Segunda-feira, 30 de Novembro de 2009
POSTO DE INFORMAÇÕES
ELOGIO DO CINISMO (9)
Longe daquilo que, numa dada época, pôde caracterizar uma esquerda dita «caviar», sobre a qual ainda se procura saber o que fazia dela uma esquerda, quando já não existem mais dúvidas sobre as razões e a existência da sua intoxicação ao beluga, um pensamento libertário, infundido por uma mística de esquerda, pode muito bem funcionar no registo artístico. Como prova, para além de Roger Vailland, as páginas soberbas escritas por Oscar Wilde, sob o título A Alma do Homem sob o Socialismo ─ um livro de plena actualidade, após um século de existência ─ ou, mais inesperado, um almoço que aproximou, nas primeiras semanas de 1849, Baudelaire e Proudhon, numa pequena loja de pronto a comer da Rua Neuve-Vivienne. Um olhar ao sistema das contradições económicas, outro para saborear as flores do mal ou provar os paraísos artificiais, tendo o conjunto por desígnio o que Séverine chamava, no século passado, um dandismo revolucionário ─ esta mistura não deixa de me agradar.
A opção libertária, não tendo a obrigação de operar ao lado da compaixão no seu registo cristão, não me parece legítimo que para se ser credível se tenha de ser pobre ou despojado de si próprio, pois os detractores diriam, então, que o comprometimento político seria motivado por um ajuste de contas pessoal ou pelo ressentimento, no que encontrariam novos motivos para o descrédito que tanto procuram. Dandismo e pensamento libertário funcionam às mil maravilhas em todos aqueles que, longe dos imperativos do realismo socialista, em virtude do qual é necessário submeter a arte à política, postulam exactamente o inverso e esperam da arte que ela dê forma ao político, que o alimente, que lhe transmita força, vigor e energia. Nessa perspectiva, o dandismo contemporâneo do século da revolução industrial pode ler-se como reacção contra a unidimensionalidade gerada pela metamorfose do capitalismo.
Contra o igualitarismo, essa religião nociva da igualdade, o dandismo reivindica uma subjectividade radical activa, no combate contra todas as palavras de ordem do momento: culto do dinheiro e da propriedade, dogmas burgueses e mitologias de família, economia sensata dos casais e consumo da imprensa como única referência intelectual, cultural, de tudo o que constitui a tonalidade da época. Baudelàire afirma e exibe uma furiosa independência de espírito, uma animosidade particular em relação aos burgueses, venham eles de onde vierem, da esquerda ou da direita. Professa o culto do inútil e do artifício, do lazer e do gratuito, onde a maioria se esgota no útil, no rentável, no trabalho, na renda.
O dandy procura o sublime. A política libertária aspira ao mesmo tipo de objectivo: a assunção do indivíduo artista reage contra a queda dos particulares nos «bas-fonds» onde triunfam as virtudes e os valores burgueses. O poeta contra o farmacêutico, o pintor como remédio à frouxidão da vida moderna, o escritor à laia de resposta às infâmias induzidas pela industrialização e pela era da reprodução mecânica dos objectos, dos homens, das obras de arte ─ pensemos nas imprecações do poeta sobre a fotografia ─ ou das individualidades. Na época do reproduzível, todos são pensados, desejados e construídos segundo o mesmo padrão. O dandismo teoriza a reivindicação de garantias, multiplicadas pela expressão da individualidade e pela soberania das monadas.
O dandismo revolucionário, formulado por Séverine, não supõe a comunhão nalgum outro pecado venal, por vezes mortal, cometido por aqueles que estremecem não muito longe da mística de esquerda: o dever de amar o povo, a obrigação abjecta de celebrá-lo, de lhe conceder ou emprestar méritos, pois uma vista de olhos retrospectiva sobre a História deveria dissuadir a prática desse entusiasmo tão perigoso quanto nefasto, fornecedor, em cada ocasião, dos gregarismos políticos, do estalinismo ao nazismo, passando pelas fórmulas europeias de um nacional-populismo declinado nos registos italiano, espanhol, francês, grego e da Europa de Leste. Não há nada mais devoto para com o povo que as declarações de Lenine, Estaline, Hitler, Pétain, Mussolini, Franco, Le Pen e tantos outros, cuja fabulação sobre este universal das suas contas se alimenta do esquecimento e da negligência dos indivíduos, únicos princípios ou unidades operatórias em matéria de política. O dandy prima na farmacopeia que se opõe ao homem das multidões.
Michel Onfray, in A Política do Rebelde – Tratado de Resistência e de Insubmissão, trad. Carlos Oliveira, Instituto Piaget, 1999, pp. 194-196.
ARTUR
O presente é uma coisa estranha, anda sempre atrás de nós. E já ali estava, olha para ele, no regresso, quando voltámos do Verão cheios de trabalhos, uma tese, talvez sobre Heidegger, e eu desesperadamente concentrado no ser para a morte quando sempre quis ser apenas para a vida. Merda para o Heidegger, dizias. Mas a culpa não era do filósofo alemão, não tanto como era de um semestre inteiro a ouvir o César das Neves especular sobre a melhor tradução para dasein. Eu bem lhe tentei explicar, mas ele não me deu ouvidos. Dasein é o Artur a ser lembrado daqui a, sei lá, 13 anos, é o sorriso do meu amor comovido com a leitura de um texto que hei-de então escrever, é eu para a vida enquanto ao fundo da estante a figura de Nietzsche se cola à sombra de Sócrates com a Janis Joplin a fumar um charro de premeio. Dasein, ó senhor professor, é tomar banho debaixo de um chuveiro balde enquanto o Artur me lambe os pés e os pinheiros abanam ao vento da nossa alegria. Chumbei.
OS ESCRIBAS
Se eram excelentes eram também petulantes
e de um trato tão espinhoso como o azevinho
de que extraíam a tinta.
E se nunca fui um deles também é certo
que nunca me puderam negar o meu lugar.
Na quietude do scriptorium
crescia neles a todo o tempo uma pérola negra
como o velho coágulo seco por dentro das penas.
À margem de textos laudatórios
arranhavam, esgadanhavam.
Rosnavam se o dia estava escuro
ou se giz a mais amolecera o vellum
ou giz a menos o deixara oleoso.
