terça-feira, 30 de junho de 2020

E EU IGUAL


(...)

Levanto-me e vou à cozinha beber um copo de água. O líquido ressuscita a traqueia, chocalha-me no estômago enquanto regresso à mesa de trabalho. Concordâncias, um sinónimo cravado como uma estaca no coração da banalidade, do meu sangue não beberás, ó treva verbal em que esbraceja a mesma gente que vota, que leva as crianças à escola, que engrossa as filas bárbaras dos supermercados. Palha. Palha em todos os ficheiros de todos os computadores, palha em todos os centros comerciais de todas as cidades. Palha para a morte enfardar e despenhar no precipício. Somos todos mirones desse pélago. Já nem lhe temos nojo. Metemos qualquer coisa no bucho e ficamos a ruminar, já com os pés a balouçar no vazio. E eu igual. O horror é esse: e eu igual.

(...)

Vasco Gato, in Adius, Abysmo, Fevereiro de 2020, pp. 86-87.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

ESTREIA DIA 2 DE JULHO



Mais informações: aqui

domingo, 28 de junho de 2020

TIPO OS PALHAÇOS


Pensemos num livro com o preço final de 20€, imaginemos que o valor da venda de um exemplar seria equitativamente distribuído por quem nele trabalhou até chegar ao consumidor final. Autor, editor, designer, gráfico, distribuidor e livreiro arrecadariam 3,33€ cada. Para que pudessem amealhar um mínimo de sobrevivência, por exemplo 10000€ anuais, teriam de vender aproximadamente 3000 livros. É óbvio que nada disto é assim tão simples, pois há empresas no universo livreiro que conseguem ser praticamente tudo ao mesmo tempo. E um editor não publica um único livro por ano, pelo que as livrarias têm uma oferta diversa de, vá lá, 10000 títulos de 5000 autores, de 250 editores, impressos em 125 gráficas, que chegam a 50 livrarias através de 25 distribuidores. Não estou a pensar nas vendas online. Seja como for, nada disto é tão simples também porque são raros os livros que vendem 3000 exemplares num ano, e mais raros os 3000 leitores que os compram. E mesmo que vendam 1000 ou 500 ou 50, o dinheiro perde-se pelo caminho. A partir do momento em que sai da carteira do comprador é raríssimo aquele que chega ao autor. Daqui se explica que escassos sejam os autores que não são outra coisa qualquer, uma coisa que garanta a sobrevivência. Alguns são mesmo editores, outros são designers, há deles a trabalhar em gráficas e em distribuidoras ou livrarias. O tempo que lhes sobra para serem autores é curto, pois têm muitos afazeres. Depois há que arranjar tempo e disponibilidade para promover a obra, indo a festivais e encontros, escrevendo para jornais ou revistas, participando em mesas quadradas nas escolas, nas bibliotecas. Tudo isto é muito dispendioso, mas o pior é quando pedem ao autor que se descreva em 6 linhas. Fale-me de si na terceira pessoa, resuma o seu percurso, diga-nos o que tem feito para que possamos justificar o convite que lhe fizemos. Acrescem os impostos, as ofertas. Há aquele conto de um escritor húngaro sobre certo autor que comprava os seus próprios livros para poder oferecê-los a quem mostrava interesse na sua obra mas não tinha tempo para ir a uma livraria adquirir o livro que tanto interesse lhe provocara. E o autor lá oferece o livro na presunção de que será lido. Geralmente não é, fica esquecido entre outros livros como é costume o autor ficar esquecido entre outros autores. Tudo isto é assaz, deveras, muitíssimo fastidioso e até frustrante, mas as coisas vão-se fazendo. Ninguém sabe muito bem porquê, com que propósito ou intenções, certo é que as coisas aparecem feitas. Será só uma maneira de enganar o tempo? Vaidade? Carolice? Necessidade de afirmação? Devia ser trabalho, mas o trabalho é pago. Quando não é pago, fala-se de escravatura e de exploração. Talvez o autor seja um escravo voluntário, um explorado alegre. Tipo os palhaços.

sábado, 27 de junho de 2020

ESCUMALHA


Todos os dias chegam notícias de gente nos EUA a criar problemas por recusar o uso da máscara cirúrgica, ao mesmo tempo que o negócio das máscaras estampadas conhece forte incremento. As justificações apresentadas para não usar máscara são diversas: a máscara mata, a máscara é coisa de comunistas, a máscara ofende a liberdade de expressão, a máscara é uma invenção do demónio, o que é bonito é para se ver. Isto é real, há vídeos de gente a ser julgada onde se escutam estes argumentos. Também parece não ser novo. No canal História lembra a polémica em torno do uso de máscaras durante a pandemia de 1918. Nem sei o que diga. Havia em mim uma certa desconfiança, mas o benefício da dúvida impunha-se e o coração reclamava condescendência. Esta pandemia veio alterar qualquer coisa no meu modo de olhar para as pessoas. A nuvem tóxica que cobre o planeta é mesmo a ignorância. Uma pessoa pode ter as convicções políticas e religiosas que quiser, pode até não ter nenhumas, o que faz a diferença é só a ignorância, a burrice, a estupidez, o culto de boçalidade para o qual tem contribuído a ganância, a ambição, o dinheiro, sempre a merda do dinheiro, a luta desenfreada por audiências e capital. E as redes aí estão a dar voz a esta gente, e os reality shows a fazerem destes grunhos estrelas descartáveis. O "burgessecismo" faz escola, ganha terreno, com adorações a Tillys e Olavos e terraplanistas e todo o tipo de escumalha cujo método consiste em desacreditar a ciência e o conhecimento para impor os mitos e as conspirações com os quais manipulam as cabeças permeáveis de milhões de pessoas. Com a escola negligenciada, com a cultura desprezada, vai ser cada vez pior. Enquanto o foco for exclusivamente económico e capitalista, enquanto os mercados determinarem e a especulação financeira ditar as regras, será cada vez pior.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

