segunda-feira, 30 de novembro de 2009

ELOGIO DO CINISMO (9)


A paixão cínica pode ser duplicada por uma vontade aristocrática. Sempre gostei que Roger Vailland, comunista, conduzisse um Jaguar MK II, tomasse heroína e que o seu compromisso, ao lado dos despojados, fosse apenas suspeito aos olhos das belas almas ainda piedosas, ou até cristãs até às entranhas, que só dão crédito aos pensamentos de esquerda no caso de estes envergarem, ridiculamente, os ouropéis caricaturais de uma pobreza composta, ostensivamente exibida a tiracolo. A culpabilidade não é uma obrigação nem um dever, pela simples razão que uma política hedonista, libertária e de esquerda, ilustra-se menos pela arte de empobrecer os ricos do que pela de enriquecer os pobres.
Longe daquilo que, numa dada época, pôde caracterizar uma esquerda dita «caviar», sobre a qual ainda se procura saber o que fazia dela uma esquerda, quando já não existem mais dúvidas sobre as razões e a existência da sua intoxicação ao beluga, um pensamento libertário, infundido por uma mística de esquerda, pode muito bem funcionar no registo artístico. Como prova, para além de Roger Vailland, as páginas soberbas escritas por Oscar Wilde, sob o título
A Alma do Homem sob o Socialismo ─ um livro de plena actualidade, após um século de existência ─ ou, mais inesperado, um almoço que aproximou, nas primeiras semanas de 1849, Baudelaire e Proudhon, numa pequena loja de pronto a comer da Rua Neuve-Vivienne. Um olhar ao sistema das contradições económicas, outro para saborear as flores do mal ou provar os paraísos artificiais, tendo o conjunto por desígnio o que Séverine chamava, no século passado, um dandismo revolucionário ─ esta mistura não deixa de me agradar.
A opção libertária, não tendo a obrigação de operar ao lado da compaixão no seu registo cristão, não me parece legítimo que para se ser credível se tenha de ser pobre ou despojado de si próprio, pois os detractores diriam, então, que o comprometimento político seria motivado por um ajuste de contas pessoal ou pelo ressentimento, no que encontrariam novos motivos para o descrédito que tanto procuram. Dandismo e pensamento libertário funcionam às mil maravilhas em todos aqueles que, longe dos imperativos do realismo socialista, em virtude do qual é necessário submeter a arte à política, postulam exactamente o inverso e esperam da arte que ela dê forma ao político, que o alimente, que lhe transmita força, vigor e energia. Nessa perspectiva, o dandismo contemporâneo do século da revolução industrial pode ler-se como reacção contra a unidimensionalidade gerada pela metamorfose do capitalismo.
Contra o igualitarismo, essa religião nociva da igualdade, o dandismo reivindica uma subjectividade radical activa, no combate contra todas as palavras de ordem do momento: culto do dinheiro e da propriedade, dogmas burgueses e mitologias de família, economia sensata dos casais e consumo da imprensa como única referência intelectual, cultural, de tudo o que constitui a tonalidade da época. Baudelàire afirma e exibe uma furiosa independência de espírito, uma animosidade particular em relação aos burgueses, venham eles de onde vierem, da esquerda ou da direita. Professa o culto do inútil e do artifício, do lazer e do gratuito, onde a maioria se esgota no útil, no rentável, no trabalho, na renda.
O dandy procura o sublime. A política libertária aspira ao mesmo tipo de objectivo: a assunção do indivíduo artista reage contra a queda dos particulares nos «bas-fonds» onde triunfam as virtudes e os valores burgueses. O poeta contra o farmacêutico, o pintor como remédio à frouxidão da vida moderna, o escritor à laia de resposta às infâmias induzidas pela industrialização e pela era da reprodução mecânica dos objectos, dos homens, das obras de arte ─ pensemos nas imprecações do poeta sobre a fotografia ─ ou das individualidades. Na época do reproduzível, todos são pensados, desejados e construídos segundo o mesmo padrão. O dandismo teoriza a reivindicação de garantias, multiplicadas pela expressão da individualidade e pela soberania das monadas.
O dandismo revolucionário, formulado por Séverine, não supõe a comunhão nalgum outro pecado venal, por vezes mortal, cometido por aqueles que estremecem não muito longe da mística de esquerda: o dever de amar o povo, a obrigação abjecta de celebrá-lo, de lhe conceder ou emprestar méritos, pois uma vista de olhos retrospectiva sobre a História deveria dissuadir a prática desse entusiasmo tão perigoso quanto nefasto, fornecedor, em cada ocasião, dos gregarismos políticos, do estalinismo ao nazismo, passando pelas fórmulas europeias de um nacional-populismo declinado nos registos italiano, espanhol, francês, grego e da Europa de Leste. Não há nada mais devoto para com o povo que as declarações de Lenine, Estaline, Hitler, Pétain, Mussolini, Franco, Le Pen e tantos outros, cuja fabulação sobre este universal das suas contas se alimenta do esquecimento e da negligência dos indivíduos, únicos princípios ou unidades operatórias em matéria de política. O dandy prima na farmacopeia que se opõe ao
homem das multidões.

Michel Onfray, in A Política do Rebelde – Tratado de Resistência e de Insubmissão, trad. Carlos Oliveira, Instituto Piaget, 1999, pp. 194-196.
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ARTUR

Tive um cão chamado Artur. Não era meu, mas acompanhou-me durante um Verão passado em Odeceixe. Portanto, como tudo o que algum dia me acompanhou, tive-o pelo tempo que o mereci. O Artur foi uma excelente companhia, era perspicaz, carinhoso, um exímio caçador de pinhas, um guarda que se chegava à tenda sempre que escutava lá no seu modo de escutar o mais ínfimo formigueiro. Nunca mais vi o Artur senão em pensamentos. Sou visitado amiúde por este cão, pelas memórias desse Verão de 1996, pelo sorriso do meu amor sentada numa mochila enquanto eu fumava um Marlboro e ambos esperávamos o autocarro que nos haveria de levar até Vila Nova de Mil Fontes. Montámos a tenda durante uma, duas noites, não mais. O parque era ruidoso, mais que os meus cabelos compridos e o sorriso jovial do meu amor a olhar o desaforo com que eu enfrentava um bloody mary a saber a ketchup. Depois apanhámos boleia para Odeceixe.

Que será feito do Artur nas noites de Verão? Que é feito de nós adormecidos um ao lado do outro, enquanto ao lado de nós, separados por finas paredes de tecido impermeável, outros casais adormeciam? Que é feito daqueles longos cabelos que o teu sorriso penteava por debaixo da sombra de extensos eucaliptais? Eu sei onde fica a fachada desta casa, tem uma só janela de madeira protegida por uma rede que impede os insectos de se intrometerem no sono, tem cadeiras pintadas de vermelho, uma jarra com flores silvestres sobre o tampo da mesa, um tampo contornado pelos malmequeres que alguém ali pintou enquanto orava aos budas expostos sobre o aparador. É um móvel dos antigos, esta casa, um armário com portas e janelas, duas gavetas, uma base onde deixámos a bilha de barro cheia de água fresca. É um cabide coberto de canecas especiais, cada uma com a sua memória de visitas esporádicas - como esta agora aqui sentado folheando as fotografias do verão de 96.


Tinhas um vestido preto, de alças, com florinhas brancas, tinhas o ar que ainda tens quando o teu sorriso se senta no baloiço montado entre os dois pinheiros, dois pequenos pinheiros nascidos das sementes que largámos sobre a Terra, quando descansas à beira de árvores antigas, na sombra dos medos que te consomem sempre que eu escrevo com o feltro da pele a palavra nua: amor. E o Artur atacava-nos as Dr. Martens com aquele sorriso canino que sempre gostei de pôr em tudo o que escrevo, bebíamos shots de vodca, uníamos os corpos no terraço, debaixo de um mar de estrelas, afogados numa luz milenar que sempre soubemos apreciar com os olhos de quem olha pela primeira vez. Mesmo quando embalados na rede esticada ao lado do baloiço, mesmo quando ensaboados pelo chuveiro balde, roubávamos à garganta os acordos tortos da nossa canção preferida.


O presente é uma coisa estranha, anda sempre atrás de nós. E já ali estava, olha para ele, no regresso, quando voltámos do Verão cheios de trabalhos, uma tese, talvez sobre Heidegger, e eu desesperadamente concentrado no ser para a morte quando sempre quis ser apenas para a vida. Merda para o Heidegger, dizias. Mas a culpa não era do filósofo alemão, não tanto como era de um semestre inteiro a ouvir o César das Neves especular sobre a melhor tradução para dasein. Eu bem lhe tentei explicar, mas ele não me deu ouvidos. Dasein é o Artur a ser lembrado daqui a, sei lá, 13 anos, é o sorriso do meu amor comovido com a leitura de um texto que hei-de então escrever, é eu para a vida enquanto ao fundo da estante a figura de Nietzsche se cola à sombra de Sócrates com a Janis Joplin a fumar um charro de premeio. Dasein, ó senhor professor, é tomar banho debaixo de um chuveiro balde enquanto o Artur me lambe os pés e os pinheiros abanam ao vento da nossa alegria. Chumbei.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

CONSTA QUE...


