Quarta-feira, 31 de Março de 2010

SILÊNCIO


Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.


Trad. Luís Pignatelli.







Nascido na Cidade do México a 31 de Março de 1914, Octavio Paz foi para os EUA muito novo. Seu pai era secretário de Emiliano Zapata, assassinado a 10 de Abril de 1919. De regresso ao México, o poeta estudou direito e literatura. Na Universidade conheceu Elena Delfina Garro Navarro, uma jovem bela e de modos ousados para a época. Filha de um erudito que se interessava pelo hinduísmo, Elena era coreógrafa e bailarina. Casaram em 1937, quatro anos depois da publicação do primeiro livro de Octavio Paz: Luna Silvestre. Muito pouco tempo passado sobre o casório, partiram para Espanha convidados para um Congresso Internacional de Escritores e Intelectuais Antifascistas. Por terras de Espanha, conviveram com Nicolás Guillén, Luis Cernuda, Rafael Alberti, Ernest Hemingway, Pablo Neruda, Vicente Huidobro e César Vallejo, entre outros. Estes encontros terão sido importantes para consolidar ideias políticas e ambições artísticas. Novamente no México, o casal chegou a ser detido na sequência de discussões mantidas com espanhóis apoiantes de Francisco Franco. Entre 1943 e 1945, viajaram pelos Estados Unidos, seguindo-se a Europa, onde permaneceram até 1953. A carreira diplomática permitia ao poeta estar em contacto com múltiplas culturas. Deixou-se influenciar pelo surrealismo, chateou-se com o estalinismo, trabalhou como jornalista, fundou e editou várias revistas literárias, entre as quais se destacam Taller (1938-41) e El hijo pródigo. A vida de Octavio Paz era cada vez mais a de um poeta sobretudo interessado em questões intelectuais e nos problemas da literatura, não abandonando nunca, porém, as preocupações políticas. De resto, abandonou a carreira diplomática em 1968, quando era embaixador na Índia, como forma de protesto contra o massacre de estudantes mexicanos. Mas antes desses acontecimentos, houve o divórcio de Elena Navarro ocorrido em 1959, precisamente um ano após esta ter reunido a sua obra dramática. Também dramáticos foram os tempos que se seguiram. Preocupado com a filha de ambos, Paz procurou disfarçar com inquestionável apoio as obsessões de Elena: «Yo vivo contra él, estudié contra él, hablé contra él, tuve amantes contra él, escribí contra él y defendí a los indios contra él. Escribí de política contra él, en fin, todo, todo, todo lo que soy es contra él. En la vida no tienes más que un enemigo y con eso basta. Y mi enemigo es Paz». Em 1964, Paz conheceu e casou na Índia com Marie-José Tramini. A paranóia de Elena cresceu, todas as suas intervenções iam no sentido de atingir Paz e os seus amigos intelectuais, acusando-os de conspirações junto dos movimentos estudantis. A história não terminará bem para Elena e sua filha, ambas exiladas nos EUA, na Europa, retornando ao México apenas em 1993, estando Elena já muito debilitada, para viver numa casa miserável acompanhada de 37 gatos e muitos cigarros. Após a resignação, Octavio Paz viveu com Marie-José Tramini em Paris, foi professor em Cambridge, fundou e dirigiu a revista Plural, viu a sua obra ser premiada variadíssimas vezes, contando-se entre os galardões o Prémio Nobel da Literatura. Faleceu no dia 19 de Abril de 1998, deixando vários livros de poemas e ensaios.

SANTO SUBITO

Não gosto de rótulos e desprezo etiquetas, mas por vezes o sentido de orientação obriga-me a resvalar numa certa sinalética histórica. No mundo das poesias, poucos conceitos ou classificações me provocam mais desdém do que esse dos novíssimos. É um conceito vazio e palerma cuja sustentabilidade se deduz em oposição ao conceito de velhíssimos. Novíssimos, pois então, serão os poetas muito novos. Não necessariamente de idade, mas de livros publicados. Novíssimos serão aqueles que se aprontam para o baptismo pelo santo reconhecimento dos velhíssimos. Mais facilmente acreditaria na poesia se cada poema valesse por si só, sem idade e sem nome. Tope-se no caso Miguel-Manso. Duas colectâneas pagaram-lhe a portagem: Contra a Manhã Burra (Maio de 2008), Quando Escreve Descalça-se (Trama, Novembro de 2008). A crítica dita especializada, cozinheiros de ínfimos estrelatos e considerações baptismais, viu na sua poesia uma aragem renovadora do versejar que por terras lusas se vai praticando. Estranha descoberta, sobretudo para aqueles que, tendo em conta o desfile de prosas elogiosas distribuídas à la carte, estavam convencidos de que a poesia portuguesa não carecia de qualquer renovação.

Com tanto poeta de categoria, com tanta poesia de excelência, com tanto livro publicado para meia dúzia de leitores, o que veio então a voz de Miguel-Manso acrescentar ao enfatuado reinado da poesia nacional? Nada, digo eu. E ainda bem. Porque a única coisa que há nos “carimbos de Gent” é uma voz a fazer-se carimbar, sem parangonas, no gozo de uma escrita que tem sabido alhear-se da seriedade com que os fundamentalistas do poético falam destas coisas. De agora para trás, podíamos ir de Miguel-Manso a Nuno Moura, deste a Adília, desta a Assis Pacheco e por aí fora até O’Neill, um certo Cesariny, etc. & tal. Sem cintos de bombas atados aos versos, o que estes entre outros “celebráveis” poetas nos ofereceram/oferecem foi/é o teatro da vida sem o idealismo formal daqueles que pretendem fazer da sua voz a voz de todos nós. Sendo a poesia uma das mais vetustas formas de expressão, os seis conjuntos de textos agora coligidos por Miguel-Manso vêm relembrar o papel e o lugar do texto poético não só no mundo em que se inscreve, mas também na vida que o imprime. E a advertência não deixa margem para dúvidas: «se está a pensar, eventual leitor, acompanhar-me / mesmo que de modo fortuito, neste escusado exercício / saiba que nunca estive tão perdido como agora // duvide de tudo o que lhe parecer escorreito / não se deixe enganar sequer pela imprecisa / citação dos clássicos» (p. 105).

Em nenhum dos três livros até agora publicados por Miguel-Manso a poesia e a sua sacrossanta natureza se transforma tanto em tema como neste. Com uma ironia por vezes cáustica, os poemas deste livro jogam com a sua própria condição, recuperam o riso perdido na mórbida seriedade dos vates impregnados de importância. Torna-se isso evidente logo ao primeiro poema: «A poesia, tipo, / não precisa de, bom, / não é exactamente uma canção, uma praça ou um parque no Outono» (p. 13). Do que precisa a poesia, não sabemos nem estamos preocupados em saber. Somos levados a crer que estes textos de Miguel-Manso a que chamamos poemas precisam de referências, precisam de transformar em personagens nomes cujo peso histórico se perde na leveza dos versos, precisam de um olhar apaixonado que vislumbra na beleza das coisas concretas uma exigência de conservação que nenhum poema parece merecer, precisam de resgatar essa beleza, precisam de a trazer para dentro de si quase como de água precisa um homem, precisam de capturar dos lugares os seus ínfimos pormenores, precisam de ruas, de andar à deriva pelas ruas, precisam de um certo cheiro a hortelã nas manhãs húmidas da província, nas tardes quentes da cidade, precisam de uma grande e ingénua lição, precisam de si próprios porque nem disso precisam.

Não nos admiremos, pois, da diversidade de lugares que dão vida a estes poemas, das situações (de)formadas pelo olhar interveniente do poeta, não nos admiremos da música ligeira, a espaços improvisada, que embala as palavras numa dança imprevisível, mesmo quando certos remates nos soam fáceis e a toada aforística ameaça o verso. Pessoalmente, não concebo um livro de poesia de outra forma. Irritam-me as cabeças penteadas e não espero da poesia senão uma forte e irregular ventania. A bem dizer, estou-me nas tintas para a arrumação dos livros quando dentro deles há poemas cujo desalinho valer-me-á sempre mais que um qualquer arranjo formal com pretensões “crítico-literárias”. E neste livro há muitos desses poemas, dos quais o melhor de todos é, sem dúvida, um poema intitulado Na Morte da Avó. De um livro de poesia não posso esperar o mesmo que se espera da Constituição da República. Posso apenas esperar que insista «no escusado, mal pago, fantasioso / exercício da beleza» (p. 42). Se for isso que ele tem para me oferecer, e foi isso que Santo Subito me ofereceu, resta-me agradecer humildemente ao seu autor.

Escrito para o Rascunho.

NA MORTE DA AVÓ


não bastasse a humilhação pública de morrer
espera-se do corpo que cumpra com indiscutível
pompa o intolerável protocolo de ausentar-se

a penosa execução circular e nocturna do velório
a presença inconveniente dos agentes funerários
os adereços lutuosos a obscena maquilhagem

no dia seguinte, o inventário das orações, a concisa
cerimónia (não há muito a dizer, sejamos honestos
e soa até a insulto que se pronuncie o nome de

Lázaro) o caixão é fechado, o dia põe-se bonito
─ é quase tão imoral como alguém ter trazido uma
gravata com motivos facetos, uma camisa florida ─

depois, em casa, parece que as vozes ressoam como numa
sala a que tivessem subtraído os móveis e houvesse, por isso
a estranheza de uma extensão desprovida, dissemelhante

o avô vai buscar as memórias da infância (por que
razão obscura omite ele as lembranças de casado?) há
na sua voz qualquer coisa de paciente melancolia

como se aceitasse, com constrangedora submissão, que
o tempo não se detenha nunca, que os anos nos empurrem
para um buraco na terra, nos sujeitem a tão bruta descortesia

a prontidão da morte, a ligeireza do tempo, a estupidez
da vida que nunca vai encontrar cura e razão para ela própria
contra tudo isso eu alardeio o poema, antecipo a derrota



Miguel-Manso, in Santo Subito, edição do autor, Março de 2010, pp. 65-66.

SE JESUS TIVESSE FICADO CALADO

Estou absolutamente convencido de que 99% das metáforas que lemos não querem dizer absolutamente nada. Adornos de uma beleza estonteante, cumprem no texto o papel do broche na lapela. Cativam-nos os olhos, deixam-nos a pensar no que possa ali haver de sentido, mas depois esvaem-se num vazio insignificante. Se pedíssemos a quem as escreveu que no-las decifrasse, que pelo menos tentasse dizer-nos por outras palavras o que quis dizer com aquelas, obteríamos um enorme silêncio. É isso que vou fazer. Assim como assim, prefiro o silêncio às metáforas.

ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO



Pelas janelinhas da ternura digital, chegam-nos todos os dias elogios sem rosto. Estamos precavidos. Não têm rosto, mas pela sonsice a gente traça-lhes os contornos. Se à distância alimentam a excitação de um suposto reconhecimento, ao perto só os queremos ver pelas costas. Daí que nestas coisas de mimos trocados com o preservativo das redes, raramente a proximidade não se revele uma tremenda ilusão. Escrevo isto enquanto na SIC Radical transmitem um programa com gente a partilhar gases, a debater traques e a discutir flatulências. Vamos ser autênticos, lindos?

Terça-feira, 30 de Março de 2010

VOO PICADO



Tenho um espelho alto no corredor.
Pronto, lá me encaro eu uma vez mais
E o monstro que vejo em horas tais

Faz-me -─ está escrito ─ sempre igual pavor.
É um homem horroroso. Há que abatê-lo,
Esmagado com uma rija martelada.

