Sexta-feira, 30 de Abril de 2010

PINTURA NA AREIA

Para curar-me, o feiticeiro
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro - teus olhos,
areia vermelha - a tua boca,
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.

Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.

E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.


Poemas dos Peles-Vermelhas, mudado para português por Herberto Helder, de O Bebedor Nocturno (1968), in Poesia Toda, Assírio & Alvim, Novembro de 1990, pp. 238-239.

GERONIMO

Não posso acreditar que somos inúteis, de outra forma Usen não nos teria criado.
Geronimo


Não sendo exemplar, a história de Geronimo é um excelente exemplo. Nasceu numa família de origem Bedonkohe da tribo dos Chiricahuas, Apaches do sudoeste norte-americano que levavam uma vida semi-nómada entre o Grand Canyon (Norte) e a fronteira com o México (Sul). Não admira, pois, que os seus principais inimigos fossem os mexicanos e a tribo Comanche. Curiosamente, tanto Comanche como Apache significam inimigo. Comanche significa, mais propriamente, «aqueles que são contra nós» e a designação Apache deriva de Apachu (inimigo em língua zuñi). Geronimo distinguiu-se entre os demais por ter sido um guerreiro intransigente e um líder inconformista. Entre os seus, ascendeu a xamã: uma espécie de curandeiro a quem cabia, entre outras tarefas, planear e comandar os diversos combates. Entalados entre os mexicanos e os colonos dos incipientes Estados Unidos, os Apaches foram combatendo pelo seu direito ao território como puderam e sabiam. Rendiam-se, fugiam das reservas, voltavam a combater, voltavam a render-se. Vendo os seus companheiros progressivamente convertidos à civilização branca, Geronimo sentiu-se cansado, tornou-se agricultor, aderiu ao cristianismo da reforma holandesa (acabou por ser expulso) e foi vendendo a sua imagem por feiras e exposições. Dava autógrafos, produzia arcos e flechas que depois vendia. Era uma espécie de gorila enjaulado para delicia e espanto dos visitantes do jardim zoológico que o capturara. Morreu na sequência de uma bebedeira que apanhou com o dinheiro adquirido durante uma dessas dignificantes, civilizadas e cultas exposições.

GENÉTICA

A predisposição genética dos povos forma-se na relação que mantêm com o meio ambiente. Sabemos o quão perigoso é atribuirmos características genéticas aos povos, embora seja legítimo falar de tendências que se revelam mais ou menos evidentes de indivíduo para indivíduo. Ainda que queiramos evitar generalizações, a Geografia torna evidente a pequenez territorial do continente europeu. Essa pequenez terá levado a uma escassez de recursos que nos transformou em povos colonizadores. A actuação colonizadora é universal, mas em grande escala parece-me inquestionável que nenhuma civilização a levou tão longe como a civilização europeia. A moralização das relações entre os povos e as várias culturas afastou-nos paulatinamente dessa atitude, mas não a apagou. A vontade de colonizar faz parte do nosso património genético. Não sendo mais possível colonizarmos os outros povos de um modo directo, fazemo-lo de um modo indirecto. E deixamos que os nossos líderes se encarreguem de nos colonizar a nós próprios de um modo muito mais directo. Hoje em dia, a Europa não é outra coisa: todo um povo colonizado por meia dúzia de líderes políticos, grupos económicos, forças especulativas. Resta saber como é que cada um de nós, indivíduos, vai aprender a conviver com esta nova realidade, ou seja, como é que vamos aprender a ser índios depois de tantos anos sendo cowboys.

Quinta-feira, 29 de Abril de 2010

UMA SAÍDA


Tenho andado tão apartado de tudo que já não sei onde deva dizer sinto ou pressinto. Se penso nisso, logo afasto da ideia o sentir. E pressinto que penso. Se não penso, é como se pensasse. Porque em cada segundo que não penso, em cada segundo que não penso concentradamente, passam-me pelo corpo samples de pensamento. E é como se pensasse. Concentro-me na trompete de Nils Petter Molvaer e pressinto que não muito me faltará para que pise essa terra, não muito me faltará para que sinta nas mãos o peso do que agora pressinto, não muito para cheirar essa terra que em pensamento me chega e em pensamento parte. Tal como eu, quando em pensamento fujo para as terras que agora pressinto e escrevo, para as terras que trago à página como se a página pudesse ser o solo nunca pisado onde as palavras substituem pegadas de pensamento. Sem ter saído de onde vou estando, sinto-me mais perto desse lugar que pressinto. Nenhuma ansiedade toma conta de mim, apenas uma maior sensibilidade para a fala do coração. Ele bate, acelera, cresce da planta dos pés até à boca, é um coração em fuga que nos quer saltar do corpo para fora. Sento-me a escrever e vejo-o saltar para a página, salta-me da boca para fora, prende-me os dedos com as suas inexoráveis teias e arrasta-me pela página como se eu fosse a sua sombra, uma sombra puxada por um coração como um atrelado puxado por cavalos. O coração salta-me da boca para a página, puxa-me, puxa-me, arrasta-me pelas dunas do deserto, pressinto novamente as miragens que um dia pude sentir e não mais esquecer, para agora novamente senti-las pensando, as miragens, enquanto o coração me arrasta pelas dunas do deserto. Ao longe um camelo, ali uma palmeira, à sombra da palmeira uma serpente dança ao som dos encantadores. O sopro dos encantadores é o canto das sereias neste mar de secura e abandono, um mar atravessado por povos sombrios, misteriosas gentes. Tenho andado tão apartado de tudo que é como se fosse um anacoreta do deserto, o eremita que um dia vi a moldar o barro do seu próprio cachimbo, fumando cachimbo, bebendo chá embebido na água que lhe escorria do rosto. Sinto-me cada vez mais perto desse lugar que pressinto. Um lugar de visões que atravessam oceanos, que te levam dos desertos no norte de África aos espíritos nos vales do Grand Canyon, do Império Khmer aos aborígenes da Oceânia. Vou armar o meu tipi sob o sol desse lugar, aí momentaneamente parado novamente partirei quando as nuvens voltarem a cobrir o rosto que se avizinha. Porque, mentalmente falando, em casos como o meu está diagnosticada a inquietação do espaço, esse estar bem apenas num estar constantemente em trânsito. Para já, deixo-me arrastar pela página, puxado pelo coração, enquanto pronuncio uma palavra que, de ora em diante, ouvirás com mais frequência: wovoka. Convoco os espíritos das estações para esta dança, convoco-os com o meu canto arrastado na página, convoco-os enquanto o sol se põe para lá de todos os faróis, convoco-os nas ondas que se levantam à altura de um sonho, no horizonte que desaparece atrás da neblina, em cada pegada que a areia reserva e o vento afasta, convoco-os como fonte onde a secura traga a vida que irromperá já não apenas na página, mas no corpo de onde o coração quis saltar.

QUARTO SOLITÁRIO

Se te atreveres a surpreender
a verdade desta velha parede;
e as suas fissuras, fendas,
formando rostos, esfinges,
mãos, clepsidras,
seguramente virá
uma presença para a tua sede,
provavelmente partirá
esta ausência que te bebe.

Versão de HMBF.





Conta quem julga saber que Alejandra Pizarnik nasceu no dia 29 de Abril de 1936, filha de judeus russos emigrados nos subúrbios de Buenos Aires. Diz-se por aí que não teve vida fácil. Problemas de acne e tendência para engordar ter-lhe-ão abalado a auto-estima. Refugiou-se nas anfetaminas e na poesia, receitas pouco aconselháveis a personalidades demasiado sensíveis. La tierra más ajena (1955), o primeiro livro de poemas, praticamente coincidiu com a entrada para a Universidade de Buenos Aires. Estudos de Filosofia, Jornalismo e Letras foram sendo interrompidos por interesses de ordem estética. Estudou pintura sob tutela de Juan Batlle Planas. Partiu para Paris em 1960, aí tendo ficado até 1964. Na capital francesa, trabalhou para o jornal Cuadernos, traduziu vários autores, participou na cena literária local, frequentou alguns cursos na Sorbonne. De regresso à Argentina natal, continuou a publicar a sua obra e obteve duas bolsas que lhe permitiram sobreviver até à estocada derradeira. No dia 25 de Setembro de 1972 sucumbiu à depressão ingerindo uma dose excessiva de barbitúricos. Diz-se que, antes de morrer, maquilhou as bonecas que lhe faziam companhia à solidão.

P.S.: o fantasma de Alejandra Pizarnik aparece frequentemente, e bem, na casa da lebre. Aqui.

Quarta-feira, 28 de Abril de 2010

CÃES, MARINHEIROS


Era um cão que tinha um marinheiro. O cão perguntou à esposa, que se pode fazer de um marinheiro? Põe-se de guarda ao jardim, respondeu ela. ─ Não se deve deixar um marinheiro à solta no jardim, que fica perto do mar. Um marinheiro é uma criatura derivada por sufixação, e pode recear-se o poder do elemento de base: o radical mar. Em vez de guardar o jardim, ele acabaria por fugir para o mar. ─ Deixá-lo fugir, disse a esposa do cão. Mas ele não estava de acordo. Que um facto deveria ser esse mesmo facto até ao limite do possível: quem possui um marinheiro para guardar o jardim deve procurar mantê-lo a todo o custo, assim como o cão, ou o casal de cães, que não tiver um marinheiro deve não tê-lo até a isso ser absolutamente forçado. ─ Nesse caso, só nos resta ir para uma terra do interior, longe do mar, disse a cadela. E então foram para o interior, levando pela trela o marinheiro açaimado. Durante o percurso viram muitas paisagens. O marinheiro estava espantado com as paisagens que podem existir longe do mar. Fez diversas observações a esse respeito, provocando o risonho latido dos cães que, pela sua parte, concordavam em que tinham um marinheiro muito inteligente. ─ Nem todos os cães têm a nossa sorte, disse o cão, pois conheço vários cães que são donos de vários marinheiros estúpidos. Iam por isso bastante contentes e diziam, a outros cães com quem se cruzavam, que possuíam um marinheiro invulgarmente esperto. ─ Ele tem uma filosofia das paisagens, dizia o cão. Um cão da Estrela, que encontraram naturalmente perto da Serra da Estrela, perguntou-lhes se o marinheiro gostava de sardinhas. ─ Adora-as, respondeu a cadela. ─ Isso não me admira nada, disse o indígena. E na verdade não parecia admirado. Quando chegaram ao mais interior possível, alugaram uma casa com um jardim e puseram o marinheiro a guardá-lo. ─ Guarda-o, disseram. Deixaram-lhe ao lado uma dúzia de latas de sardinhas e foram para dentro de casa. Durante sete dias e sete noites, o marinheiro reflectiu sobre as paisagens do interior e comeu as sardinhas de conserva. Depois foi atacado de esgana, e começou a andar em círculos cada vez mais apertados no meio do jardim. Os cães observavam-no da janela e viam que o seu marinheiro perdia as forças a cada volta. Um dia, ao anoitecer, caiu para o lado resfolegando. ─ O mar, ouviram-no dizer. Então foram para dentro, e dormiram. De manhã vieram cedo ao jardim e verificaram que o marinheiro estava morto. ─ Era um marinheiro tão esperto, disse a cadela. ─ Pois era, disse o cão, foi pena. E enterraram o marinheiro debaixo de uma acácia. Mas como já se haviam habituado à vida do interior, não regressaram ao litoral. Nunca mais tiveram marinheiros. ─ Para quê?, dizia a cadela, ralações já existem de sobra. E quem se atreve a negar que ela tinha razão?


