segunda-feira, 31 de maio de 2010

DO AMOR E OUTRAS MENTIRAS


Fedro começa por afirmar que provêm do Amor os maiores benefícios, nomeadamente porque o amor impede os homens de praticar o mal, sob pena de ficarem mal vistos aos olhos dos seus amantes. É dele a ideia de que apenas os que amam se dispõem a morrer por outrem. Terá pensado naqueles que não se amam a si próprios? E nos outros, nos que se dispõem a matar por amor? Já Pausânias chama a atenção de Fedro para a existência de várias formas de amor, entre as quais se distinguem o amor popular (do corpo) e o amor celeste (da alma). Para este, só era digno o amor que incitasse a amar com nobreza. Obviamente que se tratava do amor celeste, pelo que, deduzindo ser Pausânias um homem de virtude, cremos nunca ter o filósofo senão dado umas quecas celestiais. Ao escutar o panegírico de Pausânias, Aristófanes ficou com soluços (eu também ficaria) e passou a palavra a Erixímaco. Este concordava com Pausânias quanto às duas espécies de amor, mas recusava-se a tomar por exclusiva dos humanos a capacidade de amar. Com uma visão panteísta do amor, Erixímaco julga que o amor se manifesta em tudo o que existe. Tudo o que existe pode ser muita coisa.

Passados os soluços, Aristófanes falou de homens, mulheres e seres andróginos. Disse que no início os homens eram arredondados, tinham quatro mãos e igual número de pernas, quatro orelhas, órgãos genitais em número de dois, etc. Só muito depois, perante a resistência de tais seres, pôs-se Zeus a cortá-los às metades. O amor é pois o encontro de um homem com a sua cara-metade, é uma aspiração ao todo. Faz sentido, embora tenha ficado por explicar se, ao encontrar a sua cara-metade, um homem é a cara-metade que a cara-metade que ele encontrou também procurava. Caso contrário, pode alguém que encontrou a sua cara-metade estar a condenar a sua cara-metade a ficar sem a cara-metade que lhe convém. Adiante. Foi então a vez de Ágaton formular o seu encómio ao amor. Que, afinal, era o mais jovem dos deuses, que nada queria com a velhice, que a sua juventude é eterna, que é sempre delicado, de compleição subtil, elegante, justo, belo, temperado e corajoso, «um poeta tão hábil que sabe, inclusive, transmitir a outros a sua arte». Enfim, Ágaton era apenas o mais jovem dos intervenientes. Chegamos a Sócrates.

O mestre socorreu-se das palavras de uma mulher de Mantineia, Diotima: o amor é um ser genial, intermediário entre o humano e o divino, nem mortal, nem imortal, no mesmo dia floresce e morre para voltar à vida. Conta Sócrates que perante esta descrição, perguntou a Diotima qual seria a utilidade do amor. «O Amor é o desejo de possuir o Bem para sempre», e porque é à imortalidade que o homem aspira através do Bem, o Amor tem igualmente em vista a imortalidade (através da geração, da perpetuação). Logo, a utilidade do amor é alcançar a imortalidade. Os cristãos não fizeram melhor. Só depois de Kant é que começámos a olhar para isto com outros olhos. Amar tendo em vista um fim não é bem amar, é ter em vista um fim. Quem ama, simplesmente ama sem outro desejo que não o de ser amado. A imortalidade é poder sentir este encontro com uma cara-metade ou com a metade de uma cara ou com a cara inteira de uma metade cara à cara-metade. A imortalidade não é a vida eterna, não se ambiciona como quem ambiciona um bom emprego. A imortalidade é apenas aquele instante momentâneo que nos leva a crer ter valido a pena estarmos vivos. Crer que valeu a pena não é o mesmo que ter valido.

A VÍBORA



Durante largos anos estive condenado a adorar
uma mulher desprezível,
A sacrificar-me por ela, a sofrer humilhações e mofas sem conta,
A trabalhar noite e dia para alimentá-la e vesti-la,
A levar a cabo alguns delitos, cometer algumas faltas,
A realizar pequenos furtos à luz da lua,
Falsificações de documentos comprometedores,
Sob pena de cair em descrédito ante os seus olhos fascinantes.
Em horas de compreensão costumávamos ir aos parques
E retratávamo-nos comendo uma refeição ligeira,
Ou íamos a uma danceteria
Onde nos entregávamos a um baile desenfreado
Que se prolongava até altas horas da madrugada.

Largos anos vivi prisioneiro do encanto daquela mulher
Que costumava apresentar-se completamente nua no meu escritório,Executando as contorções mais difíceis de imaginar,
Com a intenção de cativar a minha pobre alma à sua órbita
E, sobretudo, para extorquir-me até ao último centavo.
Proibia estritamente que me relacionasse com a minha família.
Os meus amigos eram afastados de mim mediante injuriosas acusaçõesQue a víbora fazia publicar num diário que era sua propriedade.
Apaixonada até ao delírio, não me dava um momento de trégua,
Exigindo-me peremptoriamente que beijasse a sua boca
E que respondesse sem demora às suas néscias perguntas,
Muitas delas sobre a eternidade e a vida depois da morte,
Temas que produziam em mim um lamentável estado de ânimo,
Zumbidos nos ouvidos, náuseas intermitentes, um prematuro
desalento,
Que ela sabia aproveitar com o espírito prático que a caracterizava
Para se vestir rapidamente sem perder tempo
E abandonar o meu sector deixando-me de mãos a abanar.

Esta situação prolongou-se por mais de cinco anos.
A espaços, vivíamos juntos numa habitação arrendada
Que pagávamos a meias num bairro de luxo perto do cemitério.
(Tivemos de interromper a nossa lua de mel algumas noites
Para enfrentarmos as ratazanas que entravam pela janela).

A víbora mantinha um minucioso livro de contas
Onde anotava até ao mínimo centavo o que eu lhe pedia de empréstimo;
Não me permitia usar a escova de dentes que eu próprio
lhe tinha oferecido
E acusava-me de lhe ter arruinado a juventude:
A lançar chamas pelos olhos, intimava-me a comparecer diante do juiz
E a pagar-lhe parte da dívida num prazo prudente
Pois ela precisava desse dinheiro para prosseguir os estudos.
Tive então de sair para a rua e viver da caridade pública,
Dormir nos bancos das praças,
Onde muitas vezes a polícia me encontrou moribundo
Entre as primeiras folhas de Outono.
Felizmente aquele estado de coisas não passou dali,
Porque certa vez em que eu também me encontrava numa praça,
Pousando à frente de uma câmara fotográfica,
Umas deliciosas mãos femininas vendaram-me subitamente
Enquanto uma voz amável me perguntava quem sou eu.
Tu és o meu amor, respondi com serenidade.

Meu anjo, disse ela nervosamente,
Permite que me sente mais uma vez ao teu colo!
Pude então verificar que ela agora apresentava-se
com uma saia muito curta.
Foi um encontro memorável, ainda que repleto de notas discordantes:Comprei um terreno, não longe do matadouro, exclamou,
E ali penso construir uma espécie de pirâmide
Onde poderemos passar os últimos dias da nossa vida.
Já terminei os estudos, recebo como advogada,
Disponho de um bom capital;
Dediquemo-nos a um negócio produtivo, os dois,
meu amor, acrescentou,
Construamos o nosso ninho longe do mundo.
Basta de sonsices, respondi, os teus planos inspiram-me desconfiança,
Pensa que de um momento para o outro a minha verdadeira mulherPode deixar-nos a todos na mais espantosa miséria.
Os meus filhos já cresceram, o tempo passou,
Sinto-me profundamente esgotado, deixa-me repousar um instante,Traz-me um pouco de água, mulher,
Encontra-me algures algo que se coma,
Estou morto de fome,
Não posso trabalhar mais para ti,
Acabou tudo entre nós dois.


Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

sábado, 29 de maio de 2010

DENNIS HOPPER (1936-2010)


Mais recentemente, vi-o em Palermo Shooting, de Wim Wenders, e Elegy, de Isabel Coixet, onde dá corpo a um poeta que morre em estado de consagração. Tinha bom ar.

MEMÓRIAS DA JUVENTUDE



O certo é que eu andava de um lado para o outro,
Por vezes chocava com as árvores,
Chocava com os mendigos,
Abria caminho através de um bosque de cadeiras e mesas,
Com a alma agitada via cair as grandes folhas.
Mas era tudo inútil,
Afundava-me cada vez mais e mais numa espécie de geleia;
As pessoas riam-se dos meus entusiasmos,
Os indivíduos agitavam-se nas suas poltronas como algas
[movidas pelas ondas
E as mulheres dirigiam-me olhares de ódio,
Fazendo-me subir, fazendo-me baixar,
Fazendo-me chorar e rir contra a minha vontade.


Disto tudo resultou um sentimento de asco,
Resultou uma tempestade de frases incoerentes,
Ameaças, insultos, promessas que não vinham ao caso,
Resultaram uns movimentos arruinadores de cadeiras,
Aqueles bailes fúnebres
Que me deixavam sem respiração
E que durante vários dias me impediam de levantar a cabeça,
Durante várias noites.

Eu andava de um lado para o outro, é verdade,
A minha alma flutuava nas ruas,
A pedir socorro, a pedir um pouco de ternura;
Com uma folha de papel e um lápis, eu entrava nos cemitérios
Disposto a não me deixar enganar.
Dava voltas e voltas em torno do mesmo assunto,
Observava as coisas de perto
Ou arrancava os cabelos num ataque de raiva.

Assim fiz a minha estreia nas salas de aula,
Arrastei-me pelas academias como um ferido a bala,
Atravessei o umbral das casas particulares,
Tratei de comunicar com os espectadores na ponta da língua:
Eles liam o jornal
Ou desapareciam atrás de um táxi.

Aonde ir então?
Àquelas horas o comércio estava fechado;
Eu pensava num pedaço de cebola visto durante o jantar,
E no abismo que nos separa dos outros abismos.



Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O PEREGRINO




Atenção, senhoras e senhores, um momento de atenção:
Voltai por um instante a cabeça para este lado da república,
Esquecei por uma noite os vossos assuntos pessoais,
O prazer e a dor podem aguardar à porta:
Ouve-se uma voz deste lado da república.
Atenção, senhoras e senhores! Um momento de atenção!

Uma alma que esteve encurralada durante anos
Numa espécie de abismo sexual e intelectual
Alimentando-se escassamente pelo nariz
Deseja fazer-se escutar por vocês.
Desejo que me informem sobre algumas matérias,
Necessito de um pouco de luz, o jardim está coberto de moscas,
Encontro-me num estado mental desastroso,
Raciocino à minha maneira;
Enquanto digo estas coisas vejo uma bicicleta apoiada num muro,
Vejo uma ponte
E um automóvel que desaparece ente os edifícios.