Não passa de gordura encarquilhada.
Um estranho, é o que é. Eu penso, ai, ai!
Mais um cliché com espelhos que me sai.

É só vidro, vidro morto o que tenho diante ─
Mal penso assim, eis que um esqueleto hiante
Surge do espelho e salta-me ao pêlo.


Gerrit Komrij (n. 30 de Março de 1944), in Contrabando – uma antologia poética, trad. Fernando Venâncio, Assírio & Alvim, Setembro de 2005, p. 77.

3

Descartes estava errado: o calcanhar de Aquiles é a coisa do mundo mais bem distribuída. / Desde que lhe amputaram os braços, nunca mais teve dores de cotovelo. / Pela boca morre o peixe e o afogado.

SESSÃO DE AUTÓGRAFOS

Tive em tempos um trabalho que me colocou em contacto com todos os intervenientes na feitura de um livro. Sobre cada um deles fui formando as minhas opiniões. Os escritores são uns patetas que certo dia resolveram escrever em vez de se porem a trabalhar. Os editores só por manifesta falta de competência é que optaram por editar em vez de escrever. Os distribuidores são carniceiros. Os leitores, que na sua maioria não se distinguem de meros consumidores, são uma massa acéfala que procura nos sofrimentos literários apaziguamento para as suas próprias dores. Há ainda a malta das gráficas, os únicos que se safam. Afinal, não podemos esperar muito dos operários. Quanto aos críticos... esses não contam.

Certo dia, só para dar um exemplo, tive de travar conhecimento com a responsável pelo departamento editorial de uma das nossas grandes editoras. A meu convite, um amigo que tinha acabado de publicar um livro nessa editora veio fazer uma sessão de autógrafos aqui em Caldas da Rainha. A tipa do departamento editorial fez questão de o acompanhar. Fiquei rapidamente a perceber porquê. Ela pretendia verificar se os livros estavam expostos como a cabeça dela mandava, e quantos livros o meu amigo autografava, e quantos nós vendíamos, e se tínhamos outros livros da mesma editora ao lado, para ver se pegavam, como ela dizia, porque nisto dos livros uns empurram os outros e todos se empurram uns aos outros para uma espécie de abismo que lembra a parábola dos cegos de Brueghel, O Velho.

Antes da sessão, porém, fomos jantar. A mulher falava pelos cotovelos. Na verdade, falava tanto pelos cotovelos que já nem tinha cotovelos. Tinha apenas dores. Também falava pelos calcanhares e às tantas eu pensei que ela até chegasse mesmo a falar pela boca, mas daquela boca tudo o que saía era uma língua bicúspide a definhar de tão venenosa. Que conhecia este e aquele e aqueloutro, que o prémio não sei quê deveria ter sido atribuído a não sei quem, mas não fora porque não sei quem tinha sido editado por ela e no júri estava um indivíduo qualquer que ela em tempos não tinha editado e que agora pretendia vingar-se. E que X andava com Y só para obter favores de Z que, sendo amigo e tutor e guia espiritual e padrinho e sei lá mais o quê de Y faria tudo o que fosse possível para lhe agradar. Às tantas, senti-lhe o pé tocar na minha perna. Foi no preciso momento em que o meu amigo escritor se levantou para ir fumar um cigarro, tendo eu aproveitado a oportunidade para o acompanhar numa baforada de ar puro.

Quando regressámos, voltámos a mostra-nos muito atentos ao que a gaja tinha para dizer. Não era bonita, mas tinha um bom corpo e alguma elegância. Parecia uma daquelas tipas que passam metade do dia concentradas no corpo que adorariam ter. Produzem-se, vão ao ginásio, besuntam-se com cremes, frequentam massagistas, ficam histéricas a cada ruga que o tempo lhes imprime no rosto. E era uma gaja poderosa. Homens como eu tendem a olhar para essas gajas com um certo fascínio. Assim como os domadores de cavalos olham para uma égua selvagem. Aqui está uma que não consigo dominar minimamente, pensei. Mas fui-me mostrando atento, interessado, e até me desenrasquei sempre que me coube dizer alguma coisa. Por exemplo, quando dizia que sim, claro, absolutamente, de acordo, ah, pois, é isso, isso mesmo, mas… E sempre que um mas se intrometia eu já sabia que a conversa continuaria noutros cotovelos, noutros calcanhares, noutra boca.

Depois da sessão de autógrafos, ela perguntou-me se eu me importava de acompanhá-la até ao Hotel. Não sabia onde o Hotel ficava. Pela primeira vez, senti que podia guiá-la, tomá-la nas rédeas da minha orientação. Chegados ao Hotel, disse-me que não tinha sono. Como estava sozinha, não quereria eu fazer-lhe companhia no bar do Hotel? Assim foi. Ela bebeu dois uísques e continuou a falar. Eu bebi quatro conhaques e continuei a ouvi-la. No final, fiz questão de pagar a conta, não fosse ela pensar que eu só tinha bebido quatro conhaques à espera que ela pagasse. E quando me aprontava para abandonar o ringue, ela pediu-me que viesse até ao quarto. Tinha um livro que fazia questão de me oferecer. Era o último romance de um escrevinhador andrajoso que eu julgava reformado das escritas, para bem de todos em geral e da literatura em particular. Pelos vistos, não só acabara de publicar um livro novo como o publicara na editora da gaja com quem andava enrolado. Essa mesmo.

Com o livro já nas minhas mãos, ela pousou os braços nos meus ombros e perguntou-me se eu não queria ficar ali mais um bocado. Aí fez-se-me luz. Disse-lhe que tinha a mulher em casa e as filhas e que amanhã era dia de trabalho não dava para a próxima adeus quem sabe noutra oportunidade. Quando saí do Hotel, olhei em meu redor. Não avistando ninguém, deitei para o lixo o livro que ela me tinha oferecido. Cheguei a casa, enrosquei-me na minha mulher, passei-lhe as mãos pelas coxas, beijei-lhe as orelhas. Sentia-me um autêntico vulcão. Mas a minha mulher roncava que nem uma porca farta. Voltei-me para o lado e tentei adormecer de olhos abertos, a olhar o luar que entrava pelo quarto adentro.

No dia seguinte, quando cheguei ao trabalho, tinha uma notícia à minha espera. Não me iam renovar o contrato. Perguntei porquê. Só me disseram que precisavam de malta mais nova e enérgica, malta viril, na flor da idade. Comecei por me sentir estranho. Depois senti-me revoltado. Por fim, senti-me satisfeito. Mas ninguém me tira da cabeça que a gaja teve influência na decisão. Ninguém me tira da cabeça que ela me viu deitar para o lixo o livro do namoradinho.


Nota: com citações de Boris Vian e Sam Shepard.

SER NOTÍCIA

Ainda há-de chegar o dia em que um gajo qualquer do mundo do espectáculo se tornará notícia mundial por revelar a sua heterossexualidade.

IDENTIFICAR COMPETÊNCIAS

Os professores estão de férias. Notou-se ontem ao balcão, nota-se agora à janela. Ora aí está um breve diálogo com um elemento da classe:

− Vocês têm livros de cuchi?

Livreiro interroga-se sobre o que possa ser cuchi. Pensa que talvez se trate de uma arte marcial, de mais uma orientalice qualquer. Na dúvida, solicita ao stôr que soletre o termo:

− Cê, ó, cê, agá, i…
− Será coaching? Será isso que procura?
− Deve ser, é uma coisa que está muito na moda para motivação.
− Pois.

Segunda-feira, 29 de Março de 2010

I AM CALLING YOU


Por vezes, chove no deserto. Não uma chuva de areia, nem de granizo, não uma chuva molhada, mas uma chuva mais fria que o gelo, mais seca que a boca de um bêbado à hora de ressacar. Para essas ocasiões, um número de mágica: leitura distractiva num café silencioso. E porque continuam a cair baratas do céu, um mundo momentaneamente do avesso. Apenas momentaneamente, não vá provocar tonturas.

FIM DE SEMANA: RELATÓRIO & CONTAS

Talvez por delicadeza, quem sabe se por ingenuidade, por que não por ignorância, veio morder cautelosamente as capas dos livros. E da boca saltou-lhe para o ar a dúvida metódica, ainda com um pé dentro e outro fora, entalado entre os alarmes, aguardando a resposta que lhe serviria de senha para a grande aventura. Posso ver? – pergunta. E nós, ali enclausurados como escravos de um tempo manso, olhamos dos pés à cabeça quem pergunta, quem entra, quem sai. Por vezes, demoramos um pouco mais os olhos num decote ou numas pernas apertadas. Sentimos o calafrio da vaidade a desesperar-nos a inumana condição. Outras vezes, interrogamo-nos sobre a origem das cores que matizam as unhas, os lábios, a base dos olhos, cores que transformam mulheres adultas em ilustrações infantis, cores que transformam jovens adolescentes em pastilha elástica. Coincidem com as capas da literatura aberrante, ou berrante, como se vê, porque nos entra pelos olhos adentro como uma agulha a perfurar os tímpanos, como dedos enfiados nas órbitas, sacando a gelatina dos olhos para com ela cozinhar o guisado da indiferença. Posso ver? – pergunta. E nós respondemos que sim. Fôssemos terapêuticos, acautelaríamos a intenção. Veja, mas com cuidado. Proteja as vistas, não lhe vá a radiação das capas afectar a oftalmologia. Imaginamos avisos espalhados pelas paredes: a exposição constante à radiação literária pode provocar danos irreversíveis na perspectiva do mundo; proteja-se de uma exposição permanente ao raio da literatura, manchas na pele, conjuntivites, torcicolos de alma, são alguns dos efeitos secundários conhecidos. Portanto, veja, observe, atente-se, mas com cuidadinho, não lhe vá saltar do miolo uma fera de dentes aguçados. Cuidado com o cão da literatura. O cão da literatura morde. Quanto custa? Cada qual com seu preço, todos pelo preço de muita hora desperdiçada, de muita pasta inutilizada, de muito neurónio, de muita sinapse servida à razão de um cafezinho adocicado pelo pastel de nata. Ao redor, enquanto a dúvida perdura, crianças atoladas num choro compulsivo. São precocemente atingidas pela febre do consumo. Andam a esmo pelas salas do novo mundo, com os pais mais ou menos atentos, mais ou menos distraídos com as suas próprias montras, e elas choram, reciclam pela boca o ranho que expelem pelo nariz enquanto berram e reclamam e esperneiam mais um desejo, uma fome sem barriga, um querer ter, um desejar para si, uma vontade de possuir, de deter a marca cujo preço nem sequer se imagina, o preço cuja marca é o custado curvado da indigência moral. O trabalho liberta, hão-de um dia ouvir nas escolas que introduzem à escravatura consentida as alminhas perdidas e os anjinhos caídos deste maravilhoso novo mundo. Quanto custam? Cada qual com seu preço, caro senhor. Cada qual com seu dignificante código de barras. É preço de capa, é preço feio, espampanante, ridiculamente brilhante como a senhora que traz pela mão, absurdamente reivindicativo como a criança que traz pela sombra, pitorescamente patético como a adolescente que deixou à porta deste inferno consumindo nas suas costas os cigarros que você não quer saber porque não está para se chatear, porque afinal está de folga. Já lhe basta o patrão ao longo da semana. Agora, para cima e para baixo, empurrados pelas escadas rolantes, meticulosamente penteados, com os cabelos brancos disfarçados pela tintura de iodo, com as dores maquilhadas pelos figurinos da estação, com as vistas multiopticas do mercado universalista, eles e elas sobem aos céus, descem aos infernos, andam nisto como podiam andar noutra coisa qualquer, não só porque para isto são empurrados, mas porque querem, porque gostam e, mais espantoso, ainda pagam para tal.