ESPAÇO CHEGA PARA LÁ


Quitéria anda deveras preocupada com esta coisa das listas que restringem a entrada de portugueses em território estrangeiro. Ainda a impedem de ir ver a família ao All Garve.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

PORTUGAL NÃO É RACISTA

Está prestes a realizar-se uma manifestação subordinada ao tema ilustrado pelo título desta prosa. É difícil discordar de premissa tão axiomática. De facto, como pode ser racista um país? Em si mesmo, um país não é racista a não ser que na sua Constituição existam artigos discriminatórios de etnias. O racismo, de resto, surge de um erro de análise que já devia ter sido ultrapassado mas ainda não foi: o de que existem raças entre seres humanos. Tem sentido falar de etnias, não faz sentido algum falar de racismo. Entre os bichos há raças, entre os homens só há bestas. Devíamos ficar por aqui. No entanto, o instinto das bestas determina a que não fiquemos por aqui.

Se Portugal não é racista, e a nossa Constituição leva a crer que o não seja, há portugueses que o são. Alguns até pretendem mudar a Constituição da República, são exactamente os mesmos que propõem confinamentos especiais para determinadas etnias. Isto é um bocado racista. Mas se não devemos reduzir Portugal à existência desta gente, também não podemos ficar serenos com a forma como buscam desagravar o que os próprios agravam. É que entre as bestas que se preparam para nos lembrar de que Portugal não é racista existem delas que até já foram condenadas por actos racistas ou aguardam julgamento sob acusação de racismo. 

Pois que Portugal não é racista, não como declaradamente o era a África do Sul do apartheid, mas, infelizmente, há racismo em Portugal. Há racismo em todo o lado, é por isso que convém combatê-lo. Deixem-me dar-vos um exemplo prático, claro, objectivo e esclarecedor de racismo à portuguesa:

 

Este comentário foi-me dirigido há dias, após um desmentido oficial relacionado com o acesso ao Rendimento Social de Inserção por parte de pessoas de etnia cigana. Repare-se na confissão: «não confio em ciganos, não os queria ter como vizinhos nem que frequentassem a escola do meu filho». A conclusão é objectiva: «Sou racista, para qualquer um que não saiba viver em sociedade, seja branco, preto ou às riscas…» Pobres zebras. Temos aqui, portanto, uma cidadã porventura exemplar de um país que não é racista, mas onde incontestavelmente existe racismo. Não só existe, como surge declarado sem qualquer tipo de pudor por essas redes fora. 

Não vou perder tempo a contrapor os preconceitos e os estereótipos de quem assim fala, embora julgue fazer falta a esta senhora alguma criatividade. Quero só reforçar que os dados por mim apresentados a que o interlocutor se refere incluíam campos de concentração, gulags, bombas atómicas, realidades históricas que, para a pessoa em causa, «são insignificantes comparando com os atropelos cometidos pelos ciganos na sociedade». O que foi Auschwitz ao pé da Quinta da Fonte? Uma ninharia. 

Com este exemplo, pretendia eu provar que Portugal não é racista… à condição, dado ser factual a existência de racistas em Portugal. A gravidade não está apenas em existir gente que pensa assim, está também nas acções concretizadas. Desde há alguns anos que vêm sendo cada vez mais frequentes as notícias sobre actividades dos movimentos neonazis portugueses, especialmente violentos na manifestação do racismo que os move. A Europol avisa, o SIS avisa, mas, para certa gente, o que é relevante é descer a avenida gritando que Portugal não é racista. Recentemente, o Ministério Público acusou 27 pessoas «de discriminação racial, ofensa à integridade física qualificada, tentativa de homicídio e tráfico de armas», gente que pertencia a um grupo que exaltava a superioridade da “raça branca”. Perseguem, insultam, agridem, matam. Serão racistas ou simplesmente não gostarão de pretos e de ciganos?

A medrança destes movimentos deve ser uma preocupação, o alerta acerca da sua existência está lançado, a necessidade de combater aquilo que defendem é uma obrigação cívica de todos quantos não se revejam num país com cidadãos de primeira, de segunda e de terceira. Mais preocupante se torna notar como este tipo de pensamento tem vindo a infiltrar-se no interior de forças nas quais depositamos a confiança da nossa protecção e segurança. Neste sentido, passo a partilhar um post de um militar que, na sua página de Facebook, diz não ser de esquerda, nem de direita nem de centro, mas do que vem de dentro. O que vem de dentro pode ser muita coisa, sangue, cocó, chichi. E pode ser nada, se o dentro estiver vazio. É quando se torna mais perigoso. A declaração de não pertença “ao rebanho” é, de resto, muito comum entre o rebanho de populistas que faz da oposição ao sistema (qual?) uma bandeira de agremiação. Cliquem na imagem para ver melhor:

 

A postura intimidatória do militar seminu não me incomoda particularmente, mas não posso dizer o mesmo do discurso que acompanha a selfie e das declarações de amor manifestadas com likes e comentários diversos. Este camarada dirige-se com texto copiado (de quem? de onde?) a um grupo concreto que nem sequer tem especial relevância por terras lusas, os “meninos antifas”. Parte do princípio peregrino de que o vandalismo exercido sobre os símbolos e monumentos da Nação (maiúsculas do autor do texto) tem origem unívoca e unilateral, certos indivíduos que se servem de tais gestos para combater a disseminação do fascismo no mundo. Ora, o que não falta por aí são exemplos de atentados contra símbolos e monumentos públicos perpetrados por gente aparentemente ligada à extrema-direita ou claques de futebol. A pichagem não é um exclusivo de ninguém em particular.

