quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

DUAS POETAS HISPANO-AMERICANAS

    Eram contemporâneas, falavam a mesma língua, tiveram sortes e destinos diferentes, pisaram as mesas terras, morreram no mesmo ano. Por cá, o livro de uma não mereceu a mesma atenção que foi dada ao livro da outra. Razões haverá para que assim seja. Que as descortine quem tiver interesse. Comecemos pela costa-riquenha Eunice Odio (n. 1919 – m. 1974), filha ilegítima de um pai que apenas conhecerá em idade adulta. Perdeu a mãe com 20 anos, casando-se pela primeira vez nesse mesmo ano de 1939. O matrimónio durou 2 anos. Começou a publicar na imprensa sob o pseudónimo de Catalina Mariel. Em 1947 ganhou o Concurso Centroamericano de Poesía com o livro Os Elementos Terrestres. Publicado originalmente em 1948, chega agora à língua portuguesa através de uma cuidada tradução de Luiza Nilo Nunes.

   A edição portuguesa de Os Elementos Terrestres e outros poemas (Anjo Terrível, Setembro de 2020) beneficia ainda de uma elaborada introdução da tradutora e de sete poemas em apêndice, através dos quais se torna mais perceptível a extensão do universo desta poética enigmática. A autora de Territorio del alba (1953) viajou muito por toda a América Latina, adquirindo a certa altura nacionalidade guatemalteca. Problemas pessoais empurram-na para o México, onde trabalhou como crítica de arte, tradutora, publicando, além de poesia, contos e ensaios. Nacionalizou-se mexicana em 1962. Esteve casada com o pintor Rodolfo Zanabria (n. 1927 – m. 2004), que prometeu levá-la para Paris quando para lá foi viver. Promessa nunca cumprida. Ao afastamento e silêncio do pintor correspondeu a ruína da poeta. Conta Luiza Nilo Nunes: «A 23 de Março de 1974, sem filhos ou herdeiros, mas com três livros de poesia publicados que alterariam para sempre o panorama da literatura em língua espanhola, o seu cadáver é descoberto em estado de putrefacção na banheira da casa em que reside» (p. 9).
   Apesar de haver privado com muita gente bem colocada no meio literário do seu tempo, o abandono e o isolamento, aliados a um temperamento avesso a concessões de carácter e a posições políticas calculistas, acabaram por remeter o seu trabalho para um injustificável silêncio. O mais fácil é encaixar a sua poesia no domínio de uma estética mística, altamente devedora, no livro de estreia, das imagens e dos símbolos herdados dos textos bíblicos. As epígrafes assim o reforçam, tal como a estrutura de um livro que começa enquanto invocação, desenvolve-se à maneira de uma oração e termina com uma convocação para a incessável busca e procura do sublime. Esta incessibilidade, típica daquele para quem a fé se manifesta mais pela ausência do que pela presença, é uma das marcas fortes da poesia de Eunice Odio. A metafísica dos seus poemas acarreta o estigma de uma necessidade física que se alimenta da sua própria insatisfação. A busca da poeta é a do ideal inalcançável, o qual se reflecte tanto no plano metafísico como no plano social. Vejam-se, a título de exemplo, os poemas Nuvem e paraíso, com a Guerra Civil Espanhola em pano de fundo, ou Essas Mulheres Perdidas, dedicado ao cubano Nicoás Guillén:
 
ESSAS MULHERES PERDIDAS
 
A Nicolás Guillén, enorme poeta e grande amigo.
 
Essa mulher que vimos
colada à luz,
a apropriar-se dos faróis,
de olhos caídos nos passeios,
 
Senhora rígida e solitária,
 
E há de morrer
um dia destes.
 
Disse-me em segredo
aquele  senhor que se alimenta de luminosos
e esfumados diminutivos
pelas salas da fluoroscopia.
 
Já a tinha visto uma vez;
a esquivar-se
entre vozes e corpos
masculinos,
 
Senhora rígida e solitária na penumbra,
limpa de claras presenças,
perdendo-se nos braços fundos
dos prostíbulos,
sedutora de matizes duvidosas,
 
enlutado de trevos
o corpo um inteiro gomo
de ângulos noturnos,
 
marchando atrás das vozes violentas e ásperas
entre ervas doutrinárias
e displicentes caçadas,
 
e agora há de morrer,
em declínio,
tenaz na sua morte,
aquático o passo
interrompido e pesado,
 
Senhora rígida e solitária.
Limpa de claras presenças.
 
   O Amado invocado nos oito poemas longos de Os Elementos Terrestres mostra-se mais pela ausência do que pela presença: «Ah, / se ao menos eu um dia te encontrasse / tranquilamente ao redor da minha morte, / despertando com teu amor os meus ouvidos / onde as águas desaguam / sem retorno…» (p. 41). É a ausência que leva a uma experiência limite do desejo e da língua, a qual se reconfigura em metáforas indecifráveis, herméticas, que tentam comunicar com o incomunicável, pronunciando o impronunciável: «Abre os ouvidos e ouve esta canção / que é como a semente das estações» (p. 85). Estes poemas estão, pois, de acordo com a ideia da poesia enquanto dilatação dos códigos linguísticos que determinam a comunicação entre os homens. O seu aparente hermetismo resulta de uma tentativa de contacto com o indizível. A comunicação, neste caso, cede a outras forças, não perdendo porém o elo com a realidade terrestre.

Diferente no estilo, a mexicana Rosario Castellanos (n. 1925 – m. 1974) partilha com Eunice Odio uma experiência problemática da religiosidade. Formada em Filosofia, transportou para a sua poesia muitas das questões fundadoras da reflexão filosófica. Fá-lo, no entanto, com espontaneidade e vigor impressionantes, a ponto de por vezes os seus poemas se assemelharem a manifestos. Nascida no seio de uma família abastada, cresceu num ambiente rural marcado pela exploração dos indígenas. Alguns dos poemas nesta antologia seleccionada e traduzida por Jorge Melícias, tais como Agonia fora do muro ou Memorial de Tlatelolco, denotam uma consciência social bastante apurada nesta matéria. Na biografia reproduzida nas badanas refere-se que depois de ter ficado órfã, aos 22 anos, «doou aos índios mexicanos as terras que herdara». José Rui Teixeira, autor do prefácio, sublinha igualmente a sua revolta contra a condição feminina no seu tempo.
   Casou em 1958, sendo mãe passados 4 anos, «depois de dolorosas perdas — abortos e a morte de uma filha recém-nascida, a quem dedicará Lívida luz (1960)» (p. 5). Divorciou-se em 1971, antes de partir para Telavive como embaixadora do México em Israel. Aí faleceu, na casa onde residia, presume-se que electrocutada na sequência de um acidente doméstico. Há quem tenha colocado a hipótese de suicídio, mas não há evidências que permitam confirmar a tese. De referir também a docência na National Autonomous University of Mexico, onde se formou, a associação ao National Indigenous Institute, para o qual escrevia peças que eram representadas em regiões remotas para promover a literacia junto dos índios, a colaboração com o jornal Excélsior, a infidelidade de Ricardo Guerra Tejada, filósofo com quem casou e de quem teve um filho, as depressões, uma intensa dedicação às chamadas causas feministas. O mais correcto seria falar de direitos das mulheres. Vejam-se poemas excepcionais tais como Kinsey Report ou mesmo o Auto-retrato onde começa por afirmar, com refinado sarcasmo: «Sou uma senhora: tratamento / difícil de obter, no meu caso, e mais útil / para rivalizar com os demais que um título / adicionado ao meu nome por qualquer academia» (p. 169).
   Na obra de Rosario Castellanos encontramos poemas longos, sequências extensas, e pequenos poemas incisivos como gumes: «Não comas nunca nada / que não sejas capaz de digerir, / que não sejas capaz de vomitar» (p. 199). O tom elegíaco que atravessa esta antologia, confirmado inclusive pelos títulos de alguns poemas  — Elegias do fantasma amado, Falsa elegia, Elegia (1969), Elegia (1972) —, não deve distrair-nos da ironia subtil com que alguns temas são abordados. Não obstante, o discurso espantosamente desabrido em matérias de carácter interventivo contrasta com a gravidade, até alguma solenidade, quando o território de reflexão é o do sagrado e da relação problemática do homem com Deus. Em Anotações para uma profissão de fé, extenso poema onde se desenha uma cosmogonia pessoal, essa problematização evidencia-se pelo contraste da gravidade dos assuntos com o tratamento irónico que lhes é dado. À pergunta sobre o que fazemos aqui, os dois versos finais respondem com extrema clareza: «neste continente que agoniza / bem podemos plantar uma esperança» (p. 31). Abordagem semelhante se reconhece em peças fundamentais como Muro de lamentações, Lamento de Dido, Diálogo do Sábio e do Seu Discípulo, Monólogo da estrangeira.
   O lamento que acompanha a retórica do poema não o encerra, abrindo-se com palavras penetrantes, agudas, por detrás das quais se esconde e desponta a consciência de um corpo efémero, de uma vida passageira, de uma História estigmatizada pela ruína. A solidão, por vezes a loucura, são nomes que matizam um sentimento de desterro e, tal como sucedia em Eunice Odio, de desencontro com o sagrado: «Procuro entre as coisas a Tua pegada e não a encontro» (p. 49). A este desencontro não corresponde uma negação, mas sim uma forma de deísmo que transforma o encontro com Deus num encontro consigo mesmo. Se há um movimento ascensional em alguns poemas de Rosario Castellanos, esse mesmo movimento sofre de um enraizamento na terra que aumenta a dúvida e adensa o mistério da vida. Em certo sentido, podemos dizer que esta é uma poesia existencial. Mas é importante que tenhamos presente quanto dela se perde ao ser rotulada:
 
O OUTRO
 
Porquê pronunciar nomes de deuses, astros,
espumas de um oceano invisível,
pólenes dos jardins mais remotos?
Se nos dói a vida, se cada dia chega
rasgando as entranhas, se cada noite cai
convulsa, assassinada.
Se nos dói a dor de alguém, de um homem
que não conhecemos, mas que está
sempre presente e é a vítima
e o inimigo e o amor e tudo
o que nos falta para sermos inteiros.
Nunca digas que é tua a escuridão,
não bebas de um trago a alegria.
Olha à tua volta: há outro, há sempre outro.
O que ele respira é o que a ti te asfixia,
o que come é a tua fome.
Morre com a metade mais pura da tua morte.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

HORAS DE TÉDIO

Em carta a Alexandre Pinheiro Torres, datada de 1958, Jorge de Sena desculpa-se por não ter incluído a mulher daquele nas “Líricas Portuguesas” (3.ª série): «Eu não incluí a Sua Esposa na antologia. Por forma alguma a considero destituída de mérito, e há na antologia uma meia dúzia de poetas (ou mais…) que, em minha opinião, lhe são inferiores». Segue-se a explanação do método e da contabilidade que deixaram Leonor de Almeida de fora. Já antes, agradecendo a intenção de Pinheiro Torres escrever sobre a sua obra, Jorge de Sena convida-o a integrar a antologia dando conta da tal contabilidade. A uma primeira lista de nomes pediu sugestões sobre ausências. Vários foram os que sugeriram Pinheiro Torres. «Referiu-o também o Amaro, mas esse referia “tout le monde et son père”», diz Jorge de Sena. Portanto, Pinheiro Torres entrou nas “Líricas” e a “Sua Esposa” ficou de fora. No entanto, o apontamento sobre Luís Amaro é o que tem mais graça. A “Esposa” ficou de fora porque não teve tantos votos, ainda que, presumimos, tenha contado com o voto do bom e generoso Amaro. Lembrei-me logo de uma carta de Sophia a Jorge de Sena, em que se refere a Alexandre O’Neill nos seguintes termos: «Mas como o O’Neill é fraco talvez mude de opinião quando lhe convier!» Estas avaliações do carácter de terceiros na República das Letras, a expressão é do autor de “Sinais de Fogo”, é altamente pedagógica, revelam mais sobre quem as profere do que sobre os visados. Assim temos que o mesmo O’Neill fraco, em carta a Pinheiro Torres datada de 1952, se refere ao (ex-)camarada Cesariny nestes modos: «Ignorava a calúniazeca do Cesariny — mas não resisto a chamar-lhe pela primeira vez um evidente filho da puta». Isto deu-me uma ideia para 2021, compilar em dossiers resistentes a naufrágios as centenas de e-mails que fui recebendo ao longo dos últimos 17 anos (desde que comecei a escrever sobre livros em weblogs). Ainda hei-de fazer mealheiro à conta dessas horas de tédio.