Sob os dorsos da caligrafia
arrebanhavam rancores míopes.
Sementes de ressentimento ponteavam-lhes
as espirais de fetos das maiúsculas.
De vez em quando eu tinha um sobressalto
a milhas de distância, e via na minha ausência
o cursivo inclinado de cada dorso, e sentia-os
a aperfeiçoarem-se contra mim, página a página.
Que se recordem deste contributo não desprezível
para a sua arte de invejas.
Seamus Heaney, in Da Terra à Luz – poemas 1966-1987, trad. Rui Carvalho Homem, Relógio D’Água, Janeiro de 1997.
QUEM TRABALHA É QUE SE LIXA
RUA DE SANTA BÁRBARA
Domingo, 29 de Novembro de 2009
RUA DAS FLORES
FADO
QUEM É O ASSASSINO?
O juiz que costumava julgar os processos-crime, disparou contra um corço no território grande da reserva. Depois de ter dado o tiro de misericórdia, disse assim:
─ A caça é a paixão mais nobre.
O procurador fazia colecção de borboletas. Furava com um alfinete os seus abdómenes e, quando já estavam mortas de asas abertas, pensava:
─ Assim é a sede de saber.
Quem escreve estas linhas e também a reportagem sobre um assunto de crime, é um adepto entusiástico do pólo aquático. Se algum jogador da sua equipa dá um pontapé no estômago do adversário, ainda o encoraja da tribuna.
─ O pólo aquático é um desporto duro ─ costuma dizer-se. E o que é que disse o assassino?
Não esteve com rodeios. Confessou, compungidamente, ter morto a mulher que o tinha traído com toda a gente, impelido a sua filha à desmoralização, arruinado a família inteira. Disse desanimado:
─ Sou um assassino.
Foi enforcado.
István Örkény, in Histórias de 1 minuto, vol. 1, trad. Piroska Felkai, 2.º tiragem, Cavalo de Ferro, Novembro de 2004, P. 123
SAPPY
Trazem-nos chá com torradas, doce de tomate. O que penso disso? Não penso nada. As caves onde andávamos aos encontrões fingindo que dançávamos foram todas transformadas em salões de chá, agora é proibido fumar e respirar mata, passeamos os olhos por centenas de canais. Alguns jovens têm um ar muito sério e respeitável, querem ser clones dos pais enquanto os pais os colonizam. Outros fumam drogas, roubam carros, passam horas no ginásio a enrijecer os músculos com que defenderão as damas dos rivais. Mal sabem elas que o mais provável será, dentro de anos, servirem de saco àqueles músculos. Sobre assuntos destes fazem-se estatísticas. O que penso disso? Não penso nada. Bebo um chá e como torradas.
CARAPAUS GRELHADOS
MEDITAÇÃO
Sábado, 28 de Novembro de 2009
PROVÉRBIO
QUE SABEMOS NÓS
Que sabemos nós das dores de cada um?
sabemos dum rio dum pomar duma flor
dum pássaro morto na primavera
e tudo isso escrevemos num poema
─ mas das dores de cada um que sabemos nós?
dos homens anónimos que viajam na solidão dos eléctricos
dos meninos que amanhecem mortos
junto aos muros das grandes cidades que sabemos nós?
sabemos dum nome que o jornal traz todas as manhãs
mas dos homens que vendem os jornais que sabemos nós?
sabemos acaso como doem as suas lágrimas no silêncio
quando a tarde é uma pedra de melancolia
caindo sobre os ombros?
ah tudo isso escrevemos num poema
mas de tudo isso que sabemos nós?
quando as luzes se acendem na cidade
e a noite é uma lágrima
que sabemos nós do desespero das mãos vazias
dos olhos que não vêem mais que a noite
para além duma janela sem cortinas?
ah tudo isso escrevemos num poema
mas dos que ficam para contar aos que vierem
das suas dores na madrugada
e da esperança que a noite trará um dia às suas mãos vazias
e aos seus olhos que não vêem mais que a noite
para além duma janela sem cortinas que sabemos nós ?
─ ah tudo isso escrevemos num poema.
Luís Pignatelli, in Obra Poética 1953-1993, &etc., Maio de 1999, pp. 23-24.
ANTES AGORA
A SOLIDÃO E O SONHO
UM CASAL
POST-SCRIPTUM
Sexta-feira, 27 de Novembro de 2009
DESNASCER
Ainda ontem de madrugada, enquanto festejávamos um ano de buliço, eu confessava aos meus camaradas de serviço que só guardo uma frustração na vida: não ter estudado música. Ainda vais a tempo, disseram eles. Claro que sim, embora já seja tarde para ir a tempo. Independentemente disso, estas fotos deixam-me numa alegria infantil que vossas excelências nem imaginam. (Novamente AQUI)
RAIVA
Quinta-feira, 26 de Novembro de 2009
AINDA 2666
Caros tradutores,
fui alertado para a vossa reacção no passado dia 22. Por manifesta falta de tempo, respondo agora, tanto quanto me é possível, às questões levantadas no vosso comentário. Primeiro, quero esclarecer que em nenhum momento o meu texto pretende fazer uma crítica demolidora à tradução de 2666. Reafirmo que «a primeira edição portuguesa de 2666 (Quetzal, Setembro de 2009) apresenta vários problemas de tradução e é uma calamidade no que se refere à revisão». Antes de enumerar algumas falhas que me parecem justificar esta leitura, permitam-me rebater o tom moralista que o final do vosso comentário sugere. Eu digo, no meu texto, que 2666 oferece «um retrato violentíssimo do mundo que chega a ser fastidioso n’A Parte dos Crimes, com a descrição de dezenas de assassínios de mulheres, quando não hilariante nos detalhes cruéis que impelem o leitor para um abismo de desolação». Esta hilaridade é óbvia, por exemplo, no anedotário exibido entre as páginas 634 e 636 ou, para não ir mais longe, no humor negro muito particular da passagem que a seguir transcrevo:
«Houve um polícia, no entanto, que disse que uma violação completa era a que se fazia pelos cinco canais. Interrogado sobre quais eram os outros dois, respondeu que eram as orelhas. Outro polícia disse que ele tinha ouvido falar de um tipo de Sinaloa que violava pelos sete canais. Quer dizer, pelos cinco conhecidos, mais os olhos. E outro polícia disse que ter ouvido falar [sic] de um tipo da Cidade do México que violava pelos oito canais, que eram os sete já mencionados, os sete clássicos, digamos, mais o umbigo, onde o tipo da Cidade do México fazia uma incisão não muito grande com a sua faca e depois metia a verga nela, embora, é claro, para fazer isso fosse preciso já estar passado dos carretos.»
