quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

DUAS POETAS HISPANO-AMERICANAS

    Eram contemporâneas, falavam a mesma língua, tiveram sortes e destinos diferentes, pisaram as mesas terras, morreram no mesmo ano. Por cá, o livro de uma não mereceu a mesma atenção que foi dada ao livro da outra. Razões haverá para que assim seja. Que as descortine quem tiver interesse. Comecemos pela costa-riquenha Eunice Odio (n. 1919 – m. 1974), filha ilegítima de um pai que apenas conhecerá em idade adulta. Perdeu a mãe com 20 anos, casando-se pela primeira vez nesse mesmo ano de 1939. O matrimónio durou 2 anos. Começou a publicar na imprensa sob o pseudónimo de Catalina Mariel. Em 1947 ganhou o Concurso Centroamericano de Poesía com o livro Os Elementos Terrestres. Publicado originalmente em 1948, chega agora à língua portuguesa através de uma cuidada tradução de Luiza Nilo Nunes.

   A edição portuguesa de Os Elementos Terrestres e outros poemas (Anjo Terrível, Setembro de 2020) beneficia ainda de uma elaborada introdução da tradutora e de sete poemas em apêndice, através dos quais se torna mais perceptível a extensão do universo desta poética enigmática. A autora de Territorio del alba (1953) viajou muito por toda a América Latina, adquirindo a certa altura nacionalidade guatemalteca. Problemas pessoais empurram-na para o México, onde trabalhou como crítica de arte, tradutora, publicando, além de poesia, contos e ensaios. Nacionalizou-se mexicana em 1962. Esteve casada com o pintor Rodolfo Zanabria (n. 1927 – m. 2004), que prometeu levá-la para Paris quando para lá foi viver. Promessa nunca cumprida. Ao afastamento e silêncio do pintor correspondeu a ruína da poeta. Conta Luiza Nilo Nunes: «A 23 de Março de 1974, sem filhos ou herdeiros, mas com três livros de poesia publicados que alterariam para sempre o panorama da literatura em língua espanhola, o seu cadáver é descoberto em estado de putrefacção na banheira da casa em que reside» (p. 9).
   Apesar de haver privado com muita gente bem colocada no meio literário do seu tempo, o abandono e o isolamento, aliados a um temperamento avesso a concessões de carácter e a posições políticas calculistas, acabaram por remeter o seu trabalho para um injustificável silêncio. O mais fácil é encaixar a sua poesia no domínio de uma estética mística, altamente devedora, no livro de estreia, das imagens e dos símbolos herdados dos textos bíblicos. As epígrafes assim o reforçam, tal como a estrutura de um livro que começa enquanto invocação, desenvolve-se à maneira de uma oração e termina com uma convocação para a incessável busca e procura do sublime. Esta incessibilidade, típica daquele para quem a fé se manifesta mais pela ausência do que pela presença, é uma das marcas fortes da poesia de Eunice Odio. A metafísica dos seus poemas acarreta o estigma de uma necessidade física que se alimenta da sua própria insatisfação. A busca da poeta é a do ideal inalcançável, o qual se reflecte tanto no plano metafísico como no plano social. Vejam-se, a título de exemplo, os poemas Nuvem e paraíso, com a Guerra Civil Espanhola em pano de fundo, ou Essas Mulheres Perdidas, dedicado ao cubano Nicoás Guillén:
 
ESSAS MULHERES PERDIDAS
 
A Nicolás Guillén, enorme poeta e grande amigo.
 
Essa mulher que vimos
colada à luz,
a apropriar-se dos faróis,
de olhos caídos nos passeios,
 
Senhora rígida e solitária,
 
E há de morrer
um dia destes.
 
Disse-me em segredo
aquele  senhor que se alimenta de luminosos
e esfumados diminutivos
pelas salas da fluoroscopia.
 
Já a tinha visto uma vez;
a esquivar-se
entre vozes e corpos
masculinos,
 
Senhora rígida e solitária na penumbra,
limpa de claras presenças,
perdendo-se nos braços fundos
dos prostíbulos,
sedutora de matizes duvidosas,
 
enlutado de trevos
o corpo um inteiro gomo
de ângulos noturnos,
 
marchando atrás das vozes violentas e ásperas
entre ervas doutrinárias
e displicentes caçadas,
 
e agora há de morrer,
em declínio,
tenaz na sua morte,
aquático o passo
interrompido e pesado,
 
Senhora rígida e solitária.
Limpa de claras presenças.
 
   O Amado invocado nos oito poemas longos de Os Elementos Terrestres mostra-se mais pela ausência do que pela presença: «Ah, / se ao menos eu um dia te encontrasse / tranquilamente ao redor da minha morte, / despertando com teu amor os meus ouvidos / onde as águas desaguam / sem retorno…» (p. 41). É a ausência que leva a uma experiência limite do desejo e da língua, a qual se reconfigura em metáforas indecifráveis, herméticas, que tentam comunicar com o incomunicável, pronunciando o impronunciável: «Abre os ouvidos e ouve esta canção / que é como a semente das estações» (p. 85). Estes poemas estão, pois, de acordo com a ideia da poesia enquanto dilatação dos códigos linguísticos que determinam a comunicação entre os homens. O seu aparente hermetismo resulta de uma tentativa de contacto com o indizível. A comunicação, neste caso, cede a outras forças, não perdendo porém o elo com a realidade terrestre.

Diferente no estilo, a mexicana Rosario Castellanos (n. 1925 – m. 1974) partilha com Eunice Odio uma experiência problemática da religiosidade. Formada em Filosofia, transportou para a sua poesia muitas das questões fundadoras da reflexão filosófica. Fá-lo, no entanto, com espontaneidade e vigor impressionantes, a ponto de por vezes os seus poemas se assemelharem a manifestos. Nascida no seio de uma família abastada, cresceu num ambiente rural marcado pela exploração dos indígenas. Alguns dos poemas nesta antologia seleccionada e traduzida por Jorge Melícias, tais como Agonia fora do muro ou Memorial de Tlatelolco, denotam uma consciência social bastante apurada nesta matéria. Na biografia reproduzida nas badanas refere-se que depois de ter ficado órfã, aos 22 anos, «doou aos índios mexicanos as terras que herdara». José Rui Teixeira, autor do prefácio, sublinha igualmente a sua revolta contra a condição feminina no seu tempo.
   Casou em 1958, sendo mãe passados 4 anos, «depois de dolorosas perdas — abortos e a morte de uma filha recém-nascida, a quem dedicará Lívida luz (1960)» (p. 5). Divorciou-se em 1971, antes de partir para Telavive como embaixadora do México em Israel. Aí faleceu, na casa onde residia, presume-se que electrocutada na sequência de um acidente doméstico. Há quem tenha colocado a hipótese de suicídio, mas não há evidências que permitam confirmar a tese. De referir também a docência na National Autonomous University of Mexico, onde se formou, a associação ao National Indigenous Institute, para o qual escrevia peças que eram representadas em regiões remotas para promover a literacia junto dos índios, a colaboração com o jornal Excélsior, a infidelidade de Ricardo Guerra Tejada, filósofo com quem casou e de quem teve um filho, as depressões, uma intensa dedicação às chamadas causas feministas. O mais correcto seria falar de direitos das mulheres. Vejam-se poemas excepcionais tais como Kinsey Report ou mesmo o Auto-retrato onde começa por afirmar, com refinado sarcasmo: «Sou uma senhora: tratamento / difícil de obter, no meu caso, e mais útil / para rivalizar com os demais que um título / adicionado ao meu nome por qualquer academia» (p. 169).
   Na obra de Rosario Castellanos encontramos poemas longos, sequências extensas, e pequenos poemas incisivos como gumes: «Não comas nunca nada / que não sejas capaz de digerir, / que não sejas capaz de vomitar» (p. 199). O tom elegíaco que atravessa esta antologia, confirmado inclusive pelos títulos de alguns poemas  — Elegias do fantasma amado, Falsa elegia, Elegia (1969), Elegia (1972) —, não deve distrair-nos da ironia subtil com que alguns temas são abordados. Não obstante, o discurso espantosamente desabrido em matérias de carácter interventivo contrasta com a gravidade, até alguma solenidade, quando o território de reflexão é o do sagrado e da relação problemática do homem com Deus. Em Anotações para uma profissão de fé, extenso poema onde se desenha uma cosmogonia pessoal, essa problematização evidencia-se pelo contraste da gravidade dos assuntos com o tratamento irónico que lhes é dado. À pergunta sobre o que fazemos aqui, os dois versos finais respondem com extrema clareza: «neste continente que agoniza / bem podemos plantar uma esperança» (p. 31). Abordagem semelhante se reconhece em peças fundamentais como Muro de lamentações, Lamento de Dido, Diálogo do Sábio e do Seu Discípulo, Monólogo da estrangeira.
   O lamento que acompanha a retórica do poema não o encerra, abrindo-se com palavras penetrantes, agudas, por detrás das quais se esconde e desponta a consciência de um corpo efémero, de uma vida passageira, de uma História estigmatizada pela ruína. A solidão, por vezes a loucura, são nomes que matizam um sentimento de desterro e, tal como sucedia em Eunice Odio, de desencontro com o sagrado: «Procuro entre as coisas a Tua pegada e não a encontro» (p. 49). A este desencontro não corresponde uma negação, mas sim uma forma de deísmo que transforma o encontro com Deus num encontro consigo mesmo. Se há um movimento ascensional em alguns poemas de Rosario Castellanos, esse mesmo movimento sofre de um enraizamento na terra que aumenta a dúvida e adensa o mistério da vida. Em certo sentido, podemos dizer que esta é uma poesia existencial. Mas é importante que tenhamos presente quanto dela se perde ao ser rotulada:
 
