Segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

POSTO DE INFORMAÇÕES

Hoje vieram procurar lápis, envelopes, forros para blocos de apontamentos (?), leitores de DVD, livros de borracha. Também me perguntaram se eu sabia onde é que se vendiam calças Levis para criança. Perguntei se com a cintura baixa ou modelo clássico.

ELOGIO DO CINISMO (9)


A paixão cínica pode ser duplicada por uma vontade aristocrática. Sempre gostei que Roger Vailland, comunista, conduzisse um Jaguar MK II, tomasse heroína e que o seu compromisso, ao lado dos despojados, fosse apenas suspeito aos olhos das belas almas ainda piedosas, ou até cristãs até às entranhas, que só dão crédito aos pensamentos de esquerda no caso de estes envergarem, ridiculamente, os ouropéis caricaturais de uma pobreza composta, ostensivamente exibida a tiracolo. A culpabilidade não é uma obrigação nem um dever, pela simples razão que uma política hedonista, libertária e de esquerda, ilustra-se menos pela arte de empobrecer os ricos do que pela de enriquecer os pobres.
Longe daquilo que, numa dada época, pôde caracterizar uma esquerda dita «caviar», sobre a qual ainda se procura saber o que fazia dela uma esquerda, quando já não existem mais dúvidas sobre as razões e a existência da sua intoxicação ao beluga, um pensamento libertário, infundido por uma mística de esquerda, pode muito bem funcionar no registo artístico. Como prova, para além de Roger Vailland, as páginas soberbas escritas por Oscar Wilde, sob o título
A Alma do Homem sob o Socialismo ─ um livro de plena actualidade, após um século de existência ─ ou, mais inesperado, um almoço que aproximou, nas primeiras semanas de 1849, Baudelaire e Proudhon, numa pequena loja de pronto a comer da Rua Neuve-Vivienne. Um olhar ao sistema das contradições económicas, outro para saborear as flores do mal ou provar os paraísos artificiais, tendo o conjunto por desígnio o que Séverine chamava, no século passado, um dandismo revolucionário ─ esta mistura não deixa de me agradar.
A opção libertária, não tendo a obrigação de operar ao lado da compaixão no seu registo cristão, não me parece legítimo que para se ser credível se tenha de ser pobre ou despojado de si próprio, pois os detractores diriam, então, que o comprometimento político seria motivado por um ajuste de contas pessoal ou pelo ressentimento, no que encontrariam novos motivos para o descrédito que tanto procuram. Dandismo e pensamento libertário funcionam às mil maravilhas em todos aqueles que, longe dos imperativos do realismo socialista, em virtude do qual é necessário submeter a arte à política, postulam exactamente o inverso e esperam da arte que ela dê forma ao político, que o alimente, que lhe transmita força, vigor e energia. Nessa perspectiva, o dandismo contemporâneo do século da revolução industrial pode ler-se como reacção contra a unidimensionalidade gerada pela metamorfose do capitalismo.
Contra o igualitarismo, essa religião nociva da igualdade, o dandismo reivindica uma subjectividade radical activa, no combate contra todas as palavras de ordem do momento: culto do dinheiro e da propriedade, dogmas burgueses e mitologias de família, economia sensata dos casais e consumo da imprensa como única referência intelectual, cultural, de tudo o que constitui a tonalidade da época. Baudelàire afirma e exibe uma furiosa independência de espírito, uma animosidade particular em relação aos burgueses, venham eles de onde vierem, da esquerda ou da direita. Professa o culto do inútil e do artifício, do lazer e do gratuito, onde a maioria se esgota no útil, no rentável, no trabalho, na renda.
O dandy procura o sublime. A política libertária aspira ao mesmo tipo de objectivo: a assunção do indivíduo artista reage contra a queda dos particulares nos «bas-fonds» onde triunfam as virtudes e os valores burgueses. O poeta contra o farmacêutico, o pintor como remédio à frouxidão da vida moderna, o escritor à laia de resposta às infâmias induzidas pela industrialização e pela era da reprodução mecânica dos objectos, dos homens, das obras de arte ─ pensemos nas imprecações do poeta sobre a fotografia ─ ou das individualidades. Na época do reproduzível, todos são pensados, desejados e construídos segundo o mesmo padrão. O dandismo teoriza a reivindicação de garantias, multiplicadas pela expressão da individualidade e pela soberania das monadas.
O dandismo revolucionário, formulado por Séverine, não supõe a comunhão nalgum outro pecado venal, por vezes mortal, cometido por aqueles que estremecem não muito longe da mística de esquerda: o dever de amar o povo, a obrigação abjecta de celebrá-lo, de lhe conceder ou emprestar méritos, pois uma vista de olhos retrospectiva sobre a História deveria dissuadir a prática desse entusiasmo tão perigoso quanto nefasto, fornecedor, em cada ocasião, dos gregarismos políticos, do estalinismo ao nazismo, passando pelas fórmulas europeias de um nacional-populismo declinado nos registos italiano, espanhol, francês, grego e da Europa de Leste. Não há nada mais devoto para com o povo que as declarações de Lenine, Estaline, Hitler, Pétain, Mussolini, Franco, Le Pen e tantos outros, cuja fabulação sobre este universal das suas contas se alimenta do esquecimento e da negligência dos indivíduos, únicos princípios ou unidades operatórias em matéria de política. O dandy prima na farmacopeia que se opõe ao
homem das multidões.

Michel Onfray, in A Política do Rebelde – Tratado de Resistência e de Insubmissão, trad. Carlos Oliveira, Instituto Piaget, 1999, pp. 194-196.
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ARTUR

Tive um cão chamado Artur. Não era meu, mas acompanhou-me durante um Verão passado em Odeceixe. Portanto, como tudo o que algum dia me acompanhou, tive-o pelo tempo que o mereci. O Artur foi uma excelente companhia, era perspicaz, carinhoso, um exímio caçador de pinhas, um guarda que se chegava à tenda sempre que escutava lá no seu modo de escutar o mais ínfimo formigueiro. Nunca mais vi o Artur senão em pensamentos. Sou visitado amiúde por este cão, pelas memórias desse Verão de 1996, pelo sorriso do meu amor sentada numa mochila enquanto eu fumava um Marlboro e ambos esperávamos o autocarro que nos haveria de levar até Vila Nova de Mil Fontes. Montámos a tenda durante uma, duas noites, não mais. O parque era ruidoso, mais que os meus cabelos compridos e o sorriso jovial do meu amor a olhar o desaforo com que eu enfrentava um bloody mary a saber a ketchup. Depois apanhámos boleia para Odeceixe.

Que será feito do Artur nas noites de Verão? Que é feito de nós adormecidos um ao lado do outro, enquanto ao lado de nós, separados por finas paredes de tecido impermeável, outros casais adormeciam? Que é feito daqueles longos cabelos que o teu sorriso penteava por debaixo da sombra de extensos eucaliptais? Eu sei onde fica a fachada desta casa, tem uma só janela de madeira protegida por uma rede que impede os insectos de se intrometerem no sono, tem cadeiras pintadas de vermelho, uma jarra com flores silvestres sobre o tampo da mesa, um tampo contornado pelos malmequeres que alguém ali pintou enquanto orava aos budas expostos sobre o aparador. É um móvel dos antigos, esta casa, um armário com portas e janelas, duas gavetas, uma base onde deixámos a bilha de barro cheia de água fresca. É um cabide coberto de canecas especiais, cada uma com a sua memória de visitas esporádicas - como esta agora aqui sentado folheando as fotografias do verão de 96.


Tinhas um vestido preto, de alças, com florinhas brancas, tinhas o ar que ainda tens quando o teu sorriso se senta no baloiço montado entre os dois pinheiros, dois pequenos pinheiros nascidos das sementes que largámos sobre a Terra, quando descansas à beira de árvores antigas, na sombra dos medos que te consomem sempre que eu escrevo com o feltro da pele a palavra nua: amor. E o Artur atacava-nos as Dr. Martens com aquele sorriso canino que sempre gostei de pôr em tudo o que escrevo, bebíamos shots de vodca, uníamos os corpos no terraço, debaixo de um mar de estrelas, afogados numa luz milenar que sempre soubemos apreciar com os olhos de quem olha pela primeira vez. Mesmo quando embalados na rede esticada ao lado do baloiço, mesmo quando ensaboados pelo chuveiro balde, roubávamos à garganta os acordos tortos da nossa canção preferida.


O presente é uma coisa estranha, anda sempre atrás de nós. E já ali estava, olha para ele, no regresso, quando voltámos do Verão cheios de trabalhos, uma tese, talvez sobre Heidegger, e eu desesperadamente concentrado no ser para a morte quando sempre quis ser apenas para a vida. Merda para o Heidegger, dizias. Mas a culpa não era do filósofo alemão, não tanto como era de um semestre inteiro a ouvir o César das Neves especular sobre a melhor tradução para dasein. Eu bem lhe tentei explicar, mas ele não me deu ouvidos. Dasein é o Artur a ser lembrado daqui a, sei lá, 13 anos, é o sorriso do meu amor comovido com a leitura de um texto que hei-de então escrever, é eu para a vida enquanto ao fundo da estante a figura de Nietzsche se cola à sombra de Sócrates com a Janis Joplin a fumar um charro de premeio. Dasein, ó senhor professor, é tomar banho debaixo de um chuveiro balde enquanto o Artur me lambe os pés e os pinheiros abanam ao vento da nossa alegria. Chumbei.

OS ESCRIBAS


Nunca senti por eles grande entusiasmo.
Se eram excelentes eram também petulantes
e de um trato tão espinhoso como o azevinho
de que extraíam a tinta.
E se nunca fui um deles também é certo
que nunca me puderam negar o meu lugar.

Na quietude do
scriptorium
crescia neles a todo o tempo uma pérola negra
como o velho coágulo seco por dentro das penas.
À margem de textos laudatórios
arranhavam, esgadanhavam.
Rosnavam se o dia estava escuro
ou se giz a mais amolecera o
vellum
ou giz a menos o deixara oleoso.

Sob os dorsos da caligrafia
arrebanhavam rancores míopes.
Sementes de ressentimento ponteavam-lhes
as espirais de fetos das maiúsculas.

De vez em quando eu tinha um sobressalto
a milhas de distância, e via na minha ausência
o cursivo inclinado de cada dorso, e sentia-os
a aperfeiçoarem-se contra mim, página a página.

Que se recordem deste contributo não desprezível
para a sua arte de invejas.


Seamus Heaney, in Da Terra à Luz – poemas 1966-1987, trad. Rui Carvalho Homem, Relógio D’Água, Janeiro de 1997.

QUEM TRABALHA É QUE SE LIXA

Isto aqui não vai com cravos. Neste país, só com ferraduras. E mais esta qu'é para aprender: a vida não pode ir à frente da beleza.

RUA DE SANTA BÁRBARA

Na Rua de Santa Bárbara os edifícios estão quase todos em construção. Vivendas de bom porte contrastam com as casas dos mineiros, do outro lado da rua. As crianças aproveitam as paredes abertas para imitarem os filmes de acção. Pegam em tubos largados pelo piso térreo, munem-se de azeitonas, disparam contra as sombras a descoberto nas salas em esqueleto. Na Rua de Santa Bárbara há uma virgem mártir, chama-se Felicidade.