Herberto Helder, in Os Passos em Volta, Assírio & Alvim, 6.ª edição, 1994, pp. 123-127.

2003…

…foi um ano excelente para a poesia portuguesa. Nesse ano nasceram a minha filha Matilde e o weblog do meu amigo Rui Almeida. Ici.

CADERNETA DO LIVREIRO #6 & 7

Chegam diariamente às livrarias portuguesas obras de cariz biográfico com intuitos diversos. Gostava de ter tempo para as abordar, embora em alguns casos a densidade filosófica do discurso me desvie de uma leitura mais pormenorizada. Penso, a título de exemplo, no Livro de Reclamações, de Solange F. Proponho, para já, duas imprescindíveis leituras para os tempos que se aproximam.

Comecemos por Obviamente Mulher (Âncora Editora), o livro onde nos é narrada a experiência por que passou Filipa Gonçalves, ex-Paulo Filipe. Capítulo a capítulo, somos levados dos “verdes anos” ─ «As minhas primeiras memórias de infância são de uma menina com uma pilinha a mais» ─ a esse momento crucial que nos aparece assim descrito: «Amanhã, por esta hora, espero já ser uma mulher perfeita. (…) O essencial vai ficar feito. Vão retirar-me esta excrescência abominável e fazer uma vagina bonita que me restitua finalmente a minha essência de mulher. Graças a Deus o “dito” nunca se desenvolveu muito. Remeteu-se sempre a um silêncio cauteloso. Percebendo, quiçá, a repugnância que me causava. Deus ou o Cosmos poupou-me às erecções e aos famosos sonhos molhados próprios dos adolescentes». Neste livro, a transexualidade aparece enquadrada num universos de pénis (excrescências abomináveis) com capacidade de percepção e prudência suficiente para não se meterem em pé no decorrer de sonhos eróticos, ao mesmo tempo que se propõe um novo conceito de mulher perfeita, ou seja, uma mulher com uma vagina bonita. Filipa Gonçalves, ex-Paulo Filipe, conta-nos ainda dos seus amores, relações familiares, ambições, desejos ─ «Queria recuperar o tempo perdido, viver a 200 à hora, numa vertigem de loucura. Necessitava de um romance como uma libelinha de luz.» ─ e lembra a passagem pela Quinta das Celebridades, uma espécie de big brother dos famosos que se passava numa quinta: «Na Quinta, apercebi-me, pela primeira vez, do que representa o trabalho rural e as dificuldades que as pessoas do campo vivem. Não é fácil dormir num palheiro, à espera que nasçam as crias de uma égua ou de uma ovelha, ou ter de limpar, cada manhã, os dejectos dos animais. Ou levantarmo-nos da cama, em pleno Inverno, às 5 ou 6 horas da madrugada, para cuidar dos “bichos”. A própria tarefa de mugir a vaca é difícil e caleja as mãos. Eu tinha pouco jeito para essa actividade mas, ao fim de algumas tentativas, já conseguia fazê-lo com as duas mãos». Gabemos a persistência de Filipa Gonçalves, ex-Paulo Filipe, por ter conseguido mugir a vaca com as duas mãos, coisa que eu me tenho fartado de tentar e nunca consegui.


Outra leitura aconselhável é este Só Deus Me Julgará (Bertrand), a biografia de Bastet. Que os 25 anos da autora não acanhem o leitor, mais que não seja pelas fotografias que percorrem toda a obra. O primeiro parágrafo da nota de badana é sintomático do que nos espera no miolo: «Nasci em Lisboa a 17 de Maio de 1985. A minha história… bem, essa já sabem. Nem sempre fui feliz, mas parece que não fui a única». Interrogo-me sobre quem possa saber a história de Bastet? Ou mesmo quem é Bastet? Bastet diz que é «uma mulher diferente das que têm sido apresentadas», embora nem sempre feliz como muitas outras. Diferente em quê? Se sabemos a história de Bastet, para quê ler o livro de Bastet? Striper, casada com João Cabeleira, guitarrista dos Xutos & Pontapés, e agora autora de uma obra que pode muito bem vir a revolucionar a literatura portuguesa, Bastet denuncia o circo de vaidades que é o mundo da noite ao mesmo tempo que se auto-define humildemente: «Bonita, culta, educada, serena e agradável…» De entre muitas e originais histórias que se contam neste livro, histórias nunca antes contadas ou ouvidas, histórias de uma vida tão cheia de aventura que fazem Melville parecer um marinheiro de água doce, destaco algumas elucubrações de extremo rigor aforístico e profundo sentido bíblico ─ «A lubricidade é a ignição que dispara a chama da procriação e da paixão, mas é também o começo de todos os vícios e de todos os pecados» ou «A masturbação é para mim fantástica, uma forma de prazer plena e egoísta» ou «Tudo isto é gula e tudo isto é fado» ─, assim como uma apurada sensibilidade que se revela quando a autora dedica duas letras dos Metallica à sua querida mãe:

«Estas palavras são bonitas, tão bonitas como as que eu nunca escreverei. / Olha para elas mãe, estas palavras são mais que palavras, são eu. São a tua filha que carregaste nos braços e que tanto protegeste. Estas palavras alimentaram-me tanto como os teus seios maravilhosos. Sabes, como gostava de voltar a sentar-me no teu colo uma vez mais que fosse e encostar-me a eles fingindo ainda ser criança. Pegas-me ao colo mãe? Por um só segundo mente para mim por favor. Diz-me que orgulhas de quem sou. Mente por favor com todas as tuas forças e a minha alma poderá descansar acreditando em ti».

Prosa de qualidade. Prosa comovente, que nos alerta também para as injustiças do mundo do trabalho:

«… já desempregada fui trabalhar para um ginásio em construção. O meu trabalho era apanhar todas as pedras que ficavam no chão das paredes partidas. De joelhos tinha de percorrer toda a área em construção para libertar com uma espátula o chão de todo e qualquer resto de tinta ou estuque que tivesse caído. Depois de percorrer toda a obra vezes sem conta por dia e carregar carros de mão cheios de areia ou sacos de cimento que pesavam mais que eu regressava a casa com 5 euros no bolso que era o que me pagavam diariamente. Aquele emprego foi um engano completo. [Os donos] não passavam de charlatões».

O emprego pode ter sido um engano completo, mas a sintaxe, a semântica, a pontuação, estão perfeitinhas..



Sempre fumei com muito juizinho, isto é, socorrendo-me dos ensinamentos dos mestres para não ser apanhado pela armadilha da degenerescência. Aquele que recorre a um veneno para pensar, depressa deixará de poder pensar sem veneno. (Baudelaire) Com o álcool tenho uma relação semelhante, ainda que aprecie, de quando em vez, um certo tipo de abuso que me leve a acreditar ser a terra as águas sobre as quais Cristo caminha. No entanto, convenço-me cada vez mais que nenhuma droga me fez tanto mal até hoje como a droga da Filosofia. Se pudesse voltar atrás, nunca tinha lido a maioria desses estupores que fui obrigado a ler durante um curso que só me serve para fundamentar algo que não carece de qualquer fundamento: a vida é uma absurda e inútil jornada que a todo o momento nos reivindica uma justificação para estarmos vivos. Seguir caminho embriagado parece-me uma justificação tão clarividente como outra qualquer.

Terça-feira, 27 de Abril de 2010

MOTIVOS

Motivado por não sei que raiva, o corpo pede-me que caminhe mais do que seria suposto caminhar num dia de solidão igual aos outros. Contorno as curvas da enseada, finto as ondas pelo caminho, persigo pegadas que me levarão onde há muito não vou, por há muito ter deixado de ir para onde em tempos o vento me empurrava. Sinto o corpo enterrar-se na areia húmida, tanto quanto o sinto levantar-se para a fortuita caminhada.
Subo a duna do outro lado onde a baía se transforma em rio, a duna que separa a terra do oceano, subo-a pausadamente, porque o coração ganha mãos e esmurra o peito. Talvez queira libertar-se da caixa, da ossatura repressiva, talvez deseje saltar para fora do lado esquerdo do peito. E chegado ao cume, respiro a frescura da resina, perco-me entre os pinheiros, tento orientar-me numa direcção que contradiga as placas, no sentido inverso dos sinais. Distanciar-me o suficiente dos outros, para que me sinta mais próximo de mim.

