terça-feira, 30 de junho de 2020
E EU IGUAL
segunda-feira, 29 de junho de 2020
domingo, 28 de junho de 2020
TIPO OS PALHAÇOS
sábado, 27 de junho de 2020
ESCUMALHA
sexta-feira, 26 de junho de 2020
ESPAÇO CHEGA PARA LÁ
quinta-feira, 25 de junho de 2020
PORTUGAL NÃO É RACISTA
Está prestes a realizar-se uma manifestação subordinada ao tema ilustrado pelo título desta prosa. É difícil discordar de premissa tão axiomática. De facto, como pode ser racista um país? Em si mesmo, um país não é racista a não ser que na sua Constituição existam artigos discriminatórios de etnias. O racismo, de resto, surge de um erro de análise que já devia ter sido ultrapassado mas ainda não foi: o de que existem raças entre seres humanos. Tem sentido falar de etnias, não faz sentido algum falar de racismo. Entre os bichos há raças, entre os homens só há bestas. Devíamos ficar por aqui. No entanto, o instinto das bestas determina a que não fiquemos por aqui.
Se Portugal não é racista, e a nossa Constituição leva a crer que o não seja, há portugueses que o são. Alguns até pretendem mudar a Constituição da República, são exactamente os mesmos que propõem confinamentos especiais para determinadas etnias. Isto é um bocado racista. Mas se não devemos reduzir Portugal à existência desta gente, também não podemos ficar serenos com a forma como buscam desagravar o que os próprios agravam. É que entre as bestas que se preparam para nos lembrar de que Portugal não é racista existem delas que até já foram condenadas por actos racistas ou aguardam julgamento sob acusação de racismo.
Pois que Portugal não é racista, não como declaradamente o era a África do Sul do apartheid, mas, infelizmente, há racismo em Portugal. Há racismo em todo o lado, é por isso que convém combatê-lo. Deixem-me dar-vos um exemplo prático, claro, objectivo e esclarecedor de racismo à portuguesa:
Este comentário foi-me dirigido há dias, após um desmentido oficial relacionado com o acesso ao Rendimento Social de Inserção por parte de pessoas de etnia cigana. Repare-se na confissão: «não confio em ciganos, não os queria ter como vizinhos nem que frequentassem a escola do meu filho». A conclusão é objectiva: «Sou racista, para qualquer um que não saiba viver em sociedade, seja branco, preto ou às riscas…» Pobres zebras. Temos aqui, portanto, uma cidadã porventura exemplar de um país que não é racista, mas onde incontestavelmente existe racismo. Não só existe, como surge declarado sem qualquer tipo de pudor por essas redes fora.
Não vou perder tempo a contrapor os preconceitos e os estereótipos de quem assim fala, embora julgue fazer falta a esta senhora alguma criatividade. Quero só reforçar que os dados por mim apresentados a que o interlocutor se refere incluíam campos de concentração, gulags, bombas atómicas, realidades históricas que, para a pessoa em causa, «são insignificantes comparando com os atropelos cometidos pelos ciganos na sociedade». O que foi Auschwitz ao pé da Quinta da Fonte? Uma ninharia.
Com este exemplo, pretendia eu provar que Portugal não é racista… à condição, dado ser factual a existência de racistas em Portugal. A gravidade não está apenas em existir gente que pensa assim, está também nas acções concretizadas. Desde há alguns anos que vêm sendo cada vez mais frequentes as notícias sobre actividades dos movimentos neonazis portugueses, especialmente violentos na manifestação do racismo que os move. A Europol avisa, o SIS avisa, mas, para certa gente, o que é relevante é descer a avenida gritando que Portugal não é racista. Recentemente, o Ministério Público acusou 27 pessoas «de discriminação racial, ofensa à integridade física qualificada, tentativa de homicídio e tráfico de armas», gente que pertencia a um grupo que exaltava a superioridade da “raça branca”. Perseguem, insultam, agridem, matam. Serão racistas ou simplesmente não gostarão de pretos e de ciganos?