UM POEMA DE ROSARIO CASTELLANOS


AGONIA FORA DO MURO

Olho as ferramentas,
o mundo que os homens fazem, onde se afadigam,
suam, parem, coabitam.

O corpo dos homens, prensado pelos dias,
a sua noite de ronco e de esperneios
e as encruzilhadas em que se reconhecem.

Há cegueira e a fome ilumina-os
e a necessidade, mais dura que metais.

Sem orgulho (o que é o orgulho? Uma vértebra
que a espécie ainda não produz?)
os homens roubam, mentem,
como predadores farejam, devoram
e disputam a outro a carcaça.

E quando furtam, quando dissimulam
ou quando contornam uma lei ou quando
se aviltam, sorriem, 
entreabrem ligeiramente as pálpebras, contemplam
o vazio que se abre nas suas entranhas
e entregam-se a um êxtase vegetal, inumano.

Eu sou de outra margem, de outro lado,
sou dos que não sabem nem tirar nem dar,
gente para quem partilhar é impossível.

Não te aproximes de mim, homem que fazes o mundo,
deixa-me, não é preciso que me mates.
Eu sou dos que morrem sós, dos que morrem
de algo pior que a vergonha.

Eu morro de olhar para ti e não perceber.


Rosario Castellanos, in Poemas Escolhidos, edição bilingue, tradução de Jorge Melícias, prefácio de José Rui Teixeira, Antígona, Junho de 2020, pp. 107-109.

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

BEIJOS E BARREIRAS LINGUÍSTICAS


 

 
   Inalo, em degustação demorada, as ondas invisíveis que flutuam do teu cheiro. Tudo disforme, nos lençóis amarrotados e no calor do amanhecer feroz
   — contrastante com a calmaria do Soul de fundo
   [que também chega em ondas, da telefonia, baixinho,
   “olha os vizinhos!”].
 
   Qual é o plano? Para onde fugimos hoje? Fundimo-nos com o sofá a devorar os mesmos episódios das mesmas séries com gargalhadas recicladas e beijos em entrevistas melosas às bochechas?
   (e os próprios beijos, quando encontram lábios nos lábios e não há televisão, olhos fechados e não vale espreitar)
   Vamos àquele restaurante dos betos onde nos cumprimentam sempre em inglês à entrada? Navegam as ideias às duas e às três de cada vez, o Soul de fundo e a inveja dos vizinhos silenciosos que abrem as janelas de sobrolho franzido à espera de mais uns decibéis para decifrar o destino de hoje.
 
   Críticas à loiça num cruzar de olhares sem palavra alguma. Na cabeça ciranda a fala: — “viste bem este ‘design’ em que dão de comer à turistada?”,
   com vista para um grupo de alemães, na última mesa ao canto, a pedir mais canecas e a avermelhar os rostos no sol e no álcool.
   A areia que vão largando no chão do restaurante é compensada com gorjetas recheadas de vergonha e uma pitada de “gracias” pelo caminho com uns Rs inglesados e sorrisos falsos a ripostar com “obrigado” de secura de Verão, mas hostilidade de carneiro porque “está toda a gente a ver e a cliente tem sempre razão”
   [é pena o dicionário do cliente não ter a mesma razão que o dono quando a península fala toda o mesmo, pior, quando os “latinos” têm um instinto poliglota que serve de incentivo extra à preguiça de quem veio de visita e está offline para saber agradecer como os locals. Mas enfim, deixaram good tips!].
 
Manuel Seatra (n. 1995), in Raiz Densa no Pátio da Garganta (Douda Correria, Fevereiro de 2020). Estreou-se com Dias de Folga (Setembro, 2018). Os poemas em prosa de Raiz Densa no Pátio da Garganta têm Lisboa como palco e o quotidiano na capital em pano de fundo. Das três partes que compõem o livro, a primeira é a mais extensa. Na segunda parte a memória intromete-se para recuperar cenários da infância, sempre num plano onde sobressai a vida doméstica enquanto cenário onde os sonhos e as utopias vão sendo desmentidos pela realidade: «A cama está a afundar e não tenho tempo para mais imagéticas alagadas em metáforas cansativas e desnecessárias» (p. 38). Tudo vale no terreno do poema, de um passeio pela Almirante Reis a uma ida ao dentista, o dia-a-dia cumpre-se num registo irónico enxertado pela coloquialidade descontraída de quem assiste ao desenrolar das horas. Uma névoa de nostalgia assalta, por vezes, o discurso, mas logo a banalidade dos dias desperta o sujeito para o que se impõe como necessidade: «É quando penso sobre o que quero dizer que me lembro do que vou pensando sem o dizer» (p. 51). As contradições do mundo moderno têm neste nó desatado da garganta um retrato fiel.  

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

SING, SING, SING (1936)

 


Conheci mal a irmã de meu pai. Chamava-se Lurdes, dizem-me que foi comunista até ter começado a votar Cavaco. Quando faleceu, voluntariei-me para transportar um tocheiro entre a igreja e a cova onde foi sepultada. Minha mãe confessou-me, à época, que teve de conter o riso ao ver-me de casula e estola. O ateísmo que me desviou dos caminhos de Deus não foi suficiente para me furtar a esse gesto mínimo por uma tia tão distante na vida como na morte. Tenho privado mais com a irmã de minha mãe, a tia Elvira a quem ofereci os únicos policiais que comprei na vida. Este ano optei por Amin Maalouf, uma narrativa alegadamente histórica sobre o poeta Omar Khayyam. Quando penso nas minhas tias vem-me à memória a música de Benny Goodman. Não sei porquê, suponho que nunca as tenha visto dançar. Também me lembro de militares regressados de guerras impiedosas a vibrar com a voz de Martha Tilton. E de um homem que vi há dias no café da aldeia onde os meus pais nasceram, a cara chapada de Louis Prima, a reclamar com os forasteiros, chegados da cidade, que jamais saberão o que é um dia na província se nunca enterrarem as botas na lama para ficarem com o cheiro a estrume entranhado na pele e uma enorme vontade de beber para se esquecerem de onde estão. E lembro-me das mulheres que desbaratam horas de vida ao telefone a inventar desculpas para não terem atendido quando era preciso que atendessem. E digo a mim próprio que só não perdoo quem se serve de terceiros para justificar o calculismo com que aceita ou deixa de aceitar um convite para dançar.

domingo, 27 de dezembro de 2020

TATUAGENS DE LUZ

Leonor da Conceição Pinto de Almeida, sabemo-lo agora, nasceu a 25 de Abril de 1909. Quando, em Janeiro e Fevereiro de 2016, escrevi sobre ela aqui e aqui, eram poucos os dados biográficos disponíveis, vagas as informações, erróneos alguns dos apontamentos que julgávamos credíveis. Cláudia Clemente (n. 1970), autora de Tatuagens de Luz — Para uma imagem de Leonor de Almeida (Documenta, Agosto de 2020), surgiu na caixa de comentários de um desses posts à procura de informações. Perseguia então o rasto de uma poeta misteriosamente desaparecida, depois de haver impressionado nas décadas de 1950 e 1960 um meio literário predominantemente masculino. Mais do que biografia, o livro de Cláudia Clemente é sobre a tentativa de reconstruir uma história de vida resgatando da obscuridade uma figura ímpar das letras portuguesas. A investigação terá começado no dia 29 de Janeiro de 2016, motivada pela perda da mãe e a herança de um quadro de Moniz Pereira (n. 1920 – m. 1989) que teria sido vendido à avó da autora por uma esteticista que fora companheira de Alexandre Pinheiro Torres (n. 1923 – m. 1999). Leonor de Almeida, cuja estreia em 1947 com Caminhos Frios fora promovida como grande revelação da poesia portuguesa, era a esteticista em causa. Além deste fulgurante livro de estreia, foi autora de mais três obras — Luz do Fim (1950), Rapto (1953) e Terceira Asa (1960) —, o que lhe valeu ser incluída em antologias de relevo, referenciada em diversos artigos na imprensa de então, mencionada por vários dos seus pares como uma das vozes mais significativas da poesia portuguesa. Pouco depois do poemário derradeiro, silenciou-se, desapareceu, não mais se soube dela. Numa entrevista ao Diário do Minho, datada de Janeiro de 1947, percebemos estar diante de uma mulher verdadeiramente invulgar para o Portugal daquele tempo. Refere-se a Verlaine e Rimbaud como poetas de eleição, cita Taine, inventaria autores predilectos: Maurois, Ludwig, Maugham, Romain Rolland. Raro, num país onde o analfabetismo grassava e as mulheres eram educadas para ficar em casa a cuidar da família. De um primeiro casamento em 1930, a poeta de Caminhos Frios teve um filho em 1931. Não se quedou entre as paredes do lar. Frequentou o curso de Enfermeiras-Visitadoras de Higiene entre 1932 e 1933, ficando aprovada com Distinção. Divorciou-se em 1936. Há registo de se haver inscrito, em 1950, na Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Voltou a casar-se em 1951 com um homem 14 anos mais novo, ao que parece explicador do filho, o poeta, crítico literário e historiador Alexandre Pinheiro Torres (n. 1923 - m. 1999). O segundo casamento durou 10 anos, tendo sido a causa do divórcio o adultério do marido. À traição correspondeu o silenciamento da poeta. No Balanço da Poesia em 1950, publicado em A Serpente, Leonor de Almeida e Alexandre Pinheiro Torres, que se estreara em 1950 com Novo Génesis, surgem lado a lado: «Alexandre traduzia, dava aulas, e começou a enveredar pela crítica literária; Leonor era enfermeira e, segundo informação contida na edição de 1959 da Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, de Maria Alberta Menéres e Ernesto Melo e Castro, era também «proprietária de um Instituto de Beleza e Laboratório de Cosmética»» (p. 166). Chegaram a trabalhar conjuntamente em traduções e não é de todo desprovido de sentido que tenha sido Leonor a incentivar o jovem Alexandre para a poesia. Mais tarde, Egito Gonçalves (n. 1920 – m. 2001), editor de A Serpente, amigo de ambos, terá tentado recuperar a obra de Leonor do silenciamento em que caíra. Em vão. A viver em Copenhaga, a poeta escreve a João Gaspar Simões (n. 1903 – m. 1987) em Fevereiro de 1961: «Vivo à parte, isolada, não bem por temperamento, mas porque um destino de frustrações e desaires sentimentais me condicionou a uma soledade que se concilia perfeitamente com os meus complexos. Ignoro, portanto, bastante do que os poetas sentem perante uma crítica» (p. 184). As páginas finais de Tatuagens de Luz são dolorosas, são páginas de perda e de abandono, de isolamento, de um apagamento que não teve em vista apenas o afastamento da vida literária. Uma inundação levou-lhe pertences, eventualmente um original, a tristeza levou-lhe o resto. Leonor de Almeida mudou-se para Lisboa, «usava peruca e escondia-se sob um nome falso» (p. 251), D. Márcia, trabalhava como esteticista. Morreu só, em 1983, rodeada de papéis que foram deitados no lixo depois de os bombeiros darem com o cadáver de «Leonor deitada sobre a cama, segurando o telefone preto. O auscultador estava fora do descanso, na sua mão» (p. 253). Deixemos os pormenores para quem venha a ler o belíssimo livro de Cláudia Clemente, enriquecido com inúmeras fotografias, reproduções de artigos de imprensa, excertos de cartas, poemas da autora. Tatuagens de Luz excede aquilo a que se propõe, libertando não só do esquecimento uma extraordinária poeta, como permitindo que a luz ilumine esse mistério da escrita enquanto ponto de encontro com o sentido da nossa existência. A lição que retiramos do caso Leonor de Almeida relaciona-se com o poder da palavra impressa. Há qualquer coisa de mágico nessa reunião com o outro através das palavras. É como se estas fossem os genes de uma memória que imita o destino das marés. 