Afasto enxames de abelhas, desfaço criminosamente as geométricas moradas das aranhas, desvio-me das varejeiras que se saciam em carcaça morta. Subo, desço, atropelo as sombras com a esperança de escutar a maresia fresca que me há-de trazer aos lábios o descanso da civilização. É preciso meter com cuidado o pé nas analogias, mas não consigo evitar a lembrança quando ao fundo avisto a ruína e o farol:

Aqui, penso muitas vezes em duas personagens.
Uma delas é John Meikle Gibb que, lá longe, na Escócia do século XVIII, queimou a bíblia num acesso de entusiasmo e foi condenado à morte, acabando todavia por ser deportado para a América, onde se juntou aos Índios e se tornou xamane.
A outra é o conde Henri de Puyjalon, que trocou o seu Bordelais natal pelo Canadá, acabou como faroleiro numa ilha ao largo de Mingan, e falou, no seu Diário do Labrador, do prazer de viver só, «longe dos imbecis e, sobretudo, longe das pessoas de espírito».
Um xamane é um faroleiro.
(Kenneth White)

Aqui chegado, deixo-me cair para trás, estico as pernas, acendo um cigarro, fecho os olhos. Ouço as gaivotas lá no alto, uma avioneta que lhes sombreia o voo. Sobre o rosto cai um ar que sabe a sal, o vento levanta-o das vagas, leva-o ao alto, para depois o deixar cair sobre a terra, sobre o nosso corpo. Trouxe na mão um livro de poemas: «conservamos ainda as ruínas dos templos fantasmas de jardins de casas / se tivéssemos perdido as ruínas teríamos ficado sem nada» (Zbigniew Herbert). Ando sempre com livros de poemas atrás.


No regresso, já pelos passadiços civilizacionais do turismo emergente, penso nesses antepassados cujo futuro preocupa o coração da minha filha. Não sei como chegámos a isto. Cinco anos de um curso de Filosofia não me serviram senão para perceber que em cada edifício teórico há uma tentativa aberrante de sistematizar a nossa evidente insignificância. O Deus que os homens parafrasearam ter-nos-á mandado dominar a natureza, mas em nenhuma circunstância logro encontrar um só vestígio desse domínio. Os poemas, as teorias, as ideias, tudo isso eu encontro mais nas rugas das pedras, no lodo das rochas, nas pegadas que me levam acidentalmente onde estou, do que nos livros que vou trazendo pela mão para onde quer que vá.


Para a Solange.
Para o Daniel Ricardo Barbosa.

PONTA AZUL

Deixamos Chicoutimi pela 170 Oeste e em breve bifurcamos na 169 Norte. Rodamos através da floresta Kenogami, depois ao longo do lago S. João.
Pergunto a mim próprio quando nos desembaraçaremos de toda esta toponímia evangélica. Não conheço o nome índio deste lago, mas estou pronto a apostar que era belo, e preciso. Talvez fosse lago das Ondas-Azuis, ou lago das Tempestades-de-Verão, ou lago das Árvores. Nomeado por pessoas que o conheciam realmente, que estavam em contacto com a sua realidade física. Mas lago S. João, por favor! Veio aqui, S. João? Pois sim! Esse arrastava os chinelos na Galileia. E mesmo as pessoas que baptizaram o lago de S. João, também não eram realmente daqui. Tinham a parte posterior da cabeça colada ao seu grande livro negro. Então pespegavam sobre a realidade nomes extraídos desse livro e aplicavam-se a trabalhar e a multiplicar-se, como lhes ordenava a Lei. É isto a civilização, seja qual for o livro ou o código. Nada a ver com a realidade apercebida em toda a sua beleza. Por isso Flaubert podia dizer «a civilização é uma história contra a poesia».

Kenneth White, in A Estrada Azul, trad. Maria Regina Louro, Relógio d'Água, s/d, p. 45.

PRESENTE

Só de pensar no futuro dos nossos antepassados...
Matilde

Segunda-feira, 26 de Abril de 2010

CORREIOS

Se há escritores cujo nome se transformou num conceito, Charles Bukowski (n. 1920 – m. 1994) é um deles. Designar algo de bukowskiano pode significar muita coisa, mais ainda se tivermos, como muitos leitores terão, uma ideia mitológica do homem. Se assim for, arriscamo-nos a contaminar a leitura com o mito. Nos tempos que correm, ressaca dos tempos que Charles Bukowski viveu, o mito alimenta-se da iconografia disponível. Uma coisa é construirmos em torno de um nome uma imagem, outra coisa é construirmos uma ideia em torno da imagem que temos do nome. E as imagens de que dispomos com Charles Bukowski a agredir a mulher durante a filmagem de um documentário, ou perdido de bêbedo no decorrer de um célebre programa televisivo francês para o qual havia sido convidado, fundamentam não só a ideia de um escritor rebelde, como tantos outros, de um maldito, como outros tantos, mas a de um homem diluído na sua própria obra. Entre as imagens daquele homem concreto e os movimentos de Henry Chinaski, o alter-ego literário do homem-escritor − de seu verdadeiro nome Heinrich Karl Bukowski, Jr. −, não resta qualquer diferença. Sendo assim, alguns tenderão a associar o conceito de bukowskiano a um certo autobiografismo hiper-realista. Creio, no entanto, que ele é algo mais.

Peguemos neste Correios (Antígona, Abril de 2010), primeiro romance do autor norte-americano, publicado originalmente em 1971, agora traduzido para português por Rui Lopes, e atentemo-nos às pertinentes palavras de Gerald Locklin, autor do prefácio: «afastado do “cânone oficial”, mas destinado a ser um membro permanente de um cânone alternativo, ao lado do Marquês de Sade, de Henry Miller, de Anaïs Nin, e de outros que espalharam a sua verdade, quer esta ofendesse quer não as elites culturais, sem se importarem com a aprovação ou com o sentimento de ofensa dos professores» (p. 10)… Eis um dos riscos clássicos da chamada contracultura: vir o tempo a elevá-la, ou a rebaixá-la, conforme as perspectivas, ao nível da cultura. Não se trata aqui de apanhar a carreira do estatuto, nem de renegar um estatuto que se tem por adquirido à nascença, não se trata de agir em confronto com o poder tendo em vista a tomada do poder, trata-se de ser apanhado pelo próprio veneno, como uma criatura autofágica que perante o olhar dos outros se vê numa espécie de comboio para o qual não comprou bilhete.

Vítima de maus-tratos na infância, bexigoso, refugiado no álcool e na literatura, Bukowski cursou jornalismo e letras. Não era propriamente um desses vagabundos entre os quais o seu alter-ego se sentia como peixe na água. O ostracismo paterno, o desamparo, a necessidade de sobrevivência, obrigou-o a várias e esforçadas ocupações. Começou a trabalhar nos correios em 1952, interrompendo um período de três anos devido a uma úlcera, para regressar, em 1958, com novas funções. Por lá andou durante doze anos, acumulando com os primeiros poemas, crónicas e contos em revistas marginais (ou quase). Foi apanhado pela corrente beat e deixou-se arrastar, demarcando-se sempre de toda e qualquer tentativa de associativismo que lhe usurpasse aquilo que mais lhe custou a construir: uma identidade própria. Essa identidade revela-se numa escrita directa, sem subterfúgios, prolífica em situações caricatas, burlescas, mas também comovente na forma quase ingénua como procura dissimular as emoções e uma incomodativa sentimentalidade. Ler Charles Bukowski é como ouvir à mesa do café as histórias de um desses homens que procuram disfarçar a dor com o riso, que tentam afastar do corpo os fantasmas de uma existência consciente de ser absurda, que perante a iminência das lágrimas travam o sal dos olhos com mais um copo bebido de penálti.

Correios relata, nesse estilo inconfundível – que outra ambição pode ter um escritor? – a passagem de Henry Chinaski pelo funcionalismo público. Primeiro, como carteiro substituto; depois, como carteiro efectivo; por fim, como funcionário administrativo. Pelo meio, muitas mulheres, corridas de cavalos, casamentos, divórcios, o nascimento da filha, um código de conduta sucessivamente mandado às malvas. Entre outros, dois aspectos em que esta escrita se mostra genial: a brutalidade das descrições leva-nos a atribuir um valor muito mais significativo a atitudes movidas por virtudes arredadas de um mundo gerido por hipócritas. Palavras como coragem e decência, num contexto em que a pessoa humana está ao nível do cão, já não são pormenores moralistas ou moralizantes, são a âncora que resgata dos seres humanos o que lhes sobra de humanidade entre a selvajaria a que estão sujeitos. Depois a auto-ironia, a capacidade de construir uma auto-imagem que se dá de beber ao público, levando-o a mergulhar na lama já sem a auréola que Baudelaire havia retirado da cabecinha do escritor. Bem sei que em era de hi5 e de Facebook, o mundo é todo um Photoshop em incansável actividade. A imagem que geralmente oferecemos de nós, uma imagem de gente séria e sensual, de gente bonita e alegre, agradável e amorosa, determinada e elegante, em pose intelectual e edificante, é apenas mera imagem. A limpar o cu, somos quase todos iguais. E ainda que a vida não se resuma a esse gesto, não se chame a isto uma extrema simplificação da vida. Dizê-lo por estes dias dá sentido à contracultura, mesmo que saibamos do risco a que estamos expostos. Tornarmo-nos cultos.
Escrito para o Rascunho.

PSICANALÍTICO

Sou feliz.
Peço desculpa.

Sou infeliz.
Queres ser
meu amigo?

5 OBSERVAÇÕES SOBRE O SENHOR PORCO




Formalista das formas convenientes, materialista das matérias lucrativas, idealista das causas próprias, híbrido dos compromissos que o não comprometem, altruísta de especializado em truísmos, alturista de fazer turismo, principalmente intelectual, alpinista de alpinar aos elevados cargos, não obstante as alturas o aflijam, característica que partilha com os restantes seres rastejantes. Isto o porco.


O porco confronta-nos sem o saber com a mais radical das formulações da questão ontológica: porquê o porco em vez do nada?


Compreender o porco implicaria a construção de uma nova ontologia (ontobiologia, se me é permitido o conceito). Ora a importância do porco não justifica a envergadura do empreendimento.


De onde este pequeno conjunto de observações recolhidas com um único propósito: não deixar calar o grito do homem.



Jorge Roque, in Senhor Porco, ilustrações de Guilherme Faria, &etc., Novembro de 2003, p. 7.