Vocês penteiam-se, é certo, vocês andam a pé pelos jardins,
Debaixo da pele vocês têm outra pele,
Vocês possuem um sétimo sentido
Que vos permite entrar e sair automaticamente.
Mas eu sou uma criança que chama pela mãe atrás das rochas,
Sou um peregrino que faz saltar as pedras à altura do seu nariz,
Uma árvore a implorar que a cubram de folhas.


Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

SOLO DE PIANO

Já que a vida do homem não é senão uma acção à distância,
Um pouco de espuma que brilha no interior de um vaso;
Já que as árvores não são senão móveis que se agitam:
Não são senão cadeiras e mesas em movimento perpétuo;
Já que nós próprios não somos mais que seres
(Como mesmo deus não é outra coisa que deus);
Já que não falamos para sermos escutados
Senão para que os demais falem
E o eco é anterior às vozes que o produzem;
Já que nem sequer temos o consolo de um caos
No jardim que boceja e que se enche de ar,
Um quebra-cabeças que é preciso resolver antes de morrer
Para depois poder ressuscitar tranquilamente
Quando se abusou da mulher;
Já que também existe um céu no inferno,
Deixai que também eu faça algumas coisas:

Eu quero fazer um ruído com os pés
E quero que a minha alma encontre o seu corpo.



Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF (também in Di Versos, n.º12).

quinta-feira, 27 de maio de 2010

CARTAS A UMA DESCONHECIDA

Quando os anos passarem, quando passarem
Os anos e o ar tiver cavado um fosso
Entre a tua alma e a minha; quando passarem os anos
E eu for apenas um homem que amou, um ser que se deteve
Por um momento frente aos teus lábios,
Um pobre homem cansado de andar pelos jardins,
Onde estarás tu? Onde
Estarás, ó filha dos meus beijos!

Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

O DEVIR-EU DE FERNANDO PESSOA

Tornou-se demasiado vulgar, mas acertado, reconhecer o peso imenso da obra pessoana sobre todo o séc. XX português, a ponto de Fernando Pessoa não ser já tão-somente o nome do “nosso” mais influente poeta do século passado, mas, sobretudo, um fantasma que paira sobre toda a poesia portuguesa que se lhe seguiu. Não faltam estudos sobre a sua obra, análises, teses, querelas, pelo que a cada novo livro que o aponta como objecto de estudo nos cabe desconfiar sobre o que possa ainda haver a dizer acerca de obra tão amplamente dissecada. Neste sentido, o que O Devir-Eu de Fernando Pessoa (Relógio D’Água, Abril de 2010) nos propõe não é uma nova leitura da poética pessoana, pelo menos não tanto quanto busca, em quatro ensaios distintos, entender um dos pilares fundamentais dessa poética: o de uma permanente transformação da identidade. No primeiro ensaio, simplesmente intitulado Devir-Pessoa, José Gil tenta «encarar o poder de atracção da escrita pessoana como uma sua característica interna» (p. 10). A dificuldade da abordagem advém da própria complexidade do objecto analisado. De certa maneira, a poesia de Pessoa é das que menos se deixa analisar. Isto porque ela própria se constrói num processo de auto-análise que tende a derrotar toda a tentativa de explicação exterior.

Tendo como ponto de partida os Apontamentos para Uma Estética Não-Aristotélica, mais fácil se torna entender o carácter tirânico da obra do autor de Ode Triunfal. A subjugação do leitor, em contraposição a um processo de captura, não me parece residir tanto na convocação para um mundo de simulações e despersonalização, como na sua redução ao papel do ponto no decorrer de uma peça de teatro. José Gil tem toda a razão quando afirma que «se Pessoa não escreve da mesma maneira que os outros poetas, também não se lê Pessoa como se lêem os outros poetas» (p. 20). O «Eu nulo substancial» onde decorre a tragicomédia heteronímica ordena ao leitor uma intervenção indispensável, que é a de lembrar aos heterónimos a sua natureza virtual no plano de uma intimidade eruptiva que vem à página, na sua diversidade, através de um único corpo. Sublinhemos corpo. Pessoa, ele mesmo, torna-se o palco de uma multidão onde o leitor, mais escravizado do que vampirizado, procurará sobreviver como uma criança perdida. Escravizado, obviamente, pelos truques de um ilusionista/mágico cujo sentido existencial está dependente da subjugação do leitor. Vem daí o seu efeito, digamos assim, hipnótico.

Se no ensaio anterior o que está em evidência é uma espécie de relatividade do eu, o ensaio subsequente, A Cidade e o Quarto de Bernardo Soares, ocupar-se-á da relatividade do espaço (ou das «metamorfoses de espaço») na obra pessoana, mormente no Livro do Desassossego. Deste modo, se nesse Eu desdobrado numa multidão encontramos uma infinitude de possibilidades, que em Álvaro de Campos aparecem elucidadas num «sentir tudo de todas as maneiras», em Bernardo Soares o espaço do quarto é transformado num infinito que pode socorrer do tédio a alma do sonhador. Inserido na cidade, «espécie de canal ou de deserto que permite passar de um espaço ao outro, resultando da passagem um regime finito ou infinito de sensações» (p. 38), o quarto é o lugar de uma interioridade constantemente ameaçada pela realidade social. Em Pessoa ainda vislumbramos a excepcionalidade do poeta enquanto entidade ameaçada pela «existência banal da vida» (p. 40), mas essa existência banal da vida procura escapulir-se numa viagem algo onírica que supera uma noção de Realidade esgotada no domínio do mundo exterior. Entre exterior e interior, deixa de haver uma fronteira clara. É isso que legitima a afirmação de que «o interior da alma comunica com o interior das coisas, com o interior do exterior» (p. 42), pois «o dentro comunica com o fora, a alma-cidade com a cidade exterior, o infinitamente pequeno das sensações com o infinitamente grande do cosmos» (p. 43).

A esta perspectiva não será alheia uma visão cabalística do mundo, a qual, curiosamente, assume inquestionável eloquência na correspondência mantida com Ofélia Queiroz. De certa maneira, podemos afirmar que Ofélia foi a primeira grande leitora do drama pessoano. Leitora de um mundo virtual em plano real, teve de aprender a lidar com uma multidão de amantes no corpo de um homem só. «Eu preferia a desilusão a viver iludida», diz ela ao grande ilusionista. «O jogo da sinceridade das palavras» (p. 50) confronta agora Pessoa com uma nova realidade, que já não é apenas a do «fingimento poético com verdade» (p. 51). Os planos da vida e da escrita acabam “interseccionados” como nunca. A leitura que José Gil faz desta complexa relação, num texto intitulado A máquina de amor de Ofélia-Fernando Pessoa, é deveras estimulante: «desde o princípio da relação se estabelece um duplo desfasamento: entre o plano de escrita de Ofélia e o de Fernando Pessoa; entre o plano da vida de um e o do outro. Mas desfasamento que implica simetria, já que para Ofélia o plano da escrita que garante a sinceridade das emoções equivale ao plano da vida em Pessoa. Simetria incompleta, no entanto, pois o plano da escrita em Pessoa não corresponde a nada em Ofélia» (p. 52). A escassez de correspondência por parte de Pessoa, em comparação a Ofélia, e as ausências a encontros marcados, que levarão a amante a uma situação de desespero, permitem-nos julgar que para o Poeta esta viagem foi a que esteve mais próxima de o trazer à banalidade da vida, embora sem que alguma vez tenha saído de onde sempre esteve (enclausurado): o «Eu nulo substancial». Isto apesar dos «beijinhos» e dos «chi-corações».

Termina este livro com uma leitura meticulosa do poema Passagem das Horas. Em O Inconsciente da Sensação na Passagem da Horas, José Gil analisa à lupa a «estética sensacionista» levada a cabo pelo heterónimo Álvaro de Campos. Não estando em causa a assunção da ideia de inconsciente, propõe-se, pelo menos, a noção de «um espaço e tempo “desaparecidos”, ausentes, não-conscientes; ou melhor, excluídos da consciência» (p. 69). Sendo assim, afirma José Gil, devemos reconhecer dois regimes na Passagem das Horas: um em que as coisas reais se rebatem sobre o Eu e a experimentação sensacionista aborta; um outro em que o Eu explode para o exterior e forma um «corpo-sem-órgãos». Este corpo sem órgãos, que sente tudo de todas as maneiras e simpatiza com tudo, talvez possa antes ser lido como uma influência clara do mestre Walt Whitman, o qual, segundo D. H. Lawrence, preferiu dizer simpatia a dizer amor «porque Simpatia significa sentir com e não sentir por» (Cf. Walt Whitman, Relógio D’Água, 1994). Ora, parece-me que este sentir em consonância com o Outro, «captando à passagem a vibração da sua alma e da sua carne», é, precisamente, o que falhou no projecto sensacionista de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos, por, e nisso parece bastante pertinente a leitura de José Gil, nunca ter o corpo deixado de «resistir ao devir-mundo e permanece[r] corpo irremediavelmente físico» (p. 85). Dito de outra forma, até o corpo que sente, em Fernando Pessoa, é um corpo virtual, ou seja, o corpo de Álvaro de Campos. Em suma: a consciência do fracasso é o que confere grandeza ao poeta.

Escrito para o Rascunho.

DAS CORES

O cinzento é preto claro.
Beatriz, 3 anos

ADVERTÊNCIA AO LEITOR




O autor não se responsabiliza pelos danos que os seus escritos
[possam causar:
Ainda que lhe custe,
O leitor terá de dar-se sempre por satisfeito.
Sabelius, que além de teólogo foi humorista bem sucedido,
Por acaso respondeu pela sua heresia
Depois de ter reduzido a pó o dogma da Santíssima Trindade?
E se chegou a responder, como o fez,
De que forma disparatada!
Baseando-se num cúmulo de contradições!

Segundo os doutores da lei este livro não deveria ser publicado:
Em nenhuma parte aparece nele a palavra arco-íris,
Ainda menos a palavra dor,
A palavra torquato.
Cadeiras e mesas figuram a granel,
Algo que me enche de orgulho
Porque, a meu ver, o céu está a cair aos bocados.

Os mortais que tiverem lido o Tractatus de Wittgenstein
Podem dar-se com uma pedra no peito
Porque é uma obra difícil de alcançar:
Mas o Círculo de Viena dissolveu-se há anos,
Os seus membros dispersaram-se sem deixar rasto
E eu decidi declarar guerra aos cavalieri della luna.

