sexta-feira, 31 de outubro de 2014

ACRE E DURA CARNE


Pátria onde nasci   Desespera
vê-la tão seca na matriz
Acre e dura carne (austera)
no coração do meu país

Flor de saibro  O rosto mole
vem da névoa cega e fria
Rastros do carro do sol
carregando o corpo do dia

Ondas de pedra — a fúria nos arcos
da voz: Morda   aguente   e fique!
E os pinhais — cascos de barcos
que navegaram a pique

Mentira o Fado que se toca:
Na pedra mais pedra   mais secreta
abre-se e rasga-se uma boca
onde um pássaro canta e dejecta

Lá   a cabra   o vento   o poeta
naturais de alma e corpo ao léu
trazem nos ventres o demo
e à flor dos cornos o céu


Luís Veiga Leitão (n. 1915 - m. 1987), in Ciclo de Pedras (1964). «Entre os poetas que nos anos 50 se tornaram conhecidos pela opção do realismo social popular e pela combatividade democrática nenhum se manteve mais firme do que Luís Veiga Leitão (...). Caracteriza-se pela recuperação de uma certa ingenuidade directa, muito afectiva, sob uma pretensão de dureza rochosa, numa poesia de resistência ou em textos de testemunho e sonho» (A. J. Sariava, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa).

COMICHÃO

Pode estar um calor incomum para fins de Outubro, princípio de Novembro; as melgas podem andar assanhadas, deixando-me o corpo todo mordido numa aflitiva comichão; pode o clima, o país, o mundo andar do avesso. Nada me parece mais inusitado e despropositado do que o Halloween num país de sebastiões.

AFINAL HAVIA OUTRA

Uma nova definição para incompetência: teorias da conspiração, sabotagem, agentes duplos, intriga, infiltrados, espiões, terrorismo informático. Acabou-se a impunidade, os ministros pedem desculpa. Os banqueiros também. O caso que vá para tribunal, o Citius aguenta. Ai aguenta, aguenta.

CHEGÁMOS A MARROCOS

Entrei numa loja com a missão de comprar um par de cornos para a minha mais pequena. As funcionárias estavam mascaradas, deixando-me num estado de pânico controlado (manifesta-se em crises de ansiedade com um letreiro na testa a dizer tirem-me deste filme). Desde miúdo que tenho fobia a mascarados. Aguentei-me. Mas como se não bastasse, aquilo a que hoje chamam atendimento personalizado, e que consiste numa abordagem agressiva ao cliente, com sucessivas tentativas de venda acrescentada, enxotou-me automaticamente para um canto. Isto nada tem de personalizado, é uma coisa automática, impessoal, de guião decorado exaustivamente sob ameaça de clientes mistério e quejandos. As empresas enveredam por este registo convencidas de que melhoram os resultados. É provável que melhorem. O que me deixa, mais uma vez, na angústia de constatar a existência de uma relação entre os bons resultados das empresas e a decadência social.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A LER

Leia-se isto. Já fui vítima de políticas semelhantes, embora com valores e resultados felizmente diferentes. E fui vítima de coimas pagas em duplicado, arriscando a tripla caso não tivesse piado. A devolução do dinheiro tardou, e veio sem juros. Este Estado é ladrão, este Estado é imoral, este Estado merecia outra resposta dos cidadãos. Começar por sabotar o sistema não apresentando a próxima declaração de IRS. Todos unidos nesse protesto. Utopia? Pois claro, utopia. É melhor o Estado continuar a roubar com o cidadão cumpridor de joelhos. Leia-se isto novamente, por favor.

EUROPA A FERROS


Sol, pássaros voando, seara madura...
Este, o poema interrompido.

Só os dias a fio que o não são:
Tempo retido
Como água podre no charco;
Gritos e sangue escorrendo
Como linha de formigueiro
No chão encardido,
Amassando
pontas de cigarro, vómitos, dentes partidos.

Nem dia nem noite:
Apenas a janela entaipada
(Lá fora a promessa das quatro estações),
E a porta que de súbito se abre,
Guinchando como pássaro agoirento.

O resto, como ressaca distante ou búzio,
São as pancadas surdas, sábias, sádicas,
Como passos de patrulha a horas mortas,
Como tiquetaque de relógio
Marcando não sei que hora...

Ou se a hora!

Tomaz Kim (n. 1915 - m. 1967), in Flora & Fauna (1958). «Um poeta de resignadas insatisfações, por vezes contíguo ao neo-realismo, que da poesia anglo-saxónica sua contemporânea assimilou certo eliptismo prosaico» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa). «A poesia de Tomaz Kim, de uma simplicidade formal um tanto rebuscada, em cuja originalidade se quis ver o reflexo de certa poesia inglesa moderna (reflexo que é, na verdade, apenas uma identidade de cultura e de formação) é, no seu pessimismo brando e meditativo, extremamente significativa de uma humanidade que perdeu o convívio com tudo e até consigo própria. De um dramatismo pacifista que a fez roçar por certos aspectos - os negativos - do neo-realismo, de que foi aliás um dos iniciadores, esta poesia discreta e comovida, muito lúcida de si mesma, fere uma admirável nota puramente pessoal, ainda que restrita, pelo seu tom de aceitação resignada que se não ilude, pela sua amargura agnóstica, pela ironia que envolve um singelo desespero retraído. Poesia elíptica e oblíqua, dada todavia numa expressão muito directa que não ignora nenhum recurso estilístico, eis o que talvez melhor a defina» (Jorge de Sena, Líricas Portuguesas).

terça-feira, 28 de outubro de 2014

PATÉTICOS E PREGUIÇOSOS


Por uma vez sinto-me tentado a concordar com o primeiro-ministro. Preguiçosos porque há muito deviam ter constatado o lado psicótico de Passos Coelho, as mentiras reiteradas, as fugas para a frente, as aldrabices, a cumplicidade com trafulhas, as promessas por cumprir, a nulidade. Patéticos porque pousam de braços cruzados e mão sob o queixo, publicam livros cheios de soluções que não servem para nada, vestem "fraque" e, mais gravata, menos gravata, dizem coisas tão originais como estar nas nossas mãos mudar Portugal. Nas nossas de quem? Nas vossas? Mudaram o quê? Comentam, opinam, escrevem, publicam, fazem pela vida. Cada um pela sua, o resto é pose para fundo branco e letras rubras. 