...o senhor Herberto Helder nasceu no Funchal a 23 de Novembro de 1930, perdeu a mãe aos 8 anos, dizem que estava doente desde o nascimento do filho, completou o 5.º ano do liceu no Colégio Lisbonense e, já em Lisboa, concluiu o 7.º ano do liceu na Escola Luís de Camões, frequentou o 1.º ano de Direito e o curso de Filologia Românica na Universidade de Coimbra, publicou os primeiros versos, entre 1952 e 1954, na colectânea Arquipélago, regressando posteriormente a Lisboa para trabalhar na Caixa Geral de Depósitos e como angariador de publicidade do Anuário Comercial Português, publicou poemas na colectânea Poemas Bestiais, colaborou no jornal A Briosa, regressou ao Funchal para trabalhar no Serviço Meteorológico Nacional, o pai negou-lhe o pecúlio necessário para zarpar para o Brasil, zarpou novamente para Lisboa, frequentou o grupo do Café Gelo, trabalhou como delegado de propaganda médica, colaborou no semanário Re-nhau-nhau, nas revistas Búzio, Folhas de Poesia, Graal, no suplemento Ágora do semanário Voz do Tejo e no suplemento Diálogo do jornal Diário Ilustrado, subscreveu, com João Rodrigues e José Sebag, o texto O Cadáver Esquisito e os Estudantes, casou com Maria Ludovina Dourado Pimentel, Luiz Pacheco publicou-lhe, na Contraponto, o primeiro livro, disse Pacheco: Oh Herberto, você escolha o seu poema que preferir, achar melhor, e traga. Gostava de o editar. O Herberto daí a dias trazia um poema, hesitou um tempo no título («Um Amor Feliz» teria sido uma hipótese, parece-me) e acertou em «O Amor em Visita», e depois disto colaborou nas revistas Cadernos do Meio-Dia, KWY e Folhas de Poesia, partiu para França, nasceu-lhe a filha Gisela Ester Pimentel de Oliveira, viveu, entre 1958 e 1960, na França, Bélgica, Holanda, Dinamarca, sobrevivendo de actividades tais como criado de cervejaria, cortador de legumes, enfardador de aparas de papel, policopista, operário nas forjas da Clabeck, carregador de camiões, ajudante de pasteleiro, guia de marinheiros em bairros de putas, colaborou na revista Pirâmide, regressou a Lisboa com bilhete de repatriado, passado em Antuérpia, viveu em Coimbra, recuperou de uma avitaminose, começou a trabalhar como encarregado de biblioteca das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, publicou A Colher na Boca e Poemacto em 1961, publicou Lugar em 1962, colaborou no jornal Távola Redonda, passou a armazenista das Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian, publicou Os Passos em Volta em 1963, traduziu literatura explicativa de medicamentos para laboratórios, co-organizou, com António Aragão, o n.º1 de Poesia Experimental, traduziu Hans Christian Andersen e Italo Calvino, trabalhou na Emissora Nacional, foi sujeito a testes psicofisiológicos no Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria, publicou mais, colaborou muito, reeditou, fez publicidade como copywriter para cinema, publicou, em 1968, Apresentação do Rosto, apreendido pela Censura, concedeu entrevistas ao Jornal de Letras e ao Jornal de Notícias, foi condenado a pena suspensa por causa do envolvimento na edição de Filosofia na Alcova, abandonou a grupoterapia, trabalhou num atelier de arquitectura, participou como actor no filme As Deambulações do Mensageiro Alado, gravou dois discos de poemas seus, foi director literário da Editorial Estampa, nasceu-lhe Daniel João Figueiredo de Oliveira, filho da relação com Isabel Figueiredo, viajou pela Europa, partiu para Angola em 1971, onde fez reportagem para a revista Notícias sob vários pseudónimos, publicou Vocação Animal, onde se afirmava que o autor deixara de escrever em 1968, em 1972 sofreu um acidente de viação, regressou a Lisboa, fez a reportagem de um Benfica-Sporting, publicou, em 1973, os dois volumes antológicos de Poesia Toda, viajou a Nova Iorque, casou-se com Olga da Conceição Ferreira Lima, trabalhou como redactor de noticiários da RDP, viajou, durante vários meses, por Paris, Le Mans, Cambridge e Londres, passou discretamente pelo PCP, publicou, em 1979, Photomaton & Vox na Assírio & Alvim, editora que, desde então, passará a publicar praticamente toda a obra do poeta, fazem-se teses sobre a sua poesia, escrevem-se artigos, proferem-se sentenças, subscreveu, em 1993, um pedido colectivo, dirigido à Secretaria de Estado da Cultura, no sentido de ser atribuído um subsídio mensal ao poeta António Gancho, internado há 26 anos no hospital psiquiátrico do Telhal, Vítor Silva Tavares sobre ele, Herberto, disse: pode supor-se que logrou endoidar psiquiatras, mestres zen e analistas literários, uma sua imagem virtual foi materializada no plenário fascista em réu de crime sádico não cometido, um dia do PREC escapou de boa (tareia) ao ser tomado por Manuel Alegre, o susto tê-lo-ia conduzido, presume-se, à entrada-por-saída no Partido Comunista (só a intriga é revolucionária!), não consta da lista telefónica apesar das contabilizadas inconfidências do Vergílio Ferreira, crê-se que escreverá algures, por certo à mão armada, e oculto, não gosta de ser fotografado, recusa prémios, aparece de quando em vez para dar um ar da sua desgraça. FONTE: JL.

LETRA CÊ

A letra da avó Clarisse
é um arco-íris a fazer
ó-ó
.

Beatriz, 3 anos.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

ELOGIO DO CINISMO (8)


A lição cínica é sempre de actualidade: ensinar a nudez do rei, a ausência de uma diferença de essência, de natureza ou de substância, entre o primeiro dos cidadãos do Império e o último dos escravos da cidade ─ uma sapiência anunciadora de Robert Antelme. De modo idêntico, Diógenes, Crates e os outros querem a desenvoltura no lugar de todas as manifestações de poder: fausto, teatralidade, esplendor dos ouros e das antiguidades. Cínicos, os rebeldes que colocam o seu orgulho bem acima das prebendas oferecidas em troca da colaboração com os poderes instituídos; cínicos, ainda, os revoltados que colocam o pensamento ao serviço da insubmissão, de preferência a pô-lo à disposição das forças que desvitalizam o indivíduo; cínicos, finalmente, os resistentes que opõem o saber ao poder, à laia de contra-poder.
Os conselheiros do Príncipe, os colaboradores ─ como se diz numa palavra que em nada perdeu o seu sentido desde o período dos anos sombrios ─ os técnicos, os funcionários do pensamento que operam em comissões ou fornecem aos homens políticos do momento e aos poderosos do dia dois ou três conceitos susceptíveis, à justa, de serem compreendidos e assimilados pelos jornalistas, esses, perpetuam a miséria e a servidão, a sujeição e o sacrifício das individualidades, em proveito das máquinas sociais, das quais obtêm vantagens em espécies, em termos simbólicos, ou até em liquidez, todos eles, aliás, bem compatíveis entre si.
Onde os auxiliares do poder vigente celebram a virtude do sério, do útil e indispensável para sacramentar o poder, para fazer dele um epifenómeno proveniente do religioso e do celeste, o libertário restaura as virtudes do desvio, da ironia, do humor, do cinismo, sob a forma de modalidades subversivas da linguagem e do gestual, conceptuais e pragmáticas. O riso nietzscheano de Foucault, contra o silêncio feltrado dos palácios presidenciais; a dança de Zaratustra, em contraponto à rigidez dos ministérios, de todos os protocolos; o grotesco de Rabelais e as loucuras de Swift, à laia de resposta aos sussurros dos enxames de porteiros; a chacota de Voltaire e a qualidade de Sartre, como eco às peças douradas da armação de portas e janelas e aos brocados púrpuras; os sarcasmos da festa dos loucos e as antimissas com burros, face à pompa do Eliseu. Vinho a rodos, libações, um Diógenes que peida, onanista e canibal, uma política dionisíaca; brindes com água simples, presidentes da República desmiolados, uma política apoIoniana, eis o inventário das alternativas ancestrais.
O risco que representa o lobo não é certamente o do cão. A este último destina-se a barriguinha ética, o fim de qualquer elegância moral, a obesidade conceptual e a reflexão adiposa, a obra lançada como pasto tanto aos simples como aos necrófagos: uma libra por cada ideia ─ e ainda... ─, uma libra por cada mandato do dono, uma chuva de pregações públicas, uma ocupação dos locais mediáticos da maneira como se ocupam os lugares de lazer. No final de contas, um talento desvitalizado, um pensamento em frangalhos, suturado, e a alma vendida aos parasitas políticos alimentados pelo sangue chupado e pela inteligência escravizada.
Para os outros, os lobos, destina-se o lote concedido aos companheiros de Diógenes através dos séculos: a expulsão, o exílio, a prisão, a tortura, a privação de liberdade, a perseguição, a punição, os maus tratos, a encarceração. Prisão mamertina e células entre quatro muros, montanhas córsegas e jaulas de ferro não longe de Couesnon, fogueiras romanas e salas de tortura espanholas, exílio para a Holanda e mudanças forçadas de paradeiro na América, a Bastilha e Charenton, Jersey e Guernesey ou, hoje, privação de cobertura mediática ou de promoção social, o contrário de tudo o que, de perto ou de longe, se assemelhe ao néctar e à ambrósia dos Eliseus. A loucura de Nietzsche, a sida de Foucault, o suicídio de Deleuze, o silêncio de Blanchot, contra a paixão de alguns pelos almoços em companhia daqueles que nos governam. Os pensamentos fortes associam-se às vidas que os acompanham e os pensamentos débeis também.


Michel Onfray, in A Política do Rebelde – Tratado de Resistência e de Insubmissão, trad. Carlos Oliveira, Instituto Piaget, 1999, pp. 192-194.
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domingo, 22 de novembro de 2009

O SANGUE POR UM FIO

Ainda é possível escrever sobre a morte, ou algo que se pareça com, sem repetir as mesmas banalidades de sempre, copiadas de um ditado há muito proferido. O título O Sangue Por Um Fio (Assírio & Alvim, Setembro de 2009) talvez iluda ao sugerir um trocadilho com a expressão «a vida por um fio», mas a verdade é que o conteúdo desta recolha, organizado por sete partes de extensão diversa, confirma as suspeitas que o título lança. Que outras eventuais suspeitas sejam desfeitas à partida. Sérgio Godinho (n. 1945), há muito reconhecido como um dos mais consistentes escritores de canções português, finta as fórmulas da canção nestes poemas, não permitindo quaisquer confusões que possam eventualmente surgir entre o formato da canção e a forma do poema. Talvez exista em alguns dos poemas seleccionados, sobretudo nos iniciais, um esforço de escapatória que, curiosamente, acaba por ser o aspecto menos atraente desta poesia. Mas esse será mais um problema do leitor e dos seus preconceitos do que dos poemas em si. Estes afiguram-se-nos elípticos e algo enigmáticos na viagem que propõem inicialmente. É uma viagem pela vida sem estar presa à memória, é uma viagem pelas memórias sem estar presa ao passado, é uma viagem pelas dúvidas que um futuro próximo parece suscitar.

