias, um pantomineiro, um prestidigitador. E ela continuava a sorrir, pedia-me para não insistir. Respirava fundo, ganhava fôlego. E eu gaguejava, não sabia onde meter os olhos perante aqueles olhos que me olhavam como se eu não tivesse olhar. Nunca conheci mulher tão confiante. O que fazia ela ali comigo, um crápula, um inventor de histórias, um pantomineiro, um prestidigitador?

RÉU



E se diante do júri eu cuspisse na mão e diante da cruz cantasse meu samba? Antes nascer miserável que ver a pobreza chegar aos poucos. Primeiro mataram a mãe, depois levaram a televisão. Dizem que foi o pó, o tráfico, a dívida. Corri pra igreja onde me ensinaram a orar, acreditar, somos todos irmãos. Mataram o padre ou ele fugiu? Sumiu junto com polícia e repórteres. Fui o primeiro a matar para não ser o último a morrer.

Marcelo Spalding, in Contos de Bolso, VV.AA., Casa Verde, Porto Alegre, Brasil, 2005, p. 103.

FOI COMIGO

Podia ter sido com outro qualquer. Afinal, andava apenas à procura que fosse com alguém.

BORBOLETA


No jardim que parece um abismo
A borboleta chama a atenção:
Interessa o seu voo recortado,
Suas cores brilhantes
E os círculos negros que decoram as pontas das asas.

Interessa a forma do abdómen.

Quando passeia no ar
Iluminada por um raio verde
Como quando descansa do efeito
Que lhe causam o orvalho e o pólen
Unida ao anverso da flor
Não a perco de vista,
E se desaparece
Para lá do gradeamento do jardim
Porque o jardim é pequeno
Ou por excesso de velocidade
Sigo-a mentalmente
Por alguns segundos
Até que recupero a razão.


Nicanor Parra, de Versos de Salón (1962)
Versão de HMBF

ESTADO DE DIREITO

Quem nos protege dos fanáticos da hipocrisia democrática?

A SER VERDADE

Isto é ridículo.

Terça-feira, 22 de Junho de 2010

COREIA DO NORTE

É impressionante como parece haver tanta gente a saber tanta coisa sobre um país acerca do qual ninguém consegue saber nada. De facto, o desconhecido estimula como poucas outras coisas a fantasia e a desconfiança.

OPINIÃO RADICAL

Tenho uma opinião sobre o «programa de vigilancia y recolección sistemática de datos personales de ciudadanos sospechosos de experimentar un proceso de “radicalización”». O que esses fascizóides da UE mereciam era uma tortura à moda medieval. Ou então, em alternativa, serem empalados por zulus.

REVOLUÇÃO


Aprenderam a andar descalços sobre o gelo,
tiveram instrutores rigorosos, resistiram,
fizeram-se crescidos rebolando aos gritos
na dor superada de lição em lição.

É certo que a morte vingará todas as provações,
mas ninguém pode acusá-los de não terem tentado,
ou de terem ficado simplesmente pela intenção.

Ainda que os beatifiquem, prescindirão da santidade
só para poderem perpetuar no inferno
o que mais amam: essa arte de domesticar a dor.

CANTO E LAMENTAÇÃO NA CIDADE OCUPADA

1.

Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida

Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma
em praças ruas becos boîtes e monumentos

Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote

Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz

Ei-la resplendente de amor teoria
e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone

Ei-la a que fica e sobrevive
e reflecte néones nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo

Ei-la a cidade prometida
esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor


Daniel Filipe, in a invenção do amor e outros poemas, Presença, 8.ª edição, 1994, pp. 35-37.

A CIDADE PROMETIDA


Com um remate arrancado
ao Daniel Filipe


Suspeito que o momento da denegação seja mais ou menos como voltar a face para o lado quando por nós passam as dores que nos atravessam, mas também eu trago para as dores a surpresa de uma porta a ranger. Por detrás do ruído, surpreendo-as de olho encostado à fechadura e ouvido colado à parede. Do outro lado da parede, as dores tentam ouvir-me a lamentação dos dias. Podem esperar sentadas. Tenho os pulsos abertos, mas ainda me resta força suficiente para manipular o puxador e abrir a porta, só pelo prazer de a ouvir ranger, só pelo prazer de espantar as dores do quarto ao lado.

Eu remisturei os serrotes que cortavam a madeira das pranchas, eu remisturei os troncos das árvores onde escrevi o nosso nome com uma navalha afiada, onde desenhei um coração a sangrar para dentro de uma taça de barro, a sangrar a resina com que me embebedei, eu remisturei todos esses sons das serrações e pedi a um serralheiro que cortasse o tronco da árvore e me deixasse apenas para memória futura o coração que sangra. Fiz dele um cinzeiro, queimei os dedos, aumentei o volume do saxofone para que me fosse menos audível a dor dos dedos a serem queimados.

Nas fábricas cortam-se membros ao silêncio, inverte-se a dor das fotografias, trabalha-se a forma do discurso, disfarçam-se os defeitos do material, molda-se o barro, nas fábricas enterram-se as utopias e com elas os utópicos que julgaram possível reverter a razão dos fenómenos. Debaixo da terra, andam os utópicos fazendo a sua música com talheres de pedra. Semeiam futuros, fazem-nos acreditar em qualquer coisa que transponha a resina dos dias, os troncos de madeira decepados, a rotina das fábricas, fazem-nos acreditar que a vida é ainda e tão só um negativo reclamando as cores do sangue, a flor da raiz que somos.

Debaixo da terra, os utópicos semeiam as suas razões. Eu abro a porta para ouvi-los, para surpreender as dores que me olham pela fechadura e me escutam com os ouvidos encostados à parede. Abro a porta e mergulho no vão de terra que me levará até às ossadas dos utópicos. Aí vejo flores crescendo dentro de água, sapos que saltam de flor em flor, sapos engolidos pela dor, parecem estatuetas de Max Ernst, saltam de flor em flor e deixam atrás de cada salto um rastro de pólen que escreve no ar: quando o coração te quiser saltar da boca é porque estás apaixonado, lembra-te de que pode ser a última vez; e quando pela manhã estiver um dia de sol, agradece por estares vivo; e quando mergulhares para dentro da terra, pensa na sorte que tens; e quando a terra te envolver como uma onda a rebentar, entrega-te a esse gozo e daí retira proveito para os dias.