O OUTRO
 
Porquê pronunciar nomes de deuses, astros,
espumas de um oceano invisível,
pólenes dos jardins mais remotos?
Se nos dói a vida, se cada dia chega
rasgando as entranhas, se cada noite cai
convulsa, assassinada.
Se nos dói a dor de alguém, de um homem
que não conhecemos, mas que está
sempre presente e é a vítima
e o inimigo e o amor e tudo
o que nos falta para sermos inteiros.
Nunca digas que é tua a escuridão,
não bebas de um trago a alegria.
Olha à tua volta: há outro, há sempre outro.
O que ele respira é o que a ti te asfixia,
o que come é a tua fome.
Morre com a metade mais pura da tua morte.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

HORAS DE TÉDIO

Em carta a Alexandre Pinheiro Torres, datada de 1958, Jorge de Sena desculpa-se por não ter incluído a mulher daquele nas “Líricas Portuguesas” (3.ª série): «Eu não incluí a Sua Esposa na antologia. Por forma alguma a considero destituída de mérito, e há na antologia uma meia dúzia de poetas (ou mais…) que, em minha opinião, lhe são inferiores». Segue-se a explanação do método e da contabilidade que deixaram Leonor de Almeida de fora. Já antes, agradecendo a intenção de Pinheiro Torres escrever sobre a sua obra, Jorge de Sena convida-o a integrar a antologia dando conta da tal contabilidade. A uma primeira lista de nomes pediu sugestões sobre ausências. Vários foram os que sugeriram Pinheiro Torres. «Referiu-o também o Amaro, mas esse referia “tout le monde et son père”», diz Jorge de Sena. Portanto, Pinheiro Torres entrou nas “Líricas” e a “Sua Esposa” ficou de fora. No entanto, o apontamento sobre Luís Amaro é o que tem mais graça. A “Esposa” ficou de fora porque não teve tantos votos, ainda que, presumimos, tenha contado com o voto do bom e generoso Amaro. Lembrei-me logo de uma carta de Sophia a Jorge de Sena, em que se refere a Alexandre O’Neill nos seguintes termos: «Mas como o O’Neill é fraco talvez mude de opinião quando lhe convier!» Estas avaliações do carácter de terceiros na República das Letras, a expressão é do autor de “Sinais de Fogo”, é altamente pedagógica, revelam mais sobre quem as profere do que sobre os visados. Assim temos que o mesmo O’Neill fraco, em carta a Pinheiro Torres datada de 1952, se refere ao (ex-)camarada Cesariny nestes modos: «Ignorava a calúniazeca do Cesariny — mas não resisto a chamar-lhe pela primeira vez um evidente filho da puta». Isto deu-me uma ideia para 2021, compilar em dossiers resistentes a naufrágios as centenas de e-mails que fui recebendo ao longo dos últimos 17 anos (desde que comecei a escrever sobre livros em weblogs). Ainda hei-de fazer mealheiro à conta dessas horas de tédio.

UM POEMA DE ROSARIO CASTELLANOS


AGONIA FORA DO MURO

Olho as ferramentas,
o mundo que os homens fazem, onde se afadigam,
suam, parem, coabitam.

O corpo dos homens, prensado pelos dias,
a sua noite de ronco e de esperneios
e as encruzilhadas em que se reconhecem.

Há cegueira e a fome ilumina-os
e a necessidade, mais dura que metais.

Sem orgulho (o que é o orgulho? Uma vértebra
que a espécie ainda não produz?)
os homens roubam, mentem,
como predadores farejam, devoram
e disputam a outro a carcaça.

E quando furtam, quando dissimulam
ou quando contornam uma lei ou quando
se aviltam, sorriem, 
entreabrem ligeiramente as pálpebras, contemplam
o vazio que se abre nas suas entranhas
e entregam-se a um êxtase vegetal, inumano.

Eu sou de outra margem, de outro lado,
sou dos que não sabem nem tirar nem dar,
gente para quem partilhar é impossível.

Não te aproximes de mim, homem que fazes o mundo,
deixa-me, não é preciso que me mates.
Eu sou dos que morrem sós, dos que morrem
de algo pior que a vergonha.

Eu morro de olhar para ti e não perceber.


Rosario Castellanos, in Poemas Escolhidos, edição bilingue, tradução de Jorge Melícias, prefácio de José Rui Teixeira, Antígona, Junho de 2020, pp. 107-109.

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

ROMAIN (1962)

 


Levo bem no centro de mim o nome de um avô desconhecido. Morreu pouco depois de a minha irmã mais velha nascer. Somos nós o testamento que deixou, filhos de sua filha. Nada sei dele que não possa ser resumido a meia dúzia de fotografias. Anos 60 portugueses numa aldeia ribatejana que, naquele tempo, ainda fazia parte da freguesia onde o poeta Ruy Belo veio ao mundo em 1933. Voltemos ao meu avô, 20 anos mais velho, analfabeto, que eu saiba poeta de sílabas contadas ao ritmo de cavadelas. Essa coisa de haver poesia nas enxadas é relativa, mas não nos percamos do essencial. A poesia não é para aqui chamada. O meu avô fantasma. Encontro-o no casamento de minha mãe, já muito doente, com um sorriso no rosto carregado de meio século. A noiva, com 18 anos mal feitos, está de branco como manda a tradição. Não se nota o útero corrompido pela paixão. Estão num curral, quase consigo sentir o cheiro a palha húmida. Contava minha avó que ouviu a burra chorar quando o dono suspirou pela última vez. A escada de mão encostada à parede caiada é o único adereço decorativo. Noutra imagem, parece apoiar-se numa camilha dignamente ornamentada. Tivesse uma espingarda ou um coldre dir-se-ia pioneiro do Velho Oeste. Nem pioneiro, nem espingarda, só velho e um pouco a leste. Que será feito dele em mim, pergunto-me embalado pela melodia delico-doce de Jim Hall. Talvez uma certa propensão para a doença, o bicho que medra em silêncio até se tornar intolerável.