A medrança destes
movimentos deve ser uma preocupação, o alerta acerca da sua existência está
lançado, a necessidade de combater aquilo que defendem é uma obrigação cívica
de todos quantos não se revejam num país com cidadãos de primeira, de segunda e
de terceira. Mais preocupante se torna notar como este tipo de pensamento tem
vindo a infiltrar-se no interior de forças nas quais depositamos a confiança da
nossa protecção e segurança. Neste sentido, passo a partilhar um post de
um militar que, na sua página de Facebook, diz não ser de esquerda, nem de
direita nem de centro, mas do que vem de dentro. O que vem de dentro pode ser muita coisa, sangue, cocó, chichi. E pode ser nada, se o dentro estiver vazio. É quando se torna mais perigoso. A declaração de não pertença “ao rebanho” é,
de resto, muito comum entre o rebanho de populistas que faz da oposição ao
sistema (qual?) uma bandeira de agremiação. Cliquem na imagem para ver melhor:
A postura intimidatória do militar seminu não me incomoda particularmente, mas não posso dizer o mesmo do discurso que acompanha a selfie e das declarações de amor manifestadas com likes e comentários diversos. Este camarada dirige-se com texto copiado (de quem? de onde?) a um grupo concreto que nem sequer tem especial relevância por terras lusas, os “meninos antifas”. Parte do princípio peregrino de que o vandalismo exercido sobre os símbolos e monumentos da Nação (maiúsculas do autor do texto) tem origem unívoca e unilateral, certos indivíduos que se servem de tais gestos para combater a disseminação do fascismo no mundo. Ora, o que não falta por aí são exemplos de atentados contra símbolos e monumentos públicos perpetrados por gente aparentemente ligada à extrema-direita ou claques de futebol. A pichagem não é um exclusivo de ninguém em particular.
Deverão o aviso ameaçador e a mensagem agremiadora final ser objecto de alguma denúncia no Ministério Público, tal como foi um cartaz recentemente empunhado durante uma manifestação anti-racista? Por que é que os latidos do caniche na manifestação anti-racista não incomodam tanto quanto as ameaças deste cão de fila nas redes sociais? Há uma razão para que assim seja, Portugal não é racista… à condição. Se for um “antifa” a pichar, prepare-se para ter à perna “o exército português”. Se for um skinhead, não sabemos, talvez acabe como convidado da Tânia Ribas de Oliveira ou do Manuel Luís Goucha num programa da manhã.
A polarização está ao rubro, o crescimento que se avizinha do desemprego e da miséria vão tornar ainda mais aliciante o discurso exacerbador dos bodes expiatórios. Eu já não penso que a tempestade esteja perfeita, neste momento estou convencido de que chegámos ao olho do furacão.
quarta-feira, 24 de junho de 2020
CÓDIGO DE BARRAS
Há imagens que ocupam um lugar dentro de nós e não querem de lá sair, exigem que façamos alguma coisa com elas. São como aquelas almas perdidas nos filmes de terror, vagueiam pela cidade até darem com a porta para o lado redentor, o lado onde se perdem e esfumam e desaparecem para sempre. Preciso fazer qualquer coisa com esta imagem. Ela instalou-se dentro de mim e não quer sair, colou-se ao cérebro tais lapas num penhasco. Talvez seja do verde que pintalga o fundo sem quebrar a hegemonia de tons neutros e a geometria do lugar. O cenário formal, aristocrático, entra-nos pelos olhos e fixa-se na mente. Há qualquer coisa de asséptico em todo aquele mármore, uma rigidez insípida, tristonha, anódina, sobre a qual sobressaem um, dois, três, quatro, cinco traços verticais, dispostos numa sequência onde é nítida a perda de vigor, de um azulão mais escuro para um cinza claro, esmaecido, fundindo-se com os tons chãos do palco. Lidos da esquerda para a direita, são como aquelas sequências de tons em catálogos de alcatifas. Mas a verticalidade do tracejado lembra outra coisa, talvez um código de barras. Ali está o código de barras da nação, em pleno Palácio Nacional de Belém, rigorosamente arrumado como que numa parada militar: o presidente da capital, o presidente da assembleia da república, o presidente da república, o primeiro-ministro da república, o presidente da federação da república. O que estarão ali a fazer? Terá o país entrado em guerra? Descobrimos uma cura para o cancro? O que fazem ali aqueles cinco homens, de fato e gravata, responsáveis pelos mais elevados cargos da nação? Pois bem, todo aquele rigor serviu para anunciar meia dúzia de jogos de bola. Não sei se esta imagem deve ficar para sempre gravada na nossa memória ou se a devemos tentar ultrapassar como a uma espécie de lapsus calami.