sábado, 26 de dezembro de 2020

HIPNOSIS (1967)


 

Terá sido pelo ano em que nasci que o trombonista Grachan Moncur III e o tenor Archie Shepp gravaram a versão mais eloquente que alguma vez ouvi de Hipnosis, composta pelo primeiro, salvo erro, para o quinteto de Jackie McLean. Lembrei-me disto ao visitar o lugar onde há anos enterrei o último dos meus cães, dezoito anos de vida partilhada. A pedra que deixei a sinalizar o lugar deslocou-se ligeiramente, as terras aluíram abrindo uma valeta ladeada por trevos e outras ervas daninhas. Encarei a vegetação com prudência, receando deparar com a manta onde deixei embrulhado o corpo do animal. Na verdade, não era a hipótese de entrever a manta o que mais me afligia. Era todo aquele verde. E nem um trevo de quatro folhas para me distrair da morte.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

UM AFORISMO DE MANUEL DE FREITAS

 


BICICLETAS

à memória de Joana Dinis

Pedalar — e, se isto vos parecer retórico, faço questão de vos enviar ramos de jacintos, rosas de Santa Teresinha, essas coisas — é, por vezes, a única solução. Desenganados, fomos ver cegonhas, um falcão menos tímido, papoilas cujo rubor nenhum Monet fixou. Havia sobretudo vento, nêsperas ainda verdes, e pessoas que tão próximas ou distantes vão morrendo.

    Pedalar contra o vento não é fácil.

 Manuel de Freitas, in 769118, Averno, Novembro de 2020, p. 52.

O PALHINHAS & CA.

 


O Palhinhas & Ca. 
colecção periódicos locais/mensais
número 66
directório colectivo: José de Matos-Cruz, Joaquim Jordão, António Viana, Álvaro Biscaia
Dezembro de 2020
 
 
Aquilo que aparenta ser mais do que realmente é, p. 12.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

AUGUST MOON (1958)

 


Quando me disseste que Aspects era um dos teus álbuns preferidos, eu não quis acreditar. Tão ligeiro, festivo até, e tu tão dada a elegias. Ainda por cima Benny Carter morreu de velho, desonrando não só a história do jazz como a imagem que fazemos dos génios: vagabundos, drogados, suicidas, estrelas cadentes. Explicaste-me que se tratava de um calendário, cada tema remetia para um mês do ano. Agosto era o teu mês de eleição. Regresso amiúde ao tema, tentando descobrir-lhe no fraseado oriental um pouco de queixume, um lamento, o pranto de quem espera e não alcança. Não encontro senão um céu com todas as constelações à mostra, e a lua tão cheia que nos parece ser possível tocá-la. Talvez seja assim a alegria do teu álbum preferido, tão cheia que nos parece ser possível alcançá-la.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

MIMINHO

Quitéria ofereceu um par de meias turcas a Alzira, Alzira deu as meias a Constância, Constância ofereceu as mesmíssimas meias a Dalila, Dalila não podia esquecer-se de Esmeralda e aproveitou as meias que lhe tinham sido oferecidas por Constância para as dar de presente a Florisbela, já esta brindou a amizade que tem por Samara dando-lhe as meias que recebeu das mãos de Constância, Samara, por sua vez, ofereceu as meias a Tâmara, que as deu de presente a Wladimir, o pé descalço, que sem perceber por que lhe davam aquelas meias as ofereceu a Natasha, que não quis esquecer-se de Tâmara, que as ofereceu à Samara, que as deu a Constância, que as ofereceu à Florisbela, que as ofertou com muito amor à Esmeralda, que não podia deixar de dar qualquer coisa a Dalila, que as fez chegar com muito amor a Alzira, que bateu à porta de Quitéria e disse "este ano é assim, temos que ser uns para os outros", enquanto devolvia à procedência, com muito amor, carinho e ternura, uma simples lembrança, um miminho, o par de meias turcas.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

MASSACRE

As imagens do massacre na Quinta da Torre Bela (540 criaturas chacinadas para nada, por nada) são daquelas coisas que me fazem desconfiar de uma ideia de desenvolvimento da humanidade. Lembro-me dos "pioneiros" entretidos a disparar indiscriminadamente sobre manadas de búfalos, sob o olhar incrédulo e melancólico das tribos ameríndias. Estava tudo ao contrário, está tudo ao contrário. Somos neste momento vítimas de uma pandemia que tem na sua origem a destruição humana de habitats selvagens. As bestas que se entretêm a disparar insustentavelmente sobre javalis e veados confinados só têm um apelido: criminosos.

domingo, 20 de dezembro de 2020

LIVRO NOVO

Quitéria deu hoje por terminado o seu primeiro romance. Vai chamar-se "O Crítico Literário de Maly Trostenets". Escapa, deste modo, aos clichés sobre Auschwitz, optando por um campo na Bielorrússia e uma personagem que encarna, ao mesmo tempo e com a mesma intensidade, os papéis de vítima e de carrasco.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

PROJECTOS DA QUITÉRIA PARA 2021

Enviar um postal ao economista Pedro Passos Coelho com o dito de Heráclito: "Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio... pois na segunda vez o rio já não é o mesmo, nem tão pouco o homem!" Escrever uma peça para teatro com o título "Maria de Fátima e a Beleza de Matar Bonifácios". Oferecer um Coelho à Acácia. Meter um bocadinho de Ventura dentro de Portas. Dar os parabéns a todos os amigos no Facebook, incluindo cavacos (os chamados amigos-múmia, só se manifestam de quando em vez para nos convencerem de que existem). Lindo, ó, que querido, ah! ❤ Pedir amizade ao engenheiro António Costa Silva. Desamigar o Henrique Manuel Bento Fialho. Descobrir o dealer do João Adelino Faria.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

TRÊS CLIQUES À ESQUERDA / CANCRO

 