A minha poesia pode perfeitamente não levar a lado algum:
«Os risos deste livro são falsos!», argumentam os meus

[detractores,
«Suas lágrimas, artificiais!»
«Em vez de suspirar, nestas páginas boceja-se»
«Esperneia-se como um bebé de mama»
«O autor dá-se a entender aos espirros».
Assim sendo: convido-vos a queimar os vossos navios,
Como os fenícios pretendo criar o meu próprio alfabeto.

«Há que cansar o público, então?», perguntar-se-ão os amigos

[leitores:
«Se o próprio autor começa por desprestigiar os seus escritos,
Que poderá esperar-se deles!».
Cuidado, eu não desprestigio nada
Ou, melhor dizendo, eu exalto o meu ponto de vista,
Vanglorio-me das minhas limitações,
Levo aos píncaros as minhas criações.

As aves de Aristófanes
Enterravam nas suas próprias cabeças
Os cadáveres dos seus pais
(Cada pássaro era um verdadeiro cemitério volante).
A meu ver
Chegou a hora de actualizar esta cerimónia
E eu enterro as minhas penas na cabeça dos senhores leitores!


Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

terça-feira, 25 de maio de 2010

EPITÁFIO

De estatura média,
Com uma voz nem fina nem grossa,
Filho mais velho de um professor primário
E de uma costureira humilde;
Fraco de nascimento
Ainda que devoto da boa mesa;
De maçãs macilentas
E de mais abundantes orelhas;
Com um rosto quadrado
No qual apenas os olhos se abrem
E um nariz de pugilista mulato
Por cima da boca de ídolo asteca
− Isto tudo banhado
Por uma luz entre irónica e pérfida −,
Nem muito lesto nem tonto no remate
Fui o que fui: uma mescla
De vinagre e de azeite virgem
Um enchido de anjo e besta!



Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

AUTO-RETRATO


Considerai, rapazes,
esta língua roída pelo cancro:
Sou professor num liceu obscuro,
Perdi a voz dando aulas.
(Depois de tudo ou nada
Faço quarenta horas semanais).
Que vos parece a minha cara esbofeteada?
De facto, inspira lástima olhar-me!
E o que dizeis deste nariz apodrecido
Pela cal do giz degradante?

Em matéria de olhos, a três metros
Nem a minha própria mãe reconheço.
O que me aconteceu? – Nada.
Arruinei-os dando aulas:
A má iluminação, o sol,
A miserável lua venenosa.
E tudo para quê!
Para ganhar um imperdoável pão
Duro como a cara do burguês
E com cheiro e sabor a sangue.
Para quê termos nascido como homens
Se nos dão uma morte de animais?

Devido ao excesso de trabalho, às vezes
Vejo formas estranhas no ar,
Oiço loucas correrias,
Risos, criminosas conversações.

Observai estas mãos
E estas faces brancas de cadáver,
Estes escassos pêlos que me restam.
Estas infernais rugas negras!
Porém eu fui tal como vocês,
Jovem, cheio de belos ideais,
Sonhei fundindo o cobre
E limando as arestas do diamante:
Aqui me tendes hoje
Atrás desta inconfortável pensão
Embrutecido pelo batuque
Das quinhentas horas semanais.


Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

domingo, 23 de maio de 2010

«FUI TOMADO COMO LOUCO»

Mirem-se no exemplo de Gérard de Nerval. Nasceu em Paris, de apelido Labruine, a 22 de Maio de 1808. Filho de um médico dos exércitos de Napoleão, perdeu a mãe quando tinha apenas dois anos mal feitos. Foi confiado a um tio. Regressado das guerras, Étienne Labrunie foi viver com o filho para Paris. Aí fez Gérard os seus estudos. O pai pretendia que o menino fosse médico, mas o menino trazia no sangue a doença da boémia, o vírus da literatura, a puta da poesia. Em 1822, entrou para o Collège Charlemange, tornando-se amigo de Théophile Gautier (o idealista da arte pela arte). Cada vez mais distante dos hábitos burgueses da época, Gérard de Nerval vagueava pelas ruas da cidade, assobiava contra o vento a sua crença numa poesia que lhe estabelecesse a ponte entre a realidade, ambígua e esquiva, e fantásticos mundos invisíveis, os de uma embriaguez ainda tímida. Em 1926, publicou as Elegias Nacionais e uma comédia satírica. Pouco depois, estava a traduzir o Fausto de Goethe. O sucesso da tradução garantiu-lhe algum prestígio entre os pares. Estudos de medicina, ofícios numa tipografia e num notário, não o reencaminharam na boa vida (queira lá isso dizer o que bem entender o leitor). Preso em arruaças, juntou-se a um círculo de “intelectuais” que, além de poesia e contos e teatro e etc., apreciava sobretudo a intensidade da vida. Nerval apaixonou-se pela cantora de ópera Marguerite Colon. Cartas anónimas e outros mimos não bastaram à musa, que acabou por se casar com Louis-Gabriel Leplus. Aos 26 anos, começou o bardo a viajar incansavelmente. Publicou dramas, óperas, uma revista de vida efémera, tornou-se amigo do jovem Baudelaire, com quem partilhava o gosto pelo haxixe. Passou alguns tempos, em missão oficial, na Viena de Áustria, tendo de lá regressado sem um tostão, chegando mesmo a cumprir parte da viagem a butes. Seguiu-se a Bélgica, a Alemanha na companhia de Dumas, o Levante, a primeira crise de loucura. Marguerite Colon, ou Jenny Colon, morreu em 1842. O nosso poeta ficou destroçado. Foi curar as mágoas para a Holanda, Inglaterra, traduziu Heine, começou a publicar os esquissos das suas Viagens pelo Oriente, voltando a ter mais uma crise nervosa. Entre as viagens, tornaram-se mais frequentes as suas visitas a casas de saúde. Ataques de loucura pautavam-lhe a escrita, acabando internado por diversas vezes. Em 1854, publicou As Filhas do Fogo e As Quimeras. Os internamentos motivam rumores sobre o seu desaparecimento, chegando mesmo a ser publicado um pseudo-obituário no Journal des Débats. Com o Inverno a aproximar-se e sem residência fixa, abandonou uma clínica após a intervenção da Sociedade dos Homens de Letras. Foi pior a emenda que o soneto. 1855. Nerval levava uma vida de vagabundo, tentava auxilio junto de vários amigos/conhecidos. «Na manhã de 26 de Janeiro encontram-no enforcado na rua da Velha Lanterna, à porta de um albergue nocturno, num dos locais mais imundos e sinistros de Paris». Tinha 46 anos.

VERSOS DOURADOS

Mas quê? Tudo é sensível!
Pitágoras

Homem, livre em pensar e que crês só tu ser
O Cérebro de um mundo em que tudo germina,
A tua liberdade tuas forças domina,
Sem das dos outros seres fazeres-te obedecer.

Dos animais a alma aprende a perceber…
É espírito a flor da natura eclodida.
E há um mistério de amor que até o metal anima
Tudo é sensível ─ e sobre ti tem poder.

Teme pois o olhar das paredes. As coisas
Materiais todas têm o seu Verbo discreto
Nada uses, vê bem, com um intuito ímpio.

Num ser obscuro às vezes há um deus que ignoto poisa
E, qual olhar envolto em pálpebra secreta,
No âmago da pedra há um espírito vivo.


Fontes: biografia ─ As Quimeras, trad. e intr. de Alexei Bueno, Hiena Editora, Julho de 1995; poema ─ As Filhas do Fogo, trad. Manuel João Gomes, 2.ª edição, Editorial Estampa, Março de 1997.

CANTA-SE AO MAR


Nada poderá afastar da minha memória
A luz daquela misteriosa lâmpada,
Nem o efeito que teve nos meus olhos
Nem a impressão que me deixou na alma.
Tudo pode o tempo, contudo
Creio que nem a morte há-de apagá-la.
Se me permitem, vou explicar-me aqui
Com o melhor eco da minha garganta.
Francamente, naquele tempo eu nem
Compreendia como me chamava,
Ainda não tinha escrito o primeiro verso
Nem derramado a primeira lágrima;
O meu coração era nem mais nem menos
Que o quiosque esquecido de uma praça.
Mas sucedeu que certo dia meu pai
Foi colocado no sul, na remota
Ilha de Chiloé onde o Inverno
É como uma cidade abandonada.
Parti com ele e sem pensar chegámos
A Puerto Montt numa manhã clara.
A minha família tinha vivido sempre
No vale central ou na montanha,
De maneira que nunca, nem por sombras,
Se falou do mar em nossa casa.
Sobre este assunto eu sabia apenas
O que ensinavam na escola pública
E uma ou outra questão contrabandeada
Nas cartas de amor das minhas irmãs.
Descemos do comboio entre bandeiras
E um solene festival de sinos
Quando o meu pai me pegou pelo braço
E devolvendo os olhos à brancura,
Livre e eterna espuma para onde
Ao longe um país sem nome navegava,
Como quem reza uma oração me disse
Com a voz que trago intacta nos ouvidos:
«Este é, rapaz, o mar». O mar sereno,
O mar que banha de cristal a pátria.
Não sei dizer porquê, mas deu-se que
Uma força maior me encheu a alma
E sem medir, sem sequer suspeitar,
A real magnitude da minha campanha,
Comecei a correr, sem peso nem medida,
Como um desesperado na direcção da praia
E num instante memorável estava
Frente a esse grande senhor das batalhas.
Foi então que estendi os braços
Sobre o rosto ondulante das águas,
O corpo rígido, as pupilas fixas
Na verdade sem distância nem fim,
Sem que no meu ser se movesse um cabelo,
Como a sombra azul das estátuas!
Quanto tempo durou o nosso cumprimento
Não poderão as palavras dizê-lo.
Devo apenas acrescentar que naquele dia
Nasceu na minha mente a inquietude e a ânsia
De fazer em verso o que onda a onda
Deus criava incessantemente a meus olhos.
Data desde então a fervente
E abrasadora sede que me arrebata:
É que, na verdade, desde que o mundo existe,
A voz do mar estava na minha pessoa.

Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

sábado, 22 de maio de 2010

A NOITE DO ÍNDIO


A noite do índio promete ser muito escura. Nenhuma estrela brilhará acima do horizonte. Ventos carregados de tristeza gemem ao longe. Um destino ameaçador parece levantar-se no caminho do Pele-Vermelha, e onde quer que este esteja ouvirá sempre os passos do seu impiedoso destruidor.