Vamos, então, às dúvidas levantadas pela versão portuguesa. É importante ter em conta que a lista que se segue não é exaustiva, mas sim a possível a alguém que não vive disto, não é pago para escrever sobre livros nem para rever traduções, paga os livros que quer ler e dá-se ao gozo de partilhar as suas leituras:
p. 33: «…e tinha sido ele, o suábio, quem o tinha ido esperar à estação e o que o havia levado à pensão…»;
p. 36: «…esculpido num peça única de mármore negro…»;
p. 39: «Quando vim trabalhar para cá já há muito tempo que Archimboldi tinha desaparecido.» (não ficaria melhor uma vírgula entre o cá e o já?);
p. 52: «Quando, por fim, chegou à janela e conseguiu abri-la, sentiu que estava ficar enjoado…»;
p. 53: «A certeza porém foi que nem Pelletier nem Espinoza visitaram Norton no seu quarto nem uma única vez…» (o último nem não estará a mais?);
p. 81: «…pensava naquele que julgava ser o último romance de Archimboldi e em que se tivesse razão…» (o em não será dispensável?);
p. 89: «Os enfermeiros ingleses falavam aos gritos, apesar de o som dos seus vozeirões lhes chegar em surdina.» (não será “apesar do”?);
p. 100: «…não para o mar nem para a para a praia a transbordar.»;
p. 105: «…acabaria por se suicidar, porque sim, gratuitamente, aturdidamente, porque não?» (é discutível, mas parece-me que “por que não?” ficaria melhor);
p. 105: «Quando chegaram, o filho estava a ver a televisão… (não estaria simplesmente a ver televisão?)»
p. 106: «A resposta dela pareceu-lhe conter uma certa dose de agressividade, mas depois lembrou-se que de Vanessa era assim.»;
p. 144: «Entrou em contacto com a obra de Archimboldi, se bem se lembrava, aos vinte anos, nessa altura tinha lido, em alemão e ido buscar os livros emprestados a uma biblioteca de Santiago…» (será esta pontuação a melhor?);
p. 203: «Amalfitano recebeu a carta seguinte vinda de San Sebastián. Nela Rosa contava-lhe que tinha ido com Imma ao manicómio…» (a carta não fora escrita por Rosa);
p. 214: «…sem esperança alguma de ver o poeta mas sim, quanto muito, algum sinal…» (quando muito);
p. 222: «Não, não é meu, disse Rosa, de certeza que não, a verdade é a primeira vez que o vejo.» (na verdade?);
p. 227: «…e depois havia a chuva, o vento, a páginas a voarem…»;
p. 234: «…individualmente os italianos era corajosos.»;
p. 234: «…Amalfitano fechava os olhos e tentava recordar uma imagem do pai qualquer, inutilmente.» (uma qualquer imagem do pai?);
p. 237: «…as pessoas que as têm não param de se coçar, com é lógico.»;
p. 275: «Quando já tinha pagado e se preparava para sair um tipo que trabalhava no desporto chamou por ele e convidou-o a beber uma cerveja.» (não faltará aqui uma vírgula?);
p. 287: «Depois à mulher cresciam-lhe pernas de madeiras e braços de arame e uma língua feita de ervas e plantas trançadas.»;
p. 330: «…como se estivesses a contar uma história num bar e todos o que estão à tua volta fossem teus amigos…»;
p. 339: «Antes de a manifestação começar a dispersar…» (antes da?);
p. 353: «- Parecem tubos – comentou Fate da porta aberta da recepção» (falta um ponto final);
p. 377: «…para que Fate viesse que ele não levava arma…» (visse);
p. 379: «Fate aquiesceu em silêncio. Quando Rosa se fechou na casa de banho pôs-se a pensar em tudo o que tinha acontecido naquela noite e doeu-lhe o estômago. Sentiu uma onda de calor a subir-lhe à cara. Sentou-se na cama, tapou a cara com as mãos e pensou que se tinha comportado como um estúpido.» (hmmmmm, a quem é que doía o estômago?);
p. 382: «…fornicar com um polícia é como se uma montanha te fodesse e foder com um traficante é como fosse o ar a fornicar-te.» (como se fosse?);
p. 385: «…ele gostava de dizer palavras indecentes e proferir insultos durante o orgasmo, mas não contra ela, mas contra pessoas indeterminadas, fantasmas que…» (o segundo mas não estará a mais?);
p. 394: «…o recepcionista desatou a rir e disse-lhe que já sabia aonde é que ele queria chegar…» (neste caso, não será mais correcto dizer onde em vez de aonde?);
p. 396: «Queria saber se senhor era nosso hóspede.» (se o senhor?);
p. 399: «…vestido com umas calças e um casaco ganga saiu do Peregrino…» (de ganga?);
p. 421: «Há uma catrafada de anos, disse ela, a rir-se.» (não vou insistir, mas procurei em 6 dicionários diferentes e em nenhum deles aparece catrafada. Será um termo em desuso? Catrefada parece-me mais correcto);
p. 437: «Por momentos, enquanto varria, o padre falou e falou: da cidade, da pingar constante…»;
p. 438: «E tu, além de ser jornalista, que outras coisas fazes…» (de seres?);
p. 449: «A descoberta foi feito por um dos vendedores.»;
p. 454: «…nada tinha a ver com os assassínios…» (segundo sei, manda a sintaxe portuguesa que se diga “tinha que ver” );
p. 471: «…da primeira a aproximar-se dela e da segundo…»;
p. 480: «…mas quase todo a gente a conhecia…»;
p. 487: «…punha-se a pensar em quão gostaria de saber mais coisas…» (não estará mal, mas soa francamente mal. Prefiro “o quanto”.);
p. 491: «Pediu seis de de carnita, três com molho…»;
p. 492: «…e o vento fizesse com ela o lhe apetecia.»;
p. 500: «…eu viu a testa dela cheia de rubis…»;
p. 502: «Ela tinha medo de falar, pois às vezes a primeira coisa que a possessão se agarrava era a língua.» (a que a possessão se agarrava?);
p. 511: «O Asuntos Internos ainda não encerrara quando ele chegou…» (não sei se o Asuntos foi opção, mas “os Assuntos Internos” parece-me melhor);
p. 519: «…a certeza que ele nunca mais voltaria a seria visto na cidade.»;
p. 527: «Eu acho que os homens deviam ser circuncidados aos vinte e um anos, se quiserem, e se não quiserem…» (se quisessem?);
p. 531: «E outro polícia disse que ter ouvido falar de um tipo da Cidade do México que violava pelos oitos canais…» (o “que” não estará a mais?);
p. 532: «O cadáver escondeu-o num armário.» (hmmmmmm, isto soa-me estranho);
p. 541: «…não acredito nem uma palavra do que me dizes…» (nem uma ou nem numa?);
p. 554: «O ranchero, que tinha o sonho leve, disse-lhe que deixasse de fazer barulho e adormecesse.»; (o sonho ou o sono?)