O POÇO MÍSTICO


«Depois de ter vivido numa gaiola, abri a porta e voei ─ como se disparasse na direcção do céu. Do céu?» Escreve assim Bukowski naquele que foi o seu primeiro romance, Correios. A interrogação deixa no ar uma subtil ironia. Depois de ter abandonado doze anos de funcionalismo público ao serviço dos Correios, Charles Bukowski escreveu o seu romance. Aquele céu para o qual foi disparado foi o céu da literatura, um céu que pouco tem de céu. Lembrei-me logo do mestre Henry David Thoreau, que em 1845 abandonou a “vida mesquinha e vil” do mundo civilizado e foi viver para a floresta, montando tenda num terreno de Ralph Waldo Emerson (razoável transcendentalista, autor de A Natureza). A aventura de Thoreau nas margens do lago Walden não durou muito , mas serviu de inspiração a muito hippie, a malta que sem saber plantar uma batata ou amassar um pão olha para o campo deixando-se inebriar pela ilusão de uma vida idílica. Christopher McCandless, o jovem cuja malograda experiência motivou o filme Into the Wild, de Sean Penn, procurou repetir a gracinha. Circunstâncias da mãe Natureza, essa maravilha que entre outras surpresas nos presenteia amiúde com cheias, maremotos, terramotos, furacões e vulcões, entre outras magníficas manifestações, impediram-no de regressar ao mundo vil, acabando por morrer envenenado após a ingestão de plantas desaconselháveis para o débil corpito humano. Somos frágeis. Alguns de nós, apanhados pela nostalgia dos acampamentos índios, gostávamos de viver o mais possível entre e como os animais livres. A civilização transformou-nos em animais domésticos, bichos amestrados para números de circo, bestas enjauladas no jardim zoológico dos mercados. Ainda assim, buscamos conforto nos discursos de Tuiavii, imaginamos como seria embarcar nas mesmas aventuras que levaram Melville a uma ilha de canibais, invejamos aquele Robert Louis Stevenson que andou pelos Mares do Sul e pensamos no bom que seria sabermos dizer basta, como Bruce Chatwin, vou para a Patagónia. Mas as coisas nunca são bem o que parecem, as coisas nunca são bem o que esperávamos delas. Jack London, por exemplo, deixou-se embriagar tanto pela natureza como por substâncias alcoólicas. É provável que se tenha suicidado com morfina. Só mais um entre tantos “suicidados da sociedade” que aos olhos da ciência representam, entre outras coisas, uma certa inadaptibilidade social. Ainda longe de um misantropismo doentio, esta incapacidade de conformar a vontade às expectativas que o meio social tem de nós (e desde muito cedo nos anuncia) pode redundar numa catastrófica renegação da identidade. Se é certo que aquilo que somos é sempre um ser em construção, menos certo não será que esse ser em construção resulta da maior ou menor capacidade que cada um tem de resistir à pressão que é exercida sobre si para se tornar numa coisa que ele pode ou não desejar. Regressando à gaiola de Bukowski, o que temos a libertar da sua lição é que a vida, seja ela a de quem for, é sempre em si mesma uma grande aventura. Pelo caminho, vamos optando e decidindo. Só nos podemos queixar de não termos sabido dizer sim à nossa vontade, independentemente da vontade dos outros. Podemos permanecer engaiolados ou, como os porcos do retábulo de Issenheim, caminhar o tempo todo em volta de um ícone, andar ali às voltas, circular, como se o sentido da nossa existência estivesse na usura de um consolo que nos há-de, já mortos, levar a uma vida eterna ao lado do Senhor. A vida de recluso também é sempre uma opção em aberto. E ninguém pode garantir que seja melhor ou pior do que as outras vidas. Pessoalmente, prefiro os “suicidados da sociedade” e as suas ilusões à segurança porcina dos evangelizadores. Quer dizer, prefiro seguir em frente e tão imponderadamente quanto me for possível na gaiola do mundo, prefiro investir na estrada, do que ficar às voltinhas num poço da morte místico que nos faz crer estarmos protegidos dos terríveis pecados da mãe natureza.


Ao alto: António Dacosta, Tau ou Os Porcos do Retábulo de Issenheim (1990).


Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo

Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito

Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo

Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema

Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio de incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim

E bebe


Daniel Faria, in Explicação das Árvores e de Outros Animais, Fundação Manuel Leão, 1998, p. 15.

CRAVO


Pouco te falta para seres escravo.

OFÍCIO

Por respeito à lei ou conforme a lei, é-me (um pouco) indiferente. Desde que me deixem em paz…

Se há lição a retirar da liberdade, essa lição é a da necessidade de sermos elípticos. Magnifico paradoxo: a liberdade torna-nos escravos da elipse.

Não queiras para os outros aquilo que não queres para ti. Mas eu não quero para mim muitas das coisas que os outros querem para eles. Isso faz de mim o quê?

Domingo, 25 de Abril de 2010

MERO ERRO

Tanta foi a procura, que era inevitável o encontro. Entre procurar e encontrar, a tentativa e o erro. Ficámos a meio, mero erro entre muitas tentativas que nos trouxeram a sensação de ter encontrado motivo para parar de procurar.

O MEU 25 DE ABRIL DE 2010

Despertado da ressaca às 8, com foguetes e despertador, levantei-me a custo para mais um dia de trabalho. A jovem osga esperava por mim, ou por alguém que cumprisse as funções que ali me caberia cumprir, soubesse eu como responder à solicitação:
− Já chegou o diário?
− Qual diário?
− O diário.
A vida é um sketch humorístico que tanto pode levar ao riso como às lágrimas aqueles que se convenceram de um papel a cumprir. No palco da ópera bufa, procuro apenas representar o melhor possível o papel do espantalho. E limito-me a olhar incrédulo quem se me dirige perguntando:
− Tem livros de contos?
ou
− Tem contos?
ou ainda
− Quantos contos tem?
Sempre a subir, penso. Assim como penso que quando o assunto é a nossa felicidade a palavra tudo torna-se um eufemismo. Compreenda-se o povo:
− São 6,45€.
− Pois, sabe, isto da matemática, isto dantes era assim, era tudo pelo alto, agora, agora distraem-se, isto é da distracção. Quanto é que disse que era?
− 6,45€.
− Pois, se bem que, pois, isto da distracção, isto da distracção também é uma deficiência, uma deficiência não, uma doença, pode ser uma doença. Quanto é que disse que era?
− 6,45€. Se tiver 1,45€, agradeço.
− Não sei se tenho. Aquelas cabeças no ar, estão nas aulas e não ouvem nada, andam a pensar em tudo, depois não se concentram, distraem-se, distraem-se. Quanto é que disse que precisava?
Depois disto, houve ainda tempo para duas horas de explicações de Filosofia. Kant, ética, moral, acção por dever, acção conforme o dever, imperativo categórico, essas tretas. Uma distracção.

25 DE ABRIL SEMPRE?


25 DE ABRIL JÁ.

Sábado, 24 de Abril de 2010

O DEUS DOS HOMENS

Ainda mal refeito das elucubrações espíritas, Benjamim deu consigo a penetrar uma nuvem escuríssima. Não via uma unha à frente dos olhos. Tê-los ou não era indiferente, pois a nuvem cegara-o. Era como se Deus tivesse apagado a luz do mundo, ou como se o mundo tivesse sido assaltado por uma cegueira epidémica. Mal por mal, manteve os olhos abertos na esperança de enxergar alguma coisa no meio da escuridão. E enxergou. Entre o negrume, andava Deus Nosso Senhor. Espantava-o a tristeza do velho, a sua sisuda taciturnidade, a comiseração do olhar que a criatura exibia como exibe alguém carente de afecto. Deus parecia um menino mimado a falar sozinho. Morto de curiosidade, Benjamim aproximou-se para ouvir os lamentos do Altíssimo. Que já não tinha forças, que nada mais podia fazer pelos homens na Terra. Aquela nuvem era o seu último recurso, mais do que aquilo só mesmo vinte vulcões em erupção simultânea. Porém, a esperança era pouca. A cada terramoto, os homens respondiam com mais bispos pedófilos; a cada tsunami, os homens respondiam com mais governos corruptos; a cada tromba de água, os homens respondiam com mais juízes manietados; a cada tornado, os homens respondiam com mais empresários depravados; a cada deslizamento de terras, os homens respondiam com mais livros. O que teria Deus contra os livros? - questionou-se o pombo Benjamim. Deus tinha contra os livros o mesmo que o pombo Benjamim tinha contra o amor. Os livros desviavam o homem de Deus, o amor desviava Baltazar do seu pombo predilecto. Os livros arrastam o homem para as trevas, dão-lhe a ilusão de um saber que não tem, afundam-no num mundo de fantasia na exacta proporção em que o afastam da realidade; os livros repisam ad nauseam os pensamentos dos homens, dão asas a esses pensamentos, como se valesse de alguma coisa ao homem voar em pensamento. E para poderem voar em pensamento os homens rastejam como serpentes, fazem tudo para contaminar outros homens com o veneno das suas mentiras, os livros são o que há de mais desprezível nos homens precisamente por serem o que os homens julgam haver em si de mais divino. Vejam como tudo o que se perdoa aos livros não se perdoa a um homem, senão aos homens que escrevem livros. Crápulas insensatos e insensíveis, aos escritores tudo se perdoa. Porque uma coisa é a mediocridade dos homens, outra coisa as obras que a mediocridade gera. Mas pode a mediocridade gerar algo que não seja medíocre? Pode um rato gerar um anjo? Nisto, o pombo Benjamim afastou-se… pensando que um rato pode não gerar um anjo, mas ao homem foi dada a graça de conceber Deus.

Escrito para O Indesmentível.

O GUARDADOR DE REBANHOS


V

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

«Constituição íntima das cousas»...
«Sentido íntimo do universo»...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, é como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me,
Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.


Alberto Caeiro (Alberto Caeiro da Silva, heterónimo de Fernando Pessoa, nasceu a 16 de Abril em 1889, e nessa cidade faleceu, tuberculoso, em 1915), Poesia, Assírio & Alvim, Setembro de 2001, pp. 29-32.