O que pode a literatura fazer pelo mundo? Não é fácil responder a uma questão destas. Em tempos, a literatura ofereceu explicações do mundo. Ao mesmo tempo que fixou mitologias e cosmogonias, ela serviu para transmitir a lei, foi a base a partir da qual civilizações diversas se estruturaram. Veio depois o tempo dessa mesma literatura se amotinar contra as estruturas. Já não estava em causa servir o sistema, mas registar o pensamento e as suas contradições. A relativamente recente massificação do ensino, da leitura, do acesso aos livros, acabou por subverter este papel sublevador integrando a literatura no sistema, transformando-a em mercadoria. O que hoje se apresenta diante de nós é um labirinto sem saída. Falamos da literatura enquanto lugar de resistência, mas resistência a quê? Suponho que ao falarmos de resistência estejamos a referir-nos às armadilhas de um sistema que tende a integrar na sua máquina de padronizar tudo quanto se lhe oponha. As estratégias de aculturação colonialista não terminaram com a extinção das colónias, mantêm-se vivas no modo como as forças no poder atacam o pensamento crítico privilegiando a narrativa dos consensos. O resultado é uma amorfia generalizada. O indivíduo que há no cidadão tende a desaparecer, dando lugar ao consumidor que se procura seduzir. É preciso proteger o consumidor, daí que o sistema coloque à disposição um livro de reclamações cujo efeito imediato é amenizar a raiva daquele que se sente mal servido.
   A sacralização do consumismo faz de cada um de nós, quotidianamente e em proporções similares, pequenos senhores e escravos voluntários. As redes sociais fomentaram esta perversidade de um modo surpreendente, promovendo os tiranetes que dentro de cada um de nós praticam a censura manifestando ódio à censura. Somos senhores do nosso território bloqueando quem se aproxima de uma forma que nos desagrade, somos escravos voluntários aceitando a discriminação higienista da máquina que alimentamos com os nossos conteúdos. Isto não é assim apenas nas redes sociais, onde o clima de guerrilha, apesar de tudo, tem o mérito de não entupir as urgências hospitalares. Já não estamos tão certos quanto ao contributo que possam vir a ter para o incremento da psiquiatria.
   Afastando o cinismo e a ironia dos comentários, a verdade é que a reconfiguração das relações interpessoais a que vimos assistindo traz por arrasto um acriticismo atroz. E a esse acritiscismo corresponde uma total incapacidade de dialogar que não seja na base redutora do elogio pateta, do emoji inconsequente, da inacção. Toda a conversa antecedente serviu apenas para nos trazer aqui, a esta palavra: inacção. Podíamos dizer inércia, indolência, mas escolhemos inacção por nos parecer mais conforme com esta deslocação paulatina da rua para a rede. Aqui o ruído — chamam-lhe, eufemisticamente, populismo — sairá sempre vencedor, pois este alimenta-se da absoluta ausência de literatura, a que leva à acção, a que surge de um conflito vigoroso e de um confronto continuado com os paradigmas.
   Tudo isto nos leva a olhar com admiração para um livro que junta a grega Katerina Gógou (n. 1940 – m. 1993) e o inglês Sean Bonney (n. 1969 – m. 2019), dois escritores de gerações diversas, oriundos de países com culturas distintas, a escreverem em línguas diferentes, mas com um propósito muito bem definido de fazer da literatura algo mais do que estribo para montar o cavalo da bajulação. Quando publicou o primeiro livro, em 1978, Gógou tinha um passado como actriz. José Luís Costa, que agora traduziu para português Três cliques à esquerda, especula certeiramente que «se Katerina ainda por cá andasse, duvido que deixasse de gritar o facto de [o destino dos emigrantes] se ter tornado ainda mais terrível em 2020, ano em que se tornou política corriqueira do governo grego capturar migrantes e abandoná-los em alto-mar» (p. 14).
   O que pode a literatura fazer pelo mundo? Hoje, o pouco que pode, talvez seja agitar consciências no sentido de acordá-las do amorfismo em que espontaneamente mergulham. A prova de que as palavras “gritadas” em 1978 não perderam sentido é a leitura que delas fez Sean Bonney, por cá conhecido graças às traduções de Miguel Cardoso para a Douda Correria: Cartas Contra o Firmamento (2016) e A Nossa Morte (2020). Cancro, o livro que agora se junta a Três cliques à esquerda na cuidada edição da Barco Bêbado (Outubro de 2020, com desenhos de Gonçalo Pena), foi originalmente publicado em 2019 com o título Cancer: Poems after Katerina Gogou. A ideia de os reunir num só volume é excelente, mostra como se mantém enérgica a palavra passados mais de 40 anos sobre um livro que tudo levaria a crer datado.
   Eis outro preconceito que convém ultrapassar, a ideia de que uma literatura socialmente comprometida, engajada ou libertária (haverá diferença?), uma literatura empenhada no diagnóstico das doenças sociais, políticas, culturais, religiosas, uma literatura libertadora e, por isso mesmo, transformadora, é preciso ultrapassar, dizia, o preconceito de que uma literatura de acção acaba inevitavelmente ultrapassada pelas circunstâncias. Porventura traumatizados pelas heranças neo-realista e surrealista, os leitores portugueses têm aqui uma boa oportunidade de tratar traumas entendendo que para lá do foguetório idolátrico há sempre nas circunstâncias algo que perdura ao longo dos tempos: o domínio de uns sobre outros. Ora, é contra a humilhação infligida por quem domina que esta literatura persiste.
   Os primeiros versos de Katerina Gógou são claros nesse propósito de nos transportarem para a rua sem necessidade de decorar o cenário: «A nossa vida é a Rua Patissíon. / Detergente ROL que não polui o mar / e o Mitropanos entrou na nossa vida / depois levou-o a Dexamení / como já tinha feito às boazudas. / Nós ali. / Esfomeados viajamos a vida inteira / o mesmo percurso. / Humilhação — solidão — desespero. E vice-versa» (p. 21). Podia ter sido escrito hoje. Dexamení, já agora, era zona de artistas. Gógou ficou pela Rua Patissíon, retratando becos imundos, emigrantes em busca do sonho americano, desempregados, «recrutas com as anónimas cabeças nuas», dirigindo-se ora à mãe, ora à filha, com mensagens de uma desesperança crescente. Pagou um preço alto. As feridas abertas sobressaem em poemas onde a loucura matiza um teatro de crueldade apenas comparável com aquele outrora dirigido por Antonin Artaud (n. 1896 – m. 1948).
   Cancro, o livro de Bonney, é uma espécie de palimpsesto grafado sobre os papiros de Gógou. Onde esta dizia «Os meus amigos são pássaros pretos e estendais / nas vossas mãos» (p. 34), aquele dirá «os meus amigos / são arames estendidos de cidade a cidade» (p. 109). Ambos dão vivas à 204.ª Internacional, dirigindo-se a um futuro onde desespero e resistência se misturam com palavras de ordem carregadas de fúria, Na gramática belicista de Sean Bonney há lugar para trocas de tiros, explosivos, granadas, espancamentos, revólveres, bombas caseiras, pancada, pólvora: «reinventa o tempo. reinventa a violência. depois / ouve, atira-te a esses cabrões como as fúrias» (p. 111). Podemos falar desta poesia como rastilho para a acção ou já de poesia enquanto acção, na certeza de ser uma náusea profunda o que a motiva: «Poesia, pra quê / Vem de “fazer” / Quer dizer “Vai e Faz” / Queria uma resposta / Dos imobilizados» (p. 151). Não obstante, o sonho tem nela um papel determinante.
   Há quem se acanhe perante tais manifestações de raiva, reduzindo o discurso à condição de panfleto, sabendo que pouco lhe resta senão aprender a conviver com o mar de destroços que entra dentro de casa sempre que nos ligamos ao mundo. Distraídos do que já em nós há de ruinoso, degustamos o peru de Natal enquanto na televisão o pivot de telejornal alerta os mais sensíveis para a violência das imagens. Eu prefiro o inconformismo deste “olhar panfletário” à indolência de um “olhar de soslaio”, por no primeiro ainda vislumbrar a hipótese de uma chama que no segundo é só fumo e cinza. Uma referência a Portugal, outra à China, num poema publicado em 1978, pode fazer mais por mim nestes dias do que centenas de livros actuais, carregados de fumo e de cinza, ansiosos de uma eternidade que o mais certo é vir a falhar-lhes:
 
Trabalho remunerado — capital
o imperialismo estádio último do capitalismo
a revolução traída
ah pá camarada a falta que nos fazes…
O tempo criou bicho
ensaios nucleares, frentes populares, bordéis
(até Portugal já perdemos)
superproduções dos católicos e da máfia
tornaram-se multinacionais, não nos deixam amar
camarada.
Bufos sobrem as nossas escadas
cães nos terrenos, sempre que lhes apetecer podem
baixar-nos as calças e foder-nos
coexistência pacífica e socialismo num país
ah pá camarada se soubesses que fardo pesado carregamos…
Os julgamentos de Moscovo, ninguém aguentou
ficaste totalmente só
o pessoal ficou cansado e deram-lhe em cima.
Já sabes, que hei-de dizer?
E depois colaboraram. Já sabes, que hei-de dizer?
Na China, Janeiro de 77, chacinam trabalhadores,
e isso chega cá como se fosse um poema do Mao
(a culpa é das pessoas repetem eles) ah pá camarada
porque não foste mais cuidadoso?
Por cá, o costume. As pessoas escondem-se nas suas tocas.
pêcês há dois, «revolucionários» hermafroditas são aos milhares.
Mas não te preocupes. Vamos conseguir.
É só que, às vezes, canso-me,
nem trabalho tenho, só consigo queixar-me
e é então que mais te sinto a falta
e que te dou nas orelhas por não teres sido mais cuidadoso
e que não tenho vergonha de chorar
nem de escrever poemas
camarada que não traíste
vivemos a barbárie.

Poema de Katerina Gógou.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

UM POEMA DE SEAN BONNEY

 


Três dias desperto não dou com a porta
já é de manhã e metade das pessoas aqui
ardem de alto a baixo. As restantes de pedra.

                       as suas coxas são as minhas coxas
Ele está atrás de mim. Caminha para mim
a cabeça dele rapada. Não há estrelas

Tomei comprimidos. Ele está nas escadas está. Tomei comprimidos.
Diz que é anarquista. Não percebe nada.
Escolhe coisas. Os homens que eu fodo e
ele é um bófia britânico ele é

           estou há três dias a sonhar
arranha as nossas caras e este lugar também. Fala
de ossos e fogo nos subúrbios.

           eu amo-O sim sim diz-me coisas
coisas que nunca tive

                        um espelho. Pois. Abre-o ao pontapé.
Não. Esta noite não saio. Nunca.
Não fales.        Não.           Não vai ficar tudo bem.



E então fantasmas chegam-se ao pé de nós, pedem-nos dinheiro para a bebida etc. Em troca, cortamos-lhes a água, envenenamos as ondas sonoras dentro das quais eles vivem. Eles esperam por nós em pontos nodais da cidade — os locais para os bloqueios que já discutimos vezes sem conta mas nunca pusemos em prática. Isto é uma nota acerca da circulação da forma-doença, daquilo que Marx tinha a dizer sobre o terceiro dia de sobriedade. É esse o significado do policiamento. Minúsculas sílabas engasgadas, um bloqueio ao que resta das nossas memórias. Sirenes por todo o lado.

"Aqui queimamos as bruxas. Aqui fodemos as putéfias."

Sean Bonney, in Cancro, trad. Miguel Cardoso, Barco Bêbado, Outubro de 2020, pp. 136-137.

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

UM POEMA DE KATERINA GÓGOU


   Bom dia doutor.
   Não.
   Não se levante. De resto, não tenho nada de grave.
O do costume.
Passe-me valium metaqualona triptizol — já sabe de cor —
Torne-me socializável
arrume-me, vá, junto dos seus semelhantes
junto aos seus bufos
foda-me se quiser
bonitas as gravuras na parede.
Aqui tem uma nota de mil
e dê-me lá a receita
porque já perdi a paciência meu paneleiro de merda
e dê por onde der vou rebentar.
Não. Não se levante doutor. Não é grave.
   Obrigada.
Muito bom dia.

Katerina Gógou, in Três Cliques à Esquerda, tradução de José Luís Costa, Barco Bêbado, Outubro de 2020, p. 53. 

domingo, 13 de dezembro de 2020

UM POEMA DE ERNESTINO MUHATE

 


omalucO da guerrA no relógiO da vida

. SILÊNCIO:são nove do relógio na parede suspensA .o ponteiro franzino do tempo gira para a direita da órbitA:- antes que eu me esqueça, é noite no que digO´ .a rebeldia fuma ganja no lombo do murO .oquarto, estáfrio e polutO .miro o berço incolor da esperançA .apalpo a bobina da máquina de costura que a avó me escolheu herdeirO: tristeza é o nomE .maconde de gemA . tomo a caçula nos braçoS. o cotovelo dorido, nesse excesso de zelo, falece-me o interruptor da luZ .o coelho dorme com olhos abertos.não há lume sem oxigénio para fósforO. insípida é a brisa da angústia, por isso, detenho-me no corredor da vivenda do TempO:- Deus,colega do bar, passa-me a quitação da vidA - masco o medo no beiçO.fito a nuca da fraquezA .ponho a baioneta na ilharga da firmezA .miro o carvão que se estatela com bojo pálido na vanguarda da estaçãO. não há sino floreado para a falênciA:pai, estou a morrer toda a mortE - varrandeam-se os cachimbos próximo do criadoR .a vida corre na cumplicidade do autocolismO . umfundíulojanelou-me o joelhO .cai-me o maxilar no chão da misériA .oolho, jorra sangue que desagua na ferrovia do desejO:- não morra, antes do sol, esperançA! há amor nos limítrofes da angústiA .ascigarras roem as garraS.os gatos circuncisam os ratoS .afagoa córnea da fraqueza. ergo os miolos, e pestanejO.já tenho o Centro na nuca dos trilhos .quem me dera voltar um diA:
eagorA?!
. são dez do pulso na vitrina do desejO .estendo-me na madeira da esperA .releio a independência na cartilha da promessA .busco o norte inflamado com os rins doridoS.ebelisco a minha paciência que cospe l+ingua no chuvisco da resistênciA:- pai, falta muitO?!não, estamos no átrio do cabO .bisbilhoteio a baíA .cavo fundo para o semprE .reformo a dor da esperançA .que merda da miopiA .projécteis e estrelas cintilam no perímetro do firmamentO .jásinto os cardíacos batimentos que me morremneste concerto de desconcertos. não há honestidade sem farnel. .háutensilios no relento da agoniA .o alguidar cicia para a lavrA .galosdesafinam os cacarejoS .petizes degustam a côdea das ramelaS: -senhor, tenha dó, e piedade, dos que partem sem adeuS -o quinino franze o rosto para a mão que lhe embrulhA .o médico reza o terço no umbral da latrinA .opárocomasturba-se na fé da pia baptismal. .semdeus. sem rosário, neste nosso casinholO .e,no mastro da ferrugem,rabisco a funestador do peitO: bíblia, e alcorão, no vazio da fÉ .apólvora concubina-se com o nó da gravA:-porra, marimbo para a prosa,essa é para as rosas, a poesia para os homenS.
. mortE:silênciO
FomE:SilênciO.
. ChorO:SilênciO
. o luto não cabe no perímetro da páginA .embrulho a lágrima com o vestido do juiZ.coloco insígnias a minha mãe que dorme na eternidade da canoA:-é para ti, Decapitada da Conceição Coitada Nação, heroína do tiroteio da nudeZ.
.SILÊNCIO.