Eu trago para as dores a surpresa de uma porta a ranger, um mundo que a cada segundo que passa muda a órbita dos dias, eu recuso cristalizar o corpo numa só avenida, prefiro dar-lhe tantos quantos forem os pés que me exijam, e caminhar entre as sombras como um corpo acessório, porque nenhum músculo exausto me sufoca a ponto de me fazer renegar a vida. O alado cão de Deus há-de morrer envenenado pelo meu fígado. Não é sequer um projecto, é o caminho que a vida toma. Acreditasse eu no destino, diria não tratar-se de outra coisa. Como não acredito, prefiro chamar-lhe a cidade prometida. Esperaremos por ela tanto tempo, que temeremos olhar o seu perfil exacto…

TRÊS POESIAS

1
Já não me resta nada para dizer.
Tudo o que tinha que dizer
Foi dito não sei quantas vezes.

2
Perguntei não sei quantas vezes mas
Ninguém responde às minhas perguntas.
É absolutamente necessário
Que o abismo finalmente responda
Porque já vai restando pouco tempo.


3
Apenas uma coisa é clara:
Que a carne se enche de vermes.



Nicanor Parra, de Versos de Salón (1962)
Versão de HMBF

PERGUNTAS DIFÍCEIS

Ó mãe, o que quer dizer cona da mãe?
Matilde, 7 anos, depois de ouvir a Catarina a ler Nuno Bragança.

Segunda-feira, 21 de Junho de 2010

CEGAS ESPERANÇAS


Todavia, Duchamp chamou Fonte ao seu urinol. A profilaxia da ironia adopta inusitadas funções. O objecto fora descontextualizado, isto é, tinha agora um novo contexto. Desconhecendo a natureza dos objectos, não poderemos reivindicar-lhes um lugar próprio. O lugar dos objectos é a sua função, mesmo quando parecem não ter função alguma. Ao chamar Fonte a um urinol, Duchamp coloca-nos em dúvida o poder da bexiga. Pensávamos nós que a fonte era o órgão humano que se servia do urinol enquanto foz onde as águas desaguam. Mas em 1917, na Society of Independents, “os líquidos urinários” assumiam um outro contexto. E o urinol passou a ser fonte de discussão, debate, polémica. Fonte de dores de cabeça e de corno, fonte de desconforto, fonte de desprezo, fonte emblemática de uma revolução em curso, fonte de uma nova linguagem visual, fonte de metáforas, de experiências, de todo um novo mundo que libertou a arte de vários grilhões e, por consequência, o próprio pensamento.

Neste contexto, o autor encarna o papel de Prometeu. Quem foi Prometeu? Aquele que roubou «o esplendor do fogo, a vida de toda a arte, para a oferecer aos humanos mortais». Todo o artista é um Prometeu agrilhoado, todo aquele que cria é aquele que rouba, por isso criar não é senão recriar, dar um novo lugar às coisas, desconstruir preconceitos e estereótipos. Criar é roubar aos fenómenos a cristalização da perspectiva única, é desarrumar a casa, é reinventar o mundo, é ser fonte de discussão, polémica, debate, é provocar sem gratuitidade, mas com o sentido de espicaçar o pensamento, as sensações, sem temer as dores a que estará condenado aquele que faz dos seus actos um gesto de liberdade, um gesto que afronta os juízes e os juízos, um gesto que escarnece dos poderosos e, destemidamente, oferece aos humanos a mais lúcida das recompensas:

CORO: Porventura terás ido mais além?
PROMETEU: Dei aos humanos a ignorância do seu destino.
CORO: Como encontraste remédio para esse mal?
PROMETEU: Meti-lhes dentro do coração cegas esperanças.


Portanto, estamos vivos. Portanto, vamos morrer. Portanto, entretanto, faremos coisas. A este fazer chamamos poesia, arte. Por que fazemos coisas? Para quê? Para quem? Por que não ficamos quietos? Por que preferimos seguir irrequietos, desassossegados, inquietos? Perguntas mais ridículas não podem ser formuladas. Perguntas ridículas, mas radicais, pelo menos tão radicais quanto as cegas esperanças que Prometeu nos meteu dentro do coração. Às promessas que nos são feitas, nenhuma dúvida responde. Talvez julguemos que o feito, o realizado, o criado, vai para a História. Mas a História tem parca memória. Um nome, mesmo que elevado ao quadrado, não durará mais que uns efémeros séculos. E de que vale elevar um nome ao quadrado? Que imortalidade pode almejar aquele que a todo o momento constata a efemeridade do ser e a transitoriedade de um nome?

As palavras não são remédio para os tormentos da inquietação. Fazemos porque estamos vivos. Prometeu bem nos avisou: é um inútil esforço reflectir e tentar aliviar o coração. Ao dar-nos o conhecimento, as artes, o fogo, Prometeu condenou-nos à sua própria condenação: o alado cão de Deus há-de alimentar-se eternamente do nosso fígado. O artista é, pois, aquele que carrega os males do mundo (Nérval?), estimula o desprezo com o seu desprezo, chama a si a inveja, a raiva, o ódio, será expulso da Cidade Ideal, será tomado como o malfeitor do futuro, pedagogo da desgraça, será aquele que, defrontando o vazio, nos colocará defronte ao vazio como se estivéssemos a ver-nos ao espelho. Portanto, estamos vivos. Fazemos coisas. À mais elevada das pretensões, a hiperbólica ambição da imortalidade, contrapomos o sofrimento eterno como consequência de por aqui andarmos lembrando aos mortais aquilo que eles são: simples, insignificantes, inúteis mortais.

VERÃO

O sol entrou de mansinho pelas frestas, massajou-me as rugas, aqueceu-me as palmas das mãos. O sol penetrou as águas, levantou os cobertores. Sob o manto do sol, o corpo respirou fundo e caminhou para mais um dia com plano: molhar os dedos dos pés no oceano, deixar vir aos pulmões a cantiga do vento. Pode o frio afastar-nos, manter-nos sós, pode o frio quebrantar-nos com uma perigosa inveja. Guardamos para o frio a oração do sol. Eu quero começar o Verão a ouvir passarinhos, a cheirar o sal onde os peixes banham as escamas, coberto de flores, rodeado de árvores, com os pés enterrados na terra fertilizada pelas sementes da Primavera. Quero começar o Verão arrastado por um sopro brando, no alto de um monte onde hei-de sentir chegar o cheiro do teu corpo em festa.