Sexta-feira, 23 de Abril de 2010

OS LIVROS


Escuto as marimbas no fundo da cabeça, chamam pela fauna adormecida numa semente antiga, e de cada semente rebenta uma folha onde faremos a cama à palavra, palavra esforçada, primeiro pelo gozo da descoberta, como alguém que se descalça para provar a textura da terra, primeiro pelo espanto da invenção, como quem deseja abolir pelo caminho todas as placas reclamando ABOLIÇÃO, primeiro por ser belo todo o coqueiro que vence a secura do deserto, por ser admirável todo o escorpião à sombra da sede. Gira o afoxé, meu bem, gira com fúria essa anca de missangas coloridas. Já escuto no fundo da cabeça o eco açoitado das páginas lidas, sem que peça vêm a mim imagens, palavras, frases inteiras de autores que esqueci por lembrar sempre mais claramente o escrito ao escrevente. Escuto ao fundo da cabeça esse ar inspirado pelo riso de andar acompanhado pelo mundo, de mão dada com personagens imaginárias em cidades invisíveis, de viajar pelas espirais da Terra recolhendo em cada canto uma pedra para a memória. «Roubemo-nos ao deus Tempo e nos demos de graça à beleza total, vem». Vem comigo por essa Grécia perdida, pelos salmos incrustados na folha fina como jangadas de palavras socorrendo náufragos, pela Roma que caiu como caem todos os impérios, e por cima deles os livros, essas casas com asas que vão ficando nas bocas do mundo, que vão vindo e revindo e voltando às bocas do mundo sem que as bocas do mundo façam sequer ideia o que mastigam de cada vez que proferem um som, uma palavra, um ante-mundo. Vem, bate no agogô e vem. «Os livros são objectos transcendentes / Mas podemos amá-los do amor táctil / Que votamos aos maços de cigarro / Domá-los, cultivá-los em aquários, / Em estantes, gaiolas, em fogueiras / Ou lançá-los pra fora das janelas / (Talvez isso nos livre de lançarmo-nos) / Ou ─ o que é muito pior ─ por odiarmo-los / Podemos simplesmente escrever um». Um que vá para a fogueira, um que seja proscrito, um livro abolido como abolido vai sendo o nosso irmos, um que acabe censurado, esmagado, pisado, esquecido, um simplesmente ignorado, um livro, como se diz, retirado do mercado, feira de vaidades com cestos atolados de sabonetes, perfumes contrafeitos. Aonde nos levará a serialização do cheiro, meu bem? Massaja o djembe. Eu já escuto as marimbas no fundo da cabeça. Dancemos ao som dos livros, mesmo quando nos parecem tão pretexto para pequeninas e humanas vaidades, mesmo quando nos rebentam com a paciência, mesmo quando arrancam aos ares a sensação do lugar, mesmo quando intentam substituir o insubstituível. Insubstituível, meu bem, é o teu cheiro nas mãos da minha pele. Eu escuto as marimbas lá no fundo da cabeça, escuto-as como uma espécie de anúncio de algo novo e belo e desesperadamente só. «Ah! Solidão, multidão». Não procures entender os livros, meu bem, não tentes soprar-lhes a boquilha à espera de um som, dança no folheio das páginas, pega neles, arremessa-os contra os teus piores inimigos, oferta-os, pela dádiva que são, aos teus mais queridos amigos, trata-os como achas que devem ser tratados, como tratarias um amor. Por mim, agito os timbaus dos livros e os do meu bem, agito-os porque deles não anseio a pureza que busco no ar, nem a mansidão que procuro na sombra quando caminho por entre searas e atravesso riachos e subo e desço montes e caminho por entre vinhas e me perco entre os prédios da grande cidade e me encontro nos becos sombrios desta urbana melancolia a que vou dando pausa, isso, meu bem, com os livros. Ah, «muito se engana quem crê que está lendo ou que adivinha». Furta a vibração ao berimbau, meu bem, esta terra é o teatro onde representamos a personagem possível de uma peça escrita pela arte com que cada um se evade e ri e sonha. Não confies no livro como o peixe confia no isco. Porque quando menos esperares, serás tu o alimento de um anzol mais traiçoeiro e voraz que esse onde o isco foi insidiosamente armado. Mas canta, canta e dança ao som dos livros. Gira o afoxé, meu bem, que eu humildemente baterei palmas à tua actuação.

HOMEM QUE É HOMEM


Segundo Evo Morales, as hormonas dos frangos de aviário aceleram a calvície e desviam a masculinidade. Homem que é homem quer-se guedelhudo e a comer galinha do campo. Estou com Evo. Por isso, fui dar de comer às galinhas.

2 POEMAS DE BOLSO

X
Formasitalianas ovalidadesmolesemmarcahalentaelipsoidal
docementecoloridasdeluzloura

Meus pés e minhas costas aquecem

O fogo pegou


XIV
Beijosestertoresmotorescampainhascanhõescomboiosvozestrovõestempestadesgritosestalidosqueixascantosmentirasodiosamoresalegriashomensanimaismáquinas
Que barulho quando não se ouve nada!



Trad. Mário Cesariny.




Pierre Albert-Birot nasceu a 22 de Abril de 1876 em Angoulême. Chegado a Paris com 17 anos, dedicou-se à pintura e à escultura. Em 1916, fundou a revista vanguardista SIC (Sons, Idées, Couleurs), na qual colaboraram, entre outros, Apollinaire, Tzara, Breton, Aragon, Max Jacob, Pierre Reverdy… Um ano antes, Pierre Albert-Birot tinha decedido passar a dedicar-se unicamente à escrita. Foi poeta, romancista e dramaturgo. A revista SIC acabou em Dezembro de 1919, mas Albert-Birot criou raízes surrealistas sem nunca ter chegado a estar integrado no movimento. Morreu em Paris, a 25 de Julho de 1967.

MAIS FUNDO NÃO DÁ

Enterrados até ao pescoço na lama socrática, surdos de um silêncio ruidoso, emudecidos, provavelmente, pelo imprescindível apuramento da verdade, os deputados, mais uma catrefada de opinantes no meu país, bem podem meter o rabinho entre as pernas e assobiar para o lado, fazer-nos acreditar que a justiça, por simplesmente funcionar, é justa, esperando das hostes a costumeira sonsice com que vamos engolindo com o conforto da indiferença a porcaria que nos dão. Isto não é apenas, como se costuma dizer, uma vergonha, isto não é apenas, como ouvi hoje dizer, um caso grotesco, isto é, mais do que outra polémica qualquer com intuitos meramente políticos, isto é razão mais que suficiente para deitar a casa abaixo. Revoltemo-nos, portugueses. Boicotemos as próximas eleições. Organizemo-nos para a porrada. Eu já não acredito neste país. E tu?

Quinta-feira, 22 de Abril de 2010

PROF FIALHO

O Prof karamba que se cuide, está em formação o ínclito Prof Fialho. A coisa anuncia-se assim: no dia 2 de Maio de 2007, deixei no Insónia uma Oração contra o mau-olhado e quebranto (é só clicar). Caem-me lá comentários frequentemente, quase todos iguais. Não faço a mínima ideia porquê ou como, mas constato que, à hora em que escrevo, já vai em 388 comentários. Hoje recebi um e-mail. A simpática leitora, assim suponho que seja, solicita-me um esclarecimento:

Olá boa noite eu vi uma oração contra inveja no seu blog e adorei, mas tenho uma duvida, eu falo o nome da pessoa que tem inveja ou o meu nome? Obrigado meu email é…

É muito provável que esteja aqui o começo de uma nova carreira. Darei notícias.

TURNOS

Ao contrário do que julgam alguns neo-românticos, o melhor de se trabalhar numa livraria está longe de ser os livros. Os livros só dão trabalho e acumulam pó, nada que nos traga felicidade à vida. Se trabalharmos por turnos, o melhor de se trabalhar numa livraria é, precisamente, o trabalharmos por turnos. Depois, nesta hierarquia hedonista do livreiro, vêm as pessoas, sobretudo aquelas que entram na livraria sem a mínima intenção de comprar o que quer que seja.

Trabalhar por turnos oferece-nos uma rotatividade que quebra a rotina, que não deixa sequer espaço para o mínimo tédio. Quando fazemos horas extraordinárias, melhor. Um dia destes tive de fazer doze horas seguidas. Apanhei três turnos diferentes: o da manhã, o da tarde e o da noite. Pela manhã, o meu colega de serviço falou-me numas garrafas de vinho do Porto que estavam a preço de amigo no Pingo Doce. O Pingo Doce fica num piso acima do piso onde temos a livraria. Fui lá comprar uma garrafinha.

Enquanto trabalhava, a garrafinha ia-se rindo para mim. Formou-se-lhe no rótulo um sorriso dentado, uns olhinhos brilhantes, uma irresistível tentação. Perguntei ao meu colega o que ele achava da ideia de abrirmos a garrafa, só para experimentarmos o vinho. Ele achou que era boa ideia. Ainda não eram duas da tarde, já a tínhamos enfrascado na íntegra. Às duas fui almoçar.

Regressei uma hora depois. Falei à minha colega do turno da tarde numas garrafas de vinho do Porto que estavam a preço de amigo no Pingo Doce. Ela não fazia a mínima ideia que durante o turno da manhã eu e o meu colega tínhamos testado a qualidade do vinho. Como não a senti muito entusiasmada, perguntei-lhe se não acharia boa ideia fazermos uma vaquinha e comprarmos uma garrafa a meias. Dava um euro a cada um. Que outras oportunidades mais teríamos de comprar uma garrafa de vinho do Porto de qualidade por um euro? Lá nisso tens razão, disse-me ela. Comprámos então uma garrafa a meias. Escusado será dizer o que se passou de seguida. Ainda não eram dezoito horas, já não havia um pingo de vinho do Porto na garrafa. Às dezoito fui jantar.

Voltei às dezanove, agora já na companhia da minha colega do turno da noite. Não vou maçar-vos com pormenores. Direi apenas que ainda não eram vinte e duas horas, já eu tinha bebido três garrafas de vinho do Porto compradas a preço de amigo no Pingo Doce.

Às vinte e duas horas, entrou na livraria um homenzinho baixo, rechonchudo, muito vermelho. Parecia um certo tipo de macacos que uma vez vi no Jardim Zoológico. Tinha uns dentes muito brancos, não tirava as mãos dos bolsos, via-se que apreciava um bom copo de vinho do Porto. Seria demais pensar que eu lhe iria sugerir comprarmos uma garrafa de vinho do Porto a meias. Não foi isso que sucedeu. O homem cumprimentou-me e pôs-se a falar. Tinha emigrado para os Estados Unidos na década de 1970, ainda antes do 25 de Abril. Foi para lá trabalhar como padeiro, deixando por cá vários anos de entrega aos livros. Dez anos de funcionário na mesma cadeia de livrarias onde eu agora trabalho. Dez anos e que saudades, dizia.

