quinta-feira, 30 de maio de 2019

OPERAÇÃO STOP GERINGONÇA


José Oliveira e Castro fez seis ações de fiscalização preparadas em segredo e só com o conhecimento de mais dois funcionários. Mário Centeno não foi avisado da inspeção.

José Oliveira e Castro foi nomeado diretor das Finanças do Porto em 2015, por decisão da então ministra das Finanças, a social-democrata Maria Luís Albuquerque.



Tudo vale.

EUROPEIAS


Mais do que a abstenção, que inclui mortos, gente que simplesmente não quis votar e gente que não pôde votar, impressionam os brancos e os nulos. Estamos a falar de 229662 pessoas que se dirigiram às urnas para manifestarem o seu completo desagrado. Podiam ter ido directamente para a praia, mas não quiseram deixar de  mandar o sistema à merda. São mais do que as pessoas que votaram na coligação PCP-PEV ou no CDS-PP ou no PAN, pelo que seria respeitável oferecer-lhes pelo menos um eurodeputado. Um que fosse branco e nulo. Enfim, julgo que a seu tempo sentir-se-ão dignamente representadas. Não gosto das europeias, nunca gostei. Fui votar por fidelidade ao meu partido e porque respeito o trabalho do João Ferreira. Tentei ver um debate e não consegui. O candidato do PS fazia a propaganda do governo, o do PPD/PSD fazia a contrapropaganda do governo, o do CDS-PP falava de José Sócrates. Só Marisa Matias e João Ferreira estavam interessados em discutir questões europeias. No debate entre os partidos menos representativos aquilo parecia uma anedota com um contraponto chamado Rui Tavares. Uma pena ter de o ver ali, já que tem ideias, é inteligente, destoava. Não me surpreendo nada, portanto, com os níveis de abstenção. A generalidade das pessoas não sabe para que serve o Parlamento Europeu, julga incompreensíveis os vencimentos e ajudas de custo e mais não sei quê dos eurodeputados, o que é perfeitamente compreensível. Será legítimo esperar-se de quem ganhe o ordenado mínimo em Portugal o mínimo respeito pelo Parlamento Europeu? Aquilo a que chamam projecto europeu, alicerçado numa vontade de garantir a paz entre as nações e gerar prosperidade entre os povos, trouxe paz podre (menos mau) e austeridade entre os povos a bem da saúde do sistema financeiro. O Brexit é a bandeira de uma confusão na qual podemos incluir a falta de respostas para a questão das migrações, os muros da vergonha, as tremendas assimetrias nos níveis de vida em cada um dos países da União. Já ninguém fala da Grécia, mas eu ainda me lembro de Dimitris Christoulas, o pensionista que em Abril de 2012 se suicidou na Praça Syntagma. Ficou, para mim, como símbolo desta União Europeia. Dediquei-lhe um poema no meu livro "Estação 2012". Os dois primeiros versos manifestam a dúvida: «Que nos prende a este lugar / onde já nada brilha?»

quarta-feira, 29 de maio de 2019

RAÚL GUSTAVO AGUIRRE



NO FUNDO DOS TEUS DIAS APENAS O AMOR FICARÁ

No fundo dos teus dias apenas o amor ficará.
Quando romperem as pedras, quando estalarem os vidros,
quando apartarem as lentas e piedosas cortinas,
não se verão teus ossos que nada foram,
não lerão teu nome borrado pelos ventos,
não encontrarão teu rosto nas arenas,
mas o amor estará onde tu estiveste,
poderão trazê-lo do fundo dos seus dias,
levantá-lo, pô-lo de pé, levá-lo em andores
por um tempo melhor, de beleza sem fome,
por um tempo de magia, sem penas nem justiça,
como um dia há-de ser o tempo para todos.



Celebrado tradutor de poesia, Raúl Gustavo Aguirre (n. Buenos Aires, Argentina, 2 de Janeiro de 1927 – m. 18 de Janeiro de 1983) fundou a revista Poesía Buenos Aires (30 números publicados entre 1950 e 1960). Revista influente, nela encontramos a colaboração de Edgar Bayley e Mario Trejo, entre muitos outros. Aguirre foi também um importante ensaísta, aproximando-se tanto das teses invencionistas como do criacionismo. Poeta da síntese, coloca em cada palavra um peso muito específico e nada enfático. Foi um aforista exímio que reuniu os seus pensamentos num volume com o título Asteroides. Versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 273.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

domingo, 26 de maio de 2019

CITAÇÕES

Há dias li isto, agora leio isto. O excesso de citação não me incomoda tanto quanto a deficiência de pensamento. Problemático é quando essa deficiência surge dissimulada pelo tal excesso. Nas aulas de Filosofia em Portugal discutia-se isto, nomeadamente quando certo aluno irritante acusava nos filósofos portugueses uma ausência de pensamento próprio. Era quase tudo comentário ao pensamento alheio.