Domingo, 20 de Junho de 2010

OS ARRIVISTAS

Estavam pendurados pelos ombros aos ramos das árvores genealógicas. Molas de presunção impediam que caíssem a pique, embora fosse indisfarçável a podridão que os consumia. Cheiravam mal. Cheiravam mal dos pés, da boca, das mãos que traziam sujas de uma sujidade que se transmitia, como um vírus, de aperto em aperto. Às vezes escondiam as mãos nos bolsos, outras vezes atrás das costas, quase sempre as traziam ocupadas com alguma coisa. Era para eles impensável o mínimo gesto sem proveito. Benjamim olhou para os arrivistas com desconfiança. Perante os espantalhos, o olhar das aves é sempre mais previdente do que os próprios espantalhos logram supor. Afinal, a um pombo, um arrivista só pode parecer fruta humana apodrecida, fétida, contagiosa. Não tinham amigos, só tinham degraus. Para eles, o mundo era um escadote. De degrau em degrau, aos ombros dos aliados, pisavam e repisavam a própria sombra só para chegarem onde nem o Sol chega. Engoliam sapos. Daí que arrotassem frequentemente, deixando no ar uma desagradável fragrância tumefacta. Alguns engoliam tantos sapos que em sapos se transformavam. Já dizia o poeta, um homem é aquilo que come. E os arrivistas comem sapos, andam aos saltos pelos charcos, e comem muita carne de porco, imensa carne de porco. Assim se explica que se sintam tão confortáveis nas pocilgas onde vão sentindo sérias dificuldades em adormecer. Chamam assembleias às pocilgas, chamam-lhes associações, confrarias, chamam-lhes clubes, sociedades secretas de carácter universal, chamam-lhes congregações, prelaturas, outras coisas lhes chamam. Mas o pombo só via pocilgas. Eram todos órfãos de mãe, porque a própria mãe haviam vendido, por vezes, a troco de pouco mais que uma promoção ou um elogio. Ó raça de marionetas! Criaturas mais mesquinhas, avarentas, medíocres, era impossível encontrar. E se noutros séculos tinham dado bons romances, agora mais não davam que grotescas caricaturas. No lugar do cu fora-lhes aberto um poço de duvidosas virtudes, no lugar da boca tinham agora o cu e pelos olhos disparavam uma ambição tão desmedida que andavam sempre com conjuntivites de inveja. Em momentos de fraqueza e de desânimo, se choravam era às escondidas que o faziam, pois nos seus olhos secos já não havia lágrimas, só mesmo crocodilos que, vertidos sobre as faces, acabavam por engolir a própria fonte como um homem que se devora a si mesmo para poder ser o que jamais será.

Escrito para O Indesmentível.

A SNOBEIRA DA HUMILDADE


Acabei de ler este comentário no facebook. É dirigido a alguém que afirma não apreciar “o Saramago” «nem um pouquinho». Toda a gente está no seu direito de apreciar quem quer que seja e de não apreciar o que bem entender. Eu estou no direito de não apreciar nem um pouquinho este tipo de comentários. Porquê? Há uma espécie de ingenuidade inerente ao tipo de pensamento que subjaz ao comentário, mas essa ingenuidade é maldosa, preconceituosa, é reveladora do povo que temos e de um deprimente falhanço cultural. É de uma sobranceria irritante a forma como as pessoas escarnecem das supostas “vedetas”. Talvez sem pretender, o autor do comentário redunda na mais snob das posturas… porque recusa reconhecer aos grandes feitos a sua indiscutível grandeza.


Sendo assim, bardamerda para Dom Afonso Henriques e Vasco da Gama e demais vedetas que edificaram esta bardamerda de país. Ou não. Repare-se que a vida de um homem (em sentido lato) é toda uma luta onde se somam conquistas e derrotas. Ser tão indiferente às conquistas daqueles que, enfim, se limitaram a contribuir para que tivéssemos um mundo um “pouquinho” melhor (coisa pouca, por certo) é, no mínimo, estúpido. É claro que muita gente faz na sombra muita coisa apreciável e não sente senão um reconhecimento limitado por aquilo que faz. Muitas das “vedetas” actuais viveram e morreram miseravelmente, foram necessários anos, décadas, por vezes séculos para que esse reconhecimento se impusesse como uma espécie de destino que as próprias obras outorgadas à posteridade traziam no seu património genético. Enquanto viveram, só havia uma bardamerda de gente que passava o tempo todo a dizer bardamerda para eles, os outros, as vedetas do futuro.


Gandhi é tão “vedeta” quanto Hitler. No entanto, são vedetas de escolas diversas. O que os distingue é a obra que deixaram, e é na base dessas obras que haveremos de sustentar a nossa admiração. Temos, pois, para nosso bem e para bem dos vindouros, que fazer opções: queremos referências ou dispensamo-las? Se optarmos pelas referências, quais delas preferimos? Um povo culto será mesmo preferível a um povo inculto? Faz sentido deitarmos abaixo o Mosteiro dos Jerónimos para ali passar uma auto-estrada? O nome, a língua, o património de um país serão assim tão relevantes? Bardamerda para as vedetas porquê? Por serem vedetas? Mas quem as tornou vedetas? O povo que as venera? Bardamerda para o povo que venera? Quem são as tuas vedetas? Veneras alguém? Bardamerda para as obras? Bardamerda para ti? Para mim? Bardamerda para a estupidez humana, que não tem limites mas, valesse dinheiro, faria milionárias muitas e respeitáveis pessoas.

É óbvia a politiquice rasteira no tipo de pensamento que motiva comentários como o supracitado. Uma politiquice rasteira, ordinária, sem sentido. Nem preciso afirmar que não sou comunista, como nunca precisei de ser fascista para apreciar as obras de Ezra Pound ou Céline. Sucede que a tacanhez de pensamento, muitas e tantas vezes dissimulada por comportamentos, digamos assim, mais vanguardistas e atitudes pseudo-liberais, para não lhes chamar outra coisa, resvala nesta dificuldade de olharmos para as obras sem os preconceitos que trazemos acerca dos obreiros. É como se eu não gostasse de uma canção porque sei que o cantor é bêbedo e bate na mulher, é como se eu deixasse de gostar de um quadro porque o artista era um crápula. Talvez fossem razões mais nobres para censurar uma obra. Talvez. Mas o pecado cometido por Saramago é aquele que os portugueses menos toleram: o pecado das convicções. Ainda por cima, comunista. Ainda por cima, ateu. Ó terríveis pecados numa terra de gentalha conservadora que por pura indigência baixa as calças ao poder e lambe os pés à Igreja.