Sábado, 27 de Março de 2010

DLIM-DLÃO

Dlim-dlão, dlim-dlão, tocou o sino da igreja. Benjamim, como que atraído pela flauta mágica, pousou na torre e mirou a paisagem. Filas intermináveis de criancinhas entravam na santa casa, uns cabisbaixos, outros esfuziantes. Dali saíam, lentamente, um a um. Os que haviam entrado cabisbaixos saíam contraídos, os que haviam entrado esfuziantes saíam cabisbaixos. Como se os primeiros já soubessem ao que iam e os segundos acabassem de ser baptizados. Entre eles, uma postura comum: perninhas abertas como se tivessem feito cocó nas cuecas, mãozinhas afagando o maltratado cu. Benjamim estranhou a postura uniforme, ficou curioso e resolveu penetrar na casa do Senhor pela chaminé. Deparou-se com um cenário que nem Dante se atreveu a descrever na selva escura do Inferno. Filas e mais filas e mais filas de criancinhas dirigindo-se para o altar. Ajoelhavam-se para a hóstia, que o padre de serviço se encarregava de administrar levantando a batina à altura da cintura. Corpo de Deus, dizia. E as criancinhas ficavam alguns minutos de joelhos a provar o corpo de Deus, centenas de criancinhas de olhos esbugalhados para o frade, que enquanto introduzia e retirava a hóstia da boca dos meninos proferia sermões salvíficos, misericordiosos, absolventes. Vinde a mim, ó criancinhas, berrava o frade, pecai em nome do Senhor e reconhecei vossos pecados, pois as passagens de Deus só se abrirão àqueles que o encontrarem no erro, àqueles que o vislumbrarem na sua própria maldade. Vinde a mim, ó criancinhas, provai as proteínas do corpo de Deus, bebei do alvo sangue que lhe corre nas veias, a eternidade aguarda-vos no reino de Deus, bebei deste líquido insípido e salgado vertido pela carne abençoada do altíssimo. E do altar, uma a uma, as criancinhas eram encaminhadas para o confessionário. Pelo caminho, lavavam a boca com água benta, algumas cuspiam para o chão, outras chegavam mesmo a vomitar, efeito que o servo de Deus classificava como sendo a expulsão do demónio dos corpos em estado de purificação. Seguia-se a expiação final, o exorcismo derradeiro, a expurgação do demo. E então, as criancinhas entravam dentro do confessionário e tudo o que lá dentro se passava ninguém podia ver, ficaria no segredo de Deus, entre aqueles que gritavam agudamente ai, ai, ai e os que gemiam gravemente oh, oh, oh e os que assobiavam para o lado, com as mãos encostadas junto ao peito e olhos inclinados para a piedade. Que liturgia tão estranha, pensava Benjamim, enquanto no seu bico se abria uma humaníssima boca de extrema estupefacção. Tudo ali se transformava. Até as figuras dos santos espalhadas pela igreja ganhavam vida. Da pedra surdiam lágrimas de sangue, alguns santos peidavam-se, outros arrotavam, outros choravam baba e ranho. Era como se naqueles santos de barro batesse o coração dos homens e das mulheres ali representados, era como se aquela pedra fosse mais mole que o sagrado e rijo corpo de Deus que as criancinhas haviam acabado de provar debaixo da batina do frade. Que estranha cerimónia, pensou Benjamim, batendo as asas dali para fora enquanto no altar o padre continuava a administrar o hirto e idolatrado corpo do Senhor.
Escrito para O Indesmentível.

O CICLO DAS ESTAÇÕES



Cansadas de se terem contraído todo o inverno as árvores de repente gabam-se de ser enganadas: soltam as suas palavras, uma onda, um vómito de verde. Tentam alcançar uma folheação completa de palavras. Tanto pior! As coisas arranjar-se-ão como puderem! E, na realidade, arranjam-se! Nenhuma liberdade na folheação... As árvores lançam, pelo menos é o que pensam, não importa que palavras, lançam caules para neles suspenderem mais palavras: os nossos troncos, pensam elas, aqui estão para tudo assumirem. Esforçam-se por se esconderem, por se confundirem umas nas outras. Julgam poder dizer tudo, cobrir inteiramente o mundo com palavras variadas: mas não dizem senão «as árvores». Incapazes até de reter os pássaros que delas voltam a partir, embora se alegrassem por terem produzido tão estranhas flores. Sempre a mesma folha, o mesmo modo de desdobramento, e o mesmo limite, sempre folhas simétricas umas às outras, simetricamente suspensas! Tenta mais uma folha! ─ A mesma! Mais outra! A mesma! Em suma, nada poderia pará-las senão de súbito esta observação: «Não se sai das árvores por meios de árvore». Um novo cansaço, e uma nova mudança moral. «Deixemos tudo isto amarelecer, e cair. Que venha o taciturno estado, o despojamento, o OUTONO.»


Francis Ponge (n. 27 de Março de 1899 — m. 6 de Agosto de 1988), in Alguns Poemas, trad. Manuel Gusmão, Cotovia, Fevereiro de 1996, p. 39.

CALLEMA N.º7


Dirigido por Hugo Milhanas Machado, o n.º7 da revista Callema (Novembro de 2009) tem como editores Nuno Silva, M. Tiago Paixão, Ilídio J. B. Vasco, Rui Alberto, Paulo Serra e Telemaquia. Colaboram Ana Isabel Rodrigues Jerónimo, Afonso Cortez-Pinto, Paulo Serra, José Manuel Martins, Alberto Pereira, Marta Elias, David de Medeiros Leite, Philip Jenkins, Bruno M. Santos, Luís Filipe Cristóvão, David Portales Moralejo, João Pereira de Matos, Amadeu Baptista, Miguel Fernandes Ceia, Nuno Duarte Ramalho, Sónia Brochado, Henrique Manuel Bento Fialho e Catarina Costa. Num número dedicado ao cineasta Fernando Lopes, o meu texto cresce a partir do filme Belarmino. Começa assim:


UMA BOLA-DE-BERLIM E UM COPO DE LEITE


«É realmente uma desgraça ter nascido em Portugal. Sentimo-lo quando nos nasce um filho. Parte para a vida em desvantagem» (Ruy Belo). Aqui tudo é ínfimo e efémero. Aqui, logo que nasce, tudo nasce com ferrugem. Tu és o meio de nada, eu sou o nada do meio. Aqui não importa, não interessa. Aqui o esquecimento marcha e pronto. Somos o esquecimento a marchar, em solene parada, pelas auto-estradas da (des)informação. Aqui o que importa só importa a quem importa. A quem não importa, bate-se com a porta. «Belarmino podia ter sido grande», sentencia o ex-manager. «Se tivesse nascido noutro país?» ─ indaga o entrevistador. Mas naquele tempo, como hoje, as medidas de grandeza neste país eram relativas. Elas estavam relacionadas com a capacidade de resistência dos combatentes, não se reduziam ao star system, que torna universais vedetas quase sempre temporárias. Porque depois o tempo encarrega-se de as rasurar da memória colectiva. Neste sentido, Belarmino Fragoso podia simbolizar qualquer um dos resistentes ─ um boxeur nesse combate contínuo que é a vida dos espíritos vadios ─, dos guerreiros, dos batalhadores. Ele podia significar, inclusive, um cinema em estado de resistência ao fundo convencional, moralista e censório das academias instaladas. Não serão por acaso aquelas cenas de rua, o plano do porteiro, Belarmino a passear junto às salas da época, lembrando que o boxe começou quando ele quis arranjar dinheiro para ir ao cinema. Passados todos estes anos, como dialogar aqui e agora com Belarmino (1964), o filme de Fernando Lopes?

(…)

MORDAM-SE DE INVEJA :-)

Donde el error no existe


No llegues tarde a mi hora. Si puedo darme al desplante de haber llegado tardíamente a mi tiempo, no puedo consentir que los demás lleguen tarde a mi hora. Sería desesperante esperar más de lo que me es permitido esperar. Y solamente me es permitido esperar lo suficiente para que toda la esperanza deje de tener sentido cualquiera. Como en el jazz tocando en las caves de Paris, hay muchos caminos en la encrucijada de las falsas esperanzas. Por eso no llegues tarde. La vida me ha ofrecido algunos sinsabores. Nada comparable a la ligereza con que ciertas mujeres balancean las caderas en el interior de las tiendas donde buscan el confort de los días, nada comparable a la lluvia pequeñísima que cayó en la noche para ahora estar escurriéndose en los vidrios como una especie de nostalgia que nos escurre en la piel. En fin, ninguno de los sinsabores que la vida me ofreció se compara a la insoportable superficialidad con la que algunas almas miran sus propios cuerpos. Y yo me zambullo en el agujero solitario de esta pobreza y pienso que la felicidad es un derecho a la alegría, pienso que todo ser humano tiene, anda a saber, el derecho a la alegría, y que si esa alegría puede ser encontrada en cosas tan banales como el color correcto para las sillas de casa, el tono más adecuado a una piel trigueña, entonces, ¿por qué diablos he de espantarme con ese derecho a censurarme por no ser así? Sabes lo que me hace falta, esas noches en las que pasaba el tiempo escuchando Sam Prekop mientras la botella de vino tinto desaparecía lentamente adentro de un cuerpo que ya nació cansado. Tú sabes la falta que me hace el silencio de las páginas de los libros, aún cuando imprimen en el ritmo de la lectura un ruido estático, una especie de accidente sin causa, un barullo que no puede ser escuchado porque está adentro de nosotros, nadie puede compartirlo con nosotros, no lo podemos distribuir por el mundo como quien distribuye pisadas en la arena. Lejos están los días en los que podía darme el lujo de estar todo el tiempo maquinando con los dedos sobre la superficie de un cuerpo, en los que podía golpear levemente con las manos en las nalgas y hacer de ese gesto el momento alto de una musicalidad que se fue. Lejos están los tiempos en que tus ojos me transmitían la musicalidad de los espanta-espíritus. Réstanos ahora recuperar la memoria de los días y de las noches en que pedíamos para que nadie se fuera con una convicción que traía al pedido un deseo incuestionable, porque ahora no pedimos a nadie que no se vaya, simplemente mostramos aquel espanto hipócrita que se muestra a alguien que se va, simplemente preguntamos ¿ya? Como si ¿ya? no quisiera decir finalemente solos. ¿Qué cambió? Los violines aún lloran, los ritmos brasileros no fueron revocados, el jazz se mantiene como un impulso que llora de risa por no tener por qué llorar. Pero parece haber una penumbra sobre los rostros y parece que de la penumbra los rostros surdan todos deformados, como si fuesen fantasmas, como si ya nada fuese orgánico, palpable, concreto, como si fuésemos meras conjugaciones de números, códigos que simulan presencias, imágenes cifradas. Tú sabes lo que me hace falta. No hubiese sido forzado a este escandaloso estado de muerte, donde los juegos son ejecutados con adversarios sin rostro, no me hubiese quedado del lado equivocado del tiempo incierto, no hubiese mi existencia sido transformada en cualquier forma de entretenimiento mal pago, y yo no estaría aquí deshaciéndome en palabras inútiles. Tú sabes de lo que siento falta. Siento falta de la música donde embarcaba para puerto incierto, siento falta de una cierta oscuridad que escapa a estos velos cibernéticos bajo los cuales disimulamos la vida, siento falta de la práctica que no me llevaría a bajar el rostro al galanteo de la chica brasilera que me sirvió hoy el café, siento falta de aquella seguridad con que tomábamos la guitarra abandonando las cuerdas al sonido del viento y luego escupíamos hacia el costado el fusilamiento de las horas, las notas al lado, los acordes fallados, porque todo era tan espontáneo, todo era tan improvisado, todo era sin cualquier tipo de escena armada, todo era tan sin ensayos que hasta el error parecía cierto y la falla no nos obligaba a recoger los ojos en el fondo del vacío.