terça-feira, 23 de junho de 2020
segunda-feira, 22 de junho de 2020
FILIPA
Pressler morreu em Bruxelas, depois de
disparar um tiro na cabeça. A poesia que nos outorgou testemunha um
desassossego interior que oscila entre uma busca desesperada da beleza/amor e a renúncia a uma realidade sufocante e claustrofóbica, que era a do país
da ditadura e de todas as limitações à liberdade individual. Mais do que o
surrealismo, parece ser o simbolismo a sua principal fonte. Ao lermos estes
poemas vislumbramos ecos de um interesse pelo obscurantismo esotérico, pelos
princípios cabalísticos, pelos rituais egípcios da morte, com reflexos imagéticos
de uma cosmogonia singular: «do mesmo Ventre o rosto azul e as mãos / o corpo
alado o estranho pensamento / e o Bruxo
que dá corpo em suas mãos / à Figa que equilibra o firmamento» (p. 14).
Os poemas de “Filipa” são, desde a inicial
(iniciática?) carta a Almada Negreiros, um escape ao realismo, uma porta de
entrada para um universo íntimo onde a realidade quotidiana raramente chega, e,
quando chega, vem já de tal modo deformada que quase nem damos por ela. Há por
isso uma elevada acentuação emocional em alguns poemas, belos na forma e no
ritmo, muitas vezes comoventes até pela simplicidade que alcançam: «Obrigado
meu deus / por mais esta manhã / disposta puramente / no regaço da terra
adormecida // por mais esta manhã / te prometo, meu deus // quando eu morrer
irei falar de ti / ao mar / ao sol / às flores / a meus irmãos» (p. 18).
A natureza é um dos elementos convocados para configurar um belo hermético e inacessível, a não ser talvez pela
fusão que com ela a morte proporciona. Tema central nesta poesia, a morte
aparece como necessária ao amor, à paz. “Oferta”, extraordinário poema, di-lo
em letras garrafais: «O AMOR, A PAZ, SÓ SÃO POSSÍVEIS NELA.» (p. 20) O pendor
escatológico que percorre toda a obra, com referências recorrentes ao cuspo, ao
escarro, e à merda enquanto “Autógrafo” da existência (ver poema da página 64),
não pode ser dissociado desta complexa conexão estabelecida entre o absurdo da
morte e a possibilidade do amor: «um escarro de outro azul
aconteceu / ao canto de uma boca colossal // o tempo fez do escarro que nasceu / o corpo deste
absurdo universal // e quando a vida
bela despontava / liberta já
da trampa que a gerou / tornou-se humana // — náusea / angústia / raiva —
/ porque o Homem fez deus — e se matou» (p. 22).
Alguns poemas de “Filipa” são sínteses modelares dos mistérios da vida, equilibrando a complexidade
filosófica em que mergulham com uma agradável fluência rítmica e prosódica. Outros
parecem fragmentos, estilhaços de uma experiência íntima pautada pela fúria e
pela raiva com que pode alguém esmagar o desespero antes de por ele ser
esmagado. Belíssima edição da "neófita" Barco Bêbado, de que se fizeram apenas
300 exemplares. Deixo para exemplo um dos meus poemas preferidos do livro:
quero ser Eu e quero ser
Loucura e quero ser
Razão, sem distinguir e quero nu meu corpo
e nu vestir eu quero a nua
veste da ventura
e quero nua e triste a
sepultura e quero nela
entrar e, já, sair e quero ser sem Ser ao decidir
se quero ser chão ou ser
altura
e quero que mil olhos venham
ver-me e que mil mãos
anseiem por sentir-me e que
mil bocas sofram por
sorver-me e quero que mil
homens queiram ter-me
e em mil corpos de virgens
quero vir-me
para ver se consigo compreender-me
domingo, 21 de junho de 2020
MOTIVOS
Acerca de razões para o suicídio, Quitéria é da opinião que apenas os suicidas estão autorizados a opinar.
sábado, 20 de junho de 2020
TERCEIRA
sexta-feira, 19 de junho de 2020
UM HISTÓRIA DE ORLANDO NEVES
quinta-feira, 18 de junho de 2020
57 000
57 mil likes, milhares de comentários e de partilhas. Qual o motivo de graça? Uma rapariga com tiques estranhos. Síndrome de Tourette? Paralisia cerebral? Ninguém interroga. Milhares partilham, riem, gozam, fazem piadas. Estas estátuas também ninguém derruba.