A viagem que se propõe terá como referência o farol da morte. A morte, ou a proximidade disso a que chamam morte, pairará não somente como tema, mas sobretudo como motivo para um convite a embarcar num «barco à deriva já dentro do porto» (p. 9). Os ecos da viagem servirão de escrutínio para o que agora se pretende balancear: a vida. Temos então o enigma da vida cifrado nas guerras passadas, algumas ultrapassadas, outras nem por isso, temo-lo nas ilusões que se foram perdendo pelo caminho e noutras que vieram substituir aquelas, ilusões que o corpo desilude, que o tempo faz recordar como alguém que se recoloca defronte a um «pelotão de fuzilamento»: «A feras de erva mansa / dão-se / peixes de água doce / o isco em dias repetido / e de um só passo se atrai / a raiva do desleixo / as ordens são desde aí / desilusão consumada» (p. 26). Nota-se a ironia desencantada que motiva as erupções da palavra, chegadas à folha como uma espécie de disparo espontâneo e imprevisível. Nada nestes poemas permite entrever a consciência amansada da vida que caracteriza muita da poesia actual, a qual foge aos riscos de se estar vivo como quem recusa a liberdade que lhe não custou conquistar.

Os poemas de Sérgio Godinho tentam-nos. Julgamos ser a morte o tema central deste livro. E, de facto, esse tema paira, do princípio ao fim, com maior ou menor evidência. Mas dentro dele descobrimos uma lição de se estar vivo, uma interrogação constante, as dúvidas e as respostas de alguém que não nega a si próprio o gozo das partidas sem fim determinado: «Nada é mais do que o que fica. / Mas para isso, nada é menos do que agora» (p. 68). Afinal, o que importa, mais do que perceber o que é isto de andar por aqui, mais do que pretender ludibriar o que é isso de deixar de andar por aqui, o que importa é mesmo andar (ir andando também não chega). Estes poemas não se impõem como recados, parecendo-nos, por vezes, que eles escondem uma realidade que é fruto da experiência com a manipulação das palavras. Essa realidade é a de quem se liberta da manipulação da palavra e se deixa manipular pela força sugestiva dos vocábulos. Deste modo, o poema funciona como sugestão, não como uma mera confissão ou como um testemunho, não apenas como uma vontade de dizer algo que não pode ser dito de outra forma, mas como uma experiência de liberdade na relação com a palavra e seus modos de (des)organização formal.

Balanço ou reflexão, testemunho de resistência ou declaração de princípios, este livro vale, sobretudo, pela liberdade com que se coloca defronte ao fim: «O que foi tido por inesperado e imprevisível / talvez seja apenas a maneira de um todo / se descentrar / fugir à tarefa insanamente por nós mesmos exigida / à nossa pequena parte, já manchada de sangue, / sangue por rectas e curvas da coerência. / O sangue por um fio» (do último poema, intitulado Os órgãos vitais, p. 87). Não deixa de ser curioso que num tempo em que proliferam livros de memórias aos 30 anos, seja um autor na casa dos 60 a não se deixar prender ao passado com a nostalgia de quem sente já ter perdido tudo o que ainda não viveu. O Sangue Por Um Fio não se limita, pois, a inventariar uma vida aparentemente por um fio. Ele pega nos órgãos ainda vivos de um corpo presente e faz-lhes um exame anatómico sem preocupações formais, sem aquele tipo de cuidados exigido pelos corpos enfermos. Uma boa surpresa, portanto.

Escrito para o Rascunho.

sábado, 21 de novembro de 2009

UM BERÇO COSMOPOLITA

Nascido num berço cosmopolita, Nazim Hikmet viu a luz do dia, pela primeira vez, a 21 de Novembro de 1901. Foi em Salónica, ainda com o nome Mehmet Hazim. A mãe era pintora, tocava piano e descendia de famílias polacas. O pai era filho de um poeta liberal, mas enveredara pelo serviço público. Foi demitido e investiu parte das posses num malogrado negócio, regressando posteriormente, como tradutor, ao Ministério dos Negócios Estrangeiros turco. Acabou como gerente de um cinema. Nazim Hikmet cresceu num ambiente progressista e culto, estudou num liceu onde se falava a língua francesa, começou a escrever poemas sob influência do avô, acabando por entrar para a Escola Naval em 1917. Chegou a graduar-se, mas teve de abandonar a marinha devido a problemas de saúde. A experiência durou três anos. 1920 será um ano marcante: ganha um concurso de poesia promovido pelo jornal Alemdar, escreve poemas de resistência contra a ocupação de Istambul, junta-se, com outros poetas, a um grupo de combatentes ligados ao Partido Comunista. É destacado como professor numa escola de Bolu, partindo posteriormente para a União Soviética à procura de formação mais consistente. Estudará sociologia e economia da Universidade de Moscovo. Influenciado pela escrita de Mayakovski, começa a escrever poemas de verso livre que faz publicar em diversos jornais. Regressa à Turquia, ilegalmente, no ano de 1924. Trabalha para o jornal Aydınlık, escreve argumentos para filmes e peças de teatro. É perseguido pela polícia, capturado e condenado. A sua voz literária era ouvida e temida. Passará vários anos na clandestinidade, vivendo entre a URSS e a Turquia com passaportes falsos, sendo capturado, detido, julgado. Grande parte da sua vida foi passada nas prisões. Apesar disso, os seus trabalhos iam sendo publicados. Casa com Piraye Altınoğlu a 31 de Janeiro de 1935, após uma relação suspensa durante cinco anos por causa dos interrogatórios e das detenções a que Nazim Hikmet era sucessivamente sujeitado. Já tinha casado duas vezes anteriormente, na União Soviética. Primeiro, com Nüzhet Hanım; depois, com Dr. Lena - relações frustradas pelas saudades da pátria. Nazim Hikmet sobrevive do que publica nos jornais, desde anedotas a contos assinados por variadíssimos pseudónimos. No final de 1936 é novamente preso, o que voltará a acontecer em Janeiro de 1938, saltando de prisão para prisão, onde lia poemas aos colegas de cela e ouvia-lhes as mais apuradas críticas. Finda a Segunda Grande Guerra, a liberdade não lhe é concedida. Entra em greve de fome a 8 de Abril de 1950, agravando os problemas de coração. Foram precisas outras greves de fome, muitos quilos perdidos, o corpo a entrar em delírio para que a liberdade chegasse a 15 de Julho de 1950. Em liberdade, divorcia-se de Piraye e casa com Münevver Andaç, uma prima que o visitara regularmente na prisão. Trabalha como guionista, tem um filho, continua a ser vigiado pela polícia, não consegue levar as suas peças à cena e vê os seus livros serem censurados. Obrigado a cumprir o serviço militar que fora interrompido por problemas de saúde, foge para a Roménia. Abdica da cidadania turca e naturaliza-se polaco. A polícia persegue Münevver e o filho enquanto o poeta granjeia fama no estrangeiro, marcando presença em congressos, visitando vários países, sendo traduzido em várias línguas. Recebe o Prémio Internacional da Paz e assume um papel de relevo no Conselho Mundial da Paz, ao mesmo tempo que começa a inquietar-se com o regime estalinista. Longe da mulher e do filho, apaixona-se por Galina Grigoryevna Kolesnikova, a médica que lhe tratou uma pneumonia no sanatório de Barvikha. Uma das suas peças é censurada em Moscovo após a noite de estreia. O autor sofre uma depressão, pensa em suicidar-se, mas um novo amor captura-o da morte. Vera Tulyakova, assim se clamava a jovem, era casada e tinha uma filha. Nazim era seis anos mais velho que o pai de Vera, oferece-lhe chocolatinhos e flores, trabalham juntos num argumento e numa peça de teatro, começam a viver juntos. Casam a 18 de Novembro de 1960. Após uma lua-de-mel em Paris, Nazim foi a Cuba levar um prémio a Fidel. Conhece Joyce Salvadori Lussu, uma delegada italiana do Conselho Mundial da Paz. Joyce desconhecia a recente relação de Nazim com Vera. Ao visitar Istambul no ano de 1960, conheceu Münevver Andaç e comprometeu-se a ajudá-la a sair da Turquia. Quando Nâzım Hikmet regressa de Cuba, encontra-se com a ex-mulher. Vera não aprecia a história, mas tudo acaba por se resolver. Münevver fica a viver com os filhos na Polónia, Nâzim e Vera permanecerão em trânsito pelo Egipto, Praga, Berlim, Leipzig, Bucareste, Itália, Paris, Moscovo, etc. Nazim Hikmet morre a 3 de Junho de 1963, vítima de ataque cardíaco, na casa de Moscovo, ao lado da sua jovem mulher.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

QUANDO FOR GRANDE

MC O que é o inferno? Ah! Olha, então não digo o que é o inferno. Vou dizer antes outra coisa. Eu aqui, agora... vocês vão-se embora, estou a dizer eu, que estou aqui neste quarto, estou numa espécie de paraíso muito parecido com o inferno, sabes? Mas acho que isto é verdade. Estou aqui. Nesta casa. Numa espécie de paraíso, muito parecido com o inferno.

(...)

MGM Então para que é que isto serve?

MC Não sei, serve para foder que é muito agradável e dá muito gozo. Serve para amar... e serve para morrer. Pronto!

In Autografia / Verso de Autografia, um retrato de Mário Cesariny por Miguel Gonçalves Mendes, Assírio & Alvim, Novembro de 2004. Para entrar nos 35 em boa companhia.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

QUANDO FOR GRANDE...



«Não vogando já na doce ilusão de uma sociedade sem classes, concordei em aceitar viver numa sociedade sem classe».