Deverão o aviso ameaçador e a mensagem agremiadora final ser objecto de alguma denúncia no Ministério Público, tal como foi um cartaz recentemente empunhado durante uma manifestação anti-racista? Por que é que os latidos do caniche na manifestação anti-racista não incomodam tanto quanto as ameaças deste cão de fila nas redes sociais? Há uma razão para que assim seja, Portugal não é racista… à condição. Se for um “antifa” a pichar, prepare-se para ter à perna “o exército português”. Se for um skinhead, não sabemos, talvez acabe como convidado da Tânia Ribas de Oliveira ou do Manuel Luís Goucha num programa da manhã. 

A polarização está ao rubro, o crescimento que se avizinha do desemprego e da miséria vão tornar ainda mais aliciante o discurso exacerbador dos bodes expiatórios. Eu já não penso que a tempestade esteja perfeita, neste momento estou convencido de que chegámos ao olho do furacão.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

CÓDIGO DE BARRAS


Há imagens que ocupam um lugar dentro de nós e não querem de lá sair, exigem que façamos alguma coisa com elas. São como aquelas almas perdidas nos filmes de terror, vagueiam pela cidade até darem com a porta para o lado redentor, o lado onde se perdem e esfumam e desaparecem para sempre. Preciso fazer qualquer coisa com esta imagem. Ela instalou-se dentro de mim e não quer sair, colou-se ao cérebro tais lapas num penhasco. Talvez seja do verde que pintalga o fundo sem quebrar a hegemonia de tons neutros e a geometria do lugar. O cenário formal, aristocrático, entra-nos pelos olhos e fixa-se na mente. Há qualquer coisa de asséptico em todo aquele mármore, uma rigidez insípida, tristonha, anódina, sobre a qual sobressaem um, dois, três, quatro, cinco traços verticais, dispostos numa sequência onde é nítida a perda de vigor, de um azulão mais escuro para um cinza claro, esmaecido, fundindo-se com os tons chãos do palco. Lidos da esquerda para a direita, são como aquelas sequências de tons em catálogos de alcatifas. Mas a verticalidade do tracejado lembra outra coisa, talvez um código de barras. Ali está o código de barras da nação, em pleno Palácio Nacional de Belém, rigorosamente arrumado como que numa parada militar: o presidente da capital, o presidente da assembleia da república, o presidente da república, o primeiro-ministro da república, o presidente da federação da república. O que estarão ali a fazer? Terá o país entrado em guerra? Descobrimos uma cura para o cancro? O que fazem ali aqueles cinco homens, de fato e gravata, responsáveis pelos mais elevados cargos da nação? Pois bem, todo aquele rigor serviu para anunciar meia dúzia de jogos de bola. Não sei se esta imagem deve ficar para sempre gravada na nossa memória ou se a devemos tentar ultrapassar como a uma espécie de lapsus calami.

Em pleno estado de calamidade ela transmite uma mensagem verdadeiramente decepcionante, leva-nos a crer que aquela gente que nos governa perdeu todo e qualquer sentido sobre o que é verdadeiramente relevante num país onde a cultura vem sendo tratada como um indigente a quem se dá esmolas de vez em quando. O mais degradante disto é ser aquele o código de barras de uma nação que mina paulatinamente a democracia sem sequer perceber, entender, compreender, que é precisamente este tipo de opções e comportamentos aquilo que mais a sabota, desbravando caminho para os grunhos e para os burgessos que não param de berrar por uma mudança de regime. Não é que eu simpatize com o destes, nem sequer que me inquiete com o vigente a ponto de ansiar por motins. A vantagem, neste caso, é que podemos deitar para o lixo esta estatuária, podemos mudar de código de barras, bastando para tal um pouco de discernimento na hora de exercermos os nossos direitos cívicos. E nisto lembro-me de outra imagem, totalmente oposta à dos presidentes da nação, uma imagem simples e acessível, colhida durante um passeio na aldeia. É sobre a força das raízes que irrompem pelo pavimento, quebrando desse modo a monotonia e a uniformidade do caminho. Neste caso, o verde esperança emerge vigoroso por entre o alcatrão, desalinhando a sensaboria de uma desconfortável linearidade. A estrada é de quem nela sobrevive. Talvez o problema esteja no traje do código de barras, naqueles fatos e naquelas gravatas, talvez não devessem ter voltado costas ao verde. Isto realmente está tudo ao contrário.  

terça-feira, 23 de junho de 2020

FEIRA POPULAR

Ao passear pelo Facebook, Quitéria lembrou-se da sala dos espelhos na Feira Popular.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

FILIPA

São escassas as informações sobre José Manuel Pressler (n. 1938 – m. 1965), autor que terá frequentado o chamado Grupo do Café Gelo nos idos de 1960. Ao contrário de outros dessa segunda (ou terceira) vaga do surrealismo português, Pressler não foi incluído por Cesariny na antologia “Surrealismo/Abjeccionismo” (Minotauro, Março de 1963). Surgem Virgílio Martinho, João Rodrigues, Ernesto Sampaio, António José Forte, José Sebag, Manuel de Castro, mas nada de Pressler. Publicado postumamente em 1967, o único livro do autor resultou dos esforços do amigo Manuel de Castro (n. 1934 – m. 1971). “Filipa” (Barco Bêbado, Maio de 2020) conhece agora nova edição, acrescentada de um pungente texto de Manuel de Castro recuperado do n.º 21 do magazine & etc: «Tempo houve em que pude enfrentar o mundo com raiva, com furor e indignar-me. Agora estou cego e digo que tudo é relativo. É um estado de neutralidade introvertida que sei não conduzir a sítio algum» (Julho de 1968).

   Pressler morreu em Bruxelas, depois de disparar um tiro na cabeça. A poesia que nos outorgou testemunha um desassossego interior que oscila entre uma busca desesperada da beleza/amor e a renúncia a uma realidade sufocante e claustrofóbica, que era a do país da ditadura e de todas as limitações à liberdade individual. Mais do que o surrealismo, parece ser o simbolismo a sua principal fonte. Ao lermos estes poemas vislumbramos ecos de um interesse pelo obscurantismo esotérico, pelos princípios cabalísticos, pelos rituais egípcios da morte, com reflexos imagéticos de uma cosmogonia singular: «do mesmo Ventre o rosto azul e as mãos / o corpo alado   o estranho pensamento / e o Bruxo que dá corpo em suas mãos / à Figa que equilibra o firmamento» (p. 14).