p. 555: «Como ele não consegue dormir, não respeita o sonho de ninguém…» (idem);
p. 586: «O corpo, de a uma mulher…»;
p. 603: «…realização do axame vaginal…»;
p. 617: «…não acreditava que a corrupção de agora fosse maior do aquela que houvera…»;
p. 626: «…no estilo dos de Poenix.» (Phoenix?)
p. 633: «..junto de umas das suas janelas…» (umas ou uma?);
p. 638: «…(que morreria fuzilado acusado de cobardia em 1915)…» (não falta uma vírgula?);
pp. 642 a 645: Michele Sánchez Castillo é Michel por duas vezes;
p. 668: «…pelo menos isso diziam isso…» (o primeiro isso está a mais);
p. 675: «…e depois disse que sim, que, sim, era.» (não sei como aparece no original, mas talvez possa estar aqui uma vírgula a mais, talvez não);
p. 683: «…que depois deitariam foram…» (fora);
p. 723: «Em também estive em casa dele…» (eu);
p. 733: «…o espelhos dos ingleses…»;
p. 748: «…e em frequente ocasiões…»;
p. 750: «..o quais pareciam cegos…»;
p. 795: «…depois de os dois carros…» (depois dos?);
p. 801: «- Exacto – exacto a rapariga -, uma pedra…» (desconfio que o segundo exacto esteja inexacto);
p. 815: «…desde tempo imemoriais…»;
p. 815: Tosltoi (Tolstoi?);
p. 822: «Considerações sobre a Morte de Evguenia Bosh» (Bosch?)
p. 827: «A noite e a passagem das estrelas pela abóbada celeste paracem intermináveis.» (parecem);
p. 829: Tosltoi (Tolstoi?);
p. 845: «…viu-a sair e dirigir-se juntamente com os outros judeus de Kostekino para aonde a aguardava a disciplina alemã..» (para onde?);
p. 858: «Ao fim de três meses foi a vez de aqueles cujos apelidos começavam por Q…» (daqueles?);
p. 864: «- Mas eu não administro de um campo de judeus…»;
p. 884: «…antes de a cidade ter…» (antes da?);
p. 902: «…pouco são os escritores…»;
p. 905: «…com todo a panóplia…»;
p. 918: «…durante todos aquele tempo…»;
p. 929: «…antes de a porta se abrir…» (antes da?);
p. 944: «…que não realidade não conhecia…»;
p. 1008: «…sem perder nem um mais um minuto»;
p. 1022: «No México Lotte ficou ainda permaneceu mais um bocado com o telefone colado à orelha.» (?)
Dito isto, estou certo de que o vosso trabalho foi esforçado e sério. A obra é imensa e, certamente, de tradução difícil. Não estou tão certo da honestidade dos ecos que vos chegaram por parte de outros críticos. Digo outros, pegando nas vossas palavras. Pois crítico é coisa que não sou.
LUZ AO FUNDO DO TÚNEL
HARAKIRI
OBSESSIVO-COMPULSIVO
HOW RIDICULOUS THEY ARE
Os intelectuais soen muy ben zurrar
na literatura na poesia: no café
Ai how ridiculous ridiculous they are
é verdade ou não, Lord Byron, é ou não é?
Nas pastelarias nas igrejas no café
ai sobretudo sobretudo no café
é verdade ou não é, Lord Byion, é verdade ou não é?
Ai how ridiculous they are
zurrar o sabem no da fror
tempo em que as burras muito hão-de ganhar
como é de D. Dinis (com modificações) o teor
António Gancho, in O Ar da Manhã, Assírio & Alvim, Junho de 1995, p. 16.
Quarta-feira, 25 de Novembro de 2009
UM NOVO ESCRITOR TALENTOSO
Andrei Andréevitch inventou a história seguinte: num castelo antigo vivia um príncipe, um bêbedo terrível. A mulher do príncipe, pelo contrário, nem sequer bebia chá, apenas água e leite. Ora, o marido bebia vodca e vinho, mas não bebia leite. Aliás, a mulher dele também bebia vodca, mas às escondidas. Ora, o marido era desavergonhado e não o escondia. «Não bebo leite, bebo vodca!», dizia sempre. Ora, a mulher tirava debaixo do avental um frasquinho e portanto, à socapa ─ hop! ─ bebia. O marido príncipe diz-lhe: «Podias muito bem partilhar comigo.» E a mulher princesa responde-lhe: «Não, é pouco para mim. Hiu!» «Tu, sua lédia!», diz o príncipe. E, ditas estas palavras ─ zás! ─, atirou a mulher ao chão. A mulher partiu a cara toda, está deitada no chão e chora. O príncipe, agasalhando-se no manto, foi para a sua torre onde tinha um galinheiro. Porque fazia lá criação de galinhas. Pois bem, entra o príncipe na torre e as galinhas cacarejam, reclamam o alimento. Uma galinha até começou a relinchar. «Tu, aí ─ diz-lhe o príncipe ─, chante-clair! Cala-te, senão levas um soco nos dentes!» A galinha não compreende aquelas palavras e continua a relinchar. Em consequência, a galinha faz barulho na torre, o príncipe, evidentemente, pragueja, a mulher, em baixo, está deitada no chão, enfim ─ uma autêntica inferneira.