O ÚLTIMO A RIR CHORA MELHOR


sábado, 25 de maio de 2019

O RESTO JÁ DEVEM CONHECER DO CINEMA



   A cidade é Tebas. Foi Cadmo quem a fundou, depois de lhe ter sido entregue a missão de recuperar uma Europa raptada. Em Tebas vive uma família, a de Édipo. Conhecemos a versão que Sófocles lhe ofereceu numa das mais famosas tragédias gregas. Édipo nasceu amaldiçoado, matou o pai, casou com a própria mãe, Jocasta, com quem teve três filhos, Etéocles, Isménia, Antígona, Polinices, furou os olhos quando finalmente percebeu a embrulhada em que se metera. A cidade de Tebas é aterrorizada pela Esfinge e perseguida pelas maldições de uma família desavinda. Com “As Fenícias”, Eurípedes propôs um outro enfoque para a tragédia de Édipo. Ele conseguiu derrotar a Esfinge, já está cego, mas Jocasta ainda não se suicidou. Amaldiçoados pelo pai, os filhos varões de Édipo e Jocasta confrontam-se pelo domínio de Tebas. Matam-se um ao outro no campo de batalha, para desgosto da mãe, que perante o cadáver dos filhos se degolará.
   É típico da tragédia grega que o destino se sobreponha às decisões. Estas são quase sempre erradas, na medida em que pretendem opor-se ao destino, ou seja, desviam-se dos vaticínios divinos. Jocasta não se matou por vergonha, mas sim por amor aos filhos, ou talvez por entender finalmente que era esse o seu destino. Há coisas que nunca mudam, esta é uma delas. A história da humanidade prossegue aparentemente ao acaso sobre um mar de sangue. É o sangue que nos liga, o sangue derramado em guerras violentas, o sangue que transmitido de geração em geração faz da humanidade uma grande família. Uma grande família que se mata, que se autodestrói, que se corrompe.  Uma grande família selvagem a tomar decisões erradas, comportando-se como feras, bestas, animais. Onde fica a liberdade no meio disto? E o amor? Se o destino comanda o curso da História, para onde nos envia ele? O maior desafio que a tragédia nos coloca é esse entendimento do Tempo que transcende as circunstâncias.
   O dramaturgo inglês Martin Crimp (n. 1956) recuperou “As Fenícias” numa peça com um título tão enigmático quanto a Esfinge: “O Resto Já Devem Conhecer do Cinema” (2013). Na produção levada a cabo pelo Teatro Nacional São João, em colaboração com o Teatro da Rainha, o cenário coloca o público no centro da arena. As bancadas que no palco estão voltadas para a sala transformam o público numa espécie de cenário vivo e inesperado. Nós somos o grande espectáculo da humanidade que as palavras dos actores ecoam. Daí que o coro de raparigas fenícias, trajadas como revolucionárias maoístas, usando por vezes sobre o cabelo o véu da vergonha, se nos dirija mais para confundir do que para esclarecer. Como na antiguidade, elas dançam e cantam, mas sobretudo encenam, sabem a peça de cor e salteado, sobrepõem-se com jogos fonéticos às falas dos actores, dirigem os actores, e provocam-nos com inquéritos, questionários, com fragmentos do mundo "burrocrático" e estatístico em que vivemos, retratos violentos da nossa própria mortandade. Serão más? São reveladoras.
   Para lá das circunstâncias, o que sabemos do cinema não esgota o que o Teatro tem para dizer. O essencial é dito ali, o resto é provável que o saibamos do cinema. Ele deu-nos a ver guerras, o sangue, os efeitos especiais da morte, o espectáculo da decadência, foi-nos dado ver pelo cinema o grande fogo-de-artifício da violência, dos massacres, dos genocídios, das fábricas de morte, com corpos estropiados, exangues, a carne a ser rasgada por punhais, balas, o cinema reproduziu com impressionante naturalidade a selvajaria dos homens. Um excerto de um filme de Pasolini é-nos mostrado, o olhar inocente de um bebé ao colo de uma mãe que o amamenta. O que fica por dizer? O que fica por mostrar? O que fica por saber? 
   Quando numa sala a tela é substituída pelo corpo dos actores, desfaz-se o distanciamento que existia entre a representação e o objecto representado. Agora estamos na presença de, somos nós, a humanidade inteira ali representada, quem actua dentro do seu próprio filme. Há qualquer coisa de muito especial neste tipo de relação que é difícil de explicar. Pelo texto percebemos que apesar da linguagem ser outra, os gestos permanecem intactos. A família de Tebas serve de exemplo, a sua história é de algum modo a nossa história, actualizada pelos modos de ser e de dizer que as circunstâncias transformam. Mas o essencial permanece, esse entendimento do Tempo que transcende as circunstâncias.
   Em entrevista, Crimp revela que queria que o coro fosse constituído por crianças. Imagem de futuro. Problemas de produção levaram-no a optar por jovens mulheres, crianças e adultas ao mesmo tempo, adolescentes, ou “adultescentes”, jovens mulheres enérgicas, vivas, férteis. São elas quem marca o ritmo, transportando para a actualidade o clássico. Fazendo-nos ver, com a clareza que apenas os cegos Édipo e Tirésias parecem conseguir ver, a força do destino nas nossas decisões. Deixa então de haver cisões no Tempo, isto é, deixa de haver passado e presente, todo o Tempo é a História de um futuro adivinhável onde se repetirão guerras, mortes, sangue, maldade. E o bem que a arte resgata da miséria universal.

Na imagem ao alto: Édipo detém Antígona.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

PRÉMIO CAMÕES 2019


Banda Sonora Essencial: aqui.