João César Monteiro, in Uma Semana Noutra Cidade, &etc., Novembro de 1999, p. 15.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

VIDA

Tenho a vida dentro da barriga.
Beatriz, 3 anos.

CHUVA

A chuva quando cai
também faz dói-dói.
Beatriz, 3 anos

ELOGIO DO CINISMO (7)



Giovanni Reale e Dario Antiseri resumem em três pontos «a menor vitalidade que o cinismo demonstrou em relação ao estoicismo, ao empirismo e ao cepticismo»:

- O «extremismo e anarquismo» dos cínicos não propôs valores alternativos às convenções consagradas pela tradição;
- Houve no cinismo um «desequilíbrio de fundo» que consistiu em reduzir o homem à sua animalidade;
- O cinismo foi de uma «pobreza espiritual» cuja mensagem só pode ser validada pela intuição emocional.

Qualquer uma destas críticas, independentemente da sua legitimidade, obrigam-nos a ponderar o “reale” alcance da mensagem cínica. Não vislumbro qualquer fraqueza na prova intuitiva, pelo menos no que ela foi demonstrando ter de suporte à dedução. Étienne Gilson sublinhou que o mestre do racionalismo moderno chegou intuitivamente ao primeiro princípio da sua filosofia, algo que até parece indiferente para o caso. O cinismo foi sempre, de facto, muito pobre espiritualmente, pois nunca se fez provar pela dedução ou pela intuição, pelo menos não tanto como se fez provar pela prática. Não estamos perante uma filosofia das ilusões, uma filosofia hipócrita que se faça valer por princípios abstractos sem qualquer aplicação material. Não estamos perante a cidade ideal de Platão ou a cidade de deus de Santo Agostinho, não estamos perante o reinado dos céus cristão, nem perante a Utopia, não estamos perante o socialismo de Marx. É caricato verificar que hoje em dia os advogados de várias ideologias, do cristianismo ao comunismo, usam o argumento de que nenhuma dessas filosofias foi levada à prática, procurando assim justificar as degenerações em que fracassaram certas experiências, por demais conhecidas, dos aclamados zeladores do Ideal. Deste modo, o catolicismo terá consistido numa mera apropriação da mensagem cristã, uma apropriação que ainda hoje está longe de pôr em prática os recados de Cristo, da mesma forma que as ditaduras comunistas são agora interpretadas como trasladações das elucubrações de Marx, Lenine e outros que tais. Ora, o cinismo, na sua vertente primitiva, fez-se sempre provar pela prática da mensagem, não deixando lugar a interpretações enviesadas e pretensiosas de uma proposta que não estava preocupada em ser rica espiritualmente. A sua riqueza consistia na força do exemplo, o exemplo era dado pela carne, não provinha exclusivamente das ruminações do pensamento. É, pois, compreensível, a pouca simpatia que esse exemplo logra almejar nos reinados da fantasia, nas cidades guiadas pela aparência, nos territórios racionalistas que beatificarão mensagens como esta: faz o que eu digo, não faças o que eu faço. Apontam-se o extremismo e o anarquismo dos cínicos como se esses homens tivessem limitado a sua acção a minar as convenções castradoras da cidade, como se ao “estigmatizarem as condecorações e as honras, ao fustigarem os representantes do fisco, ao insultarem os colaboracionistas, ao criticarem os mestres, os polícias e todos os tipos de autoridades, tanto filosóficas como militares”, eles não estivessem a propor «valores alternativos positivos», valores que consistiam num modelo de vida livre e libertário, autónomo, independente. Que outra coisa senão uma proposta alternativa pode ser a busca da felicidade para lá do superficial, a busca da felicidade através da autarquia e da indiferença à glorificação por parte daqueles que são cúmplices da escravatura social? A diferença é só esta: não se pode fazer escola da liberdade, impondo aos outros uma mensagem que se oferece a quem, livremente, pretenda tomá-la para si. Não nos esqueçamos que mesmo o escravo mais maltratado se curva perante as medalhas oferecidas por quem sempre o maltratou. Que os cínicos tenham reduzido o homem à sua animalidade, só abona em seu favor. Nada do que exigiam ia além desta animalidade específica do homem que é a de, num só corpo, coexistirem a necessidade, o desejo e a capacidade de escolher, de optar, para lá das paixões superficiais. Em suma: nada a impor, tudo a propor; a cada um o que lhe aprouver, assim esteja garantida a vontade de poder sem sede de comandar os outros, de decidir pelos outros.

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ELOGIO DO CINISMO (6)


Se a pergunta: «como se pode ser hoje anarquista?» pode ser colocada, a resposta parece imediata. Instalando a ética e a política no perpétuo terreno da resistência. Palavra chave, ambição cardeal do libertário. Resistir, a saber, nunca colaborar, nunca ceder, guardar no seu foro íntimo tudo o que faz a força, a energia e a potência do indivíduo que diz não a tudo o que procura diminuir o seu império, ou, até mesmo, o desaparecimento puro e simples da sua identidade. Recusar os mil e um laços ténues, ridículos, derisórios, que acabam por produzir a sujeição dos gigantes mais vigorosos. Lembremo-nos de Gulliver, imenso e poderoso, mas obrigado a permanecer pregado ao solo pela quantidade infinita dos laços, cujo número possibilitava a sua eficácia.
Longe da proposta de um modelo de sociedade ideal, avisado pela sabedoria trágica consubstancial às questões políticas graças à qual ele conhece a natureza corruptora de todo o poder e a fatalidade alienante, para qualquer indivíduo, da quase totalidade dos laços sociais, o libertário contemporâneo avança com uma atitude, uma postura, uma maneira de ser, de dizer e de fazer, um
temperamento. Esta manifesta resistência, a essência da força libertária, pode ser activada em qualquer sociedade, quaisquer que sejam as geografias e as histórias. Numa ditadura ou numa sociedade liberal, num planeta devastado pelo mercado livre ou nos limites, marcados a arame farpado, de uma nação de poder totalitário, o libertário permanece sendo o homem da resistência e a oportunidade da insubmissão. De Espartacus a Inge Scholl, de Rose Blanche à Praça Tien Na Men, de Jean Moulin ao Dalai-Lama, ele cristaliza a força com a qual se fazem os tiranicidas, os inimigos declarados dos monarcas, os derrubadores do trono, os destruidores de ídolos e os perpetradores de atentados dirigidos contra os assassinos da liberdade. Todos comungam naquilo que Michelet, dissertando sobre Charlotte Corday, chamava a religião do punhal.
Também me recordo que, em matéria de política, os cínicos pouco loquazes, mas substanciais, celebram o bronze com o qual se imortalizou a memória de dois tiranicidas, estigmatizam as condecorações e as honras, fustigam os representantes do fisco, insultam os colaboracionistas, criticam os mestres, os polícias e todos os tipos de autoridades, tanto filosóficas como militares. Sabe-se que quando o imperador Alexandre solicitou a Diógenes um desejo seu a fim de o poder exaurir, este respondeu-lhe insolentemente, convidando-o a desviar-se pois ele tapava-lhe o sol. Numa outra ocasião, ao ser conduzido, acorrentado, ao pé de Filipe da Macedónia, que o interroga acerca dos motivos da sua presença num lugar daqueles, ele retorquiu: «Espio a tua instabilidade».

Michel Onfray, in A Política do Rebelde – Tratado de Resistência e de Insubmissão, trad. Carlos Oliveira, Instituto Piaget, 1999, pp. 190-192.


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domingo, 15 de novembro de 2009

DIZ QUE É PORTUGUÊS


Isto vai de mal a pior, ó camarada.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O MUNDO SÓLIDO

Sou informado, através de uma breve nota biobibliográfica reproduzida numa das badanas de O Mundo Sólido (Deriva, Março de 2009), que João Paulo Sousa (n. 1966) publicou, anteriormente, alguns ensaios e dois romances: A Imperfeição (2001) e Os Enganos da Alma (2002). Sei que o segundo romance, publicado pelas Quasi Edições, foi escrito no âmbito de uma bolsa atribuída pelo Ministério da Cultura em 2001. E sei que o primeiro foi publicado pela Campo das Letras. Infelizmente, escaparam-me ambos. Recomponho-me da falta com a leitura de O Mundo Sólido, uma narrativa que dificilmente poderei classificar de romance, mesmo tendo em conta a dimensão mais reduzida do romance actual. O Mundo Sólido oferece-nos, em aproximadamente 120 páginas muito bem escritas, um monólogo interior sem quebras, sem parágrafos, escrito como quem narra o pensamento de um homem circulando nos labirintos da memória. Esta opção por um texto sem divisões confere à leitura uma experiência estética que, ao contrário de outras, não se reduz à gratuitidade do mero efeito estilístico. Assim escrito, o texto reproduz a forma de um bloco compacto, ao mesmo tempo que cria a sensação de estarmos perante um monólito cuja erosão se tornará perceptível à medida que a leitura avança.

Francisco, um homem a entrar na chamada meia-idade, arquitecto de profissão, pai de Álvaro, viúvo, é o actor principal de uma viagem interior motivada por uma carta do filho que lhe anunciará uma trágica notícia. O texto começa, pois, com a suspensão de um dia de trabalho ─ projecto da nova biblioteca de Ravenna ─, para vir a terminar, depois dessa digressão interior pelo passado, mais ou menos onde havia começado, ou seja, com Francisco concentrado num novo projecto: museu de Ferrara. Talvez a consistência temporal da narrativa fosse outra se o texto terminasse com Francisco a pensar no projecto inicial. Assim, entre o projecto da nova biblioteca de Ravenna e o projecto do novo museu de Ferrara, somos confrontados com uma dispersão temporal que nos leva a crer haver entre o princípio e o fim da narrativa um aparente hiato que nos escapa. Por outro lado, o itinerário memorialista de Francisco processa-se do presente para o passado, não respeita nenhuma coerência cronológica, errando antes por momentos distintos da vida que se inter-relacionam com a naturalidade de quem salta de etapa para etapa sem nunca sair do mesmo lugar. E esse mesmo lugar é, precisamente, o lugar da memória, um lugar íntimo, porventura sólido, porventura volúvel. É que «a memória é uma arca com muitas fendas, por onde não se cansa de expelir o que julgávamos arrumado e definitivo» (p. 67).