   Os poemas de “Filipa” são, desde a inicial (iniciática?) carta a Almada Negreiros, um escape ao realismo, uma porta de entrada para um universo íntimo onde a realidade quotidiana raramente chega, e, quando chega, vem já de tal modo deformada que quase nem damos por ela. Há por isso uma elevada acentuação emocional em alguns poemas, belos na forma e no ritmo, muitas vezes comoventes até pela simplicidade que alcançam: «Obrigado meu deus / por mais esta manhã / disposta puramente / no regaço da terra adormecida // por mais esta manhã / te prometo, meu deus // quando eu morrer irei falar de ti / ao mar / ao sol / às flores / a meus irmãos» (p. 18).

   A natureza é um dos elementos convocados para configurar um belo hermético e inacessível, a não ser talvez pela fusão que com ela a morte proporciona. Tema central nesta poesia, a morte aparece como necessária ao amor, à paz. “Oferta”, extraordinário poema, di-lo em letras garrafais: «O AMOR, A PAZ, SÓ SÃO POSSÍVEIS NELA.» (p. 20) O pendor escatológico que percorre toda a obra, com referências recorrentes ao cuspo, ao escarro, e à merda enquanto “Autógrafo” da existência (ver poema da página 64), não pode ser dissociado desta complexa conexão estabelecida entre o absurdo da morte e a possibilidade do amor: «um escarro de outro   azul   aconteceu / ao canto de uma boca colossal // o tempo fez      do escarro que nasceu / o corpo deste absurdo universal // e quando a vida   bela   despontava / liberta      da trampa que a gerou / tornou-se humana // — náusea / angústia / raiva — / porque o Homem fez deus — e se matou» (p. 22).

   Alguns poemas de “Filipa” são sínteses modelares dos mistérios da vida, equilibrando a complexidade filosófica em que mergulham com uma agradável fluência rítmica e prosódica. Outros parecem fragmentos, estilhaços de uma experiência íntima pautada pela fúria e pela raiva com que pode alguém esmagar o desespero antes de por ele ser esmagado. Belíssima edição da "neófita" Barco Bêbado, de que se fizeram apenas 300 exemplares. Deixo para exemplo um dos meus poemas preferidos do livro:

 

quero ser Eu e quero ser Loucura   e quero ser

Razão, sem distinguir   e quero nu meu corpo

e nu vestir eu quero a nua veste da ventura

 

e quero nua e triste a sepultura   e quero nela

entrar e, já, sair   e quero ser sem Ser ao decidir

se quero ser chão ou ser altura

 

e quero que mil olhos venham ver-me e que mil mãos

anseiem por sentir-me e que mil bocas sofram por

sorver-me e quero que mil homens queiram ter-me

e em mil corpos de virgens quero vir-me

 

para ver se consigo compreender-me

domingo, 21 de junho de 2020

MOTIVOS

Acerca de razões para o suicídio, Quitéria é da opinião que apenas os suicidas estão autorizados a opinar.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

UM HISTÓRIA DE ORLANDO NEVES



O ASSEIO

   Estremecendo, o nariz saltou da linha férrea e começou a andar por entre as traves de madeira e o cascalho. Encontrou um pé, o direito, parou, rodeou-o e prosseguiu. Um pouco mais adiante, um braço estava atravessado sobre a guia de ferro. Pulou-lhe por cima e avançou.
   A dois passos, viu o tronco. Sempre a fungar, o nariz avistou, um pouco mais à frente, a cabeça. Contornou-a e seguiu.
   Ali estava, completa, a perna direita. Reconheceu-a imediatamente e nem sequer parou. Não era aquela a perna que lhe interessava. Mas a outra devia estar perto.
   Estava, de facto.
   Cortada em duas, mas ainda unida, a perna esquerda jazia, encostada a um pequeno arbusto. O nariz correu, entrou na algibeira, tirou o lenço e assoou-se com certo estrondo.
   Voltou a meter o lenço no bolso das calças, deu uma breve corrida e foi colocar-se, o melhor que pôde, no seu lugar na cabeça.
   Agora, sim, sentia-se suficientemente limpo para poder integrar o cadáver. 

Orlando Neves, in A Condecoração, colecção fantástico n.º 7, Ediçoes Rolim, Novembro de 1984, p. 25.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

57 000

57 mil likes, milhares de comentários e de partilhas. Qual o motivo de graça? Uma rapariga com tiques estranhos. Síndrome de Tourette? Paralisia cerebral? Ninguém interroga. Milhares partilham, riem, gozam, fazem piadas. Estas estátuas também ninguém derruba.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

FÁBRICAS DE BEBÉS

A pandemia tem levantado o véu sobre inúmeras realidades do mundo actual pouco conhecidas. Aqui temos a indústria de bebés na Ucrânia. Isso mesmo, indústria de bebés. Várias mulheres pobres, sobretudo de pequenas cidades e de zonas rurais, dão à luz por dinheiro. Os bebés são vendidos a clientes estrangeiros. E é isto.

terça-feira, 16 de junho de 2020

UM POEMA DE PAULO DA COSTA DOMINGOS


Domingo, o senhor Domingos
que escreve o nosso poema
e pouco sabe,

senhor navegador solitário
no seio do ruidoso descalabro
do atonalismo e afasia urbanos,

senta-se no anel de fogo
a golpear castanhas, trabalha
sem descanso no milagre

do bom ritmo da fala,
na matriz do seu aroma:
que repete, a semana inteira.