Eu sou seresteiro, poeta e cantor

terça-feira, 21 de maio de 2019

UMA PARÁBOLA DE RAÚL GUSTAVO AGUIRRE




PARÁBOLA

Um pássaro leva o sol no coração.
Quando começar a cantar
ainda muito silêncio haverá na sua música
será possível compreendê-la
mas depois muito lentamente
a música crescerá
e ao ardente meio-dia
no imenso e furioso meio-dia
o pássaro e quem o seguia terão desaparecido.

Raúl Gustavo Aguirre (n. 2 de Janeiro de 1927 – m. 18 de Janeiro de 1983), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 269.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #18



   Evitemos classificar idades na história dos homens. Em tendo havido uma idade das trevas, quando terá sido a idade da luz? Dessas épocas que dizem negras chegam-nos ecos luminosos, tal como nas eras mais pacíficas descobrimos buracos negros de maldade. Pode o tempo difundir-se linearmente ou a esmo, o que nos parecerá improvável é que nessa difusão predominem o bem ou o mal, a virtude ou o vício, como gigantes inexpugnáveis. Em qualquer lugar, em qualquer época ou era, sempre a história dos homens foi uma batalha interminável entre bem e mal. Empédocles, o  pré-socrático, terá sido quem primeiro reconheceu no mundo a dinâmica das coisas universais. Assim era no seu tempo, assim continua a ser no nosso.
   Entre hoje e ontem podemos vasculhar nos escombros, nas ruínas, nos destroços da batalha, que encontraremos sempre entre as vítimas quem tenha ido para a vanguarda em benefício próprio ou pelo bem alheio. Só os últimos, creiam, devem merecer o epíteto de grandes homens. Giovanni Pico della Mirandola (1463-1494) foi um deles, apesar da morte prematura quase o ter condenado ao esquecimento. Inimigos não lhe faltaram, desses com quem vale a pena disputar o pensamento e dos outros, daqueles para os quais a contenda rapidamente se afunda no pântano da calúnia e do insulto tosco. Quanto a estes, não lhes guarda a história o nome. Àqueles o tempo perdoa as falhas.
   Com apenas 31 anos de vida, Giovanni Pico desafiou as regras do seu tempo propondo-se debater tudo quanto pudesse ser objecto de discussão. Os opositores rapidamente o acusaram de ímpio, extravagante, orgulhoso, herético. Respondeu-lhes com a Oratio de Hominis Dignitate (1480), discurso que coloca a natureza ambivalente do homem tanto acima das bestas como dos anjos. A nossa vantagem sobre as outras criaturas de Deus é sermos livres de optar, degenerando até à brutalidade ou regenerando o espírito a caminho da perfeição. Portanto, minhas filhas, o que ides encontrar neste Discurso Sobre a Dignidade do Homem (Edições 70, Novembro de 1989) é um elogio da vontade, é uma defesa da razão, é um hino à liberdade.
   Educado para ser padre, para pensar e obedecer como padre, ele fez-se filósofo. Enquanto tal, condenou tudo quanto pretendesse pôr em xeque a liberdade do pensamento e o desígnio da razão. A ele devemos, numa primeira instância, a separação das águas da teologia das águas da filosofia, num tempo em que tudo não só se confundia como se cria único e indiscutível. Não contra Deus, ele amou o homem. Amou o homem por amor ao homem, por amor à razão e ao pensamento, porque só ao homem cabe decidir sobre o que pretende ser: besta ou supremi spiritus? A escolha é vossa: «a partir do momento em que nascemos na condição de sermos o que quisermos, que o nosso dever é preocuparmo-nos sobretudo com isto: que não se diga de nós que estando em tal honra não nos demos conta de nos termos tornado semelhantes às bestas e aos estúpidos jumentos de carga».
   A escolha é vossa, mesmo que múltiplos sejam os caminhos para cada uma das opções. Em optardes pelo caminho do juízo, lembrai-vos de como apenas com razão e amor podeis limpar a alma da sujidade e dos vícios que a conspurcam: a inveja, a mentira, o despotismo, a avareza, o racismo, o ódio à diferença, a intolerância, o etnocentrismo, o hiperbolismo, a mania de que se é superior aos outros, o nepotismo, a cagança… Quanto ao mais, tentai viver o mais apaixonadamente possível cada momento das vossas vidas, não desperdiçando um segundo que seja com a vida daqueles cuja opção foi o atalho da brutalidade, o caminho das bestas, o desperdício deste bem precioso e efémero que é estar vivo.

TRÊS POEMAS DE RAÚL GUSTAVO AGUIRRE




A CAVERNA

Está-se bem na minha caverna.
E lá tudo é possível.
Não há rei mais poderoso
do que este ser solitário.

O único inconveniente,
é certa sensação
de que algo essencial
ocorre noutro lugar.

*

BOAS RELAÇÕES

Os reclusos detestam-se
mas apesar do rancor
tratam-se com educação.

Os reclusos detestam-se
mas contudo, por dignidade,
jamais falam com o guarda.
Os reclusos detestam-se
mas à noite mantêm diálogos
fingindo que falam sozinhos.

*

AQUELE QUE NUNCA APRENDE

Aquele que nunca aprende toca o fogo,
aquele que nunca aprende dá uma mão,
aquele que nunca aprende volta a andar.

Aquele que nunca aprende magoa-se
contra uma parede e contra outra
e depois contra outra e contra outra
e continua a caminhar.