Domingo, 29 de Novembro de 2009

RUA DAS FLORES

A Patrícia diz-me que gosta do Inverno porque pode usar cachecóis. Ao escutá-la, lembro-me da Rua das Flores. Vi por lá mulheres antigas, sentadas em bancos de madeira, tecerem a lã das golas altas, das peúgas, dos casaquinhos para os netos, dos cachecóis. Vi por lá crianças pobres, filhas de pais avessos, outras tratadas como mandavam os cuidados da vida burguesa. Havia um rapaz que jogava futebol, estacionava o carro a altas horas com mulheres penduradas ao pescoço. E um fadista que desaparecia amiúde deixando para trás a mulher grávida de nove filhos. Havia um homem que tinha uma mula, uma rapariga feia que andava sempre ranhosa, um casal de beatos, ela mais que ele, ele parecia-me paneleiro, e uma mulher que cozia pão todos os dias. Deixámos de lhe comprar o pão no dia em que veio brindado com uma caganita de rato. Do que eu mais gostava na Rua das Flores era da taverna de balcão mármore, mesas onde se batiam cartas, bebiam ginjas. Comprei lá os primeiros definitivos, bebi lá a primeira gasosa, foi de lá que trouxe, um dia, a ideia de que nunca é tarde para mudar de vida. Não me perguntem agora porquê. Curiosamente, nunca vi flores na rua das flores. Só as bordadas pelas mulheres antigas.

FADO

Fomos a Lisboa ver a bola plasmada na sala do amigo Ferreira. Enquanto o esférico traía os pés tortos da maralha, cumprimos o ritual do fondue e deitámos abaixo uma de tinto. Voltei a beber uísque, que fique registado. Já não aquecia o fígado com puro malte desde que adormeci ao lado de um ecoponto. Muitos anos passaram. À época, como lembrou o camarada Ferreira, conquistávamos as caves ao som dos Nirvana. Agora andamos para aqui. Por mim, ando ora manco, ora recto, mas sempre radical no que parece ter entrado em desuso nas divisões do coração, essa coisa estranha a que chamam cumplicidade. Por ela, os fados do Rodrigo foram baladas para os meus ouvidos.

QUEM É O ASSASSINO?



O juiz que costumava julgar os processos-crime, disparou contra um corço no território grande da reserva. Depois de ter dado o tiro de misericórdia, disse assim:
─ A caça é a paixão mais nobre.
O procurador fazia colecção de borboletas. Furava com um alfinete os seus abdómenes e, quando já estavam mortas de asas abertas, pensava:
─ Assim é a sede de saber.
Quem escreve estas linhas e também a reportagem sobre um assunto de crime, é um adepto entusiástico do pólo aquático. Se algum jogador da sua equipa dá um pontapé no estômago do adversário, ainda o encoraja da tribuna.
─ O pólo aquático é um desporto duro ─ costuma dizer-se. E o que é que disse o assassino?
Não esteve com rodeios. Confessou, compungidamente, ter morto a mulher que o tinha traído com toda a gente, impelido a sua filha à desmoralização, arruinado a família inteira. Disse desanimado:
─ Sou um assassino.
Foi enforcado.


István Örkény, in Histórias de 1 minuto, vol. 1, trad. Piroska Felkai, 2.º tiragem, Cavalo de Ferro, Novembro de 2004, P. 123

SAPPY


Trazem-nos chá com torradas, doce de tomate. O que penso disso? Não penso nada. As caves onde andávamos aos encontrões fingindo que dançávamos foram todas transformadas em salões de chá, agora é proibido fumar e respirar mata, passeamos os olhos por centenas de canais. Alguns jovens têm um ar muito sério e respeitável, querem ser clones dos pais enquanto os pais os colonizam. Outros fumam drogas, roubam carros, passam horas no ginásio a enrijecer os músculos com que defenderão as damas dos rivais. Mal sabem elas que o mais provável será, dentro de anos, servirem de saco àqueles músculos. Sobre assuntos destes fazem-se estatísticas. O que penso disso? Não penso nada. Bebo um chá e como torradas.

CARAPAUS GRELHADOS

A minha mulher tem o terrível defeito de me amar. Esforço-me para o contrário, mas ela lá vai dizendo que não pode viver sem mim. Uma vez fiz-lhe uma surpresa. Levantei-me cedo, fui ao mercado comprar pão caseiro e queijinhos frescos, legumes para uma salada e carapaus. Depois grelhei os carapaus, temperei uma salada, cozi umas batatas e um ovo, servi-lhe os queijinhos de entrada. Ela gostou de molhar o pão caseiro no azeite, debicou a salada e os queijinhos, mas quase não tocou nos carapaus. Queixou-se de que o peixe grelhado lhe provocava gases. Após a refeição, ferrou-se a dormir e deixou-me a sós com os carapaus. No dia seguinte, disse-lhe que ia comprar cigarros e pus-ma a andar. Só parei ao quilómetro 15, quando as pernas não aguentavam mais e as bolhas cresciam nos pés. Apanhei boleia para o mais longe possível. Regressei a casa passados cinco anos. A minha mulher olhou para mim e perguntou: já? Disse-lhe que tive saudades de casa, ela respondeu-me que não podia viver sem mim. Viveste os últimos cinco anos sem mim, lembrei-lhe. Ela sorriu-me, abraçou-me, perguntou-me se eu queria carapaus grelhados ao jantar.

MEDITAÇÃO


o amor é como o trigo
a alguns já lhe chega em pão
mas se no momento antigo
o amor é sol vento e chão

esses sabem-no pela televisão

Miguel-Manso, in Quando Escreve Descalça-se, Trama Livraria, Novembro de 2008, p. 31.

Sábado, 28 de Novembro de 2009

PROVÉRBIO

Onde estão os livros de poesia, perguntou Baltazar. Estão ali, respondeu-lhe o livreiro, apontando para uma estante ao fundo da sala. Baltazar dirigiu-se para a estante com os olhos postos numa, duas, três, quatro, cinco prateleiras abarrotadas de livros de poemas. Junto à estante, o apetite murchou. A estante era realmente descomunal, mas afinal os livros de poemas ocupavam apenas metade de uma das prateleiras. Só têm isto, perguntou Baltazar. E não lhe chega, respondeu-lhe o livreiro. Baltazar sentiu que não tinha como responder àquela pergunta. Como nunca fora dado a leituras, seria de um descaramento enorme protestar contra pobreza tão evidente. É como diz o povo, a cavalo dado não se olha o dente. E o leitor interroga-se: e daí? O próprio Baltazar se interrogou. Que tinha o povo e o cavalo e o dente do cavalo que ver com aquela situação? Por que razão vinha o ditado à baila? É que burro com fome, cardos come. O quê? Burro com quê? Mas a que propósito surge agora a fome do burro? Há sempre um ditado para tudo, pensou Baltazar. Pensou também que este pensamento podia transformar-se num ditado: há sempre um ditado para tudo. Pensou igualmente que havia nos provérbios populares um não sei quê de poesia, algo que contrastava com aquela prateleira indigente. Por que razão eram os provérbios populares e os poemas assunto de meia estante? Tentou em vão recordar-se dum poema popular. Lembrou-se de uma quadra que lhe fora oferecida por um dos seus amores: gosto muito dos teus olhos, muito mais gosto dos meus, se não fossem os meus olhos, não podia ver os teus. E então pensou que cada um vê mal ou bem, conforme os olhos que tem. Lá estava, mais um provérbio popular a intrometer-se entre ele e aquela estante anoréctica. Tem livros de provérbios, perguntou Baltazar ao livreiro. Estão aqui, respondeu-lhe o livreiro, colocando a mão sobre um monte de livros de provérbios expostos em cima do balcão. Então Baltazar deu uma volta pela livraria, pegou num livro sobre pombos-correios e num livro com as páginas todas em branco, dirigiu-se ao balcão para pagar e pediu uma esferográfica. Depois escreveu no livro com as páginas em branco o seu primeiro poema: a vida não tem remédio, arranja-lhe um provérbio. Mostrou-o ao livreiro e perguntou-lhe onde é que ele arrumaria aquele livro se o quisesse vender. O livreiro olhou-o nos olhos e respondeu-lhe que quem cabritos vende e cabras não tem, dalgum lado lhe vem. E nisto, Baltazar rematou: casa de pombo, casa de tombo.

QUE SABEMOS NÓS


para o Augusto Mota


Que sabemos nós das dores de cada um?

sabemos dum rio dum pomar duma flor
dum pássaro morto na primavera
e tudo isso escrevemos num poema

─ mas das dores de cada um que sabemos nós?

dos homens anónimos que viajam na solidão dos eléctricos
dos meninos que amanhecem mortos
junto aos muros das grandes cidades que sabemos nós?

sabemos dum nome que o jornal traz todas as manhãs
mas dos homens que vendem os jornais que sabemos nós?

sabemos acaso como doem as suas lágrimas no silêncio
quando a tarde é uma pedra de melancolia
caindo sobre os ombros?
ah tudo isso escrevemos num poema
mas de tudo isso que sabemos nós?

quando as luzes se acendem na cidade
e a noite é uma lágrima
que sabemos nós do desespero das mãos vazias
dos olhos que não vêem mais que a noite
para além duma janela sem cortinas?

ah tudo isso escrevemos num poema
mas dos que ficam para contar aos que vierem
das suas dores na madrugada
e da esperança que a noite trará um dia às suas mãos vazias
e aos seus olhos que não vêem mais que a noite
para além duma janela sem cortinas que sabemos nós ?

─ ah tudo isso escrevemos num poema.

Luís Pignatelli, in Obra Poética 1953-1993, &etc., Maio de 1999, pp. 23-24.