Paulo da Costa Domingos, in Paisagem Durante a Batalha, Viúva Frenesi, Setembro de 2019, p. 82.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

UM POEMA DE REGINA GUIMARÃES



CÂNTICO DO TELHADO

Escrevo no tampo da mesa
depois de ter esbanjado todas as folhas
com palavras a azul ultramarino
donde os navios não regressam

Dadas ou roubadas
outrora as palavras buscavam
a água parada entre rochas e corais
ou mesmo a do cais
devassada, negra e imunda

Escrevo no tampo da mesa
com a ponta da faca
depois de ter esgotado
a fibra maternal
a corda sensível
e a veia artística.
Fico sem acordo
como se tivesse cortado os pulsos
para verificar a cor do sangue

Saberia voltar ao passado
mas não chegar a horas ao presente.
Saberia chorar sobre o leite derramado
mas não alimentar os olhos recém-nascidos
Saberia até deixar-me matar
mas não abandonando o corpo à lâmina

Dadas ou roubadas
as palavras mudam de cavalgadura
e dormem imóveis por cima dum paiol
e dormem douradas sobre a palha da granja

Dadas ou roubadas
ladram e ferram
quando outras
em caravana
as ultrapassam


Regina Guimarães, in traumatório, com desenhos de Ricardo Castro, Douda Correria, s/p, Março de 2020.

sábado, 13 de junho de 2020

DO VANDALISMO



Umberto Eco terá dito que as redes sociais deram voz aos imbecis, mas eu julgo que devemos ir um pouco mais longe. As redes sociais são mesmo uma escola de imbecis. A vertigem da partilha e do like usurpa o foco, rasura a concentração, trai o espírito crítico e apaga a curiosidade. É por isso que se partilha tanta notícia antiga como se fosse actual ou se anunciam repetidamente as mesmas mortes. O utilizador das redes fica pelo título, não espreita a data, não lê o artigo. Mais do que estar interessado em se informar, ele quer comentar, quer ter algo a dizer. As máquinas de comunicação dos populistas servem-se disto de um modo altamente eficaz. Os títulos enunciam invariavelmente juízos, fazendo uso de verbos ou de expressões assertivas: arrasar, dar cabo de, levar ao tapete. Quem quer saber do resto? O que importa é ver o adversário de rastos, por KO. Saber porquê ou em nome de quê dá trabalho, é fastidioso. Um título do tipo "Estátua de Camões vandalizada" fará o seu percurso, sendo cada vez menos aqueles que se colocarão face ao mesmo interrogando: em que consistiu o acto vândalo? Pois bem, raminhos de flores em homenagem ao poeta no dia que lhe é consagrado e... uma máscara descartável pendurada nas orelhas. Nos tempos que correm, o gesto de pendurar a máscara nas orelhas de Camões até podia ser interpretado como uma instalação artística, reivindicação pelos que, tal como sucedeu ao poeta, estão a morrer de fome para que outros, no futuro, encham a boca com as suas obras. Sem ler, sem ver, os comentários sucedem-se no tom mais que esperado:

 

"Ha quem chame a isto ignorancia mas não e, sabem bem o que fazem. E o chamado terrorismo psicológico, dividir para reinar. Os filhos da putice estão por aí."

*

"Triste chegarmos a este ponto ser humano estraga e faz coisa desta paciencia algum respeito pela nossa cultura deve der ou serem castigados interesse général"

*

"Abram as discotecas e bares, para terem uma ocupação, senão destroem o país"

*

 "Façam monumentos aos parasitas e imbecis que por aí andam a comer à conta de quem trabalha

(…)

DIZ QUITÉRIA

Poeta bom é poeta morto, diz Quitéria. Que os vivos são para matar.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

AGALMATOFILIA

A destruição de esculturas e de estátuas, a vandalização de monumentos, tem gerado muita indignação, quase tanta quanto a gerada por cidadãos vítimas de violência policial. Uma estátua viva vale mais do que um cidadão morto? Não tenho resposta para dar, mas indigna-me que não se gerem movimentos de simpatia pelos reaccionários que, em vez de destruírem estátuas, servem-se delas para satisfação sexual.

Em 2012, um austríaco foi preso na Bulgária depois de ser apanhado em flagrante a fazer sexo com uma estátua de um leão de bronze. Quem o defendeu? Em 2010, várias jovens simularam sexo oral com uma estátua grega numa festa organizada por Silvio Berlusconi. As famigeradas “bunga bunga” do ex-primeiro ministro italiano eram conhecidas por estes actos de vandalismo e pelo incitamento à prostituição de menores, que, independentemente da cor, origem e etnia, eram só jovens a profanar falos de estátuas gregas (um mal menor).

A agalmatofilia, de resto, é uma espécie de perversão sexual que vem nos manuais, mas ninguém lhe liga nenhuma. Consiste, como o próprio termo indica, num amor desmesurado a estátuas. Temo que ande muita gente a descobrir, por estes dias, o agalmatófilo que há dentro de si. Há relatos de actos sexuais com esculturas em templos hindus, de mulheres a satisfazerem-se com estátuas de dinossauros, de um homem que foi parar ao hospital com uma escultura no cu.

Basta pesquisarem no Google por “sexo estátuas” para que se deparem com estas e muitas outras manifestações de amor, mas disso ninguém fala. Nem disso nem do livro de poesia de Alexis Díaz-Pimienta, justamente intitulado “El deseo sexual de las estatuas”. Talvez estivesse na altura de o retirarem do mercado, se é que alguma vez chegou a estar.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

O COCÓ DOS DIAS



A moda dos lives é a modos que death, pensa Quitéria de que.

*

Entre a Terra ser redonda ou plana, Quitéria alinha na teoria do losango invertido.

*

Quitéria propõe uma manifestação contra manifestantes.

*

Quitéria acha que isto de andar com a cara tapada está a trazer o nosso gene mouro ao de cima. Não tarda, começamos a destruir estátuas.