I - poética (estátua, som e gesto)


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apenas posso cantar as imagens. apenas posso cantar
imagens de imagens; tão-só posso cantar
o invisível movimento das imagens; tão-só posso cantar 
o que se canta a si mesmo, sem fixar a rosa
no cume das águas erguidas a prumo até onde (o) nada se vê.
porém, entre o movimento do cinzel, a invisibilidade do mundo,
a escuridão da água rasa em torno dos olhos
e o florescimento do pó, sei que
o poema, esse gesto antiquíssimo, sei que o poema dirá
o enorme talento dos minerais, e que tu, imagem do meu sono
nos interstícios das coisas, tu, estátua, tu
havias de dizer as metáforas todas enfileiradas, de rosto voltado
para a penumbra do pó semeado entre os dedos;
e sei que tu haverás de dizê-las,
por fim, maduras para a escuta de todos os líquidos perecíveis
e do coração do pó estremecendo onde
o gesto coincide com o som,
sei que tu haverás de dizer o lugar
onde as imagens sempre se detêm para ouvir
a íngreme loucura do coração, o lugar onde
finalmente o mármore amadurece
na epiderme da escuta em que o poema ressoa
através do imóvel tímpano da pedra

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hei-de cantar que no poema as imagens
são essas rosas de mármore semeadas no flagelo
que as mulheres costuram ao peito
cada vez que cantam no sono de quem
imagina por gesto e música o ocluso coração da pedra,
de quem sabe que as imagens são
também a floração mineral do sangue
entre os dedos auscultando
o sono e o branco coração
do pó


Luís Felício (n. 1982), in o som a casa (2010). Com formação em História e Filosofia, este poeta natural de Tavira pratica uma poesia muito distante da sobriedade vocabular e metafórica caracterizadora da maioria dos seus contemporâneos. Num diálogo aberto com as tradições simbolista e surrealista, os poemas de Luís Felício estilhaçam a prosódia linear da chamada poesia da experiência assegurando uma impetuosidade imagética invulgar. Não deixa de ser curiosa a atribuição de alguns prémios, nomeadamente por se tratar de uma linguagem de difícil acesso capaz, é certo, de recriar momentos de puro deleite plástico em articulação com a demanda de uma musicalidade que repercute minuciosa escolha de palavras. Imagem e som são o sentido primevo desta poesia, nele devemos buscar o significado que evita descrições concretas, apontamentos quotidianos, confissões hiper-realistas e banais, ou mesmo aquele tom ao mesmo tempo irónico e melancólico, quando não satírico e humorístico, que prolifera na poesia portuguesa actual, optando por inscrever-se na estranheza por vezes radical de uma anti-discursividade ligada ao real através da dispersão de elementos que reflectem a situação sempre anómala do sujeito poético.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

CORAÇÃO QUASE BRANCO

Numa breve nota de imprensa, Coração Quase Branco (Edições 50kg, Julho de 2013), de António Cabrita (n. 1959), aparece apresentado como breve romance sobre um misterioso crime. Não serei eu a retomar a discussão sobre a natureza do romance. Ainda há pouco deixei aqui nota de leitura sobre Apenas Uma Narrativa (1942), romance que assim era porque o seu autor não o pretendia de outra forma. O que me parece errado, até contraproducente, é conferir ao texto de Cabrita um tom policial. Tendo na origem a morte de Ricarte-Dácio de Sousa, o texto evolui para interrogações que transcendem qualquer tipo de especulação sobre essa morte. De resto, essa evolução parece-me até denotar uma recusa, ou uma resistência, a tal especulação.
   Mas quem foi Ricarte-Dácio de Sousa? Alfarrabista próximo dos grupos surrealistas lisboetas, não aparece mencionado nas antologias nem nas enciclopédias do movimento. Tornou-se, por um lado, tabu, por outro lado, numa espécie de mito indecifrável. A morte de Ricarte-Dácio parece esgotar o tema Ricarte-Dácio. Porquê? Porque se suicidou depois de ter disparado fatalmente sobre a mulher, o filho e o gato. Suicídio precedido de crime tão horrendo afecta até as mentes mais impúdicas, que rapidamente se encarregaram de não fazer as questões que António Cabrita agora faz: «Também eu como tu, no rodapé da miséria, desenganado, triste como as neves de Maio. E se eu tivesse uma arma?» (p. 9)
   Acautelemos, desde já, interpretações abusivas. Não se trata de desculpabilização, até porque a culpa tem muitas faces e quase sempre morre solteira (em certas matérias o povo é bom conselheiro). Trata-se, antes, de um esforço de compreensão, um esforço de compreensão porventura mais autocentrado do que possa parecer. A questão não é quem matou Ricarte-Dácio, mas por que não se mata António Cabrita. Colocada assim a questão escusamo-nos de explicar o erro em que incorreríamos se partíssemos para a leitura desta correspondência póstuma como se estivéssemos perante uma investigação criminal. Na realidade, o crime aqui investigado é apenas aquele que está por suceder. E isso desassossega-nos, inquieta-nos, pois o espanto não é que perante o infortúnio uns se matem, mas sim que outros permaneçam vivos.
   Sobre Dácio oferecem-se hipóteses tais como «um sentimento de impotência», «negócios e amigos ruinosos», «trombose da tua mulher bretã», «o dinheiro gasto em jogo da sorte», «o peso das dívidas», «o filho tardio», «o vinho»… Enfim, razões para a morte nunca há apenas uma e todas elas são vulgares. Também todas elas se conjugam e nenhuma serve de explicação. Mas sobre os que ficam algo se impõe na consciência: «O que mais me chocou é que nenhum deles, dos teus amigos de sempre, ousou duvidar. Receberam o teu crime como a abominação que aparentava, envergonhados por teres virado aos canos do sniper de Breton para o seio familiar. Algo tão grave como descobrir-se que Cristo afinal defecava» (p. 9). Mais do que ajuste de contas, a constatação comove. Aliás, todo este texto, quer na sua revolta expressiva, quer na sabotagem que faz da tragédia com elementos cómicos e memórias de situações caricatas, quer no que denota de exercício ou de exame de consciência é comovente. Comovente na forma como exige a dúvida perante o que aparenta certeza, comovente na capacidade de se interrogar sobre as razões do desespero, comovente também por nele a falência dos projectos não servir de justificação, pois o que aqui está em causa é uma necessidade, uma urgência, até uma missão que tem no esforço de compreensão da existência o seu motivo e o seu fim.
   Ao incluir no texto afirmações factuais, como, por exemplo, as do alfarrabista Luís Gomes aquando da morte deLuiz Pacheco, António Cabrita transporta a sua missiva para um lugar que pouco tem que ver com os domínios da ficção. As histórias que se contam no interior deste exame acabam por conferir à prosa um incontestável interesse autobiográfico. Já de Moçambique, falando de si e expondo a sua situação, o autor expõe-se: «A mim, tão cobarde e falido de esperança e de qualidades, engolindo em seco a áspera escama do escuro, só resta a pergunta: e se tivesse uma espingarda neste momento e caísse na tentação? Detestaria que depois falassem nos abismos da mente e nos infernos de cada um» (p. 15). De que falar, então, senão daquilo que nos desvia da tentação? Buganvílias? A mulher e as crianças que se ama? O homem sem dedos cuja agilidade assombra quem tem as mãos completas? Quem tem as mãos completas?
   O grande mistério sugerido por Coração Quase Branco é o da resistência, o dos modos com que cada ser humano se reinventa e inventa para a vida uma certa suportabilidade, pois precária é a existência de todo aquele que nasce à morte. Nenhuma tragédia, diria, há neste ritual, haverá porventura o drama da reinvenção. Cómico é que perante a certeza da morte haja quem a interrogue como se valesse a pena.

domingo, 26 de outubro de 2014

REVISTA TRÊS TRÊS


Revista Três Três
Edição de Nuno Fragata, Pedro Xavier Mendonça, Ricardo Norte, Rita Baptista
N.º 04, Outubro de 2014


Nas Veias da Realidade, pp. 08-10.