Assim como o confronto com as fotografias torna explícita a manipulação da memória sobre a realidade, também o confronto com o passado aclara a ductilidade da memória. O mundo sólido surge como uma imagem que Francisco guarda do seu avô, quando este lhe fala, numa pousada de Valença do Minho, desses mundos aos quais devemos a nossa protecção. Mas esses mundos estão num estado de ruína na vida de Francisco, nomeadamente o edifício familiar, essa espécie de antigo anfiteatro romano onde todos os crimes são justificáveis. A família é o edifício em ruínas que aparece, não sem ironia, no centro das atenções deste O Mundo Sólido. Francisco é um homem desabrigado e desprotegido, a doença que ele diz ter, contra todos os diagnósticos médicos, é a doença de um homem em pânico perante a solidão que o confina. Ele é um homem desprotegido, sobretudo por não se poder proteger de quem mais o ameaça, ou seja, dele próprio. O contraste é exaltante: entre os projectos de novos edifícios, a ruína da vida privada, a ruína do edifício familiar, desse edifício evocado nas palavras de Salazar como a base, o pilar fundamental, de uma unidade que conferiria «a indispensável solidez ao nosso mundo» (p. 84).

O mundo interior desta personagem arquitectada por João Paulo Sousa chega-nos como uma pedra atirada contra um corpo frágil, o texto estilhaça toda e qualquer previsibilidade com um rigor que desconforta. Repare-se como Francisco lembra a falecida mulher: «A morte da minha mulher, ocorrida tão pouco tempo depois do reconhecimento clínico da doença, libertou-me do cerco em que eu me deixara encerrar e deu-me a possibilidade de respirar de novo a plenos pulmões» (p. 30); ou como a vontade de ter um filho acaba reduzida a um gesto violento e egoísta que apenas gerará asfixia e produzirá frustrações, sendo, então, a família um edifício que serve para «esmagar o indivíduo» (p. 72); ou ainda como o enamoramento por Laura, a empregada (suposta amante) do falecido pai de Francisco, redundará numa autoflagelação silenciosa: «era a mim que pretendia dilacerar as feridas, sem, no entanto, as revelar a quem quer que fosse, até que o extremo sofrimento apagasse de vez a causa da minha angústia» (p. 82). «Acomodado na sua clausura» (p. 103), Francisco é um homem angustiado, desprotegido e solitário, sobretudo por se limitar a esperar que algo lhe aconteça (note-se o contraste com Galeotto, o amigo italiano), por se acomodar às circunstâncias sem nada fazer para superar o cerco que ele julga ser-lhe imposto de fora, quando, na realidade, não parece senão ser um cerco nascido por dentro, na intimidade, como uma doença que nenhum médico logrará diagnosticar.
Escrito para o Rascunho.

A VIDA HUMANA NÃO CHEGA A CEM ANOS


A vida humana não chega a cem anos
Muitas vezes tem mil anos de desgosto

Mal começamos a melhorar de uma doença
Logo nos consumimos por causa de um filho ou de um neto

Baixamos os olhos para a terra onde cresce a raiz do cereal
Erguemos o olhar para o cimo da amoreira

Quando a Balança cair no Mar da China
Chegando ao fundo começamos a saber parar


Han-Shan, in O vagabundo do Dharma – 25 poemas de Han-Shan, versões de Ana Hatherly, Cavalo de Ferro, Outubro de 2003, p. 48.

Nota: Fui encontrar um texto meu sobre este livro no sítio da Cavalo de Ferro. Julgava-o perdido, mas, ao que parece, as palavras voam.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A VIDA NÃO É MANEIRA DE TRATAR UM ANIMAL


Kurt Vonnegut, americano de ascendência alemã, nasceu em Indianápolis no dia 11 de Novembro de 1922. Filho de um pintor e arquitecto falhado, Kurt era o mais novo de três irmãos. «Cresci numa época em que a comédia neste país era soberba ─ durante a Grande Depressão», dirá. Familiarizou-se, desde muito cedo, com o mundo da comédia, com o humor, com a sátira. Frequentou o liceu de Shortridge em Indianápolis, prosseguindo estudos de bioquímica na Cornell. Foi o pai quem o dissuadiu das humanidades. «Disse-me que eu só poderia ir para a universidade se estudasse qualquer coisa séria, qualquer coisa prática». Ironicamente, será em Cornell que o escritor começará a formar-se, publicando as primeiras sátiras no Cornell Sun. Em 1943, voluntariou-se para combater na Segunda Grande Guerra. Foi enviado para a Europa, feito prisioneiro na Batalha de Bulge, posteriormente transportado para Dresden. A experiência revelar-se-á decisiva. Vonnegut assiste ao histórico bombardeamento de Dresden, «o maior massacre na história europeia». «Em Dresden, numa só noite, a 13 de Fevereiro de 1945, cerca de 135 mil pessoas foram mortas pelo fogo britânico». Vonnegut, como outros prisioneiros de guerra, foi incumbido de desenterrar alemães mortos dos escombros. Após este bombardeamento, a cidade foi ocupada pelas tropas soviéticas e Kurt Vonnegut acabou por ser repatriado para os EUA. Casa com Jane Marie Cox, uma amiga de infância. «Quando pedi a anglo-americana Jane Marie Cox em casamento em 1945, um dos tios dela perguntou-lhe se ela queria mesmo “misturar-se com todos aqueles alemães”». O casal terá três filhos e adoptará os filhos da irmã do escritor, vítima de cancro em 1958. Estuda Antropologia na Universidade de Chicago, é colega de Saul Bellow, mas acaba por ver a sua tese rejeitada. «Em todo o caso, foi um erro crasso eu fazer um curso de antropologia, porque não suporto os povos primitivos ─ são tão estúpidos». Será apenas em 1971 que o departamento de antropologia da Universidade aceitará o romance Cat’s Cradle como substituto de uma tese, atribuindo-lhe o mestrado. Trabalhou como relações públicas do laboratório de investigação da General Electric's, publica a sua primeira história de ficção científica em 1950, no Collier's Weekly, muda-se com a família para Cape Cod, Massachusetts, publica dezenas de histórias em jornais e revistas, posteriormente reunidas em vários volumes. O primeiro romance, Player Piano, surge em 1952. Kurt Vonnegut ganha fama como escritor de ficção científica. «Tornei-me um suposto escritor de ficção científica quando alguém decretou que eu era um escritor de ficção científica. Não queria ser classificado como tal, e assim questionei-me sobre que ofensa cometera eu que não me permitia ser reconhecido como escritor sério. Decidi que era porque escrevia sobre tecnologia, e a maioria dos bons escritores americanos nada sabem sobre tecnologia». Em 1970, separa-se de Jane Marie Cox, passando a viver com a fotógrafa Jill Krementz. O divórcio, assim como o segundo casamento, apenas ocorrerão em 1979. Adopta mais uma criança com Krementz. Em 1984, tenta suicidar-se. Debaixo da capa humorística, vivia um homem atormentado com os problemas da humanidade. «O humor é uma maneira de mantermos à distância o horrível que a vida pode ser, uma maneira de nos protegermos. No fim, há um dia em que estamos simplesmente fartos, e as notícias são demasiado horríveis, e o humor deixa de funcionar». Em 2000, foi hospitalizado após um incêndio ocorrido na casa onde residia. Morreu a 11 de Abril de 2007, em Manhattan, Nova Iorque, após complicações motivadas por uma queda doméstica. Vonnegut escreveu contos, peças de teatro, ensaios, textos críticos, argumentos para televisão, romances e este poema:

REQUIEM

A Terra crucificada,
se pudesse encontrar uma voz,
e um sentido da ironia,
bem poderia agora dizer
sobre a maneira como abusámos dela:
«Perdoa-lhes, Pai,
Eles não sabem o que fazem.»

A ironia estaria
no facto de sabermos
o que fazemos.

Quando a última coisa viva
tiver morrido por nossa culpa,
como seria poético
se a Terra pudesse dizer,
numa voz que flutuasse até aos nossos ouvidos,
talvez
vinda do fundo
do Grande Canyon:
«Está feito.»
As pessoas não gostavam disto aqui.


Todos os excertos citados foram copiados de Um Homem Sem Pátria, trad. Susana Serras Pereira, Edições Tinta-da-China, Julho de 2006. Na imagem ao alto, estão Kurt Vonnegut e Loree Rackstraw, uma amiga bastante próxima com quem Kurt foi passando algumas férias ao longo dos seus dois casamentos. Dirá ela: «We were very close. It was a friendship unlike any I've had with anyone». Conheceu Vonnegut em 1965, num workshop administrado por este na Universidade do Iowa. Chegado o sucesso literário, Kurt escreveu a Rackstraw: «This hilarious rise in my spirits, originating from a deep purple depression, began with loving you». Loree acabou por casar com um poeta… suicida. Publicou em Março deste ano o livro: Love as Always, Kurt: Vonnegut As I Knew Him.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