quarta-feira, 17 de junho de 2020
FÁBRICAS DE BEBÉS
A pandemia tem levantado o véu sobre inúmeras realidades do mundo actual pouco conhecidas. Aqui temos a indústria de bebés na Ucrânia. Isso mesmo, indústria de bebés. Várias mulheres pobres, sobretudo de pequenas cidades e de zonas rurais, dão à luz por dinheiro. Os bebés são vendidos a clientes estrangeiros. E é isto.
terça-feira, 16 de junho de 2020
UM POEMA DE PAULO DA COSTA DOMINGOS
segunda-feira, 15 de junho de 2020
UM POEMA DE REGINA GUIMARÃES
sábado, 13 de junho de 2020
DO VANDALISMO
Umberto Eco terá dito que as redes sociais deram voz aos
imbecis, mas eu julgo que devemos ir um pouco mais longe. As redes sociais são
mesmo uma escola de imbecis. A vertigem da partilha e do like usurpa o foco,
rasura a concentração, trai o espírito crítico e apaga a curiosidade. É por
isso que se partilha tanta notícia antiga como se fosse actual ou se anunciam
repetidamente as mesmas mortes. O utilizador das redes fica pelo título, não
espreita a data, não lê o artigo. Mais do que estar interessado em se informar,
ele quer comentar, quer ter algo a dizer. As máquinas de comunicação dos
populistas servem-se disto de um modo altamente eficaz. Os títulos enunciam invariavelmente
juízos, fazendo uso de verbos ou de expressões assertivas: arrasar, dar cabo
de, levar ao tapete. Quem quer saber do resto? O que importa é ver o adversário
de rastos, por KO. Saber porquê ou em nome de quê dá trabalho, é fastidioso. Um
título do tipo "Estátua de Camões vandalizada" fará o seu percurso,
sendo cada vez menos aqueles que se colocarão face ao mesmo interrogando: em
que consistiu o acto vândalo? Pois bem, raminhos de flores em homenagem ao
poeta no dia que lhe é consagrado e... uma máscara descartável pendurada nas
orelhas. Nos tempos que correm, o gesto de pendurar a máscara nas orelhas de
Camões até podia ser interpretado como uma instalação artística, reivindicação
pelos que, tal como sucedeu ao poeta, estão a morrer de fome para que outros,
no futuro, encham a boca com as suas obras. Sem ler, sem ver, os comentários
sucedem-se no tom mais que esperado:
"Ha quem chame a isto ignorancia mas não e, sabem
bem o que fazem. E o chamado terrorismo psicológico, dividir para reinar. Os
filhos da putice estão por aí."
*
"Triste chegarmos a este ponto ser humano estraga e
faz coisa desta paciencia algum respeito pela nossa cultura deve der ou serem
castigados interesse général"
*
"Abram as discotecas e bares, para terem uma
ocupação, senão destroem o país"
*
"Façam monumentos aos parasitas e imbecis que
por aí andam a comer à conta de quem trabalha”
(…)
sexta-feira, 12 de junho de 2020
AGALMATOFILIA
A destruição de esculturas e de estátuas, a vandalização de monumentos, tem gerado muita indignação, quase tanta quanto a gerada por cidadãos vítimas de violência policial. Uma estátua viva vale mais do que um cidadão morto? Não tenho resposta para dar, mas indigna-me que não se gerem movimentos de simpatia pelos reaccionários que, em vez de destruírem estátuas, servem-se delas para satisfação sexual.
Em 2012, um austríaco foi preso na Bulgária depois de ser apanhado em flagrante a fazer sexo com uma estátua de um leão de bronze. Quem o defendeu? Em 2010, várias jovens simularam sexo oral com uma estátua grega numa festa organizada por Silvio Berlusconi. As famigeradas “bunga bunga” do ex-primeiro ministro italiano eram conhecidas por estes actos de vandalismo e pelo incitamento à prostituição de menores, que, independentemente da cor, origem e etnia, eram só jovens a profanar falos de estátuas gregas (um mal menor).
A agalmatofilia, de resto, é uma espécie de perversão sexual que vem nos manuais, mas ninguém lhe liga nenhuma. Consiste, como o próprio termo indica, num amor desmesurado a estátuas. Temo que ande muita gente a descobrir, por estes dias, o agalmatófilo que há dentro de si. Há relatos de actos sexuais com esculturas em templos hindus, de mulheres a satisfazerem-se com estátuas de dinossauros, de um homem que foi parar ao hospital com uma escultura no cu.