ANTES AGORA


Há 33 anos, Maria Gabriela escreveu: «Não sou uma mulher mãe, sou uma mulher escritora, um ser humano que sobreviveu por graça da escrita, e o seu exercício falta-me terrivelmente». Mas os escritores mentem, mentem com quantos dedos têm, e sob um céu índigo de uma tarde de Novembro tu podes terminar um livro a pensar que és um homem pai, um homem pai escrevente e que sobrevives do ar que respiras, alternadamente purificado pelo fumo dos cigarros e pela sombra das palavras. Podes também perguntar-te como era antes. E logo respondes a ti próprio que não era muito diferente, promessas que jamais cumpririas, de ano para ano repetidas, promessas, desejáveis promessas, fixadas pela palavra até o corpo te exigir um gesto que fosse todo ele corpo, um gesto que cumprisse a promessa por cumprir. E algumas, apesar de tudo, foram sendo cumpridas. Como essa de te manteres vivo. Mas antes como era? Como era antes? Não era muito diferente de agora, pensas. Sentavas-te no sofá até a almofada se afundar debaixo do teu corpo, até o teu corpo deixar no soalho as formas da carne, sentavas-te a ver televisão, a ouvir música, fingias que acompanhavas os teus músicos preferidos, vias Alice repetidas vezes e choravas, ouvias Bernardo Sassetti numa tarde de Novembro, contavas pelos dedos o amor que tinhas, olhavas as filhas, dantes, dantes olhavas as filhas de agora e pensavas que um sorriso todas as manhãs podia disfarçar-te as depressões da terra, não estavas, nunca estiveste, metido numa bolha senão a bolha do teu próprio corpo, da carne à qual oferecias bebedeiras desesperadas, à qual ofereces desesperadas bebedeiras, dantes o corpo exigia-te as bebedeiras e tu esmorecias, agora não agora dantes, porque como era Dante?, como era antes?, tu não eras Dante, eras apenas o Inferno submergindo nos ideais paradisíacos de um passeio pelos passadiços de madeira que acompanham as bainhas do oceano, dantes era a espuma dos dias, dantes era agora os dias feitos em espuma e em cinza e tu debaixo de Novembro a swingar um único ideal: o ideal do riso que era já dantes o teu ideal de agora, os dedos percorrendo o corpo das feridas, percorrendo mesmo, não como nos poemas, como na carne à qual os poemas vêm buscar sentido. Porque é isso que mantém vivo o exercício da escrita, pensas, esse riso diabólico com que enfrentas as marés e mergulhas, porque mergulhas mesmo, literalmente, nos mares bravios da memória. Quem está perto de ti sabe que nunca houve, nem dantes nem agora, outra vontade senão a de estar onde não estás, a inquietude do disco do Sassetti a caminhar até ti como tu caminhas nos passadiços de madeira que acompanham as bainhas do oceano, e pensas tu que dantes seria diferente, não. Dantes entretinhas-te a contar pelos dedos, agora usas uma máquina calculadora, dantes perdias horas a desfiar novelas, agora ocupas vidas a desafiar novelos, dantes foi apenas um prelúdio para o que agora cumpres porque nunca deixaste senão de cumprir o que se te oferece pela raiz da terra, o que te entra pelos olhos adentro, queima a retina, espicaça a íris, provoca a dor, traz à superfície a lágrima como um balde que vem do fundo de um poço seco, como um dedo que vem do fundo do coração, esse mundo que te entra pelos poros e metes na página digital, esse mundo que antes era já o mundo de agora, despejado antes para a página surda, agora para a janela ruidosa das vidas cibernéticas, porque tu sabes que viver está muito para lá desta ilusão alimentada pelas descargas de fúria com que palreias o que te entra pelos sentidos adentro, pela boca, pelas narinas, pelos ouvidos, tudo o que entra em ti porque antes, como agora, tu és um corpo no mundo, um corpo em relação com o mundo de outros corpos, outros corpos diferentes do teu antes agora, sob céus cinzentos de tardes índigo, noites de Novembro, e a música sacando-te a lágrima, My Funny Valentine, my funny, my valentine, my my my funny valentine, antes eras tu e eu e mais ninguém, agora somos nós dois e um antes inteiro muito depois de tudo o que foi antes. E nisto resta-te apenas o querer experimentar o mundo para lá deste agora, o querer continuar a experimentá-lo antes que se faça tarde, antes que a pressa encontre a demora.

A SOLIDÃO E O SONHO

O sonho encontrou a solidão numa noite de Verão. Foi amor à primeira vista. Como todos os amores de Verão, também este amor durou o que tinha de durar. Não estava na natureza da solidão entregar-se a quem quer que fosse, e muito menos fazia parte da natureza do sonho deixar de sonhar com o amor dos seus sonhos.

UM CASAL

Rodrigo foi acordado pela gritaria de um casal que discutia na rua. Levantou-se da cama, espreitou pela janela e viu um homem a tentar abraçar uma mulher enquanto ela o afastava repetidamente. Porém era ele quem dizia vai-te embora, vai-te embora, ao que ela lhe respondia não tenho nada, a minha vida é uma merda, e ele repetia vai-te embora, vai-te embora, e ela retorquia tu não gostas de mim, e assim sucessivamente. Impacientado com a cena, Rodrigo desceu do quarto até ao casal. Quando chegou ao pé deles propôs-lhes o seguinte: caro casal, já que fizeram o favor de me acordar com a vossa discussão, resolvi vir até aqui lembrar-vos de que a vida é, de facto, uma merda, pelo que o melhor é não afundarmos a merda na merda, sob pena de nós próprios acabarmos transformados num cagalhão. Ora, amanhã mortos, hoje vivos. Que tal se fôssemos os três para minha casa e transformássemos a merda em ouro com uma noite de amor a três? O casal olhou o rosto de Rodrigo com desprezo, mas assentiu. Depois de uma magnífica noite de amor a três, Rodrigo foi novamente acordado pelo casal em fúria. Ele repetia a mesma conversa da noite anterior e ela não variava nem uma linha no discurso. Então Rodrigo expulsou-os de casa, argumentando que a vida era, de facto, uma merda, o amor uma coisa muito linda, mas do que ele precisava mesmo naquele momento era de dormir.

POST-SCRIPTUM

Na verdade, a estória anterior não se passou exactamente como se encontra relatada. A mulher sacou de uma pistola e disse que se ia matar. O homem dizia-lhe vamos embora, vamos embora. Ela continuava a ameaçar que se ia matar. Rodrigo pegou na caçadeira e atirou contra os dois, deixando-se depois adormecer no maravilhoso silêncio da noite.

Sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

DESNASCER





Ainda ontem de madrugada, enquanto festejávamos um ano de buliço, eu confessava aos meus camaradas de serviço que só guardo uma frustração na vida: não ter estudado música. Ainda vais a tempo, disseram eles. Claro que sim, embora já seja tarde para ir a tempo. Independentemente disso, estas fotos deixam-me numa alegria infantil que vossas excelências nem imaginam. (Novamente AQUI)

RAIVA

Arnaldo nasceu e foi criado numa aldeia do concelho de Rio Maior chamada Arrouquelas. Conheci-o no arraial em honra de Nossa Senhora da Encarnação, durante uma partida de matraquilhos que Arnaldo jogou com a destreza dos mestres. Bebemos umas cervejas e metemo-nos à conversa. Depois cada um seguiu o seu caminho, mas eu nunca mais quis perder de vista as vistas de Arnaldo. Sei que andou de guitarra a tiracolo pelos bares algarvios. Dizem-me que ganhava o suficiente durante três meses para se aguentar no resto do ano, ainda que, no resto do ano, continuasse a andar de guitarra a tiracolo pelos bares do Norte, alguns hotéis, casas de fados. Mas Arnaldo não era fadista propriamente dito, tinha um sentido prático da vida que aliava a uma indecifrável marginalidade. Era um Jorge Palma de segunda divisão, um Bob Dylan em início de carreira com o azar de ter nascido numa ladeia refundida de um país refundido. O tempo trouxe-lhe algum juízo, ofereceu-lhe experiência e aprendizagem, a suficiente para ter aberto a pestana e pôr-se a andar daqui para fora. Quando zarpou, se bem sei, já andava nos trinta anos de vida (ou perto). Graças a ele, li alguns livros de boa memória. Assim que me lembre, o Molero de Machado ou os Bons Malandros do Zambujal. Mas de todos os livros que me aconselhou em noites de cabeleira, O Mundo dos Outros é, talvez, aquele que mais me influenciou. Depois de se ter metido na alheta, o mundo de Arnaldo cumpriu-se como jardineiro em mansões abastadas nos arredores de Londres. Amealhou algumas libras, mas o negócio faliu-lhe quando foi apanhado em flagrante com uma das patroas. Conta-se, mas o que se conta nem sempre confirma a verdade dos factos, que a milf gostava que ele lhe cantasse em português enquanto a penetrava. O que lhe cantava Arnaldo não sabemos. Depois dos jardins, partiu para os barcos. Andou nessa vida durante, pelo menos, dez anos seguidos. Os barcos eram microcosmos em trânsito, um melting pot flutuante onde tudo podia acontecer. E de tudo aconteceu a Arnaldo durante esses dez anos. Conheceu uma mexicana por quem se apaixonou. Ela não podia viver sem ele, ele não podia viver sem ela, mas isto foi até ela ter conhecido um irlandês e ele ter caído nos braços de uma velha francesa cheia de francos até às orelhas. Graças ao negócio, comprou uma guitarra nova e foi promovido a solista do bar no barco onde anteriormente fazia camas, servia à mesa, satisfazia viúvas desesperadas. Depois conheceu uma angolana que vivia muito deprimida com a distância da família. O marido estava longe, a filha de quatro anos também, ela não podia viver sem eles. Mas foi vivendo, e Arnaldo consolava-lhe as ausências com muito amor e carinho, a ponto de ela ter sugerido divorciar-se para fazer vida com Arnaldo. Chegado o amor a estes trâmites, Arnaldo voltou-se para uma venezuelana e deixou a angolana em terra enquanto a vida singrava nos barcos do amor. Depois da venezuelana houve uma brasileira, à brasileira seguiu-se uma canadiana, transformações atmosféricas radicais, de climas tropicais a tépidas praias desertas, destas à savana africana, daqui às florestas húmidas do oriente. Arnaldo só esquecia os amores quando parava para defender as cores nacionais nos campeonatos de bebedeira organizados entre a tripulação dos navios. Dizia, com algum orgulho, que os portugueses só haviam perdido duas vezes: uma, para os sul-africanos; outra, para os australianos. De resto, não havia ninguém que nos batesse na maratona dos copos, nem mesmo irlandeses ou alemães, que têm mais fama do que talento nessa arte secular de equilibrar o corpo na ponta do gargalo. A vida de Arnaldo foi correndo sobre águas. Tudo mudou quando lhe chegou a notícia de que ia ser pai. À época, ele andava enrolado com uma tipa do leste. Nunca chegou bem a saber de onde ela era, mas ele dizia que ela era ucraniana. Pouco importa para o caso. Não era ela quem transportava a semente de Arnaldo no ventre, mas sim uma grega de uma ilha qualquer cujo nome também não ficou para a história. Arnaldo viu-se grego com a situação, mas o que estava feito, feito estava, mesmo que o filho não fosse dele, de nada adiantaria contradizer a grega, que até lhe parecia de confiança. O mais curioso é que a grega nem levantou ondas. Já bastavam as do alto mar, os enjoos, o vómito. As águas agitadas do amor com a grega, tinham dado lugar a uma mansidão apenas comparável, perdoem-me a falta de recursos, às águas quase paradas da baía de São Martinho do Porto. Acontecia que agora era Arnaldo quem já não podia viver sem o filho, tão afeiçoado que ficara à ideia da paternidade. Não podia, mas teve que. À primeira oportunidade a grega pôs-se a milhas, deixando Arnaldo morto de raiva, morto mesmo, literalmente. Nunca mais tocou guitarra, largou os barcos, regressou à aldeia Natal, onde ainda ontem o vi a esmagar formigas com as pontas dos dedos.

Quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

HÁ-DE CHEGAR O DIA

− Tem tela?

AINDA 2666

Os tradutores de 2666 reagiram ao texto que escrevi sobre o livro para o Rascunho. Deixo também aqui a minha resposta:

Caros tradutores,
fui alertado para a vossa reacção no passado dia 22. Por manifesta falta de tempo, respondo agora, tanto quanto me é possível, às questões levantadas no vosso comentário. Primeiro, quero esclarecer que em nenhum momento o meu texto pretende fazer uma crítica demolidora à tradução de 2666. Reafirmo que «a primeira edição portuguesa de 2666 (Quetzal, Setembro de 2009) apresenta vários problemas de tradução e é uma calamidade no que se refere à revisão». Antes de enumerar algumas falhas que me parecem justificar esta leitura, permitam-me rebater o tom moralista que o final do vosso comentário sugere. Eu digo, no meu texto, que 2666 oferece «um retrato violentíssimo do mundo que chega a ser fastidioso n’A Parte dos Crimes, com a descrição de dezenas de assassínios de mulheres, quando não hilariante nos detalhes cruéis que impelem o leitor para um abismo de desolação». Esta hilaridade é óbvia, por exemplo, no anedotário exibido entre as páginas 634 e 636 ou, para não ir mais longe, no humor negro muito particular da passagem que a seguir transcrevo:


«Houve um polícia, no entanto, que disse que uma violação completa era a que se fazia pelos cinco canais. Interrogado sobre quais eram os outros dois, respondeu que eram as orelhas. Outro polícia disse que ele tinha ouvido falar de um tipo de Sinaloa que violava pelos sete canais. Quer dizer, pelos cinco conhecidos, mais os olhos. E outro polícia disse que ter ouvido falar [sic] de um tipo da Cidade do México que violava pelos oito canais, que eram os sete já mencionados, os sete clássicos, digamos, mais o umbigo, onde o tipo da Cidade do México fazia uma incisão não muito grande com a sua faca e depois metia a verga nela, embora, é claro, para fazer isso fosse preciso já estar passado dos carretos.»