Mais algumas luas, mais alguns invernos, e não restará nenhum descendente das poderosas tribos que outrora se deslocaram por estas vastas terras e que agora deambulam em bandos dispersos através de extensas e desoladas paisagens. Não ficará ninguém para chorar sobre as sepulturas de um povo que em tempos foi tão poderoso e promissor quanto o vosso.

Mas por que haveria eu de estar aqui a lamentar-me sobre o destino do meu povo? As tribos são compostas de indivíduos, e elas não são melhores do que eles; os homens vão e vêm como as ondas do mar. Uma lágrima, um lamento, um canto fúnebre, e eles partem para sempre dos nossos pesarosos olhos. Até o Homem-Branco, com quem o seu Deus caminhou e falou, como entre amigos, não está livre de um tal destino. Afinal, talvez sejamos irmãos. Veremos isso.



Chefe Seattle, in A Noite do Índio – discurso proferido em 1854, trad. Joaquim Palma, Casa do Sul, 2.ª edição, Abril de 2007, pp. 25-26.

É ESQUECIMENTO



Juro que não recordo o seu nome,
Mas morrerei chamando-a de Maria,
Não por simples capricho de poeta:
Pelo seu aspecto de praça de província.
Que tempos aqueles!, eu um espantalho,
Ela uma jovem pálida e sombria.
Uma tarde, ao regressar do Liceu,
Soube da sua morte imerecida,
Notícia que me causou tal desilusão
Que derramei uma lágrima ao ouvi-la.
Uma lágrima, sim, quem o imaginaria,
Em mim que sou pessoa de energia.
Se conceder crédito ao que foi dito
Por quem me trouxe a notícia
Devo acreditar, sem vacilar minimamente,
Que morreu com o meu nome nas pupilas,
Algo que me surpreende, pois nunca
Foi para mim senão uma amiga.
Nunca tive com ela mais do que simples
Relações de estrita cortesia,
Nada mais que palavras e palavras
E uma ou outra memória de andorinhas.
Conheci-a na minha terra (da minha terra
Resta apenas uma quantidade de cinzas),
Mas jamais vi nela outro destino
Senão o de uma jovem triste e pensativa.
Tanto assim foi que até cheguei a tratá-la
Com o celeste nome de Maria.
Circunstância que prova claramente
A exactidão central da minha doutrina.
Pode ser que a tenha beijado uma vez,
Quem é que não beija os seus amigos!,
Mas tende presente que o fiz
Sem dar-me bem conta do que fazia.
Não negarei, isso sim, que me agradava
A sua imaterial e vaga companhia
Que era como o espírito sereno
Que anima as flores domésticas.
De modo algum posso ocultar
A importância que teve o seu sorriso
Nem desvirtuar a influência favorável
Que até mesmo nas pedras exercia.
Acrescentemos, ainda, que da noite
Foram os seus olhos fonte fidedigna.
Mas, apesar de tudo, é necessário
Que se compreenda que eu não a queria
Senão com esse vago sentimento
Que dedicamos a um familiar doente.
Não obstante, sucede, não obstante,
Que ainda hoje me maravilha
Esse inaudito e singular exemplo
De morrer com o meu nome nas pupilas,
Ela, complexa rosa imaculada,
Ela que era uma lâmpada genuína.
Têm razão, muita razão, as pessoas
Que se vão queixando noite e dia
De que o mundo traidor em que vivemos
Vale menos que uma roda parada:
Muito mais digna é uma tumba,
Mais valor tem uma folha embolorecida.
Nada é verdade, aqui nada perdura,
Nem a cor do cristal com que se olha.

Hoje é um dia azul de Primavera,
Creio que morrerei de poesia,
Dessa famosa jovem melancólica
Não recordo nem o nome que tinha.
Sei apenas que passou por este mundo
Como uma pomba fugidia:
Esqueci-a sem querer, lentamente,
Como todas as coisas da vida.


Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

HÁ UM DIA FELIZ


Esta tarde dediquei-me a percorrer
As solitárias ruas da minha aldeia
Acompanhado pelo bom crepúsculo
Que é o único amigo que me resta.
Está tudo como dantes, o Outono
E a sua difusa lâmpada de névoa,
Só que o tempo invadiu tudo
Com o seu pálido manto de tristeza.
Por nenhum instante pensei, acreditem,
Voltar a ver esta querida terra,
Mas agora que regressei não entendo
Como pude afastar-me da sua porta.
Nada mudou, nem as suas casas brancas
Nem os seus velhos portões de madeira.
Está tudo no seu lugar; as andorinhas
Na torre mais alta da igreja;
O caracol no jardim; e o musgo
Nas húmidas mãos das pedras.
Não se pode duvidar, este é o reino
Do céu azul e das folhas secas
Onde tudo e cada coisa tem
A sua singular e plácida legenda:
Até na própria sombra reconheço
O olhar celeste da minha avó.
Estes foram os feitos memoráveis
Que a minha primeira juventude presenciou,
O correio na esquina da praça
E a humidade nas muralhas velhas.
Que maravilha, meu Deus, nunca ninguém
Sabe apreciar a verdadeira felicidade,
Quando a imaginamos mais afastada
É justamente quando está mais próxima.
Ai de mim, ai de mim, algo me diz
Que a vida não é mais que uma quimera;
Uma ilusão, um sonho sem fronteiras,
Uma pequena nuvem passageira.
Vamos por partes, não sei bem o que digo,
A emoção sobe-me à cabeça.
Como já era a hora do silêncio
Quando empreendi a minha singular empresa,
Uma atrás de outra, em muda agitação,
Ao estábulo regressavam as ovelhas.
Saudei-as pessoalmente a todas
E quando estive frente ao bosque
Que alimenta o ouvido do viajante
Com a sua inefável música secreta
Recordei o mar e contei as folhas
Em homenagem às minhas irmãs mortas.
Muito bem. Segui a minha viagem
Como quem nada espera da vida.
Passei frente à roda do moinho,
Detive-me diante de uma mercearia:
O aroma do café é sempre o mesmo,
Sempre a mesma lua na minha cabeça;
Entre o rio de outrora e o de agora
Não distingo nenhuma diferença.
Reconheço-a bem, esta é a árvore
Que o meu pai plantou frente à porta
(Pai ilustre que nos seus bons tempos
Foi melhor que uma janela aberta).
Atrevo-me a afirmar que a sua conduta
Era uma cópia fiel da Idade Média
Quando o cão dormia docemente
Debaixo do ângulo recto de uma estrela.
Sinto que nestas alturas me envolve
O delicado aroma das violetas
Que a minha amorosa mãe cultivava
Para curar a tosse e a tristeza.
Quanto tempo passou desde então
Com certeza não o poderia dizer;
Está tudo igual, seguramente,
O vinho e o rouxinol em cima da mesa,
A esta hora os meus irmãos mais novos
Devem estar a regressar da escola:
Só que o tempo apagou tudo
Como uma branca tempestade de areia!



Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

«EU NÃO SOU EU NEM SOU O OUTRO, SOU QUALQUER COISA DE INTERMÉDIO: PILAR DA PONTE DE TÉDIO QUE VAI DE MIM PARA O OUTRO»

Nascido em Lisboa a 19 de Maio de 1890, Mário de Sá-Carneiro perdeu a mãe quando contava apenas 2 anos de vida. O facto veio a revelar-se determinante no desenvolvimento da personalidade do poeta. Com uma carreira militar a dar os primeiros passos, o pai de Mário de Sá-Carneiro acabou por deixá-lo ao cuidado dos avós numa quinta situada em Camarate. Aos 8 anos, perdeu a avó, tendo então passado a viver apenas com o avô e uma ama. O ambiente da quinta estimulou-lhe a imaginação e, consequentemente, as primeiras peças teatrais. Entretanto, o seu pai investia a fortuna em viagens por Paris, Roma, Nova Iorque, mimando o menino e, por vezes, levando-o consigo pelos melhores hotéis da Europa. Ao que parece, o jovem foi sempre tão mimado que aos 14 anos ainda não se sabia vestir sozinho. Este estilo de vida atípico, fez com que só muito mais tarde do que seria previsível tenha o jovem entrado para o Liceu do Carmo, posteriormente Liceu de S. Domingos, para aí concluir o ensino secundário com 21 anos já feitos. A vida sedentária tê-lo-á tornado socialmente inadaptado, tímido e com alguma vergonha do excesso de peso, característica que o levou a chamar-se a si próprio, não sem ironia, de Esfinge Gorda. No liceu, continuou a desenvolver a apetência pela literatura, sobretudo pelo teatro. Em 1904, redige e publica um jornal académico intitulado O Chinó. Traduz Schiller, Goethe, Victor Hugo, entre outros. Começa a escreve os primeiros poemas: «O amor não é um bem: / Quem ama sempre padece». À escrita, devem juntar-se breves e malogradas experiências como actor. Em 1908, começou a publicar poesias e contos na revista Azulejos. Eram estes os seus temas aos 18 anos: loucura e suicídio. 1910 será um ano marcante. Escreve a peça Amizade com o amigo Tomás Cabreira Júnior, o qual se suicidará, com um tiro na cabeça, no pátio do Liceu de S. Domingos, a 9 de Janeiro de 1911. Num poema dedicado ao amigo, escreverá Mário de Sá-Carneiro: «Amor! Quem tem vinte anos / Há-de por força amar. / Na idade dos enganos / Quem se não há-de enganar?» (A Um Suicida) Cito António Quadros: «Com este ano de 1911 completa-se um primeiro ciclo da vida do poeta, o ciclo estudantil. É o ano em que se suicida o seu melhor amigo, em que pensa já muito a sério a sua qualidade de escritor, em que termina o liceu e em que se matricula na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, cujo primeiro ano não chega sequer a concluir». O segundo ciclo será o da publicação e representação de Amizade (1912), das colectâneas de contos Princípio (1912) e Céu em Fogo (1915), do livro de poemas Dispersão (1914) e da novela A Confissão de Lúcio (1914). As obsessões do contista serão sempre as mesmas: suicídio, crime, loucura, morte. Princípio confere-lhe algum reconhecimento junto do meio literário lisboeta. Após uma fugaz passagem por Coimbra, Mário de Sá-Carneiro conheceu Fernando Pessoa na capital. Pouco depois, o poeta de Dispersão partiu para Paris. Aí travou conflituosas relações com Santa-Rita Pintor, ao mesmo tempo que se deixava emaranhar na vida artística parisiense: «Que droga foi a que me inoculei? / Ópio de inferno em vez de paraíso?... / Que sortilégio a mim próprio lancei? / Como é que em dor genial eu me eternizo?». Problemas financeiros, traziam-no, de quando em vez, a Portugal. Assim como a ameaça de uma invasão alemã que pairava sobre a capital francesa em tempos de Guerra. Passa cerca de um ano, entre 1914 e 1915, junto dos seus camaradas modernistas: Fernando Pessoa, Luís de Montalvor, Armando Côrtes-Rodrigues, Raul Leal, Almada Negreiros, António Ferro, entre outros. Reúnem-se em tertúlias de café, no Martinho da Arcada, na Brasileira, etc.. Deste convívio resultará a revista Orpheu, cujo 1º número verá a luz do dia em Março de 1915. Os textos de Álvaro de Campos provocaram escândalo, o grupo foi visto como um bando de malucos que deixou Fernando Pessoa em êxtase. Esgotado o 1.º número, o 2.º saiu em Julho. Nesse mesmo mês, Mário de Sá-Carneiro partiu definitivamente para Paris. Com o pai novamente casado, sem a fortuna de outrora, a subsistência do poeta ficou nas suas próprias mãos. O pai ainda lhe mandava algum dinheiro, mas não o suficiente que pudesse garantir a sua subsistência e a continuidade dos projectos literários que havia planeado. Escreve os últimos poemas de Indícios de Oiro, o livro que ficará inédito: «Uma gaveta secreta / Com segredos de adultérios… / Porta falsa de mistérios ─ / Toda uma estante repleta: // Seja enfim a minha vida / Tarada de ócios e Lua: / Vida de Café e rua, / Dolorosa, suspendida ─ // Ah, mas de enlevo tão grande / Que outra nem sonho eu prevejo… / ─ A eterna mágoa dum beijo, / Essa mesma, ela me expande…». Nos derradeiros meses em Paris, uma paixão desastrada por uma prostituta chamada Lili (Helena? Renée?), a falta de dinheiro e o desespero levam-no a tomar 5 frascos de arseniato de estricnina. Tinha 10 cêntimos no bolso do colete.