Ernestino Muhate, in  Ilusão em Tempos de Guerra / Guerra em Tempos de Ilusão, fanzine, Gala-Gala Edições, Novembro de 2020, pp. 17-18. 

sábado, 12 de dezembro de 2020

NA CAMA COM OFÉLIA


 

O desafio/estímulo para escrever uma peça veio do Fernando Mora Ramos, director do Teatro da Rainha, actor e encenador com larga experiência em palcos diversos. Sobre o texto disse: «Na cama com Ofélia explora os “desentendimentos” situados entre a realidade e a ficção na relação amorosa de Pessoa com a famosa Ofélia, sendo que, na perspectiva de Henrique Manuel Bento Fialho, Ofélia é corpo-sujeito de muitas Ofélias, figura de extraordinário relevo tanto na ficção literária — Shakespeare, por exemplo — como na pintura». Na próxima terça-feira iremos apresentar o texto que estará na base de um espectáculo a realizar em 2021. O ponto de partida são as cartas trocadas entre Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz, mas para quem tenha interesse na matéria está agora acessível uma conversa curta que mantive com o Fernando. No Sinal Aberto: aqui.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

MOANIN’ (1958)


 

Em memória de Bobby Timmons
que morreu de cirrose aos 38 anos.
 
Caminha a esmo na tarde chuvosa, atento às botas que escurecem à medida que a água ensopa a pele. A calçada irregular influencia o passo, imprime um modo trôpego na marcha que em nada corresponde à introspecção do caminhante. A dado momento queda-se a olhar à volta, como se o preocupasse a hipótese de estar a ser observado. É então que os seus olhos se cruzam com os meus. Vem na minha direcção, desenhando no alcatrão encharcado uma rigorosa linha recta. Estou na soleira de um prédio a fumar o segundo cigarro de três que estou autorizado a fumar, aguardo que me chamem para consulta de rotina. Aproxima-se com os olhos colados aos meus. Fico expectante, uma aragem de incerteza trespassa-me o corpo. Pára a um metro de mim, curva-se ligeiramente e geme como o céu naquela tarde cinzenta: «eu não estou bêbado». Alguém reclama a minha presença na clínica, ele observa-me a entrar no prédio como se estivesse a olhar para um animal que se recolhe cobardemente num covil.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

DISCURSO AOS PACIENTES CIRÚRGICOS

 


   A nota biobibliográfica na antologia Voo Rasante (Mariposa Azual, Fevereiro de 2015) é omissa quanto ao ano de nascimento, mas informa que a autora publicou poesia, ensaio e ficção em revistas portuguesas, inglesas e italianas. À data, já havia publicado por cá Dívida Soberana (Mariposa Azual, 2012), com o qual foi finalista do Prémio Revelação da APE em 2010. Desconheço outros livros de Susana Araújo, além desse e deste Discurso Aos Pacientes Cirúrgicos (não (edições), Setembro de 2020). Se o primeiro me havia agradado, pela forma como se inscrevia num tempo concreto sem, por isso, correr o risco de achar-se datado, neste essa mesma inscrição abre-se a outros planos da existência e, por consequência, a outras possibilidades da poesia enquanto moldação da linguagem.
   Em quatro partes, a organização dos poemas sugere uma narrativa relacionada com um processo de convalescença. Cada uma das secções é introduzida por um texto em prosa cuja função explicativa não descarta do discurso uma certa ironia. Preâmbulo Clínico: Strāges: «Nem sempre é possível dizer onde começa um acidente e onde termina um problema crónico» (p. 11). Preâmbulo Clínico: Néctares Operatórios: «O médico pergunta-me se quero ter mais detalhes sobre o procedimento. Quero saber apenas sobre a anestesia: tenho medo de acordar durante a operação quando me fizerem o primeiro corte» (p. 29). Estes preâmbulos antecedem conjuntos de poemas que retratam um corpo em recuperação, do sinistro à alta hospitalar, mapeando tanto a envolvência da situação clínica como a anatomia de um espírito desassossegado pelas circunstâncias físicas em que o sujeito se encontra.
   Se no livro anterior de Susana Araújo me havia agradado a vinculação da poesia a uma emergência social, neste agrada-me sobretudo o vínculo ao corpo enquanto palco onde tudo acontece. São diversos os recursos poéticos de que se serve para explorar esta fisicalidade no e do poema, intrometendo-se por vezes no campo da experimentação com resultados que logram em partes iguais despertar-nos a curiosidade e divertir-nos. No poema Por Arquivar, por exemplo, à elevação de cada uma das letras da palavra membros corresponde a sugestão de um corpo a levitar. Imunidade/Impunidade é um caligrama que nos envia para a grande onda de Hokusai. Em Sala de espera estamos no domínio do haiku. Há ainda exercícios bilingues, como já sucedia no livro anterior da mesma autora, e evocações de Emily Dickinson, William Wordsworth, Virginia Woolf, rodeadas de um complexo lexical respigado no campo da medicina.
   O que não se perde de todo é a inclinação para uma poesia embrulhada nos problemas do mundo, capaz de reflectir o seu tempo sem a ele se reduzir. Veja-se como isso acontece no poema Tratamento de Detritos (p. 75):
 
Se a China banir a importação de lixo
onde irão morrer as nossas imagens
 
onde fundiremos o chumbo, o cádmio
as dioxinas, os ftalatos e o cheiro a
homens e ratos?
 
Como separaremos a culpa da cura
enterraremos os natimortos?
 
Onde espalharemos o sal?
 
Como reciclaremos os restos
deste leprosário ocidental?

 
   Discurso aos Pacientes Cirúrgicos tem este lado irónico de, partindo de uma experiência aparentemente pessoal, se dirigir a todos nós, pacientes de um tempo concreto, metidos em unidades de cuidados continuados a que hiperbolicamente chamamos de vida. A autora quis chamar-lhe discurso e não foi por acaso. Estes poemas têm essa função discursiva esculpida em cada um dos seus versos, são uma hábil metáfora deste mundo que calhou ser nosso. E de uma doença que é a de todos nós enquanto parte integrante desse acidentado mundo.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

SMELLS LIKE PIG SPIRIT

 


Chegado a casa após repasto onde foram debatidas as possibilidades do fazer, nada melhor do que ser brindado com uma novidade “cóltural”. Aí tendes a nova linha de sabonetes literários da Bertrand. Após a gama "This Smells Like My Vagina", de Gwyneth Paltrow, temos agora os sabonetes Pessoa, Sophia, Márquez. Preferiria um sabonete Florbela, pois não aprecio bigodes no cu. Ainda assim, deixo sugestões: uma gama de pensos higiénicos Las Casas, em homenagem à  directora da área Comercial e de Marketing das livrarias Bertrand; um gel de banho Maia, fixando para a eternidade o labor do Member of the Board of Directors and Managing Director in Livraria Bertrand; uma caixa de preservativos Camarinhas, como forma de fazer chegar aos leitores deste país a relevância de um Director de Recursos Humanos e TI do Grupo Bertrand Círculo. Esta gente merece ser conhecida, têm tudo para ficar na história da indústria livreira deste país. Os desgraçados que vão ser coagidos a sugerir esta bosta aos clientes é que não mereciam tal sorte. Nem os autores visados.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

LET’S GET LOST (1943)

 


Ficaste incrédula quando te mostrei o original de Let’s Get Lost na voz de Mary Martin, durante uma cena do insuportável Happy Go Lucky. Nunca nada é aquilo que parece, disse-te, mas tu acusaste o fastio que te causava a minha tendência para banalidades. Ambos preferimos a versão de Chet Baker, estranhamente alegre na voz de um tipo que desceu aos infernos. Mais banalidades, é um facto. A questão que se me coloca agora, talvez não tão banal, é quando voltaremos a perder-nos nos braços um do outro. Ora aí tens uma banalidade que eu suportaria sem tédio algum, os dois nos braços um do outro a trautear melodias de sonho, como certo dia à sombra de um plátano, certa tarde numa esplanada à beira mar, certa noite envergonhados um do outro. A verdade é que sinto saudades de te amar, apesar de nem por um segundo das nossas vidas ter deixado de te amar. Falido, com o corpo tão vazio como a conta bancária, que posso eu ainda esperar? Observar-te do lado de fora, enquanto no interior danças com os mais ricos dos homens neste mundo. Ricos por te terem nos braços.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

UM POEMA DE SUSANA ARAÚJO

 


OUTRO REMÉDIO

Sentas-te no silêncio
dos cobardes
essa multidão
num sítio onde a vida
vai passando, vendida ao
veneno de um dia
depois do outro

Vais remando
com os dois braços
rumo a rotinas e rituais

Dizes apenas o necessário
encostado à almofada
com o rosto escondido
sob a pele

Não tens remédio 
mais que uma nação
és a hibernação de
todo um estado

mas hás-de te salvar
hás-de nos curar
(coitados)
hás-de viver
sentado.

Susana Araújo, in Discurso Aos Pacientes Cirúrgicos, não (edições), Setembro de 2020, p. 59.

domingo, 6 de dezembro de 2020

MY FUNNY VALENTINE (1937)


 

Richard Rodgers compunha as melodias, Lorenz Hart escrevia as letras. Não nos referimos a eles quando ouvimos My Funny Valentine, outro standard concebido nos palcos da Broadway. O que também geralmente se omite é que estas comédias incluíam discussões filosóficas onde não faltavam referências a Nietzsche e Marx. Preferimos lembrar o mel na voz de Chet Baker, mel de melodia melancólica, três vezes mel, partindo do princípio falacioso de que a fúria é um exclusivo de quem grita. Este adormeceu-a com doses de heroína no sangue, até perder definitivamente os dentes mordido pela raiva que nos atira para a bocadura do desespero. E assim burlamos a vida, a nossa e a dos outros, fingindo dores nos calos dos pés quando nem dores, nem pés, nem calos.

sábado, 5 de dezembro de 2020

BALANÇO DE UMA DÉCADA

 
BALANÇO DA POESIA PORTUGUESA
NA SEGUNDA DÉCADA DO SÉCULO XXI
(2011-2020)
 
Notas Prévias
 
   O balanço que me é pedido coloca duas dificuldades:
 
1.ª — Ainda estamos muito em cima da década que nos propomos comentar. O distanciamento favorecerá uma panorâmica, alargará os horizontes e permitirá que as leituras amadureçam, transportar-nos-á do interior dos acontecimentos para o lugar privilegiado de observadores. Tudo quanto possamos dizer acerca desta década que passou está enfraquecido pela proximidade. Seria mais fácil uma panorâmica do século XX, por exemplo, do que é um balanço de uma década que ainda está a ser vivida.
 