Basta pesquisarem no Google por “sexo estátuas” para que se deparem com estas e muitas outras manifestações de amor, mas disso ninguém fala. Nem disso nem do livro de poesia de Alexis Díaz-Pimienta, justamente intitulado “El deseo sexual de las estatuas”. Talvez estivesse na altura de o retirarem do mercado, se é que alguma vez chegou a estar.
quinta-feira, 11 de junho de 2020
O COCÓ DOS DIAS
A moda dos lives é a modos que death, pensa Quitéria de
que.
*
Entre a Terra ser redonda ou plana, Quitéria alinha na
teoria do losango invertido.
*
Quitéria propõe uma manifestação contra manifestantes.
*
Quitéria acha que isto de andar com a cara tapada está a
trazer o nosso gene mouro ao de cima. Não tarda, começamos a destruir estátuas.
*
Quitéria propõe que comecemos por destruir o Senhor.
Depois podem revoltar-se contra as estátuas, que estão quietas e não fazem mal
a ninguém. Agora o Senhor, esse anda a moer-nos o juízo desde a criação do
mundo.
*
Quitéria diz que razão têm os pombos, estão-se a cagar para as estátuas.
quarta-feira, 10 de junho de 2020
UM POEMA DE REGINA GUIMARÃES
DE UMA ENTREVISTA
terça-feira, 9 de junho de 2020
BICHON MALTÊS
Quitéria também acha que as manifestações contra o racismo em Londres, Berlim, Hamburgo e Marselha são uma vergonha nacional. Ao menos lá fora dá para gamar vestidos na Zara, por cá é só caniches a ladrar.
MORTE BOA É MORTE MORTA
Na pastelaria, faz escola o repúdio por mensagens de ódio. "Polícia bom é polícia morto?" E se o polícia for preto? "Comunista bom é comunista morto?" E se o comunista for polícia? "Fascista bom é fascista morto?" E se o fascista for cigano? Subitamente, o silêncio. Os presentes relançam olhares revirados, de esguelha, uns sobre os outros. Quitéria quebra o gelo da limonada: "Olha, olha, queres ver que agora são todos pró-vida."
segunda-feira, 8 de junho de 2020
PLEONASMO
Quitéria anda jactante, aprendeu uma palavra nova. Pleonasmo: oferecer um barrete à ministra da cultura.
CROCODILO LONTRA
De passeio pelo Douro, Quitéria gritou bem alto para que todos ouvissem: crocodilo bom é crocodilo morto. E mai' nada.
MANIFESTAÇÃO BOA É MANIFESTAÇÃO MORTA
Esta imagem tem sido muito partilhada a propósito das manifestações de ontem. Também eu a vou partilhar, mas por razões diferentes do que tenho constatado. Por onde a fui encontrando levantei algumas questões: Quem é este rapaz? Quem tirou a foto? Em que circunstâncias? Alguém na manifestação onde parece ter estado o indagou sobre a mensagem estúpida do cartaz? Quem pôs a foto a circular? Com que intenção?
São perguntas legítimas e obrigatórias, creio, no mundo de contrainformação em que vivemos, um mundo onde supremacistas brancos se fazem passar por elementos do Antifa para provocarem distúrbios e desacreditarem reivindicações justas. Reparem bem na foto, reparem na pessoa que por detrás do braço do indivíduo fotografado olha, aparentemente, para quem está a tirar a fotografia. Tudo parece uma encenação. E pode não ser.
Em sendo, não causa espanto senão pela popularidade que atinge junto até de quem supomos inteligente o suficiente para a não divulgar sem as dúvidas acima transcritas.
Em não sendo, é um cartaz isolado entre inúmeros cujas mensagens legítimas, urgentes e inteligentes parecem não ter a mesma força que o inusitado da ignorância exibido neste slogan.