Nota: a fotografia ao alto é de Toni Frissell (Antoinette Frissell Bacon) e serviu de capa a Undercurrent, álbum que resultou da colaboração do pianista Bill Evans com o guitarrista Jim Hall. 

BEIJOS E BARREIRAS LINGUÍSTICAS


 

 
   Inalo, em degustação demorada, as ondas invisíveis que flutuam do teu cheiro. Tudo disforme, nos lençóis amarrotados e no calor do amanhecer feroz
   — contrastante com a calmaria do Soul de fundo
   [que também chega em ondas, da telefonia, baixinho,
   “olha os vizinhos!”].
 
   Qual é o plano? Para onde fugimos hoje? Fundimo-nos com o sofá a devorar os mesmos episódios das mesmas séries com gargalhadas recicladas e beijos em entrevistas melosas às bochechas?
   (e os próprios beijos, quando encontram lábios nos lábios e não há televisão, olhos fechados e não vale espreitar)
   Vamos àquele restaurante dos betos onde nos cumprimentam sempre em inglês à entrada? Navegam as ideias às duas e às três de cada vez, o Soul de fundo e a inveja dos vizinhos silenciosos que abrem as janelas de sobrolho franzido à espera de mais uns decibéis para decifrar o destino de hoje.
 
   Críticas à loiça num cruzar de olhares sem palavra alguma. Na cabeça ciranda a fala: — “viste bem este ‘design’ em que dão de comer à turistada?”,
   com vista para um grupo de alemães, na última mesa ao canto, a pedir mais canecas e a avermelhar os rostos no sol e no álcool.
   A areia que vão largando no chão do restaurante é compensada com gorjetas recheadas de vergonha e uma pitada de “gracias” pelo caminho com uns Rs inglesados e sorrisos falsos a ripostar com “obrigado” de secura de Verão, mas hostilidade de carneiro porque “está toda a gente a ver e a cliente tem sempre razão”
   [é pena o dicionário do cliente não ter a mesma razão que o dono quando a península fala toda o mesmo, pior, quando os “latinos” têm um instinto poliglota que serve de incentivo extra à preguiça de quem veio de visita e está offline para saber agradecer como os locals. Mas enfim, deixaram good tips!].
 
Manuel Seatra (n. 1995), in Raiz Densa no Pátio da Garganta (Douda Correria, Fevereiro de 2020). Estreou-se com Dias de Folga (Setembro, 2018). Os poemas em prosa de Raiz Densa no Pátio da Garganta têm Lisboa como palco e o quotidiano na capital em pano de fundo. Das três partes que compõem o livro, a primeira é a mais extensa. Na segunda parte a memória intromete-se para recuperar cenários da infância, sempre num plano onde sobressai a vida doméstica enquanto cenário onde os sonhos e as utopias vão sendo desmentidos pela realidade: «A cama está a afundar e não tenho tempo para mais imagéticas alagadas em metáforas cansativas e desnecessárias» (p. 38). Tudo vale no terreno do poema, de um passeio pela Almirante Reis a uma ida ao dentista, o dia-a-dia cumpre-se num registo irónico enxertado pela coloquialidade descontraída de quem assiste ao desenrolar das horas. Uma névoa de nostalgia assalta, por vezes, o discurso, mas logo a banalidade dos dias desperta o sujeito para o que se impõe como necessidade: «É quando penso sobre o que quero dizer que me lembro do que vou pensando sem o dizer» (p. 51). As contradições do mundo moderno têm neste nó desatado da garganta um retrato fiel.  

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

SING, SING, SING (1936)

 


Conheci mal a irmã de meu pai. Chamava-se Lurdes, dizem-me que foi comunista até ter começado a votar Cavaco. Quando faleceu, voluntariei-me para transportar um tocheiro entre a igreja e a cova onde foi sepultada. Minha mãe confessou-me, à época, que teve de conter o riso ao ver-me de casula e estola. O ateísmo que me desviou dos caminhos de Deus não foi suficiente para me furtar a esse gesto mínimo por uma tia tão distante na vida como na morte. Tenho privado mais com a irmã de minha mãe, a tia Elvira a quem ofereci os únicos policiais que comprei na vida. Este ano optei por Amin Maalouf, uma narrativa alegadamente histórica sobre o poeta Omar Khayyam. Quando penso nas minhas tias vem-me à memória a música de Benny Goodman. Não sei porquê, suponho que nunca as tenha visto dançar. Também me lembro de militares regressados de guerras impiedosas a vibrar com a voz de Martha Tilton. E de um homem que vi há dias no café da aldeia onde os meus pais nasceram, a cara chapada de Louis Prima, a reclamar com os forasteiros, chegados da cidade, que jamais saberão o que é um dia na província se nunca enterrarem as botas na lama para ficarem com o cheiro a estrume entranhado na pele e uma enorme vontade de beber para se esquecerem de onde estão. E lembro-me das mulheres que desbaratam horas de vida ao telefone a inventar desculpas para não terem atendido quando era preciso que atendessem. E digo a mim próprio que só não perdoo quem se serve de terceiros para justificar o calculismo com que aceita ou deixa de aceitar um convite para dançar.