2.ª — Um balanço, seja ele qual for, consiste num confronto entre teórico e factual. Neste caso, o teórico corresponde à poesia que devíamos ter lido. O factual, corresponde àquela que nos foi possível ler. Como só podemos falar daquilo que conhecemos, fica desde já a advertência: o que ignoro é infinitamente superior ao que conheço. O que julgo conhecer é incomensuravelmente inferior ao que, com o passar dos anos, poderei vir a aprender.
 
As Perdas
 
   Começo por evocar duas perdas que julgo terem exercido um papel determinante nos últimos 50 anos da poesia portuguesa, curiosamente ambos desaparecidos no mesmo ano, a meio da mesma década: o poeta Herberto Helder (23 de Novembro de 1930 – 23 de Março de 2015) e o editor Vitor Silva Tavares (17 de Julho de 1937 – 21 de Setembro de 2015).
   Vitor Silva Tavares foi, no plano da edição de poesia em Portugal, mas não apenas na edição de poesia, uma referência singular. Entregou-se corajosamente à publicação de livros que sabia comercialmente fracassados, aliando um amor ao livro, enquanto objecto, que resultou no mais belo catálogo de que há memória em Portugal. São livros com uma identidade própria, hoje e para sempre reconhecíveis quando nos referirmos à &etc. A sua dedicação é hoje exemplo, nem sempre bem compreendido, para inúmeros pequenos editores.
   Herberto Helder foi o mais influente dos poetas portugueses na segunda metade do século XX. Estreou-se em 1958, na Contraponto de Luiz Pacheco (7 de Maio de 1925 – 5 de Janeiro de 2008), chegou a editar na &etc no decorrer da década de 1970, vindo a transformar-se num autor fulcral tanto pelos epígonos que gerou, todos piores do que original, como pelos ódios que inspirou, mas também pela necessidade que a sua obra impôs de se encontrar um registo poético alternativo ao seu. A este propósito, sugiro que se releia a carta aberta que lhe foi endereçada por Joaquim Manuel Magalhães (n. 1945) aquando da publicação de Photomaton & Vox (Assírio & Alvim, 1979). Nela se diz: «Poucos podem ter a honra de ter mais inimigos do que você. Inimigos como eu, a considerá-lo um dos maiores, mas a fazer tudo por causa disso, por o combater naquilo que me leva à escrita» (In Os Dois Crepúsculos, A Regra do Jogo, 1981, p. 131).
 
Os Fenómenos do Entroncamento
 
   Herberto surge associado a um de três fenómenos do Entroncamento que quero recordar. Como sabeis, os fenómenos do Entroncamento dizem respeito a revelações extraordinárias, como sejam o nascimento de carneiros com quatro cornos ou o desabrochar de abóboras com 60 kg. A poesia não escapa a este tipo de ocorrências. Temos assim que:
 
1 — Em Maio de 2013, um livro de Herberto Helder, o último que publicou na editora Assírio & Alvim, transformou-se num fenómeno de vendas incomparável, pela excitação causada junto dos agiotas de raridades, os quais acorreram às livrarias adquirindo a edição única previamente anunciada para, no próprio dia em que ficou disponível, encontrar-se à venda nos escaparates intergalácticos com inflações na ordem dos 100, 200, 300, 400% sobre preço de capa. A maior rede de livrarias do país teve inclusive que limitar um número máximo de exemplares por cliente, racionando, pela primeira vez que me recorde, a venda de um livro de poesia. Esta procura inusitada teve desenvolvimentos deliciosos. Repare-se:
a) em Novembro de 2010, o dono do maior grupo editorial português deu uma entrevista ao Público vaticinando, e passo a citar: «Se me perguntar se daqui a dez anos ainda se edita poesia em Portugal, eu dir-lhe-ei que não. Quando muito teremos algumas edições artesanais. Mas continuaremos a ter poesia via e-books ou através do “print on demand”»;
b) este mesmo visionário, de seu nome Vasco Teixeira, surgiu em Agosto de 2011 a anunciar a compra da editora Assírio & Alvim pela Porto Editora. Logo a Assírio & Alvim, fundada em 1972, que durante décadas foi só, e ainda é, uma das mais relevantes editoras de poesia em Portugal;
c) em 2019, o escritor valter hugo mãe, ex-editor das Quasi Edições, aparece a coordenar uma colecção de poesia — Elogio da Sombra — na mesma editora onde publica a sua obra desde 2013, ou seja, a Porto Editora.
   Disto tudo se conclui que a edição de poesia em Portugal, afinal, também interessa aos tubarões, não é uma excrescência da literatura que definha em circuitos obscuros.
 
2 — Menos interessante do que o anterior, mas igualmente revelador, o segundo fenómeno que pretendo recordar teve como protagonista o escritor Gonçalo M. Tavares (n. 1970) e a publicação, em Outubro de 2010, da “anti-epopeia” intitulada Uma Viagem à Índia. Este termo, “anti-epopeia”, decalca um dos conceitos que Eduardo Lourenço usou para se referir ao livro em causa no prefácio que o antecedeu. Lourenço falou ainda de «prosaico poema, antipoema e híper-poema», «poema provocantemente épico e anti-épico». Seja lá o que for esta Viagem à Índia, certo é estarmos no território da poesia. Sucede que a este mesmo livro de poesia foram atribuídos, se a contabilidade não me falha, o Grande Prémio Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio Fundação Inês de Castro, o Prémio Literário Fernando Namora, o Prémio Especial de Imprensa Melhor Livro Ler/Booktailors, o Prémio Melhor Livro de Ficção Narrativa da Sociedade Portuguesa de Autores, o Prémio Portugal Telecom de Literatura. Isto faz do livro assinado por Tavares o «híper-poema» mais premiado da década que passou. A consequência foi termos iniciado a década com um livro de poesia no Top de Vendas das maiores redes livreiras do país, algo que raramente acontece (assumindo, está claro, que se trate de um livro de poesia).
 
3 — Por fim, e já sem quaisquer dúvidas de género, há que mencionar o fenómeno Matilde Campilho (n. 1982). É uma jovem poeta cuja estreia em livro causou entusiasmo invulgar. Jóquei (Tinta-da-China, Abril de 2014), publicado numa boa colecção coordenada por Pedro Mexia, empolgou, como nenhum outro livro de poesia da última década, a chamada imprensa especializada. Sucessivamente reeditado, sobre ele tudo e mais alguma coisa se escreveu. Recentemente, o anúncio do segundo livro da mesma autora mereceu 8 páginas de publicidade no suplemento cultural do jornal Público. Isto é inédito. Nada de parecido descobrimos, seja na última década, seja nas anteriores, muito menos tratando-se de uma jovem autora com apenas dois livros publicados. Não me cabe especular sobre as razões que poderão estar por detrás deste fenómeno, outros já o fizeram e continuarão a fazê-lo. Pretendo apenas assinalá-lo pelo que tem de surpreendente.
 
A Internet
 
   O fenómeno Matilde Campilho serve-me, no entanto, para fazer a ponte entre o passado e um presente que se impõe como terreno a partir do qual o futuro irá, por certo, se desenvolver. Refiro-me à progressiva presença da Internet nas nossas vidas. Tal como muitos poetas novos, a autora de Jóquei começou por publicar em revistas on-line. No caso, um canal de YouTube (macmakuu) e o weblog colectivo brasileiro Modo de Usar & Co. serviram para promover os seus poemas junto de um público que se foi deslocando, nos últimos anos, dos jornais e das revistas em papel para o on-line.
   Os weblogs, logo no início deste século, e as redes sociais, um pouco depois, transformaram-se em plataformas decisivas na última década. A net é hoje um viveiro de novos autores e de redescobertas onde as editoras vão pescar muitas das suas propostas, é um veículo de comercialização dos livros que se vão publicando, permitindo aos editores uma relação directa com os leitores, e é, ao mesmo tempo, um lugar de julgamentos exacerbados e de partilha de leituras e de descobertas informais.
   O lado bom disto é a facilidade de contactos que a rede possibilita e a diversidade de linguagens que nela se descobre. O lado mau é o ruído e a urgência que dificultam leituras pausadas, concentradas, reflectidas. Ainda assim, julgo que devemos assinalar alguns espaços acolhedores de divulgação ou iniciativas de difusão que contribuem, cada qual à sua maneira, para que a poesia vá sendo lida, ouvida, falada, discutida. São disso exemplo:
- O Poema Ensina a Cair, uma iniciativa da jornalista Raquel Marinho que começou no jornal Expresso e se foi depois ramificando pelas redes sociais e no formato podcast.
- O weblog Enfermaria 6, editado, salvo erro, desde 2013, a partir do qual surgiu um projecto editorial colectivo já com vários livros individuais publicados (destaco, por exemplo, os de Tatiana Faia e de José Pedro Moreira, dinamizadores, desde a primeira hora, desta plataforma);
- A revista de Letras, Artes e Ideias Caliban, publicada desde 2015, onde podemos deparar com um interessante arquivo de recensões (não só de poesia);
- A revista A Bacana, publicada desde Março de 2018, com uma ampla divulgação de poetas muito mais novos, alguns ainda sem livros físicos editados, portugueses e brasileiros.
 
Os cafés
 
   Uma outra consequência desta deslocação para o virtual é a percepção de que a “vida literária nos cafés” desapareceu. O poeta Mário Cesariny, pouco antes de morrer, era do que mais se queixava, dessa deserção e desse abandono da vida nos cafés. «Nunca escrevi um poema em casa», dizia. Os botequins internéticos, isto é, as redes sociais, surgem higienizados pelo distanciamento, mas altamente conspurcados pelo anonimato, pelos perfis falsos, pela estigmatização. São espaços que alteram literalmente os processos de comunicação, gerando equívocos vários e malhas de afectuosidade mais ou menos artificiais e histéricas. Na ausência de voz, de rosto, na falta de “corpo visível”, o debate tende a reduzir-se à provocação, ao insulto, fomentando ódios patéticos, ridículos, inúteis, inconsequentes. Não só nada tem de estimulante, como encalha numa impossibilidade de controvérsia minada por um espírito crítico deficiente, fechado à diferença, intolerante ao contraditório.
   Como acções de resistência a este vazio encontramos diversas iniciativas, de norte a sul do país, que promovem o encontro, insistem teimosamente na confraternização, no diálogo cara a cara. Tivemos, deste modo, na década que passou, uma dinâmica muito intensa de sessões de leitura ao vivo, encontros para lançamentos, residências literárias, conversas com poetas, editores e críticos, fosse em contexto de tertúlia ou festivaleiro, de que não sou especial adepto, fosse em sessões mais intimistas ou mais expansivas.
   Lembro a curiosidade fomentada pela realização do Festival Mal Dito, em Coimbra, nos anos de 2013 e 2014, as Quintas de Leitura no Porto, que continuam a realizar-se, tal como as sessões de leitura nos bares Pinguim e Piolho, na mesma cidade, recordo o Poesia às Quintas, de Miguel Martins, no bar do teatro A Barraca, os Poetas do Povo, no Cais do Sodré, as leituras do Nuno Moura e do António Poppe no bar Irreal, os encontros promovidos pelo Jaime Rocha na Biblioteca da Nazaré, o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido na EC.ON, as tertúlias na saudosa livraria do Miguel de Carvalho, em Coimbra, as residências "Poesia, um dia", organizadas pela Biblioteca Municipal de Vila Velha de Ródão, etc, etc, etc.
   Outras, muitas e diversas, iniciativas podiam e deviam ser mencionadas. Surgem-me automaticamente estes exemplos, pela vontade de sublinhar este resgate da poesia para uma vida desconfinada. Desconfinada do virtual, onde irremediavelmente se instalou, e desconfinada das academias, onde sempre esteve, mas nunca, como hoje, dando origem a tanto poeta com licenciaturas, mestrados e doutoramentos em letras e literaturas. Esta abertura à sociedade é fundamental. Tornar público não é estar acima do público, é misturar-se com ele.
 
