Segunda-feira, 31 de Maio de 2010

DO AMOR E OUTRAS MENTIRAS


Fedro começa por afirmar que provêm do Amor os maiores benefícios, nomeadamente porque o amor impede os homens de praticar o mal, sob pena de ficarem mal vistos aos olhos dos seus amantes. É dele a ideia de que apenas os que amam se dispõem a morrer por outrem. Terá pensado naqueles que não se amam a si próprios? E nos outros, nos que se dispõem a matar por amor? Já Pausânias chama a atenção de Fedro para a existência de várias formas de amor, entre as quais se distinguem o amor popular (do corpo) e o amor celeste (da alma). Para este, só era digno o amor que incitasse a amar com nobreza. Obviamente que se tratava do amor celeste, pelo que, deduzindo ser Pausânias um homem de virtude, cremos nunca ter o filósofo senão dado umas quecas celestiais. Ao escutar o panegírico de Pausânias, Aristófanes ficou com soluços (eu também ficaria) e passou a palavra a Erixímaco. Este concordava com Pausânias quanto às duas espécies de amor, mas recusava-se a tomar por exclusiva dos humanos a capacidade de amar. Com uma visão panteísta do amor, Erixímaco julga que o amor se manifesta em tudo o que existe. Tudo o que existe pode ser muita coisa.

Passados os soluços, Aristófanes falou de homens, mulheres e seres andróginos. Disse que no início os homens eram arredondados, tinham quatro mãos e igual número de pernas, quatro orelhas, órgãos genitais em número de dois, etc. Só muito depois, perante a resistência de tais seres, pôs-se Zeus a cortá-los às metades. O amor é pois o encontro de um homem com a sua cara-metade, é uma aspiração ao todo. Faz sentido, embora tenha ficado por explicar se, ao encontrar a sua cara-metade, um homem é a cara-metade que a cara-metade que ele encontrou também procurava. Caso contrário, pode alguém que encontrou a sua cara-metade estar a condenar a sua cara-metade a ficar sem a cara-metade que lhe convém. Adiante. Foi então a vez de Ágaton formular o seu encómio ao amor. Que, afinal, era o mais jovem dos deuses, que nada queria com a velhice, que a sua juventude é eterna, que é sempre delicado, de compleição subtil, elegante, justo, belo, temperado e corajoso, «um poeta tão hábil que sabe, inclusive, transmitir a outros a sua arte». Enfim, Ágaton era apenas o mais jovem dos intervenientes. Chegamos a Sócrates.

O mestre socorreu-se das palavras de uma mulher de Mantineia, Diotima: o amor é um ser genial, intermediário entre o humano e o divino, nem mortal, nem imortal, no mesmo dia floresce e morre para voltar à vida. Conta Sócrates que perante esta descrição, perguntou a Diotima qual seria a utilidade do amor. «O Amor é o desejo de possuir o Bem para sempre», e porque é à imortalidade que o homem aspira através do Bem, o Amor tem igualmente em vista a imortalidade (através da geração, da perpetuação). Logo, a utilidade do amor é alcançar a imortalidade. Os cristãos não fizeram melhor. Só depois de Kant é que começámos a olhar para isto com outros olhos. Amar tendo em vista um fim não é bem amar, é ter em vista um fim. Quem ama, simplesmente ama sem outro desejo que não o de ser amado. A imortalidade é poder sentir este encontro com uma cara-metade ou com a metade de uma cara ou com a cara inteira de uma metade cara à cara-metade. A imortalidade não é a vida eterna, não se ambiciona como quem ambiciona um bom emprego. A imortalidade é apenas aquele instante momentâneo que nos leva a crer ter valido a pena estarmos vivos. Crer que valeu a pena não é o mesmo que ter valido.

ISRAEL


A VÍBORA



Durante largos anos estive condenado a adorar
uma mulher desprezível,
A sacrificar-me por ela, a sofrer humilhações e mofas sem conta,
A trabalhar noite e dia para alimentá-la e vesti-la,
A levar a cabo alguns delitos, cometer algumas faltas,
A realizar pequenos furtos à luz da lua,
Falsificações de documentos comprometedores,
Sob pena de cair em descrédito ante os seus olhos fascinantes.
Em horas de compreensão costumávamos ir aos parques
E retratávamo-nos comendo uma refeição ligeira,
Ou íamos a uma danceteria
Onde nos entregávamos a um baile desenfreado
Que se prolongava até altas horas da madrugada.

Largos anos vivi prisioneiro do encanto daquela mulher
Que costumava apresentar-se completamente nua no meu escritório,
Executando as contorções mais difíceis de imaginar,
Com a intenção de cativar a minha pobre alma à sua órbita
E, sobretudo, para extorquir-me até ao último centavo.
Proibia estritamente que me relacionasse com a minha família.
Os meus amigos eram afastados de mim mediante injuriosas acusações
Que a víbora fazia publicar num diário que era sua propriedade.
Apaixonada até ao delírio, não me dava um momento de trégua,
Exigindo-me peremptoriamente que beijasse a sua boca
E que respondesse sem demora às suas néscias perguntas,
Muitas delas sobre a eternidade e a vida depois da morte,
Temas que produziam em mim um lamentável estado de ânimo,
Zumbidos nos ouvidos, náuseas intermitentes, um prematuro
desalento,
Que ela sabia aproveitar com o espírito prático que a caracterizava
Para se vestir rapidamente sem perder tempo
E abandonar o meu sector deixando-me de mãos a abanar.

Esta situação prolongou-se por mais de cinco anos.
A espaços, vivíamos juntos numa habitação arrendada
Que pagávamos a meias num bairro de luxo perto do cemitério.
(Tivemos de interromper a nossa lua de mel algumas noites
Para enfrentarmos as ratazanas que entravam pela janela).

A víbora mantinha um minucioso livro de contas
Onde anotava até ao mínimo centavo o que eu lhe pedia de empréstimo;
Não me permitia usar a escova de dentes que eu próprio
lhe tinha oferecido
E acusava-me de lhe ter arruinado a juventude:
A lançar chamas pelos olhos, intimava-me a comparecer diante do juiz
E a pagar-lhe parte da dívida num prazo prudente
Pois ela precisava desse dinheiro para prosseguir os estudos.
Tive então de sair para a rua e viver da caridade pública,
Dormir nos bancos das praças,
Onde muitas vezes a polícia me encontrou moribundo
Entre as primeiras folhas de Outono.
Felizmente aquele estado de coisas não passou dali,
Porque certa vez em que eu também me encontrava numa praça,
Pousando à frente de uma câmara fotográfica,
Umas deliciosas mãos femininas vendaram-me subitamente
Enquanto uma voz amável me perguntava quem sou eu.
Tu és o meu amor, respondi com serenidade.

Meu anjo, disse ela nervosamente,
Permite que me sente mais uma vez ao teu colo!
Pude então verificar que ela agora apresentava-se
com uma saia muito curta.
Foi um encontro memorável, ainda que repleto de notas discordantes:
Comprei um terreno, não longe do matadouro, exclamou,
E ali penso construir uma espécie de pirâmide
Onde poderemos passar os últimos dias da nossa vida.
Já terminei os estudos, recebo como advogada,
Disponho de um bom capital;
Dediquemo-nos a um negócio produtivo, os dois,
meu amor, acrescentou,
Construamos o nosso ninho longe do mundo.
Basta de sonsices, respondi, os teus planos inspiram-me desconfiança,
Pensa que de um momento para o outro a minha verdadeira mulher
Pode deixar-nos a todos na mais espantosa miséria.
Os meus filhos já cresceram, o tempo passou,
Sinto-me profundamente esgotado, deixa-me repousar um instante,
Traz-me um pouco de água, mulher,
Encontra-me algures algo que se coma,
Estou morto de fome,
Não posso trabalhar mais para ti,
Acabou tudo entre nós dois.


Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

Sábado, 29 de Maio de 2010

OS ONANISTAS

Com tantos quilómetros de voo, já pouco restava que pudesse surpreender o pombo Benjamim. Pelo menos, era o que ele pensava. Pensava mal. E isto foi precisamente o que ele pensou quando deu por si no meio de uma feira de onanistas. Havia deles para todos os gostos. Os solitários, faziam carantonhas feias enquanto se imaginavam enrolados nas suas luxuriantes fantasias. Esfregavam o membro com violência, a ver se de lá vinha alguém que lhes fizesse companhia. E vinha. Alguns, mais vaidosos, chegavam a ejacular espermatozóides autografados. Outros, mais humildes, limitavam-se a disfarçar com astúcia os vestígios da sua momentânea satisfação. Era como se tivessem vergonha de ser apanhados com a mão na botija. Elas, de dedos em garfo, estimulavam o berlinde à procura do consolo que nenhum reconhecimento satisfaria. Eles, de mão em binóculo, exercitavam os músculos do punho com a fúria desesperada de quem já não encontra prazer senão num amor-próprio radical. Porque, no fundo, o que os onanistas procuravam era uma ilusão: o sentirem-se amados, nem que por brevíssimos instantes (e por apenas eles próprios). Há quem chame vaidade a esta tendência, mas a vaidade é outra coisa. A vaidade é a gente vir-se convencidos de que mais ninguém se vem como nós. No onanista, este convencimento foi superado por uma espécie de auto-convencimento que, mesmo assim, não prescinde da mão alheia. Por isso mesmo, confirmou o pombo, havia muitos onanistas naquela feira que se socorriam das mãos disponíveis – e, nestas coisas, como sabemos, haverá sempre alguém disposto a dar uma mãozinha – para alcançarem o gozo da masturbação assistida. Benjamim lembrou-se logo de Pascal, alma doutorada em assuntos de amor-próprio que resumia o problema com inquestionável sabedoria: «Ninguém fala de nós na nossa presença como fala na nossa ausência». No fundo, é a prática na qual esta regra se fundamente que forma e justifica a existência dos onanistas, mesmo quando eles resolvem juntar-se numa orgia, ou numa feira, de masturbação assistida. Resta saber, e isso nem Benjamim logrou descortinar, como se masturba um pombo. Quem souber, que dê uma mãozinha.

Escrito para O Indesmentível.

DENNIS HOPPER (1936-2010)


Mais recentemente, vi-o em Palermo Shooting, de Wim Wenders, e Elegy, de Isabel Coixet, onde dá corpo a um poeta que morre em estado de consagração. Tinha bom ar.

MEMÓRIAS DA JUVENTUDE


O certo é que eu andava de um lado para o outro,
Por vezes chocava com as árvores,
Chocava com os mendigos,
Abria caminho através de um bosque de cadeiras e mesas,
Com a alma agitada via cair as grandes folhas.
Mas era tudo inútil,
Afundava-me cada vez mais e mais numa espécie de geleia;
As pessoas riam-se dos meus entusiasmos,
Os indivíduos agitavam-se nas suas poltronas como algas
[movidas pelas ondas
E as mulheres dirigiam-me olhares de ódio,
Fazendo-me subir, fazendo-me baixar,
Fazendo-me chorar e rir contra a minha vontade.