De facto, morrem todos os dias pessoas extraordinárias e todos os dias vamos sentindo um extraordinário desprezo pela extraordinária ignorância votada às pessoas extraordinárias. Mas o que está mal? Não se falar de uns ou falar-se dos outros? Falar-se muito de uns e pouco de outros? Por que razão falaremos de uns e esqueceremos os outros? Com tanta gente extraordinária, qualquer dia ser extraordinário passa a ser algo de muito ordinário. No mundo dos livros esta realidade é ainda mais evidente, basta passar os olhos pelas estantes repletas de produtos ignóbeis como os das Nora Roberts ou dos Nicholas Sparks deste mundo, autores que conferem à escrita o mesmo proveito que a pastilha elástica tem na roda alimentar dos seres humanos.


Era bom que todos percebessem uma coisa e que, pelo menos uma vez na vida, procurassem ver para lá das viseiras preconceituosas e ideológicas com que formatam o pensamento: os livros de Saramago não são apenas os livros de um homem ateu e comunista, são livros que levaram a língua portuguesa além fronteiras, livros que conseguiram conquistar para um país minorca como o nosso a atenção de pessoas espalhadas pelo mundo inteiro. Da próxima vez que ouvirem o hino nacional cantado num estádio de futebol, lembrem-se disso. Lembrem-se que há mais mundo para lá daquele que é jogado entre as quatro linhas onde a bola roda.

DISCURSO FÚNEBRE



É um erro acreditar que as estrelas
Podem servir para curar o cancro.
O astrólogo diz a verdade
Mas equivoca-se a este respeito.
Médico, o caixão cura tudo.

Acaba de morrer um cavalheiro
E pediu-se ao seu melhor amigo
Que pronunciasse as últimas palavras,
Mas eu não quisera blasfemar,
Apenas quisera fazer umas perguntas.

A primeira pergunta da noite
Refere-se à vida depois da morte:
Quero saber se há vida depois da morte
Nada mais que se há vida depois da morte.

Não quero perder-me neste bosque.
Vou sentar-me nesta cadeira negra
Próxima do catafalco do meu pai
Até que me resolvam o meu problema.
Tem de estar alguém em segredo!

Como não o saberão o marmorista
Ou aquele que muda a camisa ao morto?
O que constrói o vão sabe mais?
Que cada qual me diga o que sabe,
Todos estes trabalham com a morte.
Estes devem tirar-me da dúvida!

Coveiro, diz-me a verdade,
Como não vai existir um tribunal,
Ou os próprios vermes são os juízes?
Tumbas que pareceis botequins,
Respondei-me ou arranco os cabelos
Porque já não tenho mão nos meus actos,
Só quero rir e soluçar.

Os nossos antepassados foram destros
Na confecção da morte:
Disfarçavam o morto de fantasma,
Como que para afastá-lo ainda mais,
Como se a distância da morte
Não fosse por si só já incomensurável.

Há uma grande comédia funerária.

Diz-se que o cadáver é sagrado.
Mas todos se livram dos mortos.
Com que objectivo os põem em fileiras
Como se fossem latas de sardinhas?

Diz-se que o cadáver deixou
Um vazio difícil de preencher
E compõem-se versos em sua honra.
Falso, porque a viúva não respeita
Nem o caixão nem o leito do defunto!

Um professor acaba de morrer.
Por que se despedem os amigos?
Para que por acaso ressuscite?
Para elucidarem seus dotes oratórios!
E por que se arrancam os cabelos?
Para estirar os dedos da mão!

Em suma, senhoras e senhores,
Só eu me compadeço dos mortos.

Esqueço-me da arte e da ciência
Ao visitar as suas miseráveis choças.

Só eu, com a ponta do meu lápis,
Faço sonhar o mármore das tumbas.

Ponho as caveiras no seu sítio.

Os pequenos ratos sorriem-me
Porque sou o amigo dos mortos.

Estou velho, não sei o que se passa comigo.
Por que sonho pregado a uma cruz?
Caíram os panos derradeiros.
Passo a mão pela nuca
E vou cavaquear com os espíritos.


Nicanor Parra, de Versos de Salón (1962)
Versão de HMBF

OBRIGADO, TRAMA


O Moura leu dois êxitos do extenso repertório ventílico. À moda antiga, ligados ao mesmo amplificador, a voz do poeta e as minhas cordas raivosas. O Serpa soprou. E foi bom, bom, bom. Depois, cantei dois poemas do Moura. Afinal, era para isso que lá estávamos, para «subalugar o microfone». Vim-me embora feliz, com um cavalinho de madeira num braço, as filhas no outro e alguns livros em equilíbrio sobre a cabeça. Treinei a compostura com uma varina da Nazaré. Só me desculpo aos que me ouviram.

MORTOS VIVOS

ANA DIXIT

Cavaco Silva pelo menos é coerente, há-de ser uma besta até ao fim.

Sábado, 19 de Junho de 2010

SINTOMAS

Há dezasseis anos senti-me mal. Via páginas amarelas nas folhas vazias, manchas de um ocre flutuante pairando no ar. Sentia o peito apertado, tremiam-me as pernas, suava rios de ansiedade das palmas das mãos. Há dezasseis anos senti-me mal. Tinha o coração com vertigens, à beira de um abismo sem fundo, estava em queda. Não conseguia dormir, há dezasseis anos. Não conseguia descansar. Estava farto de tudo e de todos e de mim próprio sobretudo. Pensei suicidar-me, mas faltou-me tempo e coragem. Também me faltou dinheiro, mais que tudo dinheiro. Porque um homem não se pode suicidar de barato. Se a vida tem custos, a morte muito mais. Fui ao médico.

O médico de família receitou-me vitaminas e mandou-me para um psicólogo, o psicólogo receitou-me uma vida sossegada e mandou-me para um psiquiatra, o psiquiatra receitou-me químicos e ia-me mandando à merda. Acabei num neurologista, que deve ser no mundo da medicina o que mais se aproxima com ir à merda. Porquê? Porque o neurologista pôs-me a andar ao pé-coxinho, quis jogar comigo à cabra cega, mandou-me fazer vários exames e concluiu que nada havia a concluir. Você devia ter vergonha, vir para aqui ocupar o meu tempo e tirar a vez a quem precisa. Pelos vistos, eu não precisava. Mas continuava a sentir-me mal, as tais vertigens, os apertos, a depressão.