Raúl Gustavo Aguirre, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,  pp. 274, 270, 272.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

CRÓNICA DE UM VENDEDOR DE SANGUE


Usados desde os tempos da China imperial, os dazibao tornaram-se muito populares durante a chamada Revolução Cultural. Eram um instrumento de delação que favorecia o anonimato, sem quaisquer filtros contra a calúnia, o boato ou a mera intriga. Mao transformou-os num purgante social. Cartazes enormes expostos publicamente, com as acusações mais diversas, levavam à perseguição dos visados forçando sessões de crítica cujo fim último era a humilhação ou a execução. Xu Yulan foi vítima de um desses cartazes, depois de alguém a ter acusado de prostituição. Xu Sanguan, o marido, sabia que o mais velho dos seus três filhos não era do seu sangue. Resultara, segundo Xu Yulan, de uma violação. Ainda assim, Xu Yulan foi obrigada a permanecer vários dias numa avenida da cidade com uma placa pendurada ao pescoço onde se lia: “Prostituta Xu Yulan”. A história é-nos contada pelo escritor chinês Yu Hua (n. 1960) no seu segundo romance, publicado em Portugal com o título Crónica de Um Vendedor de Sangue (Relógio D’Água, Fevereiro de 2017). A tradução de Tiago Nabais foi realizada a partir do original chinês.
   A Revolução Cultural é um dos temas predilectos do autor, aqui retratada a partir do drama de uma família que tudo faz pela sobrevivência. Órfão de pai, abandonado pela mãe, Xu Sanguan é distribuidor de casulos numa fábrica de seda. A pobreza leva-o a vender sangue como forma de subsistência, esse bem precioso onde a própria vida se condensa. «Uma pessoa pode vender farturas, pode vender a casa ou a terra… Vender sangue é que não. Mesmo que se venda o corpo, não podemos vender sangue. O corpo é de cada um, mas o sangue pertence aos antepassados» (p. 82), diz-lhe a mulher. Yu Hua relata esta vida com comovente clareza, sem artifícios semânticos ou narrativos. A sua poesia é como vento afagando as copas das plantas. Os diálogos são de uma simplicidade desarmante, claros e objectivos como os gestos das personagens, gente humilde e modesta com traços de carácter que sobressaem mais pela honradez das decisões do que pela complexidade das reflexões. Porém, por detrás deste pano movem-se as sombras da miséria. Os cenários repercutem uma vida de privações e de ignorância, a ingenuidade das pessoas é afectada pelo medo, há cedências à corrupção e as hierarquias sociais surgem bem definidas.
   A bondade no coração de Xu Sanguan comove-nos na mesma proporção em que a maldade social que o rodeia nos repugna, uma faz a outra sobressair em equilíbrio tipicamente taoista. Ele coloca a vida em risco pela família, vende o seu sangue para garantir a sobrevivência dos que são do seu sangue, mesmo do filho que sabe não ser seu. No fundo, esta Crónica de Um Vendedor de Sangue é também a crónica de um conservador de sangue que acima da sua existência coloca o valor da família. Ele sabe desse valor por lhe ter faltado a sua, sabe quão importante para si foi ser ajudado por um tio que mal conhecia, sabe da força desses laços que resistem a tudo quanto se lhes possa opor. Sabe-o com a clareza das coisas puras. Mas também sabe como é fácil um homem perder resistências, sejam elas morais ou físicas, cedendo às vontades mais mórbidas. A vingança é uma delas. Por isso lhe ouvimos dizer aos filhos que quando crescerem têm de violar as filhas do homem que lhes violou a mãe. A questão que coloca mais vezes ao longo de vinte e nove capítulos é: até onde estás disposto a perdoar? Talvez a resposta seja mais simples do que parece, talvez possa ser: até onde chegar a consciência dos meus erros, das minhas falhas, dos meus desejos mais maldosos.
  A história da família Xu não é diferente da história de muitas famílias, apesar das circunstâncias que condicionam e definem a acção. O que a torna especial é a sua dimensão simbólica. Yu Hua pretende retratar um período específico da história chinesa desviando-se das singularidades políticas que caracterizam o seu país. Por detrás desta família esconde-se o fantasma do grande líder, do grande educador, daquele a quem o povo devia amar mais do que à própria família. Daí que quando Xu Sanguan se propõe matar a fome dos filhos cozinhando para eles com a boca «Com a minha boca, vou cozinhar um prato para cada um e vocês podem saboreá-lo com os ouvidos» (p. 118) , o que na realidade o narrador está a fazer é a denunciar as consequências sociais de um regime numa determinada época. O que ele nos quer dizer é que Mao alimentava o seu povo pelos ouvidos, deixando-lhes vazio o estômago. O resto já toda a gente sabe como é: «Estava velho e no seu corpo corria mais sangue morto do que vivo» (p. 236).

terça-feira, 14 de maio de 2019

MONDA



Quatro livros publicados: O Pequeno Mal (Edições Sempre-em-Pé, 2011), El Segundo (edição do autor, 2015), RSO&SBC (Douda Correria, 2018), este escrito a meias com Ramiro S. Osório (n. 1939), e Monda (Edições Sempre-em-Pé, Abril de 2019). No jornal Público, Luís Miguel Queirós referiu-se-lhe há tempos como uma voz dissonante da novíssima poesia portuguesa. Colocando de lado a problemática dos novíssimos, podemos indagar a questão da dissonância. O que os poemas coligidos em Monda oferecem de incomum no vasto, díspar e complexo mundo da poesia portuguesa actual é o culto da rima, realizado com apuro rítmico que não é frequente encontrarmos nas novas gerações. O poema Champanhe é bom exemplo:

Na noite em que inventaram o bagaço
Vim a saber depois
Pensaram em nós dois
Na noite em que inventaram o bagaço
Como que por magia
Sabiam que eu havia
De o usar pra puxar o lustro ao espaço
Até os olhos doerem de brilhantes
Porque goste-se ou não
É assim que as coisas são
E nunca voltam a ser como eram
Dantes.