Disto tudo resultou um sentimento de asco,
Resultou uma tempestade de frases incoerentes,
Ameaças, insultos, promessas que não vinham ao caso,
Resultaram uns movimentos arruinadores de cadeiras,
Aqueles bailes fúnebres
Que me deixavam sem respiração
E que durante vários dias me impediam de levantar a cabeça,
Durante várias noites.

Eu andava de um lado para o outro, é verdade,
A minha alma flutuava nas ruas,
A pedir socorro, a pedir um pouco de ternura;
Com uma folha de papel e um lápis, eu entrava nos cemitérios
Disposto a não me deixar enganar.
Dava voltas e voltas em torno do mesmo assunto,
Observava as coisas de perto
Ou arrancava os cabelos num ataque de raiva.

Assim fiz a minha estreia nas salas de aula,
Arrastei-me pelas academias como um ferido a bala,
Atravessei o umbral das casas particulares,
Tratei de comunicar com os espectadores na ponta da língua:
Eles liam o jornal
Ou desapareciam atrás de um táxi.

Aonde ir então?
Àquelas horas o comércio estava fechado;
Eu pensava num pedaço de cebola visto durante o jantar,
E no abismo que nos separa dos outros abismos.



Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

JÁ NADA ME ESPANTA


A reclamação supra foi deixada numa loja de telemóveis no Centro Comercial onde trabalho. Apaguei algumas referências, de modo a salvaguardar a identidade das pessoas visadas. Não tecerei quaisquer comentários. Carreguem na imagem, leiam e retirem as vossas conclusões.

Sexta-feira, 28 de Maio de 2010

DEZ EPIGRAMAS DE EDUARDO MAZO


O mal da morte
é que, quase sempre,
nos encontra a viver.

*

Não sei se os meus filhos crescem depressa
ou se sou eu que rejuvenesço lentamente.


*

O drama dos crentes começa
quando descobrem que Deus é ateu.



*

Se pudéssemos ler os pensamentos dos outros
e os outros os nossos,
a mentira seria uma víscera.


*

A televisão não estupidifica as pessoas,
apenas o confirma.


*

Há homens casados que mandam as suas mulheres de férias
para poderem masturbar-se tranquilamente.

*

Há apenas dois caminhos
para andar nesta vida.
Um está cheio de pedras
que alguém atira do outro.


*

Vem,
tu, que estás deprimido,
senta-te a meu lado,
aqui, sim,
quero dizer-te algo:
Levanta-te!


*

Ufa!
Escapei à mortalidade infantil!


*

Serei claro:
Estou farto de me esforçar
para não pensar em ti.


Eduardo Mazo, in Autorizado a Vivir (4ª edição, Outubro de 1984).
Versões de HMBF.

O QUE FAZ FALTA

Mas olha que, apesar de trabalhar num hipermercado, essa questão também se me coloca. Ainda hoje, alguém protestou ao balcão o facto de certo livro estar mais barato na rede. É natural, expliquei, podem fazer 10% de desconto porque, enfim, não pagam renda :-), têm menos despesas com empregados, não lhe é dada a oportunidade de folhear o livro, sempre estimulam as vendas através do site. E, muitas vezes, acaba por pagar os portes de envio, ficando o livro até mais caro do que se o comprasse numa livraria. Fui verificar, e, por acaso, era isso que sucedia. Atenção que, pessoalmente, compro muitos livros através da internet. Já tenho mandado vir livros da Poesia Incompleta, Letra Livre, Livraria Leitura, Utopia e, mais recentemente, da Frenesi. E lembro-me de ter conseguido, já lá vão uns bons anos, os primeiros livros do Fernando Guerreiro, que nunca vi à venda em lado nenhum, numa livraria on-line que, se não me engano, chamava-se Byblos. Como noutras coisas na vida, a generalidade das pessoas só entende a importância de algo quando sente a sua ausência. Isto é, quando ficarem sem livrarias onde possam encontrar esses livros, elas lamentarão muito o estado a que o mundo chegou. Depois, vá alguém dizer-lhes que se o mundo chegou ao estado a que chegou foi também por culpa delas. Para amenizar a inquietação, largo uma pérola:

─ Ó senhor, onde têm os livros para doenças da cabeça?
─ Para doenças da cabeça?
─ Pois, para doenças da cabeça.
─ Bem, tem ali os livros de psicologia. Olhe, tem aqui um que se chama Perturbações Mentais…
─ É mesmo isso. Posso lê-lo aqui?
─ Pode. Tem ali um banco onde se pode sentar.
A cliente passa pelo banco, olha para o banco, contorna o pilar, segue na direcção da saída, volta para trás, olha para o balcão e pergunta:
─ Ó senhor, onde é que está o banco?
Moral da história: ainda há gente que sabe o que lhe faz falta.

O PEREGRINO




Atenção, senhoras e senhores, um momento de atenção:
Voltai por um instante a cabeça para este lado da república,
Esquecei por uma noite os vossos assuntos pessoais,
O prazer e a dor podem aguardar à porta:
Ouve-se uma voz deste lado da república.
Atenção, senhoras e senhores! Um momento de atenção!

Uma alma que esteve encurralada durante anos
Numa espécie de abismo sexual e intelectual
Alimentando-se escassamente pelo nariz
Deseja fazer-se escutar por vocês.
Desejo que me informem sobre algumas matérias,
Necessito de um pouco de luz, o jardim está coberto de moscas,
Encontro-me num estado mental desastroso,
Raciocino à minha maneira;
Enquanto digo estas coisas vejo uma bicicleta apoiada num muro,
Vejo uma ponte
E um automóvel que desaparece ente os edifícios.

Vocês penteiam-se, é certo, vocês andam a pé pelos jardins,
Debaixo da pele vocês têm outra pele,
Vocês possuem um sétimo sentido
Que vos permite entrar e sair automaticamente.
Mas eu sou uma criança que chama pela mãe atrás das rochas,
Sou um peregrino que faz saltar as pedras à altura do seu nariz,
Uma árvore a implorar que a cubram de folhas.


Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

SOLO DE PIANO

Já que a vida do homem não é senão uma acção à distância,
Um pouco de espuma que brilha no interior de um vaso;
Já que as árvores não são senão móveis que se agitam:
Não são senão cadeiras e mesas em movimento perpétuo;
Já que nós próprios não somos mais que seres
(Como mesmo deus não é outra coisa que deus);
Já que não falamos para sermos escutados
Senão para que os demais falem
E o eco é anterior às vozes que o produzem;
Já que nem sequer temos o consolo de um caos
No jardim que boceja e que se enche de ar,
Um quebra-cabeças que é preciso resolver antes de morrer
Para depois poder ressuscitar tranquilamente
Quando se abusou da mulher;
Já que também existe um céu no inferno,
Deixai que também eu faça algumas coisas:

Eu quero fazer um ruído com os pés
E quero que a minha alma encontre o seu corpo.



Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF (também in Di Versos, n.º12).

Quinta-feira, 27 de Maio de 2010

PROPONHO SEXO A 69

Perdoem-me a insistência no tema, mas quando a depressão ataca impõe-se um aligeiramento da mioleira. O leitor habitual compreenderá onde pretendo chegar com a balela dos lenitivos, o outro leitor não interessa. Ora, que pode haver de mais balsâmico que «69 Contos Urbanos de Vícios Privados» (Guerra & Paz, Abril de 2010) ? Só mesmo levar à prática os exemplos, hipótese que se me afigura improvável dadas as circunstâncias. A autora chama-se Daniela Oliveira, andou pelas revistas Maria, Mariana e Mulher Erótica, tem 44 anos, um filho e, passo a citar, «um gosto particular por jardinagem, já plantou várias árvores… faltava o livro!» E que livro foi ela plantar! Os títulos dos contos parecem saídos de um almanaque de filmes porno da década de 1970 (sei do que falo): «Uma aeroqueca», «Com três… é do melhor», «Flasherótico», «Depois de um passeio tradicional, sexo selvagem», «Entre dois cigarros… assédio e sexo radical», «Nostalgias de um Verão caliente», «Uma orgia na piscina do condomínio», «Por causa do meu cão… descobri os dotes do veterinário», «Uma rapidinha», «Uma sex... cretária», etc., etc., etc., 69 vezes etc.. com um imaginário tão fértil quão improvável, a autora exprime-se, ou melhor, espreme-se numa linguagem fecunda em tontices e neologismos e estrangeirismos e coisas semelhantes. Da toilette à party, do zapping ao blind réveillon, o meu preferido é o «personal enfermeiro» da página 193. Também há referências cultas, nomeadamente aos Bon Jovi. Mas boas, boas, boas, mesmo boas, são as estórias, os argumentos, a profundidade orgânica de cada uma das personagens. A introduzir as narrativas, há sempre um mote deveras revelador. Por exemplo, no conto intitulado A Curiosidade… «Matou» o Desejo o mote é : «Sempre tive vontade de entrar e explorar livremente tudo o que uma sex shop oferece aos seus clientes. Desta vez foi a sério, mexi nos materiais, li as instruções e… Tchan! Tchan! Tachan!». Com prosa deste calibre, a vontade de continuar a ler é irresistível. O que acontece a seguir? A senhora entra na sex shop, entretém-se com os artigos até que um prestimoso empregado se oferece para ajudá-la. Leva a cliente para o armazém, despem-se, ele coloca um anel grosso e com protuberâncias no pénis, encosta a cliente à parede, aplica-lhe um gel estimulante e penetra-a lentamente. Conclusão: a cliente ficou «sexualmente realizada e divertida. Nem imaginam o que aquelas saliências provocam, um misto de prazeres». Note-se na linguagem limpa, em como o vernáculo é evitado fazendo do sexo a mais higiénica das actividades. Ela faz sexo a dois, a três, até a quatro, mas nunca fode. O mais “porcalhoto” que daqui se arranca é quando no conto intitulado Fui dar Banho ao Cão, a protagonista cai para dentro da banheira onde o cão estava a tomar banho e o groomer acaba a dar duche aos dois. Mas giro, giro, é o remate: «À saída e com ar divertido, o Jaime sugeriu que se alterassem os banhos de sábado para as quartas-feiras e adiantou que naquelas banheiras grandes cabiam perfeitamente dois adultos… E, para que dúvidas não restassem, voltei lá sem o Rip, digamos que só para levar uma «ripada» e confirmar que a banheira se adequava na perfeição!» Tendo em conta que o cão se chamava Rip, presume-se que ripada seja sexo à cão. Mas não sei o que posso esperar de uma autora que, depois de foder, perdão, depois de não ter resistido às investidas de um pasteleiro especialista em scnoes, diz que: «Foi uma queca e pêras! Não, enganei-me, foi uma queca e passas». Eu é que ainda me passo, se continuo a ler coisas destas.

SE NÃO FOSSE POR TI


Para o Lourenço.