domingo, 27 de dezembro de 2020

TATUAGENS DE LUZ

Leonor da Conceição Pinto de Almeida, sabemo-lo agora, nasceu a 25 de Abril de 1909. Quando, em Janeiro e Fevereiro de 2016, escrevi sobre ela aqui e aqui, eram poucos os dados biográficos disponíveis, vagas as informações, erróneos alguns dos apontamentos que julgávamos credíveis. Cláudia Clemente (n. 1970), autora de Tatuagens de Luz — Para uma imagem de Leonor de Almeida (Documenta, Agosto de 2020), surgiu na caixa de comentários de um desses posts à procura de informações. Perseguia então o rasto de uma poeta misteriosamente desaparecida, depois de haver impressionado nas décadas de 1950 e 1960 um meio literário predominantemente masculino. Mais do que biografia, o livro de Cláudia Clemente é sobre a tentativa de reconstruir uma história de vida resgatando da obscuridade uma figura ímpar das letras portuguesas. A investigação terá começado no dia 29 de Janeiro de 2016, motivada pela perda da mãe e a herança de um quadro de Moniz Pereira (n. 1920 – m. 1989) que teria sido vendido à avó da autora por uma esteticista que fora companheira de Alexandre Pinheiro Torres (n. 1923 – m. 1999). Leonor de Almeida, cuja estreia em 1947 com Caminhos Frios fora promovida como grande revelação da poesia portuguesa, era a esteticista em causa. Além deste fulgurante livro de estreia, foi autora de mais três obras — Luz do Fim (1950), Rapto (1953) e Terceira Asa (1960) —, o que lhe valeu ser incluída em antologias de relevo, referenciada em diversos artigos na imprensa de então, mencionada por vários dos seus pares como uma das vozes mais significativas da poesia portuguesa. Pouco depois do poemário derradeiro, silenciou-se, desapareceu, não mais se soube dela. Numa entrevista ao Diário do Minho, datada de Janeiro de 1947, percebemos estar diante de uma mulher verdadeiramente invulgar para o Portugal daquele tempo. Refere-se a Verlaine e Rimbaud como poetas de eleição, cita Taine, inventaria autores predilectos: Maurois, Ludwig, Maugham, Romain Rolland. Raro, num país onde o analfabetismo grassava e as mulheres eram educadas para ficar em casa a cuidar da família. De um primeiro casamento em 1930, a poeta de Caminhos Frios teve um filho em 1931. Não se quedou entre as paredes do lar. Frequentou o curso de Enfermeiras-Visitadoras de Higiene entre 1932 e 1933, ficando aprovada com Distinção. Divorciou-se em 1936. Há registo de se haver inscrito, em 1950, na Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Voltou a casar-se em 1951 com um homem 14 anos mais novo, ao que parece explicador do filho, o poeta, crítico literário e historiador Alexandre Pinheiro Torres (n. 1923 - m. 1999). O segundo casamento durou 10 anos, tendo sido a causa do divórcio o adultério do marido. À traição correspondeu o silenciamento da poeta. No Balanço da Poesia em 1950, publicado em A Serpente, Leonor de Almeida e Alexandre Pinheiro Torres, que se estreara em 1950 com Novo Génesis, surgem lado a lado: «Alexandre traduzia, dava aulas, e começou a enveredar pela crítica literária; Leonor era enfermeira e, segundo informação contida na edição de 1959 da Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, de Maria Alberta Menéres e Ernesto Melo e Castro, era também «proprietária de um Instituto de Beleza e Laboratório de Cosmética»» (p. 166). Chegaram a trabalhar conjuntamente em traduções e não é de todo desprovido de sentido que tenha sido Leonor a incentivar o jovem Alexandre para a poesia. Mais tarde, Egito Gonçalves (n. 1920 – m. 2001), editor de A Serpente, amigo de ambos, terá tentado recuperar a obra de Leonor do silenciamento em que caíra. Em vão. A viver em Copenhaga, a poeta escreve a João Gaspar Simões (n. 1903 – m. 1987) em Fevereiro de 1961: «Vivo à parte, isolada, não bem por temperamento, mas porque um destino de frustrações e desaires sentimentais me condicionou a uma soledade que se concilia perfeitamente com os meus complexos. Ignoro, portanto, bastante do que os poetas sentem perante uma crítica» (p. 184). As páginas finais de Tatuagens de Luz são dolorosas, são páginas de perda e de abandono, de isolamento, de um apagamento que não teve em vista apenas o afastamento da vida literária. Uma inundação levou-lhe pertences, eventualmente um original, a tristeza levou-lhe o resto. Leonor de Almeida mudou-se para Lisboa, «usava peruca e escondia-se sob um nome falso» (p. 251), D. Márcia, trabalhava como esteticista. Morreu só, em 1983, rodeada de papéis que foram deitados no lixo depois de os bombeiros darem com o cadáver de «Leonor deitada sobre a cama, segurando o telefone preto. O auscultador estava fora do descanso, na sua mão» (p. 253). Deixemos os pormenores para quem venha a ler o belíssimo livro de Cláudia Clemente, enriquecido com inúmeras fotografias, reproduções de artigos de imprensa, excertos de cartas, poemas da autora. Tatuagens de Luz excede aquilo a que se propõe, libertando não só do esquecimento uma extraordinária poeta, como permitindo que a luz ilumine esse mistério da escrita enquanto ponto de encontro com o sentido da nossa existência. A lição que retiramos do caso Leonor de Almeida relaciona-se com o poder da palavra impressa. Há qualquer coisa de mágico nessa reunião com o outro através das palavras. É como se estas fossem os genes de uma memória que imita o destino das marés. 

sábado, 26 de dezembro de 2020

HIPNOSIS (1967)


 

Terá sido pelo ano em que nasci que o trombonista Grachan Moncur III e o tenor Archie Shepp gravaram a versão mais eloquente que alguma vez ouvi de Hipnosis, composta pelo primeiro, salvo erro, para o quinteto de Jackie McLean. Lembrei-me disto ao visitar o lugar onde há anos enterrei o último dos meus cães, dezoito anos de vida partilhada. A pedra que deixei a sinalizar o lugar deslocou-se ligeiramente, as terras aluíram abrindo uma valeta ladeada por trevos e outras ervas daninhas. Encarei a vegetação com prudência, receando deparar com a manta onde deixei embrulhado o corpo do animal. Na verdade, não era a hipótese de entrever a manta o que mais me afligia. Era todo aquele verde. E nem um trevo de quatro folhas para me distrair da morte.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

UM AFORISMO DE MANUEL DE FREITAS

 


BICICLETAS

à memória de Joana Dinis

Pedalar — e, se isto vos parecer retórico, faço questão de vos enviar ramos de jacintos, rosas de Santa Teresinha, essas coisas — é, por vezes, a única solução. Desenganados, fomos ver cegonhas, um falcão menos tímido, papoilas cujo rubor nenhum Monet fixou. Havia sobretudo vento, nêsperas ainda verdes, e pessoas que tão próximas ou distantes vão morrendo.

    Pedalar contra o vento não é fácil.

 Manuel de Freitas, in 769118, Averno, Novembro de 2020, p. 52.

O PALHINHAS & CA.

 


O Palhinhas & Ca. 
colecção periódicos locais/mensais
número 66
directório colectivo: José de Matos-Cruz, Joaquim Jordão, António Viana, Álvaro Biscaia
Dezembro de 2020
 
 
Aquilo que aparenta ser mais do que realmente é, p. 12.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

AUGUST MOON (1958)

 


Quando me disseste que Aspects era um dos teus álbuns preferidos, eu não quis acreditar. Tão ligeiro, festivo até, e tu tão dada a elegias. Ainda por cima Benny Carter morreu de velho, desonrando não só a história do jazz como a imagem que fazemos dos génios: vagabundos, drogados, suicidas, estrelas cadentes. Explicaste-me que se tratava de um calendário, cada tema remetia para um mês do ano. Agosto era o teu mês de eleição. Regresso amiúde ao tema, tentando descobrir-lhe no fraseado oriental um pouco de queixume, um lamento, o pranto de quem espera e não alcança. Não encontro senão um céu com todas as constelações à mostra, e a lua tão cheia que nos parece ser possível tocá-la. Talvez seja assim a alegria do teu álbum preferido, tão cheia que nos parece ser possível alcançá-la.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

PARA A MINHA IRMÃ LEONOR NO DIA DOS SEUS 50 ANOS


 
 
A gente mordia amigos imaginários
no pátio da casa antiga
à sombra de uma pereira
que eu trepava para fingir que voava
E no carro montado com cadeiras de praia
John e Jenny seguiam viagem
até ao paraíso dos sonhos
 
A gente escondia-se no sótão
a perseguir fantasmas
Isto foi antes de os mendigos
trilharem os caminhos da liberdade
e dos fantasmas ganharem rosto
para que finalmente percebêssemos
quão real era o medo de falhar
 
Não estar à altura significava
descer à terra para ser perseguido
por gente que não era a gente
gente corrosiva como larva na fruta
Deixa lá isso, um dia serás Jenny
e eu estarei lá para estender
a passadeira vermelha dos sonhos
 
Se bem me recordo o futuro
vem sendo um campo fértil
em glossolalias de coração aberto
e a liberdade demora-se no horizonte
Mesmo quando na cidade atropelávamos
o silêncio das salas de cinema
com o espanto de uma descoberta
 
que mal sabíamos estar para durar
onde dentro de cada um de nós
relutam as feridas do saber
Um pouco como esta dor no braço
que inda hoje sinto ao pensar-te
por me haverem dito ter sido
o teu primeiro cumprimento
 