SUICIDAS DO BURUNDI


A Ática vai publicar um livro intitulado Suicidas. Por razões óbvias, o tema interessa-me. Conferir aqui. A pouca originalidade do título não me afastará desta Antologia de Escritores Suicidas Portugueses, nem o prefácio de Valter Hugo Mãe (suponho que já se escreva com maiúsculas). O autor da antologia é Pablo Javier Pérez López, Doutor em Filosofia na Universidade de Valladolid. Também esse facto não será impeditivo. Só a nota de apresentação pode, de algum modo, provocar-me hesitações. Diz-se que a antologia contém textos de Antero, Florbela, Camilo, Manuel Laranjeira, Mário de Sá-Carneiro e Barão de Teive. Terão ficado de fora outros, tais como Eduardo Guerra Carneiro ou Guilherme de Faria ou Cristóvam Pavia? Não é grave. O que enjoa é o discurso generalizador:
 
Nos suicidas portugueses encontramos a Nostalgia, a Saudade, quer dizer, “a dor da proximidade do longínquo”, a profunda experiência da loucura, a profunda experiência do amor, a profunda experiência da ausência, a profunda experiência da morte e, por tudo isso, a profunda, incarnada e experiência trágica da vida e portanto da literatura em que a paixão e o padecimento e o mistério da verdade se tornam indistinguíveis e por vezes insuportáveis.
 
Com tanta profundidade, podemos desconfiar ser esta uma antologia de mineiros. Não é.  Mas a primeira questão que cabe colocar é: qual a diferença entre os suicidas portugueses e os de outras partes do mundo? O que tantas vezes enfatizamos neste tema não passa de rasteira da sensibilidade. Tendemos a julgar profundo, na personalidade dos outros, o que na realidade se revela até bastante superficial. Deverei lembrar casos onde a decisão pela morte nada teve de trágico? Mais uma vez, incorremos no risco evitável de confundir a experiência trágica da vida com a experiência cómica da literatura. Esta é sempre uma construção sobre a outra, e não tem que reflectir de modo mais ou menos confessional, as dores, as frustrações, as náuseas da existenz. O fado é das canções, a saudade nunca foi exclusivo nosso. Perguntem aos habitantes do Burundi. Mais espantoso é que tanto escritor profundamente deprimente não se mate, levando até vidas, pelo menos na aparência, ligeiras de riso e alegria imensa. Talvez isso merecesse um estudo académico, talvez merecesse uma enciclopédia.

p.s.: podendo parecer que não, terá tudo que ver com isto.

JACK BRUCE (1943-2014)


MUROS

Como se foge para a liberdade? É problema filosófico não meramente académico. Pressupondo a liberdade enquanto inerente ao ser(-se) humano, não se foge para a liberdade. A própria acção de fugir admite a existência de liberdade: a de agir ou a de não agir. Podemos até perguntar se quem disparou sobre aquelas 136 pessoas o fez livremente, por obrigação, coagido. Durante os tempos do Estado Novo, quantos portugueses fugiram do país? Para a liberdade? Ou foram livres de fugir? E quantos o não fizeram? Olho este outro muro da  vergonha e pergunto-me sobre quem seja mais livre: os africanos que saltam a rede ou as pessoas que praticam golfe? Não se foge para, foge-se de. As pessoas fogem do medo, da miséria, da fome, da guerra. Fogem em liberdade, porque essa está na consciência anterior à decisão que leva ao acto. Os que não fugiram não eram livres? Os que fogem são mais livres?

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

VENTO CAYMMI


 
 

Não foi por acaso que Caymmi exigiu gravar a série das praieiras em seu primeiro long-play, de 1954, chamando justamente Canções Praieiras, em formato voz e violão (procedimento quase inusitado na época). É que o violão de Caymmi, nas praieiras, não é um violão de acompanhamento, mas antes um recurso como que cinematográfico: ele cria um setting, compõe uma paisagem, estabelece um cenário.
Como seu violão consegue isso? Não exatamente imitando, mas se transformando nas coisas que quer mostrar; em «O Vento» (canção praieira que entretanto não consta desse primeiro LP), o violão dissolve-se, como se fosse o próprio fenómeno da natureza; em «Canoeiro», o violão vira um remo que bate na água, um braço que puxa a corda, um corpo que colhe a rede; em «O Mar», o violão, primeiramente, espraia-se, tornando-se o movimento mesmo da maré, depois se torna dramático, para contar a história de Pedro e do enlouquecimento de Rosinha. Esse violão mimético, proteico, transformando-se nas coisas consegue apresenta-las; daí o «sentido profundo» - e paradoxal – desse figurativo: trata-se de uma figuração abstrata, uma figuração que se dá ao nível da música, linguagem abstrata por excelência (as palavras «representam» as coisas; os sons, em princípio, não).

 

Francisco Bosco, in Dorival Caymmi: o pai da Bahia, LER n.º 134, Junho de 2014, p. 76.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