Eis a história que Andrei Andréevitch inventou. Logo por esta história se vê que Andrei Andréevitch é um grande talento. Andrei Andréevitch é um homem muito inteligente ─ muito inteligente e muito bom!
Daniil Harms, in A Velha e Outras Histórias, trad. Nina Guerra e Filipe Guerra, Assírio & Alvim, Agosto de 2007, pp. 140-141.
PATOS
PEÕES
AFOGADO
BREVE EXERCÍCIO SOBRE A RAIVA
28. Quando o Pax se arrastou aos meus calcanhares, após três pancadas fatais, vi-a pela primeira vez. Através daqueles olhos fundos, moribundos, a morte contou-me uma tristeza de silêncio. Enterrado num olival, atrás de uma oliveira, ele foi para sempre a minha primeira morte. Quero acreditar que as azeitonas amadurecem com pêlo e ladram e enroscam-se nas minhas pernas tão novas e tão cansadas. Não sei se de esperar, se de desesperar, se de morrer assim tão ao contrário de quem morre após três pancadas.
O segundo desses cães foi o Berry:
26. Quando apanhou raiva, o meu cão foi oferecido ao padeiro com o móbil de ser abatido. Durante anos os pães chegaram ao pequeno-almoço manchados de sangue. Durante anos os cães confundiram-se-me na mente com pães. Comecei a perder peso. Fiquei muito magro. E sempre que escutava o pregoeiro do padeiro, anunciando o pão a chegar à mesa, escondia-me debaixo da cama ─ não se lembrasse minha mãe de me ceder ao padeiro, para que a raiva me fosse curada para sempre.
Como disse, estes dois pequenos textos foram publicados nas Estórias Domésticas (OVNI, Dezembro de 2006). Quero agora fazer justiça ao segundo cão, aquele que morreu com raiva. O núcleo familiar mais restrito sempre julgou o Pax o cão mais inteligente da família. Era fiel, batia à porta para entrar em casa e respondia quando alguém perguntava quem é. Era um daqueles cães que oferece a patinha a troco de mimo. O Berry era muito diferente, não dava a patinha e, por isso, chamavam-lhe estúpido, tinha impulsos vadios, desaparecia com frequência para depois regressar ao lar com o pêlo em farrapos, metia-se em brigas, era quezilento. Uma vez mordeu-me numa bochecha, quase que me apanhava um olho. Em suma, o Pax era mais doméstico que o Berry. Neste, o instinto da vadiagem sobrepunha-se à mansidão caseira com notável teimosia. Por isso, resolveram prendê-lo com uma coleira e uma corrente a uma casota de palmo e meio. Sentei-me muitas vezes a olhá-lo, a tentar brincar com ele. Recebi sempre de troco um olhar de desprezo. Com o tempo, fui-me apercebendo da transformação operada no olhar do bicho. Da resignação ao desespero, do desespero ao ódio, foi num instante que os veterinários de trazer por casa declaram a terrível maleita: raiva. O que podemos esperar de um animal impedido de fazer o que quer, de uma animal contrariado pelas circunstâncias, o que podemos esperar de um animal acossado pela modorra doméstica? Não podemos esperar senão que fique raivoso. Quando isso acontece a um cão, encomenda-se-lhe o abatimento, a execução final, o fim, a morte. Quando isso acontece a um homem, encomenda-se-lhe a farmacologia do desespero. Dependendo da gravidade do problema, escrever poemas ajuda, tocar um instrumento musical, fazer desporto, pintar telas, partir paredes, oferecer ao corpo a porrada de que ele necessite para encontrar um certo equilíbrio psicológico. Em última instância, desabafar com um psicólogo, sacar receitas ao psiquiatra. Isto se houver dinheiro. Se não, escrever para um weblog como quem parte nozes. Além disto, só vislumbro uma alternativa: arranjar um cão, tentar domesticá-lo, esperar que ele apanhe raiva, entregá-lo para ser abatido.
REQUIEM POR RUTH HANDLER
Morreu ontem a mãe da Barbie,
a boneca adolescente. À semelhança de
Atena, Barbie saiu armada dum
cérebro, não divino, mas industrioso,
com a longa cabeleira e a azúlea mirada.
Morreu a mãe da Barbie, a filha
que nunca será órfã, pequeno duende
de soutien 38 e de 33 polegadas
de altura. Trinta e três polegadas
multidesejantes de sonho
anatomicamente impossível.
Morreu a mãe da Barbie, que
faz ballet, ski, patins em linha e
todos os desportos radicais e tem
um namorado elegante, que jamais
a trairá e amigos tão anatomicamente
imperfeitos como ela.
Morreu a mãe da Barbie, que vai
a todas as festas com muitos
vestidos de gala e enegreceu
há uns anos, qual Naomi Campbell, para
ser consumida pela boa
consciência racial do Ocidente.
Morreu a mãe da Barbie, que jamais
a viu, assim anatomicamente imutável,
padecer de uma gravidez adolescente.
A Barbie é sabida e deve ter tido educação
sexual. Que fará ela, com o Ken
no regresso de tantas festas?
Nem paixão, nem desgosto, nem fome
ou uma boa tareia dos adultos, alteram
a sua fábula de plástico, muito menos
fabulosa que a Branca de Neve ou a
Bela Adormecida, onde existiam
humanas bruxas, vencidas maldições
e príncipes que davam beijos ao acordar.
Morreu a mãe da Barbie, cedo demais
para inventar uma Barbie de burka,
ou de explosivos escondidos no cinto. No
fim da vida continuava a vender milhões
de próteses mamárias, na sequência da sua
própria mastectomia. Coisas sem brilho,
impossíveis de acontecer
à Barbie.
Inês Lourenço (n. Novembro de 1942), in Logros Consentidos, &etc., Março de 2005, pp. 40-41.