As revistas
 
  Outro factor de congregação, eficaz enquanto núcleo aglutinador de afinidades e de cumplicidades, é a publicação de revistas. Não é novidade para ninguém que estas perderam o carácter que outrora tiveram de demarcação de um território estético, impondo tendências e confrontando a ordem dominante com novas propostas. Talvez o que mais se aproximou disso, nos últimos anos, tenha sido a revista Telhados de Vidro, cujo primeiro número data de Novembro de 2003. O mais recente, o 23.º, se não me falhou nenhum, data de Novembro de 2018. Não deixa de ser curioso constatar que os únicos poemas traduzidos para português da nobelizada Louise Glück tenham aparecido justamente num dos números desta revista.
   Pensando exclusivamente na última década, vamos achar revistas que já vinham de décadas anteriores (Di Versos, Relâmpago, Criatura, etc.) e outras, mais ou menos efémeras, mais ou menos abrangentes, muito desiguais no conteúdo e na forma. Projecto deveras inovador é o da Flanzine, que nasce no Facebook em 2013, apropria-se do velho conceito de fanzine para chegar ao papel e acaba, no último número, num formato pen. De alguma forma ligada a esta iniciativa vamos topar, em Agosto de 2019, com os dois primeiros números de uma nova colecção de poesia, denominada elemeNtário, e publicada pela editora Flan de Tal do editor e poeta João Pedro Azul.
   Esta ponte que leva da publicação de revistas ao surgimento de editoras não é nova e está longe de ser caso único. Exemplo disto mesmo é a Eufeme, surgida em Setembro de 2016 e com uma impressionante regularidade (17 números à data em que escrevo). É uma revista de poesia portuguesa e de poesia traduzida, reúne um largo espectro de autores de diferentes gerações, e tem tido a capacidade de transportar essa heterogeneidade para um catálogo de livros que vem sendo construído desde 2017. São publicações com uma distribuição que estaria à partida condenada, não fosse a tal capacidade de contacto directo que a presença na Internet veio facultar e, sobretudo, a abnegação dos seus editores. Neste caso o mérito deve-se a Sérgio Teixeira, que assina os seus trabalhos com o pseudónimo Sérgio Ninguém.
   Outros exemplos são as revistas Tlön, publicada por Luiza Nilo Nunes desde 2016 (4 números à data em que escrevo), ou a Nervo, de Maria de Fátima Roldão, com um primeiro número em 2018 (9 números à data em que escrevo). A revista Cão Celeste, que começou a ser publicada em Abril de 2012, muito na linha editorial da Telhados de Vidro, vai já em 13 números, apresentando um vasto elenco de poetas que reencontramos nas edições das editoras Averno e Alambique. Outra revista de poesia, ensaio e crítica muito bem organizada é a Cintilações, publicada pela editora Labirinto. O terceiro número saiu em Junho de 2019.
   Temos ainda revistas extintas ou adormecidas, tais como o fanzine Piolho (27 números entre 2010 e 2019), a revista Ítaca (3 números entre 2010 e 2011), a revista Golpe d’Asa (2 números entre 2011 e 2012), um número único da Agio em Fevereiro de 2011, que terá servido apenas para inaugurar o catálogo da editora Artefacto, a Apócrifa, direccionada para a divulgação de novos autores, que começou a ser publicada em 2014 (8 números, se não me engano, até 2018).
 
As Antologias
 
   Se é justo falar numa enorme dispersão de nomes nestas publicações, tanto no formato físico como no virtual, não deixa de ser verdade que a essa dispersão corresponde uma estranhíssima lacuna. Refiro-me à ausência de uma antologia de poesia portuguesa contemporânea que conseguisse oferecer aos leitores uma panorâmica, rigorosa e neutra, do que vem acontecendo na poesia portuguesa mais recente.
   Presumo que existam várias razões que contribuem para a explicação desta lacuna. Uma delas será o custo/tempo que implica a realização de um projecto deste género. Outra será as desavenças que levam a leituras facciosas, as quais pretendem impor-se pela exclusão de possibilidades de escrita. Assim sendo, está por realizar um trabalho de selecção abrangente que pudesse ser representativo da poesia publicada em Portugal nos últimos 50 anos ou, se quiserem, da poesia que foi sendo publicada já em democracia e continuou a surgir no meio desta revolução tecnológica que estamos a viver.
   Poemas Portugueses – Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XII ao Séc. XXI, que veio a lume, em 2010, com o selo do maior grupo editorial português, não garantiu a supressão de falhas graves naquelas 2000 páginas. Exemplo flagrante disso mesmo foi a ausência de um poema de António Barahona (n. 17 de Janeiro de 1939). Mesmo não se tratando de uma antologia de poesia contemporânea, Poemas Portugueses teve pelo menos o mérito de fazer perceber o modo deficiente com que se olha para a contemporaneidade. Anos 90, e Agora, publicada no primeiro ano deste século pelas Quasi Edições, é outro exemplo dessa deficiência. Os volumes a que se deu o título de Resumo, publicados entre 2010 e 2014, parcerias da FNAC com a Assírio & Alvim, primeiro, e com a Documenta, depois, são outro exemplo desse olhar parcial e sectarista que acaba por viciar a interpretação que se possa fazer de uma época.
   Sobram-nos as antologias temáticas, sem quaisquer propósitos de significação geracional, mas, pelo menos, com uma multiplicidade de registos abonador da individualidade poética de cada um. E sobra-nos, em matéria de antologias, a excepção na última década que foi Voo Rasante, coordenada por Helena Vieira, editora da Mariposa Azual, e publicada em Fevereiro de 2015. Nesse volume conseguiu a sua coordenadora reunir cerca de 70 autores, nem todos portugueses, nascidos entre as décadas de 1950 e 1990. Não é perfeito, nunca será, mas já foi alguma coisa.
   Acabada de sair com o selo da Língua Morta, uma antologia intitulada Ao Ouvido de um Moribundo (Novembro de 2020), organizada por Nuno dos Santos Sousa, coligiu 40 autores nascidos entre 1899 e 1973. É um volume pertinente, heterodoxo, sobretudo pela capacidade que demonstra de trazer para primeiro plano poetas fundamentais da língua portuguesa que são reiteradamente varridos para debaixo do tapete pelos zeladores do chamado cânone. Refiro apenas dois, um já falecido, outro ainda vivo, que considero imprescindíveis: João Pedro Grabato Dias (n. 9 de Julho de 1933 - m. 2 de Julho de 1994) e Fernando Guerreiro (n. 1950). E refiro um terceiro, de que já falámos hoje, que é diversas vezes mencionado ao longo desta antologia, e julgo estar ainda para nos dar algumas surpresas enquanto poeta: o saudoso editor Vitor Silva Tavares.
 
A Proliferação de Editoras
 
   Um dos aspectos mais extraordinários da última década em matéria de poesia é, no entanto, a proliferação de pequenas e médias editoras que vieram dar resposta ao vaticínio do fim da edição de poesia em Portugal. Não só se tornou impossível acompanhar tudo o que vai sendo publicado, como é da ordem do espanto que num país com 10 milhões de habitantes, em que metade não lê livros e a metade que lê compra, em média, 1 livro por ano, se continue a publicar tanto livro de poesia.
   Numa vista de olhos rápida pelas estantes cá de casa contei cerca de 50 editoras a publicarem regularmente poesia nos últimos 10 anos. Mesmo que cada uma delas publicasse apenas 1 livro, estamos a falar de 500 títulos diferentes. Depois temos as colecções de médias editoras e dos grandes grupos editoriais, os quais não abandonaram por completo a poesia. Já me referi à colecção da Porto Editora, devedora do trabalho de sapa levado a cabo por pequenos editores, mas posso também referir a D. Quixote, do grupo LeYa, que continua a publicar poesia. A editora Relógio D’Água, que tem já uma dimensão considerável, mantém uma importante colecção de poesia.
   É verdade que, no caso das pequenas editoras, estamos a falar de edições curtas, algumas de apenas 100, 200, 300 exemplares no máximo. Seja como for, a sensação com que se fica é a de que existe, de facto, um núcleo fiel de leitores de poesia. Muitos elementos deste núcleo serão eles próprios autores, alguns destes acumularão com a função de editores, poucos, muito poucos, sobreviverão apenas do trabalho de edição. A paixão e a carolice são agentes determinantes num cenário deste género.
   Seria exaustivo inventariar todas as editoras que surgiram na última década a publicar poesia com regularidade. Prefiro sugerir que passem os olhos pela Rede de Livrarias Independentes (RELI) e busquem nelas esses catálogos, pois são essas livrarias o último reduto de muitas ou praticamente todas as editoras que iria referir. Muitas dessas livrarias têm, tal como as editoras, uma razoável implementação on-line. Não será difícil encontrar nelas alguns dos bons livros de poesia que vão sendo publicados em edições limitadas, de circulação mais ou menos restrita. Iniciativas como a Mostra de Edições Independentes em Vila do Conde ou a Feira Gráfica em Lisboa são também portas abertas ao contacto com este trabalho imenso que vem sendo realizado.
 
Os livros
 
   O resultado de toda esta actividade são os livros, muitos livros, inúmeros e incontáveis livros. Arrisco uma selecção, uma espécie de antologia pessoal, assumidamente arbitrária, que tem por fundamento apenas e tão-só a minha vontade de contribuir para a divulgação dessa enorme variedade que caracteriza a edição de poesia em Portugal na última década. Tentarei, tanto quanto possível, seguir uma ordem cronológica:
 
- Mulher ao Mar (Abril de 2010), work in progress de Margarida Vale de Gato (n. 1973), com reedições revistas e acrescentadas em 2013 e 2018, marca a estreia em livro de uma voz com raro domínio da língua portuguesa e da arte poética em geral. Focado na problemática da “condição feminina”, questiona de modo exemplar o papel cultural e social da mulher evocando exemplos do passado para com eles se misturar numa justaposição de realidades biográficas.
 
- Poeta tardio, Nuno Dempster (n. 1944) publicou poesia e ficção. Não encaixa em tendências ou movimentos. Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo (Edições Sempre-em-Pé, Setembro de 2011) é um livro delicioso, pela forma como desconstrói a lírica amorosa pegando num mito nacional para o desfazer à luz da actualidade. Foi publicado por uma editora discreta, de um editor e poeta discreto, José Carlos Costa Marques (n. 1945), a quem devemos a edição, há mais de 20 anos, da revista DiVersos.
 