terça-feira, 18 de maio de 2010

«APÓS A TUA MORTE, SERÁ BREVE O TEU SONO E RENASCERÁS NUM TUFO DE ERVA QUE SERÁ PISADO OU NUMA FLOR QUE O SOL CRESTARÁ»

Em certos casos a lenda vale mais do que a história. E daí? Toda a nossa vida é uma lenda mal contada. Somos apenas elementos de um mito que cada um constrói à sua maneira. A vida dos outros, o que julgamos saber ou poder saber da vida dos outros, servir-nos-á apenas para nos confrontarmos com a nossa própria vida e daí sacarmos os exemplos que nos forem mais pedagógicos Que vale mais? / Sentar-se numa taberna e fazer exame de consciência / ou ajoelhar-se na mesquita, de alma fechada? / Nada me preocupa saber se temos um Senhor / e que fará ele de mim, no final. Nada me preocupa saber se estas palavras foram proferidas por Omar Khayyam ou por um qualquer espírito santo das arábias. Por mim, pode a Bíblia ter sido escrita por Deus, pode Platão ser um heterónimo de Sócrates, pode Deus ser um pseudónimo das coisas perfeitas. Estou-me nas tintas. Se evoco nomes, faço-o como os índios faziam ao evocarem o espírito dos antepassados. Não para conhecê-los, mas para me orientar no caminho da gloriosa estupidez. Ao pé deles, somos sempre recém-nascidos. Baudelaire chamava-lhes faróis. Sejam. Interessa-me a palavra, a que foi escrita, e sobre ela construir histórias que me ajudaram a construir a minha própria história, o meu mito. Leio que Omar terá nascido a 18 de Maio de 1048, em Neyshapur, na Pérsia. Ou terá sido a 25 de Julho? Que importa a data de nascimento de um homem? Importará a quem pretenda fazer dos astros a ferramenta dos seus mitos. Sabes que não tens nenhum poder sobre o teu destino. / Por que te causa ansiedade a incerteza do amanhã? / Se és um sábio, goza o momento actual. / O futuro? Que te reservará? A morte. Essa terá acontecido em 1131, a 4 de Dezembro. Entre o ter nascido e o ter morrido, Omar Khayyam ─ que belo nome tinha, Ghiyath al-Din Abu'l-Fath Umar ibn Ibrahim Al-Nisaburi al-Khayyami ─ foi o que os grandes homens do seu tempo eram. Filósofo, matemático, astrónomo, homem de ciências e poeta hedonista. São famosas as suas Rubaiyat. Se não são dele, a ele ficaram atribuídas. «Rubaiyat é o plural da palavra persa ruba’i que designa uma pequena composição em verso composta por duas linhas, cada uma delas com um hemistíquio ou quebra, que transforma assim essas duas linhas em quatro versos». Exemplo: O vasto mundo: um grão de poeira no espaço. / Toda a ciência dos homens: palavras. / Os povos, os animais e flores dos sete climas: sombras. / O resultado da tua perpétua meditação: nada. Dizem-nos que o poeta andou por terras do actual Afeganistão a estudar sob os ensinamentos do Sheik Muhammad Mansuri, tornando-se posteriormente discípulo de Avicena. Ganhou fama como matemático e geómetra. Outra lenda, diz-nos que foi muito amigo de Nizam Al-Mulk e Hassan Ibn Sabbah. Os três terão feito um pacto que consistia em auxiliarem-se uns aos outros conforme as posições de relevo que viessem a ocupar. Nizam chegou a secretário do sultão Alp Arslan, oferecendo um posto administrativo a Hassan e uma pensão vitalícia a Omar. Graças a essa pensão, pôde o jovem filósofo continuar a estudar e a escrever, sossegadamente, num «jardim de delícias terrenas»: Um pedaço de pão, um copo de água fresca, / a sombra de uma árvore e os teus olhos! / Nenhum sultão é mais feliz que eu. / E nenhum mendigo é mais triste. Um dado curioso: não tendo ficado satisfeito com a oferta do amigo, Hassan Ibn Sabbah ter-se-á refugiado nas montanhas originando a seita dos Hassassin (ou hashshashin, consumidores de hashish). Omar Khayyam, pelos vistos, era mais vinho: Vinho! O meu coração enfermo quer este remédio! / Vinho de perfume almiscarado! Vinho, cor de rosas! / Vinho, para extinguir o incêndio da minha tristeza! / Vinho e o teu alaúde de cordas de seda, ó minha bem-amada! A que outra sabedoria poderemos nós aspirar? Amigo, não faças nenhum projecto para amanhã. Sabes, tu, ao menos, se poderás acabar a frase que vais começar? Amanhã estaremos, talvez, longe deste albergue, Já semelhantes àqueles que desapareceram há sete mil anos. Todas as citações respigadas em: Omar Khayyam, Rubaiyat – Odes ao Vinho, trad. Fernando Couto, pref. E. M. de Melo e Castro, Editorial Estampa, 3.ª edição, Junho de 1999.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

«E EU COMPREENDO AGORA UM POUCO, COMO É PRECISO AMAR, E TER PENA, E PERDOAR, E DIZER ADEUS...»

Olga Bergolts (Bergholz, Berggolts?) nasceu no dia 16 de Maio de 1910 em são Petersburgo. Filha de um médico e de uma doméstica, estudou artes e literatura na Universidade de Leninegrado. Os seus primeiros poemas foram publicados em 1924, embora o primeiro livro apenas tenha sido dado à estampa dez anos depois, sob patrocínio de Gorki e com grande êxito. Em 1925 juntou-se a um grupo literário onde conheceu Boris Kornilov, seu futuro marido. Do casamento entre Boris e Olga nasceu uma filha, Irina. Terminados os estudos em Leninegrado, a poeta partiu para o Cazaquistão como jornalista. Divorciou-se de Boris Kornilov e juntou-se a Nikolay Molchanov, que virá a morrer de fome em 1942. De resto, a sua vida foi sempre marcada pela tragédia. Perdeu dois filhos, viu Boris Kornilov ser assassinado pelo regime que então vigorava na URSS, foi presa em 1937, torturada a ponto de dar à luz uma criança prematura, tendo sido libertada apenas em 1939. Os seus versos são sintomáticos da vida que teve: «Eu nunca poupo o meu coração: / nem na canção, nem na amizade, nem na dor, nem na paixão…» Durante a II Grande Guerra, juntou-se ao Partido Comunista e foi a voz da resistência na rádio de uma Leninegrado sitiada pelo exército Nazi. Para tal, contou com a ajuda da amiga Anna Akhmátova. Foi também nesse período que perdeu o segundo marido e o filho, conquistando ao mesmo tempo uma forte reputação junto dos cidadãos de Leninegrado que encorajava e procurava motivar com os seus poemas. «A sua poesia assume o carácter de uma confissão íntima, uma auto-expressão, muitas vezes com a forma de diário». Além de poesia, Olga Bergolts escreveu romances, prosa diarística, etc.. Com o termo da Guerra, viu o seu esforço ser premiado e a sua poesia reconhecida internacionalmente. Morreu no dia 13 de Novembro de 1975:

E eu digo-lhe, que não são
vãos os anos que vivi,
nem inúteis os caminhos percorridos,
ou sem objectivo tudo o que ouvi.
Não são imunes ao mundo,
nem são imaginariamente uma prenda de anos,
os amores em vão também não foram,
amores fraudulentos ou doentes,
a sua luz limpa e imortal
sempre em mim,
sempre em mim.
E nunca é tarde para de novo
começar toda a vida,
encetar o caminho,
para que do passado ─ nem uma palavra,
nem um gemido seja destruído.