KOBANI

Alguém sabe o que se passa na Ucrânia? Wall Street já foi ocupada? O que é feito da democracia em Hong Kong? A Tchetchénia ainda existe? Quantos apertos de mão têm um tratado de paz? Quantos mortos fez o Ébola em África? E na Europa? Quanto vale um infectado para a Indústria Farmacêutica? O teu cão está bem alimentado? Será que vamos ouvir o hino da Palestina no mundial do Qatar? De onde vem o dinheiro que paga as armas do Estado Islâmico? Têm fabrico próprio? Quem lhas vende? Tratas bem a tua mulher? Os jihadistas portugueses são pagos com virgens? As pedras magoam? E as catanas? Haverá jogos de futebol entre tútsis e hútus no Ruanda? E entre xiitas e Sunitas no Médio Oriente? Quem arbitra o jogo? Obama já fechou Guantánamo? Se a erva fosse de borla acabavam-se os apedrejamentos? Pode deus fazer o milagre do vinho no cantil das tropas? Onde começa a loucura? E a normalidade? Há poesia na Sérvia? E na Albânia? Um poeta albanês pode ser amigo de um poeta sérvio? Se o Prémio Nobel da Paz fosse atribuído em tua casa, a quem o atribuías? É mais importante o que fizeste hoje para que o mundo fosse melhor ou o que fizeste para que não fosse pior? Quem paga as armas? De onde vem o dinheiro? O Tribunal Internacional de Haia ainda funciona? O que fazem Bush, Blair, Aznar e Barroso em liberdade? A Angelina Jolie e o Brad Pitt têm algum filho árabe? Quantos vídeos de animais amorosos viste hoje no Facebook? E quantos vídeos de animais sarnentos viste hoje no Facebook? Viste algum vídeo com judeus a matarem palestinianos? E com jihadistas a matarem curdos? Gostaste? Já tinhas ouvido falar de Kobani antes das notícias mais recentes? Quantas flores desabrocharam na Primavera Árabe? Há flores no deserto? Se D. Sebastião regressasse viria de burro ou de Ferrari? O aquecimento global preocupa-te? E as vacas na Índia? A extrema direita pode ser canhota? Se um neo-nazi te oferecer flores isso quer dizer?... Como se pára uma coisa destas? Qual a diferença entre Abu Ghraib e Abu Simbel? Quantas crianças no Sudão têm aulas de piano? O Minecraft já chegou à República do Haiti? Já reparaste que a distribuição da energia eléctrica no mundo é estranhamente assimétrica? Quantos poemas lês por dia? Quem cozinha aí em casa? O papel higiénico é um bem de primeira necessidade? Se o João César das Neves fosse Jesus Cristo a Isabel Jonet seria Maria Madalena ou simplesmente Maria? Quantos centímetros de salto são precisos para te sentires feminina? Porque é assunto a barriga da Jessica Athayde? Gostas de aparecer nas fotografias? Entre emigrar e isolares-te qual te parece a melhor solução? O estado do mundo fere-te, angustia-te, revolta-te, provoca-te náuseas? Uma coisa de cada vez obriga a escolher uma coisa em detrimento das outras? Se o génio da lâmpada te concedesse três desejos quais seriam eles? Lâmpada ou lamparina? E durante quanto tempo perdurariam esses desejos? Será o homem um vírus? Sentes-te um vírus? Se Van Gogh não tivesse existido sentirias falta dos seus quadros? O que é mais importante: um bom homem ou um grande artista? Serão compatíveis? Estás a par do que se passa na Ucrânia? A actualidade interessa-te? Se dirigisses um jornal o que deixarias para a primeira página? Poderá o optimismo ser pessimista? Blague? O Ricardo Araújo Pereira faz-te rir ou deixa-te a pensar? E o Woody Allen? Dá-te sono? Gostas de ouvir poesia? Haverá noites de poesia em Kobani? Quem serão os poetas de Kobani? Terão sido expulsos pelos jihadistas? Lapidados? Os jihadistas cantam? Dançam? E os russos na Ucrânica? E os palestinianos? E os judeus? E os tútsis? E aquele homem sinistro da Guiné Equatorial? Quantos apertos de mão cabem numa cimeira? As crianças dos países nessa cimeira já terão provado o sabor de um croissant? Quantos mortos trazes pendurados nas orelhas sempre que colocas os teus brincos com diamantes? Isso inquieta-te? Bebes água ou petróleo? E o teu carro? Tens carro, andas a pé, tens motor? Quanto vale um morto para a indústria do mundo? Quanto pesa o mundo na tua consciência?

terça-feira, 21 de outubro de 2014

CURRICULUM DE MUITAS PÁGINAS

Da crítica da pedagogia romântica à prática da pedagogia bizarra.

OSCAR DE LA RENTA (1932-2014)


Não é mundo que me seduza nem sobre o qual alimente qualquer curiosidade, mas Oscar de La Renta merece uma referência. Primeiro, porque o apelido do estilista era Fiallo. Depois, porque David J, dos Bauhaus, fez-lhe referência numa bela canção do álbum a solo Songs From Another Season : aqui.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

MISTY UPHAM, PRÉMIO LEYA E A BARRIGA DA JESSICA

O cadáver de Misty Upham foi encontrado num rio nos arredores de Seattle. Para ser notícia, o cadáver de Misty Upham não basta. Misty Upham, de origem indígena, é uma desconhecida. O que torna a notícia notícia é uma aparição secundária (terciária?) da actriz no filme Django Libertado. Deste modo, a notícia transforma-se em notícia com o título: Actriz de “Django Libertado” encontrada morta.
A mesma mentalidade está por detrás do anúncio do último Prémio Leya: Prémio Leya para descendente de Eça de Queiroz. Poucos quererão saber se o prémio foi atribuído a Afonso Reis Cabral, nome até agora completamente desconhecido. Mas muitos estarão interessados em saber quem é o descendente de Eça de Queiroz (ou Queirós, conforme as conveniências). Não é o Prémio, muito menos o livro, que são relevantes, é a ascendência.
O efeito desta forma de apresentar notícias nota-se nas reacções às formas do corpo de Jessica Athayde (nunca tinha ouvido falar) exibidas num desfile de moda. A onda gerada em torno de uma barriguinha que os meus olhos não vêem é de tal forma inusitada que me permite concluir andar o povo a ler os livros errados e a passar ao lado dos filmes certos:



SONHOS DE BUNKER HILL


   Quando morreu, John Fante (1909-1983) deixou publicados pouco mais que meia dúzia de livros. A primeira tradução para português surgiu em 2007, numa publicação da Teorema. The Brotherhood of the Grape/A Confraria do Vinho (1977) não faz parte, porém, da saga mais conhecida do escritor norte-americano: The Bandini Quartet. Esta é composta pelos livros Wait Until Spring, Bandini/A Primavera há-de chegar, Bandini (1938/2010) e Ask the Dust/Pergunta ao Pó (1939/2009), entretanto difundidos no mercado português pelas Edições Ahab. Ask the Dust, que foi objecto de uma adaptação cinematográfica algo grosseira assinada por Robert Towne, é considerado por muitos a obra-prima de Fante. Os outros títulos da tetralogia involuntária são Dreams from Bunker Hill/Sonhos de Bunker Hill (1982/2014) e o póstumo The Road to Los Angeles/Estrada para Los Angeles (1985/2013), ambos recentemente publicados em Portugal pela Alfaguara com tradução de Vasco Gato. Se quisermos ser minuciosos, devemos lembrar que o primeiro destes romances a ser escrito foi o último a ser publicado: The Road to Los Angeles (1933). A ordem cronológica do The Bandini Quartet será então a seguinte: Estrada para Los Angeles, A Primavera Há-de Chegar, Bandini, Pergunta ao Pó e Sonhos de Bunker Hill, tendo o último sido ditado por Fante a Joyce, sua mulher, numa fase em que o escritor se encontrava bastante debilitado devido à diabetes. 
   O facto de Charles Bukowski considerar John Fante o seu escritor americano preferido, tal como este considerava Sherwood Anderson, contribuiu para um certo culto em torno de um escritor pouco mais do que ignorado em vida. De origens humilíssimas, Fante sobreviveu, enquanto escritor, numa Hollywood que parecia detestar e com a qual não se identificava. Um dos seus argumentos mais bem-sucedidos foi Walk on the Wild Side/Restos de Um Pecado (1962), baseado num romance de Nelson Algren e levado à tela por Edward Dmytryk. Do início da sua carreira como argumentista nos dá conta em Sonhos de Bunker Hill, romance, como todos os outros, altamente autobiográfico e, de certo modo, confessional. Estas dimensões não esgotam, porém, as capacidades narrativas de Fante. Há nele um lado violentamente autocrítico, por vezes cómico e caricato, que resvala amiúde para situações comoventes. Gera-se quase um processo de identificação com as fraquezas humanas do alter-ego Arturo Bandini, um jovem do Colorado, de raízes italianas, que encontra na actividade literária um sonho libertador da austeridade imposta pela família católica, pobre, severa.
   A identificação da escrita com os caminhos da libertação não é ingénua, permite a Fante como que desmistificar papéis sociais num universo onde a actividade literária é entendida de um modo muito diferente daquele que conhecemos por cá. Por outro lado, as ambições e consequentes frustrações, os receios e uma certa inadaptação social, os problemas da exclusão, conflitos classistas e hierarquias socias rígidas, uma timidez como que herdada culturalmente e desafiadora, perpassam as aventuras de Bandini com uma naturalidade que pode parecer superficial. Nada há de superficial nestes retratos crus, fiéis à realidade, de uma América dividida por castas, com seus nichos de miséria e sonhos de sucesso, a América das oportunidades que atira para a valeta comum do malogro os inadaptados, os insurrectos, os autênticos, ou seja, todos aqueles que não estejam dispostos a jogar o jogo do carreirismo. Neste sentido, nada há de ingénuo na paixão de Bandini pela senhoria muito mais velha, na recusa de associar o seu nome a um argumento medíocre, na confissão de uma certa cobardia nos assuntos do amor, na frustração sentida perante o salário sem produtividade que o justificasse, no desprezo da fama dos outros ao mesmo tempo que se encena uma putativa fama pessoal. 
   A questão é sempre a de uma insegurança que impele a personagem para a solidão, para o isolamento, para uma extrema dificuldade em manter e alimentar relações sociais, ao mesmo tempo que busca afirmar-se e não se sente propriedade do destino. Por isso nos comove o começo da saga, quando num breve fakshback John Fante recorda a origem de tudo no princípio do fim:



Fui à biblioteca. Passei os olhos pelas revistas, pelas fotografias que traziam lá dentro. Um dia aproximei-me das estantes e tirei um livro. Era o Winesburg, Ohio. Sentei-me numa mesa de mogno comprida e comecei a ler. De repente, o meu mundo ficou virado do avesso. O céu desabou. O livro prendeu-me. Fui surpreendido pelas lágrimas. O coração batia acelerado. Li até me arderem os olhos. Levei o livro para casa. Li outro do Anderson. Eu lia e lia e sentia-me desolado e sozinho e apaixonado por um livro, vários livros, até que a coisa surgiu naturalmente, e sentei-me com um lápis e um bloco grosso, e tentei escrever, até que senti que não poderia continuar porque as palavras não apareciam tal como apareciam no Anderson, surgiam apenas como gotas de sangue vindas do meu coração.



Mais coisa menos coisa, anos mais tarde Bukowski dirá o mesmo de John Fante. Presume-se que seja também esta a história da literatura, muito mais do que aquela que ensinam nas escolas e rotulam em pastas e dossiers ao gosto sóbrio, cinzento e chato das academias. Não sei quantos prémios estes autores terão amealhado em vida, mas estou certo de que o testemunho das suas vidas é hoje um prémio para os seus leitores.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

PRIMEIRA HORA DA MANHÃ

Assim parece ter começado o meu dezasseis de Outubro. Sigam os links, primeiro pela primeira hora da manhã (aqui) e depois vejam o filme (aqui).

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

HÁ COISAS ASSIM

Encontro num weblog brasileiro o que não vejo num weblog português, uma referência ao aniversário de Agustina Bessa-Luís: aqui.