Sexta-feira, 26 de Março de 2010

SAPATOS

Há sempre uns sapatos mais caros do que aqueles que podemos pagar. Contudo, estamos sempre a falar de sapatos. Com o tempo, as solas ficarão gastas, rotas. Com o tempo, os sapatos cheirarão a chulé.

O LAMENTO DE ZIZI


Estou apaixonado pela doença do riso
far-me-ia muito bem se a tivesse –
usei as esplêndidas cabaias do Sudão,
pus os magnificentes halivas de Boudodin Bros.,
beijei as Fátimas cantantes do chulo de Adém,
escrevi gloriosos salmos no café Hakhaliba,
mas nunca tive a doença do riso,
então para que sirvo eu?




O comerciante gordo oferece-me ópio, kief, haxixe,
até suco de camelo,
tudo é insatisfatório –
Oh noite amarga e terrível! tu de novo! Terei ainda
que tirar os meus dentes irreais
despir o meu irrisível eu
pôr a dormir esta cabeça melancólica?
Não sou nada sem a doença do riso.




O meu pai apanhou-a, o meu avô também;
certamente o Tio Fez há-de apanhá-la, mas eu, eu
a quem faria tão bem,
apanhá-la-ei alguma vez?


Tradução de Manuel de Seabra.



Filho de emigrantes italianos nos EUA, Nunzio Corso, verdadeiro nome do poeta Gregory Corso, nasceu a 26 de Março de 1930 no St. Vincent’s hospital, também conhecido por hospital dos poetas após Dylan Thomas aí ter falecido. Abandonado pela mãe com apenas um mês de vida, ficou aos cuidados do pai, Gary Corso, até este o ter atirado para casas de acolhimento e orfanatos. Só voltou a lembrar-se do filho para evitar o destacamento militar durante a Segunda Grande Guerra. Até lá, a criança foi educada por instituições cristãs. Depois, foi criado nas ruas. Dormia no Metro, nos sótãos dos prédios de Little Italy, enquanto continuava a frequentar a escola católica e trabalhava como moço de recados dos comerciantes locais. Aos 13 anos, roubou uma torradeira para poder ir ao cinema. Acabou detido ao lado de criminosos que, definitivamente, não estavam encarcerados por terem roubado torradeiras. Foi a primeira de várias experiências prisionais, que o levaram a ser internado no Bellevue Hospital Center e o colocaram em contacto com os mafiosos italianos que pululavam nas prisões norte-americanas. Aproveitou a experiência prisional para começar a ler livros e a escrever poesia, estudou os clássicos gregos e romanos, devorou enciclopédias, dicionários, todo o tipo de livros. Em 1949, saiu da prisão. Trabalhava para a Mafia de dia e escrevia poemas à noite. Conheceu Allen Ginsberg num bar gay, o Pony Stable Bar e ficaram, como dizê-lo, amigos para sempre. Ginsberg apresentou-o à restante rapaziada. Em 1952, estava a trabalhar para o Los Angeles Examiner. Também trabalhou como marinheiro mercante e frequentou esporadicamente a Harvard University, onde alguns amigos terão contribuído para a publicação do seu primeiro livro de poemas: The Vestal Lady and Other Poems (1955). Pouco tempo depois, encontramo-lo novamente na companhia Ginsberg and friends. Acompanhou Ginsberg e Orlovsky numa visita a Burroughs, que vivia então em Marrocos. No n.º 9 da Rue Gît-le-Cœur, situada no Quartier latin de Paris, estava aquele que ficou para a história como o Beat Hotel. Aí se reuniram «vigaristas, ladrões & assassinos», escrevendo poemas, compondo canções, desenhando, pintando e fazendo coisas várias que uma réstia de pudor nos impede de revelar. Corso regressará a Nova Iorque em 1958, ano em que o jornalista Herbert Eugene Caen começa a falar de uma geração beatnik. Gregory Corso acabara de publicar Gasoline na City Lights de Lawrence Ferlinghetti. O poeta-vadio não morrerá de encantos pelo termo, mas nunca se distanciou o suficiente da “cunhagem” para que os louros não fossem recebidos. Em 1963, casou com Sally November, de quem teve uma filha. Divorciaram-se e Gregory voltou a casar, desta feita com Belle Carpenter, em 1968, de quem teve um filho e uma filha. Novamente divorciado, juntou-se pela terceira e derradeira vez a Jocelyn Stern, de quem teve um filho. Os anos finais foram de reconhecimento público e divulgação da actividade Beat, mas também de reencontro com as suas origens. O abandono materno era um facto que carecia de explicação. Em tempos, o pai de Corso dissera-lhe que a mãe regressara a Itália, que morrera, que era prostituta. Corso veio a descobrir que, afinal, ela estava viva, residia em Trenton, e fugira de casa depois de o marido a ter violado e espancado quase até à morte. Durou pouco tempo a reunião familiar. Corso descobriu um cancro na próstata e morreu a 17 de Janeiro de 2001. Como era seu desejo, depositaram-lhe os restos mortais perto da campa de Percy Bysshe Shelley, em Roma.

Quinta-feira, 25 de Março de 2010

NÃO SEI SE JÁ VOS DISSE QUE OS LIVROS DE SAM SAVAGE FORAM O QUE DE MELHOR ME ACONTECEU NOS ÚLTIMOS ANOS EM TERMOS DE LEITURAS



Firmin andou praticamente ausente das malfadadas listas dos melhores livros do ano de 2009 em Portugal (temos uma crítica demasiado culta para ratazanas). Não sei o que irá acontecer a O Grito da Preguiça, mas temo que, preguiçosos como são, os coleccionadores dessas listas voltem a esquecer-se do segundo monumental livro de Sam Savage. Que aos leitores deste singelo blog não escape o meu amor pelos livros do autor norte-americano é tudo o que desejo.


O GRITO DA PREGUIÇA

Depois de ter surpreendido meio mundo com Firmin, um livro sobre uma ratazana que me conseguiu levar a ler Ford Madox Ford, Sam Savage (n. 9 de Novembro de 1940) arrisca-se a surpreender outro meio mundo com O Grito da Preguiça (Planeta, Fevereiro de 2010). Diferentes na forma e substancialmente distantes no argumento, os dois livros não deixam de se aproximar no tom ou, se preferirem, num estilo que nos demove de quaisquer comparações inúteis. Entre o nome do autor e o estilo praticado, eis uma evidente coincidência. O humor de Sam Savage é selvagem, mas não no sentido moral do termo. Não é um humor cruel nem bárbaro, embora seja mordaz quanto baste para nos levar a acreditar que existe na falsa ingenuidade das suas personagens uma dificilmente decifrável subtileza do olhar que o autor lança sobre o mundo. É um humor primitivo, naquele contexto em que podemos chamar primitivas a todas as coisas espantosas. De um modo menos dúbio, direi que é um humor que não se deixa domesticar por quaisquer preconceitos ideológicos, de classe, políticos ou académicos. Já o tinha sentido ao acompanhar Firmin nas suas deambulações pelos destroços do passado e voltei agora a senti-lo ao bisbilhotar a correspondência do malogrado Andrew Whittaker.

Porque é disso que se trata, de quatro meses de correspondência e apontamentos reunidos, onde podemos encontrar um pouco de tudo. E esse pouco de tudo é o que dá forma à vida de Whittaker, um quarentão abandonado pela mulher, que vive de alugueres e sobrevive de um sonho: a edição da pequena revista literária Sabão ─ Revista de Artes. A narrativa constrói-se, portanto, num único sentido: o da epistolografia enviada pelo personagem central a outras personagens cuja presença o leitor se vê forçado a imaginar. As cartas de Andrew Whittaker à ex-mulher, correspondência meramente comercial, listagens de compras, recados deixados aos inquilinos, rascunhos e manuscritos, projectos para um romance, respostas a potenciais colaboradores da revista, solicitações a antigos colaboradores, entre outros, são o material que nos permite montar quatro meses na vida de um homem em queda livre. De notar que só temos acesso à correspondência desse homem, pelo que os seus supostos interlocutores cumprem papéis meramente referenciais. Mais importante que as perspectivas dos intervenientes nas diversificadas situações, as quais são sempre sugeridas pelo olhar de um homem falido, é a interpretação que Andrew Whittaker vai fazendo da sua própria existência.

E o que Andrew Whittaker está a viver é o fim de um sonho. De resto, como já Firmin havia vivido o fim da livraria Pembroke Books. Esta experiência da ruína, abordada num estilo tragicómico que nos desarma a todo o momento, tanto pode ser entendida como um retrato hilariante das inconfortáveis ambições de um escritor marginal, como um espelho da decadência do mundo, um espelho que imprime nos homens o desfazer das ilusões. O que fica da cera derramada é a história de um sobrevivente, um tipo em permanente estado de desenrascanço, jogando a anca sem jeito porque, diga-se de passagem, já não está lá muito saudável dos costados. «Tenho roubado horas infinitas à minha própria escrita para andar de boné estendido de um lado para o outro, à cata de subvenções públicas e privadas» (p. 13), confessa Andrew Whittaker ao escritor Marcus Quiller, um «antigo parceiro» que ganhou fama enquanto escritor. Andrew vem agora solicitar-lhe colaboração num festival que está a organizar. Adivinhamos a resposta que terá obtido numa outra carta, enviada a um outro «antigo parceiro». O mesmo Marcus Quiller deixa de ser objecto dos maiores elogios para passar a ser tratado por «bufão», «um vendedor de banha da cobra vistoso» (p. 34).

Penso que será um erro interpretar os esquemas do malogrado editor à luz da eterna intriga e dos jogos de bastidores que dão cor ao mundo literário, no que ele possa ter de ínfima réplica de outros mundos, tão ou mais sórdidos que o das letras (conforme os pontos de vista e o grau de interesse de cada um). Também me parece errado olhar para a história de Andrew Whittaker como quem olha para um homem desistente. Há que distinguir o lado conformado e sempre ambivalente da desistência com a dimensão positiva da desilusão. O desespero de Whittaker é o dos homens desiludidos, ou porque se convenceram de que eram o que não são, ou porque se vêem impedidos de cumprir a sua própria existência, ou porque, pura e simplesmente, abriram os olhos e repararam que à sua volta pouco mais resta do que vertigem. Entre não poder fazer nada e ser vencido pela impotência, a morte ou a indiferença? Talvez fechar-se numa misantropa solidão, talvez fechar-se ao mundo negando as fórmulas da fenomenologia. Ou simplesmente talvez partir: «Está tudo acabado. Junto envio a carta que vou enviar a toda a gente. Devia ter feito isto há anos. Sei isso bem, mas não adianta. Sinto-me vazio, oco e esventrado. Olho para dentro de mim e é como espreitar para dentro de uma cisterna seca. / Vendo bem, sei que o romance está quase terminado. O que desejo realmente é que as pessoas o leiam e digam: «Que vida trágica!» ─ e desatem a rir» (p. 179). Ah, ah, ah, ah, ahh, aah, ahahhh ahah ah, ah…

Escrito para o Rascunho.