*


Quitéria propõe que comecemos por destruir o Senhor. Depois podem revoltar-se contra as estátuas, que estão quietas e não fazem mal a ninguém. Agora o Senhor, esse anda a moer-nos o juízo desde a criação do mundo.

*

Quitéria diz que razão têm os pombos, estão-se a cagar para as estátuas.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

UM POEMA DE REGINA GUIMARÃES



APRENDI

Ontem aprendi que as estrelas
ou papagaios de papel
ou ainda bacalhaus em Portugal
existem há mais de 2500 anos na China
e que serviam para medir campos
e enviar mensagens.
Que hoje em dia
nas favelas brasileiras
as crianças os utilizam
para alertar o bairro,
quando a polícia anda por perto, 
utilizando códigos de cor.
Aprendi que o nosso rei escritor
Duarte
um dos tais de Bragança
terá redigido a primeira definição de
poesia
em língua portuguesa:
«A poesia é mais sabor do que saber.»
Para que posso eu contar comigo?
- perguntei eu ontem a mim mesma.
Não sei se vista o vestido ou o vestígio
e embora estenda as falsas asas,
distendida e tensa,
sinto que não me enxergo
e que não sou imensa.


Regina Guimarães, in Ópera Europa, Pé de Mosca, Março de 2012, p. 19. 

DE UMA ENTREVISTA



(...)

Uma vez que viveu dezassete anos na Alemanha, onde leccionou na Universidade de Heidelberg, o que é que lhe deram, comparativamente, a Alemanha e Portugal?

Isso é uma equação a várias incógnitas. Falar de mim no passado tem algo de incógnita e é transformado pelas experiências do presente e, acima de tudo, eu vivi na Alemanha e em Portugal em períodos diferentes da minha vida. Portugal deu-me a língua e uma perspectiva do mundo, que é uma perspectiva de quem está num canto e, precisamente por estar nesse canto, está sempre a evocar digressões por este mundo fora para se sentir cosmopolita. 

E são cosmopolitas, os portugueses?

Não. Os portugueses não são cosmopolitas. Os portugueses regressam como as andorinhas e os salmões ao lugar onde nasceram, que é onde se sentem bem...

Como o Alberto Pimenta...

Como eu... porque são, por temperamento e mentalidade, um bocadinho acanhados, tímidos, ensimesmados, ou seja, metidos em si mesmos. A Alemanha deu-me uma outra língua, com um outro modo de organizar o mundo em volta, e deu-me uma perspectiva a partir de um centro - o centro da Europa. Do lugar onde eu vivia, podia ir em poucas horas a Milão, ou a Praga, ou a Viena, ou a Berlim, ou a Bruxelas, ou a Paris. Isso dá aquela sensação que eu acho que é a da verdadeira liberdade, que não é exactamente fazer, mas saber que se pode fazer e que é fácil fazer. A Alemanha deu-me, sobretudo, o que qualquer outro país me teria dado, mas à sua própria maneira, que é: um termo de comparação. Não há nenhuma espécie de conhecimento que não seja por comparação. E eu fiquei a conhecer Portugal com alguma objectividade depois de o poder comparar com um país bastante diferente na estrutura das organizações e das instituições e nas prioridades de vida. A Alemanha deu-me também contacto indirecto e directo com teorizadores e praticantes duma estética inserida numa tradição distinta e, sobretudo, contemporânea na sua razão de ser: Adorno, S. Schmidt, Emmett Williams, Gomringer, por exemplo.

(...)

O que é que lhe desagrada mais nos outros países e o que é que lhe desagrada mais em Portugal?

O que mais me desagrada na Alemanha é que, quando chega a ocasião, são os grandes assassinos. O que mais me desagrada na Rússia é que, quando chega a ocasião, são os grandes assassinos. O que mais me desagrada em Portugal é que, quando chega a ocasião, são os grandes assassinos. O que mais me desagrada nos Estados Unidos da América é que a ocasião está agora a chegar praticamente todos os dias... E depois disto, o resto nem conta.

(...)

Portugal é um país de poetas?

Se a poesia é o sol dos dias e a lua das noites, então Portugal é um país de poetas. Agora se a poesia é uma comunicação que põe em causa a triste lógica da comunicação trivial, então Portugal não é um país de poetas, porque a maioria da poesia portuguesa é uma comunicação trivial. A lógica da comunicação desenvolve-se em três grandes áreas: uma ideológica, uma pragmática e uma estética. Nenhuma delas interessa à poesia, porque a última (a estética) é teórica e limita-se a fazer cânones e classificações, que têm valor histórico, mas não criativo; a comunicação pragmática inclui tudo, tudo o que há que acontece, mas, se não tiver transformação discursiva não passa de um fait-divers; e, sobretudo, a comunicação ideológica é impertinente porque desde há mais de dois mil anos que há filósofos a pensarem e políticos a obrarem para chegarmos ao ponto em que estamos. Das duas uma: ou a diferença entre ricos e pobres é estrutural ou nunca poderá ser eliminada. E, então, por que é que fingem todos o contrário? Ou, então, se pode ser eliminada, por que é que o não foi ainda?

(...)

Alberto Pimenta, em entrevista a António Pocinho, revista LER - Livros & Editores, Verão de 1999, n.º 46, Fundação Círculo de Leitores, pp. 50-57. 

terça-feira, 9 de junho de 2020

BICHON MALTÊS

Quitéria também acha que as manifestações contra o racismo em Londres, Berlim, Hamburgo e Marselha são uma vergonha nacional. Ao menos lá fora dá para gamar vestidos na Zara, por cá é só caniches a ladrar.