- Em 2012, Amadeu Baptista (n. 1953), autor de uma vastíssima e muito premiada obra, deu à estampa na &etc a segunda edição do mais autobiográfico dos seus livros: Açougue. Dedicado à memória de sua mãe, percorre uma história pessoal com poemas que remetem para cada um dos anos de vida do autor. Poeta caudaloso, Baptista reuniu parcialmente a sua obra num denso volume intitulado Caudal de Relâmpagos (Edições Esgotadas, 2017).
 
- Uma tendência que vislumbramos nos editores de poesia surgidos na última década é a recuperação de vozes esquecidas. Exemplo disso, a edição, no final de 2013, de Bonsoir, Madame, reunião da poesia de Manuel de Castro (n. 1934 – m.1971), numa parceria entre a Alexandria e a Língua Morta, ou a antologia de Eduardo Guerra Carneiro (n. 1942 – m. 2004) publicada pela Língua Morta com o título Mil e Outras Noites (Maio de 2018). Sobras Completas (Abysmo, Outubro de 2016), de José Manuel Simões (n. 1934 – m. 1999), e Filipa (Barco Bêbado, Maio de 2020), de José Manuel Pressler (n. 1938 – m. 1965), assim como os Poemas Quotidianos (Tinta-da-China, Julho de 2017), de António Reis (n. 1927 – m. 1991), são bons exemplos desse trabalho de redescoberta de uma geração riquíssima que se estreou no final da década de 1950 ou durante a década seguinte.
 
- Devedores desse legado, os poetas que aparecem no início do século XXI têm na poesia de Manuel de Freitas (n. 1972) uma das mais fortes e coerentes revelações. Ubi Sunt (Averno, Junho de 2014), publicado na editora que o próprio dirige, é um livro bastante curioso que desenha uma espécie de genealogia afectiva através de inúmeras dedicatórias, referências geográficas e culturais, num estilo biografista que o autor cultivou desde a primeira hora. Traz ainda no final uma tábua bibliográfica que nos dá conta da impressionante actividade deste poeta nos últimos 20 anos.
 
- Com um primeiro livro publicado na &etc, ainda na década de 1990, José Ricardo Nunes (n. 1964) é outro autor com uma obra já considerável que conheceu nos últimos anos vários desenvolvimentos. Andar a Par (Tinta-da-China, Maio de 2015) é, talvez, o seu melhor livro e, sem dúvida alguma, um dos melhores editados em Portugal nos últimos 10 anos. Despido das máscaras exaustivamente dramatizadas em livros anteriores, nesta obra Ricardo Nunes optou por, num conjunto de poemas mais longos do que é costume, assumir uma dimensão pessoal em diálogo aberto e intenso com a sua tradição literária.
 
- A par de Margarida Vale de Gato, Daniel Jonas (n. 1973) tem sido dos poetas mais comprometidos com uma revisitação de recursos poéticos considerados obsoletos. Observamos esse trabalho oficinal particularmente desenvolvido em livros tais como Sonótono (Cotovia, Maio de 2007), (Assírio & Alvim, Abril de 2014) ou Oblívio (Assírio & Alvim, Outubro de 2017), mas não está de todo ausente em livros menos sujeitos ao desafiante espartilho da métrica. Bisonte (Assírio & Alvim, Abril de 2016) é um livro extraordinário que coloca a poesia ao nível da natureza selvagem, aproximando-a de uma linha romântica deveras convincente neste nosso malfadado tempo de extinções e apocalipses.
 
- Entre os poetas que se estrearam nesta última década, esta face romântica da poesia enquanto linguagem mais próxima de uma impetuosidade instintiva, de certo modo até catártica, está também muito presente, embora de um modo mais visceral, em poetas tais como António Amaral Tavares (n. 1964) e Cláudia R. Sampaio (n. 1981). O primeiro ganhou o Prémio Nacional de Poesia Diógenes com Talvez Seja Essa Certeza (Medula, Dezembro de 2014), a segunda estreou-se com Os Dias da Corja (do lado esquerdo, 2014) e viu, 5 anos depois, a sua poesia ser reunida num volume publicado pela Porto Editora.
 
- Em matéria de “obras reunidas” muito haveria a dizer, começando, desde logo, pela colecção de "tijolos" que a Assírio & Alvim tem coleccionado de natal para natal. Antes de mais, julgo importante enaltecer o esforço levado a cabo por uma editora como a Companhia das Ilhas. Com um catálogo vasto a ser construído desde 2012, onde a poesia tem sido presença assídua, a editora do escritor Carlos Alberto Machado (n. 1954) teve o mérito de, em conjunto com a Imprensa Nacional, voltar a dar atenção à poesia de Vitorino Nemésio (n. 19 de Dezembro 1901 – m. 20 de Fevereiro 1978), num plano de reedição da obra quase completa que teve início em Setembro de 2018 com o volume Poesia (1916-1940). Na mesma Companhia das Ilhas destaca-se igualmente, em Abril de 2019, a mais recente reorganização da poesia do poeta e editor Paulo da Costa Domingos (n. 1953), num volume intitulado Carmes (1971-2018). Outro poeta que optou por revisitar de forma radical a sua obra é Joaquim Manuel Magalhães (n. 1945), sendo Para Comigo (Relógio D’Água, Novembro de 2018) o mais recente episódio de uma sangria que ameaça reduzir a pouco mais que nada um labor poético que era, até há não muito tempo, considerado dos mais valiosos dos últimos 50 anos. Também de assinalar é a edição crítica, em 3 volumes, da poesia completa de Antero de Quental (n. 1842 – m. 1891). É um trabalho notável de Luiz Fagundes Duarte (n. 1954), começado a publicar pela Abysmo em Outubro de 2016. Na mesma editora, em 2016, a excêntrica poesia de José Emílio-Nelson (n. 1948) foi coligida num volume intitulado Beleza Tocada. Por fim, um livro há muito aguardado sobre o qual pesam agora duas tristes notícias: o desaparecimento quer do autor, quer da editora onde o livro saiu. A Poesia Reunida (Cotovia, Abril de 2018) de Manuel Resende (n. 1948 – m. 2020), extraordinário tradutor e poeta, é um daqueles casos raros que nos torna a leitura difícil se quisermos encontrar um poema escusado ou um verso a mais.
 
- Dois objectos estranhos, aterrados que nem óvnis em solo recôndito, são os livros Terceira (Douda Correria), de Nuno Moura (n. 1970), e Ventos Borrascosos (romance) (Edição do Autor, Novembro de 2019), de Fernando Guerreiro (n. 1950). Tudo contribui para distanciar estes dois poetas, ao mesmo tempo que tanto os aproxima. Nuno Moura é editor da Mia Soave e da Douda Correria, uma das mais activas pequenas editoras surgidas na última década. Fernando Guerreiro foi editor da Black Sun. Se este é dotado de um sólido saber académico, aquele tem a experiência das ruas. Cada qual à sua maneira, são ambos discretos, únicos, singulares. Isto mesmo se nota nestes dois livros, sem o nome do autor ou qualquer referência ao título nas capas, sem paginação. O primeiro até da data de edição prescindiu. Terceira é um poema em três partes, ao qual o crítico Manuel de Freitas chamou, nas páginas do Expresso, o «primeiro grande poema épico lusitano do século XXI». Ventos Borrascosos é um romance em verso ao qual o autor chamou, citando Victor Hugo, a sua «obra de fantasma». Não me parece haver nada de comparável na poesia portuguesa, pelo que, se não fosse por mais, só por isto faria todo o sentido aqui citá-los.
 
- Por fim, publicado já este ano, o primeiro livro de uma nova editora: A Kodak faliu. Também o Dick, o cão da minha infância (Barco Bêbado, Janeiro de 2020), de António Cabrita (n. 1959). O facto de o ter prefaciado não me deve impedir de o mencionar, por duas razões muito fortes: é um livro, enquanto objecto, muito bonito, que inaugura o catálogo de uma editora nova neste ano de todas as desgraças; é um livro de António Cabrita, escritor multímodo que ainda há não muito foi referido como o maior poeta português vivo por um dos seus pares. Isto vale o que vale, quando ainda estão vivos Eduarda Chiote (n. 1930) ou Alberto Pimenta (n. 1937), João Miguel Fernandes Jorge (n. 1943), António Franco Alexandre (n. 1944) ou Manuel Gusmão (n. 1945), etc… Demos as voltas que dermos, certo é que a obra de Cabrita tenderá a impor-se, inevitavelmente, como uma das mais sui generis da nossa época — pelo humor, pela riqueza imaginativa, pelo olhar arguto que lança sobre a realidade sem prescindir das imagens e das metáforas como forma privilegiada de romper com o banal dos dias.
 
Considerações finais
 
   Todas estas referências, podendo parecer exaustivas neste contexto em que estamos, dão, na realidade, uma parca ideia da pluralidade de vozes que matizam a poesia portuguesa da última década. Não esperem que me deixe embalar por apenas uma delas, já que, mais do que preferir qualquer um destes livros ou autores, eu desassossego-me mesmo é com os poemas isoladamente, lidos como se não tivessem autor ou editora. Não falei aqui da não (edições), por exemplo, a quem devo um dos melhores livros de poesia que li este ano: Autobiografia do Vermelho, da canadiana Anne Carson (n. 1950). Deixei de fora as traduções propositadamente, para não facilitar o trabalho ao meu parceiro de colóquio que há-de tratar desse assunto. Deixei de fora muitos e bons amigos com os quais tanto tenho aprendido. Pesa-me que tenha de o fazer, por necessidade de síntese e simplificação. O meu princípio base foi copiado do Adriano romanceado por Marguerite Yourcenar: «O nosso grande erro é querer encontrar em cada um, em especial, as virtudes que ele não tem e desinteressarmo-nos de cultivar as que ele possui.»
   Termino referindo-me a 3 poetas muito precocemente desaparecidos nesta década que passou. Luís Falcão (n. 1975 – m. 2015) publicou um único livro em vida. Bruma Luminosíssima (Artefacto, Maio de 2016), aparecido já postumamente, confirmou o rigor de uma obra abruptamente interrompida. Patrícia Baltazar (n. 1977 – m. 2019) publicou mais. Uma doença malvada roubou-nos a sua presença física marcante, mas tenho a certeza de que não nos roubará os seus poemas. Mais tarde ou mais cedo hão-de ser reunidos num só volume. Rui Costa (n. 1972 – m. 2012) é um querido amigo, o melhor de todos nós. Em 2017, a Assírio & Alvim publicou uma antologia da sua poesia para que continuasse a esmurrar-nos: Mike Tyson Para Principiantes. Era dele, agora é nosso, o poema com que termino:
 
NÃO SÃO POEMAS
 
Não são poemas o que eu escrevo.
São casas onde os pássaros esperam.
Nas suas janelas coincide o mundo.
Nos seus esteios resvalam gigantes.
Algumas vezes ódio.
Algumas vezes amor.
Não são mortalhas incondicionais do medo.
O HÓSPEDE DA CASA NÃO
TEM O DEVER DE SER FELIZ!
Não são poemas que eu escrevo.
São espelhos onde os rostos principiam.