Eis o mundo em que vivemos: um cartaz estúpido sozinho pode destruir uma manifestação pertinente, tal como as imagens de um indivíduo a ser executado pela polícia podem mobilizar massas que se mantiveram silenciosas face a variadíssimos outros crimes e abusos semelhantes perpetrados entre quatro paredes. Perante este poder da imagem, é determinante que as nossas escolas insistam não só na interpretação de texto e na resolução de teoremas, mas adoptem nos currículos metodologias de interpretação... de uma imagem.
domingo, 7 de junho de 2020
EXERCÍCIO
Se ainda fosse professor de filosofia, um dos exercícios que iria propor aos meus alunos era o de imaginarem, por momentos, que George Floyd fora um péssimo marido, que batia violentamente na mulher, e um pai horrível, que abusava da filha de 15 anos. Depois perguntar-lhes-ia se o sentimento de compaixão que sentiam por ele no lugar de vítima se mantinha. E questionaria igualmente qual a avaliação que faziam da actuação do polícia, exemplar pai de família, ao tomarem conhecimento do passado tenebroso de Floyd. Felizmente, já não sou professor de filosofia.
A CULTURA NÃO É COSTURA
A afición também se manifesta, fazendo uso de vídeos ternurentos sob o lema "a cultura não se censura". Não discuto a questão tauromáquica, até porque não me apetece nada perder tempo com as opiniões polémicas que tenho sobre o tema. Ainda assim, gostaria de chamar a vossa atenção para o lema "a cultura não se censura". É muito interessante, pois leva-me a repensar a mutilação genital e o canibalismo, o consumo de animais exóticos e a caça às focas à mocada, o suplício do apedrejamento e outras, muitas, tantas e tão diversas práticas culturais. O conceito de cultura é deveras complexo, usá-lo para nos referirmos às touradas como o usamos para nos referir às belas artes é disso prova. A propósito, alguém sabe a que preço está um quilo de lombo de cavalo?
PRAIA
Sempre que alguém manifesta preocupação com a praia, Quitéria descansa as mentes desassossegadas: vem aí o Verão mais chuvoso de que há memória.
sábado, 6 de junho de 2020
FUTENOJO
O Benfica anda há anos metido em trapalhadas, dos vouchers aos e-mails, passando agora por acordos secretos com clubes rivais, é um rol de trafulhices por explicar. Não estranho o silêncio dos benfiquistas que tenho por gente boa, pois no futebol vale tudo o que é inadmissível na vida. Merecem os Ventura e Guerra de serviço, personagens asquerosas do comentário que nada tem de desportivo. Eu vomitei de asco com os acontecimentos na Academia do Sporting, corei de vergonha com as imbecilidades do Bruno de Carvalho, que depois de tudo o que fez e disse ainda tem admiradores. Estúpidos. Não dou nem mais um cêntimo ao futebol, que já nada tem que ver com desporto. É só um ramo de negociatas para babosos como o Pinto da Costa e o Luís Filipe Vieira, apoiados por burgessos que apedrejam as próprias equipas. Os moralistas de serviço apontam o dedo aos que no meio de motins se convertem em saqueadores, mas eu tenho bem vivas as imagens de adeptos do Benfica a saquearem um armazém do Vitória de Guimarães. E uma criança a mijar-se pelas pernas abaixo enquanto pai e avô levavam bastonadas de um energúmeno fardado. O futebol transformou-se nesta arena onde todos os atropelos são consentidos e as virgens ofendidas podem prostituir-se conservando a virgindade. Cambada de hipócritas.
sexta-feira, 5 de junho de 2020
ADORAR A BESTA
O mundo é uma albacara liderada por animais repugnantes. Falamos de Donald Trump e de Jair Bolsonaro pela boçalidade e pela bizarria mediáticos, mas podemos juntar na vacaria gente sinistra como Kim Jong-un e Rodrigo Duterte, o guatemalteco Alejandro Giammattei e o nicaraguense Daniel Ortega, o czar Vladimir Putin ou o imperador Xi Jinping, Erdoğan na Turquia, Orbán na Hungria, vários ditadores africanos, teocratas árabes, Benjamin Netanyahu. A dúvida sobre como adere o povo aos discursos desta gente, eivados de ódio e de desprezo pela diferença, arrastando tantas vezes as populações a que se dirigem para conflitos sangrentos, é um mistério que nunca hei-de entender. Tendo por certa a morte, por que não se limitam a deixar viver? Por que confiam os seus destinos e adoram estas bestas que, chegadas ao poder, exibem uma insultuosa vida faustosa enquanto o povo se esgatanha para ter pão na mesa?



