MORTE BOA É MORTE MORTA

Na pastelaria, faz escola o repúdio por mensagens de ódio. "Polícia bom é polícia morto?" E se o polícia for preto? "Comunista bom é comunista morto?" E se o comunista for polícia? "Fascista bom é fascista morto?" E se o fascista for cigano? Subitamente, o silêncio. Os presentes relançam olhares revirados, de esguelha, uns sobre os outros. Quitéria quebra o gelo da limonada: "Olha, olha, queres ver que agora são todos pró-vida."

segunda-feira, 8 de junho de 2020

PLEONASMO

Quitéria anda jactante, aprendeu uma palavra nova. Pleonasmo: oferecer um barrete à ministra da cultura.

CROCODILO LONTRA

De passeio pelo Douro, Quitéria gritou bem alto para que todos ouvissem: crocodilo bom é crocodilo morto. E mai' nada.

MANIFESTAÇÃO BOA É MANIFESTAÇÃO MORTA



Esta imagem tem sido muito partilhada a propósito das manifestações de ontem. Também eu a vou partilhar, mas por razões diferentes do que tenho constatado. Por onde a fui encontrando levantei algumas questões: Quem é este rapaz? Quem tirou a foto? Em que circunstâncias? Alguém na manifestação onde parece ter estado o indagou sobre a mensagem estúpida do cartaz? Quem pôs a foto a circular? Com que intenção? 

São perguntas legítimas e obrigatórias, creio, no mundo de contrainformação em que vivemos, um mundo onde supremacistas brancos se fazem passar por elementos do Antifa para provocarem distúrbios e desacreditarem reivindicações justas. Reparem bem na foto, reparem na pessoa que por detrás do braço do indivíduo fotografado olha, aparentemente, para quem está a tirar a fotografia. Tudo parece uma encenação. E pode não ser.

Em sendo, não causa espanto senão pela popularidade que atinge junto até de quem supomos inteligente o suficiente para a não divulgar sem as dúvidas acima transcritas.

Em não sendo, é um cartaz isolado entre inúmeros cujas mensagens legítimas, urgentes e inteligentes parecem não ter a mesma força que o inusitado da ignorância exibido neste slogan.

Eis o mundo em que vivemos: um cartaz estúpido sozinho pode destruir uma manifestação pertinente, tal como as imagens de um indivíduo a ser executado pela polícia podem mobilizar massas que se mantiveram silenciosas face a variadíssimos outros crimes e abusos semelhantes perpetrados entre quatro paredes. Perante este poder da imagem, é determinante que as nossas escolas insistam não só na interpretação de texto e na resolução de teoremas, mas adoptem nos currículos metodologias de interpretação... de uma imagem.

domingo, 7 de junho de 2020

EXERCÍCIO

Se ainda fosse professor de filosofia, um dos exercícios que iria propor aos meus alunos era o de imaginarem, por momentos, que George Floyd fora um péssimo marido, que batia violentamente na mulher, e um pai horrível, que abusava da filha de 15 anos. Depois perguntar-lhes-ia se o sentimento de compaixão que sentiam por ele no lugar de vítima se mantinha. E questionaria igualmente qual a avaliação que faziam da actuação do polícia, exemplar pai de família, ao tomarem conhecimento do passado tenebroso de Floyd. Felizmente, já não sou professor de filosofia.

A CULTURA NÃO É COSTURA


A afición também se manifesta, fazendo uso de vídeos ternurentos sob o lema "a cultura não se censura". Não discuto a questão tauromáquica, até porque não me apetece nada perder tempo com as opiniões polémicas que tenho sobre o tema. Ainda assim, gostaria de chamar a vossa atenção para o lema "a cultura não se censura". É muito interessante, pois leva-me a repensar a mutilação genital e o canibalismo, o consumo de animais exóticos e a caça às focas à mocada, o suplício do apedrejamento e outras, muitas, tantas e tão diversas práticas culturais. O conceito de cultura é deveras complexo, usá-lo para nos referirmos às touradas como o usamos para nos referir às belas artes é disso prova. A propósito, alguém sabe a que preço está um quilo de lombo de cavalo?

PRAIA

Sempre que alguém manifesta preocupação com a praia, Quitéria descansa as mentes desassossegadas: vem aí o Verão mais chuvoso de que há memória.

sábado, 6 de junho de 2020

FUTENOJO

O Benfica anda há anos metido em trapalhadas, dos vouchers aos e-mails, passando agora por acordos secretos com clubes rivais, é um rol de trafulhices por explicar. Não estranho o silêncio dos benfiquistas que tenho por gente boa, pois no futebol vale tudo o que é inadmissível na vida. Merecem os Ventura e Guerra de serviço, personagens asquerosas do comentário que nada tem de desportivo. Eu vomitei de asco com os acontecimentos na Academia do Sporting, corei de vergonha com as imbecilidades do Bruno de Carvalho, que depois de tudo o que fez e disse ainda tem admiradores. Estúpidos. Não dou nem mais um cêntimo ao futebol, que já nada tem que ver com desporto. É só um ramo de negociatas para babosos como o Pinto da Costa e o Luís Filipe Vieira, apoiados por burgessos que apedrejam as próprias equipas. Os moralistas de serviço apontam o dedo aos que no meio de motins se convertem em saqueadores, mas eu tenho bem vivas as imagens de adeptos do Benfica a saquearem um armazém do Vitória de Guimarães. E uma criança a mijar-se pelas pernas abaixo enquanto pai e avô levavam bastonadas de um energúmeno fardado. O futebol transformou-se nesta arena onde todos os atropelos são consentidos e as virgens ofendidas podem prostituir-se conservando a virgindade. Cambada de hipócritas.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