Ao que parece é comum entre irmãos
o mais velho morder o mais novo
quando ambos mal nascidos
desconhecem os caminhos
que poderão levar ao paraíso dos sonhos
Esta dor é a felicidade que sorri
enquanto a viagem perdura

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

MIMINHO

Quitéria ofereceu um par de meias turcas a Alzira, Alzira deu as meias a Constância, Constância ofereceu as mesmíssimas meias a Dalila, Dalila não podia esquecer-se de Esmeralda e aproveitou as meias que lhe tinham sido oferecidas por Constância para as dar de presente a Florisbela, já esta brindou a amizade que tem por Samara dando-lhe as meias que recebeu das mãos de Constância, Samara, por sua vez, ofereceu as meias a Tâmara, que as deu de presente a Wladimir, o pé descalço, que sem perceber por que lhe davam aquelas meias as ofereceu a Natasha, que não quis esquecer-se de Tâmara, que as ofereceu à Samara, que as deu a Constância, que as ofereceu à Florisbela, que as ofertou com muito amor à Esmeralda, que não podia deixar de dar qualquer coisa a Dalila, que as fez chegar com muito amor a Alzira, que bateu à porta de Quitéria e disse "este ano é assim, temos que ser uns para os outros", enquanto devolvia à procedência, com muito amor, carinho e ternura, uma simples lembrança, um miminho, o par de meias turcas.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

MASSACRE

As imagens do massacre na Quinta da Torre Bela (540 criaturas chacinadas para nada, por nada) são daquelas coisas que me fazem desconfiar de uma ideia de desenvolvimento da humanidade. Lembro-me dos "pioneiros" entretidos a disparar indiscriminadamente sobre manadas de búfalos, sob o olhar incrédulo e melancólico das tribos ameríndias. Estava tudo ao contrário, está tudo ao contrário. Somos neste momento vítimas de uma pandemia que tem na sua origem a destruição humana de habitats selvagens. As bestas que se entretêm a disparar insustentavelmente sobre javalis e veados confinados só têm um apelido: criminosos.

domingo, 20 de dezembro de 2020

LIVRO NOVO

Quitéria deu hoje por terminado o seu primeiro romance. Vai chamar-se "O Crítico Literário de Maly Trostenets". Escapa, deste modo, aos clichés sobre Auschwitz, optando por um campo na Bielorrússia e uma personagem que encarna, ao mesmo tempo e com a mesma intensidade, os papéis de vítima e de carrasco.

sábado, 19 de dezembro de 2020

MOX NIX (1958)

 

(Fotografia de Julio Mitchel)

Concluída a leitura, pousou o livro na mesa-de-cabeceira e fumou um cigarro à janela. Um bando de pombos disputava com meia dúzia de gaivotas a côdea de um pão. A tarde findava em tons claros, o sol a pôr-se do lado direito e os carros subindo e descendo a avenida com desapego. A personagem do livro morrera só, fechada num quarto, rodeada de papéis que no próprio dia do óbito foram largados num contentor para reciclagem. Presume-se que entre os papéis estivesse um molho de cartas de amor. Tudo tem a sua validade. Ainda assim, acordado da nostalgia parva pelo grasnar insuportável das gaivotas, fixou-se no horizonte a pensar que arte poderá conceder ao futuro uma multidão imersa em ecrãs e monitores. Que biografias serão escritas, que histórias serão contadas por escritores cuja maior aventura do dia é subir e descer uma avenida com desapego?

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

PROJECTOS DA QUITÉRIA PARA 2021

Enviar um postal ao economista Pedro Passos Coelho com o dito de Heráclito: "Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio... pois na segunda vez o rio já não é o mesmo, nem tão pouco o homem!" Escrever uma peça para teatro com o título "Maria de Fátima e a Beleza de Matar Bonifácios". Oferecer um Coelho à Acácia. Meter um bocadinho de Ventura dentro de Portas. Dar os parabéns a todos os amigos no Facebook, incluindo cavacos (os chamados amigos-múmia, só se manifestam de quando em vez para nos convencerem de que existem). Lindo, ó, que querido, ah! ❤ Pedir amizade ao engenheiro António Costa Silva. Desamigar o Henrique Manuel Bento Fialho. Descobrir o dealer do João Adelino Faria.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

TRÊS CLIQUES À ESQUERDA / CANCRO

 