Perguntou-me se eu conhecia o Alves. Respondi-lhe que não conhecia nenhum Alves. Pudera, disse ele, já lá vão quarenta anos. Isto agora está tudo mudado, dantes não havia computadores, até ouvi dizer que vão vender isto aos taberneiros da concorrência, que tristeza, dei tanto de mim a esta casa, deixei tanto de mim aqui, o meu nome ainda percorre aquelas ruas de Lisboa, tanto livro eu vendi, e agora isto, olhe que ainda hoje digo que foi o melhor trabalho que tive até hoje, já fui padeiro, vendedor da Siemens, mas o melhor trabalho que tive foi este, o tempo passou, você já não deve ser daquele tempo, não deve ter ouvido falar no Alves, nem no Armando, era um bom tipo, mas o tempo passou, já não volta, já não volta o tempo, agora é tarde, nem sei se fiz bem, se fiz mal, ter-me ido daqui, fui à procura do dinheiro e da liberdade, só vim de lá com dinheiro, e pouco, mas agora o tempo não volta, não volta.

E nisto o homenzinho baixo, rechonchudo e vermelho, o homenzinho que parecia um certo tipo de macaco, desatou a chorar, pediu-me desculpa e despediu-se. Eu corri na direcção da casa de banho, cheguei-me a uma sanita e vomitei as três garrafas de vinho do Porto que tinha comprado no Pingo Doce a preço de amigo. Enquanto vomitava, só me ocorria pensar: eu não quero ficar assim, mãe, eu não quero.

OS NOVOS RETORNADOS

Camarada Van Zeller, dizem que Portugal vai falir. É bem feito. Ninguém nos mandou ser independentes. Tivéssemos ficado espanhóis e nada disto se verificaria. Diga, desculpe, o quê? Espanha também vai falir? Pois, mas se falirem há-de ser ao som do flamenco, com as sevilhanas ébrias de dança e toda a ciganagem a bater palmas. À gente da minha terra, lamento informá-lo, sobra o fado e a Mariza. Mas tenho esperança que falir não seja uma coisa assim tão má, e tenho ainda mais esperança nas cartadas que o governo guarda debaixo da manga e ninguém está a topar. Esta conversa da falência pode muito bem ser como o bluff no poker, quando os nossos adversários menos esperarem sacamos de uma daquelas jogadas de génio em que sempre fomos exímios. E eu estou convencido de que isso já está a acontecer. Sabe o camarada Van Zeller que o nosso país é dos que mais génios exporta para os quatro cantos do mundo. Lembrar-se-á daquela teoria da exportação de cérebros. Antecipando-se à globalização, Portugal foi espalhando os seus cérebros por toda a Europa, pelo norte e pelo sul das Américas, pela Ásia, África, etc.. Desconfio que até junto dos esquimós haja um cérebro português a fazer das suas. Se há coisa que não nos falta é portugueses geniais no estrangeiro. Por cá, fica o refugo. É bem provável que a nuvem de fumo que atravessa os céus europeus se deva à incansável actividade de um desses cérebros. Aquilo do vulcão, lá está, é só para disfarçar. É bluff. Com tudo isto o governo justificou a necessidade de investimento no TGV e a importância de um novo aeroporto. Justificou-o, pelo menos, com a mesma desenvoltura com que o senhor Pedro Arroja justifica os benefícios históricos da Santa Inquisição. Nada comparável, porém, com a grande jogada em marcha: o regresso a casa dos filhos pródigos da nação, o regresso dos cérebros por aí disseminados que agora voltam para sermos salvos da crise, da falência, da agonia em que nos estamos a enterrar como uma pedra num pântano. Inês de Medeiros aí está. Um dos nossos cérebros exportados, um dos mais ilustres, está de volta. Em plena Assembleia da República, já trabalha arduamente para nos salvar do naufrágio. Distrai-nos com filmes. E que filmes! O país não percebe que as viagens entre Paris e Lisboa são um justificadíssimo investimento na salvação da pátria, são o começo de uma nova era, a era dos cérebros retornados. O país precisa de Inês tanto quanto Pedro precisava. Abram os olhos. Vós, leitores, que o camarada Van Zeller já os tem bem esbugalhados.

Quarta-feira, 21 de Abril de 2010

EU PECADOR ME CONFESSO




Obrigado aos cigarros, que me fazem companhia em noites de chuva. Obrigado ao criador da cerveja. A ele os meus encómios. Obrigado também à vida, que me tem dado pão quente com manteiga no aconchego do recuperador de calor. E obrigado à morte, por andar distraída. Agradeço também ao canal televisivo que me deu a conhecer este jovem. Para que se saiba, é por estas e por outras como estas que ainda vou vendo televisão.

INSISTIR NO POEMA


Quando o asfalto está molhado, o trânsito exige cuidados redobrados. Os olhos estancam na memória de um rosto, escrevo algumas linhas para desenganar a dor, cumpro mais um dia certo de ter ouvido, algures, um animal assobiar o desespero de uma vida em ponto morto.

Faz-se tarde, fecho os olhos. Amanhã é outro dia. Mas com cuidado, não vá a melancolia resvalar para a berma do precipício. É que em dias assim só uma ideia nos vem à mente: a contagem final começou ainda não éramos gente.

Uma contagem, dizem, decrescente, mas que a toda a hora nos parece crescer para o alto de qualquer coisa muito alta, quiçá o planalto onde gostaríamos de ver espalhadas as cinzas da nossa viagem. Ainda agora começou, já ameaça terminar.

Não alimento nostalgias, o passado chega-me sempre tardiamente, mais triste que o agora, e o presente parece-me o mais desprezível dos tempos, mesmo quando já não tem passado e dá por garantido o extravio do futuro.

Limito-me a viver as horas como se por elas estivesse a ser vivido, servindo-me do passado para as histórias com que hei-de recordar ter existido.

muchas gracias

A ESTÁTUA JACENTE

I

Contido
em seu livre abandono
um dinamismo se alimenta
de sua contenção pura.

Jacente
uma atmosfera cerca
de tal força o silêncio

como se jacente guardasse
o gesto total do segredo.

II

O jacente
é mais que um morto: habita
tempos não sabidos
de mortos e vivos.

O jacente
ressuscitado para o silêncio
possui-se no ser
e nos habita.

III

Vemos somente o repouso
como uma face neutra
além de tudo o que
significa.

(Mas se nos víssemos
no verbo totalizado
- forma que se concentra
além de nós -
Mas se nos víssemos
na contenção do ser
o repouso seria
expressão nítida.)

Vemos apenas
repouso:
contenção da palavra
no silêncio.

IV

Jaz
sobre o real o gesto
inútil: esta palma.

A palavra vencida
e para sempre inesgotável.



Nascida no interior de São Paulo em 1940, filha de pais analfabetos, Orides Fontela é um caso singular da poesia brasileira. Embora tenha publicado a partir do final da década de 60, a sua poesia só veio a ser reconhecida na década de 80, quando lançou vários livros que granjearam o reconhecimento da crítica. Autora de uma poesia concentrada, com uma economia acentuada de recursos, ainda que possuindo uma alta voltagem estética, Orides Fontela distinguiu-se pela essencialidade absoluta e por um domínio estilístico difícil de igualar. O seu carácter complexo, os problemas pessoais e a visível incapacidade para os enfrentar, acabaram por lançá-la na pobreza quase total. Faleceu em Novembro de 98, deixando uma obra difícil de situar.
Jorge Henrique Bastos, in Poesia Brasileira do Século XX - Dos Modernos à Actualidade, Antígona, Fevereiro de 2002, pp. 292-298.

Terça-feira, 20 de Abril de 2010

SEM ETIQUETA

Depois de muito reflectir sobre o assunto, decidi suspender o meu sportinguismo enquanto José Eduardo Bettencourt for presidente do meu clube de coração. Nem sequer vou falar noutros nomes, só gostava mesmo que me esclarecessem o que tem o Paulo Sérgio que o Carvalhal não tem?

PATRÍCIA E PEDRO, DOIS SANTOS NA TERRA

Ela era a Patrícia Lança e os perigos da sodomia, ele é o Pedro Arroja e os bons objectivos da Inquisição… Meu Deus, por que pariste gente desta?

CADERNETA DO LIVREIRO #5


A nota de badana informa: «Pouco é o que sabemos sobre Vera Galpe. (…) Quando aceitou o convite para trabalhar fora do país, sabia que todos aqueles papéis, assinados e carimbados, eram a autorização para dar o cu». É o que espera muita da emigração contemporânea. Solidária com os demais, Vera escreveu este Vírgula, Caralho (Caderno, Junho de 2007). O título é como o algodão, não engana. Deixo um excerto que prova haver literatura para os amantes da zoofilia com tendências antropofágicas:

Isso mesmo. Peguei-lhe nos tomates com tanta força que parecia que se ia borrar todo.
Acalmei-o com um beijo, com saliva. Banho de saliva, escarreta celeste que acalma os fracos. O olho? Suguei-o com rancor. Quase se descolava.
Ele com um tesão de ouro. Barra de ouro. Pronto para mim.
─ Vou foder-te.
Ele, sempre a guinchar, não ouviu.
Também não precisava, ia fodê-lo de qualquer maneira, depois enrabá-lo até me apetecer.
Só quando lhe soltei os tomates é que parou o guincho.
Com cara cretina e assustada:
─ O que é que me vais fazer? O que é esta merda? Que tesão, porra!
Solta-me as mãos, deixa-me tocar-te, deixa-me abraçar-te.
─ Queres abraçar-me, paixão?
─ Sim, quero.
─ Queres abraçar-me e beijar-me?
─ Sim, beijar-te, beijar-te toda.
─ Então anda cá.
Foi divertido, o gajo parecia um peru depois de cortado o pescoço. Tonto e alegre com a chegada da morte.
Com as mãos bem chegadas sobre os seus cabelos, esfreguei-lhe a tromba vezes sem conta, para cima e para baixo. ─ Beija! Desde as mamas até à cona.
(…)

Enfim, a coisa continua por aí fora no mesmo ritmo e com a mesma inquestionável qualidade. Uma dúvida: que animal será esse que tem tromba, parece um peru, guincha e deixa-se enrabar por uma mulher? E o que será uma escarreta celeste? Os sublinhados são meus.