Vamos, então, às dúvidas levantadas pela versão portuguesa. É importante ter em conta que a lista que se segue não é exaustiva, mas sim a possível a alguém que não vive disto, não é pago para escrever sobre livros nem para rever traduções, paga os livros que quer ler e dá-se ao gozo de partilhar as suas leituras:
p. 33: «…e tinha sido ele, o suábio, quem o tinha ido esperar à estação e o que o havia levado à pensão…»;
p. 36: «…esculpido num peça única de mármore negro…»;
p. 39: «Quando vim trabalhar para cá já há muito tempo que Archimboldi tinha desaparecido.» (não ficaria melhor uma vírgula entre o cá e o já?);
p. 52: «Quando, por fim, chegou à janela e conseguiu abri-la, sentiu que estava ficar enjoado…»;
p. 53: «A certeza porém foi que nem Pelletier nem Espinoza visitaram Norton no seu quarto nem uma única vez…» (o último nem não estará a mais?);
p. 81: «…pensava naquele que julgava ser o último romance de Archimboldi e em que se tivesse razão…» (o em não será dispensável?);
p. 89: «Os enfermeiros ingleses falavam aos gritos, apesar de o som dos seus vozeirões lhes chegar em surdina.» (não será “apesar do”?);
p. 100: «…não para o mar nem para a para a praia a transbordar.»;
p. 105: «…acabaria por se suicidar, porque sim, gratuitamente, aturdidamente, porque não?» (é discutível, mas parece-me que “por que não?” ficaria melhor);
p. 105: «Quando chegaram, o filho estava a ver a televisão… (não estaria simplesmente a ver televisão?)»
p. 106: «A resposta dela pareceu-lhe conter uma certa dose de agressividade, mas depois lembrou-se que de Vanessa era assim.»;
p. 144: «Entrou em contacto com a obra de Archimboldi, se bem se lembrava, aos vinte anos, nessa altura tinha lido, em alemão e ido buscar os livros emprestados a uma biblioteca de Santiago…» (será esta pontuação a melhor?);
p. 203: «Amalfitano recebeu a carta seguinte vinda de San Sebastián. Nela Rosa contava-lhe que tinha ido com Imma ao manicómio…» (a carta não fora escrita por Rosa);
p. 214: «…sem esperança alguma de ver o poeta mas sim, quanto muito, algum sinal…» (quando muito);
p. 222: «Não, não é meu, disse Rosa, de certeza que não, a verdade é a primeira vez que o vejo.» (na verdade?);
p. 227: «…e depois havia a chuva, o vento, a páginas a voarem…»;
p. 234: «…individualmente os italianos era corajosos.»;
p. 234: «…Amalfitano fechava os olhos e tentava recordar uma imagem do pai qualquer, inutilmente.» (uma qualquer imagem do pai?);
p. 237: «…as pessoas que as têm não param de se coçar, com é lógico.»;
p. 275: «Quando já tinha pagado e se preparava para sair um tipo que trabalhava no desporto chamou por ele e convidou-o a beber uma cerveja.» (não faltará aqui uma vírgula?);
p. 287: «Depois à mulher cresciam-lhe pernas de madeiras e braços de arame e uma língua feita de ervas e plantas trançadas.»;
p. 330: «…como se estivesses a contar uma história num bar e todos o que estão à tua volta fossem teus amigos…»;
p. 339: «Antes de a manifestação começar a dispersar…» (antes da?);
p. 353: «- Parecem tubos – comentou Fate da porta aberta da recepção» (falta um ponto final);
p. 377: «…para que Fate viesse que ele não levava arma…» (visse);
p. 379: «Fate aquiesceu em silêncio. Quando Rosa se fechou na casa de banho pôs-se a pensar em tudo o que tinha acontecido naquela noite e doeu-lhe o estômago. Sentiu uma onda de calor a subir-lhe à cara. Sentou-se na cama, tapou a cara com as mãos e pensou que se tinha comportado como um estúpido.» (hmmmmm, a quem é que doía o estômago?);
p. 382: «…fornicar com um polícia é como se uma montanha te fodesse e foder com um traficante é como fosse o ar a fornicar-te.» (como se fosse?);
p. 385: «…ele gostava de dizer palavras indecentes e proferir insultos durante o orgasmo, mas não contra ela, mas contra pessoas indeterminadas, fantasmas que…» (o segundo mas não estará a mais?);
p. 394: «…o recepcionista desatou a rir e disse-lhe que já sabia aonde é que ele queria chegar…» (neste caso, não será mais correcto dizer onde em vez de aonde?);
p. 396: «Queria saber se senhor era nosso hóspede.» (se o senhor?);
p. 399: «…vestido com umas calças e um casaco ganga saiu do Peregrino…» (de ganga?);
p. 421: «Há uma catrafada de anos, disse ela, a rir-se.» (não vou insistir, mas procurei em 6 dicionários diferentes e em nenhum deles aparece catrafada. Será um termo em desuso? Catrefada parece-me mais correcto);
p. 437: «Por momentos, enquanto varria, o padre falou e falou: da cidade, da pingar constante…»;
p. 438: «E tu, além de ser jornalista, que outras coisas fazes…» (de seres?);
p. 449: «A descoberta foi feito por um dos vendedores.»;
p. 454: «…nada tinha a ver com os assassínios…» (segundo sei, manda a sintaxe portuguesa que se diga “tinha que ver” );
p. 471: «…da primeira a aproximar-se dela e da segundo…»;
p. 480: «…mas quase todo a gente a conhecia…»;
p. 487: «…punha-se a pensar em quão gostaria de saber mais coisas…» (não estará mal, mas soa francamente mal. Prefiro “o quanto”.);
p. 491: «Pediu seis de de carnita, três com molho…»;
p. 492: «…e o vento fizesse com ela o lhe apetecia.»;
p. 500: «…eu viu a testa dela cheia de rubis…»;
p. 502: «Ela tinha medo de falar, pois às vezes a primeira coisa que a possessão se agarrava era a língua.» (a que a possessão se agarrava?);
p. 511: «O Asuntos Internos ainda não encerrara quando ele chegou…» (não sei se o Asuntos foi opção, mas “os Assuntos Internos” parece-me melhor);
p. 519: «…a certeza que ele nunca mais voltaria a seria visto na cidade.»;
p. 527: «Eu acho que os homens deviam ser circuncidados aos vinte e um anos, se quiserem, e se não quiserem…» (se quisessem?);
p. 531: «E outro polícia disse que ter ouvido falar de um tipo da Cidade do México que violava pelos oitos canais…» (o “que” não estará a mais?);
p. 532: «O cadáver escondeu-o num armário.» (hmmmmmm, isto soa-me estranho);
p. 541: «…não acredito nem uma palavra do que me dizes…» (nem uma ou nem numa?);
p. 554: «O ranchero, que tinha o sonho leve, disse-lhe que deixasse de fazer barulho e adormecesse.»; (o sonho ou o sono?)
p. 555: «Como ele não consegue dormir, não respeita o sonho de ninguém…» (idem);
p. 586: «O corpo, de a uma mulher…»;
p. 603: «…realização do axame vaginal…»;
p. 617: «…não acreditava que a corrupção de agora fosse maior do aquela que houvera…»;
p. 626: «…no estilo dos de Poenix.» (Phoenix?)
p. 633: «..junto de umas das suas janelas…» (umas ou uma?);
p. 638: «…(que morreria fuzilado acusado de cobardia em 1915)…» (não falta uma vírgula?);
pp. 642 a 645: Michele Sánchez Castillo é Michel por duas vezes;
p. 668: «…pelo menos isso diziam isso…» (o primeiro isso está a mais);
p. 675: «…e depois disse que sim, que, sim, era.» (não sei como aparece no original, mas talvez possa estar aqui uma vírgula a mais, talvez não);
p. 683: «…que depois deitariam foram…» (fora);
p. 723: «Em também estive em casa dele…» (eu);
p. 733: «…o espelhos dos ingleses…»;
p. 748: «…e em frequente ocasiões…»;
p. 750: «..o quais pareciam cegos…»;
p. 795: «…depois de os dois carros…» (depois dos?);
p. 801: «- Exacto – exacto a rapariga -, uma pedra…» (desconfio que o segundo exacto esteja inexacto);
p. 815: «…desde tempo imemoriais…»;
p. 815: Tosltoi (Tolstoi?);
p. 822: «Considerações sobre a Morte de Evguenia Bosh» (Bosch?)
p. 827: «A noite e a passagem das estrelas pela abóbada celeste paracem intermináveis.» (parecem);
p. 829: Tosltoi (Tolstoi?);
p. 845: «…viu-a sair e dirigir-se juntamente com os outros judeus de Kostekino para aonde a aguardava a disciplina alemã..» (para onde?);
p. 858: «Ao fim de três meses foi a vez de aqueles cujos apelidos começavam por Q…» (daqueles?);
p. 864: «- Mas eu não administro de um campo de judeus…»;
p. 884: «…antes de a cidade ter…» (antes da?);
p. 902: «…pouco são os escritores…»;
p. 905: «…com todo a panóplia…»;
p. 918: «…durante todos aquele tempo…»;
p. 929: «…antes de a porta se abrir…» (antes da?);
p. 944: «…que não realidade não conhecia…»;
p. 1008: «…sem perder nem um mais um minuto»;
p. 1022: «No México Lotte ficou ainda permaneceu mais um bocado com o telefone colado à orelha.» (?)

Dito isto, estou certo de que o vosso trabalho foi esforçado e sério. A obra é imensa e, certamente, de tradução difícil. Não estou tão certo da honestidade dos ecos que vos chegaram por parte de outros críticos. Digo outros, pegando nas vossas palavras. Pois crítico é coisa que não sou.

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL

A vida corria-lhe mal, não tinha dinheiro, estava só no mundo, resolveu cortar os pulsos. Mas como conseguiria ele cortar os pulsos se não tinha braços? Resolveu, então, enfiar a cabeça dentro de um forno a gás. Ironia do destino, cortaram-lhe o gás precisamente quando enfiou a cabeça dentro do forno. Restava-lhe uma hipótese, saltar da varanda de casa. Fora de questão. Vivia num rés-do-chão. O desespero era cada vez maior, mas há sempre uma saída. Aquela luz ao fundo do túnel… eram os faróis de um camião guiado por um camionista embriagado.

HARAKIRI

Hōjō Ujinao não tinha estômago para o harakiri. Tentou-o pelas costas. Depois de várias facadas, continuou sem morrer. Sentiu-se imune ao harakiri. Certo dia, ao caminhar debaixo de um céu de tempestade, um raio atingiu a lâmina de uma faca espetada nas costas de Hōjō Ujinao. Morreu electrocutado.