OS TEMPOS DA GUERRA


Karl Shapiro nasceu em Baltimore, Maryland, no dia 10 de Novembro de 1913, no seio de uma família mais dedicada aos negócios do que à literatura. No entanto, o poeta conta-nos que o pai conservava uma colecção de poemas de Oscar Wilde encadernados como se fossem uma Bíblia do demónio. Estudante mediano, Shapiro passou um ano na Universidade de Virgínia. O ambiente hostil que aí sentiu, devido à sua ascendência judaica, levou-o a querer mudar o nome para Karl Camden. Não mudou o apelido, mas mudou o nome próprio: de Carl para o germânico Karl. Esta consciência das raízes judaicas perseguiu-o sempre, tornando-se evidente após a publicação do livro Poems of a Jew (1950). Os primeiros poemas surgiram numa publicação privada que lhe valeu uma bolsa na Universidade Johns Hopkins. Quando tentava concluir os estudos para se tornar livreiro, foi chamado a cumprir serviço militar. Estávamos em 1941, Shapiro é destacado para o Teatro de Operações do Pacífico, onde começa a escrever poesia freneticamente, publica um poema na antologia Five Young American Poets: Second Series (1941), escreve quatro volumes de poesia. Alguns desses volumes foram sendo escritor nos países onde o poeta cumpria o serviço militar. The Place of Love (1942) vê a luz do dia na Austrália, Person, Place and Thing (1942) merece os elogios da crítica, V-Letter and Other Poems (1944) aparece quando o poeta servia na Nova Guiné e conquista-lhe o Prémio Pulitzer de Poesia. Terminada a Segunda Grande Guerra, o poeta foi nomeado Consultor de Poesia da Biblioteca do Congresso, cargo que ocupou durante um ano. Entretanto havia casado com Evalyn Katz, sua agente literária durante os tempos da Guerra. Tiveram três filhos. Em 1948 vê-se envolvido numa polémica, ao recusar a atribuição de um prémio a Ezra Pound, cujas posições anti-semíticas eram sobejamente conhecidas. Abandona o cargo que então ocupava para se tornar professor de escrita na Universidade Johns Hopkins. Foi editor de poesia e de alguns boletins, assim como da Poetry: A Magazine of Verse. Na segunda metade da década de 1950 aceitou ainda um cargo como professor do Departamento de Inglês da Universidade do Nebrasca, abandonado posteriormente por lhe terem recusado a publicação de um conto que envolvia um homossexual. A publicação do livro In Defense of Ignorance (1960) fê-lo sentir o ostracismo da intelligentzia, assim como o abandono de muitos dos seus amigos do mundo literário. O seu estilo prosaico aproxima-o, por esta altura, dos poetas da Geração Beat. O livro The Bourgeois Poet (1964) é o mais representativo deste período. Foi ainda professor nas Universidades de Chicago e Califórnia, retirando-se no ano de 1985. Sobre a sua experiência universitária, disse: «I have a sort of special status around English Departments — I’m not really a professor, but sort of a mad guest». Divorciou-se da primeira mulher em 1967, para voltar a casar, no mesmo ano, com Teri Kovach, a quem dedicou o livro White-Haired Lover (1968). O livro valeu-lhe ainda o Prémio Bollingen de Poesia, partilhado nesse ano com John Berryman. Além de poesia, Karl Shapiro publicou ainda uma autobiografia em três volumes. O segundo volume intitulava-se Reports of My Death, parodiando a notícia que circulou na imprensa, em 1980, de que o poeta se havia suicidado. Discursando na terceira pessoa, num estilo claro e directo, Shapiro confessava inúmeras relações extraconjugais e uma profunda aversão à cena literária norte-americana. Em 1994, mudou-se com a sua terceira mulher, Sophie Wilkins, de Davis, Califórnia, para Nova Iorque, onde viveu os últimos dias em absoluto isolamento. Morreu no dia 14 de Maio de 2000. Na imagem ao alto estão o poeta, Evalyn Katz, a primeira mulher, e os seus três filhos. É muito provável que sem Evalyn a guerra tivesse sido outra. (adaptado daqui e de outros lugares)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

ELOGIO DO CINISMO (5)

A História oficial afasta os cínicos da lupa hermenêutica, prefere ignorá-los ou reduzi-los a meras curiosidades, por vezes apaga-os, provavelmente por culpa de os haver profanado ou destruído nas fogueiras consoladoras das mãos gélidas que edificaram as cidades celestes. Diógenes de Sínope, como vimos, ficou para a história como um inconveniente maltrapilho. A mesma sorte teve Bíon de Buristene, a quem se atribui o início das diatribes ─ «arengas populares, apoiadas em breves pensamentos morais» ─ e a defesa de um cinismo hedonista que fazia depender a felicidade ou a desgraça das opções de cada um. Cercidas foi um poeta que quis ser enterrado com a Ilíada ao colo. Crates de Tebas terá influenciado Zenão de Cício, era filantropo e desprezava os bens materiais. Casou com Hipárquias, de quem sabemos pouco mais que isto: era mulher de Crates e irmã de Métrocles. Este estudou no Liceu de Aristóteles, tendo-se tornado cínico sob influência de Crates. Conta a lenda que ter-se-á peidado enquanto discursava, ficando envergonhado a ponto de se cerrar em casa numa decisiva greve de fome. Crates livrou-o do suicídio, oferecendo-lhe o conforto dos tremoços e explicando-lhe que um peido era algo de que Métrocles não devia envergonhar-se, pois era absolutamente natural um homem peidar-se. E então o próprio Crates ter-se-á peidado, afastando desse modo a vergonha de Métrocles. A anedota é representativa do espírito cínico. Como estudante do Liceu, Métrocles teria aprendido muita coisa, mas não o mais importante, a aceitar-se como era independentemente das convenções sociais. É esta afronta às convenções que caracteriza a escola cínica na sua matriz essencial. As anedotas morais são apenas uma figura de estilo adoptada na defesa de mais baixos valores. Ao mesmo tempo que importunavam a seriedade dos opositores, os homens das Ideias e dos reinados celestes, os cínicos pretendiam o riso na Terra. Não admira, pois, que Métrocles tenha passado a cultivar a anedota, que Menipo de Gadara, um ex-escravo de Sínope, se tenha transformado num humorista inspirador de sátiras ameaçadoras da estabilidade sisuda que as convenções advogam. Estes cínicos não se limitaram a colorir o mundo com as suas gargalhadas, eles foram uma primeira lição sobre o poder satânico do riso, foram a fonte de um eco longínquo que nos chega hoje deturpado pela razão dos inimigos da comédia, os mesmos padres que reduziram a arte a uma representação trágica da vida e limitaram o saber às trombas elegíacas do sentimentalismo mais perverso. A ideia de que a cultura se faz de lágrimas e de tristeza choca com esta alegria anti-cultural, que, não deixando de ser cultura, arroga afirmar-se pela sua própria negação. Veja-se no que deram as poesias burlescas de Mónimo de Siracusa, cuja comicidade nunca ofuscou a seriedade da doutrina. Essa seriedade havia sido radicalmente levada à prática por Diógenes de Sínope, mas encontra uma sombra fiel nesse gesto histórico de Mónimo que consistiu em lançar ao ar o dinheiro do seu patrão, um banqueiro que, curiosamente, lhe havia elogiado a eloquência do mestre Diógenes. Mónimo acabou despedido, juntou-se a Diógenes, seguiu Crates. Não sabemos se alguma vez chegou a ser elogiado pelo antigo patrão, mas sabemos que este não perdeu uma oportunidade para, sempre que podia, qualificar Mónimo de louco. Ora, é precisamente esta hipocrisia de quem elogia à distância, de quem apoia para, na hora da verdade, dar uma curva e voltar as costas, é esta hipocrisia das convenções que os cínicos combatem com humor, sátira, riso, comédia, prazer, mas um prazer independente das ilusões materialistas que escravizam os homens. A busca do prazer que eles denunciaram como sendo uma grande ilusão, era a busca de um prazer que se confundia com a fama, a riqueza, a sede de poder. Eles estavam convencidos de que nenhuma riqueza material oferecia tanto prazer quanto viver liberto das necessidades supérfluas, já que bastava a satisfação das necessidades básicas para que o prazer se consolidasse na carne. Exaltar a autarquia, portanto, contra todo o tipo de convenção que afastasse o homem de si próprio, que negasse o homem, que o transformasse numa besta de carga, em mais uma vaca de pasto. Eis um programa que não podia agradar a quem sempre desagradou tudo o que inflama o músculo do poder e do domínio sobre os outros, porque à História (convencional) convém apenas o que lhe garanta a prevalência do chicote condutora da carneirada.

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MUROS

O muro de Berlim caiu. Foi rastejado pelo capitalismo global, que, no Novo Mundo, ergue agora um novo muro. O Novo Mundo protege-se da imigração, não gosta de mexicanos, são feios, porcos e maus.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

ARISTÓTELES

Nunca leu O Segredo.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

ROSAS DOBRADAS


«O meu nome atravessou sete gerações de homens com o mesmo nome. Cada um desses homens pôs o nome do pai ao primeiro filho» (in Crónicas Americanas, p. 60). Assim aconteceu com Samuel Shepard Rogers III, nascido em Fort Sheridan, no Illinois, a 5 de Novembro, ano da graça de 1943. O pai era militar da Força Aérea, combateu na II Grande Guerra e tornou-se, posteriormente, professor de espanhol. «O meu pai tinha o hábito de coçar uma cicatriz na nuca, que tinha sido provocada por estilhaços, sempre que ouvia um avião sobrevoar a nossa terra» (idem, p.150). Jane Elaine, a mãe, nasceu em Chicago, criou ovelhas, aturou as bebedeiras do marido. O pequeno Sam vingou-se na poesia e na bateria. Queria ser estrela numa banda de rock’n’roll, mas raramente saiu da garagem. Dedicou-se à escrita. A leitura de Beckett terá sido decisiva. Após alguns estudos agrícolas, juntou-se a uma companhia de teatro itinerante. Aos 19 anos chegou a Nova Iorque. Por aí ficou a servir à mesa, ao mesmo tempo que escrevia as primeiras de mais de quarenta peças publicadas e levadas à cena até aos dias de hoje. «Naquele tempo, costumava levar gelo à Nina Simone. Era sempre simpática comigo. Tratava-me sempre por “queriiido”» (idem, p. 102). Consegue uma bolsa da Rockefeller Foundation e uma bolsa Guggenheim, passando a dedicar-se inteiramente à escrita. Recebe os primeiros prémios, trabalha como argumentista e actor, escreve livros em prosa, sobretudo de pequenos contos, volta a sentar-se ao bombo para acompanhar os Holy Modal Rounders. Em 1969 casa com O-Lan Barna, de quem terá um filho. «Vejo o meu filho mexer-se, enquanto sonha / Enquanto dorme, de lado, numa cama de motel» (idem, p. 140). Já na década de 1970, colabora com Patti Smith na ópera rock Cowboy Mouth (1971). Abandona Nova Iorque na companhia da mulher e do filho, partem para Inglaterra, onde viverão até 1974. Iremos vê-lo a trabalhar ao lado de Michelangelo Antonioni e Tonino Guerra no argumento de Zabriskie Point (1970), aparecerá como actor no filme Days of Heaven (1978), de Terence Malick, aparecerá como actor em muitos outros filmes, ele próprio realizará as suas fitas, escreverá Paris, Texas (1984), para Wim Wenders, etc. e tal. Em 1983 separa-se de O-Lan e junta-se à actriz Jessica Lange, com quem vive desde então num rancho do Minnesota. Sam Shepard publicou as Crónicas Americanas em 1982, um ano antes de se separar de O-Lan Barna:


Rosas dobradas
Diz ela
Como em Inglaterra
Como outrora em Inglaterra

E mergulha
Bem no fundo de si mesma
Bem no fundo da Inglaterra

O seu nariz enche-se do perfume
Os seus olhos cerram-se
A Rosa é o navio
A Rosa é a casa
Outrora em Inglaterra


22/9/80
San Francisco, Ca.