Mas o título deste poema denuncia o seu tempo. Champanhe é fruto da ironia, figura de retórica altamente vulgarizada nos dias correntes. 
   A poesia de Sebastião Belfort Cerqueira (n. 1987) encaixa lindamente nos carris instaurados no século XX português por um poeta como Alexandre O´Neill. De resto, é nele que pensamos quando lemos o poema Paisagem da página 29: «Fico como o do cherne / Contente com o empate» (p. 29). Também muito de agora é a salada de referências mais ou menos óbvias. Da citação roubada aos Fleetwood Mac para epígrafe do livro a um poema evocativo do poeta norte-americano Shel Silverstein, da dedicatória a Ramiro S. Osório a uma evocação de Roberto Carlos — «E que tudo o mais / Vá prò inferno» (p. 60) —, muitos são os faróis que alumiam estes versos. Alguns de convivência improvável. Esta é uma das características mais sedutoras de Monda, a capacidade de conciliar a inquietação de um Álvaro de Campos ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra com o punk desabrido de uns Butthole Surfers. 
   Inquieta ou indiferente, desinteressada ou melancólica, esta poesia exibe no seu aspecto mondado uma pulverização de referências da qual absorvemos um prazer de leitura a que não há-de ser alheio o divertimento da escrita. O sol, o mar, dias lindos, como que surgem envoltos na incerteza de uma piada. O cinismo do discurso recorre ao jogo semântico, como nesse Terceiro poema sobre o mar em que a preposição “sobre” surge com o duplo sentido de “em cima de” e “acerca de”: «Sobre o mar / Como um destroço / À procura de ir ao fundo / Da questão que ninguém pôs / (Chama-se sol)» (p. 15). Por vezes o poema resvala para o autoquestionamento, mas sempre com a clara intenção de lhe retirar qualquer “importanticidade”. Pode um poeta assim ser acusado de ligeireza, o que em si mesmo não é defeito nem virtude. Em nada havendo a perder ou a ganhar, o que interessa, no final, é o usufruto livre das palavras. E estes poemas sugerem essa liberdade, porventura epicurista na raiz filosófica que possam ter: «Vou passar a tarde a rir / Como um perdido» (p. 25). Onde outros escrevem lágrima, Sebastião Belfort Cerqueira escreve riso, onde aqueles escrevem tristeza, este grafita alegria, onde alguns mergulham na dor, este procura fazer emergir o prazer, onde aqueles cultivam melancolia, o autor de Monda parece colher contrastes. Ganha o leitor com a diversidade.

sábado, 11 de maio de 2019

PALHAÇO RICO OU POBRE?



Joe Berardo é um homem de negócios. Eu não gosto de homens de negócios, da mentalidade que os comanda: lucro, lucro, lucro, lucro. Mas seria interessante pedir aos indignados deste país, a começar pelos opinantes de serviço, que explicassem o que pretendem para o mundo. Enquanto homem de negócios, pelo que me apercebo, Berardo simplesmente se aproveita/ou, com as vantagens de supostamente ter muito dinheiro e influência, de um sistema altamente permeável a este tipo de homens de negócios. Em que mundo pensam as pessoas que vivem? Afinal, o que querem os liberais e os capitalistas deste país? O que esperam? Um sistema mais vigilante? Ou têm fé no bom coração dos homens de negócios. O mercado regula-se a si mesmo? Como? Onde? Com quem? Palhaços ricos, pobres de espírito?

sexta-feira, 10 de maio de 2019

CRIOULO DO UNIVERSO



O oceano branco circula no meu coração
enquanto canta outro oceano de prata dourada,
que se solta das águas do sol.

Já é demasiado tarde para ser só de uma província,
             e muito cedo para pertencer,
             todo,
             ao planeta vindouro e sangrante
             resplendor.

Oh, acode, acode minha hierarquia de peão do planeta,
             gaúcho com tranças de sangue,
             meu pai,
e aparelha-me o melhor cavalo ruão do universo:
para atravessar a água dourada da morte,
              e ouvir-me,
              todo,
              sempre em ti.

O oceano branco soluça pela imortalidade.

Francisco Madariaga, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,  p. 264.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

TRADUZIR COHEN


Se não cabe na cançoneta, se não entra na pauta da nossa cabeça, a letra portuguesa é só um esqueleto patego servido a frio, como as tripas do Porto que o poeta enjeitou como placebo do amor. Há ainda problema maior: aquilo sem a espessura sonora da língua ligada originalmente à música, só a ferros se aguenta, fica ali mutilado e sofrível quando sozinho na página ou tela, em branco


dama, aqui.