Tenho a cabeça ligada ao teclado, os neurónios na ponta dos dedos, e essa é uma crítica que me pode ser feita. Mas enquanto a caldeirada não arrefece, digo-te, “amigo da noite desgrenhada”, que tenho também em cada uma das teclas a pele de um tambor africano. Com os calos dos dedos, bato nessas peles em busca do ritmo perfeito, o ritmo que me acompanha a respiração de um eco negro. Os meus dedos são baquetas. Ritmo, é precisamente aí que reside a explicação do acto mágico. No ritmo com que afinas as letrinhas umas atrás das outras, no ritmo que conferes a cada um dos instrumentos, no ritmo que estabeleces para cada um dos músculos, no ritmo que a respiração te imprime dentro dos ossos e na forma como através desse ritmo a caminhada te aparece cadenciada. Pudessem 300 páginas ser escritas de um fôlego, teríamos todos o lugar reservado nas enciclopédias dos grandes escritores. Mas é provável que seja tudo muito mais simples. Entre Viena e Kingston estabelecem-se pontes inusitadas. Como eu aqui, nesta ponta da mesa, e tu aí, na outra ponta, e a mesa a fazer de ponte sobre a qual circulam frases, ideias, pensamentos, desabafos, circulam ora aceleradamente, ora paulatinamente, de numa ponta à outra, sem que nós próprios, no momento de engolir as palavras um do outro, nos apercebamos dessa amistosa circulação. É que enquanto as frases circulam, na cabeça surgem, vindos não sei de onde, de um modo inevitável, os terríveis versos:
Se não fosse por ti, seria um deles.
Ficaria acordado até altas horas da noite,
com o dedo colado ao gatilho, a mirar as moças,
armando as teias na direcção da cama.

Se não fosse por ti, seria um deles.
Como o felino no encalço da presa,
aguardaria ajoelhado o momento de atacar.
E mesmo que me escapasse o grosso da carne,

jamais me escaparia o gozo de a ter ferido
com a gordura de mais uma história para contar.
Se não fosse por ti, retiraria as mãos dos bolsos,

far-te-ia provar o sangue que corre nas veias
do anarquista coroado, um sangue doente,
mesquinho, interesseiro, um sangue que,

se não fosse por ti, seria o meu.

Talvez nesse ritmo com que nos expomos sob a observação mínima de cada uma das nossas individuais experiências, talvez nesse ritmo venhamos nós a descobrir o dub que as emoções reclamam para serem comunicadas. Olha como me balança o tronco na sinuosidade dos versos, olha como pode a espera ter o significado poderoso de um baixo em tresloucada derivação. Há quem lhe chame a ranhura de uma dança. Mas eu, aqui deste lado, prefiro chamar-lhe a expectativa de um reencontro. E estou-me borrifando para a psicologia das personagens. Espero que um dia alguém tenha a coragem de reconhecer que andámos todos enganados, que a música não surgiu nos tímpanos dos homens para pôr a dançar o que neles possa existir de mecânica auditiva. A música surgiu nos tímpanos dos homens para que a surdez pudesse dançar. A literatura surgiu no corpo dos homens para que a morte pudesse caminhar. Palpita-me o coração desesperado, ao seu desespero vou eu buscar o ritmo da dança, e pontuo a mentira desajeitada das musas com o reflexo mais cruel da minha raiva: nada tenho a acrescentar a cada uma das minhas células, que tudo o que passou sirva apenas para mais uns versos desajeitados e irremediáveis é assunto que não me preocupa, há muito me foi dado o gosto de me sentir desejado, tenho provas provadas do assunto, e se em cada esquina continuo a encontrar um ponto de fuga não é por me achar perdido, é simplesmente por não querer ainda achar-me encontrado. Recosta-te então na cadeira, tal como eu agora estou recostado, e escuta:






CARTAS A UMA DESCONHECIDA

Quando os anos passarem, quando passarem
Os anos e o ar tiver cavado um fosso
Entre a tua alma e a minha; quando passarem os anos
E eu for apenas um homem que amou, um ser que se deteve
Por um momento frente aos teus lábios,
Um pobre homem cansado de andar pelos jardins,
Onde estarás tu? Onde
Estarás, ó filha dos meus beijos!

Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

Quarta-feira, 26 de Maio de 2010

O DEDO NA SOPA

Na sequência da série que o manuel a. domingos dedicou aos 30 anos sobre o fim dos Joy Division, Paulo da Costa Domingos, co-tradutor, com Pedro S. Costa, do livro Ian Curtis – Joy Division (n.º 4 da colecção Rei Lagarto, Assírio & Alvim, Abril de 1989 – é esta a edição que mora cá em casa), tornou públicas duas cartas da sua autoria com afirmações que inspiraram os ecos da reacção (salvo seja). Venho agora meter o dedo na sopa, por me parecer estimulante o tema. Antes de mais, ao contrário do que afirma Paulo da Costa Domingos na primeira das cartas reveladas, devo dizer que não considero Ian Curtis um grande poeta. Na verdade, como não sei bem o que possa ser um grande poeta, embora por vezes o pressinta, sinto-me tentado a dizer que nem grande, nem pequeno. Terá antes sido autor de um punhado de letras onde conseguimos encontrar, a espaços, alguns bons momentos de poesia (elegíaca). Momentos desses são muito mais frequentes, por exemplo, no legado de James Douglas Morrison. E se este, que viveu mais quatro anos que o outro, teve ainda tempo para meter em livro alguma da sua poesia, a Ian Curtis sobrou ser canonizado pelos que ficaram depois de ele ter decidido ir desta para melhor.
Mas este jamais será assunto tão interessante quanto aquele que veio à baila na segunda carta revelada pelo Paulo, ou seja, a ideia de que Ian Curtis «deu notório contributo para o ressurgimento de ideias nazis e rácicas». Desconheço como é que o “grande poeta” Ian Curtis possa ter contribuído para tamanha empresa, assim como nunca percebi em que é que se pode inculcar a Nietzsche a responsabilidade do dogma Nazi, ou como nalgumas cabeças se torna claro ter sido a música de Marilyn Manson a grande inspiradora do massacre de Columbine. Estas relações de causa e efeito sempre me provocaram muita desconfiança, ainda que há muito me tenha convencido de que a leitura da Bíblia pode ser mais perniciosa do que a leitura de Mein Kampf. O efeito nocivo das obras estará mais em quem as lê do que nas obras elas mesmas. E, relendo as canções de Ian Curtis que o Paulo da Costa Domingos traduziu, mesmo tendo em conta que no livro supracitado não se encontra a totalidade dos versos saídos da pena do “grande poeta” Curtis, o mais que consegui encontrar com resquícios nazis foi um verso no texto intitulado Auto-Convicção: «opiniões só criam lixo» (nazismo este que já vem de Platão, o qual, advogando a democracia, conseguiu ser mais Nazi que muitos nazis). De rácico, absolutamente nada.
É um facto histórico as acusações de racismo que perseguiram os Joy Division. Vêm do tempo em que ainda se chamavam Warsaw, um tempo em que, convém lembrar, «Manchester era um viveiro de bandas-que-queriam-ser e vivia-se uma atmosfera em que eram mais os que tocavam do que os que ouviam» (Miguel Esteves Cardoso). Foi neste clima de "competitividade Punk" que os Joy Division se conseguiram impor através de uma estética provocatória com ecos supostamente nazis a pontuarem-lhes o discurso e as capas dos primeiros discos. Na biografia An Ideal For Living, Mark Johnson lembra alguns desses momentos:

«The cut chosen for the 10’’ release has, unfortunately, become known less for its music than for an often-misquoted and more-often-misunderstood introduction in wich Bernard yells to the audience, “You all forgot Rudolf Hess”. Hess, a Nazi leader who flew solo to England in an attempt to stop British participation in World War II, was at that time an 83-year-old prisoner rotting away at the insistence of the Russians in Berlin’s Spandau Prison. Hess had recently had a heart attack, and his plight had received considerable sympathetic press coverage, and Bernard was making more of a comment on man’s inhumanity to his fellows than appealing to a Nazi sentiment. This appears to be about the beginning to a Nazi rumours surrounding Warsaw and following the group like a plague almost to the present day. No swastikas were ever seen at their gigs (unlike other punk groups of the period), the band made neither racialist statements (as did early Sham 69) nor political statements (or, for that matter, said much of anything at all), and none of their lyrics show the slightest sympathy for Nazism».

Mais à frente, no mesmo livro, o assunto volta a ser abordado a propósito da capa do EP An Ideal For Living. Desenhado por Bernard, ostentava a capa um rapazinho que parecia saído da juventude hitleriana, podendo ainda ver-se numa outra parte do poster a reprodução de uma famosa fotografia de um jovem judeu no gueto de Warsaw. Nunca me pareceu haver ali o mínimo de fascínio nazi, pelo menos não tanto quanto noto nestas imagens uma representação pertinente do sentimento de ruína e de desolação que desde sempre contaminou a música dos Joy Division. Se na indumentária sempre estiveram a milhas da estética Punk, num certo sentido provocatório conseguiram aproximar-se. Mas mais que tudo isso, o que perpassa na música e nas letras é o sentimento de uma juventude estropiada por um mundo traumatizante (do qual fazem parte campos de concentração, gulagues e outras máquinas de morte que tais). Uma visão negra do mundo, é certo, com muita fúria contida num corpo em queda que resolveu antecipar a aterragem: «Cry like a child though these years make me older / With children my time is so wastefully spent».

O DEVIR-EU DE FERNANDO PESSOA

Tornou-se demasiado vulgar, mas acertado, reconhecer o peso imenso da obra pessoana sobre todo o séc. XX português, a ponto de Fernando Pessoa não ser já tão-somente o nome do “nosso” mais influente poeta do século passado, mas, sobretudo, um fantasma que paira sobre toda a poesia portuguesa que se lhe seguiu. Não faltam estudos sobre a sua obra, análises, teses, querelas, pelo que a cada novo livro que o aponta como objecto de estudo nos cabe desconfiar sobre o que possa ainda haver a dizer acerca de obra tão amplamente dissecada. Neste sentido, o que O Devir-Eu de Fernando Pessoa (Relógio D’Água, Abril de 2010) nos propõe não é uma nova leitura da poética pessoana, pelo menos não tanto quanto busca, em quatro ensaios distintos, entender um dos pilares fundamentais dessa poética: o de uma permanente transformação da identidade. No primeiro ensaio, simplesmente intitulado Devir-Pessoa, José Gil tenta «encarar o poder de atracção da escrita pessoana como uma sua característica interna» (p. 10). A dificuldade da abordagem advém da própria complexidade do objecto analisado. De certa maneira, a poesia de Pessoa é das que menos se deixa analisar. Isto porque ela própria se constrói num processo de auto-análise que tende a derrotar toda a tentativa de explicação exterior.

Tendo como ponto de partida os Apontamentos para Uma Estética Não-Aristotélica, mais fácil se torna entender o carácter tirânico da obra do autor de Ode Triunfal. A subjugação do leitor, em contraposição a um processo de captura, não me parece residir tanto na convocação para um mundo de simulações e despersonalização, como na sua redução ao papel do ponto no decorrer de uma peça de teatro. José Gil tem toda a razão quando afirma que «se Pessoa não escreve da mesma maneira que os outros poetas, também não se lê Pessoa como se lêem os outros poetas» (p. 20). O «Eu nulo substancial» onde decorre a tragicomédia heteronímica ordena ao leitor uma intervenção indispensável, que é a de lembrar aos heterónimos a sua natureza virtual no plano de uma intimidade eruptiva que vem à página, na sua diversidade, através de um único corpo. Sublinhemos corpo. Pessoa, ele mesmo, torna-se o palco de uma multidão onde o leitor, mais escravizado do que vampirizado, procurará sobreviver como uma criança perdida. Escravizado, obviamente, pelos truques de um ilusionista/mágico cujo sentido existencial está dependente da subjugação do leitor. Vem daí o seu efeito, digamos assim, hipnótico.