Sam Shepard, in Crónicas Americanas, trad. José Vieira de Lima, Difel, 3.ª edição, s/d.

TESOURO PERDIDO




Tarefas bestificantes são todas aquelas que cumprimos por obrigação, como burros de carga, cães de fila ou galinhas poedeiras. A Miranda, por exemplo, trabalhava no McDonald’s, provavelmente o sonho de muitos dos chineses que dão à costa nos mares da Califórnia. O pai fora contrabaixista num quinteto de jazz, era agora caçador de tesouros perdidos algures no séc. XVIII. Também não é fácil ser contrabaixista de jazz, é um instrumento muito pesado, custa a carregar, pode deixar a coluna torta. Ainda assim, entre um balcão do MCDonald’s e um clube de jazz eu não hesitaria na escolha. Já entre dar à costa dos mares da Califórnia, como Deus me pôs no mundo, nu e miserável, ou caçar tesouros, venha o Diabo e escolha. Há tempos pediram-me 4000 caracteres sobre a caça aos tesouros no mundo moderno. Andei às voltas com o tema, ensaiei vários textos, não vi como pôr cabeça tronco e membros no testemunho. Basicamente, teria de dizer que a caça aos tesouros é a mais bestificante das tarefas neste trabalho de estar vivo. Trabalhar cansa, mesmo se for a escrever poemas. Todo o trabalho é uma violação do direito ao sono, ao descanso, do direito ao ócio, à cultivação biológica do neurónio. Há muito que a preguiça foi promovida a pecado. Não merecia. A preguiça é preguiçosa, não faz mal a ninguém, tal como o vício que só é castigo do próprio vício, a preguiça só é castigo da preguiça. Digamos que gosto de trabalhar, que se pudesse passava a vida a trabalhar mais do que devo para me ficarem a dever mais do que já devem, digamos que gosto de fazer horas extraordinárias, de pensar que o mundo é uma linha recta sem feriados nem fins-de-semana, que os domingos foram uma invenção do Diabo, a justificação da preguiça. Digamos que gosto de tocar baixo os meus instrumentos, não sonho com reinados, nem na Califórnia nem na Fuzeta. Cada um faz o que pode, muitos fazem o que não podem, a quase nada somos obrigados. As excepções apenas servem para confirmar a regra. A minha história é simples: desde o primeiro salário, em 1997, que sinto a precariedade como um testemunho eloquente da vida precária. Comecei como professor estagiário de Filosofia numa secundária do Alto da Damaia. Foram bons tempos. Pouquíssimas horas de buliço, muito tempo livre, subsídio de férias e de Natal, o pilim a cair a tempo e horas, um luxo efémero. Passei por um jornal regional onde me pagavam 100 contos mensais por baixo da mesa, aguentei três penosos meses a jogar a anca entre um director ex-comunista e um chefe de redacção neo-fascista. Experimentei uma livraria lisboeta durante um mês em regime de part-time. Depois parti para Almeirim, onde voltei a experimentar o gozo da leccionação regular. Fui stôr de Filosofia e de Sociologia, mergulhei num buraco sem fundo que me trouxe até à costa Oeste do país. Aqui assentei arraial e por aqui me fui desenrascando, divulgando cursos de escolas privadas, vendendo explicações de Filosofia, Sociologia e Psicologia, voltando a passar por um jornal - desta feita nacional, onde me pagavam todas as semanas 25 contos por baixo da mesa -, enveredando pela formação. Entre 2000 e 2008, trabalhei sempre para a mesma instituição. Fui formador de Mundo Actual, Desenvolvimento Pessoal e Social, Biblioteca, Português, em cursos de nível III e nível IV, fui professor de Filosofia e de Psicologia, cumpri horários, assinei dezenas de contratos, marquei presença em inúmeras reuniões que não eram pagas, cheguei a dar apoio escolar pro bono, sempre a recibos verdes e com o pescoço atado à insegurança que os filhos da puta dos recibos têm para oferecer. Os horários eram alterados todas as semanas, em função de disponibilidades e disposições alheias, nunca soube o que eram subsídios de alimentação, de férias, de Natal, mas senti sempre o carinho das obrigações fiscais, do IVA à Segurança Social (SS) era um amor. Andei a investir para a reforma, que é como quem diz andei a investir para o haraquiri. Pelo menos era o que acontecia quando havia trabalho, pois é claro que o verde da esperança não garante os milagres. Quem viveu da formação profissional antes de ela ter sido praticamente toda açambarcada pelas garras do Estado sabe como era: com sorte, se conseguíssemos acumular várias turmas, recebíamos dez meses ao ano. Aproveitava-se tudo com um único critério: ser pago. Entretanto o mar pôs-se bravo, naufraguei no inferno do quase-desemprego, desci aos infernos do telemarketing durante 6 meses, cumpri os objectivos com distinção, fui parar a uma livraria empurrado pelo gosto e pela necessidade. Trabalha-se muito, ganha-se mal, mas cheiram-se os livros. E esse é, só esse, o meu tesouro do séc. XVIII. Talvez um dia volte a pegar no contrabaixo. Às vezes chateiam-me para que o faça. Mas eu não vivo na Califórnia, e nasci em Portugal, no seio de uma família que por herança tem apenas o penhor da burguesia. As minhas filhas ainda são pequenas para entenderem a história, mas o recado tem sido transmitido com persistência e a dose de loucura que o mundo permite: desde que não se hipotequem a elas próprias, vivam. Isto se quiserem sentir que estão vivas, ou seja, que existem.

NÁUFRAGOS DO DESERTO




Recordo com bastante agrado dois filmes de Walter Salles: Central do Brasil e Diários de Che Guevara. Também vi Dark Water, mas desse recordo pouco mais do que um bom elenco num prédio decrépito e entre muita chuva. Nunca vi Terra Estrangeira (imagem ao alto), embora seja claro que depois de ter visto Linha de Passe o apetite pede para ser saciado com carácter de urgência. Linha de Passe é mais um excelente momento do cineasta brasileiro. Uma família, mãe grávida e seus quatro filhos, pai ausente, em estado bruto de sobrevivência na periferia de São Paulo. O futebol está no centro das atenções, assim como a religião. De resto, há vários momentos em que a fé dos evangélicos parece confundir-se com a fé das claques. O futebol como religião? Não necessariamente. Diria antes o futebol como último reduto da fé, um tubo de escape, esse encontro da vontade de Deus (fé) com a vontade dos homens (necessidade). E se é para a necessidade que todos parecem ser impelidos, não deixa de ser pela fé que todos parecem ser salvos. Ninguém sabe se o penálti deu golo, ninguém sabe se o milagre aconteceu, nem é preciso sabê-lo. A vida é quase sempre uma bola à trave, o segredo está em não fazer do falhanço uma fatalidade. As assimetrias sociais ficam evidentes, o modo como a criminalidade se aproxima daqueles que precisam também, assim como a luta diária, constante, árdua e desesperante de quem possui pouco mais que nada. Resta, pois, a esperança. Quando nada mais resta, pode restar ainda a esperança. É essa esperança que cresce na barriga da mãe abandonada. Tudo isto parece algo lamechas a quem pode passar a vida a queixar-se de barriga cheia, ou seja, sem substância. Mas procuremos calçar os sapatos de quem vive no limite da loucura, de quem está prestes a cair no abismo, de quem traz a miséria pela sombra. Futebol e fé? Que outros milagres podem salvar os náufragos do deserto? O amor?

CALLEMA #7


Callema - Publicação Semestral
N.º 7, Novembro de 2009
Director: Hugo Milhanas Machado
Edição: Cooperativa Literária

Uma Bola-de-Berlim e um Copo de Leite, pp. 51-54.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

INQUÉRITO DA VIDA DOMÉSTICA

Entre as páginas 461 e 517, sob a forma de inquérito, Leopold Bloom e Stephen Dedalus, que andava a comer a mulher daquele, são meticulosamente distinguidos. A narrativa centra-se nos pensamentos de Bloom, o cornudo que, por sua vez, também tinha as suas amantes. Colo alguns excertos:

Que problema doméstico tanto, senão mais, quanto qualquer outro engaja sua mente?
O que fazer com as nossas esposas.

Que afinidades especiais lhe pareciam a ele existir entre a lua e a mulher?
Sua antiguidade no preceder e suceder a sucessivas gerações telúricas: sua predominância nocturnal: sua dependência satelítica: sua reflexão luminária: sua constância sob todas as suas fases, levantando-se, e pondo-se em seus tempos designados, inchando e minguando: a invariabilidade forçada de seu aspecto: sua resposta indeterminada a interrogação inafirmativa: sua potência sobre águas efluentes e refluentes: seu poder de enamorar, de mortificar, de investir de beleza, de tornar insano, de incitar e estimular delinquência: a inescrutabilidade tranquila de sua visagem: a terribilidade de sua isolada dominante implacável resplendente propinquidade: seus ómines de tempestade ou de calma: a estimulação de sua luz, de seu movimento e de sua presença: a admonição de suas crateras, seus mares áridos, seu silêncio: seu esplendor, quando visível: sua atracção, quando invisível.