OBSESSIVO-COMPULSIVO

O obsessivo-compulsivo queria matar-se. Comprou uma pistola e um estojo de limpeza para o efeito. Começou a limpar a arma, espreitou-lhe o cano, pareceu-lhe sujo, continuou a limpá-lo, a sujidade não desaparecia, limpou, limpou, limpou, obsessivamente, compulsivamente, e o cano parecia-lhe sempre sujo por dentro, conspurcado, imundo, sebento, repugnante, asqueroso. O obsessivo-compulsivo morreu de ataque cardíaco a tentar limpar o cano da pistola.

HOW RIDICULOUS THEY ARE



Os intelectuais soen muy ben zurrar
na literatura na poesia: no café
Ai how ridiculous ridiculous they are
é verdade ou não, Lord Byron, é ou não é?
Nas pastelarias nas igrejas no café
ai sobretudo sobretudo no café
é verdade ou não é, Lord Byion, é verdade ou não é?
Ai how ridiculous they are
zurrar o sabem no da fror
tempo em que as burras muito hão-de ganhar
como é de D. Dinis (com modificações) o teor



António Gancho, in O Ar da Manhã, Assírio & Alvim, Junho de 1995, p. 16.

Quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

UM NOVO ESCRITOR TALENTOSO



Andrei Andréevitch inventou a história seguinte: num castelo antigo vivia um príncipe, um bêbedo terrível. A mulher do príncipe, pelo contrário, nem sequer bebia chá, apenas água e leite. Ora, o marido bebia vodca e vinho, mas não bebia leite. Aliás, a mulher dele também bebia vodca, mas às escondidas. Ora, o marido era desavergonhado e não o escondia. «Não bebo leite, bebo vodca!», dizia sempre. Ora, a mulher tirava debaixo do avental um frasquinho e portanto, à socapa ─ hop! ─ bebia. O marido príncipe diz-lhe: «Podias muito bem partilhar comigo.» E a mulher princesa responde-lhe: «Não, é pouco para mim. Hiu!» «Tu, sua lédia!», diz o príncipe. E, ditas estas palavras ─ zás! ─, atirou a mulher ao chão. A mulher partiu a cara toda, está deitada no chão e chora. O príncipe, agasalhando-se no manto, foi para a sua torre onde tinha um galinheiro. Porque fazia lá criação de galinhas. Pois bem, entra o príncipe na torre e as galinhas cacarejam, reclamam o alimento. Uma galinha até começou a relinchar. «Tu, aí ─ diz-lhe o príncipe ─, chante-clair! Cala-te, senão levas um soco nos dentes!» A galinha não compreende aquelas palavras e continua a relinchar. Em consequência, a galinha faz barulho na torre, o príncipe, evidentemente, pragueja, a mulher, em baixo, está deitada no chão, enfim ─ uma autêntica inferneira.
Eis a história que Andrei Andréevitch inventou. Logo por esta história se vê que Andrei Andréevitch é um grande talento. Andrei Andréevitch é um homem muito inteligente ─ muito inteligente e muito bom!


Daniil Harms, in A Velha e Outras Histórias, trad. Nina Guerra e Filipe Guerra, Assírio & Alvim, Agosto de 2007, pp. 140-141.

PATOS

Estava farto da vida. Foi para a ponte mais próxima e saltou. Enquanto caía, cresceram-lhe umas asas imensas. Morreu atravessado por um cartucho disparado por um caçador que andava a caçar patos nas redondezas.

PEÕES

Deitou-se na linha do comboio à espera que ele passasse. Quando o pressentiu, encolheu-se tanto, tanto, que o comboio passou-lhe por cima e nada aconteceu. Acabou por ser esmagado pelas solas dos peões.

AFOGADO

Tomou um banho de imersão, secou o cabelo, lavou os dentes, vestiu o melhor fato que tinha, perfumou-se. Fez tudo isto sem reparar que se tinha esquecido da torneira da banheira aberta. Preparou uma refeição suculenta, enquanto a casa se enchia de água. Ele não reparava. Estava concentrado na sua refeição. Depois subiu para uma cadeira, atou uma corda ao pescoço, enquanto a água continuava a subir. Deu algum balanço à cadeira e saltou. A corda partiu-se, ele caiu desmaiado no chão. Acordou submerso, afogado. Nos jornais saiu a notícia: homem morreu afogado na sua própria residência.

BREVE EXERCÍCIO SOBRE A RAIVA

Tive dois cães que me marcaram a infância. Guardei um espacinho, para cada um deles, na primeira parte das Estórias Domésticas. O primeiro desses cães chamava-se Pax:

28. Quando o Pax se arrastou aos meus calcanhares, após três pancadas fatais, vi-a pela primeira vez. Através daqueles olhos fundos, moribundos, a morte contou-me uma tristeza de silêncio. Enterrado num olival, atrás de uma oliveira, ele foi para sempre a minha primeira morte. Quero acreditar que as azeitonas amadurecem com pêlo e ladram e enroscam-se nas minhas pernas tão novas e tão cansadas. Não sei se de esperar, se de desesperar, se de morrer assim tão ao contrário de quem morre após três pancadas.

O segundo desses cães foi o Berry:

26. Quando apanhou raiva, o meu cão foi oferecido ao padeiro com o móbil de ser abatido. Durante anos os pães chegaram ao pequeno-almoço manchados de sangue. Durante anos os cães confundiram-se-me na mente com pães. Comecei a perder peso. Fiquei muito magro. E sempre que escutava o pregoeiro do padeiro, anunciando o pão a chegar à mesa, escondia-me debaixo da cama ─ não se lembrasse minha mãe de me ceder ao padeiro, para que a raiva me fosse curada para sempre.

Como disse, estes dois pequenos textos foram publicados nas Estórias Domésticas (OVNI, Dezembro de 2006). Quero agora fazer justiça ao segundo cão, aquele que morreu com raiva. O núcleo familiar mais restrito sempre julgou o Pax o cão mais inteligente da família. Era fiel, batia à porta para entrar em casa e respondia quando alguém perguntava quem é. Era um daqueles cães que oferece a patinha a troco de mimo. O Berry era muito diferente, não dava a patinha e, por isso, chamavam-lhe estúpido, tinha impulsos vadios, desaparecia com frequência para depois regressar ao lar com o pêlo em farrapos, metia-se em brigas, era quezilento. Uma vez mordeu-me numa bochecha, quase que me apanhava um olho. Em suma, o Pax era mais doméstico que o Berry. Neste, o instinto da vadiagem sobrepunha-se à mansidão caseira com notável teimosia. Por isso, resolveram prendê-lo com uma coleira e uma corrente a uma casota de palmo e meio. Sentei-me muitas vezes a olhá-lo, a tentar brincar com ele. Recebi sempre de troco um olhar de desprezo. Com o tempo, fui-me apercebendo da transformação operada no olhar do bicho. Da resignação ao desespero, do desespero ao ódio, foi num instante que os veterinários de trazer por casa declaram a terrível maleita: raiva. O que podemos esperar de um animal impedido de fazer o que quer, de uma animal contrariado pelas circunstâncias, o que podemos esperar de um animal acossado pela modorra doméstica? Não podemos esperar senão que fique raivoso. Quando isso acontece a um cão, encomenda-se-lhe o abatimento, a execução final, o fim, a morte. Quando isso acontece a um homem, encomenda-se-lhe a farmacologia do desespero. Dependendo da gravidade do problema, escrever poemas ajuda, tocar um instrumento musical, fazer desporto, pintar telas, partir paredes, oferecer ao corpo a porrada de que ele necessite para encontrar um certo equilíbrio psicológico. Em última instância, desabafar com um psicólogo, sacar receitas ao psiquiatra. Isto se houver dinheiro. Se não, escrever para um weblog como quem parte nozes. Além disto, só vislumbro uma alternativa: arranjar um cão, tentar domesticá-lo, esperar que ele apanhe raiva, entregá-lo para ser abatido.

REQUIEM POR RUTH HANDLER



Morreu ontem a mãe da Barbie,
a boneca adolescente. À semelhança de
Atena, Barbie saiu armada dum
cérebro, não divino, mas industrioso,
com a longa cabeleira e a azúlea mirada.

Morreu a mãe da Barbie, a filha
que nunca será órfã, pequeno duende
de soutien 38 e de 33 polegadas
de altura. Trinta e três polegadas
multidesejantes de sonho
anatomicamente impossível.

Morreu a mãe da Barbie, que
faz ballet, ski, patins em linha e
todos os desportos radicais e tem
um namorado elegante, que jamais
a trairá e amigos tão anatomicamente
imperfeitos como ela.

Morreu a mãe da Barbie, que vai
a todas as festas com muitos
vestidos de gala e enegreceu
há uns anos, qual Naomi Campbell, para
ser consumida pela boa
consciência racial do Ocidente.

Morreu a mãe da Barbie, que jamais
a viu, assim anatomicamente imutável,
padecer de uma gravidez adolescente.
A Barbie é sabida e deve ter tido educação
sexual. Que fará ela, com o Ken
no regresso de tantas festas?

Nem paixão, nem desgosto, nem fome
ou uma boa tareia dos adultos, alteram
a sua fábula de plástico, muito menos
fabulosa que a Branca de Neve ou a
Bela Adormecida, onde existiam
humanas bruxas, vencidas maldições
e príncipes que davam beijos ao acordar.

Morreu a mãe da Barbie, cedo demais
para inventar uma Barbie de burka,
ou de explosivos escondidos no cinto. No
fim da vida continuava a vender milhões
de próteses mamárias, na sequência da sua
própria mastectomia. Coisas sem brilho,
impossíveis de acontecer
à Barbie.



Inês Lourenço (n. Novembro de 1942), in Logros Consentidos, &etc., Março de 2005, pp. 40-41.

Terça-feira, 24 de Novembro de 2009

PLASMAS

Anda o jovem perdido entre as mesas, gôndolas, estantes, balcões. Disponibiliza-se o livreiro para ajudá-lo no labirinto. Onde têm o livro do Ricardo Araújo Pereira? Está no Top, respondem-lhe. E ele olha para o plasma, exclama ah! como quem encontra finalmente o que procurava, dirige-se para o plasma e fica a olhar para a imagem do TOP - onde, de facto, estava o livro do Ricardo Araújo Pereira - até aquela imagem dar lugar a outra que não era a da Boca do Inferno. Aí é só imagem, o livro está ali ─ aponta o livreiro.