ONDE O ERRO NÃO EXISTE


Não chegues tarde à minha hora. Se me posso dar ao desplante de ter chegado tardiamente ao meu tempo, não posso consentir que os outros cheguem tarde à minha hora. Seria desesperante esperar mais do que me é permitido esperar. E só me é permitido esperar o suficiente para que toda a esperança deixe de fazer qualquer sentido. Como no jazz tocado nas caves de Paris, há muitos caminhos na encruzilhada das falsas esperanças. Por isso não chegues tarde. A vida tem-me oferecido alguns dissabores. Nada que se compare com a ligeireza com que certas mulheres balanceiam as ancas no interior das lojas onde procuram o conforto dos dias, nada que se compare com esta chuva miudinha que veio caindo durante a noite para agora ficar a escorrer nos vidros como uma espécie de nostalgia a escorrer-nos na pele. Enfim, nenhum dos dissabores que a vida me ofereceu se compara à insuportável superficialidade com que algumas almas olham para os seus próprios corpos. E eu mergulho no buraco solitário desta pobreza e penso que a felicidade é um direito à alegria, penso que todo o ser humano tem, vá lá, o direito à alegria, e que se essa alegria pode ser encontrada em coisas tão banais como a cor correcta para as cadeiras lá de casa, o tom mais adequado a uma pele trigueira, então porque diabo hei-de eu espantar-me com esse direito e censurar-me por não ser assim? Tu sabes do que tenho falta, dessas noites em que passava o tempo a ouvir Sam Prekop enquanto a garrafa de vinho tinto sumia lentamente para dentro de um corpo que já nasceu cansado. Tu sabes a falta que me faz o silêncio das páginas dos livros, mesmo quando imprimem no imo da leitura um ruído estático, uma espécie de acidente sem causa, uma barulheira que não pode ser escutada porque está dentro de nós, ninguém pode partilhá-la connosco, não a podemos distribuir pelo mundo como quem distribui pegadas na areia. Longe vão os dias em que podia dar-me a esse luxo de ficar o tempo todo a matutar com os dedos sobre a superfície de um corpo, em que podia bater ao de leve com as mãos nas coxas e fazer desse gesto o momento alto de uma musicalidade que se foi. Longe vão os tempos em que os teus olhos me transmitiam a musicalidade dos espanta-espíritos. Resta-nos agora recuperar a memória dos dias e das noites em que pedíamos para nenhum de nós partir com uma convicção que trazia ao pedido um desejo inquestionável, porque agora não pedimos a ninguém para não partir, simplesmente mostramos aquele espanto hipócrita que se mostra a alguém que parte, simplesmente perguntamos já? como se já? não quisesse dizer finalmente sós. O que mudou? Os violinos ainda choram, os ritmos brasileiros não foram revogados, o jazz mantém-se como um impulso que chora a rir de não ter por que chorar. Mas parece haver uma penumbra sobre os rostos e parece que da penumbra os rostos surdem todos deformados, como se fossem fantasmas, como se já nada fosse orgânico, palpável, concreto, como se fôssemos meras conjugações de números, códigos que simulam presenças, imagens cifradas. Tu sabes do que tenho falta. Não tivesse sido forçado a este escandaloso estado de morte, onde os jogos são executados com adversários sem rosto, não tivesse ficado do lado errado do tempo incerto, não tivesse a minha existência sido transformada numa qualquer forma de entretenimento mal pago, e eu não estaria para aqui a desfazer-me em palavras inúteis. Tu sabes do que sinto falta. Sinto falta da música onde embarcava para porto incerto, sinto falta de uma certa escuridão que escapa a estes véus cibernéticos sob os quais dissimulamos a vida, sinto falta da prática que não me levaria a baixar o rosto ao galanteio da miúda brasileira que me serviu hoje o café, sinto falta daquela segurança com que agarrávamos na guitarra abandonando as cordas ao som do vento e depois cuspíamos para o lado o fuzilamento das horas, as notas ao lado, os acordes falhados, porque tudo era tão espontâneo, tudo era tão improvisado, tudo era sem qualquer tipo de encenação, tudo era tão são ensaios que até o erro parecia certo e a falha não nos obrigava a recolher os olhos no fundo do vazio.

O RAPAZ QUE NÃO TIRA OS OLHOS DO CHÃO


Não tira os olhos do chão. Como se seguisse um trilho do qual não se pode distrair, nem por um segundo.
Faz percursos sem sentido. Segue numa direcção. Pára. Muda o sentido. Regressa. Segue noutra direcção.
Nunca olha para cima. Conhece Lisboa pelo chão, sabe de cor os passeios dos calceteiros, com os seus desenhos de pedras pretas e pedras brancas, sabe de cor as ruas cruzadas por linhas de eléctricos abandonadas às ervas.
Incansável, faz com os seus passos o (secreto) mapa da sua solidão.


Nuno Artur Silva, in As Passagens do Tempo, com fotografias de Raquel Porto, Cotovia, Setembro de 2000, p. 23.

NON NOVA SED NOVE N.º1



NON NOVA SED NOVE (loc. Lat.) Não coisas novas, mas de nova maneira; diz-se do escritor que não apresenta ideias novas, mas faz suas as ideias dos outros, apresentando-as a seu gosto.

editorial

esta revista continua a ser de todos e p’ra ninguém.
Quando no n.º0 garantimos que continuaríamos, apesar da máquina não ter todas as teclas, de mudar de fita 70 vezes e de não haver mais cerveja, o feito aqui está.
Ao apresentarmos uma ideia de revistazine informal, não pensámos que esta seria mal interpretada. O trabalho da nossa recolha de textos (re)escritos por autores novos e/ou marginais, saiu-nos para além da terra de origem. Haja prateleiras. Porém, continua a dar-nos um grande gozo! Faltam apenas os poetas da praia. Quem??
Reafirmamos a nossa abertura a todos que neste zine quiserem colaborar.
Como exemplo, nesta edição publicam-se dois poemas a quem não se atribui autor, porque não o sabemos. Foram encontrados no interior de umas folhas de jornal três anos atrás. Autor por conhecer. Publicamos também um poema vindo do Seixal, pelo menos já lá chegámos.

HE-LA-ÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓHHH!
p’ró caralho com os poetas!
Ninguém os há-de foder.

Os editores.


Non Nova Sed Nove, n.º1, Setembro de 1991, editores e coordenadores: Mário Galego e Paulo Meireles; montagem e execução em casa, manualmente.

MOSCA I

A mosca é impertinente. Gosta de ser enxotada como quem leva palmadinhas no rabo. Quando acaba esmagada, agradece ao homem o fim do sofrimento.

MOSCA II

O homem que gostava de ser mosca nunca se deu ao trabalho de pensar segundo a perspectiva da mosca, a qual, por acaso, gostava de ser outra coisa qualquer, uma coisa cuja natureza não fosse andar constantemente a chafurdar na merda e ter de ver todo o tipo de porcarias à sua volta.

MOSCA III

Se o homem gostava de ser mosca, então porque não abre os olhos? Está à espera de quê, para ser mosca?

FAZ-ME ESPÉCIE

Confesso que me faz espécie. Gostam de Maria Velho da Costa mas também gostam de Lídia Jorge. Gostam de Herberto Helder mas também gostam de Manuel Alegre. Gostam de Pacheco mas também gostam de Peixoto. Gostam de Borges mas também gostam de Sepúlveda. Excluindo a pobre da Rebelo Pinto, em que sempre foi tão fácil bater, do que é que não gostam, afinal? Gosto tão eclético — que nada tenho contra o ecletismo — recorda-me a frase de Richard Dawkins exposta ali no canto direito do blogue: “There's this thing called being so open-minded your brains drop out”. Ou então é outra coisa.

Aqui.

Quarta-feira, 24 de Março de 2010

35 MORTOS

Afinal estou mesmo com uma depressão. A família já foi posta ao corrente da situação. Os funcionários da CP também. Ontem deitei-me na linha do comboio à espera que ele passasse por cima de mim e me libertasse desta angústia que me corrói. Não sei que pesos trago na consciência, mas sinto a cabeça a tombar sobre o peito e uma dor incontrolável no coração e sinto as costas tortas e uma comichão agitada percorre-me o corpo todo. Apetece-me desatar a correr e não mais parar, correr até cair para o lado com um ataque cardíaco. Outra solução seria desatarraxar a cabeça e deixá-la a descansar na mesa-de-cabeceira até me subirem as lágrimas aos olhos ou um sorriso às maçãs do rosto. O mais provável era ter de esperar uma eternidade, tal é o estado em que me encontro. Resolvi, pois, deitar-me na linha do comboio. Levei comigo umas cordas, não fosse a cobardia congénita chutar-me da morte à proximidade da carruagem. Atei as pernas a uma linha e o pescoço a outra, visto não ter quatro mãos para poder atar, pelo menos, as duas que tenho, como era minha intenção antes de ter constatado, pela prática, não ser hábil o suficiente para atar sozinho as duas mãos. Fiquei ali deitado à espera que um comboio se aproximasse em alta velocidade. Mas o comboio demorou. Entretanto, houve um cão que passou, alçou a perna e mijou-me os pés. Tentei enxotá-lo com os braços mas ele era bastante atrevido. Também apanhei com uma cagadela de gaivota nas trombas, o que me deixou a pensar se não seriam aqueles insultos animais como que mensagens de um mundo incognoscível, um desses mundos que agarram à terra as pessoas de fé prometendo-lhes paraísos improváveis. Não que o mijo de cão e a cagadela de gaivota se comparem a paraísos improváveis, mas tendo em conta o estado em que me encontro souberam-me bem. Foram um tónico na minha via rotineira, algo de diferente pelo qual eu não esperava, foram o inusitado, um espanto, acidentes no percurso do ramerrão. Também passou um gato, mas esse limitou-se a olhar-me com desdém, voltou-me as costas e foi à vida dele. Os gatos são muito parecidos com a maioria das pessoas que conheço, olham-me com desdém, voltam-me as costas e vão à sua vida. Mas eis senão quando ouço ao longe o buzinar de um comboio, ouço o buzinar de um comboio ao longe, ao longe oiço o buzinar de um comboio. A agitação confundia-me a sintaxe, a ansiedade tomou-me conta do corpo. E agora? Pensei. O que será que vai acontecer? Estava tão fora de mim que nem reparei no quão parvas eram aquelas interrogações. O comboio passaria sobre mim deixando-me desfeito em pedaços, o comboio iria libertar-me de todas as angústias, de todas as frustrações acumuladas ao longo destes 35 anos de penosa sobrevivência. Era isto que deveria acontecer, isto, só isto, nada mais que isto, e imaginar isto deu-me um conforto que ninguém pode imaginar, deu-me um consolo que nunca antes pude sentir. Como já devem ter notado, algo não correu como previsto para eu estar aqui a contar-vos o sucedido. Se ouviram as notícias, saberão que o comboio descarrilou uns metros antes do local onde eu me encontrava. Vi tudo acontecer, com os pés mijados por um cão e o rosto cagado por uma gaivota. Vi o comboio descarrilar, os primeiros sobreviventes a socorrerem os feridos, alguns mortos a serem arrastados para fora das carruagens. 35 mortos, tantos quantos são os anos da minha penosa sobrevivência. E que inveja tenho eu desses mortos. Que inveja.