APENAS UMA NARRATIVA

Jorge de Sena referiu-se-lhe como «obra-prima do “romance surrealista”», o que, por si só, deveria valer atenção que não tem tido. Apenas Uma Narrativa – Romance foi originalmente publicado em 1942, em plena febre surrealista portuguesa. As aproximações (no tom e no imaginário) ao Protopoema da Serra d’Arga (1949) são evidentes, desde logo por uma referência que aparece à serra d’Arga no capítulo VII — aquele que começa deste modo: «Era evidentemente mentira tudo aquilo que eu contara na minha carta de amor, ou melhor: era tão verdade que ainda não tinha acontecido» (p. 57). Na edição que possuo, a terceira (1ª e única nas Quasi Edições, Março de 2007), José-Augusto França aponta no posfácio a terra, o amor e a solidão enquanto chaves de Apenas uma Narrativa. Carece o leitor de chaves para o que está fechado, e apesar do “discurso onírico”, da lógica sabotada, do absurdo cultivado, esta narrativa não é hermética. Podemos dispensar as chaves. António Pedro (1909-1966), não dispensando espantoso prefácio e espantosa dedicatória, disse que este era um romance porque sim e acrescentou: «há uma lógica do absurdo tão verdadeira, pelo menos, como a lógica racional» (p. 10). Ora, é essa lógica do absurdo que predomina ao longo dos dez curtos capítulos onde encontramos um plantador de mulheres chamado Adão, exércitos de esfomeados, uma Lulu fresquíssima toda coberta de olhos, um bar com quatrocentas colheres à roda de cada homem, um ladrão de meninas coberto de medalhas e outras coisas que tais bem mais reais e verdadeiras do que possamos supor: «Na aldeia as coisas não mudam muito. Os homens lavram e fornicam, as mulheres colhem e parem, as árvores assistem» (p. 50). Não surpreende, porém, a prolixidade imagética, sobretudo num autor que era pintor, sobretudo num surrealista; nem sequer surpreende a orgia de fusões, com os mundos vegetais e minerais transmutando-se e assumindo comportamentos humanos e os seres humanos largando pedaços pelo caminho, os corpos decompondo-se, o todo decompondo-se em partes que ganham vida e energia próprias numa balbúrdia de significados e de sentidos que transcendem medidas, aritméticas, geometrias e transpõem fronteiras, digamos, narrativas. O que assombra de um modo espantoso é a naturalidade do discurso, a clareza de cada palavra, a síntese, a capacidade de contar como quem conta um conto infantil. E a história, plena de aspectos alegóricos, simbólicos, paradigmas, adquire precisamente esse dom de trazer à escrita a cabeça de uma criança ou, se preferirem, a cabeça de um homem enquanto sonha. A dedicatória a Aquilino Ribeiro, que Pedro trata por Mestre, faz pois todo o sentido, e mais sentido faz quando se torna arte poética, manifesto criativo e de vida: «Não há arte moderna nem antiga. Os artistas é que são modernos e antigos com relação ao momento, e os antigos para o seu momento são sempre maus e sempre errados» (p. 14). Extraordinária maneira de enquadrar o que nestas páginas vislumbramos de respiração tradicional, sendo certo que ao imaginário fantasioso das fábulas e das alegorias e dos contos de fantasmas e afins António Pedro terá ido respigar muitas das suas imagens minhotas. E vejam como logo no primeiro capítulo, saltando de linha para linha, podemos detectar a ironia do artista exilado entre os do seu tempo no seu país: «Só a sombra que tinha feito ficou no chão como uma nódoa» (p. 19). Algumas linhas depois: «Cheirava tanto a tristeza que os académicos se acharam comovidos» (p. 19). E desataram, pois claro, a escrever sonetos sobre a sombra que cheirava a tristeza. O humor inquietante, a heterodoxia, as referências sexuais e religiosas, tantas vezes de mãos dadas na escola surrealista, a capacidade para satirizar o presente (o de então como o de agora) com metáforas abertas, livres e vivas, fazem desta narrativa, sem dúvida, uma obra-prima. Reparai só, ó leitores, no tratamento oferecido ao ladrão Ildebrando... e dizei-me se não se mantém fatidicamente actual o retrato: «Do muito andar gastaram-se-lhe os pés e depois as pernas que se transformaram nuns cotinhos. Do muito escorregar pelas chaminés gastou-se-lhe toda a grossura e os braços. As medalhas também o arranhavam muito e acabou por ficar à mercê da caridade pública, ao pé do buraco da árvore, num carrinho que lhe deram as senhoras de caridade. / Estava ali no carrinho como um vaso e fazia boa figura, porque as senhoras de caridade, quando passavam por ele, tinham sempre um regador com que o regavam como se fosse chuva só num sítio. Algumas alçavam a perna e faziam-lhe chichi em cima, o que era bom para o adubo, e tinham também uma tesoura de prata para lhe cortarem os alporques» (p. 44). Apenas uma Narrativa é um pequeno livro excepcional que talvez tenha caído no esquecimento. Digo talvez por nele se reconhecer, afinal, muita da efabulação que hoje por aí se pratica sem dedicatória os mestres (apesar do futuro garantido por críticos [impre]videntes). Que se dantes não se podia apontar o dedo, hoje é tudo às escondidas.

ANTÓNIO PEDRO POR JOSÉ-AUGUSTO FRANÇA




Mais aqui e aqui e aqui.

ESTÁ.

   Velho comparsa da blogaria, o Lourenço é sempre companhia agradável. Este está bem? provocou-me aquele tipo de gargalhada para dentro que ele não aprecia, o riso do intelectual com boca fechada e olho brilhante. Paciência para ele.
   A minha experiência de sitemeter não é muito diferente, embora os picos de visitas apenas os sinta quando escrevo sobre um livro de um poeta contemporâneo português. Os pesos pesados blogosféricos não se comparam (até porque deixaram de existir, graças a Deus ou ao Facebook ou a outra rede qualquer) e sobre a E. L. James, se bem me lembro, nunca escrevi. “Blogger, se queres atrair visitas escreve sobre poetas contemporâneos portugueses” é uma espécie de slogan para vender o meu produto. São a minha clientela, mais perigosa do que as fanáticas de Gray. Não duvides. E toma lá versos do velho Whitman, que não atrai nem repele (é igual ao litro):
 
Conheces as excelentes alegrias da juventude?
As alegrias dos queridos companheiros, as palavras alegres e os rostos risonhos?
A alegria de um dia feliz e radioso, as alegrias dos jogos em que se respira profundamente?
A alegria da música doce, a alegria do salão de baile iluminado e dos bailarinos?
A alegria de um jantar copioso, e de uma boa orgia e da bebida?

PAIS

Pais que se comportam como adolescentes, adolescentes que se comportam como crianças, crianças que parecem gente adulta. Não é gralha nem lapso, os pais preocupam-me. Lido com eles diariamente e, por estes dias, pela mais estimulante das razões: manuais escolares. Uma contrariedade, como já ouvi dizer. Não é dinheiro que se gaste com agrado, é dinheiro que se gasta por obrigação. Muitos nem consideram o dispêndio investimento, é dinheiro deitado fora porque: os miúdos não querem a escola, a escola não quer os miúdos. A tragicomédia educativa no país parece dar razão aos pais, mas os pais não têm razão alguma. Pelo menos muitos daqueles com quem lido, os que parecem ter-se demitido de serem pais. Demitiram-se de ser pais quando esperam da escola o papel que é deles: educar. Colocam nos professores o papel que é deles: transmitir valores. Nem sequer servem de exemplo, nem sequer se preocupam em dar exemplo. Os pais generalizam-se para simplificar, nem todos serão como estes pais. Mas vamos passar algodão em rama sobre a chaga? Há cada vez mais pais que não são pais, são uma espécie, como dizê-lo, de fonte de rendimento até à autonomia. Não passam tempo com os filhos, e muitos consideram-no uma bênção. Não falam com os filhos senão para responder a solicitações, as materiais. Os pais dão trocos para o fim de semana, compram roupa, dão guarida, levam com os manuais na cabeça, vão de casa para o trabalho e vêm do trabalho para casa cheios de angústias e de traumas e de frustrações porque, foda-se, tiveram o azar ou cometeram a imprudência de serem pais. Só não se dizem arrependidos porque Deus pode ouvi-los e no Inferno há vaga. Os pais que não querem ser pais são uma praga impossível de desparasitar, não há escola para eles, não há escola para a escola que também é feita de pais, só há escola para os alunos e alguns, quando calha, são pais precoces e ficam cheios de medo e pensam na vida e temem pelo futuro deles e dos filhos e até pelo futuro dos pais. Esta gente complica a existência, julga-se eterna, desconfio, não terá espelhos para ver o tempo passar pelo corpo e as faculdades que o vento usurpa. Fazem análises, radiografam o esqueleto, testes, exames, vão ao médico, consultam psicólogos, pediatras, metem-se na psicanálise, vão à missa, confessam-se, pagam a bruxas, astrólogos, quiromantes, retiram o diabo do corpo aos energúmenos que têm lá em casa e aos que têm dentro de si próprios. Alguns, se pudessem, faziam como outrora fizeram certas que não lembro quais tribos: matavam os filhos à nascença. Porque querem ser pais os pais? Para terem uma coisa fofinha lá em casa? Mas a coisa fofinha chora, esperneia, caga-se, mija, vomita, tem febre, precisa de cuidados e de tempo e de atenção e, ai o inferno, reivindica porque reivindicará direitos e nesses direitos começam, claro, as obrigações dos pais: falar, comunicar, valorar, educar. E amar? Há pais que não amam, há pais que não foram amados quando eram filhos, mas sobretudo há pais que não sabem amar. Amam dando, dão contrariados, é como se amassem contrariados, e andam revoltados com o preço dos manuais, com os resultados da selecção, com a economia, já nem lêem nem vêem televisão, excepto se for a bola, um filme erótico, porrada, telenovela a espaços, preferem conversa no café do bairro, conversa rápida, ocupação certeira, caça, putas, pesca, cartas. Andam à toa e pela toa trazem os filhos, que crescem e se tornam homens e se fazem pais num país onde cada vez mais os pais se parecem com os filhos e os filhos com órfãos. Pelo que se vê nas notícias é assim. Onde andam os pais dos miúdos? Onde andam os pais desses miúdos que se divertem a atirar carros de compras para o Mondego? Ou não serão miúdos? Ou terão pais? Onde andam os pais dos praxados e dos praxantes que estupidificam tudo com a sua simples presença? Virão nos manuais, estes pais? Não puxam orelhas, prática bárbara, não recriminam, hábito ultrapassado, reforçam positivamente de acordo com as práticas em vigor, não tradicionalizam, modernizam, andam nos psicólogos, nos psiquiatras, fazem psicanálise, perdem-se na estante de puericultura a ler e a comprar livros que ensinam… a amar os filhos. Isto é tudo inacreditável, a realidade é inacreditável, os livros sobre educação são inacreditáveis, a pedagogia é inacreditável, o inacreditável parece estar a funcionar muito bem, é cada vez mais real, um sucesso de vendas.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