Poema respigado na Antologia da Poesia Soviética, trad. Manuel de Seabra, Editorial Futura, Dezembro de 1973.

sábado, 15 de maio de 2010

«QUE ARMEM A FOGUEIRA»

Tenho descurado os meus poetas, o que é bem melhor do que tê-los descorado ou decorado. Vou indo na sombra da trovoada, com a bússola aos trambolhões e muita vontade de reaprender o mundo. Vou indo bem, muito obrigado. Reparo agora que o Amadeu Baptista fez anos há dias, mais propriamente no passado dia 6. Nasceu em 1953, no Porto. Num dos seus livros mais recentes, que por acaso é um dos meus preferidos, o acontecimento aparece versado nestes modos: «Logo no primeiro ano / estou só / e não me consigo manter de pé. // Se suspeitasse sequer / que iria ser assim para toda a vida / não me riria // com estas gargalhadas / cristalinas» (Açougue, p. 11). Parabéns. Quem lhe quiser saber da vida, é bom que comece por esse livro, Açougue, ou pel’Os Selos da Lituânia, colecções de poemas onde a carga biográfica é mais nítida. De bons poemas, excelentes poemas. Conheci o homem por intermédio do Rui Almeida. Encontrámo-nos no Parque, onde os passarinhos se deixavam fotografar pelos olhos esbugalhados dos poetas. O canto é outro assunto. Fica para os livros. Passeámos o peso pelas ruas das Caldas, viemos parar cá a casa. Eu ofereci aos meus amigos um bife com um arroz de boa memória (cozinhado pela Ana, claro). Os meus amigos ofereceram-me duas caixas com livros. E nesse gesto, como noutros similares, a vida adquire aquele sentido que teima em escapar às consciências inquietas. A minha mulher queixa-se disso, que eu interrogo-me tanto, encho a cabeça de tanta dúvida, que depois não me sobra espaço para desfrutar das pequenas boas coisas. Talvez devesse arranjar um cérebro externo para as pequenas boas coisas. Mas voltemos ao poeta. Se os livros não chegarem ao leitor, contente-se em saber que o poeta frequentou a Faculdade de Letras da Universidade do Porto, semeou palavras por jornais, revistas, antologias e quejandos espalhados pelo mundo. Está traduzido em várias línguas, mas também traduziu vários poetas. Sobretudo da língua de Cervantes. Mais: fundou e co-dirigiu a publicação Babel – fascículos de poesia, e co-organizou a revista Orfeu 4. Organizou diversas e diversificadas antologias, integrou o Júri de vários prémios literários e tem vindo a amealhar outros tantos. Este é um elemento fulcral para quem um dia quiser perceber a sobrevivência dos poetas na actualidade. Amadeu Baptista, é de todos sabido, tem sido um dos mais prolixos autores da nossa contemporaneidade. Escreve imenso, publica imenso, mormente livros que vão, aqui e acolá, merecendo a confiança, a simpatia, o gosto, o respeito, a admiração dos júris a quem cabe essas decisões. Pessoalmente, não gosto tanto de alguns desses livros como gosto de outros. Quem muito escreve arrisca-se a isso. Mas desagrada-me ainda mais o descaso, ou uma certa altivez que por vezes paira no ar perante este tipo de fenómenos. É como se ganhar prémios passasse a ser defeito. No caso, o próprio autor vai explicando que não só não é defeito como é pura necessidade. Ninguém vive sem sustento, os prémios ajudam. Quem vier atrás que feche a porta... Dito isto, refira-se ainda que em 2007 o poeta arrumou 25 anos de actividade literária num único volume: Antecedentes Criminais – Antologia Pessoal 1982-2007. A estreia, está visto, data desse ano da graça de 1982. Chamava-se o livrinho As Passagens Secretas. Escrevia-se assim:

Escrevo algumas vezes pelas praias.

Recolho seixos, pequenas coisas, algas
que me fazem lembrar uma outra infância
que respirei algures num outro mar.

Palavras lisas, vocábulos minúsculos, bruma,
são búzios que manejo nos poemas,
descasco, abro
como súbita concha,
ou súbita mulher de seios brandos.

Duas ou três gaivotas, um navio lá longe,
o mar que enrola na areia
─ canções que cantei quando menino ─,

escrevo mansa, torrencial, apaziguadamente,
desperto pela brisa,
a espuma branca,
os lábios que há nas ondas.

Às vezes
pelas praias
reconheço

que pago muito pouco pela água.


Por mim falo: ainda que a cabeça me pese de tão cheia, vai-me sobrando espaço para desfrutar de pequenas boas coisas como esta. Um poema. O resto é a vida, ou, como dizia Jack London, a Lógica Branca.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

VERDADE OU MENTIRA, DÁ UM BELO MICRÓBIO

Durante alguns meses, acreditou-se que o quarto 311, do hospital Dom Pedro em Aveiro, tinha uma maldição. Todas as sextas-feiras de manhã, os enfermeiros descobriam um paciente morto neste quarto da unidade de cuidados intensivos. Claro que os pacientes tinham sido alvo de tratamentos de risco mas, no entanto, já não se encontravam em perigo de morte. A equipa médica, perplexa, pensou que existisse alguma contaminação bacteriológica no ar do quarto. Alertadas pelos familiares das vítimas, as autoridades conduziram um inquérito. Os utentes do 311 continuaram, no entanto, a morrer a um ritmo semanal e sempre à sexta-feira. Por fim, foi colocada uma câmara no quarto e o mistério resolveu-se: todas as sextas-feiras de manhã, pelas 6 horas, a mulher da limpeza desligava o ventilador do doente para ligar o aspirador.

terça-feira, 11 de maio de 2010

BOAS COMPANHIAS


Os devotos de John Barleycorn são assim. Quando lhes bate à porta a boa sorte, bebem. Quando não têm sorte, bebem na esperança de boa sorte. Se a sorte é madrasta, bebem para esquecer. Se encontram um amigo, bebem. Se discutem com um amigo e perdem essa amizade, bebem. Se os seus assuntos amorosos são coroados de sucesso, ficam tão felizes que é obrigatório beberem. Se forem abandonados, bebem pela razão contrária. E se não têm nada para fazer, pois bem, tomam uma bebida, seguros de que, quando tiverem tomado um número suficiente de bebidas, as larvas começarão a rastejar nos seus cérebros e não terão mãos a medir com coisas para fazer. Quando estão sóbrios, querem beber; e, quando bebem, querem beber mais.


Jack London, in Memórias de um Alcoólico - John Barleycorn, trad. Ana Barradas, Antígona, Outubro de 2001, p. 87.


Nota: John Barleycorn é a personificação tradicional da bebida à base de malte (visto que Jack London preferia uísque). A expressão foi popularizada pelo poeta Robert Burns, que bebia muito, em Tam O'Shanter, «John Barleycorn, inspirador e ousado - Que perigos consegues fazer-nos arrostar».

segunda-feira, 10 de maio de 2010

CHEGA DE FADO

O percurso que marca a afirmação de Paulo Kellerman (n. 1974) como um dos mais consistentes contistas portugueses começou com várias publicações caseiras que coligiam estórias mais ou menos absurdas, grotescas, irónicas. A primeira colectânea que a Deriva lhe publicou − Gastar Palavras (2005, Grande Prémio de Conto “Camilo Castelo Branco” C.M. de Vila Nova de Famalicão/ APE em 2006) – revelou-nos um autor com suficiente agilidade para, dentro de um mesmo registo narrativo, produzir inflexões nas temáticas predilectas e experimentar novos caminhos. Se é verdade que algumas das publicações caseiras já vinham anunciando um autor especialmente focalizado nas rotinas da vida a dois, menos verdade não será que essas rotinas foram sendo aprofundadas do ponto de vista reflexivo nos livros subsequentes: Os Mundos Separados que Partilhamos (2007) e Silêncios Entre Nós (2008). Nesses livros, erguidos a partir de diálogos informais com pinturas de diversos artistas, a vida a dois aparece retratada sob uma perspectiva existencial, refém da melancolia e da monotonia que o objecto observado imprime no observador. Não se nota em nenhuma dessas compilações um esforço de distanciamento que permitisse pensar as relações humanas neste mundo contemporâneo, que só dizemos civilizado por distracção, para lá da previsibilidade dos comportamentos mais facilmente detectáveis. O que se nota é uma revelação perspicaz da fractura que a encenação da vida conjugal civilizada estabelece entre a intimidade e a partilha.

Há nas personagens de Paulo Kellerman como que uma impossibilidade de comunicação que coloca os indivíduos numa redoma solitária sem solução aparente. Chega de Fado (Fevereiro de 2010) parece pretender desbravar esse caminho. Partindo de uma ligeira investigação etimológica, os nomes das personagens dão o mote às estórias. Dez estórias cujos títulos enunciam uma relação separada por um travessão fortemente simbólico. Assim, Paula / Miguel não são Paula e Miguel, duas entidades subsumidas na confusão das fusões, mas sim dois seres cuja relação está separada por um obstáculo indefinido. Pergunto-me se esse obstáculo não será a própria dificuldade que cada uma das personagens sente em revelar-se. Pergunto-me se essa dificuldade não advirá de um erro de princípio, o da presunção de uma intimidade que não existe senão em relação com o outro. Afinal, de que falamos quando falamos de mundo civilizado? Falamos, sobretudo, de uma educação para a maquilhagem, para o disfarce, de uma educação para a hipocrisia. O matrimónio, enquanto sustento das sociedades aparentemente monogâmicas, é só um dos disfarces mais hipócritas. Sujeitas a vidas miseráveis, as pessoas prometem-se até à morte umas às outras, ao mesmo tempo que em vida se vão afirmando individualmente através da traição encapotada. Dizem-nos que é pecado amar ao quadrado ou ao cubo, para que a nossa consciência moral nos afogue nas marés revoltosas do arrependimento. Matamos por ciúme, matamo-nos por ciúme, por termos o coração educado para a posse do outro, quando, afinal, o deveríamos antes ter educado para a nossa própria posse, para a nossa própria afirmação livre. Pecado deveria ser não amar o mais possível e obrigar o corpo à escravatura da exclusividade.

O desconforto que atravessa as personagens destas dez estórias é o da amargura sentida pelos que vivem diminutivamente. As palavras o indicam: «só um pouquinho» (pp. 8, 15, 25), «quando finalmente conquisto aquele pedacinho de liberdade» (p. 32), «basta estarmos um bocadinho tristes» (p. 33), «passa a haver aquele respeitinho muito agradável» (p. 34), «muito devagarinho» (p. 38), «esforço-me um bocadinho, só um bocadinho, percebe?, para não andar com peninha de mim» (p. 39), «impondo-se um bocadinho» (p. 42), «e acrescenta, baixinho» (p. 45), «talvez, um pedacinho, como se estivesse a invadir demasiado a sua privacidade» (p. 61)… O divórcio, a separação, aparece como a solução aparentemente mais libertadora para um amor que se tornou enfermo por nele ter deixado de haver paixão, por nele os comportamentos serem agora mais mecânicos do que humanos, por nele a imprevisibilidade, o acidente, a surpresa, o espanto, terem dado lugar à monotonia. Não será por acaso a estrutura dramática que caracteriza cada um dos contos, intercalando monólogos reflexivos com diálogos tipicamente teatrais. A encenação dos gestos, dos comportamentos, das expressões, reforça essa ideia de uma identidade perdida algures por detrás das máscaras que separam a vontade do pensamento e o pensamento da acção. O resultado fala por si:

«Nunca te contei, nunca falámos disto; mas a verdade é que durante o nosso abraço diário vou estudando e realizando uma espécie de inventário do teu cabelo. A verdade (suspeito que não gostarias de a conhecer ou, pelo menos, de a consciencializar, de a verbalizar; mas é, efectivamente, a realidade concreta e palpável, definitiva) é que todos os dias descubro um novo cabelo branco na tua cabeça.
Sim, todos os dias: um novo abraço, um novo cabelo branco; todos os dias: menos um dia.