O que pode a literatura fazer pelo mundo? Não é fácil responder a uma questão destas. Em tempos, a literatura ofereceu explicações do mundo. Ao mesmo tempo que fixou mitologias e cosmogonias, ela serviu para transmitir a lei, foi a base a partir da qual civilizações diversas se estruturaram. Veio depois o tempo dessa mesma literatura se amotinar contra as estruturas. Já não estava em causa servir o sistema, mas registar o pensamento e as suas contradições. A relativamente recente massificação do ensino, da leitura, do acesso aos livros, acabou por subverter este papel sublevador integrando a literatura no sistema, transformando-a em mercadoria. O que hoje se apresenta diante de nós é um labirinto sem saída. Falamos da literatura enquanto lugar de resistência, mas resistência a quê? Suponho que ao falarmos de resistência estejamos a referir-nos às armadilhas de um sistema que tende a integrar na sua máquina de padronizar tudo quanto se lhe oponha. As estratégias de aculturação colonialista não terminaram com a extinção das colónias, mantêm-se vivas no modo como as forças no poder atacam o pensamento crítico privilegiando a narrativa dos consensos. O resultado é uma amorfia generalizada. O indivíduo que há no cidadão tende a desaparecer, dando lugar ao consumidor que se procura seduzir. É preciso proteger o consumidor, daí que o sistema coloque à disposição um livro de reclamações cujo efeito imediato é amenizar a raiva daquele que se sente mal servido.
   A sacralização do consumismo faz de cada um de nós, quotidianamente e em proporções similares, pequenos senhores e escravos voluntários. As redes sociais fomentaram esta perversidade de um modo surpreendente, promovendo os tiranetes que dentro de cada um de nós praticam a censura manifestando ódio à censura. Somos senhores do nosso território bloqueando quem se aproxima de uma forma que nos desagrade, somos escravos voluntários aceitando a discriminação higienista da máquina que alimentamos com os nossos conteúdos. Isto não é assim apenas nas redes sociais, onde o clima de guerrilha, apesar de tudo, tem o mérito de não entupir as urgências hospitalares. Já não estamos tão certos quanto ao contributo que possam vir a ter para o incremento da psiquiatria.
   Afastando o cinismo e a ironia dos comentários, a verdade é que a reconfiguração das relações interpessoais a que vimos assistindo traz por arrasto um acriticismo atroz. E a esse acritiscismo corresponde uma total incapacidade de dialogar que não seja na base redutora do elogio pateta, do emoji inconsequente, da inacção. Toda a conversa antecedente serviu apenas para nos trazer aqui, a esta palavra: inacção. Podíamos dizer inércia, indolência, mas escolhemos inacção por nos parecer mais conforme com esta deslocação paulatina da rua para a rede. Aqui o ruído — chamam-lhe, eufemisticamente, populismo — sairá sempre vencedor, pois este alimenta-se da absoluta ausência de literatura, a que leva à acção, a que surge de um conflito vigoroso e de um confronto continuado com os paradigmas.
   Tudo isto nos leva a olhar com admiração para um livro que junta a grega Katerina Gógou (n. 1940 – m. 1993) e o inglês Sean Bonney (n. 1969 – m. 2019), dois escritores de gerações diversas, oriundos de países com culturas distintas, a escreverem em línguas diferentes, mas com um propósito muito bem definido de fazer da literatura algo mais do que estribo para montar o cavalo da bajulação. Quando publicou o primeiro livro, em 1978, Gógou tinha um passado como actriz. José Luís Costa, que agora traduziu para português Três cliques à esquerda, especula certeiramente que «se Katerina ainda por cá andasse, duvido que deixasse de gritar o facto de [o destino dos emigrantes] se ter tornado ainda mais terrível em 2020, ano em que se tornou política corriqueira do governo grego capturar migrantes e abandoná-los em alto-mar» (p. 14).
   O que pode a literatura fazer pelo mundo? Hoje, o pouco que pode, talvez seja agitar consciências no sentido de acordá-las do amorfismo em que espontaneamente mergulham. A prova de que as palavras “gritadas” em 1978 não perderam sentido é a leitura que delas fez Sean Bonney, por cá conhecido graças às traduções de Miguel Cardoso para a Douda Correria: Cartas Contra o Firmamento (2016) e A Nossa Morte (2020). Cancro, o livro que agora se junta a Três cliques à esquerda na cuidada edição da Barco Bêbado (Outubro de 2020, com desenhos de Gonçalo Pena), foi originalmente publicado em 2019 com o título Cancer: Poems after Katerina Gogou. A ideia de os reunir num só volume é excelente, mostra como se mantém enérgica a palavra passados mais de 40 anos sobre um livro que tudo levaria a crer datado.
   Eis outro preconceito que convém ultrapassar, a ideia de que uma literatura socialmente comprometida, engajada ou libertária (haverá diferença?), uma literatura empenhada no diagnóstico das doenças sociais, políticas, culturais, religiosas, uma literatura libertadora e, por isso mesmo, transformadora, é preciso ultrapassar, dizia, o preconceito de que uma literatura de acção acaba inevitavelmente ultrapassada pelas circunstâncias. Porventura traumatizados pelas heranças neo-realista e surrealista, os leitores portugueses têm aqui uma boa oportunidade de tratar traumas entendendo que para lá do foguetório idolátrico há sempre nas circunstâncias algo que perdura ao longo dos tempos: o domínio de uns sobre outros. Ora, é contra a humilhação infligida por quem domina que esta literatura persiste.
   Os primeiros versos de Katerina Gógou são claros nesse propósito de nos transportarem para a rua sem necessidade de decorar o cenário: «A nossa vida é a Rua Patissíon. / Detergente ROL que não polui o mar / e o Mitropanos entrou na nossa vida / depois levou-o a Dexamení / como já tinha feito às boazudas. / Nós ali. / Esfomeados viajamos a vida inteira / o mesmo percurso. / Humilhação — solidão — desespero. E vice-versa» (p. 21). Podia ter sido escrito hoje. Dexamení, já agora, era zona de artistas. Gógou ficou pela Rua Patissíon, retratando becos imundos, emigrantes em busca do sonho americano, desempregados, «recrutas com as anónimas cabeças nuas», dirigindo-se ora à mãe, ora à filha, com mensagens de uma desesperança crescente. Pagou um preço alto. As feridas abertas sobressaem em poemas onde a loucura matiza um teatro de crueldade apenas comparável com aquele outrora dirigido por Antonin Artaud (n. 1896 – m. 1948).
   Cancro, o livro de Bonney, é uma espécie de palimpsesto grafado sobre os papiros de Gógou. Onde esta dizia «Os meus amigos são pássaros pretos e estendais / nas vossas mãos» (p. 34), aquele dirá «os meus amigos / são arames estendidos de cidade a cidade» (p. 109). Ambos dão vivas à 204.ª Internacional, dirigindo-se a um futuro onde desespero e resistência se misturam com palavras de ordem carregadas de fúria, Na gramática belicista de Sean Bonney há lugar para trocas de tiros, explosivos, granadas, espancamentos, revólveres, bombas caseiras, pancada, pólvora: «reinventa o tempo. reinventa a violência. depois / ouve, atira-te a esses cabrões como as fúrias» (p. 111). Podemos falar desta poesia como rastilho para a acção ou já de poesia enquanto acção, na certeza de ser uma náusea profunda o que a motiva: «Poesia, pra quê / Vem de “fazer” / Quer dizer “Vai e Faz” / Queria uma resposta / Dos imobilizados» (p. 151). Não obstante, o sonho tem nela um papel determinante.
   Há quem se acanhe perante tais manifestações de raiva, reduzindo o discurso à condição de panfleto, sabendo que pouco lhe resta senão aprender a conviver com o mar de destroços que entra dentro de casa sempre que nos ligamos ao mundo. Distraídos do que já em nós há de ruinoso, degustamos o peru de Natal enquanto na televisão o pivot de telejornal alerta os mais sensíveis para a violência das imagens. Eu prefiro o inconformismo deste “olhar panfletário” à indolência de um “olhar de soslaio”, por no primeiro ainda vislumbrar a hipótese de uma chama que no segundo é só fumo e cinza. Uma referência a Portugal, outra à China, num poema publicado em 1978, pode fazer mais por mim nestes dias do que centenas de livros actuais, carregados de fumo e de cinza, ansiosos de uma eternidade que o mais certo é vir a falhar-lhes:
 
Trabalho remunerado — capital
o imperialismo estádio último do capitalismo
a revolução traída
ah pá camarada a falta que nos fazes…
O tempo criou bicho
ensaios nucleares, frentes populares, bordéis
(até Portugal já perdemos)
superproduções dos católicos e da máfia
tornaram-se multinacionais, não nos deixam amar
camarada.
Bufos sobrem as nossas escadas
cães nos terrenos, sempre que lhes apetecer podem
baixar-nos as calças e foder-nos
coexistência pacífica e socialismo num país
ah pá camarada se soubesses que fardo pesado carregamos…
Os julgamentos de Moscovo, ninguém aguentou
ficaste totalmente só
o pessoal ficou cansado e deram-lhe em cima.
Já sabes, que hei-de dizer?
E depois colaboraram. Já sabes, que hei-de dizer?
Na China, Janeiro de 77, chacinam trabalhadores,
e isso chega cá como se fosse um poema do Mao
(a culpa é das pessoas repetem eles) ah pá camarada
porque não foste mais cuidadoso?
Por cá, o costume. As pessoas escondem-se nas suas tocas.
pêcês há dois, «revolucionários» hermafroditas são aos milhares.
Mas não te preocupes. Vamos conseguir.
É só que, às vezes, canso-me,
nem trabalho tenho, só consigo queixar-me
e é então que mais te sinto a falta
e que te dou nas orelhas por não teres sido mais cuidadoso
e que não tenho vergonha de chorar
nem de escrever poemas
camarada que não traíste
vivemos a barbárie.

Poema de Katerina Gógou.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

UM POEMA DE SEAN BONNEY

 


Três dias desperto não dou com a porta
já é de manhã e metade das pessoas aqui
ardem de alto a baixo. As restantes de pedra.

                       as suas coxas são as minhas coxas
Ele está atrás de mim. Caminha para mim
a cabeça dele rapada. Não há estrelas

Tomei comprimidos. Ele está nas escadas está. Tomei comprimidos.
Diz que é anarquista. Não percebe nada.
Escolhe coisas. Os homens que eu fodo e
ele é um bófia britânico ele é

           estou há três dias a sonhar
arranha as nossas caras e este lugar também. Fala
de ossos e fogo nos subúrbios.

           eu amo-O sim sim diz-me coisas
coisas que nunca tive

                        um espelho. Pois. Abre-o ao pontapé.
Não. Esta noite não saio. Nunca.
Não fales.        Não.           Não vai ficar tudo bem.