Terça-feira, 24 de Novembro de 2009
PLASMAS
SÓ ISTO
VEM AÍ O SAGRADO
vem aí o sagrado, e tornam-se radiosas as coisas mínimas,
e amadureces,
e no meio de azulejos, torneiras, gás, temperaturas,
tocas,
por favor a ferida primeira,
no teu centro, tocas
para causar profundidade,
quer dizer: vem o Deus que há-de vir, sente-se
contra a água e a cabeça,
tão perto, contra
kapput,
à cabeça
purificada
─ e o Deus que há-de vir há-de vir andando sobre as águas? ─
nada no mundo pede de ti o poder da dança,
nenhum poder debaixo da água lustral que te abraça,
por teor dos movimentos do duche,
te despe e abraça,
entre membros e ilhargas, o nó que rematou a obra
desde o remoto, essa
sim jubilação arcaica,
pois por trás da cortina plástica já se exacerba
a matéria dos dons, tão
leve
linguagem, uma
espécie de técnica do temor e tremor no quotidiano entre objectos de uso
como:
champô e gel, e em cheio, baptismal, no cabelo,
o chuveiro de Deus,
e ei-la, a tua mão vibrante, ou pela força do sangue
que suporta pensamento e corpo
e a palavra,
ou pela força dos ramais desde as rudes reservas
até como estremeces sob águas assim
sopradas, e sobretudo o que não sabes que te abala
nos fundamentos
a cada instante inseparável
(na banheira)
Herberto Helder, in A Faca Não Corta o Fogo – súmula & inédita, Assírio & Alvim, Setembro de 2008, pp. 160-161.
CONSTA QUE...
VIDA PRÓPRIA
Se não estiveres aí, é
como se estivesses, digo
na mesma o que tiver para dizer:
dormem as barcas nas enseadas,
rebenta a luz nas onze horas
da noite, um livro insignificante
chama do nada, como ao acender
de um cigarro distraído, adoeces
sem saber e a televisão ladra,
de madrugada, com um filme
abrasivo. Há pelo menos um
anormal que continua a pensar
em cenários. Deixá-lo a pensar.
Descanso em saberes
que te dispenso, te convoco
para a tarefa cruel de juntar
sentidos, como numa cerimónia
calculada para anéis e grinaldas,
com limusina e inimigo, camélias
onde largo, displicente, algum
desdém. Proponho
que sigas em frente, dobres
o teu enorme passo, vás
aos cafés onde se pode fumar,
não tenho nada a ver com isso.
Calo, na mesma, o que devo
dizer: tenho metade em ti,
sou todo teu. O que é certo
é que nunca mais te livras
de ir queimar ao sol, pelo menos,
alguma sombra de que precisas.
Vida imprópria.
Manuel Fernando Gonçalves (n. 24 de Novembro de 1951), in A Realidade dos Factos, &etc., Outubro de 2008, pp. 74-75.
Segunda-feira, 23 de Novembro de 2009
SINFONIA Nº 2
Anton Mikhailovich escarrou, fez «ah», voltou a escarrar, fez outra vez «ah» e foi-se embora. Tanto pior para ele! Vou antes falar de llia Pavlovich.
llia Pavlovich nasceu em 1893, em Constantinopla. Pequeno ainda, levaram-no para S. Petersburgo, onde concluiu estudos na escola alemã da rua Kirochnaia. Depois trabalhou numa loja, depois fez outra coisa qualquer, e quando começou a Revolução emigrou para o estrangeiro. Olhem, tanto pior para ele! Vou antes falar de Anna Ignatievna.
Mas falar de Anna Ignatievna não é assim tão simples. Começa por que não sei nada dela, e depois acabo de cair da cadeira e esqueci tudo quanto tinha para contar. Vou antes falar de mim.
Sou alto, não sou nada parvo, visto com elegância e gosto, não bebo, não vou às corridas mas tenho um fraco por mulheres. E as mulheres não fogem de mim. Gostam mesmo que dê passeios com elas. Serafina Izmailovna convidou-me mais do que uma vez para ir a casa dela, e Zinaida Iakolevna também costumava afirmar que tinha muito prazer em ver-me. Com Marina Petrovna é que se passou uma coisa divertida, que desejo contar. Uma coisa banalíssima mas ainda assim divertida. Marina Petrovna ficou completamente careca por minha causa, careca como um ovo. O facto deu-se desta forma: um dia fui a casa de Marina Petrovna, e ela zás!, completamente careca. Só isto.
Daniil Harms, in Crónicas da Razão Louca, trad. Sérgio Moita, Hiena, Julho de 1994, p. 45.
ELOGIO DO CINISMO (8)
Os conselheiros do Príncipe, os colaboradores ─ como se diz numa palavra que em nada perdeu o seu sentido desde o período dos anos sombrios ─ os técnicos, os funcionários do pensamento que operam em comissões ou fornecem aos homens políticos do momento e aos poderosos do dia dois ou três conceitos susceptíveis, à justa, de serem compreendidos e assimilados pelos jornalistas, esses, perpetuam a miséria e a servidão, a sujeição e o sacrifício das individualidades, em proveito das máquinas sociais, das quais obtêm vantagens em espécies, em termos simbólicos, ou até em liquidez, todos eles, aliás, bem compatíveis entre si.
Onde os auxiliares do poder vigente celebram a virtude do sério, do útil e indispensável para sacramentar o poder, para fazer dele um epifenómeno proveniente do religioso e do celeste, o libertário restaura as virtudes do desvio, da ironia, do humor, do cinismo, sob a forma de modalidades subversivas da linguagem e do gestual, conceptuais e pragmáticas. O riso nietzscheano de Foucault, contra o silêncio feltrado dos palácios presidenciais; a dança de Zaratustra, em contraponto à rigidez dos ministérios, de todos os protocolos; o grotesco de Rabelais e as loucuras de Swift, à laia de resposta aos sussurros dos enxames de porteiros; a chacota de Voltaire e a qualidade de Sartre, como eco às peças douradas da armação de portas e janelas e aos brocados púrpuras; os sarcasmos da festa dos loucos e as antimissas com burros, face à pompa do Eliseu. Vinho a rodos, libações, um Diógenes que peida, onanista e canibal, uma política dionisíaca; brindes com água simples, presidentes da República desmiolados, uma política apoIoniana, eis o inventário das alternativas ancestrais.