Por vezes (como agora), sinto a tentação de te perguntar se não terás já reparado nesta evidência da passagem do tempo, da diminuição dos dias disponíveis; terás notado que envelheces? E por que motivo nunca falámos sobre isso? Gostava de te confessar, também, o meu receio mais aflitivo; confidenciar-te que temo o dia em que todos os teus cabelos estejam brancos; porque, quando isso acontecer, como poderei continuar a ter a percepção da passagem do tempo?»

Escrito para o Rascunho.

terça-feira, 4 de maio de 2010

APRESENTAÇÃO EM FORMA DE CONVERSA

(Do catálogo de uma exposição)


Os homens são susceptíveis de criar aranhas.
Em todos os cantos há homens em vez de aranhas; em cada homem um canto, sempre, onde nas arrumações do desespero ele pode inventar as suas aranhas.
Falar de vícios quando se leva a mão do jeito de cada um, consecutivas vezes ao mesmo sítio, é desviar o entendimento do acto de criação. E não há vícios na mão solta que se lança no esfomeado jeito de procurar as suas linhas. Entre elas uma há que dignamente atravessa a mão e diz: «procuro pelo menos que as gerações que se me sucedem, me culpem o mínimo que lhes for possível, na vergonha de tiranias a que fui obrigado a assistir». Também o sol que nos foi roubado não era artificial como este que nos vigia.
Salvar a vida não é aprender a nadar; mas é possível, ao comprometê-la, imaginando até ao amor, com o tacto apurado de quem está aprendendo a nadar, o tal jeito esfomeado de procurar as linhas, etc.
Passados os pesados troféus militares, surgem as frágeis aranhas! O chão dará de sua conta o brotar das flores do a-pesar-de-tudo.
Entretanto será difícil distinguir; o chão a ruir, ou as aranhas?
A vida é um perigo: a vida está má para os empresários de dramas alheios. A vida está má para os vendedores de aranhas!
… … … … … … … … … … … … … … … … … … … … …
Depois, mas mesmo muito depois, há as prateleiras dos vícios dos literatos com pesado maxilar superior, que só nelas arrumam o que lhes convém exactamente, mas deixando sempre alguma coisa de fora, que, entalada entre os dois maxilares, lhes mantenha a bocarra aberta. Paciência! Este é o vício que eles têm de se mostrar indefesos depois de perigosos.
… … … … … … … … … … … … … … … … … … … … …

Eu vou-me chegando; são horas de dar comida às minhas aranhas.


O poeta Fernando Lemos nasceu em Lisboa, a 03 de Maio de 1926. Fez os primeiros estudos na Escola António Arroio, prosseguindo depois na Sociedade Nacional de Belas-Artes. A pintura e o desenho aproximaram-no da actividade surrealista lisboeta, tendo participado, em 1952, na famigerada exposição da Casa Jalco, uma casa de móveis e decorações que acolheu escandalosamente as obras de Fernando de Azevedo, Vespeira e Fernando Lemos. Agastado com a claustrofobia da ditadura salazarista, Fernando Lemos partiu para o Brasil em 1953, ano da estreia poética: Teclado Universal. Juntou-se aos exilados da pátria, foi proibido de reentrar em Portugal, naturalizou-se brasileiro. No Brasil, manteve variadíssimas ocupações: de serralheiro a impressor de litografia, publicitário, jornalista, designer, etc.. Foi colaborador do Portugal Democrático, publicando, por exemplo, ilustrações que acompanhavam textos de Jorge de Sena. Cada vez mais ligado às artes visuais, dedicou-se à fotografia. Desenho, pintura e fotografia foram sendo os seus principais interesses. No entanto, Teclado Universal veio a ser republicado e acrescentado ao longo dos anos.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O QUE É GRAVE


Quando não se fala inglês,
ouvir falar de um bom romance policial inglês
que não foi traduzido para alemão.

Ver, quando faz calor, uma cerveja
que não se pode pagar.

Ter um novo pensamento
que não se pode embrulhar num verso de Hölderlin
como fazem os professores.

Em viagem, à noite, ouvir bater as ondas
e dizer para si que elas sempre o fazem.

Muito grave: ser convidado,
quando lá em casa há mais sossego,
o café é melhor
e não é preciso conversar.

O mais grave de tudo:
não morrer no Verão,
quando tudo é claro
e a terra é leve para a enxada.



Versão de Vasco Graça Moura.


Nascido a 2 de Maio de 1886, em Mansfeld, no Bandenburgo, Gottfried Benn foi o mais velho dos filhos de uma larga família dada à luz por um pastor protestante (Gustav Benn) e uma suíça de língua francesa (Caroline Benn). Cresceu a contar histórias aos irmãos mais novos e a odiar a austeridade paterna, que o obrigou a estudos de teologia, primeiro, filologia, depois, e de medicina, finalmente, apesar do seu interesse pelas letras. A perda da mãe, aos 26 anos, forneceu-lhe o motivo para o primeiro livro de poemas: Morgue und andere Gedichte (1912). À publicação do livro, seguiram-se contactos com Else Lasker-Schüler e editores e escritores expressionistas. Enquanto prestava serviços médicos durante a Primeira Grande Guerra, apaixonou-se pela actriz Edith Brosin. O casamento pouco durou. Benn perdeu a mulher em 1921. Especializado em doenças sexuais, atraído pelo nazismo e pela cantora de ópera Ellen Overgaard (a ordem de interesses é aleatória), acabou por ser ostracizado pelos parceiros mais liberais. Mas o regime do Führer também não lhe foi menos hostil. «O poeta passou a uma forma aristocrática de emigração; remetido ao silêncio desde 1936, data em que ainda saem os seus Poemas Escolhidos, silêncio em que vai ficar até 1948 (Poemas Estáticos), em Maio de 1938 fora excluído da Câmara dos Escritores, com radical proibição de escrever e publicar» (Vasco Graça Moura). A razão da hostilidade nazi ter-se-á ficado a dever, antes de mais, ao simples facto dos seus livros terem sido publicados por firmas presididas por judeus. Mas também foi acusado de publicar uma poesia degenerada e homossexual. Ainda assim, voltou a servir durante a Segunda Grande Guerra. Para trás tinham ficado, além dos poemários, uma novela e algumas peças teatrais. Voltou a casar uma segunda e uma terceira vezes. A sua segunda mulher, que era igualmente sua secretária, suicidou-se em Julho de 1945 e, em Dezembro de 1946, o poeta juntou-se a uma jovem dentista chamada Ilse Kaul. Terminada a Guerra, foi relegado ao silêncio pelos aliados. Só a publicação dos Poemas Estáticos reabilitou o autor, publicando a partir de então trabalhos em prosa e em verso. Em 1951, foi-lhe atribuído o Prémio Georg Büchner. Morreu no dia 7 de Julho de 1956, vítima de cancro nos ossos.

TODA A GENTE É INTELIGENTE



Aquilo que nos querem ensinar as formas e as vozes índias: elas têm algo a dizer-nos, e deveríamos escutá-las. Querem mostrar-nos qualquer coisa, assim, simplesmente, sendo elas próprias, sem desejo de convencer ou de conquistar. Querem dizer-nos qualquer coisa, e bem faríamos ouvindo-as.
Pintura viva, pintura do pensamento sobre a pele, sinais alfabéticos que libertam o homem das sujeições e dos medos, que proclamam o reino da universal inteligência. Pintura da consciência. Música sem música, vozes que cantam para atravessar o tecto do mistério, para unir o homem aos outros homens que são os objectos, as plantas e os animais. Desenhos, vozes, gritos de flauta da matéria, e deixa de haver estrangeiro, estranho.
Beleza viva, beleza que existe por si mesma, sem ter de ser reconhecida, exibida, vendida; chega, natural, semelhante à linguagem, da profundidade maior do tempo, sem que seja preciso mudar-lhe um só fragmento. Depois, do outro lado do tempo vai, no centro do próprio porvir, inalterável beleza que é a única liberdade humana.
Basta de arte, basta de expressões individuais! Mas sim: estar unidos, e em conjunto saber ler.
As proezas da ciência, as proezas da linguagem, as proezas dos conquistadores: tudo sem dúvida falsas vitórias, visto não saberem senão subjugar os que as realizam. Os heróis não triunfam, são vítimas das suas próprias palavras.
Mas os que não são heróis, os Índios: vivem, assim, cada qual em seu lado, não inventam nada. Não querem conquistar o mundo, não pretendem persuadir as multidões. Não querem dominar com as suas palavras, com as suas vozes. Instintivamente, o homem índio elimina tudo o que o separe, tudo o que o pudesse tornar superior. Não lhe importa a análise, a história, a missão. Encontra-se de imediato no interior do mundo, no centro da vida. Não precisa seguramente de livros, nem de quadros ─ todo o homem é um livro, é um quadro. A perfeição, a lógica, as ideias novas, isso que é? O Índio leva na pele, à sua volta, nos signos quotidianos, a expressão da beleza, a liberdade.
É isso o que dizem os Índios, e não queremos ouvi-los: TODA A GENTE É INTELIGENTE.



J. M. G. Le Clézio, in Índio Branco, trad. Júlio Henriques, Fenda, Março de 1989, pp. 121-124. Nota: coincidências inexplicáveis fazem com que este livro tenha sido publicado no mesmo ano em que li, pela primeira vez, O Papalagui. Há entre os dois livros um elo discursivo que não cabe aqui revelar, mas cabe dizer que passados todos estes anos voltei a sentir com a leitura de Índio Branco o mesmo que sentira ao ler O Papalagui, ou seja, a sensação de um encontro mágico que oferece, entre outros, o dom de afastar de nós o medo da solidão, até porque assim se prova que nunca está irremediavelmente só aquele que se julga ausente do mundo em que vai procurando sobreviver. Aos amigos: se o não tiverem já feito, comprem, leiam, sublinhem, procurem entender o Índio Branco. Imprescindível.