PESSOA PEDRO CESARINY

Embora o sumário não o indique, o mais recente número da revista LER oferece dois interessantes artigos sobre poesia. A páginas 72, Hugo Pinto Santos traça um panorama da poesia britânica contemporânea repleto de referências e de citações. Depois da Antologia da Poesia Britânica Contemporânea (Livros Horizonte, Junho de 1982), prefaciada, organizada e traduzida por Manuel de Seabra, não me ocorre uma visita a terras de Sua Majestade tão proveitosa para os leitores portugueses (eventualmente interessados). Mais para o fim, João Luís Barreto Guimarães (JLBG) ensaia uma leitura de Todas as Palavras — Poesia Reunida (Assírio & Alvim, 2012). Ainda que não me inspire quaisquer reparos a leitura feita sobre a poesia de Manuel António Pina, o mesmo não posso deixar de fazer relativamente a uma consideração genérica que abre o artigo. Afirma JLBG que «uma das poucas características que diferencia ficcionistas dos poetas é o facto de aqueles escreverem vários livros ao longo da vida enquanto os poetas escrevem apenas um». A ideia de que a obra de um poeta é a reunião da sua poesia deixa-nos de atalaia, vindo-nos logo à memória vários poetas cuja reunião da produção levada a cabo ao longo da vida seria ineficaz e até atentatória dos princípios que estiveram na criação da mesma. Porque não pretendo alongar-me, recordo apenas dois dos nossos maiores poetas do séc. XX: Fernando Pessoa e Mário Cesariny. E se recordo estes é porque pretendo referir-me a um outro, bastante esquecido e ignorado, que serve de ponte entre ambos: António Pedro (1909-1966). 
   É verdade que em 1936 António Pedro reuniu num só volume parte considerável da sua produção precedente, mas Primeiro Volume. Canções e Outros Poemas / 1927-1935 marca um ponto de viragem entre o que foi e o que será. A inflexão parece de tal modo radical que deixa aos críticos da desigualdade, quase sempre conformados com o tédio da igualdade, pretexto bastante para desconsiderar o poeta e a obra. Ora, a pluralidade e a diferença são, precisamente, as características fundamentais desses três grandes poetas (António Pedro estabelecendo uma espécie de ponte entre o modernismo de Orpheu e o surrealismo tardio português, embora ele o tenha introduzido por cá antes do mesmo se consubstanciar na fundação do malogrado Grupo Surrealista de Lisboa em 1947). O que diferencia ficcionistas destes poetas, destes grandes poetas, não é o facto destes terem escrito apenas um livro (escreveram vários e assaz díspares, sendo que Pessoa publicou apenas um e nem é o seu melhor). Cesariny, se bem sei, sempre recusou as reuniões que tanto agradam a académicos e aos ansiosos do cânone (deviam tomar ansiolíticos). Vale pelos poemas, cada um deles isoladamente e todos em relação com tudo e com todos. Já a António Pedro, que escreveu livros de poesia, narrativa e drama, bastariam três ou quatro poemas devidamente divulgados e estudados para que o seu nome fosse resgatado do esquecimento (será ostracismo? será ignorância? Será revanchismo?). 
   Releiam Proto-Poema da Serra d’Arga, Invocação para um poema marítimo, Os sete poemas do tédio estéril, Para servir de final ou Justificação duma reincidência circunstancial e poderão reencontrar-se com o que de melhor a poesia portuguesa da primeira metade do séc. XX tem para nos oferecer. Já deixei aqui um, deixo agora outro:

PARA SERVIR DE FINAL

Para servir de final bastava um ponto final
Se tivesse havido coragem:
Acabar com esta ilusão das palavras que já não servem,
Deixar morrer a poesia de morte natural;

Para servir de final também bastava o conforto da vida
Se a vida soubesse dar conforto
De forma a que nem apetecesse
Este a gente deixar-se à mercê do que nos mói
A ansiedade e os ouvidos;

Para servir de final — isso é que era um final! —
Chegavam umas poucas de pás de terra,
E o refastelar dos bichos,
Ali, a roerem consolados
Nesta pele podre e sensível…

E, no entanto, ainda apetece um post-scriptum,
Apetece ainda este gosto desarrazoado
De estar a falar com pessoa nenhuma
Que mais não seja para gritar
— A Poesia morreu! Morra a Poesia!
Coma a terra os poetas deste mundo!