O risco que representa o lobo não é certamente o do cão. A este último destina-se a barriguinha ética, o fim de qualquer elegância moral, a obesidade conceptual e a reflexão adiposa, a obra lançada como pasto tanto aos simples como aos necrófagos: uma libra por cada ideia ─ e ainda... ─, uma libra por cada mandato do dono, uma chuva de pregações públicas, uma ocupação dos locais mediáticos da maneira como se ocupam os lugares de lazer. No final de contas, um talento desvitalizado, um pensamento em frangalhos, suturado, e a alma vendida aos parasitas políticos alimentados pelo sangue chupado e pela inteligência escravizada.
Para os outros, os lobos, destina-se o lote concedido aos companheiros de Diógenes através dos séculos: a expulsão, o exílio, a prisão, a tortura, a privação de liberdade, a perseguição, a punição, os maus tratos, a encarceração. Prisão mamertina e células entre quatro muros, montanhas córsegas e jaulas de ferro não longe de Couesnon, fogueiras romanas e salas de tortura espanholas, exílio para a Holanda e mudanças forçadas de paradeiro na América, a Bastilha e Charenton, Jersey e Guernesey ou, hoje, privação de cobertura mediática ou de promoção social, o contrário de tudo o que, de perto ou de longe, se assemelhe ao néctar e à ambrósia dos Eliseus. A loucura de Nietzsche, a sida de Foucault, o suicídio de Deleuze, o silêncio de Blanchot, contra a paixão de alguns pelos almoços em companhia daqueles que nos governam. Os pensamentos fortes associam-se às vidas que os acompanham e os pensamentos débeis também.
Michel Onfray, in A Política do Rebelde – Tratado de Resistência e de Insubmissão, trad. Carlos Oliveira, Instituto Piaget, 1999, pp. 192-194.
RECEITA PARA AS CONSTIPAÇÕES
O Senhor Gouveia dá como infalível
o seguinte remédio para as constipações:
Misturem-se três colheres (das de sopa)
de boa aguardente com outras três de xarope
de avenca. Deite-se a mistura numa chávena
cheia de infusão quente de flores de violeta.
Antes de adormecer (é evidente), beba-se
a tisana e repita-se nas duas noites seguintes.
Em três dias a constipação desaparece.
Poetas e demais pessoas de constituição fraca
podem precisar de repetir o tratamento.
Vítor Nogueira, in Senhor Gouveia, Averno, Maio de 2006, p. 29.
DA DOENÇA
Date: 2009/11/23
Subject: Finalmente
To: Bráulio Cimento Alverca
Bem Bráulio, acho que te denunciaste... Depois da última conversa que tivemos no chat do gmail e do engraçadíssimo post do Dempster que li há pouco, acho que já sei quem tu és.
Fwd: Finalmente
De: Bráulio Cimento Alverca
Para: universosdesfeitos@yahoo.com.br
Caro Senhor,
Reenvio-lhe a mensagem infra que me coloca numa situação complicada: por um lado, de nada adiantará negar ao rapaz a sua convicção o que o deixará a lavrar no erro pela eternidade; por outro, fica V. Exa. com uma fama um tanto ou quanto indigna. Nada de grave, portanto.
Esta personagem que sou surgiu do acaso entrópico a que a rede por vezes nos remete. Não ando a vender qualquer tipo de produto nem me move o insulto enquanto objectivo de vida.
Os meus princípios estético-ontológicos regem-se essencialmente pelo que Cindy Lauper sintetizou, em termos filosófico-gnoseológicos, na expressão "girls just want to have fun", âmbito da qual tomo a liberdade de alargar ao resto da Humanidade.
Resumindo: V. Exa. sabe que não é o responsável por Bráulio Cimento Alverca e a M. Exa. sabe do mesmo.
Com as devidas condolências, parabéns e cumprimentos,
Bráulio C. Alverca, um seu criado
2009/11/23 Diogo Vaz Pinto
Bráulio,
mas quem te disse que julguei que fosses o Fialho!? Não Rui, não me enganei. Devias ter algum cuidado com a divulgação do conteúdo de conversas privadas, ainda pensam que és um rato.
Gostava agora de te ver divulgar este mail.
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2009/11/23 Bráulio Cimento Alverca
Diogo,
Não divulguei qualquer conversa privada. Apenas encaminhei uma mensagem que recebi, fazendo, em privado, um comentário. Em nenhum momento peço divulgação. De seguida reenvio-te, para que constates isso mesmo.
E transcrevo aqui uma parte desse comentário, que, formulado de outra forma, é algo que também já te tinha dito:
«Esta personagem que sou surgiu do acaso entrópico a que a rede por vezes nos remete. Não ando a vender qualquer tipo de produto nem me move o insulto enquanto objectivo de vida.
Os meus princípios estético-ontológicos regem-se essencialmente pelo que Cindy Lauper sintetizou, em termos filosófico-gnoseológicos, na expressão "girls just want to have fun", âmbito da qual tomo a liberdade de alargar ao resto da Humanidade.»
Nunca foi minha intenção causar qualquer prejuízo a quem quer que fosse. Se o fiz, assumo-o e peço desculpa.
Prometi a mim mesmo que ao menor indício de incómodo, esta personagem acabaria: o Bráulio morreu.
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2009/11/23 Diogo Vaz Pinto
Rui,
Não me interessa se o Bráulio morreu ou não. Talvez não caísse mal um verdadeiro pedido de desculpas, mas aquilo a que não podes fugir é à obrigação de rectificar o que ficou exposto no blog do Fialho - como consequência da tua divulgação do meu e-mail dirigido somente a ti, Rui, e cumulado com uma presunção errada tua. Julgaste que te confundi com o Fialho, e sim, de uma certa maneira foi essa ligação o que te denunciou, mas porque me pareceu que alguém que tinha estado comigo e com o David, pessoalmente, e tinha depois andado a comentar com o Fialho. Aí foi uma questão de unir os pontos. Lembro-me que, na apresentação do livro do Tolentino Mendonça, não chegaste a afastar a possibilidade de seres tu o Bráulio quando eu pus essa hipótese. Talvez devesses ter-te assumido nessa noite, terias evitado esta situação, exactamente aquilo que, segundo dizes, não era a tua intenção que acontecesse. Aconteceu. Assim, vou esperar agora que faças o que disseste, que peças desculpa assumindo um erro de cálculo teu e não meu. E agora que o teu amigo tornou pública a tua precipitação, também ela deverá ser desmanchada de uma forma igualmente pública.