Sen no Rikyū disse:


quarta-feira, 8 de maio de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #17



   Tal como nos são oferecidos desde a infância, os conceitos têm dupla face. Se nos ajudam a organizar, acabam mais tarde ou mais cedo por nos trair. Ao Zen podemos chamar filosofia prática. Correto seria, porém, que lhe chamássemos apenas Zen. Zen é Zen. Nesta simplicidade, minhas filhas, repousa adormecida a incomensurável sapiência. Despertemo-la. Como? É um mistério. Apenas a vida poderá oferecer saber à vida, apenas a experiência, a observação, a meditação. Do lado de cá da barricada tudo se constrói por parábolas, metáforas, axiomas. Os ocidentais cresceram a falar das coisas, os orientais crescem a falar com as coisas. Isto até se ocidentalizarem.
   O problema está, um dia podereis constatar, em fazer de tudo um problema. Vede como Sen no Rikyū resolvia a questão: «O chá não é mais do que isto: / Ferve-se a água / Faz-se uma infusão com chá / E bebe-se… / É tudo o que é necessário saber». Nesta concentração no necessário nos aproximamos, unimo-nos na busca do essencial, a raiz está na base. Também Epicuro, de quem vos falei, apelava ao estritamente necessário. Não cantava assim o urso Balu ao jovem Mogli? Em parando para pensar, o tormento coloca-se-nos: para que quer tanto alguém que tem apenas por certo a morte? Sabendo-se finito, por que desperdiça o homem seu tempo com ruídos desgastantes, com a tagarelice do pensamento, com absurdos existenciais?
   Ainda não chegámos lá, reconhecemos. O silêncio é o mais árduo dos caminhos, exige-nos despojamento, acção na inacção, exige que sejamos conforme a clareza das constatações. Somos bestas colectoras. Para quê ambicionar a lua se ela vem até nós? Basta, minhas queridas, que o coração se predisponha a recebê-la que se abra à sua luz nocturna. Mais do que na cabeça, Zen aloja-se nos pulmões, na respiração, como ele a poesia dissemina-se pelo ar, o pólen que floresce de estação para estação. É mistério, «no momento em que um pensamento o toca, desaparece». O mais aprende-se com silêncio, no silêncio, pois este é meio e é fim. Mesmo quando em retiro a ironia nos desmente. Observai os quatro monges num retiro de silêncio absoluto:

A vela apagou-se!, diz o mais jovem dos monges.
Não deves falar! É um sesshin (espécie de retiro) de silêncio total, observa severamente um monge mais velho.
Porque falam, em vez de se calarem, como tinha sido combinado! faz notar com humor um terceiro monge.
Sou o único que não falou!, diz com satisfação o quarto monge.

   Está a graça na desgraça. Assim andamos na vida, a falar por cima do silêncio a que nos propomos. A contradição não é motivo de censura, antes factor de aprendizagem. O desafio está em superar tamanha contradição. Zen coloca-nos perante este desafio como o mestre que diz ao discípulo: caminha parado, no presente está a eternidade. Temos muito a aprender com Os Melhores Contos Zen, mesmo que não sejam os melhores, mesmo que tais classificações impliquem já uma selectividade contrária ao próprio Zen. Samurais, monges, velhos poetas, viajaram em busca da liberdade através de um sonho bem desperto: desfazerem-se do Eu. Como pode alguém desfazer-se do Eu? Ora, ora, simplesmente desfazendo.

QUEIMÓDROMO


Uma jovem com cerca de 20 anos foi encontrada seminua e aparentemente embriagada numa zona de vegetação, lateral ao Queimódromo, junto à Circunvalação, no Porto, na manhã desta quarta-feira. Por mostrar sinais de provável agressão e haver suspeitas de violação, a mulher foi transportada para o Hospital de Pedro Hispano, em Matosinhos.



Notícia de hoje, aqui.

terça-feira, 7 de maio de 2019

"cromos que tanto gostam de sair repetidos"


É só ir às imagens do Google, não custa nada. Fica amostra acima, o suficiente para percebermos dos problemas de consciência desta triste criatura. Passa a vida a falar dos outros como quem confessa pecados, o betinho reguila. Já me chamou de tudo, agora estranho apenas o tom de professorzeco a dar lições sobre dilemas de escritores e mais não sei quê. Tipo genial, uma mente brilhante. Aproveitem-no. 


Se continuar com interesse neste caso de amor pode seguir para aquiaquiaqui, aqui