Sobre um lodo de sangue os homens-lobos resolveram
Andar aos rebanhos, como os cordeiros;
Fecharam-se-me todas as portas
E ninguém cabe pela minha;
Apagou-se a luz de Deus
E a esperança, com ela, arrefeceu-me no sémen;
Sei que hei-de acabar, como as pedras, em incómodo
E me hão-de as mulheres limpar dos olhos com água bórica;
Por ser cedo, ou ser tarde,
Já nem me lembro dos meus vinte anos
— Deixei morrer a fé, e não chegou a resignação;
Sumiu-se o bicho harmonioso
Que assoprava esquecimento aos meus ouvidos
E, até as minhas mãos
Se recusam, às bolhas, a uma harmonia concisa;
Das estrelas que semeei nasceram só gritos estéreis;
Os monstros que acariciei riram-se da minha angústia
E tomaram-me nas manápulas para que fosse um deles
E só me falta deixar que o fogo acabe tudo…

Lá virá! Lá virão línguas ou pétalas ardendo
Sobre o vento que me desgrenha os nervos e os cabelos
Consumir-se no espectáculo
Dum grande incêndio final!...

                                                 (Resta-me cultivar esta mentira
                                                  Como uma planta de vaso capaz de algumas folhas
                                                 (Antes de ir para o esterco.)

Moledo, Julho de 1949.



António Pedro, in Antologia Poética, edição de Fernando Matos Oliveira, Angelus Novus, 1998, pp. 77-78.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

POESIA CLANDESTINA


Na próxima terça-feira, dia 14, pelas 21h30m, Margarida Vale de Gato lê e comenta Rui Costa. Há 6 anos, Rui Costa lia e comentava Haruki Murakami: aqui.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

WALT & OFÉLIA

No ensaio biográfico que dedicou a Walt Whitman, Eduardo Pitta recordou a recepção de Leaves of Grass em Portugal:

Em 1915 — isto é, com o proverbial atraso de sempre —, Portugal entra no coro. Pela boca de Álvaro de Campos, Pessoa saúda-o num poema torrencial (...). O engenheiro sensacionista não fez a coisa por menos e comparou a obra de Whitman a "Uma erecção abstracta e indirecta no fundo da minha alma." Ofélia Queiroz nunca foi capaz de tanto.

Eduardo Pitta, in Metal Fundente, Edições Quasi, Maio de 2004, pp. 116-117.

QUANDO SOUBE, AO FIM DO DIA


Quando soube, ao fim do dia, que o meu nome tinha sido aplaudido no Capitólio, nem por isso me senti feliz nessa noite,
E mais ainda, quando me embriaguei ou quando se cumpriram os meus planos, não me senti feliz,
Mas no dia em que me levantei bem cedo de perfeita saúde, descansado, a cantar, aspirando o ar amadurecido do Outono,
Quando a ocidente vi a lua cheia empalidecer e desaparecer com a luz da manhã,
Quando vagueei só pela praia, e nu entrei na água, rindo com as águas frias, e vi o Sol nascer,
E quando pensei que o meu querido amigo, o meu amante, vinha a caminho, oh, então senti-me feliz,
Oh, então, o ar que aspirava era mais fresco, e durante todo aquele dia o que comia satisfazia-me mais, e aquele belo dia foi maravilhoso,
E o dia seguinte surgiu com igual alegria, e no outro a seguir, à tarde, chegou o meu amigo,
E naquela noite, quando tudo estava em silêncio, ouvi o rolar lento e contínuo das águas invadindo as praias,
Ouvi o murmúrio sibilante desse líquido e das areias, como se em murmúrios me felicitassem,
Pois aquele que mais amo dormia junto de mim sob a mesma manta na noite fria,
No silêncio dos raios da Lua de Outono, o seu rosto inclinava-se para mim,
E o seu braço repousava levemente sobre o meu peito — e nessa noite fui feliz.
 
 
Walt Whitman, in Folhas de Erva, trad. Maria de Lourdes Guimarães, Círculo de Leitores, Fevereiro de 2006, p. 114.

CONTO DE INVERNO


permanecendo no inverno
e mais do que no inverno, no passado
andando um tanto ao acaso
dão connosco pela frente
os bosques da América do Norte

em todo este desenlace
o inverno, como tendo em conta o nosso esforço
não se nos apresenta rigoroso
por aí se vê que a natureza
apesar de bastante fria
continua acessível a um europeu do sul

dir-vos-ei apenas que cheguei era já noite
e dispenso-vos as minudências
as atitudes mais ou menos adivinháveis -
apresentações, questões, pequenas curiosidades
- até porque não as houve em demasia
e avançava já para a esplêndida sensação
proporcionada pela iminência do alce

não querendo carregar nas teclas
das imediações do fantástico
sublinharia porém a luciluzência do acampamento
- sua fogueira - a disposição das personagens
a musicalidade de ralos e de mochos

a noite era imensa entre o arvoredo
como nunca mais o veio a ser
e a lua reflectir-se-ia por certo
em algum charco que eu haveria de ver
uns determinados dias depois

o acampamento era irreal
de tão perfeito em suas premissas
e alguém que se afastasse
ainda que imperceptivelmente
dava a quem o visse
a inexplicável certeza
de toda uma razão de existir

um qualquer arfante perigo encantatório
passeava-se atávico
na escuridão do bosque de coníferas

adormeci ao som das brasas
derretendo a gordura dos ossos do corço
e sonhei com o meu tempo
que estaria, sem que bem me apercebesse
para advir em tempos de máquinas
e de capacidades intelectuais proveitosas

Daniel Maia-Pinto Rodrigues (n. 1960), in O Valete do Sétimo Naipe (1994). «Com altos e baixos, mais notoriamente ou menos notoriamente, este estilo e este ritmo constituem, na poesia do Daniel, uma verdadeira identidade, e atravessam o todo disperso dos seus poemas como uma distinta e pessoalíssima marca. (...) / Sinais exteriores dessa identidade são a desconcertante "naiveté" coloquial (perigosíssima, aliás, pois força frequentemente os limites do literário, confrontando-se com o banal em fintas às vezes de inseguro resultado, como as daqueles jogadores de futebol que costumam ser acusados de "não jogar para a equipa"...); a ciência da palavra subitamente inusitada, da relação tensa do adjectivo e do substantivo, do arcaísmo ou do neologismo de construção; o humor distante e enternecido, a estudada candura, às vezes amável até à perversão; a constante ruptura dos níveis do discurso, a crueza do corriqueiro irrompendo na expressão quando ela parece ir tornar-se eloquente; o uso radical do "cliché" e da literalidade; a espaços, a absoluta ausência de vigilância literária ou a desmesura retórica; uma arte da composição que joga sabiamente com a ingenuidade e a fabricação formal; e, sobretudo, o prazer físico das palavras, do seu sabor, dos seus aromas, uma dicção voluptuosa capaz de se inebriar até ao deslumbramento com certas inesperadas sonoridades e, por outro lado, propensa a súbitas e vertiginosas mudanças de curso, precipitações de sentido, pueris enternecimentos» (Manuel António Pina, posfácio a Malva 62).