COMPARAÇÕES

The Cry of the Sloth is one of those books in which almost nothing happens: it is simply a record of a man sliding further and further down into himself. Imagine a comic version of the great Fernando Pessoa's The Book of Disquiet in epistolary form, with extra laceration.
Ian Sansom, aqui.

Savage’s sense of humor is true to his name, but The Cry of the Sloth reminds us of the great Russian satirist Ivan Goncharov, who also saw the tragedy in pretending to be productive.
Jonathan Messinger, aqui.

SAUDAÇÃO



A todo o animal que devora seus semelhantes
ou os mata a tiro
A cada caçador armado numa camioneta
de atrelado
E cada recruta atirador d'elite ou milícia
com mira telescópica
E cada campesino com botas cães e espingarda
de cano serrado
E cada guarda com cães ensinados a perseguir e
a matar
E cada chui à paisana ou agente secreto
com cinturão carregado
de morte
E cada servo do povo disparando sobre a
multidão
ou metralhando criminosos em fuga
E cada guarda civil em qualquer país
guardando civis com algemas & carabinas
E cada carabineiro de qualquer Check Point Charley
de qualquer lado de qual
muro de Berlim cortina de Bambu
ou de Tortilha
E cada tropa polícia de trânsito com farda
de cavaleiro por medida
& capacete de plástico & gravata de laço
& pistola de seis tiros num estojo
com cravos de prata
E cada nívea com revolver anti-tumulto
& alarmes e cada tanque
anti-tumulto
gás tóxico & gás lacrimogéneo
E cada piloto d'elite com bombas & napalm
debaixo das asas
E cada piloto do céu abençoando os bombardeiros
na descolagem
E cada Departamento do Estado de qualquer
super estado
vendendo armas aos dois campos
E cada nacionalista de qualquer nação
de qualquer mundo Negro Mestiço
ou Branco que mata pela nação
E cada profeta ou poeta com arma de fogo
ou navalha impondo pela força
a iluminação espiritual
ou impondo pela força o poder
de qualquer estado poderoso
E a todos que matam e matam e matam
& matam pela Paz
ergo o dedo do meio
na única saudação que merecem



Lawrence Ferlinghetti, in A Boca da Verdade, trad. André Shan Lima e Isabelle Lima, Edição do autor e tradutor, Verão de 1986, p. 49.

AGRADECIDOS À TIA FRANCESA


Lawrence Ferlinghetti nasceu em Yonkers, New York, a 24 de Março de 1919. Filho de Clemence Albertine Mendes-Monsanto, francesa descendente da comunidade sefardita portuguesa, e de Carlo Ferlinghetti, italiano emigrado nos states, nunca chegou a conhecer o pai. Transtornada com a perda do marido, Clemence foi internada pouco tempo depois de ter dado à luz. A criança ficou entregue a uma tia francesa, mulher de Ludovico Monsanto, tio de Clemence e professor de espanhol na U.S. Naval Academy. Ferlinghetti acabou por viver a infância em Estrasburgo, aprendendo a falar francês ainda antes do inglês. O regresso aos EUA deu-se quando tinha aproximadamente cinco anos de idade. Passou por um orfanato até ter sido como que adoptado pelos patrões da tia francesa. Fez os primeiros estudos em várias escolas e ingressou na University of North Carolina, onde se formou em jornalismo. Os primeiros textos começaram a ser publicados no início da década de 1940, ainda assinados como Lawrence Ferling. Na verdade, até 1942 o poeta desconheceu o seu verdadeiro apelido. Só nesse ano, por culpa de um certificado que teve de entregar na US Navy, é que ficou a conhecer o seu verdadeiro nome. A Segunda Grande Guerra obrigou-o a embarcar, revelou-lhe o lado abjecto dos conflitos armados, transformou-o num pacifista inveterado depois de uma visita às ruínas de Nagasaki. Finda a Guerra, trabalhou na Time, voltou a estudar na Columbia University, formou-se em Literatura Inglesa, partiu para Paris, onde se doutorou no ano de 1950. Regressou às terras americanas no ano seguinte, casando-se com Selden Kirby-Smith e fixando-se em São Francisco. Os anos de São Francisco serão determinantes para o seu percurso literário: dá aulas de francês, pinta, escreve crítica de arte, funda, com Peter D. Martin, a City Lights Bookstore, depois de ter fundado a revista City Lights, traduz Jacques Prévert e dá início à publicação das Pocket Poets Series com um livro da sua autoria: Pictures of the Gone World. Seguiram-se, entre outros, livros de Kenneth Patchen, Allen Ginsberg, Robert Duncan, William Carlos Williams, Gregory Corso… A revolução estava em marcha. Howl and Other Poems, o quarto volume da colecção, levou Ferlinghetti à barra dos tribunais. Como é de todos sabido, nada há de melhor para um livro do que tornar-se caso de polícia. A primeira edição de 1500 cópias esgotou rapidamente. No termo do julgamento, o “livro obsceno” já ia com mais de 10.000 cópias vendidas. Eram os gloriosos anos da Beat Generation, das leituras públicas, dos escândalos, das performances ao som de jazz. No entanto, Lawrence Ferlinghetti recusou sempre a associação ao movimento Beat. Dizia-se boémio, veterano de guerra, pai de filhos e proprietário de uma livraria, tudo marcas dificilmente conciliáveis com a deriva de uma geração que fazia da rua e da estrada a sua bandeira. A verdade é que City Lights transformou-se numa espécie de porto onde atracavam os marinheiros do movimento: de Ginsberg a Kerouac, de Diane diPrima a Gary Snyder, de Gregory Corso a Burroughs, entre tantos outros. Talvez Lawrence Ferlinghetti estivesse mais próximo de um certo anarquismo libertário, com uma postura crítica alicerçada em experiências pessoais que advinham do percurso militar e de todo um historial de vida pouco simpático. O seu interesse seria mais o de libertar a poesia das Academias do que fundamentar um qualquer movimento sociopolítico com metodologias de intervenção artística. A Coney Island of the Mind (1958) é o mais popular dos seus livros e um dos livros de poesia mais vendidos de sempre nos EUA. Poeta, editor, crítico de arte, pintor, Lawrence Ferlinghetti continuou a publicar os seus e de outros livros, viajou imenso, agitou as águas, soube intervir quando o mundo esperava dos poetas algo mais do que livros cheios de poemas confortavelmente escritos na secretária lá de casa. Uma vida admirável que tem sido justamente premiada.

SEM COMENTÁRIOS


NOVO MUNDO

Com o Yahoo! Mail era um brincalhão. Com o Hotmail era um louco na cama. Com o Gmail era um gentleman na mesa. Ao vivo... era um zero à esquerda.

PIPOCAS

Aos amigos que me acusam de ter uma perspectiva demasiado radical destas coisas, venho dizer que não é muito difícil constatar que o dia mundial da poesia foi transformado num dia dos namorados, num dia do pai ou num dia da mãe, num Natal light, numa campanha da Páscoa. Mera oportunidade de negócio esvaziada de significado. E com o 25 de Abril está a passar-se a mesma merda. Está tudo a ser engolido pelo mercado.

Terça-feira, 23 de Março de 2010

PERDIDOS E ACHADOS

Alguém bateu no carro do meu colega Rui e fugiu. Ninguém viu. Alguém bateu no carro da minha colega Patrícia e fugiu. Uma senhora viu e participou a ocorrência à polícia, que deixou uma notificação no carro da minha colega. Alguém perdeu no Centro um saco com compras. Um senhor inglês viu o saco e veio trazê-lo à loja. A cliente que tinha perdido esse saco também voltou à loja, preparada para comprar tudo de novo. Ficou estupefacta quando reparou que alguém nos tinha trazido o saco. As pessoas são muito diferentes umas das outras, não são?

a poesia e o showbiz

nos últimos tempos, muito por causa das celebrações do dia mundial da poesia, tive oportunidade de viver uma intensa (e asfixiante) overdose poética. não fosse a imperial atrás da imperial e juro que tanto poema me teria provocado pelo menos uma embolia. agora nem consigo abrir o livro do gastão cruz que tenho lá em cima da mesa, de tanto medo que tenho que à primeira página de lá salte a voz do homem declamando, declamando, declamando.
em teatros, em grandes centros culturais, na rádio, toda a gente andou a ler nos últimos dias. e se a ideia é levar a poesia às pessoas, mostrar coisas novas, provocar interesse, suponho que os programadores destas iniciativas culturais pudessem ter atenção a um pequeno pormenor: é que nem toda a gente consegue ler poesia - ler em voz alta, claro. quero dizer, qualquer pessoa com a segunda classe já pode ir ao ccb ler qualquer coisinha mas, bem, como dizer, não creio que essa habilidade seja muito mais impressionante que a de um pinguim no oceanário: é giro, talvez, mas ao fim de dois minutos já ninguém diz «ó, é tão querido».
ouvir poesia pode ser, na verdade, um massacre. o leitor, massacrado, consciente de não ter jeito para aquilo. o ouvinte, massacrado, consciente de não ter jeito para aquilo. e o poema, massacrado, sem interesse por nada daquilo.

Aqui.

JOGAR MONOPÓLIO

A tragédia na Madeira tem sido reveladora da concepção que os nossos governantes fazem da política. Farto-me de ouvir gente com responsabilidades públicas dizer que agora é hora de ajudar as pessoas, não é hora de fazer política. Portanto, na cabeça daquela gentalha há uma diferença entre fazer política e ajudar as pessoas. Para eles, fazer política deve ser qualquer coisa como jogar Monopólio.

O ECONOMISTA RADICAL

O economista radical encontrou uma solução para a crise: encarcerar todos os desempregados num campo de concentração e incinerá-los. Ao expor a sua teoria, causou grande escândalo e nunca mais lhe deram trabalho. Agora é apenas mais um desempregado sem ideias para combater a crise.

HOMEM PERFUMADO

O homem perfumado adorava jogar xadrez com o computador. Mas quando dizia xeque-mate sentia uma certa nostalgia de um rosto humano.

HOMEM PERFUMADO 0.2

Vou aprender línguas estrangeiras
para ver se ganho boas maneiras.
Já posso montar o jumento:
inscrevi-me no doutoramento.
Levarei os meus restos mortais
às primeiras páginas dos jornais.

Segunda-feira, 22 de Março de 2010

MISS



Quando ganhei o concurso, disseram-me: agora, és a mulher mais bonita do mundo. E fui. Durante um ano.
Mas, depois, houve outro concurso. E disseram a uma moça muito alta e magra (bastante mais feia que eu): agora, és a mulher mais bonita do mundo.
Pensei: foda-se! E agora, sou a segunda mais bonita? Olhei-me ao espelho: tudo no sítio, tal e qual como há um ano. Por que motivo já não sou a mais bonita?
Foi então que comecei a pensar: se a matar, voltarei a ser a mais bonita...
(Agora, pelo menos, sou a mais bonita da prisão).


Paulo Kellerman, in Miniaturas, Edições Colibri, Abril de 2001, p. 41.