SÓ ISTO


Isto anda tudo doido, remata a mulher. Mas ele lança-se ao poste esquerdo e defende as redes da bola chutada à velocidade da luz. Isto anda tudo só, devolve o arremesso. E logo ali, a meio do campo, alguém dribla a luz e acrescenta: tanto poema, tanta net, falta-lhes roer chiclete (andar de bicicleta também pode trazer saúde ao poeta). Recolho-me nos aposentos empoeirados de Novembro, está frio, as constipações andam constipadas, nenhum agasalho nos protege dos vírus, dos motores gripados, os aquecedores já não são o que eram, andam às voltas como naves na biosfera mas não aquecem as salas gélidas, e Novembro cai-nos em cima como um telhado de folhas mortas. O pai faz anos, mete na agenda, urge cumprir a regra do telefonema, há que parabenizar este esforço de te manter à tona, mesmo que submerso na loucura para onde te arrastaram as tempestades do comércio. A música soturna não ajuda, tenta o yoga, lembra-te, vá lá, de coisas positivas, diz aos amigos o que eles precisam de ouvir e o que tu precisas de dizer, sê simples, aprende com os cínicos, sê feliz, é o que te peço, ri, é o que te exijo, brinca, é o que te desejo, está dito em carácter times new roman, letra tamanho 12, agora ocupa a página com os sonhos soturnos da música que te acorda. Estás em 2002, lembras-te?, tens alguns anos a menos, acontece-te aquilo pelo que não esperavas: uma gralha, um erro ortográfico, a incompetência do revisor sobre o desleixo do tradutor, um pulmão negro, negro, negro que mais negro não há, nem o suco de azeitonas esmagadas por calhaus de xisto. Enfim, foi um caroço no pensamento. Agora escuta: 2002, capicua, um pouco como uma morte nua e crua que se impõe à vida dos eleitos, sem deus nem pátria, sem nada a que agarrar a angústia, apenas o teu erro ortográfico e a incompetência do revisor sobre o desleixo do tradutor. Mais tarde, dirão que foi uma ménage à trois sem a presença de um dos elementos, mas a verdade é outra, tu bem sabes que é outra, foste apanhar castanhas sob um tecto de folhas em queda, foste assomado pela luz de um dia gélido, ao som das sinfonias subvertidas da biosfera, foste um homem à espera de uma sombra, à espera de um eco, à espera de uma nuvem de esperança partida para um algures que não era, definitivamente, a França dos emigrantes nas décadas passadas. Então o que era esse algures para onde havia partido a sombra, o eco, a nuvem que desesperas? Era o meu amor a rejubilar de um soninho descansado, era uma, duas narinas concertadas pelo aroma fresco do shampoo de maçã verde, era o cão adormecido nas ilhargas do ventre, um cobertor de lã, uma camisa de flanela, uma camisola de gola alta a proteger-nos do vento, era aquela noite passada debaixo das brasas e o lume brando, gratificante, da anonimidade, era a paz com que atravessávamos as ruas calmas da vila e cumprimentávamos quem passava com um sorriso honesto, era uma música sóbria, mas sombria, como o fundo da gruta onde nos perdemos certo dia por querermos descobrir mais do que a nossa imaginação podia, éramos tu e eu, de mão dada, pernoitando a hora da sesta debaixo da sombra de uma oliveira, e talvez, quem pode sabê-lo, aquela hora de sexo em frente à lareira que aparece nos filmes pirosos como solução final para um erotismo em riste, ah, sim, era um sol a rir de nós dois enquanto no carreiro se levantava uma nuvem de pó à passagem do poeta montado na sua bicicleta, era a mulher do poeta com uma bilha cheia de água equilibrada no cocuruto da cabeça, as mãos na anca, nenhuma pressa, era um tempo muito mais lento do que este tempo acelerado dos centros comerciais, dos bacanais palavrosos da cibernética, um pouco de mim, um pouco de ti, por cima de tudo isso, era uma coisa simples, distante, grata de ser, era isto, só isto.

VEM AÍ O SAGRADO



vem aí o sagrado, e tornam-se radiosas as coisas mínimas,
e amadureces,
e no meio de azulejos, torneiras, gás, temperaturas,
tocas,
por favor a ferida primeira,
no teu centro, tocas
para causar profundidade,
quer dizer: vem o Deus que há-de vir, sente-se
contra a água e a cabeça,
tão perto, contra
kapput,
à cabeça
purificada
─ e o Deus que há-de vir há-de vir andando sobre as águas? ─
nada no mundo pede de ti o poder da dança,
nenhum poder debaixo da água lustral que te abraça,
por teor dos movimentos do duche,
te despe e abraça,
entre membros e ilhargas, o nó que rematou a obra
desde o remoto, essa
sim jubilação arcaica,
pois por trás da cortina plástica já se exacerba
a matéria dos dons, tão
leve
linguagem, uma
espécie de técnica do temor e tremor no quotidiano entre objectos de uso
como:
champô e gel, e em cheio, baptismal, no cabelo,
o chuveiro de Deus,
e ei-la, a tua mão vibrante, ou pela força do sangue
que suporta pensamento e corpo
e a palavra,
ou pela força dos ramais desde as rudes reservas
até como estremeces sob águas assim
sopradas, e sobretudo o que não sabes que te abala
nos fundamentos
a cada instante inseparável
(na banheira)


Herberto Helder, in A Faca Não Corta o Fogo – súmula & inédita, Assírio & Alvim, Setembro de 2008, pp. 160-161.

CONSTA QUE...


...o senhor Herberto Helder nasceu no Funchal a 23 de Novembro de 1930, perdeu a mãe aos 8 anos, dizem que estava doente desde o nascimento do filho, completou o 5.º ano do liceu no Colégio Lisbonense e, já em Lisboa, concluiu o 7.º ano do liceu na Escola Luís de Camões, frequentou o 1.º ano de Direito e o curso de Filologia Românica na Universidade de Coimbra, publicou os primeiros versos, entre 1952 e 1954, na colectânea Arquipélago, regressando posteriormente a Lisboa para trabalhar na Caixa Geral de Depósitos e como angariador de publicidade do Anuário Comercial Português, publicou poemas na colectânea Poemas Bestiais, colaborou no jornal A Briosa, regressou ao Funchal para trabalhar no Serviço Meteorológico Nacional, o pai negou-lhe o pecúlio necessário para zarpar para o Brasil, zarpou novamente para Lisboa, frequentou o grupo do Café Gelo, trabalhou como delegado de propaganda médica, colaborou no semanário Re-nhau-nhau, nas revistas Búzio, Folhas de Poesia, Graal, no suplemento Ágora do semanário Voz do Tejo e no suplemento Diálogo do jornal Diário Ilustrado, subscreveu, com João Rodrigues e José Sebag, o texto O Cadáver Esquisito e os Estudantes, casou com Maria Ludovina Dourado Pimentel, Luiz Pacheco publicou-lhe, na Contraponto, o primeiro livro, disse Pacheco: Oh Herberto, você escolha o seu poema que preferir, achar melhor, e traga. Gostava de o editar. O Herberto daí a dias trazia um poema, hesitou um tempo no título («Um Amor Feliz» teria sido uma hipótese, parece-me) e acertou em «O Amor em Visita», e depois disto colaborou nas revistas Cadernos do Meio-Dia, KWY e Folhas de Poesia, partiu para França, nasceu-lhe a filha Gisela Ester Pimentel de Oliveira, viveu, entre 1958 e 1960, na França, Bélgica, Holanda, Dinamarca, sobrevivendo de actividades tais como criado de cervejaria, cortador de legumes, enfardador de aparas de papel, policopista, operário nas forjas da Clabeck, carregador de camiões, ajudante de pasteleiro, guia de marinheiros em bairros de putas, colaborou na revista Pirâmide, regressou a Lisboa com bilhete de repatriado, passado em Antuérpia, viveu em Coimbra, recuperou de uma avitaminose, começou a trabalhar como encarregado de biblioteca das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, publicou A Colher na Boca e Poemacto em 1961, publicou Lugar em 1962, colaborou no jornal Távola Redonda, passou a armazenista das Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian, publicou Os Passos em Volta em 1963, traduziu literatura explicativa de medicamentos para laboratórios, co-organizou, com António Aragão, o n.º1 de Poesia Experimental, traduziu Hans Christian Andersen e Italo Calvino, trabalhou na Emissora Nacional, foi sujeito a testes psicofisiológicos no Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria, publicou mais, colaborou muito, reeditou, fez publicidade como copywriter para cinema, publicou, em 1968, Apresentação do Rosto, apreendido pela Censura, concedeu entrevistas ao Jornal de Letras e ao Jornal de Notícias, foi condenado a pena suspensa por causa do envolvimento na edição de Filosofia na Alcova, abandonou a grupoterapia, trabalhou num atelier de arquitectura, participou como actor no filme As Deambulações do Mensageiro Alado, gravou dois discos de poemas seus, foi director literário da Editorial Estampa, nasceu-lhe Daniel João Figueiredo de Oliveira, filho da relação com Isabel Figueiredo, viajou pela Europa, partiu para Angola em 1971, onde fez reportagem para a revista Notícias sob vários pseudónimos, publicou Vocação Animal, onde se afirmava que o autor deixara de escrever em 1968, em 1972 sofreu um acidente de viação, regressou a Lisboa, fez a reportagem de um Benfica-Sporting, publicou, em 1973, os dois volumes antológicos de Poesia Toda, viajou a Nova Iorque, casou-se com Olga da Conceição Ferreira Lima, trabalhou como redactor de noticiários da RDP, viajou, durante vários meses, por Paris, Le Mans, Cambridge e Londres, passou discretamente pelo PCP, publicou, em 1979, Photomaton & Vox na Assírio & Alvim, editora que, desde então, passará a publicar praticamente toda a obra do poeta, fazem-se teses sobre a sua poesia, escrevem-se artigos, proferem-se sentenças, subscreveu, em 1993, um pedido colectivo, dirigido à Secretaria de Estado da Cultura, no sentido de ser atribuído um subsídio mensal ao poeta António Gancho, internado há 26 anos no hospital psiquiátrico do Telhal, Vítor Silva Tavares sobre ele, Herberto, disse: pode supor-se que logrou endoidar psiquiatras, mestres zen e analistas literários, uma sua imagem virtual foi materializada no plenário fascista em réu de crime sádico não cometido, um dia do PREC escapou de boa (tareia) ao ser tomado por Manuel Alegre, o susto tê-lo-ia conduzido, presume-se, à entrada-por-saída no Partido Comunista (só a intriga é revolucionária!), não consta da lista telefónica apesar das contabilizadas inconfidências do Vergílio Ferreira, crê-se que escreverá algures, por certo à mão armada, e oculto, não gosta de ser fotografado, recusa prémios, aparece de quando em vez para dar um ar da sua desgraça. FONTE: JL.

VIDA PRÓPRIA



Se não estiveres aí, é
como se estivesses, digo
na mesma o que tiver para dizer:
dormem as barcas nas enseadas,
rebenta a luz nas onze horas
da noite, um livro insignificante
chama do nada, como ao acender
de um cigarro distraído, adoeces
sem saber e a televisão ladra,
de madrugada, com um filme
abrasivo. Há pelo menos um
anormal que continua a pensar
em cenários. Deixá-lo a pensar.
Descanso em saberes
que te dispenso, te convoco
para a tarefa cruel de juntar
sentidos, como numa cerimónia
calculada para anéis e grinaldas,
com limusina e inimigo, camélias
onde largo, displicente, algum
desdém. Proponho
que sigas em frente, dobres
o teu enorme passo, vás
aos cafés onde se pode fumar,
não tenho nada a ver com isso.
Calo, na mesma, o que devo
dizer: tenho metade em ti,
sou todo teu. O que é certo
é que nunca mais te livras
de ir queimar ao sol, pelo menos,
alguma sombra de que precisas.
Vida imprópria.

Manuel Fernando Gonçalves (n. 24 de Novembro de 1951), in A Realidade dos Factos, &etc., Outubro de 2008, pp. 74-75.

LETRA CÊ

A letra da avó Clarisse
é um arco-íris a fazer
ó-ó
.

Beatriz, 3 anos.

Segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

SINFONIA Nº 2



Anton Mikhailovich escarrou, fez «ah», voltou a escarrar, fez outra vez «ah» e foi-se embora. Tanto pior para ele! Vou antes falar de llia Pavlovich.
llia Pavlovich nasceu em 1893, em Constantinopla. Pequeno ainda, levaram-no para S. Petersburgo, onde concluiu estudos na escola alemã da rua Kirochnaia. Depois trabalhou numa loja, depois fez outra coisa qualquer, e quando começou a Revolução emigrou para o estrangeiro. Olhem, tanto pior para ele! Vou antes falar de Anna Ignatievna.
Mas falar de Anna Ignatievna não é assim tão simples. Começa por que não sei nada dela, e depois acabo de cair da cadeira e esqueci tudo quanto tinha para contar. Vou antes falar de mim.
Sou alto, não sou nada parvo, visto com elegância e gosto, não bebo, não vou às corridas mas tenho um fraco por mulheres. E as mulheres não fogem de mim. Gostam mesmo que dê passeios com elas. Serafina Izmailovna convidou-me mais do que uma vez para ir a casa dela, e Zinaida Iakolevna também costumava afirmar que tinha muito prazer em ver-me. Com Marina Petrovna é que se passou uma coisa divertida, que desejo contar. Uma coisa banalíssima mas ainda assim divertida. Marina Petrovna ficou completamente careca por minha causa, careca como um ovo. O facto deu-se desta forma: um dia fui a casa de Marina Petrovna, e ela zás!, completamente careca. Só isto.


Daniil Harms, in Crónicas da Razão Louca, trad. Sérgio Moita, Hiena, Julho de 1994, p. 45.

ELOGIO DO CINISMO (8)


A lição cínica é sempre de actualidade: ensinar a nudez do rei, a ausência de uma diferença de essência, de natureza ou de substância, entre o primeiro dos cidadãos do Império e o último dos escravos da cidade ─ uma sapiência anunciadora de Robert Antelme. De modo idêntico, Diógenes, Crates e os outros querem a desenvoltura no lugar de todas as manifestações de poder: fausto, teatralidade, esplendor dos ouros e das antiguidades. Cínicos, os rebeldes que colocam o seu orgulho bem acima das prebendas oferecidas em troca da colaboração com os poderes instituídos; cínicos, ainda, os revoltados que colocam o pensamento ao serviço da insubmissão, de preferência a pô-lo à disposição das forças que desvitalizam o indivíduo; cínicos, finalmente, os resistentes que opõem o saber ao poder, à laia de contra-poder.
Os conselheiros do Príncipe, os colaboradores ─ como se diz numa palavra que em nada perdeu o seu sentido desde o período dos anos sombrios ─ os técnicos, os funcionários do pensamento que operam em comissões ou fornecem aos homens políticos do momento e aos poderosos do dia dois ou três conceitos susceptíveis, à justa, de serem compreendidos e assimilados pelos jornalistas, esses, perpetuam a miséria e a servidão, a sujeição e o sacrifício das individualidades, em proveito das máquinas sociais, das quais obtêm vantagens em espécies, em termos simbólicos, ou até em liquidez, todos eles, aliás, bem compatíveis entre si.
Onde os auxiliares do poder vigente celebram a virtude do sério, do útil e indispensável para sacramentar o poder, para fazer dele um epifenómeno proveniente do religioso e do celeste, o libertário restaura as virtudes do desvio, da ironia, do humor, do cinismo, sob a forma de modalidades subversivas da linguagem e do gestual, conceptuais e pragmáticas. O riso nietzscheano de Foucault, contra o silêncio feltrado dos palácios presidenciais; a dança de Zaratustra, em contraponto à rigidez dos ministérios, de todos os protocolos; o grotesco de Rabelais e as loucuras de Swift, à laia de resposta aos sussurros dos enxames de porteiros; a chacota de Voltaire e a qualidade de Sartre, como eco às peças douradas da armação de portas e janelas e aos brocados púrpuras; os sarcasmos da festa dos loucos e as antimissas com burros, face à pompa do Eliseu. Vinho a rodos, libações, um Diógenes que peida, onanista e canibal, uma política dionisíaca; brindes com água simples, presidentes da República desmiolados, uma política apoIoniana, eis o inventário das alternativas ancestrais.
O risco que representa o lobo não é certamente o do cão. A este último destina-se a barriguinha ética, o fim de qualquer elegância moral, a obesidade conceptual e a reflexão adiposa, a obra lançada como pasto tanto aos simples como aos necrófagos: uma libra por cada ideia ─ e ainda... ─, uma libra por cada mandato do dono, uma chuva de pregações públicas, uma ocupação dos locais mediáticos da maneira como se ocupam os lugares de lazer. No final de contas, um talento desvitalizado, um pensamento em frangalhos, suturado, e a alma vendida aos parasitas políticos alimentados pelo sangue chupado e pela inteligência escravizada.
Para os outros, os lobos, destina-se o lote concedido aos companheiros de Diógenes através dos séculos: a expulsão, o exílio, a prisão, a tortura, a privação de liberdade, a perseguição, a punição, os maus tratos, a encarceração. Prisão mamertina e células entre quatro muros, montanhas córsegas e jaulas de ferro não longe de Couesnon, fogueiras romanas e salas de tortura espanholas, exílio para a Holanda e mudanças forçadas de paradeiro na América, a Bastilha e Charenton, Jersey e Guernesey ou, hoje, privação de cobertura mediática ou de promoção social, o contrário de tudo o que, de perto ou de longe, se assemelhe ao néctar e à ambrósia dos Eliseus. A loucura de Nietzsche, a sida de Foucault, o suicídio de Deleuze, o silêncio de Blanchot, contra a paixão de alguns pelos almoços em companhia daqueles que nos governam. Os pensamentos fortes associam-se às vidas que os acompanham e os pensamentos débeis também.


Michel Onfray, in A Política do Rebelde – Tratado de Resistência e de Insubmissão, trad. Carlos Oliveira, Instituto Piaget, 1999, pp. 192-194.
(1) (2) (3) (4) (5) (6) (7)

RECEITA PARA AS CONSTIPAÇÕES


O Senhor Gouveia dá como infalível
o seguinte remédio para as constipações:

Misturem-se três colheres (das de sopa)
de boa aguardente com outras três de xarope
de avenca. Deite-se a mistura numa chávena
cheia de infusão quente de flores de violeta.
Antes de adormecer (é evidente), beba-se
a tisana e repita-se nas duas noites seguintes.
Em três dias a constipação desaparece.

Poetas e demais pessoas de constituição fraca
podem precisar de repetir o tratamento.



Vítor Nogueira, in Senhor Gouveia, Averno, Maio de 2006, p. 29.

DA DOENÇA

From: Diogo Vaz Pinto
Date: 2009/11/23
Subject: Finalmente
To: Bráulio Cimento Alverca


Bem Bráulio, acho que te denunciaste... Depois da última conversa que tivemos no chat do gmail e do engraçadíssimo post do Dempster que li há pouco, acho que já sei quem tu és.
****************************


Fwd: Finalmente
De: Bráulio Cimento Alverca Adicionar a contatos
Para: universosdesfeitos@yahoo.com.br

Caro Senhor,

Reenvio-lhe a mensagem infra que me coloca numa situação complicada: por um lado, de nada adiantará negar ao rapaz a sua convicção o que o deixará a lavrar no erro pela eternidade; por outro, fica V. Exa. com uma fama um tanto ou quanto indigna. Nada de grave, portanto.

Esta personagem que sou surgiu do acaso entrópico a que a rede por vezes nos remete. Não ando a vender qualquer tipo de produto nem me move o insulto enquanto objectivo de vida.
Os meus princípios estético-ontológicos regem-se essencialmente pelo que Cindy Lauper sintetizou, em termos filosófico-gnoseológicos, na expressão "girls just want to have fun", âmbito da qual tomo a liberdade de alargar ao resto da Humanidade.

Resumindo: V. Exa. sabe que não é o responsável por Bráulio Cimento Alverca e a M. Exa. sabe do mesmo.

Com as devidas condolências, parabéns e cumprimentos,
Bráulio C. Alverca, um seu criado
*****************************************

2009/11/23 Diogo Vaz Pinto




Bráulio,

mas quem te disse que julguei que fosses o Fialho!? Não Rui, não me enganei. Devias ter algum cuidado com a divulgação do conteúdo de conversas privadas, ainda pensam que és um rato.
Gostava agora de te ver divulgar este mail.
**********************************************
2009/11/23 Bráulio Cimento Alverca


Diogo,

Não divulguei qualquer conversa privada. Apenas encaminhei uma mensagem que recebi, fazendo, em privado, um comentário. Em nenhum momento peço divulgação. De seguida reenvio-te, para que constates isso mesmo.

E transcrevo aqui uma parte desse comentário, que, formulado de outra forma, é algo que também já te tinha dito:

«Esta personagem que sou surgiu do acaso entrópico a que a rede por vezes nos remete. Não ando a vender qualquer tipo de produto nem me move o insulto enquanto objectivo de vida.
Os meus princípios estético-ontológicos regem-se essencialmente pelo que Cindy Lauper sintetizou, em termos filosófico-gnoseológicos, na expressão "girls just want to have fun", âmbito da qual tomo a liberdade de alargar ao resto da Humanidade.»

Nunca foi minha intenção causar qualquer prejuízo a quem quer que fosse. Se o fiz, assumo-o e peço desculpa.

Prometi a mim mesmo que ao menor indício de incómodo, esta personagem acabaria: o Bráulio morreu.
******************************************
2009/11/23 Diogo Vaz Pinto

Rui,

Não me interessa se o Bráulio morreu ou não. Talvez não caísse mal um verdadeiro pedido de desculpas, mas aquilo a que não podes fugir é à obrigação de rectificar o que ficou exposto no blog do Fialho - como consequência da tua divulgação do meu e-mail dirigido somente a ti, Rui, e cumulado com uma presunção errada tua. Julgaste que te confundi com o Fialho, e sim, de uma certa maneira foi essa ligação o que te denunciou, mas porque me pareceu que alguém que tinha estado comigo e com o David, pessoalmente, e tinha depois andado a comentar com o Fialho. Aí foi uma questão de unir os pontos. Lembro-me que, na apresentação do livro do Tolentino Mendonça, não chegaste a afastar a possibilidade de seres tu o Bráulio quando eu pus essa hipótese. Talvez devesses ter-te assumido nessa noite, terias evitado esta situação, exactamente aquilo que, segundo dizes, não era a tua intenção que acontecesse. Aconteceu. Assim, vou esperar agora que faças o que disseste, que peças desculpa assumindo um erro de cálculo teu e não meu. E agora que o teu amigo tornou pública a tua precipitação, também ela deverá ser desmanchada de uma forma igualmente pública.
*************************************
Re: Precipitado
De: Bráulio Cimento Alverca Adicionar a contatos
Para: Diogo Vaz Pinto
Cc: universosdesfeitos@yahoo.com.br


Diogo,

O teu email seguiu para o Henrique da mesma forma que seguiu o outro. Insisto: não pedi ao Henrique para divulgar nada. Apenas reencaminhei o teu mail com o comentário. Do mesmo modo não lhe peço para publicar a tua rectificação. Exactamente os mesmo procedimentos para um e outro. Não me custa nada reconhecer que me precipitei e que interpretei mal o teu mail. Mais uma vez: se isso prejudicou alguém, assumo-o e peço desculpa.

O mais que posso fazer é encaminhar também este mail para ele, de modo a reforçar essa tua vontade de clarificar as coisas.

Não tenho como te garantir que nada comentei com o Henrique do que falámos à porta da Trama, por altura do lançamento do livro do Tolentino. Apenas te posso dar a minha palavra em como não o fiz. Depois disso, estive com o Henrique duas vezes e em nenhuma delas falei de ti. Além disso, o Henrique não sabe/sabia quem é o Bráulio.