Se no ensaio anterior o que está em evidência é uma espécie de relatividade do eu, o ensaio subsequente, A Cidade e o Quarto de Bernardo Soares, ocupar-se-á da relatividade do espaço (ou das «metamorfoses de espaço») na obra pessoana, mormente no Livro do Desassossego. Deste modo, se nesse Eu desdobrado numa multidão encontramos uma infinitude de possibilidades, que em Álvaro de Campos aparecem elucidadas num «sentir tudo de todas as maneiras», em Bernardo Soares o espaço do quarto é transformado num infinito que pode socorrer do tédio a alma do sonhador. Inserido na cidade, «espécie de canal ou de deserto que permite passar de um espaço ao outro, resultando da passagem um regime finito ou infinito de sensações» (p. 38), o quarto é o lugar de uma interioridade constantemente ameaçada pela realidade social. Em Pessoa ainda vislumbramos a excepcionalidade do poeta enquanto entidade ameaçada pela «existência banal da vida» (p. 40), mas essa existência banal da vida procura escapulir-se numa viagem algo onírica que supera uma noção de Realidade esgotada no domínio do mundo exterior. Entre exterior e interior, deixa de haver uma fronteira clara. É isso que legitima a afirmação de que «o interior da alma comunica com o interior das coisas, com o interior do exterior» (p. 42), pois «o dentro comunica com o fora, a alma-cidade com a cidade exterior, o infinitamente pequeno das sensações com o infinitamente grande do cosmos» (p. 43).

A esta perspectiva não será alheia uma visão cabalística do mundo, a qual, curiosamente, assume inquestionável eloquência na correspondência mantida com Ofélia Queiroz. De certa maneira, podemos afirmar que Ofélia foi a primeira grande leitora do drama pessoano. Leitora de um mundo virtual em plano real, teve de aprender a lidar com uma multidão de amantes no corpo de um homem só. «Eu preferia a desilusão a viver iludida», diz ela ao grande ilusionista. «O jogo da sinceridade das palavras» (p. 50) confronta agora Pessoa com uma nova realidade, que já não é apenas a do «fingimento poético com verdade» (p. 51). Os planos da vida e da escrita acabam “interseccionados” como nunca. A leitura que José Gil faz desta complexa relação, num texto intitulado A máquina de amor de Ofélia-Fernando Pessoa, é deveras estimulante: «desde o princípio da relação se estabelece um duplo desfasamento: entre o plano de escrita de Ofélia e o de Fernando Pessoa; entre o plano da vida de um e o do outro. Mas desfasamento que implica simetria, já que para Ofélia o plano da escrita que garante a sinceridade das emoções equivale ao plano da vida em Pessoa. Simetria incompleta, no entanto, pois o plano da escrita em Pessoa não corresponde a nada em Ofélia» (p. 52). A escassez de correspondência por parte de Pessoa, em comparação a Ofélia, e as ausências a encontros marcados, que levarão a amante a uma situação de desespero, permitem-nos julgar que para o Poeta esta viagem foi a que esteve mais próxima de o trazer à banalidade da vida, embora sem que alguma vez tenha saído de onde sempre esteve (enclausurado): o «Eu nulo substancial». Isto apesar dos «beijinhos» e dos «chi-corações».

Termina este livro com uma leitura meticulosa do poema Passagem das Horas. Em O Inconsciente da Sensação na Passagem da Horas, José Gil analisa à lupa a «estética sensacionista» levada a cabo pelo heterónimo Álvaro de Campos. Não estando em causa a assunção da ideia de inconsciente, propõe-se, pelo menos, a noção de «um espaço e tempo “desaparecidos”, ausentes, não-conscientes; ou melhor, excluídos da consciência» (p. 69). Sendo assim, afirma José Gil, devemos reconhecer dois regimes na Passagem das Horas: um em que as coisas reais se rebatem sobre o Eu e a experimentação sensacionista aborta; um outro em que o Eu explode para o exterior e forma um «corpo-sem-órgãos». Este corpo sem órgãos, que sente tudo de todas as maneiras e simpatiza com tudo, talvez possa antes ser lido como uma influência clara do mestre Walt Whitman, o qual, segundo D. H. Lawrence, preferiu dizer simpatia a dizer amor «porque Simpatia significa sentir com e não sentir por» (Cf. Walt Whitman, Relógio D’Água, 1994). Ora, parece-me que este sentir em consonância com o Outro, «captando à passagem a vibração da sua alma e da sua carne», é, precisamente, o que falhou no projecto sensacionista de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos, por, e nisso parece bastante pertinente a leitura de José Gil, nunca ter o corpo deixado de «resistir ao devir-mundo e permanece[r] corpo irremediavelmente físico» (p. 85). Dito de outra forma, até o corpo que sente, em Fernando Pessoa, é um corpo virtual, ou seja, o corpo de Álvaro de Campos. Em suma: a consciência do fracasso é o que confere grandeza ao poeta.

Escrito para o Rascunho.

DAS CORES

O cinzento é preto claro.
Beatriz, 3 anos

INFANTO-ADULTOS

− Tem livros sobre animaizinhos?
− Sim. Para que idade?
− 34 anos.

ADVERTÊNCIA AO LEITOR




O autor não se responsabiliza pelos danos que os seus escritos
[possam causar:
Ainda que lhe custe,
O leitor terá de dar-se sempre por satisfeito.
Sabelius, que além de teólogo foi humorista bem sucedido,
Por acaso respondeu pela sua heresia
Depois de ter reduzido a pó o dogma da Santíssima Trindade?
E se chegou a responder, como o fez,
De que forma disparatada!
Baseando-se num cúmulo de contradições!

Segundo os doutores da lei este livro não deveria ser publicado:
Em nenhuma parte aparece nele a palavra arco-íris,
Ainda menos a palavra dor,
A palavra torquato.
Cadeiras e mesas figuram a granel,
Algo que me enche de orgulho
Porque, a meu ver, o céu está a cair aos bocados.

Os mortais que tiverem lido o Tractatus de Wittgenstein
Podem dar-se com uma pedra no peito
Porque é uma obra difícil de alcançar:
Mas o Círculo de Viena dissolveu-se há anos,
Os seus membros dispersaram-se sem deixar rasto
E eu decidi declarar guerra aos cavalieri della luna.

A minha poesia pode perfeitamente não levar a lado algum:
«Os risos deste livro são falsos!», argumentam os meus

[detractores,
«Suas lágrimas, artificiais!»
«Em vez de suspirar, nestas páginas boceja-se»
«Esperneia-se como um bebé de mama»
«O autor dá-se a entender aos espirros».
Assim sendo: convido-vos a queimar os vossos navios,
Como os fenícios pretendo criar o meu próprio alfabeto.

«Há que cansar o público, então?», perguntar-se-ão os amigos

[leitores:
«Se o próprio autor começa por desprestigiar os seus escritos,
Que poderá esperar-se deles!».
Cuidado, eu não desprestigio nada
Ou, melhor dizendo, eu exalto o meu ponto de vista,
Vanglorio-me das minhas limitações,
Levo aos píncaros as minhas criações.

As aves de Aristófanes
Enterravam nas suas próprias cabeças
Os cadáveres dos seus pais
(Cada pássaro era um verdadeiro cemitério volante).
A meu ver
Chegou a hora de actualizar esta cerimónia
E eu enterro as minhas penas na cabeça dos senhores leitores!


Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

Terça-feira, 25 de Maio de 2010

MÁQUINA DE NAMORO

A máquina de namoro imposta por Ofélia exigia de Pessoa um esforço de estratificação sem limites de fuga: se, apesar de tudo, trabalhou plenamente durante um mês segundo as regras ditadas por ela, foi porque o seu funcionamento seguia uma lógica perversa. Só funcionava porque falhava, funcionava pelo seu contínuo falhar. A falha ou insucesso manifestava-se num paradoxo essencial: a continuidade temporal apenas se podia manter se fosse constantemente interrompida; dito de outro modo, a verdade do plano da escrita só poderia ser assegurada sem fingimento por Pessoa se este supusesse que Ofélia fingia constantemente - daí as queixas, suspeitas, dúvidas, acusações permanentes de Fernando que interrompiam o tempo «harmonioso» do namoro; de outro modo ainda: o plano da vida trivial com que sonhava Ofélia para os dois (casamento, família), sonho único tão forte que dura até às últimas cartas de 1930, não correspondia ao plano da «verdadeira vida» do poeta. E este desfasamento levava a uma exacerbação dos sentimentos de Pessoa, que, nas suas irrupções de amor, exigia a Ofélia que ela pensasse sempre nele, que não o esquecesse nunca... Ora, o esquecimento daquele contrato inaugural que estabelecia as condições do namoro era uma necessidade vital para a criação poética. Por isso, ela e ele (em situação de amor) consideravam o mínimo esquecimento uma tão grande ameaça para a sua ligação.
É claro que uma tal relação não podia durar muito. Tanto mais que um dos elementos reais que a alimentava positivamente no início vai também falhar: são os beijos trocados, os mimos, os carinhos, o erotismo que envolvia os encontros na vida real. (Deste último não há que duvidar: desde os pedidos de Pessoa para se encontrarem de novo «a sós», às referências ao «corpinho de tentação» e às «c... cor-de-rosa» nas quais, em clara denegação, Ofélia lhe pede para não pensar, não ficam dúvidas sobre a dimensão também erótica dos seus encontros.)

José Gil, in O Devir-Eu de Fernando Pessoa, Relógio D'Água, Abril de 2010, pp. 55-56.

EPITÁFIO

De estatura média,
Com uma voz nem fina nem grossa,
Filho mais velho de um professor primário
E de uma costureira humilde;
Fraco de nascimento
Ainda que devoto da boa mesa;
De maçãs macilentas
E de mais abundantes orelhas;
Com um rosto quadrado
No qual apenas os olhos se abrem
E um nariz de pugilista mulato
Por cima da boca de ídolo asteca
− Isto tudo banhado
Por uma luz entre irónica e pérfida −,
Nem muito lesto nem tonto no remate
Fui o que fui: uma mescla
De vinagre e de azeite virgem
Um enchido de anjo e besta!



Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

Segunda-feira, 24 de Maio de 2010

FESTIVAL DE VERÃO

Benjamim avistou uma explosão de luzes e de sons. Não sabia o que poderia ser. À medida que se aproximava, os sons chegavam-lhe mais intensos, com tanta energia que o empurravam para trás. Mas o pombo era teimoso, voou contra a corrente, isto é, contra uma chinfrineira sem explicação. Voando de baixo para cima, perfazendo uma curva ascendente na direcção do céu, chegou ao alto de uma colina, olhou para baixo e viu uma nave espacial estacionada no baixo-ventre da terra. Uma nave espacial cortada ao meio como uma melancia oca, assaltada por umas criaturas que pareciam formigas amestradas. No interior da melancia oca, as formigas amestradas mostravam-se deveras entusiasmadas com a chinfrineira que produziam. Agarrados aos seus instrumentos como a armas de tortura, a missão das formigas amestradas consistia em arrasar nas imediações o maior número de tímpanos possível. Benjamim não percebia por que razão quereria uma multidão de gente aos pulos ficar surda. Talvez para deixar de se ouvir a si própria. Mais estranhou quando verificou que aquela gente pagava para ser torturada. Era cada vez mais evidente, para Benjamim, a inclinação dos humanos para o sadomasoquismo. Se, por um lado, se regozijavam com o mal dos outros, por outro lado não sobreviviam sem as suas próprias dores. E na tragédia eram, sem dúvida, a mais bem sucedida das espécies. Daí que tanta gente conseguisse manter-se viva odiando a vida. E não restavam dúvidas de que aqueles a odiavam. Caso contrário, não se submeteriam a tal tortura, não pagariam para serem torturados nem torturariam os outros com o espectáculo da sua inegável ruína e decadência. Agora pousado na copa de uma árvore sob a qual uns vinham vomitar, outros mijar e outros ainda simplesmente acompanhar quem por ali mijava e vomitava, Benjamim deixou-se impressionar pelo mar de pulgas saltitantes que ali estava a prestar vassalagem aos seus próprios carrascos, as formigas amestradas da melancia oca. Cá em baixo, as pulgas saltitantes respondiam aos mandamentos de quem estava por cima (as formigas amestradas). Ora berravam, ora aplaudiam, ora dançavam, ora se metiam em bicos de pés para verem qualquer coisa que ninguém poderá compreender o quê. Pois nada havia para ver senão formigas amestradas agarradas a armas e instrumentos de tortura. Algumas pulgas já não saltavam, limitavam-se a olhar para umas televisões gigantes onde apareciam as idolatradas formiguinhas. Por vezes, as próprias pulgas saltitantes apareciam nas televisões gigantes. Quando apareciam, era evidente a sua satisfação: como se tivessem acabado de cumprir um desejo, ou como se tivessem acabado de assinar o seu sucesso no ritual iniciático da paspalhice. Felicíssimas da vida, com os tímpanos desfeitos e os corpos em transe, abandonavam o recinto da eucaristia com um ar de bandalhos que seria difícil distingui-las de um monte de esterco com carteira num bolso e telemóvel no outro.

Escrito para O Indesmentível.

FLORA & COMPANHIA (MAIS UMA VEZ)

A mana diz: «a minha cadela Flora deu à luz doze maravilhosos filhotes. Preciso que me ajudem a encontrar um lar para eles. São 9 machos e 3 fêmeas. Asseguro que eles são uma doçura. Por favor, caso não queiram ficar com nenhum, pelo menos passem esta mensagem ao maior número possível de pessoas. No dia 15/06 eles estarão prontos para deixar a mãe. Muito obrigada!» Como deverão imaginar, não há jardim que aguente tanta beleza. Se estiverem interessados em adoptar uma destas doze crias, poderão contactar-me para o e-mail universosdesfeitos@yahoo.com.br. Farei chegar o vosso interesse a quem de direito.

AUTO-RETRATO




Considerai, rapazes,
esta língua roída pelo cancro:
Sou professor num liceu obscuro,
Perdi a voz dando aulas.
(Depois de tudo ou nada
Faço quarenta horas semanais).
Que vos parece a minha cara esbofeteada?
De facto, inspira lástima olhar-me!
E o que dizeis deste nariz apodrecido
Pela cal do giz degradante?

Em matéria de olhos, a três metros
Nem a minha própria mãe reconheço.
O que me aconteceu? – Nada.
Arruinei-os dando aulas:
A má iluminação, o sol,
A miserável lua venenosa.
E tudo para quê!
Para ganhar um imperdoável pão
Duro como a cara do burguês
E com cheiro e sabor a sangue.
Para quê termos nascido como homens
Se nos dão uma morte de animais?

Devido ao excesso de trabalho, às vezes
Vejo formas estranhas no ar,
Oiço loucas correrias,
Risos, criminosas conversações.

Observai estas mãos
E estas faces brancas de cadáver,
Estes escassos pêlos que me restam.
Estas infernais rugas negras!
Porém eu fui tal como vocês,
Jovem, cheio de belos ideais,
Sonhei fundindo o cobre
E limando as arestas do diamante:
Aqui me tendes hoje
Atrás desta inconfortável pensão
Embrutecido pelo batuque
Das quinhentas horas semanais.


Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

Domingo, 23 de Maio de 2010

HÁ QUE SER PEDAGÓGICO


Quereis multiplicar os desequilibrados, agravar as perturbações mentais, construir casas de alienados em todos os cantos da cidade?
Tornai proibido o
insulto.
Compreendereis então que as suas virtudes libertadoras, a sua função terapêutica, a superioridade do seu método sobre o da psicanálise , das ginásticas orientais ou da Igreja; compreendereis sobretudo que é graças às suas maravilhas, à sua ininterrupta assistência, que a maior parte de nós fica a dever o facto de não ser criminoso ou louco.



Ilustração: J. J. Grandville. Texto: E. M. Cioran, in Silogismos da Amargura, trad. Manuel de Freitas, Letra Livre, Maio de 2009, p. 57.

«FUI TOMADO COMO LOUCO»

Mirem-se no exemplo de Gérard de Nerval. Nasceu em Paris, de apelido Labruine, a 22 de Maio de 1808. Filho de um médico dos exércitos de Napoleão, perdeu a mãe quando tinha apenas dois anos mal feitos. Foi confiado a um tio. Regressado das guerras, Étienne Labrunie foi viver com o filho para Paris. Aí fez Gérard os seus estudos. O pai pretendia que o menino fosse médico, mas o menino trazia no sangue a doença da boémia, o vírus da literatura, a puta da poesia. Em 1822, entrou para o Collège Charlemange, tornando-se amigo de Théophile Gautier (o idealista da arte pela arte). Cada vez mais distante dos hábitos burgueses da época, Gérard de Nerval vagueava pelas ruas da cidade, assobiava contra o vento a sua crença numa poesia que lhe estabelecesse a ponte entre a realidade, ambígua e esquiva, e fantásticos mundos invisíveis, os de uma embriaguez ainda tímida. Em 1926, publicou as Elegias Nacionais e uma comédia satírica. Pouco depois, estava a traduzir o Fausto de Goethe. O sucesso da tradução garantiu-lhe algum prestígio entre os pares. Estudos de medicina, ofícios numa tipografia e num notário, não o reencaminharam na boa vida (queira lá isso dizer o que bem entender o leitor). Preso em arruaças, juntou-se a um círculo de “intelectuais” que, além de poesia e contos e teatro e etc., apreciava sobretudo a intensidade da vida. Nerval apaixonou-se pela cantora de ópera Marguerite Colon. Cartas anónimas e outros mimos não bastaram à musa, que acabou por se casar com Louis-Gabriel Leplus. Aos 26 anos, começou o bardo a viajar incansavelmente. Publicou dramas, óperas, uma revista de vida efémera, tornou-se amigo do jovem Baudelaire, com quem partilhava o gosto pelo haxixe. Passou alguns tempos, em missão oficial, na Viena de Áustria, tendo de lá regressado sem um tostão, chegando mesmo a cumprir parte da viagem a butes. Seguiu-se a Bélgica, a Alemanha na companhia de Dumas, o Levante, a primeira crise de loucura. Marguerite Colon, ou Jenny Colon, morreu em 1842. O nosso poeta ficou destroçado. Foi curar as mágoas para a Holanda, Inglaterra, traduziu Heine, começou a publicar os esquissos das suas Viagens pelo Oriente, voltando a ter mais uma crise nervosa. Entre as viagens, tornaram-se mais frequentes as suas visitas a casas de saúde. Ataques de loucura pautavam-lhe a escrita, acabando internado por diversas vezes. Em 1854, publicou As Filhas do Fogo e As Quimeras. Os internamentos motivam rumores sobre o seu desaparecimento, chegando mesmo a ser publicado um pseudo-obituário no Journal des Débats. Com o Inverno a aproximar-se e sem residência fixa, abandonou uma clínica após a intervenção da Sociedade dos Homens de Letras. Foi pior a emenda que o soneto. 1855. Nerval levava uma vida de vagabundo, tentava auxilio junto de vários amigos/conhecidos. «Na manhã de 26 de Janeiro encontram-no enforcado na rua da Velha Lanterna, à porta de um albergue nocturno, num dos locais mais imundos e sinistros de Paris». Tinha 46 anos.

VERSOS DOURADOS

Mas quê? Tudo é sensível!
Pitágoras

Homem, livre em pensar e que crês só tu ser
O Cérebro de um mundo em que tudo germina,
A tua liberdade tuas forças domina,
Sem das dos outros seres fazeres-te obedecer.

Dos animais a alma aprende a perceber…
É espírito a flor da natura eclodida.
E há um mistério de amor que até o metal anima
Tudo é sensível ─ e sobre ti tem poder.

Teme pois o olhar das paredes. As coisas
Materiais todas têm o seu Verbo discreto
Nada uses, vê bem, com um intuito ímpio.

Num ser obscuro às vezes há um deus que ignoto poisa
E, qual olhar envolto em pálpebra secreta,
No âmago da pedra há um espírito vivo.


Fontes: biografia ─ As Quimeras, trad. e intr. de Alexei Bueno, Hiena Editora, Julho de 1995; poema ─ As Filhas do Fogo, trad. Manuel João Gomes, 2.ª edição, Editorial Estampa, Março de 1997.

IR ANDANDO


Entre o optimismo dos néscios e o pessimismo dos desesperados, há os que nascem para vencer e os que nascem já derrotados. São ambos escassos. A maioria nasce apenas para ir andando.

CANTA-SE AO MAR


Nada poderá afastar da minha memória
A luz daquela misteriosa lâmpada,
Nem o efeito que teve nos meus olhos
Nem a impressão que me deixou na alma.
Tudo pode o tempo, contudo
Creio que nem a morte há-de apagá-la.
Se me permitem, vou explicar-me aqui
Com o melhor eco da minha garganta.
Francamente, naquele tempo eu nem
Compreendia como me chamava,
Ainda não tinha escrito o primeiro verso
Nem derramado a primeira lágrima;
O meu coração era nem mais nem menos
Que o quiosque esquecido de uma praça.
Mas sucedeu que certo dia meu pai
Foi colocado no sul, na remota
Ilha de Chiloé onde o Inverno
É como uma cidade abandonada.
Parti com ele e sem pensar chegámos
A Puerto Montt numa manhã clara.
A minha família tinha vivido sempre
No vale central ou na montanha,
De maneira que nunca, nem por sombras,
Se falou do mar em nossa casa.
Sobre este assunto eu sabia apenas
O que ensinavam na escola pública
E uma ou outra questão contrabandeada
Nas cartas de amor das minhas irmãs.
Descemos do comboio entre bandeiras
E um solene festival de sinos
Quando o meu pai me pegou pelo braço
E devolvendo os olhos à brancura,
Livre e eterna espuma para onde
Ao longe um país sem nome navegava,
Como quem reza uma oração me disse
Com a voz que trago intacta nos ouvidos:
«Este é, rapaz, o mar». O mar sereno,
O mar que banha de cristal a pátria.
Não sei dizer porquê, mas deu-se que
Uma força maior me encheu a alma
E sem medir, sem sequer suspeitar,
A real magnitude da minha campanha,
Comecei a correr, sem peso nem medida,
Como um desesperado na direcção da praia
E num instante memorável estava
Frente a esse grande senhor das batalhas.
Foi então que estendi os braços
Sobre o rosto ondulante das águas,
O corpo rígido, as pupilas fixas
Na verdade sem distância nem fim,
Sem que no meu ser se movesse um cabelo,
Como a sombra azul das estátuas!
Quanto tempo durou o nosso cumprimento
Não poderão as palavras dizê-lo.
Devo apenas acrescentar que naquele dia
Nasceu na minha mente a inquietude e a ânsia
De fazer em verso o que onda a onda
Deus criava incessantemente a meus olhos.
Data desde então a fervente
E abrasadora sede que me arrebata:
É que, na verdade, desde que o mundo existe,
A voz do mar estava na minha pessoa.

Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

Sábado, 22 de Maio de 2010

A NOITE DO ÍNDIO


A noite do índio promete ser muito escura. Nenhuma estrela brilhará acima do horizonte. Ventos carregados de tristeza gemem ao longe. Um destino ameaçador parece levantar-se no caminho do Pele-Vermelha, e onde quer que este esteja ouvirá sempre os passos do seu impiedoso destruidor.

Mais algumas luas, mais alguns invernos, e não restará nenhum descendente das poderosas tribos que outrora se deslocaram por estas vastas terras e que agora deambulam em bandos dispersos através de extensas e desoladas paisagens. Não ficará ninguém para chorar sobre as sepulturas de um povo que em tempos foi tão poderoso e promissor quanto o vosso.

Mas por que haveria eu de estar aqui a lamentar-me sobre o destino do meu povo? As tribos são compostas de indivíduos, e elas não são melhores do que eles; os homens vão e vêm como as ondas do mar. Uma lágrima, um lamento, um canto fúnebre, e eles partem para sempre dos nossos pesarosos olhos. Até o Homem-Branco, com quem o seu Deus caminhou e falou, como entre amigos, não está livre de um tal destino. Afinal, talvez sejamos irmãos. Veremos isso.



Chefe Seattle, in A Noite do Índio – discurso proferido em 1854, trad. Joaquim Palma, Casa do Sul, 2.ª edição, Abril de 2007, pp. 25-26.

É ESQUECIMENTO



Juro que não recordo o seu nome,
Mas morrerei chamando-a de Maria,
Não por simples capricho de poeta:
Pelo seu aspecto de praça de província.
Que tempos aqueles!, eu um espantalho,
Ela uma jovem pálida e sombria.
Uma tarde, ao regressar do Liceu,
Soube da sua morte imerecida,
Notícia que me causou tal desilusão
Que derramei uma lágrima ao ouvi-la.
Uma lágrima, sim, quem o imaginaria,
Em mim que sou pessoa de energia.
Se conceder crédito ao que foi dito
Por quem me trouxe a notícia
Devo acreditar, sem vacilar minimamente,
Que morreu com o meu nome nas pupilas,
Algo que me surpreende, pois nunca
Foi para mim senão uma amiga.
Nunca tive com ela mais do que simples
Relações de estrita cortesia,
Nada mais que palavras e palavras
E uma ou outra memória de andorinhas.
Conheci-a na minha terra (da minha terra
Resta apenas uma quantidade de cinzas),
Mas jamais vi nela outro destino
Senão o de uma jovem triste e pensativa.
Tanto assim foi que até cheguei a tratá-la
Com o celeste nome de Maria.
Circunstância que prova claramente
A exactidão central da minha doutrina.
Pode ser que a tenha beijado uma vez,
Quem é que não beija os seus amigos!,
Mas tende presente que o fiz
Sem dar-me bem conta do que fazia.
Não negarei, isso sim, que me agradava
A sua imaterial e vaga companhia
Que era como o espírito sereno
Que anima as flores domésticas.
De modo algum posso ocultar
A importância que teve o seu sorriso
Nem desvirtuar a influência favorável
Que até mesmo nas pedras exercia.
Acrescentemos, ainda, que da noite
Foram os seus olhos fonte fidedigna.
Mas, apesar de tudo, é necessário
Que se compreenda que eu não a queria
Senão com esse vago sentimento
Que dedicamos a um familiar doente.
Não obstante, sucede, não obstante,
Que ainda hoje me maravilha
Esse inaudito e singular exemplo
De morrer com o meu nome nas pupilas,
Ela, complexa rosa imaculada,
Ela que era uma lâmpada genuína.
Têm razão, muita razão, as pessoas
Que se vão queixando noite e dia
De que o mundo traidor em que vivemos
Vale menos que uma roda parada:
Muito mais digna é uma tumba,
Mais valor tem uma folha embolorecida.
Nada é verdade, aqui nada perdura,
Nem a cor do cristal com que se olha.

Hoje é um dia azul de Primavera,
Creio que morrerei de poesia,
Dessa famosa jovem melancólica
Não recordo nem o nome que tinha.
Sei apenas que passou por este mundo
Como uma pomba fugidia:
Esqueci-a sem querer, lentamente,
Como todas as coisas da vida.


Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

Sexta-feira, 21 de Maio de 2010

UM DESTINO NOTÁVEL



Não são os preceitos do estoicismo que nos assinalarão a utilidade das humilhações ou a sedução dos golpes do destino. Os manuais de insensibilidade são demasiado razoáveis. Mas se cada um fizesse a sua pequena experiência de mendigo! Vestir-se de farrapos, deter-se num cruzamento, estender a mão aos transeuntes, suportar o seu desprezo ou agradecer-lhes a esmola ─ que disciplina! Ou então sair para a rua, insultar desconhecidos, deixar que o esbofeteiem...
Durante muito tempo frequentei os tribunais com o único objectivo de ali poder contemplar os reincidentes, a sua superioridade sobre as leis, a sua pressa na degradação. E, todavia, eles são insignificantes se comparados com as putas, com o desembaraço que elas conseguem ter em julgamento. Um desprendimento tão grande desconcerta; não há qualquer amor-próprio; as injúrias não as fazem sangrar, nenhum adjectivo as fere. O seu cinismo é a sua forma de honestidade. Uma rapariga de dezassete anos, majestosamente feia, replica ao juiz que lhe tenta arrancar a promessa de deixar de andar nas ruas: «Isso não lhe posso prometer, senhor Juiz».
Só na humilhação conseguimos avaliar a nossa própria força. Para nos consolarmos das vergonhas que não conhecemos, devíamos infligi-las a nós próprios, escarrar no espelho, esperando que o público nos honre com a sua saliva. Que Deus nos proteja de um destino
notável!

E. M. Cioran, in Silogismos da Amargura, trad. Manuel de Freitas, Letra Livre, Maio de 2009, p. 71.

HÁ UM DIA FELIZ


Esta tarde dediquei-me a percorrer
As solitárias ruas da minha aldeia
Acompanhado pelo bom crepúsculo
Que é o único amigo que me resta.
Está tudo como dantes, o Outono
E a sua difusa lâmpada de névoa,
Só que o tempo invadiu tudo
Com o seu pálido manto de tristeza.
Por nenhum instante pensei, acreditem,
Voltar a ver esta querida terra,
Mas agora que regressei não entendo
Como pude afastar-me da sua porta.
Nada mudou, nem as suas casas brancas
Nem os seus velhos portões de madeira.
Está tudo no seu lugar; as andorinhas
Na torre mais alta da igreja;
O caracol no jardim; e o musgo
Nas húmidas mãos das pedras.
Não se pode duvidar, este é o reino
Do céu azul e das folhas secas
Onde tudo e cada coisa tem
A sua singular e plácida legenda:
Até na própria sombra reconheço
O olhar celeste da minha avó.
Estes foram os feitos memoráveis
Que a minha primeira juventude presenciou,
O correio na esquina da praça
E a humidade nas muralhas velhas.
Que maravilha, meu Deus, nunca ninguém
Sabe apreciar a verdadeira felicidade,
Quando a imaginamos mais afastada
É justamente quando está mais próxima.
Ai de mim, ai de mim, algo me diz
Que a vida não é mais que uma quimera;
Uma ilusão, um sonho sem fronteiras,
Uma pequena nuvem passageira.
Vamos por partes, não sei bem o que digo,
A emoção sobe-me à cabeça.
Como já era a hora do silêncio
Quando empreendi a minha singular empresa,
Uma atrás de outra, em muda agitação,
Ao estábulo regressavam as ovelhas.
Saudei-as pessoalmente a todas
E quando estive frente ao bosque
Que alimenta o ouvido do viajante
Com a sua inefável música secreta
Recordei o mar e contei as folhas
Em homenagem às minhas irmãs mortas.
Muito bem. Segui a minha viagem
Como quem nada espera da vida.
Passei frente à roda do moinho,
Detive-me diante de uma mercearia:
O aroma do café é sempre o mesmo,
Sempre a mesma lua na minha cabeça;
Entre o rio de outrora e o de agora
Não distingo nenhuma diferença.
Reconheço-a bem, esta é a árvore
Que o meu pai plantou frente à porta
(Pai ilustre que nos seus bons tempos
Foi melhor que uma janela aberta).
Atrevo-me a afirmar que a sua conduta
Era uma cópia fiel da Idade Média
Quando o cão dormia docemente
Debaixo do ângulo recto de uma estrela.
Sinto que nestas alturas me envolve
O delicado aroma das violetas
Que a minha amorosa mãe cultivava
Para curar a tosse e a tristeza.
Quanto tempo passou desde então
Com certeza não o poderia dizer;
Está tudo igual, seguramente,
O vinho e o rouxinol em cima da mesa,
A esta hora os meus irmãos mais novos
Devem estar a regressar da escola:
Só que o tempo apagou tudo
Como uma branca tempestade de areia!



Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

PASSAR A BOLA

O manuel continua a lembrar os Joy Division. Gosto daquela série. Num dos textos, o Paulo da Costa Domingos lembra correspondência antiga. E diz: «Julgo azado o momento de me desvincular – quanto historicamente possível – de um autor, Ian Curtis, que deu notório contributo para o ressurgimento de ideias nazis e rácicas.» O José Quintas leu e respondeu: aqui. A seu tempo, hei-de meter o dedo na sopa.