DA CONVERSA ENQUANTO ESPECTÁCULO

Suponho que o problema resida na ditadura do respeitinho. É raro o português, mormente figura pública, que não se leva demasiado a sério. Se alguém aceita participar num programa de entretenimento apresentado por um humorista, é suposto que o humorista aproveite a presença do convidado para gozar um poucochinho com ele. Isso não acontece em Portugal porque o humorista sente-se intimidado pela presença expectante e algo amedrontada do seu convidado. Tudo correria melhor se este soubesse participar no jogo oferecendo ao público um pouco de sentido de humor, algo que se revela impossível em gente que se leva demasiado a sério.

EVOLUÇÃO


Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo,
Tronco ou ramo na incógnita floresta…
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo…

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paul glauco pacigo…

Hoje, sou homem ─ e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, na imensidade…

Interrogo o infinito e às vezes choro…
Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.



Antero de Quental nasceu em Ponta Delgada a 18 de Abril de 1842, no seio de uma das mais antigas famílias locais. Partiu para Lisboa com apenas 10 anos de idade, tendo ingressado posteriormente na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Nesse tempo, começou por se destacar como autor de panfletos contra o conservadorismo que vigorava (e de algum modo ainda vigora) em Portugal. Nos jornais e nas revistas de Coimbra, publicou os primeiros poemas e artigos de crítica literária ou índole política e filosófica. «Em 1865, aos vinte e três anos, e «arrumado», definitivamente, o canudo de bacharel em Direito, Antero lançar-se-á à procura de si mesmo e da sua inserção no «Mundo» que, temporalmente, lhe coubera em sorte. Ora, esse «Mundo» ─ lembre-se ─ é o da Revolução Industrial e das suas sequelas estruturais: a alteração dos tradicionais ritmos de vida e de movimentação; a «questão social» e os novos apelos de liberdade e de justiça: o socialismo versus o liberalismo…» (Joel Serrão) Para trás tinham ficado, entre outros, os Sonetos de Anthero (1861). 1865 foi o ano das Odes Modernas, advento de uma certa modernidade que originou forte polémica inscrita na História da Literatura Portuguesa como a Questão Coimbrã. Há quem se refira inclusive a um duelo à espada entre Quental e Ramalho Ortigão, tendo este ficado ferido num pulso. Tomado pelos ideais socialistas, Antero de Quental foi tipógrafo na Imprensa Nacional e em Paris. De regresso a Lisboa, aceitou colaborar num jornal democrático e iberista. Seguiram-se viagens aos EUA e Canadá, intensa actividade política e propagandística, as denominadas Conferências do Casino, inauguradas em 1871 com um programa onde pontificavam, entre outros, Eça de Queiroz, J. P. Oliveira Martins, Manuel de Arriaga e Teófilo Braga. É dessa época o célebre Causas da decadência dos povos peninsulares nos três últimos séculos. Proibidas as conferências, Antero dedicou-se novamente à literatura, nunca abandonando, porém, as preocupações políticas e um forte sentido de intervenção social. 1874 marcou o aparecimento dos primeiros sintomas de doença nunca diagnosticada (constituição maníaco-depressiva?). Antero de Quental consultou vários médicos nacionais e internacionais. A conselho de um famoso médico parisiense chamado Charcot, isolou-se num estabelecimento termal nos arredores de Paris. Outrora atormentado filosófica e politicamente, sucumbia agora aos tormentos psicológicos. Recorde-se, porém, que já em 1868 o tom que perpassava na epistolografia do poeta não era o mais animador: «Aqui estou em Lisboa: nada mais te posso dizer, porque não conheço razões de aqui estar senão todas negativas, isto é, por não poder estar noutra parte». Ainda assim, a desilusão não o impediu de candidatar-se a deputado pelo Partido Socialista nas eleições gerais de 1879 e 1880. No ano seguinte, adoptou as filhas do seu falecido amigo Germano Meireles. Fixou residência em Vila do Conde, onde viveu durante dez anos. «No imaginário anteriano, poesia e filosofia foram sempre ─ e de 1865 a 1885 ─ formas gémeas ou de matricial convergência da mesma inquietude fundamental. (…) Com efeito, pode verificar-se que a produção poética anteriana seria contínua desde os dezasseis aos quarenta e três anos, ou seja, de 1858 até 1885, data do último soneto» (idem). Desiludido com a situação nacional, regressou a Ponta Delgada com as filhas adoptivas. No dia 11 de Setembro de 1891, suicidou-se, no Largo de São Francisco, junto ao Convento da Esperança.

CÚMPLICE

À medida que se acumulam noites mal dormidas, o cansaço ganha em evidência e poder. Poderás escolher lutar contra ele, mas é luta perdida. Além do cansaço, há a irritação. O acumular de noites mal dormidas transporta a irritação até à flor da pele (curiosidade: o Disponível para amar tem o nome de Amor à flor da pele, no Brasil), e nada é bom à flor da pele (nem o amor), porque o que é à flor da pele esgota, e quando já esgotado pelo acumular de noites mal dormidas qualquer outro esgotamento é insuportável, como naquele livro do Kundera, O insuportável peso do esgotamento. É um daqueles problemas irresolvíveis, no entanto, uma vez que cada dia terá que ser vivido, independentemente das noites (e dos dias) que lhe antecederam. Tal como há comprimidos para dormir, deveria haver comprimidos para permanecer acordado. É particularmente deprimente atravessar um dia plenamente consciente de que se está em modo semi-.

Aqui.

NARIZ

Nasci e cresci num lugar semelhante à Winesburg de Sherwood Anderson. Um lugar fértil em personagens grotescas, personalidades imersas em frustrações acumuladas ao longo dos anos por não terem conseguido perseguir os seus sonhos, por não terem sabido agir de acordo com as ambições que deixaram enterradas no pântano das aparências, um lugar de gente amargurada com os outros porque não soube, quando era preciso, actuar de acordo com os seus desejos e anseios mais íntimos, gente que por ter desistido de ir à procura acabou abrutalhando-se, gente que por se ter cindido a uma verdade, ou seja, a uma mentira, cometeu as maiores loucuras na esperança de reconquistar o tempo perdido. Ter abandonado aquele lugar foi como poder voltar a respirar, ainda que por pouco tempo. Oito anos na capital mostraram-me que afinal o problema não estava necessariamente no meio, mas na relação que cada indivíduo estabelece com o meio onde está inserido. Na província ou nos meios urbanos, ninguém escapa ao ridículo por contrair ou expandir a sua suposta identidade. Na realidade, ninguém escapa ao ridículo. Até porque a nossa identidade fica sempre aquém do que projectamos e além da ideia que fazemos de nós próprios. Nós podemos não ser apenas a ideia que os outros têm de nós, mas também somos isso. Entre o que somos realmente e a ideia que os outros fazem de nós resta-nos, por uma questão de sobrevivência e de sanidade mental, aprender a conviver com o arrependimento ou optar pela mais arrogante das atitudes: continuar a tirar macacos do nariz como se nada se passasse à nossa volta.

Segunda-feira, 19 de Abril de 2010

O ESPECTÁCULO DA CONVERSA

A alguns a vida prega partidas, a outros só prega chegadas. Este é o trocadilho mais idiota que me ocorre para dizer ao mundo que cheguei a uma conclusão. Já lá irei. As fintas que o destino tece levaram-me a assistir a duas estreias este fim-de-semana: Herman 2010 e Lado B. Ora, se não esperamos que Herman seja um Jay Leno à portuguesa nem que o Bruno Nogueira chegue a parecer uma amostra de Conan O’Briien, era mais que desejável um mínimo de esforço no sentido de evitar o facilitismo da piada com motivo futebolístico e do Ricardo Araújo Pereira como convidado. Lado B só se tornou interessante quando o pagador de promessas entrou em cena. Cinco minutos finais. E a melhor piada acabou por vir do ex-ministro Manuel Pinho: «já prometi tantas vezes que ia deixar de fumar… O senhor importa-se de cumprir essa promessa por mim?» Herman 2010 fez recordar os momentos menos engraçados de Hermanias, Herman Enciclopédia, Herman98, Herman99, HermanSIC. O mais trágico disto tudo, e agora vem a conclusão, é constatar que os portugueses serão sempre figurinhas demasiado formais. Um tipo assiste aos talk shows norte-americanos e fica impressionado com o sentido de humor e a vivacidade dos convidados. Cá as pessoas parecem estar sempre demasiado sérias, sorumbáticas, comprometidas com a imagem, parecem quase invariavelmente portuguesas. E isso é triste, porque vê-las naquele contexto ou às nove com o Mário Crespo é quase a mesma coisa.

Domingo, 18 de Abril de 2010

WINESBURG, OHIO

Após a edição de Pergunta ao Pó, de John Fante, as Edições Ahab voltam a investir num autor norte-americano menos conhecido do grande público. Sherwood Anderson (n. 1876 – m. 1941) nasceu em Camden, Ohio. As origens humildes obrigaram-no a trabalhar desde muito cedo. Aos 17 anos, mudou-se para Chicago. Menos dependente da família, conseguiu conciliar os estudos nocturnos com o trabalho diário num armazém. Completou o serviço militar combatendo em Cuba durante a Guerra Hispano-Americana, regressando posteriormente ao Ohio para se casar, zangar-se com a mulher e mudar-se novamente para Chicago já com a intenção de se tornar escritor a tempo inteiro. Em Chicago, juntou-se a Carl Sandburg e Theodore Dreiser, divorciou-se e voltou a casar, desta feita com a ex-mulher do poeta Edgar Lee Masters. Dois romances iniciais, Windy McPherson’s Son (1916) e Marching Men (1917), não lhe garantiram qualquer sucesso. Só granjeou o reconhecimento dos seus pares ao terceiro livro, este Winesburg, Ohio que agora aparece vertido para português por José Lima. Seguiram-se prémios, viagens pela Europa, encontros com Gertrude Stein, mais divórcios e casamentos. Instalado em New Orleans, partilhou um apartamento com William Faulkner, tornando-se uma das principais influências do autor de Absalom! Absalom! e ajudando-o a publicar o primeiro romance.