E então fantasmas chegam-se ao pé de nós, pedem-nos dinheiro para a bebida etc. Em troca, cortamos-lhes a água, envenenamos as ondas sonoras dentro das quais eles vivem. Eles esperam por nós em pontos nodais da cidade — os locais para os bloqueios que já discutimos vezes sem conta mas nunca pusemos em prática. Isto é uma nota acerca da circulação da forma-doença, daquilo que Marx tinha a dizer sobre o terceiro dia de sobriedade. É esse o significado do policiamento. Minúsculas sílabas engasgadas, um bloqueio ao que resta das nossas memórias. Sirenes por todo o lado.

"Aqui queimamos as bruxas. Aqui fodemos as putéfias."

Sean Bonney, in Cancro, trad. Miguel Cardoso, Barco Bêbado, Outubro de 2020, pp. 136-137.

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

UM POEMA DE KATERINA GÓGOU


   Bom dia doutor.
   Não.
   Não se levante. De resto, não tenho nada de grave.
O do costume.
Passe-me valium metaqualona triptizol — já sabe de cor —
Torne-me socializável
arrume-me, vá, junto dos seus semelhantes
junto aos seus bufos
foda-me se quiser
bonitas as gravuras na parede.
Aqui tem uma nota de mil
e dê-me lá a receita
porque já perdi a paciência meu paneleiro de merda
e dê por onde der vou rebentar.
Não. Não se levante doutor. Não é grave.
   Obrigada.
Muito bom dia.

Katerina Gógou, in Três Cliques à Esquerda, tradução de José Luís Costa, Barco Bêbado, Outubro de 2020, p. 53. 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

DAT DERE (1960)

 

Regresso às cartas, às fotografias, às infindáveis horas de conversa guardadas em pastas carregadas de ficheiros, regresso sem saber o que procuro ou se procuro alguma coisa. Pretenderei apenas renovar o stock de melancolia que me persegue para onde quer que vá. Tormentos maiores subsistem no mundo, como saber para sempre perdida a possibilidade de voltarmos a nos encontrar suspendendo a cidade que à nossa volta se mantém insuportavelmente frenética. Assim foi o primeiro abraço, tal era o desejo de estarmos juntos. Estarei a ser romântico? Lamechas? Quando o recordo, vejo os carros a circular de um lado para o outro. Não ouço os motores, as buzinas, as sirenes. Pressinto o movimento, mas escuto apenas a nossa respiração e o coração de um a bater no coração do outro. Foi assim, não foi?

domingo, 13 de dezembro de 2020

UM POEMA DE ERNESTINO MUHATE

 


omalucO da guerrA no relógiO da vida

. SILÊNCIO:são nove do relógio na parede suspensA .o ponteiro franzino do tempo gira para a direita da órbitA:- antes que eu me esqueça, é noite no que digO´ .a rebeldia fuma ganja no lombo do murO .oquarto, estáfrio e polutO .miro o berço incolor da esperançA .apalpo a bobina da máquina de costura que a avó me escolheu herdeirO: tristeza é o nomE .maconde de gemA . tomo a caçula nos braçoS. o cotovelo dorido, nesse excesso de zelo, falece-me o interruptor da luZ .o coelho dorme com olhos abertos.não há lume sem oxigénio para fósforO. insípida é a brisa da angústia, por isso, detenho-me no corredor da vivenda do TempO:- Deus,colega do bar, passa-me a quitação da vidA - masco o medo no beiçO.fito a nuca da fraquezA .ponho a baioneta na ilharga da firmezA .miro o carvão que se estatela com bojo pálido na vanguarda da estaçãO. não há sino floreado para a falênciA:pai, estou a morrer toda a mortE - varrandeam-se os cachimbos próximo do criadoR .a vida corre na cumplicidade do autocolismO . umfundíulojanelou-me o joelhO .cai-me o maxilar no chão da misériA .oolho, jorra sangue que desagua na ferrovia do desejO:- não morra, antes do sol, esperançA! há amor nos limítrofes da angústiA .ascigarras roem as garraS.os gatos circuncisam os ratoS .afagoa córnea da fraqueza. ergo os miolos, e pestanejO.já tenho o Centro na nuca dos trilhos .quem me dera voltar um diA:
eagorA?!
. são dez do pulso na vitrina do desejO .estendo-me na madeira da esperA .releio a independência na cartilha da promessA .busco o norte inflamado com os rins doridoS.ebelisco a minha paciência que cospe l+ingua no chuvisco da resistênciA:- pai, falta muitO?!não, estamos no átrio do cabO .bisbilhoteio a baíA .cavo fundo para o semprE .reformo a dor da esperançA .que merda da miopiA .projécteis e estrelas cintilam no perímetro do firmamentO .jásinto os cardíacos batimentos que me morremneste concerto de desconcertos. não há honestidade sem farnel. .háutensilios no relento da agoniA .o alguidar cicia para a lavrA .galosdesafinam os cacarejoS .petizes degustam a côdea das ramelaS: -senhor, tenha dó, e piedade, dos que partem sem adeuS -o quinino franze o rosto para a mão que lhe embrulhA .o médico reza o terço no umbral da latrinA .opárocomasturba-se na fé da pia baptismal. .semdeus. sem rosário, neste nosso casinholO .e,no mastro da ferrugem,rabisco a funestador do peitO: bíblia, e alcorão, no vazio da fÉ .apólvora concubina-se com o nó da gravA:-porra, marimbo para a prosa,essa é para as rosas, a poesia para os homenS.
. mortE:silênciO
FomE:SilênciO.
. ChorO:SilênciO
. o luto não cabe no perímetro da páginA .embrulho a lágrima com o vestido do juiZ.coloco insígnias a minha mãe que dorme na eternidade da canoA:-é para ti, Decapitada da Conceição Coitada Nação, heroína do tiroteio da nudeZ.
.SILÊNCIO.

Ernestino Muhate, in  Ilusão em Tempos de Guerra / Guerra em Tempos de Ilusão, fanzine, Gala-Gala Edições, Novembro de 2020, pp. 17-18. 

sábado, 12 de dezembro de 2020

NA CAMA COM OFÉLIA


 

O desafio/estímulo para escrever uma peça veio do Fernando Mora Ramos, director do Teatro da Rainha, actor e encenador com larga experiência em palcos diversos. Sobre o texto disse: «Na cama com Ofélia explora os “desentendimentos” situados entre a realidade e a ficção na relação amorosa de Pessoa com a famosa Ofélia, sendo que, na perspectiva de Henrique Manuel Bento Fialho, Ofélia é corpo-sujeito de muitas Ofélias, figura de extraordinário relevo tanto na ficção literária — Shakespeare, por exemplo — como na pintura». Na próxima terça-feira iremos apresentar o texto que estará na base de um espectáculo a realizar em 2021. O ponto de partida são as cartas trocadas entre Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz, mas para quem tenha interesse na matéria está agora acessível uma conversa curta que mantive com o Fernando. No Sinal Aberto: aqui.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

MOANIN’ (1958)


 

Em memória de Bobby Timmons
que morreu de cirrose aos 38 anos.
 