EU TAMBÉM TENHO SOLUÇÕES PARA A CRISE

Camarada Van Zeller, enquanto as luminárias da nação discutiam a crise entre mais um uísque e crónica paga a preço de mestre, eu estive a lutar contra a depressão universal, tanto quanto me afundei mais um pouco na depressão particular. Que quer vossa excelência? Vivo nesta bipolaridade. Se, por um lado, sinto nos meus esforços um dever pátrio, é certo que, por outro lado, não deixo de sentir nesses mesmos esforços uma enorme frustração pessoal. Está visto que festejei o 1º de Maio à trabalhador, aviando toneladas de livros, substituindo campanhas, afinando a paciência. Entre as toneladas de livros aviados, a surpresa: vendi-me a mim próprio. Estranha sensação, esta de estar a vender-me a mim próprio. Não bastou ter escrito o objecto, sacrificam-me agora com o castigo de o vender. Depois meto-me a fazer contas. Naquele livro estão os esforços de um autor, de um editor, por vezes de um tradutor e de um revisor, de um designer/paginador, de uma gráfica, de um distribuidor, de um revendedor. Como se não bastasse, sem ter feito esforço algum, o Estado também reclama a sua fatia do pudim. Não admira, pois, que nesta viagem que o livro faz entre as mãos do autor e as mãos do leitor, haja quem tenha de morrer à fome. Normalmente é o autor, o que não deixa de ser bem feito. Quem é que o manda pôr-se a escrever livros em vez de fazer qualquer coisa de útil para a sociedade?

Podia antes escrever crónicas como as do Vasco Pulido Valente. Este xamã da nação é um entre muitos que tem a solução para a crise, essa malfadada crise que me levou à exaustão durante o fim-de-semana. Antes de irmos às medidas, não posso deixar de pensar na injustiça que é não entregarem os desígnios do país a gente como o Valente. Ou o Medina. Ou o meu caro camarada Van Zeller. Os senhores é que nos deviam governar, tanta é a sabedoria que exibem e a alquimia que dominam.

O Vasco quer reduzir o número de feriados, o que para mim é uma chatice pois são os únicos dias em que o meu trabalho é pago como deve ser. Como ele não trabalha nos feriados, tanto se lhe dá. Ele quer fechar empresas públicas, mas eu vou mais longe: fechava o próprio Estado, com o Vasco lá dentro. Quer fechar fundações sustentadas pelo Governo, o que seria uma chatice para os meus amigos artistas e para muitos amigos do Vasco que se fartam de produzir “estudos” à conta de tais fundações. Ele quer vender as propriedades do Estado que não tenham interesse nacional. Resta saber quem é que as quererá comprar. A mesma desconfiança vale para a venda dos submarinos e do armamento inútil. Aliás, este ponto é demonstrativo da inteligência que preside às luminárias da nação. Mas quem é que quererá comprar aos portugueses o armamento inútil que os portugueses compraram? Quem serão os néscios com quem poderemos negociar a nossa fatídica estupidez? Antes de procurar vender, não teria sido mais inteligente nunca ter comprado?

O Vasco também quer demolir e vender autódromos. Vendê-los demolidos? Hmmmm…. Tipo, quem quer comprar estas ruínas de um magnifico autódromo que outrora aqui existiu? Eu proponho que o vendam ao meu vizinho cigano que passa o tempo todo a fazer piões aqui no bairro com a sua moto 4. O Vasco quer suspender os grandes projectos. Acho bem. Comecemos por suspender estes grandes projectos do Vasco. Ele não quer nem mais um quilómetro de auto-estrada, nem mais um funcionário público, e eu também não, não só por uma questão de prevenção contra a sinistralidade rodoviária, mas, sobretudo, por uma questão ambiental (refiro-me aos funcionários públicos, malta que geralmente cheira a suor que se farta). O Vasco quer eliminar serviços nocivos como o Instituto do Livro. Eu proponho que se elimine o próprio livro (o de recibos verdes, claro). Ele quer congelar promoções no funcionalismo durante 5 anos, parecendo-me mais útil que congelemos o Vasco tendo em vista uma perspectiva de futuro: podermos contar com ele no ano 2500. Ele quer acabar com o subsídio de férias… Ups. Estou sem palavras.

Acabar com o subsídio de férias? Então e depois como é que eu posso amortizar os créditos? Julgará o Vasco que o subsídio de férias de um tipo que ganha o salário mínimo é para passar férias no Egipto, ir a Nova Iorque ou visitar a Tate Gallery? Por que não começarmos pelas reformas insultuosas de milhares de indivíduos que nunca fizeram senão mamar desse Estado que tanto detestam? Por que não acabar com as forças armadas? E com consulados e cônsules e embaixadores e embaixatrizes que não servem senão para promover viagens e oferecer jantaradas aos amigos intelectuais da lusa pátria? E as regalias dos deputados e dos ministros e dos secretários e sub-secretários e toda essa cambada que passa a vida a roçar o cu nas cadeiras do poder? E esses especuladores de merda que engordam à conta de offshores nos quais ninguém mete a mão e que andam de panelinhas feitas com gestores e administradores públicos? Não é muito, mas seria um começo.

domingo, 2 de maio de 2010

«FOI POR AMOR QUE ODIEI»


Em 1846, tinha eu dezassete anos de idade, fui admitido no conselho dos guerreiros. Fiquei muito feliz, porque já podia ir onde me apetecesse e fazer o que quisesse. Eu nunca estivera sob o controlo de nenhum indivíduo, mas os costumes da nossa tribo proibiam-me de partilhar das glórias da guerra até ser admitido pelo conselho. Depois disto, e quando a oportunidade se apresentasse, eu poderia ir para a guerra com a minha tribo. Seria glorioso. Eu ansiava por servir o meu povo em combate. Há muito que desejava combater ao lado dos nossos guerreiros.
Mas talvez o que me dava maior alegria era o facto de já poder casar com a bela Alope, filha de No-po-so. Era uma rapariga esguia e delicada, e há muito que éramos amantes. Assim, logo que o conselho me concedeu estes privilégios, fui falar com o seu pai sobre o casamento. Talvez o nosso amor não lhe interessasse, ou talvez quisesse conservar Alope consigo, porque ela era uma filha obediente. Fosse como fosse, pediu muitos póneis por ela. Não lhe respondi, e passados poucos dias apareci à frente do seu
wigwam com a manada de póneis e levei Alope comigo. Na nossa tribo, não era necessária mais nenhuma cerimónia de casamento.
Não longe do
tipi de minha mãe, eu construíra uma nova casa para nós. O tipi era feito de peles de búfalo, e lá dentro tinha muitas peles de urso e leão e outros troféus de caça, bem como as minhas lanças, arcos e flechas. Alope fizera muitos adornozinhos com contas e peles de veado desenhadas, e decorou o nosso tipi com eles. Também fez muitas pinturas nas paredes da nossa casa. Era uma boa esposa, mas nunca foi robusta. Seguíamos as tradições dos nossos pais, e éramos felizes. Tivemos três filhos ─ crianças que brincavam, mandriavam ou trabalhavam como eu fizera.
No Verão de 1858, quando estávamos em paz com as cidades mexicanas e todas as tribos índias vizinhas, fomos para sul, para o Velho México, para comerciar. Toda a tribo (Apaches Bedonkohe) passou por Sonora em direcção ao nosso destino, Casa Grande, mas antes de chegarmos a este lugar parámos noutra cidade mexicana, à qual os índios chamam «Kas-ki-yeh». Ali permanecemos vários dias, acampados fora da cidade. Íamos todos os dias à cidade para comerciar, deixando o nosso acampamento ao cuidado de uma pequena guarda que, enquanto estávamos ausentes, protegia as nossas armas, os mantimentos, as mulheres e as crianças.
Um dia, ao fim da tarde, quando regressávamos da cidade, vieram ao nosso encontro algumas mulheres e crianças que nos disseram que tropas mexicanas de outra cidade tinham atacado o acampamento, matando os guerreiros de guarda, capturando todos os póneis, apoderando-se das armas, destruindo os mantimentos e matando muitas das mulheres e crianças. Separámo-nos rapidamente e escondemo-nos o melhor que pudemos até ao cair da noite, altura em que nos reunimos num local pré-estabelecido ─ um matagal, junto ao rio. Regressámos silenciosamente ao acampamento, um de cada vez, e postámos sentinelas. Depois de contados os sobreviventes, descobri que a minha velha mãe, a minha jovem esposa e os meus três filhos estavam entre os mortos. Como não havia fogueiras no acampamento, afastei-me silenciosamente e fui para junto do rio. Não sei quanto tempo lá permaneci, mas quando vi os guerreiros preparando-se para um conselho, tomei o meu lugar.
Nessa noite, não votei contra nem a favor de nenhuma medida, mas chegou-se à conclusão de que não nos poderíamos sair vencedores de um combate: restavam apenas oitenta guerreiros, tínhamos ficado sem armas e mantimentos, e estávamos cercados pelos Mexicanos no interior do seu território. Assim, o nosso chefe, Mangus-Colorado, deu ordens para partirmos imediatamente e no mais absoluto silêncio para as nossas terras do Arizona, deixando os mortos no terreno.
Ali fiquei, de pé, enquanto todos dispersavam, sem saber o que fazer ─ não tinha armas nem queria lutar, e também não pensava em recuperar os cadáveres dos meus entes queridos, porque era proibido. Não rezei nem decidi fazer nada em particular, pois já nada fazia sentido para mim. Por fim, segui silenciosamente a tribo, mantendo-me apenas à distância suficiente para ouvir o arrastar dos pés dos Apaches em retirada.
Na manhã seguinte, alguns índios caçaram uma pequena quantidade de presas, e nós parámos o tempo suficiente para a tribo cozinhar e comer, e depois retomámos a marcha. Como eu não tinha caçado, não comi. Durante a primeira marcha e enquanto estivemos acampados neste lugar, não falei com ninguém nem ninguém falou comigo ─ nada havia a dizer.
Durante dois dias e três noites fizemos marchas forçadas, parando apenas para as refeições. Depois, acampámos perto da fronteira mexicana, onde descansámos dois dias. Foi aqui que ingeri alguns alimentos e falei com os outros índios que tinham perdido entes queridos no massacre, mas ninguém perdera tanto como eu, porque eu tinha perdido tudo.
Passados alguns dias, chegámos à nossa aldeia. Lá estavam as decorações que Alope fizera ─ e os brinquedos dos nossos pequenitos. Queimei tudo, incluindo o
tipi. Também incendiei o tipi de minha mãe, e destruí todos os seus haveres.
Nunca mais fui feliz na nossa tranquila aldeia. É verdade que podia visitar a sepultura de meu pai, mas eu jurara vingança contra os Mexicanos que me tinham injustiçado, e sempre que me aproximava do seu túmulo ou via algo que me fazia recordar os antigos dias de felicidade, o meu coração ansiava por vingança contra o México.


Geronimo, in Geronimo e os Apaches ─ Autobiografia do Último Chefe Índio, trad. Miguel Mata, estudo introdutório de António N. Marcos Andrade, Edições Sílabo, 2005, pp. 66-72.