Por muitos considerada a sua obra-prima, Winesburg, Ohio (1919) é um daqueles livros que, pela sua organização formal, questionam a essência do romance enquanto género literário. Não sendo propriamente uma colectânea de contos, também não se encaixa no género mais convencional da grande narrativa. Em boa verdade, trata-se de uma obra composta de histórias unidas por um mesmo espaço físico, por um tempo comum, embora com ligeiras e momentâneas derivações, e pelo cruzamento de personagens que ora aparecem, ora desaparecem, deixando atrás de si um rasto que permitirá ao leitor, no final do livro, fazer da dispersão os fundamentos de uma narrativa englobante e unívoca. São vinte e quatro os sketches coligidos pelo autor. À caracterização de uma pequena povoação da América profunda, junta-se uma reflexão sobre o sens de la vie sustentada nas perturbações que assaltam cada um dos seus habitantes. Estas personagens apenas serão compreensíveis na relação que estabelecem com o meio social onde estão inseridas. Sublinho, do artigo de John Updike publicado à laia de posfácio, o seguinte apontamento: «Apesar de Winesburg acumular elementos exteriores ─ ruas, lojas, personalidades locais ─ enquanto segue tacteante o seu caminho, o seu peso é uma essência espiritual, um certo gosto acidulado e doce da vida tal como ela decorre nas solitárias casas da América alumiadas à luz do candeeiro. Uma beleza atormentada vive no meio desta desolação domesticada; o desfile de Anderson de espectros anelantes constitui em suma uma petição democrática pelos falhados, os esquecidos, os encurralados» (p. 253).

Por outro lado, parece haver como que um esforço de entendimento da dimensão grotesca de cada uma das personalidades em evidência. Entra elas, destaca-se o jovem George Willard. Repórter do Winesburg Eagle, George é o elemento para onde convergem todas as situações. As pessoas aproximam-se dele e contam-lhe as suas histórias, elegem-no confidente, estabelecem com ele vínculos de simpatia, dão-lhe conselhos, assediam-no. Porém, George alimenta um único sonho: «deixar a sua terra para a grande aventura da vida» (p. 242). De resto, não é o único em Winesburg com os mesmos anseios. Outras personagens, mais ou menos dominadas pela solidão e pelo desespero, estabelecem com o meio social um sentimento de deslocação que as transforma numa espécie de fantasmas de carne e osso. São exemplo disso o Dr. Reefy, acumulando pensamentos em pequenos bocados de papel que depois deita fora, Elizabeth Willard, a mãe de George, casada por conveniência «com Tom Willard, um empregado do hotel do pai, porque ele estava à mão e queria casar na altura em que ela tomara a decisão de casar» (p. 219), ou Alice Hindman, invadida de tristeza e de abandono por não ser amada, correndo nua pela rua fora, debaixo de chuva, pensando entregar-se ao primeiro homem que lhe aparecesse pela frente.

Não por acaso, a primeira das histórias de Winesburg, Ohio intitula-se O Livro do Grotesco. É sobre um velho escritor que vê desfilar perante si, nas intermitências do sono, uma procissão de figuras grotescas. «Todos os homens e mulheres que o escritor tinha conhecido se tinham tornado grotescos» (p. 23). Talvez Sherwood Anderson pretendesse projectar um sentimento pessoal acerca da sua própria história. Em certos aspectos, George Willard assemelha-se a um possível alter-ego do autor. Ou talvez nada seja tão simples. O Livro do Grotesco é um livro sobre verdades. As verdades são bonitas, excepto quando as pessoas as tomam para si e passam a chamar-lhes a sua verdade. Esforçando-se por seguir a sua vida de acordo com essa verdade, as pessoas tornam-se grotescas e a verdade transforma-se numa mentira. Após a leitura de Winesburg, Ohio, a sensação que nos fica é a de termos sido expostos à verdade de cada uma das personalidades que motivam as histórias relatadas. E essa verdade é ao mesmo tempo aterradora e encorajadora: afinal, são poucas as personalidades de Winesburg, Ohio que lograram desbravar caminho para que a sua vida pudesse consumar-se. Ao contrário, parecem ter-se fechado numa redoma que apenas lhes permitiu ver a vida passar por elas. A grande dúvida é se em partir ou ficar não estará a vida presa a essa ilusão de que é preciso cortar laços para tomar nas próprias mãos as rédeas de um destino que, em qualquer das circunstâncias, acaba sempre por ser mais fruto dos acasos do que uma construção individual.


Escrito para o Rascunho.

O HOMEM QUE FALAVA COM OS MORTOS

No exacto instante em que o pombo Benjamim abandonava a Rua dos Poetas, São Pedro abriu as portas do céu e deixou cair sobre a terra uma chuva copiosa. Benjamim procurou refugiar-se debaixo de um toldo vermelho que vira logo ali ao lado, mas como o toldo estava todo esburacado bateu as asas na direcção de uma janela iluminada. Aí se abeirou. Olhou pela janela e viu um homem e uma mulher sentados a uma mesa. Pensou que pudessem estar a tomar uma refeição, mas sobre a mesa havia apenas um baralho de cartas, um aquário vazio virado de pernas para o ar e um pau de incenso. O homem pegava nas mãos da mulher e falava, afagava o aquário de pernas para o ar e falava, lançava as cartas sobre a mesa e falava. A mulher limitava-se a acenar com a cabeça. Pelo seu rosto escorriam lágrimas tão copiosas como a chuva que caía do céu. Então, Benjamim viu uma placa exposta sobre um móvel arrumado atrás do homem. Nessa placa, havia uma inscrição: Bartolomeu, o homem que fala com os mortos. Benjamim estremeceu num misto de medo, espanto e emoção. Bartolomeu, o homem do aquário de pernas para o ar, estava a falar com uma morta. E Benjamim conseguia ver a morta. Era vidente. Um pombo-correio vidente. Ou talvez não. Afinal aquela figura de mulher chorava. Será que os mortos também choram? Benjamim pôs-se a pensar no assunto. Partindo do princípio que exista vida depois da morte, não interessa sob que forma, pode ser sob a forma de espírito, essa coisa que ninguém sabe o que é mas deve ter cordas vocais, porque se não tivesse não se fazia ouvir, ou então não tem mas comunica por telepatia, mas partindo do princípio que exista, então o que fazem essas vidas que vivem depois da morte? Será que no mundo delas existe um Bartolomeu, o homem que fala com os vivos? Os espíritos dormem, não dormem, voam, movimentam-se como o vento, são eternos, estão em todo lado? Será que as vidas que vivem depois da morte também morrem? Serão eternas? Isso não será, vá lá, um pouco entediante? Haverá morte depois da morte? Terão essas vidas vontade própria, necessidades, ou serão apenas uma forma de luz com cordas vocais que se deixa convocar por gente que não vendo interesse em falar com os vivos se ocupa a falar com os mortos? Quando são convocados, porque têm sempre os espíritos uma imagem tão agradável da morte? Haverá espíritos que odeiam estar mortos, que prefeririam estar vivos como nós? Que terão eles para nos dizer que nós não sabemos já? Se a morte é um lugar tão consolador, o que estamos a fazer na vida? Somos parvos, masoquistas? Porque querem os vivos convocar os mortos, porque querem falar com os espíritos? Não estão satisfeitos com a vida que têm, não lhes é suficiente saberem-se vivos, ainda precisam de confirmar que depois de vivos não estarão mortos? Se a vida em terra não lhes é agradável, querem viver eternamente para quê? E se a vida em terra lhes é agradável, por que motivo estão interessados noutra vida qualquer? Os espíritos dos nossos mortos morrem connosco? Quando morremos, encontramo-nos com eles? Podemos escolher não nos encontrarmos? Um espírito chinês pode comunicar com um espírito português? E conseguem entender-se? Um vidente português pode convocar o espírito de um chinês? E percebe o que ele diz? Estarei eu vivo? Serei eu um espírito? Viverá eternamente o espírito dos pombos-correio? Poderá Baltazar convocar o meu espírito se eu morrer? Será que finalmente poderá comunicar comigo? Pode um homem convocar os espíritos dos seus animais de estimação e falar com eles? Será possível comunicar com o espírito dos vivos ou só conseguimos comunicar com o espírito dos mortos?

Escrito para O Indesmentível.

Sábado, 17 de Abril de 2010

A RAIZ DO MAL

Nunca digam a um homem obsequioso que é preciso cortar o mal pela raiz. Ele vai pôr-se a escavar, a escavar, a escavar, a escavar até encontrar a raiz do mal. Jamais se dará conta que a raiz do mal é o poiso de muitos e cantarolantes passarinhos.

MANETA

O homem que estava farto da vida tinha um problema em mãos. Era ele o problema. Porque também não queria deixar de viver, e porque estava nas suas mãos resolver o seu problema, o homem que estava farto da vida amputou as duas mãos. Agora já não tinha um problema em mãos nem estava nas suas mãos resolver o seu problema. Também estava ligeiramente menos farto da vida.

NUNCA MAIS É... O DIA QUE TU QUISERES

Quando trabalhava de segunda a sexta, desabafava frequentemente de si para si: nunca mais é sábado. Agora que trabalha de segunda a domingo, com folgas alternadas de semana para semana, fica sem saber o que se dizer. Só lhe ocorre mesmo: nunca mais é o fim do mundo.

CADERNETA DO LIVREIRO #4



Este clássico da filosofia portuguesa, assinado pelo insigne Prof. Herrero, é uma obra absolutamente incontornável para um entendimento profundo da repercussão dos mundos esotéricos na estrutura psicossociológica dos comportamentos humanos. Escrita numa linguagem acessível e escorreita, rendilha números de equilibrismo mental que sugerimos a todos quantos tragam dentro o que o Prof. Herrero equilibra no cocuruto. Não aconselhável a tias mansas.