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Re: Precipitado
De: Bráulio Cimento Alverca
Para: Diogo Vaz Pinto
Cc: universosdesfeitos@yahoo.com.br
Diogo,
O teu email seguiu para o Henrique da mesma forma que seguiu o outro. Insisto: não pedi ao Henrique para divulgar nada. Apenas reencaminhei o teu mail com o comentário. Do mesmo modo não lhe peço para publicar a tua rectificação. Exactamente os mesmo procedimentos para um e outro. Não me custa nada reconhecer que me precipitei e que interpretei mal o teu mail. Mais uma vez: se isso prejudicou alguém, assumo-o e peço desculpa.
O mais que posso fazer é encaminhar também este mail para ele, de modo a reforçar essa tua vontade de clarificar as coisas.
Não tenho como te garantir que nada comentei com o Henrique do que falámos à porta da Trama, por altura do lançamento do livro do Tolentino. Apenas te posso dar a minha palavra em como não o fiz. Depois disso, estive com o Henrique duas vezes e em nenhuma delas falei de ti. Além disso, o Henrique não sabe/sabia quem é o Bráulio.
Lamento muito ter causado prejuízo. Lamento mesmo. Nunca foi essa a minha intenção.
A existência da personagem BCA nunca teve outra intenção senão brincar. Brincar.
Talvez não venha a propósito, mas reafirmo tudo o que disse sobre ti e sobre a revista Criatura, fosse presencialmente, por mail ou debaixo da personagem BCA. Nunca disse nada de diferente a outros.
As desculpas e o Abraço do
Rui Almeida
Nota: e com isto, agradeço que não me mandem mais mails, que, pelo menos, façam de conta que eu não existo. Estou fartinho, fartinho, fartinho das vossas brincadeirinhas infantis.
NITROFURANOS: DANOS COLATERAIS
Domingo, 22 de Novembro de 2009
WALKING IN MY SHOES
STAIRWAY TO HEAVEN
Depois de uma dor na fonte, a veia inchada, o pescoço a ranger como uma porta enferrujada, depois de mais um dia copiado de outros dias, como se a vida fosse já só uma versão da vida, palavras para quê?, o paraíso é já ali, o inferno congelado no fundo da gaveta. Toca a abrir a gaveta, toca a dar asas ao inferno. Meu amigo inferno.
O SANGUE POR UM FIO
A viagem que se propõe terá como referência o farol da morte. A morte, ou a proximidade disso a que chamam morte, pairará não somente como tema, mas sobretudo como motivo para um convite a embarcar num «barco à deriva já dentro do porto» (p. 9). Os ecos da viagem servirão de escrutínio para o que agora se pretende balancear: a vida. Temos então o enigma da vida cifrado nas guerras passadas, algumas ultrapassadas, outras nem por isso, temo-lo nas ilusões que se foram perdendo pelo caminho e noutras que vieram substituir aquelas, ilusões que o corpo desilude, que o tempo faz recordar como alguém que se recoloca defronte a um «pelotão de fuzilamento»: «A feras de erva mansa / dão-se / peixes de água doce / o isco em dias repetido / e de um só passo se atrai / a raiva do desleixo / as ordens são desde aí / desilusão consumada» (p. 26). Nota-se a ironia desencantada que motiva as erupções da palavra, chegadas à folha como uma espécie de disparo espontâneo e imprevisível. Nada nestes poemas permite entrever a consciência amansada da vida que caracteriza muita da poesia actual, a qual foge aos riscos de se estar vivo como quem recusa a liberdade que lhe não custou conquistar.
Os poemas de Sérgio Godinho tentam-nos. Julgamos ser a morte o tema central deste livro. E, de facto, esse tema paira, do princípio ao fim, com maior ou menor evidência. Mas dentro dele descobrimos uma lição de se estar vivo, uma interrogação constante, as dúvidas e as respostas de alguém que não nega a si próprio o gozo das partidas sem fim determinado: «Nada é mais do que o que fica. / Mas para isso, nada é menos do que agora» (p. 68). Afinal, o que importa, mais do que perceber o que é isto de andar por aqui, mais do que pretender ludibriar o que é isso de deixar de andar por aqui, o que importa é mesmo andar (ir andando também não chega). Estes poemas não se impõem como recados, parecendo-nos, por vezes, que eles escondem uma realidade que é fruto da experiência com a manipulação das palavras. Essa realidade é a de quem se liberta da manipulação da palavra e se deixa manipular pela força sugestiva dos vocábulos. Deste modo, o poema funciona como sugestão, não como uma mera confissão ou como um testemunho, não apenas como uma vontade de dizer algo que não pode ser dito de outra forma, mas como uma experiência de liberdade na relação com a palavra e seus modos de (des)organização formal.
Balanço ou reflexão, testemunho de resistência ou declaração de princípios, este livro vale, sobretudo, pela liberdade com que se coloca defronte ao fim: «O que foi tido por inesperado e imprevisível / talvez seja apenas a maneira de um todo / se descentrar / fugir à tarefa insanamente por nós mesmos exigida / à nossa pequena parte, já manchada de sangue, / sangue por rectas e curvas da coerência. / O sangue por um fio» (do último poema, intitulado Os órgãos vitais, p. 87). Não deixa de ser curioso que num tempo em que proliferam livros de memórias aos 30 anos, seja um autor na casa dos 60 a não se deixar prender ao passado com a nostalgia de quem sente já ter perdido tudo o que ainda não viveu. O Sangue Por Um Fio não se limita, pois, a inventariar uma vida aparentemente por um fio. Ele pega nos órgãos ainda vivos de um corpo presente e faz-lhes um exame anatómico sem preocupações formais, sem aquele tipo de cuidados exigido pelos corpos enfermos. Uma boa surpresa, portanto.