Caminha a esmo na tarde chuvosa, atento às botas que escurecem à medida que a água ensopa a pele. A calçada irregular influencia o passo, imprime um modo trôpego na marcha que em nada corresponde à introspecção do caminhante. A dado momento queda-se a olhar à volta, como se o preocupasse a hipótese de estar a ser observado. É então que os seus olhos se cruzam com os meus. Vem na minha direcção, desenhando no alcatrão encharcado uma rigorosa linha recta. Estou na soleira de um prédio a fumar o segundo cigarro de três que estou autorizado a fumar, aguardo que me chamem para consulta de rotina. Aproxima-se com os olhos colados aos meus. Fico expectante, uma aragem de incerteza trespassa-me o corpo. Pára a um metro de mim, curva-se ligeiramente e geme como o céu naquela tarde cinzenta: «eu não estou bêbado». Alguém reclama a minha presença na clínica, ele observa-me a entrar no prédio como se estivesse a olhar para um animal que se recolhe cobardemente num covil.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

DISCURSO AOS PACIENTES CIRÚRGICOS

 


   A nota biobibliográfica na antologia Voo Rasante (Mariposa Azual, Fevereiro de 2015) é omissa quanto ao ano de nascimento, mas informa que a autora publicou poesia, ensaio e ficção em revistas portuguesas, inglesas e italianas. À data, já havia publicado por cá Dívida Soberana (Mariposa Azual, 2012), com o qual foi finalista do Prémio Revelação da APE em 2010. Desconheço outros livros de Susana Araújo, além desse e deste Discurso Aos Pacientes Cirúrgicos (não (edições), Setembro de 2020). Se o primeiro me havia agradado, pela forma como se inscrevia num tempo concreto sem, por isso, correr o risco de achar-se datado, neste essa mesma inscrição abre-se a outros planos da existência e, por consequência, a outras possibilidades da poesia enquanto moldação da linguagem.
   Em quatro partes, a organização dos poemas sugere uma narrativa relacionada com um processo de convalescença. Cada uma das secções é introduzida por um texto em prosa cuja função explicativa não descarta do discurso uma certa ironia. Preâmbulo Clínico: Strāges: «Nem sempre é possível dizer onde começa um acidente e onde termina um problema crónico» (p. 11). Preâmbulo Clínico: Néctares Operatórios: «O médico pergunta-me se quero ter mais detalhes sobre o procedimento. Quero saber apenas sobre a anestesia: tenho medo de acordar durante a operação quando me fizerem o primeiro corte» (p. 29). Estes preâmbulos antecedem conjuntos de poemas que retratam um corpo em recuperação, do sinistro à alta hospitalar, mapeando tanto a envolvência da situação clínica como a anatomia de um espírito desassossegado pelas circunstâncias físicas em que o sujeito se encontra.
   Se no livro anterior de Susana Araújo me havia agradado a vinculação da poesia a uma emergência social, neste agrada-me sobretudo o vínculo ao corpo enquanto palco onde tudo acontece. São diversos os recursos poéticos de que se serve para explorar esta fisicalidade no e do poema, intrometendo-se por vezes no campo da experimentação com resultados que logram em partes iguais despertar-nos a curiosidade e divertir-nos. No poema Por Arquivar, por exemplo, à elevação de cada uma das letras da palavra membros corresponde a sugestão de um corpo a levitar. Imunidade/Impunidade é um caligrama que nos envia para a grande onda de Hokusai. Em Sala de espera estamos no domínio do haiku. Há ainda exercícios bilingues, como já sucedia no livro anterior da mesma autora, e evocações de Emily Dickinson, William Wordsworth, Virginia Woolf, rodeadas de um complexo lexical respigado no campo da medicina.
   O que não se perde de todo é a inclinação para uma poesia embrulhada nos problemas do mundo, capaz de reflectir o seu tempo sem a ele se reduzir. Veja-se como isso acontece no poema Tratamento de Detritos (p. 75):
 
Se a China banir a importação de lixo
onde irão morrer as nossas imagens
 
onde fundiremos o chumbo, o cádmio
as dioxinas, os ftalatos e o cheiro a
homens e ratos?
 
Como separaremos a culpa da cura
enterraremos os natimortos?
 
Onde espalharemos o sal?
 
Como reciclaremos os restos
deste leprosário ocidental?

 
   Discurso aos Pacientes Cirúrgicos tem este lado irónico de, partindo de uma experiência aparentemente pessoal, se dirigir a todos nós, pacientes de um tempo concreto, metidos em unidades de cuidados continuados a que hiperbolicamente chamamos de vida. A autora quis chamar-lhe discurso e não foi por acaso. Estes poemas têm essa função discursiva esculpida em cada um dos seus versos, são uma hábil metáfora deste mundo que calhou ser nosso. E de uma doença que é a de todos nós enquanto parte integrante desse acidentado mundo.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

SMELLS LIKE PIG SPIRIT

 


Chegado a casa após repasto onde foram debatidas as possibilidades do fazer, nada melhor do que ser brindado com uma novidade “cóltural”. Aí tendes a nova linha de sabonetes literários da Bertrand. Após a gama "This Smells Like My Vagina", de Gwyneth Paltrow, temos agora os sabonetes Pessoa, Sophia, Márquez. Preferiria um sabonete Florbela, pois não aprecio bigodes no cu. Ainda assim, deixo sugestões: uma gama de pensos higiénicos Las Casas, em homenagem à  directora da área Comercial e de Marketing das livrarias Bertrand; um gel de banho Maia, fixando para a eternidade o labor do Member of the Board of Directors and Managing Director in Livraria Bertrand; uma caixa de preservativos Camarinhas, como forma de fazer chegar aos leitores deste país a relevância de um Director de Recursos Humanos e TI do Grupo Bertrand Círculo. Esta gente merece ser conhecida, têm tudo para ficar na história da indústria livreira deste país. Os desgraçados que vão ser coagidos a sugerir esta bosta aos clientes é que não mereciam tal sorte. Nem os autores visados.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

LET’S GET LOST (1943)

 


Ficaste incrédula quando te mostrei o original de Let’s Get Lost na voz de Mary Martin, durante uma cena do insuportável Happy Go Lucky. Nunca nada é aquilo que parece, disse-te, mas tu acusaste o fastio que te causava a minha tendência para banalidades. Ambos preferimos a versão de Chet Baker, estranhamente alegre na voz de um tipo que desceu aos infernos. Mais banalidades, é um facto. A questão que se me coloca agora, talvez não tão banal, é quando voltaremos a perder-nos nos braços um do outro. Ora aí tens uma banalidade que eu suportaria sem tédio algum, os dois nos braços um do outro a trautear melodias de sonho, como certo dia à sombra de um plátano, certa tarde numa esplanada à beira mar, certa noite envergonhados um do outro. A verdade é que sinto saudades de te amar, apesar de nem por um segundo das nossas vidas ter deixado de te amar. Falido, com o corpo tão vazio como a conta bancária, que posso eu ainda esperar? Observar-te do lado de fora, enquanto no interior danças com os mais ricos dos homens neste mundo. Ricos por te terem nos braços.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

UM POEMA DE SUSANA ARAÚJO

 


OUTRO REMÉDIO

Sentas-te no silêncio
dos cobardes
essa multidão
num sítio onde a vida
vai passando, vendida ao
veneno de um dia
depois do outro

Vais remando
com os dois braços
rumo a rotinas e rituais

Dizes apenas o necessário
encostado à almofada
com o rosto escondido
sob a pele

Não tens remédio 
mais que uma nação
és a hibernação de
todo um estado

mas hás-de te salvar
hás-de nos curar
(coitados)
hás-de viver
sentado.

Susana Araújo, in Discurso Aos Pacientes Cirúrgicos, não (edições), Setembro de 2020, p. 59.