Quinta-feira, 20 de Maio de 2010

ELOGIO DA INAPTIDÃO


São duas e meia da manhã. Bato no reflexo dos meus olhos no retrovisor. Há um cansaço evidente no qual se afundam, tenho estrias de sangue nos olhos. O que há de errado comigo? ─ perguntam-se. Talvez os olhos da Sara ou os olhos da Maria João se coloquem, de quando em vez, as mesmas interrogações. É para elas que escrevo. Torna-se-me evidente que o cansaço que nos persegue, como uma sombra que arrastamos para todo o lado, não se deve tanto ao facto de estarmos cansados do mundo, sobre o qual sabemos sempre tão pouco, mas mais a uma estranha sensação de que o mundo se cansou de nós. Meto-me a pensar se algures na Terra não haverá um lugar onde esse cansaço possa repousar. Claro que há. Basta caminharmos um pouco na direcção de um horizonte, marítimo ou desértico tanto me faz, que nos devolva a companhia de nós próprios. O problema, nos tempos que correm, já nem é bem a solidão. Pelo menos, o meu. São tantas as pessoas à minha volta, tantas as ligações ao mundo, tanta rede na qual fui apanhado, que seria insultuoso falar de solidão num caso destes. O problema será antes o de uma espécie de deslocamento, ou inaptidão, que nos faz sentir a mais entre as multidões. Repare-se que, neste caso, como compreenderão, falar de três pessoas é já falar de uma multidão. Nós os três fazemos uma multidão, felizmente, e pelo que me foi possível perceber, em sintonia. Para lá de nós, para lá do “eco nosso” que vai esmorecendo à medida que o resto do mundo se aproxima, para lá dessa fogueira há que «caminar en estado cataléptico» (Nicanor Parra). É isso que sinto quando, no regresso da minha (chamemos-lhe) fuga diária, volto a escutar os cabos das bandeiras hasteadas a retinir no ferro dos pilares. A esse ruído, logo se juntam as sirenes dos carros, edifícios com rodas, um ruído infernal de gente em trânsito. E uma sinfonia de talheres nas esplanadas onde outros, mais parecidos connosco do que algum dia nós poderemos supor, dão vazão ao que lhes sobra de uma escravatura paga à razão de folgas semanais e vencimento mensal. Perdoem-me julgar que viver há-de ser um pouco mais do que este estado de sobrevivência diária, onde a insatisfação faz as honras da casa e o desconsolo se enche de mordomias. Stig Dagerman pensou o problema a partir de um problema de fé, isto é, do problema da sua ausência. Com fé ou sem ela, a vida há-de ser sempre um estar à morte. Disso não tenhamos dúvidas. Se depois da morte outra morte virá, é problema que não me aflige. O que me aflige momentaneamente não se resolve pela fé. Resolver-se-á, talvez, por essa coisa a que alguns preguiçosos resolveram chamar de arte e outros ainda mais preguiçosos vão chamando de poesia. Sinceramente, não penso nesses lugares enquanto refúgios (embora o termo me seja suficientemente caro para não o devolver de imediato à procedência). Continuo a pensar neles como botijas de ar num real que, de facto, provoca asma. Daí que à consciência de que «escrever poesia é tão inútil como mascar pastilha elástica» (O Meu Cinzeiro Azul), eu tenha dito que ela é também a «quinta estação dos poetas, a estação onde o útil e o inútil se fundem num só lugar de resistência». E esse lugar é aquele onde não nos sentimos monstros paridos pela tortura da socialização, é um lugar de liberdade que nos permite conviver com as nossas próprias contradições sem nos sentirmos a mais por isso, é um lugar já não de deslocamento, nem de solidão, mas de fluida reunião de nós connosco próprios. No fundo, é o lugar onde nos permitimos ser autenticamente por a toda a hora nos exigirem que sejamos inautênticos. É um lugar de ociosidade e inutilidade, ou seja, o mais feliz dos lugares, aquele que nos liberta/livra do exibicionismo com que os crápulas deste mundo encaram a sua posição nos balcões da aptidão social. Por isso, temos um preço a pagar: a nossa diferença.

Na imagem: Woman With Trumpet (1982), de Karel Appel, técnica mista com collagens/tela, 193x224cm.

AGORA A SÉRIO

Depois de três telefonemas, notas soltas e confusas a propósito de irritações e mal entendidos:

É preciso ter alguma lucidez e alguma força para continuar. O caminho é solitário, mesmo que cheio de cumplicidades, e, às vezes, é complicado lidar com tanta imbecilidade, tanto oportunismo, tanta chico-espertice. Penso, talvez ingenuamente ou, então, de forma absolutamente cínica, que há gente, muita, que veio para o negócio dos livros por não ter sido aceite noutros lados. É compreensível, mas dá que pensar. Se não foram aceites na gestão de lâminas para barbear, nem na neuro-cirurgia, nem na pata que os pôs, porque vieram para os livros?

margens, cultos e outras milongas:

Ainda hoje, falando com Vítor Silva Tavares, doutorado em livros e leituras, a conversa das margens e do culto voltou à baila. Pois é, sabe ele muitíssimo bem, que ser da margem, rótulo que rejeita, preferindo dizer que é paralelo, dá um trabalho imenso. Ser de culto, então, nem se fala, é obra hercúlea, de preferência praticada por gente morta ou quase. Quando deixamos de falar de uma obra pessoal ou, até, de um estilo de vida, e nos centramos num negócio, como este das livrarias, o ser de culto, ou da margem, dá um jeitão para meter conversa, para impressionar quem quer ser impressionado com palavras tolas, para puxar o lustro à vaidade, mas, quem o não queira, onde fica? De que serve? Corre para onde? Ninguém, estou em crer, abre um negócio para os amigos - esses, se os há - levam-se a jantar, convidam-se para casa -, mas porque, das duas uma: ou tem como primeiro alvo enriquecer, está no seu direito e ninguém lho deve levar a mal, ou, antes de mais, acredita que a sua acção pode ser, mesmo que num mínimo raio, transformadora ou transtornadora da realidade circundante.

Nota da redacção: as citações não dispensam uma leitura séria e detalhada dos textos na sua totalidade. Para sublinhar, ler e reler.

TU NÃO ACREDITAS EM MIM

Tu não acreditas em mim, eu não acredito em ti, eu uso a minha casa de banho, tu não usas a minha, eu vou à tua casa, tu não vens à minha, se tu vieres à minha casa tu ficas cá. Eu vou contra ti, passo por ti e levo-te para sempre, tu vens atrás de mim, entras em mim e eu levo-te para sempre. A minha amiga tem uma formiga, o meu amor tem um castor, a minha mulher tem um alter, a minha amiga abre a camisa, o meu amor liga o motor, a minha mulher fica comigo. Eu tiro a tua porta (recito para mim um poema indiano) e mudo a tua vida e a minha em pouco tempo (sempre que nos for necessário mudamos de porta, de casa, de quem muda a vida a quem). O cabelo cresce, a cabeça baixa, dançamos, rolamos, coisas bonitas. Os livros que me dão levo-os ao meu amor, eu não quero livros, eu quero o meu amor, o meu amor lê muitos livros, eu quero o meu amor. Tenho tantas saudades tuas, sinto tanto a tua falta que vou acordar o teu pai. Vou para a cama bêbedo, fazemos amor, tu dizes-me que eu estou a 5°% e eu venho-me pouco. Eu até acredito que tu queiras vir ter comigo, eu até acredito que tu tragas o teu amigo. Às quatro da manhã bato à porta do meu amor, o meu amor não abre e então eu durmo à porta do meu amor, quando o meu amor abrir a porta o meu amor volta para mim e então eu durmo na cama que o meu amor escolheu. Este amor não sai de casa, este amor não promete nada, este amor diz pouco, este amor faz pouco, este amor vai acabar, este amor não sai de casa.

Nuno Moura, in Calendário das Dificuldades Diárias, &etc., Setembro de 2002, pp. 46-47.

RELATÓRIO E CONTAS

Milhares de pessoas acorreram à livraria Trama, na noite passada, para assistirem a um combate histórico entre dois dos mais emblemáticos pugilistas da trovadoresca nacional: o veterano Nuno Moura e a esperança Miguel-Manso. Moura revelou estar em excelente condição física, apanhando Manso de surpresa com um poeta mais rico de Portugal a lembrar esses tempos que fizeram do jogo de anca a sua mais reconhecível imagem de marca. Sempre bem colocado no ringue, Miguel-Manso foi aguentando com bíceps e tríceps firme e hirtamente disponíveis para a porrada. À primeira oportunidade, puxou o braço às costas e arremessou contra o rosto do sénior uma bela do bairro que, benza-a Deus, de tão puta que era deixou Moura apenas em condições de desejar «uma mulher que estivesse numa companhia de dança e fosse um golpe comunista dos antigos». Ao golpe baixo, Miguel não se ficou manso e deu-lhe com Nuno Moura ele mesmo, ao que Moura ele mesmo respondeu com Miguel-Manso o próprio. Redundou a troca de galhardetes num dos momentos hilariantes da noite: o recurso ao uppercut Hélice Fronteira, numa paráfrase adaptada ao momento, que deixou boquiaberta meia sala e de boca à banda outra meia: «Miguel-Manso é recebido com preocupação em Macau / Miguel-Manso trava deputados nas mercês / Miguel-Manso à espera dos enérgicos russos / Miguel-Manso visto à lupa…» O jovem pugilista foi ao tapete, levantou-se aos 3 e aguentou-se firmemente de pé. Ora toma lá Assis Pacheco, ora que te dou com um gancho de António ─ «eu canto qualquer coisa / eterno provedor da minha república / só interior de cantar»─, ora vai lá buscar em golpe de punho curvo um Rui Knopfli de mangas verdes com sal, e as moças de olhos verdes que o poeta tomara por azuis luziram seus olhares por entre a dureza do combate. Estava certo que duraria a peleja, ninguém knock outeava. É certo que depois de uma ida à bola com Fernando Assis Pacheco a situação mostrou-se feia para Miguel-Manso, também conhecido por Cinderella Man da poesia portuguesa. Moura, cada vez mais parecido com Mano de Piedra, deu a cintura a um António Pina aplicado timidamente, ofereceu o rosto às suas próprias palavras e disse de sua justiça: «seja como for eu sabia que tu farias uma explosão segura». Após breve pausa, com um sparring a chegar-se à frente para proferir versos de Ana Hatherly, regressaram os bardos para rápidos e certeiros remates. Houve ainda tempo para uma estória com velhos e velhas, Fallorcas e vacas gigantescas, patos, galinhas, canários e um ratinho muito pequenino a lembrar-me um aforismo de Cioran: «o real dá-me asma». Aqui chegado, tomem lá uma borla:

SOBREROSEIRA

olho da janela a labareda das roseiras
recebo no quarto a vinícola sucessão dos anos
incluo no poema um reflexo aludir de taninos
remoo os frutos a redondez do texto no viço
dos aposentos

insisto no escusado, mal pago, fantasioso
exercício da beleza

Miguel-Manso

Quarta-feira, 19 de Maio de 2010

NEWS TO GO FARTHER


O pai vai fazer tudo o que houver a fazer… Assim começava a primeira canção, em Ré, numa malha a plagiar vergonhosamente a versão 4-Track Demo de Rid of Me. Só posteriormente me chegou à pele o baixo dessas post-rock-jazz-bands que andavam a desbravar o caminho da mesma irresponsável aventura. A música não tem culpa nenhuma de que não nos fiquemos apenas por ouvi-la, a música não tem culpa, a própria culpa não tem culpa. Culpados são os mortos, e eu mais que os outros. Mas regressemos ao pai, ao seu autoritarismo complacente. Ele não sabia que sobre a nossa cabeça pendia o machado da inutilidade, ele não fazia sequer caso da quimera que se aproximava, tão ocupado que andava com seus próprios telhados de vidro, deves e haveres, notas de crédito, fianças e cauções. O nosso amor foi sempre debitado pela distância, uma estranheza que devem sentir as ervas que vão crescendo em torno dos caules das árvores centenárias. Havia um cheiro a sangue no ar, coisa ligeira. De vez em quando dançávamos, batíamos cartas sobre o tampo da mesa e feríamos as nozes dos dedos, de vez em quando jogávamos um dominó como quem paga as despesas do afecto, mas não me recordo de um abraço que fosse antes desse dia em que, por ambição ou desistência, ele me viu vencer a minha primeira aposta pessoal. Ora aqui vai de lágrima no canto do olho um abraço pela justiça dos teus crimes. O mais das vezes, senti-me apenas como a sombra que se encosta à parede e se esmurra à falta de um corpo por esmurrar. Uma espécie de fatia de queijo entre o aconchego da lâmina e a fofura do cimento. Faço uma pausa para o baixo derradeiro, esta tensão que cresce entre os metais e a programação electrónica do pensamento, deixem-me arrastar os dedos por esta correnteza, quero voltar a sentir-me fora de mim. «A derradeira loucura que provavelmente me resta, será a de me julgar poeta: cabe à crítica curar-me» (Gérard de Nerval). Duvido que o pai pudesse fazer muito mais por mim, duvido que eu próprio possa vir a fazer alguma coisa por ele. Resta-me aguardar que a ferrugem tome conta do ferro e nas margens do livro escrever cen-su-ra, porque aos dramas domésticos eu lancei sempre os ratos de biblioteca que devoram livros para, pelo menos, sentirem o conforto da tarola quando é batida pela baquete. Já nem sei como me é possível abanar o tronco suado à passagem desta música. Talvez saiba, ainda me resta lucidez suficiente para entender que a virtude está no meio quando já só nos resta fugir, enlouquecer ou morrer. Só não quero trazer para dentro dos meus pesadelos o coração das filhas, o ar puro com que sossegam sonos descansados, só não quero trazer para os meus pesadelos a merecida paz que lhes devo. O pai vai fazer tudo o que houver a fazer, vai recordar a infância a meio da vida, vai citar Gérard de Nerval, vai ouvir repetidamente os álbuns dos UI, vai reconstruir casas de madeira nas copas das árvores, vai levantar voo como uma rima estonteada. O pai não vai fazer da vida um cemitério de memórias, ai isso é que não vai. Vai antes pegar nas castanholas e musicar o canto do galo a desoras, porque sempre que o galo canta a desoras, o que acontece todos os dias, o pai pressente nos seus movimentos uma estranha sintonia. O pai será corajoso o suficiente para não te impor a parede ou a espada, para não pôr em causa a fé dos peregrinos, para guerrear nas estradas batidas da Índia sonhada, para te levar a ver a aparatosa nudez dos vulcões, para tocar harmónica nas noites soturnas e ameaçadoras de Inverno, o pai fará tudo o que houver a fazer, inclusive deixar de ser pai quando a hora chegar, algo que, pelos vistos, ainda não lhe foi dado o prazer de sentir enquanto filho que é.

EU-PRÓPRIO O OUTRO (fragmento)



Lisboa 1907 ─ outubro, 12.

Sou um punhal d’ouro cuja lâmina embotou.
A minha alma é esguia ─ vibra de se enlaçar. Só o meu corpo é pesado. Tenho a minh’alma presa num saguão.
Não sou cobarde perante o medo. Apenas sou cobarde em face de mim próprio. Ai! se eu fosse belo…
Envergonho-me, de grande que me sinto.
Sou tão grande que só a mim posso dizer os meus segredos.
Nunca tive receios. Tive sempre frio.

novembro, 1.

As janelas abertas continuam cerradas…

novembro, 13.

É lamentável como me erro continuamente. Em mim e entre os mais.
Eu fiquei sempre, nunca fui ─ mesmo quando me perdi.
Às vezes ainda me decido a partir. E parto. Mas nunca venço seguir. Se não é por culpa minha ─ é por culpa dos outros, que me acenaram.
É que eles, se me acenaram, foi por julgarem que eu nunca os seguiria ─ foi para sofrerem. E como afinal parti atrás dos seus gestos, desencantaram-se de mim, fugiram escarnecendo-me. Tombei-lhes
Só me é permitido ser feliz, não o sendo.

dezembro, 2.

É inacreditável!
Quase todos se contentam consigo próprios ─ bastam-se. E vivem, e progridem. Fundam lares. Há quem os beije.
Que náusea! Que náusea! Não se ter ao menos o génio de se querer ter génio!...
Miseráveis!

dezembro, 30.

…E as janelas abertas, sempre… sempre fechadas…
Encalhei dentro de mim.
Nem me concebo já.

Roma, 1908 ─ junho, 20.

Cidades! Cidades!
Fustigo-me de movimento. É como posso melhor cerrar os olhos.
Corro Europa há seis meses… Não me detenho uma semana. Assim me logro fugir…
…………………………………………………………………………………………………..
Mas ai, depressa me alcanço…

Paris, 1908 ─ outubro, 12.

Ruínas cinzentas de estátuas douradas; esfinges roxas, cegas; tronos sem degraus ─ e a grande escadaria de mármore atapetada de serapilheiras!...
─ Mas para que me hei-de olhar assim, para quê?... Esta ânsia de me descer é que me entardece. E contudo sinto-me tão orgulhoso ao varar-me…
Ah! se eu fosse quem sou… Que triunfo!...

outubro, 13.

Afinal, é só isto: sobejo-me.



Mário de Sá-Carneiro, in Céu em Fogo, Relógio d’Água, Dezembro de 1998, pp. 163-167.

«EU NÃO SOU EU NEM SOU O OUTRO, SOU QUALQUER COISA DE INTERMÉDIO: PILAR DA PONTE DE TÉDIO QUE VAI DE MIM PARA O OUTRO»

Nascido em Lisboa a 19 de Maio de 1890, Mário de Sá-Carneiro perdeu a mãe quando contava apenas 2 anos de vida. O facto veio a revelar-se determinante no desenvolvimento da personalidade do poeta. Com uma carreira militar a dar os primeiros passos, o pai de Mário de Sá-Carneiro acabou por deixá-lo ao cuidado dos avós numa quinta situada em Camarate. Aos 8 anos, perdeu a avó, tendo então passado a viver apenas com o avô e uma ama. O ambiente da quinta estimulou-lhe a imaginação e, consequentemente, as primeiras peças teatrais. Entretanto, o seu pai investia a fortuna em viagens por Paris, Roma, Nova Iorque, mimando o menino e, por vezes, levando-o consigo pelos melhores hotéis da Europa. Ao que parece, o jovem foi sempre tão mimado que aos 14 anos ainda não se sabia vestir sozinho. Este estilo de vida atípico, fez com que só muito mais tarde do que seria previsível tenha o jovem entrado para o Liceu do Carmo, posteriormente Liceu de S. Domingos, para aí concluir o ensino secundário com 21 anos já feitos. A vida sedentária tê-lo-á tornado socialmente inadaptado, tímido e com alguma vergonha do excesso de peso, característica que o levou a chamar-se a si próprio, não sem ironia, de Esfinge Gorda. No liceu, continuou a desenvolver a apetência pela literatura, sobretudo pelo teatro. Em 1904, redige e publica um jornal académico intitulado O Chinó. Traduz Schiller, Goethe, Victor Hugo, entre outros. Começa a escreve os primeiros poemas: «O amor não é um bem: / Quem ama sempre padece». À escrita, devem juntar-se breves e malogradas experiências como actor. Em 1908, começou a publicar poesias e contos na revista Azulejos. Eram estes os seus temas aos 18 anos: loucura e suicídio. 1910 será um ano marcante. Escreve a peça Amizade com o amigo Tomás Cabreira Júnior, o qual se suicidará, com um tiro na cabeça, no pátio do Liceu de S. Domingos, a 9 de Janeiro de 1911. Num poema dedicado ao amigo, escreverá Mário de Sá-Carneiro: «Amor! Quem tem vinte anos / Há-de por força amar. / Na idade dos enganos / Quem se não há-de enganar?» (A Um Suicida) Cito António Quadros: «Com este ano de 1911 completa-se um primeiro ciclo da vida do poeta, o ciclo estudantil. É o ano em que se suicida o seu melhor amigo, em que pensa já muito a sério a sua qualidade de escritor, em que termina o liceu e em que se matricula na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, cujo primeiro ano não chega sequer a concluir». O segundo ciclo será o da publicação e representação de Amizade (1912), das colectâneas de contos Princípio (1912) e Céu em Fogo (1915), do livro de poemas Dispersão (1914) e da novela A Confissão de Lúcio (1914). As obsessões do contista serão sempre as mesmas: suicídio, crime, loucura, morte. Princípio confere-lhe algum reconhecimento junto do meio literário lisboeta. Após uma fugaz passagem por Coimbra, Mário de Sá-Carneiro conheceu Fernando Pessoa na capital. Pouco depois, o poeta de Dispersão partiu para Paris. Aí travou conflituosas relações com Santa-Rita Pintor, ao mesmo tempo que se deixava emaranhar na vida artística parisiense: «Que droga foi a que me inoculei? / Ópio de inferno em vez de paraíso?... / Que sortilégio a mim próprio lancei? / Como é que em dor genial eu me eternizo?». Problemas financeiros, traziam-no, de quando em vez, a Portugal. Assim como a ameaça de uma invasão alemã que pairava sobre a capital francesa em tempos de Guerra. Passa cerca de um ano, entre 1914 e 1915, junto dos seus camaradas modernistas: Fernando Pessoa, Luís de Montalvor, Armando Côrtes-Rodrigues, Raul Leal, Almada Negreiros, António Ferro, entre outros. Reúnem-se em tertúlias de café, no Martinho da Arcada, na Brasileira, etc.. Deste convívio resultará a revista Orpheu, cujo 1º número verá a luz do dia em Março de 1915. Os textos de Álvaro de Campos provocaram escândalo, o grupo foi visto como um bando de malucos que deixou Fernando Pessoa em êxtase. Esgotado o 1.º número, o 2.º saiu em Julho. Nesse mesmo mês, Mário de Sá-Carneiro partiu definitivamente para Paris. Com o pai novamente casado, sem a fortuna de outrora, a subsistência do poeta ficou nas suas próprias mãos. O pai ainda lhe mandava algum dinheiro, mas não o suficiente que pudesse garantir a sua subsistência e a continuidade dos projectos literários que havia planeado. Escreve os últimos poemas de Indícios de Oiro, o livro que ficará inédito: «Uma gaveta secreta / Com segredos de adultérios… / Porta falsa de mistérios ─ / Toda uma estante repleta: // Seja enfim a minha vida / Tarada de ócios e Lua: / Vida de Café e rua, / Dolorosa, suspendida ─ // Ah, mas de enlevo tão grande / Que outra nem sonho eu prevejo… / ─ A eterna mágoa dum beijo, / Essa mesma, ela me expande…». Nos derradeiros meses em Paris, uma paixão desastrada por uma prostituta chamada Lili (Helena? Renée?), a falta de dinheiro e o desespero levam-no a tomar 5 frascos de arseniato de estricnina. Tinha 10 cêntimos no bolso do colete.