ESTE AMOR QUE ME ENTERNECE


O mais recente número da revista LER traz chamada de capa para um artigo do Bruno Vieira Amaral onde se responde à questão “Quem são os novos valores da nossa literatura?”. Eu sou um dos felizes contemplados. Como seria mais do que previsível, o meu amante secreto não perdeu tempo. Aí está ele, novamente, a mostrar quão concentrado vive a sua vida na minha vida. Adora-me, ama-me, não me larga. Ainda faço como o vocalista dos UHF e escrevo um livro sobre este enternecedor caso de stalking. Os outros escritores contemplados no tal artigo são Djaimilia Pereira de Almeida, Carla Pais, Sandra Catarino, Manuel Filipe Mochila, Filipa Martins, Rui Lage. O Bicho podia ter escolhido qualquer um deles para manifestar a sua repugnância pela prosa em causa, escolheu-me a mim porque me ama, venera-me. E eu sinto-me amado como nunca me senti. Se fosse questão de idades, podia, por exemplo, ter falado no bom Lage (n. 1975). Ah, mas ele publicou-o na Língua Morta. Se as suas dores de barriga tivessem que ver com o facto de alguém escrever em vários géneros (o que é isso dos géneros literários?), ele também tinha muito por onde pegar. Lembrou-se de mim. Se fosse o tipo de artigo em si, podia ter apontado o dedo ao Miguel Filipe Mochila. Mas como, se lhe dedicou todos os elogios lá no pasquim onde regurgita bílis, contra todas as probabilidades tendo em conta o seu acérrimo combate aos núcleos afectivos? Afinal, não tem Mochila traduzido para a Língua Morta? Este rapaz ainda há-de acordar um dia, olhar-se ao espelho e ver a fronha de ranço que foi ganhando ao longo dos anos. Só lamento constatar o tempo perdido por tão jovem talento com esta velha carcaça. Há vidinhas mesmo infelizes, porra. E isso mete dó. Clique na imagem para ver melhor. Se tiver interesse neste caso de amor pode seguir para aqui, aquiaqui. Aviso: cuidado com os cheiros.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

VEM NO FACEBOOK


O Novo Mundo é uma coisa maravilhosa. 

FRANCISCO MADARIAGA



CANÇÕES NUMA VIAGEM A CAVALO

1
Os cavalos nascem para amar secretamente como as madrugadas.

2
Os cavaleiros viajam com ponchos de pele de cervos celestes manchados de sangue.

3
Uma dor como o chilreio de um pássaro de água, perdido na imensidão.

4
O amor de um guerreiro cuja lança tem aço de água.

5
O terror de paisagens afundadas com os tesouros do Diabo.

6
Há uma certa água de ouro na imensidão:
apenas  Jesus Cristo e Rimbaud a conheceram.

7
Conservar sempre uma talha dessa água.



Francisco Madariaga nasceu a 9 de Setembro de 1917 na Provincia de Corrientes, vivendo até à adolescência rodeado da Natureza selvagem. Influenciado pelo idioma guarani, manteve forte atracção pelas raízes. Estudou em Buenos Aires, aproximando-se dos surrealistas que publicavam na revista Letra y Línea. Publicou o primeiro livro de poesia em 1954, com o título El pequeño patíbulo. Foi Premio Nacional de Poesía em 2005. A sua poesia é marcada por um forte contraste entre a paisagem selvagem da infância e a mundanidade urbana de Buenos Aires. Versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,  p. 265.

IRRESPONSABILIDADE


É curioso observar a forma como as pessoas avaliam a responsabilidade política. Detenhamo-nos por instantes na Venezuela. Ainda que não simpatizemos particularmente com Nicolás Maduro, como avaliar as acções de Guaidó nos tempos mais recentes? Como avaliar o incitamento à manifestação popular, garantindo aos venezuelanos que tinha as forças armadas do seu lado? Viu-se que não tinha, o que leva a desconfiar da insensibilidade do regime. Noutras circunstâncias, a irresponsabilidade de Guaidó tinha resultado num banho de sangue. Agora vem admitir uma intervenção militar dos EUA. Não sei se estão recordados dos resultados da última intervenção militar dos EUA num país estrangeiro. Enquanto se ocupa em cimeiras com coreanos e russos e chineses, Trump saliva com a instabilidade na Venezuela. E Guaidó bebe a saliva. Apanha o povo por tabela.

domingo, 5 de maio de 2019

UM POEMA DE FRANCISCO MADARIAGA



OS POETAS OFICIAIS

Ajustais vossa esfera ao mais íntimo do porvir?

Débeis cães anões, tendes a vosso serviço os escritores nacionais, passarões da pátria.

Canastreiros dos frutos do ódio, não estou arrependido
de ter a meu serviço as jóias e os frutos do desejo.

Principezinhos destronizados de todo o sangue em decomposição na natureza.

Eugenios, Equis, Clauditos, cachorrinhos de cinza.


Francisco Madariaga (1927-2000), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,  p. 254.