Aproveitei o facto de estar doente para viver um bocado como deve ser. Fui passar duas semanas a São Miguel, banhar-me nas águas ferventes das furnas, comer cozido à portuguesa, passar a mão pelo pêlo das vacas. Depois, passei duas semanas nas termas do Vimeiro. Só bebia água, levantava-me muito cedo e mais cedo ainda me deitava. Fazia massagens, banhos turcos, aerossóis, caminhava, nadava, lia. Tentei, está visto, levar uma vida saudável, o que me pôs ainda mais doente. A acupunctura ia dando cabo de mim. O tempo que passava com o corpo cravado de agulhas era-me um suplício. Deitado na maca, olhava para o chão e começava a imaginar baratas. Como é que se sente agora, perguntavam-me. Como uma barata, respondia.

Deu tudo isto em que fosse parar novamente aos corredores da medicina convencional. Receitaram-me uns comprimidos que me punham a dormir acordado. Eu queria ler e não conseguia, queria ver um filme e era incapaz, queria articular as palavras, dizer uma frase com sentido, e saía-me tudo tropeçado. Tinham-me transformado num zombie. Por vezes, pensava que estava a enlouquecer. Só afastava de mim tais ideias quando olhava para as outras pessoas e as via disfarçar o sofrimento com gargalhadas cruéis. Como era possível mostrarem-se tão bem dispostas num mundo tão bárbaro? Só podiam estar loucas. A minha indisposição era, afinal, a prova de que ainda me restava alguma sanidade mental.

O último médico que consultei pregou-me um sermão interminável sobre as virtudes de uma boa dieta, dos hábitos, a importância dos hábitos, porque o corpo é um ser de hábitos e o que estava a dar cabo do meu corpo era aquilo a que ele chamava maus hábitos. Disse-lhe que nos últimos tempos o pior dos meus hábitos era mesmo andar pelos corredores da medicina. Com tanto dinheiro que tinha gasto, mas valia ter investido na caça. Ele disse que eu era louco, eu respondi-lhe que por isso mesmo ali estava, ele disse que não era bem louco que queria dizer, eu disse que dissesse o que queria, ele disse que queria dizer que eu só precisava de descansar, eu disse que ele ficasse descansadinho da vida.

Portanto, aqui estou. Há dezasseis anos que não faço outra coisa senão descansar do mundo e de mim próprio. Tudo o que faço, faço-o nessa perspectiva do descanso. Não me dou ao trabalho senão de trabalhar o menos possível, o que, por si só, se revela bastante cansativo quando nada há para fazer. Deixei de tomar medicamentos, de consultar doutores, deixei de me preocupar com as preocupações. Passei a preocupar-me apenas em não me preocupar com nada. Não sou feliz, mas, pelo menos, já não vejo páginas amarelas nas folhas em branco. Os restantes sintomas mantêm-se. Todavia, aprendi a chamar-lhes sintomas. Chamar-lhes sintomas deixa-me muito mais descansado.

MULHERES



A mulher impossível,
A mulher de dois metros de estatura,
A senhora de mármore de Carrara
Que não fuma nem bebe,
A mulher que não quer despir-se
Por temer ficar grávida,
A intocável vestal
Que não quer ser mãe de família,
A mulher que respira pela boca,
A mulher que caminha
Virgem até à câmara nupcial
Mas que reage como um homem,
A que se desnudou por simpatia
Porque adora música clássica,
A pele vermelha que caiu,
A que só se entrega por amor,
A donzela que olha com um olho,
A que só se deixa possuir
No divã, à beira do abismo,
A que odeia os órgãos sexuais,
A que só se une com o seu cão,
A mulher adormecida
(O marido alumia-a com um fósforo),
A mulher que se entrega porque sim
Porque a solidão, porque o olvido…
A que chegou donzela à velhice,
A professora míope,
A secretária de óculos escuros,
A menina pálida de lentes
(Ela não quer nada com o falo),
Todas estas walkirias,
Todas estas matronas respeitáveis
Com seus lábios maiores e menores
Acabarão por tirar-me do sério.


Nicanor Parra, de Versos de Salón (1962)
Versão de HMBF

Sexta-feira, 18 de Junho de 2010

UM MESTRE

Por volta das 10:30, já em pleno local de trabalho, respondia ao Changuito sobre um encomenda de livros importados que lhe fiz. Lá ia o desabafo: «atrás do balcão, a arrumar lixo lixo e mais lixo». Pouco depois, caiu a notícia no e-mail. Morreu o escritor José Saramago. Seguiam-se algumas palavras de consternação e a indicação de regra em situações similares: pede-se que dêem especial destaque aos livros do autor. A quem está de fora pode parecer mero oportunismo comercial, mas a quem está por dentro é como se uma lufada de ar fresco tivesse entrado pela livraria. Pelo menos, vamos poder destacar como deve ser um grande autor, um dos maiores. A quantidade de lixo que chega todos os dias não permite que haja espaço para destaques destes. Só quando o rei faz anos, ou seja, quando o escritor morre. Ter de o arranjar, o espaço, varrendo para os becos alguma porcaria, é missão que alivia o desapontamento do “livreiro” empenhado. Eu hoje já ouvi muita coisa sobre José Saramago, também já li muita opinião e recordei variadíssimas citações dos seus livros. De tudo, vou guardar para memórias futuras o prazer com que pude destacar os seus livros. A biografia do autor está disponível, pelo que não perderei tempo com ela. Limito-me a sublinhar alguns dados deveras relevantes: as origens humildes (nascido em Azinhaga, no seio de uma família com nome que as famílias de nome tiveram que aprender a pronunciar); uma vida de trabalho, de serralheiro a jornalista, de jornalista a escritor, sem pôr pé nas fábricas de cérebros a que é costume dar-se o nome de Universidades; o “autodidactismo”, dos poucos ismos apreciáveis num país de doutores e engenheiros que, muitas vezes, mal sabem escrever o próprio nome; a perseverança, a que alguns chamam teimosia por não entenderem que teimosos são os burros quando mal montados; o ateísmo, outro ismo muito respeitável por quem não espera do céu senão bom tempo para se caminhar sobre a Terra; e, por fim, a capacidade de polemizar sem procurar impor, sem o ímpeto missionário daqueles que, incomodados com as ideias alheias, estão sempre à espera do momento da conversão que lhes possa tornar menos aflitiva a diversidade de pensamento. Convicto e firme, sim, mas sem que se lhe pudesse detectar um qualquer tique de superioridade. Uma lição. Neste sentido, estou em crer que José Saramago foi o mais filosófico dos escritores portugueses. Há nos seus romances uma tendência aforística que por vezes passa despercebida, porque nela há também todo um desenvolvimento reflexivo que, partindo de ideias simples, não se limita a descansar sobre o preconceito. De resto, as alegorias não são outra coisa senão o pretexto para desenvolver toda uma reflexão sobre o que nelas possas estar implícito. Daí que o autor alertasse para a relevância das epígrafes que abrem os seus romances. «Está lá tudo», dizia, naquelas citações retiradas de livros imaginários. Duvido que exista melhor forma de compor uma ficção. Foi isso que me fascinou quando, em 1992, li O Evangelho segundo Jesus Cristo. Entrei na obra de Saramago por essa porta monumental. À época, acabado de aportar nas salas da Católica, em Lisboa, discutia-se muito aquele romance. Vi doutores salivando de raiva pelos cantos da boca por causa do livro, vi parte substancial de uma Assembleia da República aplaudir considerações inquisitórias sobre o romance (o nosso actual PR era então PM, uma desgraça de PM que os portugueses, sempre atentos, resolveram prendar pelo bem que fez à nação). Está hoje à vista de todos a completa ausência de bom senso dos energúmenos. E eram tantos. E foram tantos. E são tantos. Porque há sempre muitos dispostos a aplaudirem outros tantos. José Saramago, o escritor, nunca há-de ser consensual. É assim com os grandes. José Saramago, o homem, converge com o escritor. É assim com os grandes. À obra da juventude, peço as últimas palavras:

«Vive-se sempre de menos… A Natureza é pródiga, excessiva, para o que não pode ser destruído. Para nós é duma avareza mesquinha, que faz pagar bem caras as poucas migalhas que nos atira com desdenhosa complacência! Apesar de tudo, nós continuamos, e ainda há-de ver-se quem é que ganha a batalha…»

José Saramago, in Terra do Pecado, 3.ª edição, Caminho, p. 186. A 1.ª edição data de 1947 e, publicada pela Minerva, foi o primeiro livro do autor.

JOSÉ SARAMAGO (1922-2010)


Conheci Saramago em Maputo em 1999. Inteligência brilhante, perspicácia cultural e política supra-apurada: nessa altura logo percebeu onde e como estava, tão ao contrário de tantos outros literatos que chegavam naquele “comboio descendente”. Não li Saramago, pelo que não tem sentido escrever um post sobre a sua morte. Escreveu, desassossegou, construiu mundos ficcionais & escrita da terra, tomou posições políticas assumidas (qualidade de homem livre), deixou-nos coisas luminosas e boas. obrigada pelas gargalhadas que provocaste ao meu Pai durante a leitura d'O Memorial do Convento. Surpreendeu-me a surpresa que me causou a notícia. Era esperada. E agora um pequeno desabafo: se há coisa que me irrita é ouvir alguém dizer: não gosto de ler Saramago... ele não sabe pontuar. O que entendem estas pessoas por pontuação? Rumores de que escrevia sem acentos e sem vírgulas e a texto corrido são completamente falsos, só quem não o lê é que pensa assim. O Ano da Morte de Ricardo Reis continua a ocupar um lugar mágico na minha memória. Desde 1976 que vivia exclusivamente do seu trabalho literário. Fixou-se definitivamente na ilha de Lanzarote, arquipélago das Canárias, em 1993. O meu livro favorito dele é o Levantado do Chão. Pela geografia, está ali um Alentejo que não vivi, mas que ficou a viver em mim. A sensação que tenho, com a morte de José Saramago, é que ele (e também Agustina) foi o último dos grandes -- não no sentido da qualidade literária, porque, felizmente, enquanto houver Literatura haverá sempre quem faça uso das palavras para acrescentar mundos ao mundo; mas no da aproximação simbólica ao escritor demiurgo, maitre à penser ou não, alguém doutro patamar, transportando consigo a aura dos que sentem mais fundo e mais longe. Deus chamou-o para autografar O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Romancista, poeta e dramaturgo, autodidacta, José Saramago, segundo consta na sua biografia, apenas concluiu estudos secundários, dadas as dificuldades económicas familiares. Foi jornalista e militante do partido comunista, tendo sido também serralheiro e tradutor. O escritor português e Prémio Nobel da Literatura em 1998 José Saramago morreu hoje aos 87 anos em Lanzarote. O autor português encontrava-se doente mas em estado «estacionário», mas a situação agravou-se, explicou o seu editor, Zeferino Coelho. Como não vou poder actualizar o blogue nas próximas horas, justamente por causa desta infeliz notícia, assinalo para já o meu desgosto e a minha tristeza pela perda de um grande, de um imenso escritor. A última década e meia trouxe-lhe o reconhecimento internacional. Oriundo do proletariado, conseguiu impor a obra à revelia da tutela universitária. A História não diz a verdade. A Literatura, sim. Saramago renovou a antiga arte de contar histórias e, sendo dotado de uma imaginação prodigiosa, não a usou para fugir a este mundo, mas para denunciar a estreiteza do real e a possibilidade de outros mundos. Fez o que queria. Ignorou os ignorantes. Saramago é um escritor que se conquistou a si mesmo, que encontrou a sua maneira em pleno percurso. Que fez o seu caminho, caminhando. "Él decía que en el epitafio había que ponerle: aquí yace José Saramago en discordia". Era um homem de fibra, dos antigos. Mr. Saramago loved to tell a story of how he came by his surname. His real family name was de Sousa. But when, as a 7-year-old boy, he showed up for his first day of school and presented his birth certificate, it was discovered that the clerk in his home village had registered him as José Saramago. “Saramago,” which means “wild radish,” a green that country people were obliged to eat in hard times, was the insulting nickname by which the novelist’s father was known. O seu livro mais importante para mim foi «Levantado do Chão». Escrito para homenagear José Adelino dos Santos e Germano Vidigal, dois militantes do PCP assassinados pela PIDE na GNR de Montemor-o-Novo, o livro nasceu em casa de João Basuga onde José Saramago viveu perto de 6 meses, ouvindo com atenção e tomando notas das histórias das gentes do Lavre. Menino da Penha de França (Rua Carlos Ribeiro), filho de um subchefe da PSP e de uma doméstica, agradeceu as histórias contadas na dedicatória com os 16 nomes dos homens e mulheres do Lavre. Nunca imaginei a morte deste senhor. Agora que morreu - ouvi há pouco na rádio - tenho apenas duas certezas: homens destes já não se fazem e vão definhando um a um. O elefante fez a última viagem para se encontrar com a morte de Ricardo Reis. O “interesse jornalístico” canibaliza a memória do homem, do comunista, a sua dimensão ética, humana e política. Morreu abraçado às palavras. Deviam ser umas 3 horas quando me apercebi de que José Saramago estava no pavilhão da Caminho para dar autógrafos. E sem ninguém a fazer fila, o que para mim foi surpreendente - nunca tinha pedido um autógrafo a Saramago, exactamente por causa das filas...a verdade é que a ausência do Chefe de Estado enquanto tal, acarretando a de Cavaco Silva enquanto sua expressão acidental particularmente ridícula, só pode honrar um "homem de convicções e literatura" como José Saramago... As vuvuzelas não tardarão a silenciar-se. Uma vida, como sempre, reduzida a cinzas. A erisipela deixará de afligir os de olhar torvo. Blimunda, no entanto, permanece, e o espírito do morto será lido pelos vivos. O José Saramago era o meu preferido dos escritores vivos. Agora o José Saramago é um dos meus preferidos dos escritores imortais. Morre Saramago e, como sempre que morre alguém incómodo, o baixo-nível das figuras do regime vem ao de cima. Fui apanhado (fomos todos) completamente de surpresa. Ainda me custa a acreditar. Não se tem de gostar do homem para se gostar dos livros. Ou vice-versa. Talvez até a maioria dos bons escritores não seja flor que se cheire. É possível. Hoje os jornais noticiam que Cavaco e Jaime Gama não irão ao seu funeral. Fazem mal. Porque Cavaco e Gama não são o senhor Silva e aquela viscosidade que encima o parlamento. São, como dizem os reclamantes indignados, pessoas a quem pagamos para isto. Um escritor aprende também muito nascendo e vivendo num país onde as elites são medíocres e mesquinhas, e cujas imaginações não aceitam que pode ter nascido um génio na Azinhaga, Ribatejo. Nem os estudos secundários os completou o Nobel da língua portuguesa. Não foi pois o sistema formal do ensino que lhe suscitou a gramática e a criatividade artística. José Saramago, Prémio Nobel, é uma obra exclusivamente sua.