ADORAR A BESTA

O mundo é uma albacara liderada por animais repugnantes. Falamos de Donald Trump e de Jair Bolsonaro pela boçalidade e pela bizarria mediáticos, mas podemos juntar na vacaria gente sinistra como Kim Jong-un e Rodrigo Duterte, o guatemalteco Alejandro Giammattei e o nicaraguense Daniel Ortega, o czar Vladimir Putin ou o imperador Xi Jinping, Erdoğan na Turquia, Orbán na Hungria, vários ditadores africanos, teocratas árabes, Benjamin Netanyahu. A dúvida sobre como adere o povo aos discursos desta gente, eivados de ódio e de desprezo pela diferença, arrastando tantas vezes as populações a que se dirigem para conflitos sangrentos, é um mistério que nunca hei-de entender. Tendo por certa a morte, por que não se limitam a deixar viver? Por que confiam os seus destinos e adoram estas bestas que, chegadas ao poder, exibem uma insultuosa vida faustosa enquanto o povo se esgatanha para ter pão na mesa?

quinta-feira, 4 de junho de 2020

MANUEL CINTRA (1956-2020)




Sobre Alçapão (& etc., Maio de 2009): aqui. Sobre Não Sei Nunca por Onde (Quasi Edições, Abril de 2004): aqui. Um poema de Do Lado de Dentro: aqui. E agora outro:

Inépcia. Asneira. Incongruência. O canto, três ângulos rectos.

Meninas em quartos de banho de rádio aceso. Lágrimas camufladas em banheiras de água quente. Desgostos infantis, becos maternos. Meninas em rádios de banho em quarto aceso.

Outonos aflitos, inverno fora, de pantufas molhadas gritando em desvario: «Perdi um dia! Perdi um dia!», entretanto percorrendo dois.

O tempo escoa pela banheira da falta de tacto em sentido único. Andamento que será talvez só um excerto da sinfonia. Não sinto os membros da rua, corpo sem ossos. Caem-lhe calças aos tornozelos, ridícula, coxa, desaprendeu a andar.

Queria eu acordar, mas não tenho sono. De braços abertos à utopia. Hipotético ingénuo. De umbigo ao léu.

Sentir-me longo, desejar extensões, e desembocar entre três ângulos rectos de vidro pronto a quebrar. Conter, conter.

Corrida. Não suporto esta pequena lentidão. Os mais olhos que barriga como fogo por arder. Perdi a receita. Crença nas metamorfoses, após anos a fio a observar girinos brotar para rãs. (a rã não é uma beleza, mas melhor que nada. É verde.)

Sorva-se uma raiz, plante-se nesta clareira.
Esta clareira. Esta clareira. Eu acredito nesta clareira.

Manuel Cintra, in Do Lado de Dentro, Editoria Presença, colecção forma, n.º 13, 1981, pp. 27-28.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

UMA CANTIGA DE AMIGO



DÉCIMA TERCEIRA CANTIGA DE AMIGO

A minha amiga em migalha
um dia se transformou.
Procurei-a onde não estava:
uma cigarra cantava,
uma formiga a levou.

Logo outra amiga tomei
que o todo o pão esmigalhava
fosse o pão para os pedintes
fosse pão branco de rei 
— todo o miolo migava
e toda a côdea também.

Da minha amiga antiga
cada migalha é presença
e todo o pão ela pensa
à massa de mim me obriga.

Mastigando a vou seguindo
até que um dia consiga
sair do estreito carreiro
entre a cama e o celeiro
escolhendo um labirinto
à escala de uma formiga.

E como um dia lhe disse
serei o que não serei
e quem fui serei também
ao invés de uma velhice
ao invés da mocidade
porque esse amor que farei
terá no pão seu vulcão
seu sabor e qualidade.

Regina Guimarães, in Cantigas de Amigo/Lady Boom - as rainhas, Hélastre, 2009, pp. 17-18.

PROPOSTA

Quitéria propõe quarentena em dias de chuva, desconfinamento em dias de sol.

UM TEXTO DE MARIA VELHO DA COSTA



EM HONRA E LÁSTIMA DE PEDRO E PAULO, PASOLINI

   Esses dois olhos, que de tão manso e pacientes, sem gravidade alguma para o que do sexo ou morte é irrelevante, bem faziam para cumprir pertença do terceiro — abrir-se para obrar ou receber. Tudo por aqui como anjo de asas bem podadas. Príncipes senhores viscondes sempre lamberam o belo como se ele fosse de per si, ou o horrendo. Tu passavas a vista pelo rude ou esplendor e era todo um teorema da pouquidão das pequenas rugas, estertores, milagres mesmos, ruídos e odores com som do corpo. Suas suavidades e amores sós ao olho inadmissível, vendo. Mexeste em tudo o que sagrámos com uma só virtude — as mãos com barro e unhas de cavar. Mesmo o furar dos olhos e da mãe te era amena matéria. Tinham de fazer ao menos o fim grandiloquente, feito diverso, trágico legível, porque isto está tudo ainda muito ao seu princípio. Tinhas não saber o que fazias.
   Pudera eu o grande plano disso, punha-te um sorriso sem cupidez ou malícia alguma debaixo da cabeça esmagada pela necessária violência, a tua, a grosseira e finíssima inocência que há-de virar montanhas, pequenezes, a ardente câmara lenta.

Maria Velho da Costa, in Experiência de Liberdade - Antologia de textos publicados no suplemento «Artes e Letras» do Diário de Notícias de Maio a Novembro de 1975, com introdução e organização de E. M. de Melo e Castro, Diabril, Maio de 1976, p. 303.

CHRISTO (1935-2020)




Christo Vladimirov Javacheff nasceu na Bulgária, em Gabrovo. Estudou na Fine Arts Academy, em Sófia, entre 1953 e 1956, e na Akademie der Bildenden Künste, em Viena, no ano de 1957. Mudou-se para Paris no ano seguinte, onde conheceu Jeanne-Claude de Guillebon (1935-2009). Em 1960 tiveram um filho e casaram, começando então a desenvolver um profundo trabalho artístico em colaboração. Mudaram-se para Nova Iorque em 1964. Um dos mais relevantes projectos esculturais que realizaram foi o Wrapped Reichstag, em Berlim, 1971-1995.