O PÉQUE

Camarada Van Zeller, afinal isto de estar doente tem as suas vantagens. Uma visita da mãezinha deixou-me mais confortável até ao final do mês. Além de uma caixa com pastéis de nata e pampilhos, que rapei num fechar de olhos, ficou-se-me a carteira apetrechada. Deu para encher o depósito, recuperar o investimento na medicamentação e na consulta. Até deu para comprar o jornal. E, pasme-se, para lê-lo. Fiquei com pena do meu médico, que me confessou durante a consulta não ter sequer tempo para ler o jornal. Diz que os compra e não os lê. Uma vida de mouro a pedir reforma antecipada. Ele disse-me que achava que eu estava a chocar uma depressão. Eu respondi-lhe que o que me deprimia naquele momento era estar ali a ouvir o óbvio e ainda ter de pagar 40€. A depressão está mais que chocada, ó doutor. Então o que lhe corre mal, perguntou-me ele. A mim, especialmente, nada. Na verdade é isso que me deprime. Corre-me tudo muito normalmente, um tédio, uma chatice, uma insuportável rotina. Eu queria ser como você, disse-lhe, não ter tempo para ler jornais nem para aproveitar as promoções das livrarias. Por exemplo, esses péques maravilhosos: leve dois pelo preço de um. Basicamente, o oposto do outro péque: pague três, não leve nenhum. E isto deprime-me. Camarada Van Zeller, cada vez me convenço mais de que você tem o dom da razão. Afinal, há que começar por cortar no salário mínimo. Eu ainda pensei que você estivesse a referir-se ao salário mínimo dos gestores públicos, dos penedos e dos soares. Mas estava enganado. E bem. Você tem toda a razão. Devemos começar a cortar no salário mínimo dos desempregados. Essa gente é o cancro da nação. Não fazem nenhum e ainda lhes pagam. O desgraçado do meu médico farta-se de trabalhar e pagam-lhe com isto: nem tempo tem para ler jornais. Eu farto-me de ver esses desempregados lambões nas mesas dos cafés, ali o dia todo a folhearem jornais. E ainda se dão ao luxo de os sublinhar. E fazem recortes. E gastam dinheiro em telefonemas para responderem a anúncios só pelo prazer de estarem ali o dia todo à conversa. Cambada de gosmas. É isto que me deprime, ó doutor. Anda um gajo a trabalhar o dia inteiro para sustentar estes péques, anda um homem a fazer sacrifícios para sustentar malta desta. Não pode ser. Premeie-se quem trabalha, os penedos e afins, gente rija como a pedra. Sacrifique-se quem é mole, os desempregados e os privilegiados do salário mínimo nacional. Agora toca a fazer filhos. Sem mais, espero que não me leve a mal o tom informal. Se o trato por camarada é apenas por sentir pela sua pessoa a mais pura estima e consideração.

DIZ QUE GOSTAVA DE HORTICULTURA



Michael Hamburger nasceu a 22 de Março de 1924, em Berlim, no seio de uma família judaica burguesa. O pai era um pediatra com inclinações melómanas que incutiu nos filhos um forte interesse pelas temáticas culturais. A mãe era filha de um importante banqueiro. Um dos amigos de infância do poeta foi Lucien Freud. O alarme nazi levou a família a emigrar para Edimburgo, em 1933. Alteradas as condições económicas, Michael ainda pôde estudar no George Watson’s College, transferindo-se posteriormente para Westminster. Não sendo propriamente um menino de coro, escolheu como desporto favorito, além da poesia, o boxe. Dizem que se vingava no ringue dos alemães ricaços que frequentavam o colégio. Em 1941, devido à guerra, os estudos prosseguiram suportados por uma bolsa em Oxford. Foi aí que o jovem poeta/pugilista conheceu outros desportistas de renome, entre eles Dylan Thomas e Philip Larkin. O convívio deu-lhe punho. Juntamente às traduções que ia fazendo dos poemas de Hölderlin, o poeta submetia os seus próprios poemas à apreciação do mestre Eliot. A vida não estava para poesias. Hamburger cumpriu os seus serviços militares no Queen's Own Royal West Kent Regiment, andou por Yorkshire e foi colocado em vários postos britânicos. Acumulou com a itinerância militar traduções de Baudelaire, as quais não terão sido boa influência. Frustrado, objecto de encenações pouco estimulantes, resolveu festejar o fim da Guerra com uma garrafa de brandy que o deixou em coma durante vários dias. A recuperação levou-o até Aleister Crowley, com quem pretendia discutir as traduções de Baudelaire. Mas o nosso poeta acabou colocado em Graz, a ensinar inglês e alemão às criancinhas. Traduziu os escritos de Beethoven e, em 1950, conseguiu publicar a sua primeira colectânea de poemas: Flowering Cactus. Dois anos depois, colocaram-no como leitor na University College London. Pelo meio, ainda arranjou tempo para casar com Anne Ellen File, a actriz e poeta Anne Beresford. A partir daqui, a vida foi ocupada com traduções de Brecht, Grass, Baudelaire, Celan, Rilke, Goethe, WG Sebald (que o meteu num dos seus livros, Os Anéis de Saturno), entre tantos outros. Escreveu mais de vinte volumes de poesia, foi professor em várias universidades norte-americanas, escreveu um curioso ensaio intitulado The Truth of Poetry (1970), onde alertava tanto para os perigos das leituras de poemas levadas a cabo pelos Beats como para os jogos obscurantistas da poesia concreta. Escreveu ainda alguns livros de memórias e crítica literária, traduziu imenso, foi-lhe atribuído um OBE (Order of the British Empire) em 1992, morreu a 7 de Junho de 2007 na sua casa em Suffolk:


PARA UM ÁLBUM DE FAMÍLIA

Quatro cabeças à luz de um candeeiro
E todas curvadas em peculiar obscuridade,
Lendo, desenhando, sós.
Uma câmara tê-las-ia aprisionado
Difusas na penumbra morna da sala,
E tê-las-ia deixado, recusando contar
O tempo até que o candeeiro se fundisse,
O cabelo se pusesse em pé, se cortasse, pintasse
ou ondulasse.

Nem sequer as posso descrever, só apanhei
Um clarão que devastou
As paredes da nossa sala na penumbra;
Ou o negativo ─ uma chapa preta
Aberta à luz tão branca que feria o olhar.

Deixai esta página em branco.
Não gostaríeis nem acreditaríeis
Na foto que nenhuma lente poderia tirar:

Atado aos meus ossos como raízes
Nas vossas cadeiras voáveis, voáveis.


Michael Hamburger, trad. por Manuel de Seabra, in Antologia da Poesia Britânica Contemporânea, Livros Horizonte, Junho de 1982, p. 16. Na imagem: Anne Beresford, Rita Dove, Michael Hamburger e Fred Viebahn.

Domingo, 21 de Março de 2010

ATÉ OS COMEMOS (fragmento)


As equipes entram em campo lado a lado com criancinhas pela mão E muita responsabilidade perante semelhante desafio. Cada qual traz inscrito na camisola o nome dum grande da história Da literatura nacional
tendo como função divulgá-la
─ é claro que uma figura já desaparecida de entre os vivos para não ferir susceptibilidades ─ A nível global
E ao mesmo tempo homenagear este país de gavetas russas

Tiram-se as fotos e tocam-se os hinos ao som de assobios e palavrões
“Era uma vez um português um francês um alemão um inglês um espanhol um italiano... e todas as rês
do grego do latim do eslavo... todos foram paridos pela mesma
montanha gelada..."
Das bancadas dos lusíadas
estádios construídos de raiz para o efeito
Camões leva a moeda ao ar
E escolhe a bola, engolindo a moeda. Chuta a bola
Que Fernando Pessoa agarra com grande frescura
e leitura de jogo
Fodendo a cabeça a Fernando Assis
Pacheco que se vê obrigado
a rasteirá-lo e numa desenfreada corrida contra o tempo
Coloca a bola na terra de ninguém onde Florbela Espanca se masturba Peço desculpa está a recolher os fluxos com uma garrafa De absinto atirada
pelo Bocage que na posição de missionário
Faz exercícios de aquecimento para manter a boa intelectual
Técnica que aliada às várias mudanças de velocidade
Em completo delírio Ruy Belo passa-lhe a bola
Entre as pernas Vieira tira o vibrador
E mete-o na cona da saudade que sempre adorou raves
E sexo em grupo. Almeida Garrett
Aproxima-se e dá um pontapé em falso
Em completo antijogo fazendo saltar
Os olhos de leite de colónia

António Nobre chora e mete o dedo no cu
Ninguém lhe passa a bola
É uma vítima o sistema

Todos foram foram violados pela mesma montanha
de esperma
Onde nada disso se pode nem deve compreender
Porque a visão ultrapassa a força da emoção
Onde o português os come a todos de cebolada com o seu
braço
Alemão o seu coração francês e o seu cérebro africano
E com os colhões de júpiter e o respectivo prolongamento
Da eternidade de tudo mendigar o mesmo ninguém


Cesário Verde remata do meio do campo
A glande na tentativa de surpreender o guarda-redes
Gil Vicente apanhado a cagar lança-se no ar
Em mais uma extraordinária defesa
O público desfaz-se em sangue gordo
Almada recolhe a glande no peito
e com grande mestria
Calca-a aos pés e em cabeçadas constantes
Passeia-se pelo relvado
Todo cheio de instinto
como um verdadeiro artífice mas é derrubado
Por Mário Henrique Leira
Escarrando-lhe António Botto está fodido e mal pago
Jogo com uma meia de vidro enfiada nos cornos
Para não ser reconhecido
Mais um canto de Sá de Miranda que quase mete golo
directo
Não consegue grita a Mário de Sá Carneiro que passa envolto
Em chamas em claríssimo fora de jogo
Teixeira de Pascoais à gargalhada
e a chicote tenta fazer com que a águia
volte ao seu ambiente natural o dragão não deixa
a pantera enraba o leão
é lindo é belo é poético só o futebol
consegue este milagre da natureza

Maria Lisboa passeia-se vamp pelo relvado
Tal odalisca com a bola na mão
António Pedro aparece de lado nenhum
Dá-lhe uma cabeçada fazendo-se entrar nas redes adversários
Auto gooooooooolo Natália Correia não tinha chances de defesa
E atirando com os seios a Vitorino Nemésio que mais parece uma múmia paralítica
Parece uma choca bem lhe disseram para segurar o esférico
Porra
António Sardinha
aproxima-se perigoso e enraba
o Encoberto que discute furiosamente com o árbitro
É um pulha dum académico

Não larga a bola quer dizer o real
E todos os seus anões que esperam pelo intervalo
Para demonstrarem as suas capacidades académicas
São as claques e os seus hinos politicamente correctos
E literariamente vítimas de pedofilia
Júlio Dantas rosna contra
Todos estes falsos poetas que o censuram em nome
Da liberdade poética e começa a pontapear a bola de ouro
se não fosse ele a libertar a liberdade ainda hoje estavam
todos
A boiar nos colhões de António Ferro

Mais parece um jogo de casados contra solteiros
A bola vem ao centro
Miguel Torga prepara-se para a chutar
e leva com um very-light nos cornos
Donde saem bailarinas de hollywood
José Régio faz-lhe o escalpe
religiosamente
E corta-lhes a garganta a ver se saem mais durante o intervalo
Apenas e só as ossadas do objecto estético todos os mortos
Vivos exigem a Deus que os compensem dando-lhes mais tempo
Deus faz-lhe manguitos e obsceno gesticula muda aos quatro
E acaba aos Nove Camões começa a mijar sangue
para a bancada vip entre as vedetas Nicolau Tolentino beija no ânus o nobel
E o Jorge de Sena também quer um não quer morrer sem ganhar um
Cheio de inveja Ângelo de Lima lava camisas de vénus em segunda mão
Sofre de incontinência Guerra Junqueiro come o que caga o que come
Como obscuras pedras de gelo
António José da Silva cata o piolho ao desporto rei
e lê em voz alta o último comunicado
Da al-qaeda em verso branco

Estão cerca de um bilião a assistir. As televisões rádios e jornais Todos os meios de comunicação e a internet desfazem-se em paz podre
dentro das quatro linhas. A reflexão é sociológica e os números não mentem
Foda-se e vai um reflecte Manuel Laranjeira recolhe a diarreia mental
Toda a autocensura politicamente correcta
À mão em baldes que despeja contra a assistência.
Ainda dizem que temos a mais baixa produtividade. Que não aproveitamos
As oportunidades. Que não podemos perder o comboio. Puta que vos
Há-de parir. Nós vamos por aí. De peito aberto
Nós temos uma visão do mundo


A. Dasilva O., in Punhetas de Wagner, Edições Mortas, s/d., pp. 6-11. Nota do autor: Este poema teve como fonte o poema “Seniores A Bacanal ou suicídio colectivo”, editado no livro “Chocolates Choupe la Peace” em 1985.