Nota: isto é apenas um pequeno apanhado de citações que fui respigando em weblogs que acompanho diariamente. Se clicar nas citações será encaminhado para as fontes.

Quinta-feira, 17 de Junho de 2010

ELAS QUISERAM ASSIM


Há dias em que acordo assim, lamechinhas, com o coração mole e flácido, como uma banana apodrecida, em que me parece possível rebentar em lágrimas ao som do Unbreak my heart da Tony Braxton ─ um avião! ─ ou de certa música de uma banda modernaça de que gosta a minha miúda mais velha, os REM (diz-se árieme) ─ aquela em que o rapaz grita "everybody cries, sometime". E a verdade é que já não estou em idade para estas pequenas fraquezas, se é que há uma idade para se ser sentimental, se é que o mundo admite hoje que se viva de sentimentalismos ─ que se chore de vez em quando; que se viva de coração partido, para seguir ainda a letra de uma outra cançoneta que ultimamente está muito em voga: Mas parte-se-me a alma só de pensar que posso fazer sofrer os outros e pronto!, que querem? Custa-me dizer à pobre Anunciação que sei de tudo e que está tudo acabado entre nós, pois tenho a certeza de que ela vai chorar, pedir perdão, jurar que não volta a repetir, ajoelhar-se para me agarrar as pernas, dizer que me ama, que só me ama a mim e só a mim, que sou o único homem da vida dela, que pense nas raparigas, que, que, que, que. Custa-me só de imaginar a cena. Quase tanto como pensar que Maria da Anunciação me dirá simplesmente, fria, que andava para mo dizer há muito, que já não sente nada por mim, que é verdade, que encontrou um homem que gosta dela a sério e que compreenderá perfeitamente se eu me for embora.
Haverá criatura mais imprevisível do que uma mulher?
Devo confessar que me assusta a possibilidade de as coisas não sucederem tal como eu as planeio; que temo que a realidade me surpreenda e me apanhe desarmado. Nada me irrita mais do que não ter as palavras certas para dizer na altura própria e ter de ficar calado, para pensar e, depois, quando encontro as palavras, ser já tarde, não virem elas já a propósito. Nada me amofina mais e é por isso que perco demasiado tempo a tentar prever todos os pormenores de todos os cenários possíveis para cada uma das variadas situações que um determinado gesto meu possa desencadear. Cansa-me mais do que trabalhar, pensar nestas coisas todas. E depois... Bem, depois, as mulheres são tão pouco lógicas, tão repentistas, tão... Pode lá prever-se como reagirá uma mulher a um estímulo nosso! Podia lá eu prever como reagiria Maria da Anunciação se eu me limitasse a dizer-lhe que sabia de tudo...
O que acabo de confessar não se enquadrará muito bem em grande parte daquilo que sobre a minha vida até aqui contei, mas é a verdade. Ou é, pelo menos, parte da verdade. Esta minha maneira de ser, estes constantes receios, não encaixam de todo no facto de eu ter casado duas vezes e, por simples dedução lógica, no advento de duas paixões correspondidas. Dirão, com alguma razão, que alguém que pensa tantas vezes antes de agir dificilmente terá alguma possibilidade de obter sucesso com as mulheres, que, conforme se sabe ─ e isto sabe-se,
─, não é preciso livro de instruções ─, são um bicho fugidio e pouco dado a esperas e a indecisões. A resposta é, contudo, bem simples: foram elas que me conquistaram a mim, que deram o passo decisivo, que avançaram sobre mim para o primeiro beijo. E que, acabei por descobri-lo, haviam de decidir também sobre o momento em que me beijariam pela última vez.



Manuel Jorge Marmelo, in As Mulheres Deviam Vir Com Manual de Instruções, Campo das Letras, 4.ª edição, Setembro de 1999, pp. 93-94.