sábado, 4 de maio de 2019

UMA FOTOGRAFIA APONTADA À CABEÇA


A tradição judaico-cristã instaurou entre nós o problema da queda, ao colocar sobre as decisões humanas o ónus do pecado. Deus ter-nos-ia criado à sua imagem e semelhança, cabendo-nos assegurar a santidade através de comportamentos impecáveis. Mas logo esses comportamentos traíram o criador quando, ainda no Génesis, quisemos saber mais do que devíamos e metemos a mão na árvore do conhecimento. A história do homem na Terra é a história de um ser em queda, ou seja, de um ser a aterrar, vindo do céu para a Terra, de um ser em estado de deterioração. Fomos feitos como anjos, acabamos como homens. À evolução das espécies apomos a degenerescência da carne, criatura entre as criações divinas. Deus ofereceu-nos o livre arbítrio, podemos sempre mudar, a mutabilidade é, aliás, a nossa característica mais evidente, nota-se no próprio corpo, na passagem do tempo pelo corpo. A morte é o fim último dessa degenerescência, sendo até possível entender entre a verticalidade do ser vivo e a horizontalidade do ser morto essa imagem de queda. Um corpo em queda é um corpo à morte, é um corpo que desfalece.
   A questão da morte não é nova na poesia de José Anjos (n. 1978), poeta que ao terceiro livro se afirma como um dos mais difíceis de situar na poesia contemporânea portuguesa. Facilmente o associamos à tradição surrealista onde a imagem pesa sobre os versos como numa pintura, poesia dirigida ao olhar com impetuosos elementos conotativos. Mas ainda que lhe aceitemos a dimensão onírica, esta poesia não é essencialmente automática. De resto, quantos surrealistas o foram verdadeiramente? Vejamos, a título de exemplo, como o tema da queda se coloca. No poema intitulado Lengalenga do Precipício (p. 17) a ideia de “nada” baliza o tempo, tudo quanto é manifesta-se entre dois “nadas” (antes de ser, depois de ser) que delimitam um espaço de terra (onde se é). O poeta diz: «caímos na sua morte quando ele quer / caímos ainda vivos com os outros / no pensamento, caímos no pensamento / dos outros // mesmo assim, a inevitabilidade da queda / teima em escapar à percepção» (p. 16). A queda é um estado que apela à «consciência de si próprio», é no confronto com os outros que nos apercebemos dessa condição humana, a queda está tão associada ao pensamento como ao corpo, a sua consciência resulta da inter-relação entre corpo e pensamento: «sem consciência de si / a queda será apenas um peso morto» (p. 17).
   O tom reflexivo do poema afasta-o de uma lógica inconsciente, imprime nas palavras um ritmo de pensamento que sugere interpelações, dúvidas, um percurso concretizado entre a inquietação da dúvida e a sua expressão. Mais à frente, num poema sem título, retoma-se esta “lengalenga do precipício” num contexto onírico. O sonho coloca-nos dentro de um carro numa estrada que se vai estreitando junto a um precipício, a imagem é asfixiante, denota desespero: «estás a cair no vazio / e ainda consegues ver as luzes / da estrada que continua, / as luzes da aldeia que deixaste para trás // algures há uma festa / onde talvez ainda te esperem // mas continuas a cair, / com uma lucidez absurda, à espera / do impacto: / é isso a tua vida agora» (p. 63). Lembra-nos da anedota sobre o indivíduo em queda que vai dizendo “até aqui tudo bem”, ainda que nos poemas de José Anjos não vislumbremos qualquer sentença moralizante. Os poemas de uma fotografia apontada à cabeça (Abysmo, 2019) colocam-se antes num lugar de busca do espanto perdido, constroem-se durante a execução à medida que se interpelam a si mesmos e nos provocam com questões essenciais e inesgotáveis. O luto e a morte repensam-se a partir de noções fortemente ligadas à vida, não são matéria exclusivamente mental. Tudo acontece no centro de uma carne que vive com a consciência de que apodrece, sendo altamente inspiradora a capacidade que têm de nos agitar o pensamento: «a vós que sabeis / tudo sobre o tempo / e outras desgraças / da contemporaneidade // não vos entendo // a mim / questiona-me ainda / a engenharia de um dia / simples» (p. 79).
   Mais equilibrado e sólido do que os livros anteriores do mesmo autor, este é sem dúvida um dos mais estimulantes livros de poesia portuguesa contemporânea dos últimos 20 anos. Nele tudo se joga sem excessos, os ritmos que não enjeitam a rima, o fulgor imagético, a beleza de uma interrogação constante sobre o lugar do homem na Terra, a busca incessante e incansável de respostas (mesmo para aquilo que sabemos não ter resposta), a riqueza do pensamento, a postura sóbria face à dor da perda, a extraordinária capacidade de síntese:

EXPLICAÇÃO DO ACTO

espelho que devolve
a intenção

UM POEMA DE JOSÉ ANJOS


DECLARAÇÃO DE FALÊNCIA

durante muitos anos
estudei o comportamento
das coisas em lugares ermos
sentado a toda a distância
das estradas

aí, onde a utilidade é quase inacessível,
detectei indícios de um funcionamento
caprichoso, muito além de qualquer
aparente programação

assim consegui provar a existência
de várias dimensões
até não pertencer a nenhuma delas

e no lugar onde fiquei, de pé e a custo
um falhanço passou a ser apenas
uma viagem
um silêncio não consentido
cada instante um conjunto de coisas
que não sucederam, agruras inventadas
de um homem inventado

neste estado absoluto
de impossibilidade
persegui por escrito
uma cidade à queima-roupa
uma grande oferta de vazio
          o centro do labirinto: apenas um labirinto
          ainda maior

vedado que me é poder viver
todas as possibilidades
ao mesmo tempo

observo então o pensamento:
como ele surge      repentino
na reintegração de um ponto
de possível fuga para dentro
            uma narrativa límpida e épica
            por que não minha

mera expectativa
de uma passagem antecipada
por todas as faces da infância
rodeado
por todas as pessoas
por todos os meus objectos

é ainda um triste lugar
o lugar das grandes coisas
das procissões permanentes
uma urgência que abre
uma porta líquida
no meu peito
por onde entrei
sem saber nadar

foi então preciso inventar
o espaço da literatura
para aí guardar umas vidas
e poder viver outras
até perder
toda a contemporaneidade

agora já não posso dizer
que o vento me quebra o corpo

— sou da neblina

eis-me assim chegado
ao primeiro sequestro
da irreversibilidade

pois bem, durante anos andei
por aí a matar coisas
por excesso de atenção

e hoje já nem sei quanto vale
o meu nome


José Anjos, in uma fotografia apontada à cabeça, Abysmo, Fevereiro de 2019, pp. 43-45.