A TERRA SANTA

Conheci Jericó,
também eu tive a minha Palestina,
os muros do manicómio
eram as muralhas de Jericó
e um poço de água infecta
baptizou-nos a todos.
Lá dentro éramos judeus
e os Fariseus ficavam no alto
e, perdido na multidão,
estava também o Messias:
um louco que gritava aos céus
todo o seu amor por Deus.

Todos nós, rebanho de ascetas
éramos como pássaros
e de vez em quando uma rede
obscura aprisionava-nos
mas íamos a caminho da colheita,
a colheita do nosso Senhor
e Cristo o Salvador.

Fomos lavados e sepultados,
cheirávamos a incenso.
E depois, quando amávamos
davam-nos choques eléctricos
porque, diziam, um louco
não pode amar ninguém.

Mas um dia de dentro do sepulcro
também eu me levantei
e também eu como Jesus
tive a minha ressurreição,
mas não subi aos céus
desci ao inferno
de onde revejo estupefacta
as muralhas da antiga Jericó.

Trad. Clara Rowland.


Alda Merini nasceu em Milão no dia 21 de Março de 1931. Em 1950, Giacinto Spagnoletti publica dois textos da autora na Antologia da Poesia Italiana 1909-1949, apresentando-a como «uma jovem que não nasceu em nenhum terreno de cultura, nunca frequentou ambientes literários, leu até agora poucos e nem sempre bons livros e ignora, por exemplo, a Divina Comédia. Leva uma vida de rapariga pobre, confiante apenas nas grandes verdades que a sua alma descobriu». Como diria a minha avó, benza-a Deus. Merini começa a frequentar a casa de Spagnoletti no mesmo ano em que se manifestam os primeiros sintomas de doença psiquiátrica. É internada numa clínica, pronunciando uma vida devastada por sucessivos internamentos, períodos de lucidez acossados pela demência, o “inferno do manicómio”. Casa em 1953, ano da sua primeira recolha poética publicada: La presenza di Orfeo. Em 1955 nasce-lhe a primeira filha. Publica quatro livros entre 1953 e 1961, seguindo-se um silêncio poético de quase vinte anos passado mormente no manicómio Paolo Pini. Volta a sentir a experiência da maternidade por mais três vezes. O regresso à publicação acontece em 1980, com Destinati a morire, mas será com La Terra Santa (1984) que a sua voz mais se fará ouvir. Desde então, a poesia de Alda Merini mereceu várias distinções, juntando-se à vasta produção poética alguns volumes em prosa. É hoje considerada uma das vozes mais fortes da poesia contemporânea, autora de uma poesia do gueto, violenta, mas depurada, com uma forte ligação às emoções e sem outra escola que não a da sua própria experiência. Vive e morre e ressuscita e volta a morrer e volta a renascer na cidade onde nasceu.

UM JANTAR SNOB

Enquanto voava a esmo, Benjamim avistou uma janela aberta e resolveu parar um pouco. A janela dava para uma sala com uma mesa comprida onde repastavam várias criaturas com tiques de indisfarçável snobeira. De quando em vez, colocavam a mão debaixo do queixo, muito ao estilo da intelligentzia que escreve colunas de opinião nos jornais. Benjamim perguntava-se sobre o porquê daquele gesto, ao mesmo tempo que lhes apreciava as camisas de organdi e os sapatos de zebu. Tratava-se, claramente, de um jantar de scholars. Entre eles, um ou outro outsider que se distinguia por estar mal vestido, ser rude nos gestos e proferir obscenidades com aquele ar soberbão de quem se está nas tintas para botões de punho. A verdade é que fica sempre bem trazer por perto um outsider. Pode-se exibi-lo de troféu às carcaças que ponham em causa as boas intenções do diktat. Pelo menos, enquanto o outsider não se transformar num insider, causando aquele mal-estar de que o establishment necessita para amamentar os seus mártires. Por cima da mesa, os happy few trocavam livros uns com os outros. Sorriam num tom amarelado, gabavam as capas e esforçavam-se por formular perguntas interessantes sobre os títulos. Depois molhavam os lábios com um líquido qualquer, acendiam cigarros que se desfaziam no ar como o interesse dos assuntos. Todos falavam com todos, mas parecia que ninguém falava com ninguém, porque todos se queriam fazer ouvir mais do que os outros e havia mesmo quem, não se calando, só se deixava interromper para dizer que gostaria muito de ouvir o que os outros tinham para dizer. Citavam autores, filmes franceses, lembravam acontecimentos, exibiam relações e intimidades como militares de medalhas ao peito. Debaixo da mesa, Benjamim reparava nuns estranhos movimentos. Pés que afagavam pernas, pernas que tremiam ansiosamente, alguns pontapés, ainda que ligeiros, como que enxotando afirmações inconvenientes. E um insuportável chulé. Então, o pombo bateu as asas, entrou na sala, fez um tour d’horizon pela mesa, largando em cada um dos pratos de camembert um cibo de almiscarada caganeira. Um dos presentes pôs-se aos gritinhos porque tinha fobia à passarada. Outro olhava para Benjamim com um entediante embevecimento, ao mesmo tempo que decretava ali um raro momento de inquestionável poesia natural. Outro sacou do moleskine e escreveu um poema em três segundos que se pôs a declamar para todos os presentes. Estranhamente, demorou quase três minutos a declamá-lo. Outro julgava que deviam dar início à orgia pois o fim do mundo estava próximo. Ninguém lhe entendeu a metáfora, mas alguns abriram as pernas. Outro mostrou-se indignado, pois como era possível, numa nobre casa daquelas, alguém deixar entrar um pombo. E o pombo, como que fazendo questão de sublinhar que ninguém o deixara entrar, tendo sido ele a invadir o território da confraria de livre e espontânea vontade, chegou-se à careca do indignado e depositou toda a porcaria que lhe restava no estômago sobre aquela cabeça, a qual, diga-se de passagem, e tendo em conta a provável composição da mioleira coberta pelo crânio rapado, ficou congruentemente penteada.

Escrito para O Indesmentível.

Sábado, 20 de Março de 2010

O PALHAÇO DE TUBINGA


Só agora compreendo o homem, agora que estou longe dele e vivo na Solidão!


Dez anos a escrever poemas. 36 anos de loucura. Um amor impossível. Uma vida desventurada. Nascido nas margens do Neckar, a 20 de Março de 1770, Hölderlin perdeu o pai com apenas dois anos. Johanna Christina Hölderlin, a mãe do poeta, casou pouco depois com o presidente do município de Nürtingen. Enfermeira mas malograda nos amores, Johanna perdeu o seu segundo marido contava o filho apenas nove primaveras. Órfão ao quadrado, Hölderlin foi encaminhado para a carreira de teólogo. Quando se nasce torto, nem Deus nos endireita. Andou pelos seminários de Denkendorf e Maulbronn, passando depois para o Stift de Tubinga, onde travou amizade com os jovens Hegel e Schelling. Por esta altura, já escrevia poemas de velada admiração pela Revolução Francesa. Feito o exame de teologia, separou-se dos comparsas e seguiu o rumo natural de um jovem oriundo de famílias pouco abastadas: tornou-se «preceptor de meninos de famílias ricas, espécie de criado de melhor qualidade». Estamos em 1793, em casa de Charlotte von Kalb, grande amiga de Friedrich von Schiller. Estamos em Iena, convivendo com Schiller e Fichte. Estamos em Weimar, de visita a Herder. E estamos com Goethe. Na revista de Schiller, Hölderlin publicou os seus primeiros textos, um fragmento do Hyperion e o poema Destino. O convívio com o génio dos supracitados, sobretudo com Schiller, deixou-o ambivalente: «O Sr. Excita-me de mais quando estou ao pé de si, (…) estou por vezes em luta secreta com o seu génio para salvar dele a minha liberdade». A situação tornou-se incomportável e Hölderlin fugiu literalmente de Iena para o colo materno, instalando-se posteriormente em casa do banqueiro Jakob Gontard, em Francoforte-sobre-o-Meno. Novamente afundado na carreira de preceptor, isolou-se na poesia:

OS POETAS HIPÓCRITAS

Frios hipócritas, não faleis dos deuses!
Vós sois tão razoáveis! não acreditais em Hélios,
Nem no Tonante e no Deus do Mar;
A Terra está morta, quem quer agradecer-lhe? ─

Confiança, Deuses! pois ornais a canção,
Inda que dos vossos nomes a alma já se foi,
E quando é precisa uma grande palavra,
Mãe Natureza! é em ti que se pensa.


E deu-se o caso. Hölderlin perdeu-se de amores por Susette Gontard, mulher do patrão e mãe dos seus educandos. Diotima, assim lhe chamava, foi o tema de muitos dos seus poemas. Do amor platónico saíram-lhe odes, elegias, extensos poemas em verso longo e uma enorme depressão amainada por cartas à amante e breves encontros secretos. Em 1798, o poeta deixou Francoforte, resistiu às preces da mãe para que voltasse à vida eclesiástica, foi para Homburg vor der Höhe, onde trabalhou uma inacabada tragédia sobre a morte de Empédocles e continuou a escrever poemas:

Ouvisse eu agora os que me avisavam, de mim sorririam e pensariam:
«Por nos recear, mais cedo este louco nas mãos nos caiu.»
E não considerariam isso um lucro…

Cantai, ó cantai-me, terríficos Deuses Fatais, a canção
Profetizando desgraça, sempre de novo ao ouvido.
Sou vosso por fim, bem o sei, mas quero antes disso
Pertencer a mim mesmo e conquistar vida e glória.


Falhado o projecto de uma revista em Homburgo, partiu para Nürtingen, Estugarda, Hauptwyl na Suíça, Bordéus… Escreveu a Schiller cartas sem resposta e partiu, partiu, partiu. Susette Gontard morre. Ninguém sabe onde pára o poeta. Apareceu novamente na «pátria, feito um farrapo irreconhecível, depois de ter atravessado a pé a França de fronteira a fronteira». Schelling encontrou-o em estado nojento e recomendou-o a Hegel, Sinclair arranjou-lhe um lugar de bibliotecário, até que, em 1806, «uma vez que a medicina não dá esperanças, entrega-o aos cuidados de um mestre marceneiro de Tubinga, Zimmer de nome, em casa de quem fica vivendo até ao fim. É o gáudio dos estudantes e dos garotos de Tubinga que se divertem a enfurecê-lo». Hölderlin continuou a escrever versos que assinava com nomes estranhos, mostrava indiferença perante as publicações dos seus poemas, era amiúde visitado pelo fantasma de Diotima, «passa nas trevas da loucura mais de metade da sua longa vida». Morreu a 7 de Junho de 1843.

Fonte: Poemas, de Hölderlin, trad. Paulo Quintela, Relógio d’Água, 1991.