NASCEM-ME DEDOS EM SONHOS

Sou um poeta realista, mas não descuro os dedos que me nascem em sonhos e fazem cócegas na ponta das orelhas, provocando o riso de quem passa à distância e o desconforto das plagiadoras musas. Sinto-me velho para temer metáforas e já não tão novo quanto isso para me submeter às iniquidades que estimulam comentários. Deixei de apertar a mão a padres. Só mesmo em situações de salão e cortesia. Não farei escola do meu coração, nem espero que me entenda quem mostra reserva. Cultivo restos de mim próprio, com a certeza de que está a chover lá fora e cá dentro o deserto não finda. Pois água mole em pedra dura tanto bate até que enloda.

NÃO SEI O QUE SE PASSA COM ESTE POVO, MAS PASSA-SE ALGUMA COISA… OU SE CALHAR NÃO SE PASSA MESMO NADA

─ Boa tarde. Eu ando a fazer o passe. O senhor tem alguns livros sobre isso?
─ Fazer o passe?
─ Sim. Não sabe o que é? Andar a fazer o passe, é assim para afastar os males do olhado.
─ Procura livros sobre os males do olhado?
─ É para o passe. Ela disse que havia um, mas esqueci-me como se chamava.
─ Ela…
─ É quem me vai ajudar. O livro era não sei quê das curas.
─ E é para fazer o passe…
─ É.
─ Minha senhora, peço-lhe imensa desculpa, mas não a posso ajudar. Tem ali muitos livros sobre esses temas. O melhor será dar uma vista de olhos e tentar encontrar algum que lhe agrade.
─ Ah, mas são tantos. Não tem nenhum sobre fazer o passe?

ALINHAMENTO

Depois das dificuldades da AMI em satisfazer um número cada vez maior de pessoas carenciadas, a excelência da porcelana portuguesa nos manjares do casal Obama.

O (PRE)CONCEITO DA CRIAÇÃO


Mas talvez seja melhor perder algum tempo a esclarecer o (pre)conceito da criação. Marcel Duchamp dizia que a palavra lhe metia medo: «No sentido social, comum, da palavra, a criação é muito amável mas, no fundo, não acredito na função criativa do artista. Ele é um homem como qualquer outro. A sua ocupação é fazer certas coisas, mas o homem de negócios também faz certas coisas, entende? Por outro lado, a palavra «arte» interessa-me muito. Se ela vem do sânscrito, como ouvi dizer, significa «fazer». Ora toda a gente faz alguma coisa, e aqueles que fazem coisas sobre uma tela, com uma moldura, são chamados artistas. Antigamente, eram nomeados por uma palavra que eu prefiro: artesãos. Somos todos artesãos na vida civil, na vida militar e na vida artística» (in Engenheiro do Tempo Perdido). Eis como se anula o estatuto de excepcionalidade de todo aquele que cria. No entanto, a palavra não me mete medo. Não tanto quanto a fantasmagoria inerente ao próprio conceito. Qualquer agente faz coisas, no sentido de realizar acções. Criar um par de sapatos é fazer um par de sapatos. Criar uma obra de arte é fazer uma obra de arte. A diferença está em que ao par de sapatos reconhecemos uma utilidade prática que advém da sua função imediata, isto é, proteger-nos os pés. À obra de arte reconhecemos apenas a sua radical inutilidade.

Repare-se, porém, como perante um urinol transformado em obra de arte, uma assemblage de Arman, a produção em série das caixas Brillo, as instalações de Christo, etc., etc., etc., tudo coisas que a não existirem não trairiam a essência do mundo, repare-se como perante essas criações, perante esses feitos, perante essas realizações, repare-se como a postura daquele que observa não é exactamente a mesma que adquire quando se coloca em frente a uma montra de sapatos. O valor atribuído a cada uma das criações também não é exactamente o mesmo. Vivemos num mundo em que a inutilidade tem imenso valor material, paga-se a preço de ouro. Investe-se imenso na inutilidade, copia-se a inutilidade, reproduz-se a inutilidade, formulam-se teses, tratados, escreve-se, debate-se, discute-se, polemiza-se sobre/dentro do fecundo campo da inutilidade. A inutilidade tem essa função de gerar conflitos. Ninguém como o artista, aquele que cria para lá da utilidade imediata dos objectos, ninguém como ele para gerar os desafios com que o homem se debate no contexto da sua insignificância. Pode pois o artista ser um homem como outro qualquer, será talvez pretensioso julgar o contrário, mas não escapa, pelo seu fazer, à categoria de agente produtor de inutilidades que desafiam a banalidade da vida com elementos excepcionais produzidos a partir dessa mesma banalidade. Digamos que a inutilidade transgride a banalidade.

Por outro lado, um poema é um desses elementos que, a ser lido, nos reduz à real dimensão da nossa insignificância. É verdade que ninguém precisa de ler para se sentir insignificante, assim como para se sentir inútil. Só uma coisa é indispensável para que tal aconteça: respirar. É no mínimo estranho que esse verbo que nos traz ao sofrimento seja exactamente o mesmo que nos leva à criação. Talvez criar seja apenas a busca do sofrimento, talvez seja, na sua malograda fuga ao sufoco, uma forma de libertação momentânea, uma espécie de trespasse do sofrimento. Seja o que for, é inútil. E é com essa inutilidade que o objecto criado nos convoca para o mais tremendo dos desafios existenciais: a sobrevivência. Mais consciente do caminho pedregoso das musas, o homem dito civilizado aprendeu, assim, a esperar da vida o conforto da vacinação. Ele quer viver mais tempo para poder dar utilidade às muletas, ele quer encharcar o corpo com químicos, como se pudesse ser impermeável aos vírus, para dar utilidade à morte das células. Da arte, ele espera decoração. À decoração ele exige arte. Foi rasteirado pelo tempo, pela exigente evolução dos artesãos que trabalham mais com a cabeça do que com os braços. À medida que se vai matando, o artesão das coisas inúteis diz aos artífices da utilidade: eu sou como vocês, nada nos distingue, o vosso urinol é o meu ready-made, o vosso urinol chama-se urinol, o meu chama-se fonte, o urinol serve para acolher o mijo dos homens, o ready-made serve para acolher o lixo das cachimónias humanas. O mesmo objecto tem funções similares perante cabeças diversas. Em ambos os casos, cabe-lhe acolher a porcaria. Em ambos os casos, se tal objecto não existisse talvez tivéssemos apenas um mundo menos higiénico, ainda menos respirável.

Ao alto: Christo, Poussette empaquetée (carrinho de bebé, plástico, corda), 1962, copiado do catálogo The Pop ‘60s – Travessia Transatlântica, Centro Cultural de Belém, 1997.