Que temia ele?
O cometimento de homicídio ou suicídio durante o sono por uma aberração da luz da razão, a incomensurável inteligência categórica situada nas convoluções cerebrais.

Que vantagens possuía um leito ocupado, como distinto de um desocupado?
A remoção da solitude nocturna, a qualidade superior da humana (mulher madura) à inumana (saco de água quente) calafetão, o estímulo do contacto matinal, a economia do alisamento feito em casa no caso de calças cuidadosamente dobradas e colocadas ao comprido entre o colchão de molas (listrado) e o colchão de lã (divisões marrom-claro).

Que encontraram seus membros, quando gradualmente estendidos?
Nova roupa de cama limpa, odores adicionais, a presença de uma forma humana, mulheril, dela, a marca de uma forma humana, macha, não sua, algumas rosquinhas, algumas migas de carne enlatada, recozida, que ele removeu.

Quais eram suas reflexões concernentes ao último membro dessa série
[refere-se aos anteriores amantes da Srª Bloom] e ocupante anterior da cama [Stephen Dedalus, obviamente]?
Reflexões sobre seu vigor (um furão), proporção corporal (um cartaz), habilidade comercial (um embrulhador), impressionabilidade (um blasonador).

Com mais sentimentos antagonísticos foram afectadas suas reflexões subsequentes?
Inveja, ciúme, abnegação, equanimidade.

Por que mais abnegação que ciúme, menos inveja que equanimidade?
De ultraje (matrimónio) a ultraje (adultério) aí se ergueu nada senão ultraje (copulação) embora o violador matrimonial da violada matrimonialmente não tivesse sido ultrajado pelo violador adúltero da violada adulteramente.


James Joyce, in Ulisses, trad. António Houaiss, 6.ª edição, Difel, 1994.

ELOGIO DO CINISMO (4)


Diógenes de Sínope deixou as suas sementes: Onesicrito, Crates de Tebas e sua mulher, Hipárquias, Métrocles, irmão de Hipárquias, e Mónimo de Siracusa. Mais tarde, outros obscuros se juntam ao movimento: Bíon de Boristenes (filho de um escravo e de uma prostituta), Menipo de Gadara, o poeta Cercidas, Teles de Mégara, todos eles reduzidos pela História a um mero inventário de anedotas. Mas os ensinamentos de Antístenes, levados ao limite por Diógenes, floresciam e faziam escola: combater as ilusões idealistas, renunciar à fama, opor-se às leis limitadoras da liberdade, um esforço contínuo, um trabalho persistente na defesa da liberdade, mesmo que isso implicasse um combate aos prazeres ─ «Esse “desprezo pelos prazeres”, já pregado por Antístenes, é fundamental na vida do cínico, já que o prazer não só amolece o físico e o espírito, mas põe em perigo a liberdade, tornando o homem escravo, de vários modos, das coisas e dos homens aos quais estão ligados os prazeres. Até o matrimónio era contestado pelos cínicos, que o substituíam pela “convivência concorde entre homem e mulher”. E, naturalmente, a cidade era contestada: o cínico proclamava-se “cidadão do mudo”» (Giovanni Reale & Dario Antiseri). O desprezo pelos prazeres não configura um elogio do sacrifício, não segue a linha de desprezo pelo corpo apregoada por Platão, antes pelo contrário, ele dirige-se, como uma seta na direcção do seu alvo principal, aos inimigos da liberdade. O que importava a estes homens, antes de mais, era garantir a liberdade, e essa liberdade não se afigurava possível estando o homem cativo de bens materiais absolutamente supérfluos. Advoga-se o necessário em detrimento do supérfluo, o que, no contexto tenebroso da actualidade, significa tão-somente resistir à tentação depredadora do consumismo. A vida de Diógenes de Sínope, excessiva e licenciosa, é o exemplo mais limite desta postura: viver sem nada para viver com tudo, independente, “autárquico”, livre, oferecendo ao corpo os prazeres necessários, jamais sacrificando-o com prazeres rapidamente convertíveis em vícios escravizantes, em suma, denunciando a hipocrisia da vida social e exaltando a liberdade. Crates, discípulo de Diógenes, seguiu a mesma linha, a qual se foi reforçando no tempo até ao momento da condenação: «Ainda no séc. IV o imperador Juliano, o Apóstata, não deixará de condenar a irreverência e ousadia dos Cínicos remetendo-os para a austeridade dos tempos antigos» (Maria de Jesus Lorena Brito). Não admira que assim tenha sido, o “ideal cínico”, expressão que aqui se aplica com reconhecida infelicidade, já que o cínico é anti-ideal, não jogava a favor das manipulações levadas a cabo por quem, detendo o poder, começava a prometer reinados celestes em troca de vidas submissas. Crates, por exemplo, foi completamente riscado da história. Que exemplos perniciosos nos terá deixado? Defendeu que as riquezas e a fama eram males, reivindicou para a pobreza e para a obscuridade o estatuto de virtudes, em coerência com o que defendia vendeu todo o seu património, distribuiu os ganhos pelos seus concidadãos, transformou-se numa ameaça à ordem da cidade, era apolide, o que significava uma refutação de todas as leis que pretendessem confinar, circunscrever, limitar, traçar fronteiras entre os homens, criticava os costumes soltando gargalhadas da garganta… As gargalhadas de Crates ecoam o riso de Demócrito, dão-lhe volume, chocam contra a seriedade abstrusa do platonismo, contra o ódio à poesia, o ideal de uma cidade perfeita erigida sobre leis castradoras, são gargalhadas extremas e anárquicas, daí que tenham sido silenciadas. Eis alguns episódios que caricaturam estes heréticos filósofos: a Diógenes passeando-se em pleno dia com uma lanterna acesa, pernoitando no interior de uma grande ânfora, masturbando-se na praça pública, juntam-se Crates e Hiparquia, sua mulher, amando-se à luz do dia, sob «os olhares turvos, divertidos ou chocados dos cidadãos, dos metecos, das crianças ou das mulheres que passam por ali. Ele faz-se inocente e pergunta por que razão aquilo que toda a gente faz de forma privada, em casa, fechado num quarto, não se pode fazer do mesmo modo em público, diante dos olhos de toda a gente. Que se lixem as convenções e os hábitos culpabilizadores da carne!» (Onfray) Afinal, no princípio, Adão e Eva andavam nus e não sentiam qualquer vergonha por isso. De onde veio a vergonha? Quem a instalou entre os homens? Como surgiu esse repúdio pelo corpo? Que medo justifica a expurgação da carne?

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

ESPADACHIM

Um solitário com os olhos lançados no horizonte da criação. Odysséas Elytis nasceu em Iráklion, Creta, no dia 2 de Novembro de 1911. Os pais eram gente próspera oriunda de Lesbos, a cidade de Safo. Mudaram-se para Atenas, onde o poeta estudou Direito, entre 1930 e 1935, sem ter terminado o curso. Trabalhava esporadicamente nos negócios da família, uma fábrica de sabonetes. Inicialmente influenciado pelo surrealismo francês, publicou os primeiros poemas na revista Néa Grámmata. Lembramos parte do posfácio que Manuel Resende escreveu para a louvável tradução portuguesa de Áxion Estí: «Os jovens que na década de trinta se lançaram na Grécia à conquista da instituição literária queriam um renascimento nacional e uma reinserção da Grécia no mundo moderno. (…) Recusavam as formas estereotipadas dos poetas instalados, os quais se limitavam a imitar adormecidamente os mesmos ritmos e temas dos neo-românticos e neo-simbolistas e se perdiam no respirar de um pessimismo que se tornara moda. (…) Eram jovens de educação burguesa cosmopolita, mais ou menos próximos do partido liberal de Venizélos, mas demonstravam certo desprezo pelos estratos dominantes da burguesia (a burguesia que, dizia Elytis, «antes de se pôr a jogar à canastra, já fora uma força criadora»). Não eram, porém, os únicos escritores novos. Noutros quadrantes, surgiam Ritsos (prisioneiro por uns tempos dos dogmas do realismo socialista, mas estrangeiro no seu próprio campo), ou os surrealistas agrupados em torno de Andréas Empeiríkos, Níkos Kalamáris (ou Nikíta Rántos, ou N. Calas, pseudónimos que utilizou) e Níkos Engonópoulos. Foi com este grupo que Elytis afiou as suas espadas» (Assírio & Alvim, Março de 2004). Enfim, bons exemplos que o tempo levou. A primeira colectânea de Odysséas Elytis surgirá em 1940 com o título Orientações. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando os alemães invadiram a Grécia, o poeta juntou-se à resistência e serviu na Albânia. Finda a guerra, escreveu crítica para o jornal Kathimerini ─ deixou uma obra crítica extensíssima ─ e trabalhou na imprensa nacional. Mudou-se para Paris em 1948, onde estudou literatura na Sorbonne e conheceu alguns artistas e intelectuais da época. De novo na Grécia, assumiu vários cargos de relevo cultural durante um período que serviu também para elaborar a mais difícil e ambiciosa das suas obras, o livro Áxion Estí (Louvada Seja), dado à estampa em 1959. Entretanto, tinha publicado apenas dois poemas em revistas: Canto Heróico e Fúnebre pelo Alferes Caído na Albânia e A Bondade na Vereda dos Lobos. Louvada Seja tem sido comparado a Canto de Mim Mesmo de Whitman, foi musicado por Míkis Theodorákis, foi cantado como sinal de resistência durante a ditadura dos coronéis, novo período de exílio francês para o poeta, demorou 14 anos a ficar concluído, transformou Elytis num “poeta oficial”. Em 1978 publica uma outra obra fundamental, Maria Neféli, e em 1979 é-lhe atribuído o Prémio Nobel da Literatura. Odysséas Elytis nunca casou, viveu os últimos anos na companhia da poeta Ioulita Iliopoulou. Morreu de ataque cardíaco em Março de 1996.

domingo, 1 de novembro de 2009