Lamento muito ter causado prejuízo. Lamento mesmo. Nunca foi essa a minha intenção.

A existência da personagem BCA nunca teve outra intenção senão brincar. Brincar.

Talvez não venha a propósito, mas reafirmo tudo o que disse sobre ti e sobre a revista Criatura, fosse presencialmente, por mail ou debaixo da personagem BCA. Nunca disse nada de diferente a outros.

As desculpas e o Abraço do
Rui Almeida



Nota: e com isto, agradeço que não me mandem mais mails, que, pelo menos, façam de conta que eu não existo. Estou fartinho, fartinho, fartinho das vossas brincadeirinhas infantis.

NITROFURANOS: DANOS COLATERAIS

O que o Nuno conta aqui não se passou bem como ele conta. A conversa sobre poesia é anterior à constatação do decassílabo e ocorreu, mais ou menos, nestes termos: cada qual com a sua bifana na mão e uma cerveja por companhia, partilhavam-se leituras, mais discordantes que concordantes, e falava-se sobre poesia. O nome de Joaquim Manuel Magalhães, que eu me recorde, nunca veio à baila. Veio o de Manuel de Freitas. E no seguimento o que eu disse foi que depois do Manuel de Freitas apareceu muita gente a querer escrever como ele, acabando por escrever uns poemas muito tristes, de uma tristeza sem saída, que depois contrastam com rostos muito sorridentes. Também não proferi a palavra abulia, que, por acaso, até rima com poesia mas não é cá do meu agrado. Assim como a palavra patrono, que rima com trono, também não faz parte do meu vocabulário corrente. Este esclarecimento surge por ter sido mais uma vez alertado para reacções que me atingem sem que eu faça por merecê-las. Duvido que possamos ficar esclarecidos, até porque há gente que não quer, teima, por infantilismo ou teimosia, em bater num cavalo morto à espera que ele marche. Cá vai, profundamente esperançado que vá e não volte: a primeira vez que eu ouvi falar do Diogo Vaz Pinto, se bem me lembro, foi quando me chegaram uns textos dele para serem publicados na revista Minguante. Isto deve ter sido no Verão de 2007, tendo em conta que os primeiros textos do Diogo publicados na Minguante saíram no n.º7 (Agosto de 2007, é só seguir o link). A segunda vez que ouvi falar do Diogo Vaz Pinto foi quando ele me escreveu a solicitar um endereço postal para onde pudesse enviar-me o primeiro número da revista Criatura. Isto deve ter sido na Primavera de 2008, tendo em conta que o primeiro número da Criatura data, salvo erro, de Abril de 2008. A terceira vez que ouvi falar do Diogo Vaz Pinto, mais coisa menos coisa, foi em Março de 2009, por causa de um comentário ressentido que ele fez a um post publicado no Insónia (é só seguir o link). Nessa altura o Insónia levava 4 anos de actividade e eu escrevia para weblogs há 6 anos. Subitamente, a mesma actividade que levou o Diogo a querer oferecer-me o primeiro número da Criatura transformou-se num esterco. Passei de bestial a besta assim como quem coça o olho do cu. Explicação para isso? Quem estiver interessado, que a procure. Seja como for, respondi-lhe à época como achava dever responder e nunca mais quis ouvir falar de alminha semelhante. Acontece que o Diogo Vaz Pinto está convencido de que tem mais importância para os outros do que de facto tem. Então põe-se a apontar para o vazio dizendo que é sobre ele o que nunca foi escrito a pensar nele, julgando-se alvo de quem não é tão anão que tome por alvo gente enfatuada e presunçosa que mais não merece do que uma precavida ignorância. O Diogo Vaz Pinto não me interessa senão na medida em que me interessam todos os mortais, ou seja, interessa-me como ser humano anónimo ao qual não desejo senão muita saúde e sorte. É-me indiferente o que ele pense a meu respeito tal como me é indiferente que ele possa pensar alguma coisa a meu respeito, tanto quanto me é indiferente que a meu respeito alguém possa pensar alguma coisa. As pessoas não são livres de pensar, a condição é-lhes inerente. Que concentrem as suas energias pensando que eu penso nelas deixa-me apenas algo decepcionado. E por isso lhes respondo. Só muita falta de inteligência e pouca argúcia intelectual pode levar alguém a gastar neurónios comigo. Mas cada um é como cada qual. Certo é que haverá sempre cada qual a quem, não sendo como cada um, não basta dizer vai dar banho ao cão, desampara a loja, vai caçar macacos, faz qualquer coisa de útil para ti próprio e para a sociedade. Não basta porque pessoas deficientes na sua condição de ser pessoa não se escutam senão a si próprias, vivem esquizofrenicamente encafuadas na sua importanticidade julgando-se o que não são com a mesma arrogância com que julgam quem não conhecem. É a vida de alguns. Não pretendo que seja a minha. Sendo assim, e porque não quero voltar a ser incomodado por terceiros com reacções aviárias – aconteceu com um texto chamado Brutinhos e agora com esta patacoada (para memória futura, não vá acontecer a estes o que aconteceu a outros) – desde já vou declarando que nada tenho contra o Vaz Pinto, nunca falei sobre ele com ninguém senão por me terem falado nele a propósito das suas intervenções contra mim, julgo-o bastante infantil na forma como se leva a sério pensando que outros perdem tempo a pensar na sua pessoa. Até pode ser que sim, mas a verdade, pelo que me toca: EU NÃO, TENHO MAIS EM QUE PENSAR. Portantos, vê lá se me ignoras definitivamente ó Dioguinho, que eu já vou estando sem idade para responder a provocações. Espero, com isto, encerrar de uma vez por todas o dossier dos nitrofuranos.

Domingo, 22 de Novembro de 2009

WALKING IN MY SHOES

Era uma vez um Pai Natal muito, mas mesmo muito, muito, muito pequenino que queria ser como o filósofo Empédocles, o qual, para provar a sua imortalidade, saltou para a boca do Etna tendo este, como conta a lenda, devolvido à terra as suas sandálias de bronze. O Pai Natal muito, mas mesmo muito, muito, muito pequenino saltou para o fundo de uma chaminé e as brasas devolveram as suas botas de couro. Um mendigo que ia a passar na rua, com umas barbas muito, mas mesmo muito, muito compridas, apanhou as botas, calçou-as e seguiu caminho, a sonhar como seria bom ser como o Pai Natal.



...lá diz o poeta: livrem-nos do regresso
aonde antes fomos felizes...

STAIRWAY TO HEAVEN


Depois de uma dor na fonte, a veia inchada, o pescoço a ranger como uma porta enferrujada, depois de mais um dia copiado de outros dias, como se a vida fosse já só uma versão da vida, palavras para quê?, o paraíso é já ali, o inferno congelado no fundo da gaveta. Toca a abrir a gaveta, toca a dar asas ao inferno. Meu amigo inferno.

O SANGUE POR UM FIO

Ainda é possível escrever sobre a morte, ou algo que se pareça com, sem repetir as mesmas banalidades de sempre, copiadas de um ditado há muito proferido. O título O Sangue Por Um Fio (Assírio & Alvim, Setembro de 2009) talvez iluda ao sugerir um trocadilho com a expressão «a vida por um fio», mas a verdade é que o conteúdo desta recolha, organizado por sete partes de extensão diversa, confirma as suspeitas que o título lança. Que outras eventuais suspeitas sejam desfeitas à partida. Sérgio Godinho (n. 1945), há muito reconhecido como um dos mais consistentes escritores de canções português, finta as fórmulas da canção nestes poemas, não permitindo quaisquer confusões que possam eventualmente surgir entre o formato da canção e a forma do poema. Talvez exista em alguns dos poemas seleccionados, sobretudo nos iniciais, um esforço de escapatória que, curiosamente, acaba por ser o aspecto menos atraente desta poesia. Mas esse será mais um problema do leitor e dos seus preconceitos do que dos poemas em si. Estes afiguram-se-nos elípticos e algo enigmáticos na viagem que propõem inicialmente. É uma viagem pela vida sem estar presa à memória, é uma viagem pelas memórias sem estar presa ao passado, é uma viagem pelas dúvidas que um futuro próximo parece suscitar.

A viagem que se propõe terá como referência o farol da morte. A morte, ou a proximidade disso a que chamam morte, pairará não somente como tema, mas sobretudo como motivo para um convite a embarcar num «barco à deriva já dentro do porto» (p. 9). Os ecos da viagem servirão de escrutínio para o que agora se pretende balancear: a vida. Temos então o enigma da vida cifrado nas guerras passadas, algumas ultrapassadas, outras nem por isso, temo-lo nas ilusões que se foram perdendo pelo caminho e noutras que vieram substituir aquelas, ilusões que o corpo desilude, que o tempo faz recordar como alguém que se recoloca defronte a um «pelotão de fuzilamento»: «A feras de erva mansa / dão-se / peixes de água doce / o isco em dias repetido / e de um só passo se atrai / a raiva do desleixo / as ordens são desde aí / desilusão consumada» (p. 26). Nota-se a ironia desencantada que motiva as erupções da palavra, chegadas à folha como uma espécie de disparo espontâneo e imprevisível. Nada nestes poemas permite entrever a consciência amansada da vida que caracteriza muita da poesia actual, a qual foge aos riscos de se estar vivo como quem recusa a liberdade que lhe não custou conquistar.

Os poemas de Sérgio Godinho tentam-nos. Julgamos ser a morte o tema central deste livro. E, de facto, esse tema paira, do princípio ao fim, com maior ou menor evidência. Mas dentro dele descobrimos uma lição de se estar vivo, uma interrogação constante, as dúvidas e as respostas de alguém que não nega a si próprio o gozo das partidas sem fim determinado: «Nada é mais do que o que fica. / Mas para isso, nada é menos do que agora» (p. 68). Afinal, o que importa, mais do que perceber o que é isto de andar por aqui, mais do que pretender ludibriar o que é isso de deixar de andar por aqui, o que importa é mesmo andar (ir andando também não chega). Estes poemas não se impõem como recados, parecendo-nos, por vezes, que eles escondem uma realidade que é fruto da experiência com a manipulação das palavras. Essa realidade é a de quem se liberta da manipulação da palavra e se deixa manipular pela força sugestiva dos vocábulos. Deste modo, o poema funciona como sugestão, não como uma mera confissão ou como um testemunho, não apenas como uma vontade de dizer algo que não pode ser dito de outra forma, mas como uma experiência de liberdade na relação com a palavra e seus modos de (des)organização formal.

Balanço ou reflexão, testemunho de resistência ou declaração de princípios, este livro vale, sobretudo, pela liberdade com que se coloca defronte ao fim: «O que foi tido por inesperado e imprevisível / talvez seja apenas a maneira de um todo / se descentrar / fugir à tarefa insanamente por nós mesmos exigida / à nossa pequena parte, já manchada de sangue, / sangue por rectas e curvas da coerência. / O sangue por um fio» (do último poema, intitulado Os órgãos vitais, p. 87). Não deixa de ser curioso que num tempo em que proliferam livros de memórias aos 30 anos, seja um autor na casa dos 60 a não se deixar prender ao passado com a nostalgia de quem sente já ter perdido tudo o que ainda não viveu. O Sangue Por Um Fio não se limita, pois, a inventariar uma vida aparentemente por um fio. Ele pega nos órgãos ainda vivos de um corpo presente e faz-lhes um exame anatómico sem preocupações formais, sem aquele tipo de cuidados exigido pelos corpos enfermos. Uma boa surpresa, portanto.

Escrito para o Rascunho.