quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

MEU DEUS




o que me queres dizer quando me apertas a cabeça meu deus
com essa garra excessivamente doce
há coisas que posso compreender mas não conduzir
como modelar meu ser com polegares tão desajeitados
como mudar a carga de tantas células perdidas

não dês tantas voltas meu deus para que chegue o calor
deixa-o vir
deixa-me ser assim
não arrastes a dor até à perfeição
eu simplesmente não vou ensombrecer o teu mundo
já sei que o eu dói
que matando-o não doeria

assim dizia um homem apertando a cabeça
a cambalear ao acaso com os olhos fechados
falando para um cão morto

César Fernández Moreno, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 146.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #5


Fixai este nome, estranho e longo nome: Pierre-Thomas-Nicolas Hurtaut (1719-1791). Historiador, gramático, professor de Latim na Escola Militar, escreveu obras literárias, de filologia, de história, de medicina, mas quis o destino que ficasse para a posteridade como autor de um pequeno livro intitulado L’Art de Péter (1751). Não é caso único neste estranho mundo que um homem se torne imortal pelas mais inusitadas razões. Outro exemplo é Métrocles, que ter-se-á peidado na estreia como orador junto dos seus camaradas cínicos. Tanta foi a vergonha que quis fechar-se para sempre em casa numa derradeira greve de fome. Acabou por ser salvo da morte por Crates, depois de este lhe oferecer tremoços explicando-lhe que um peido era algo de que não devia envergonhar-se por ser a mais natural das manifestações humanas. E então o próprio Crates se peidou.
   Salvo da fome por tremoços, Métrocles fixou-se para sempre na História da Filosofia por um peido. Se julgais, minhas filhas, ser de pouca monta o feito, pensai bem antes de cederdes a julgamentos precipitados. Para nos explicar a relevância da flatulência escreveu Hurtaut A Arte de Dar Peidos (Orfeu Negro, Novembro de 2010). Jorge Lima Alves, no preâmbulo à edição portuguesa, chama-lhe “poeta dos gases” e “sábio da flatulência”, expressões modestas para classificar o verdadeiro alcance deste Ensaio teórico-físico e metódico. São onze capítulos espirituosos e de indubitável rigor científico que esta obra oferece, permitindo-nos, desde logo, entender que «Dar peidos é uma arte e, por conseguinte, algo útil à vida, como afirmam Luciano, Hermógenes, Quintiliano, etc» (p. 19).
   Não sendo fácil cotejar a alusão com as fontes, parece-me compreensível que em nada mudaria nossa opinião acerca destas matérias se concluíssemos que etc jamais proferiu as afirmações que Hurtaut lhe atribui. A verdade é que pelo peido toda a humanidade se liga, sem olhar a género, etnia, estrato social, idade. Trata-se não apenas da mais universal e democrática das manifestações humanas, como também a prova que desmascara as peneiras e desfaz, por assim dizer, a cagança. Da definição alargada de peido ao problema das suas origens, passando pela divisão e estratificação dos mesmos quanto a volume e fragrância, Pierre-Thomas-Nicolas Hurtaut não esgota o tema assumindo as despesas de um potencial estético que não devemos descurar:

Um cientista alemão propôs uma questão difícil de resolver: saber se é possível haver música nos peidos. Respondemos com convicção: com certeza que há música nos peidos ditongos. Não esse tipo de música que se produz com a boca ou recorrendo a um qualquer artefacto, como um violino, uma guitarra, um cravo, etc., mas a que se obtém soprando, por exemplo, numa trompa ou numa flauta. A fim de provar o que afirmo, citarei o exemplo de dois rapazes que se divertiam, realizando, de vez em quando, concertos singulares, aos quais assisti na minha qualidade de colega de turma dos actores. Um deles arrotava a seu bel-prazer, nos mais variados tons, enquanto o outro se peidava com o mesmo talento. Este último, para dar mais elegância ao seu instrumento, punha no chão da sala uma pequena bacia para coar queijos, sobre a qual estendia uma folha de papel. Sentava-se em cima dela, nu, e, meneando as nádegas, soltava sons orgânicos de todo o género. Ouso afirmar que um habilidoso mestre de música poderia ter extraído daqui noções originais e dignas de ser transmitidas à posteridade, e de passarem a figurar nas regras da composição. Poderiam igualmente ser anotadas no modo diatónico, na condição de se proceder por uma dimensão pitagórica.

Das lições que podeis reter deste ensaio satírico, guardai esta: o riso é uma das armas mais eficazes contra o preconceito, faça-se ele ou não acompanhar da música do traseiro.  

HELLER IN PINK TIGHTS (1960)



   A história divide-se quanto aos méritos do realizador George Cukor (1899-1983). O mesmo não sucede quando está em causa o bom gosto que mostrou na selecção de actrizes. Em My Fair Lady (1964), que lhe valeu um Oscar, filmou Audrey Hepburn. Katharine Hepburn foi por ele filmada antes, em The Philadelphia Story (1940). Uma das estrelas de Gaslight (1944) é Ingrid Bergman. Já em A Woman’s Face (1941) o protagonismo foi para Joan Crawford. As mulheres são a figura central dos seus filmes, como facilmente se comprova percorrendo os títulos que assinou enquanto realizador. Um deles é o mal-amado Heller in Pink Tights/Agarrem Essa Loira (1960), com a mais bela das actrizes de todos os tempos no papel principal: Sophia Loren. Infelizmente, com o cabelo pintado de louro. Mas já lá iremos.
   Convém lembrar que Cukor começou na Broadway. Só posteriormente migrou para Hollywood, levando na bagagem a ligeireza da comédia e a alegria do musical. O historiador e crítico francês Georges Sadoul, sempre severo para com os maneirismos da indústria norte-americana, foi bastante generoso para com a obra do autor de A Star Is Born (1954), sublinhando-lhe as “excelentes adaptações”. A acção de Heller in Pink Tights (a ironia do título perde-se na versão portuguesa) decorre no Antigo Oeste, sendo algo forçoso considerar-se este um filme do género western se nos cingirmos a uma perspectiva convencional. O desvio dos padrões fica patente logo na cena de abertura, com dois carroções em fuga, não de um batalhão de índios selvagens, mas de dois senhores bem compostos e respeitadores da delimitação dos mandatos judiciais. E quem segue nos carroções? Uma companhia de teatro. E quem os persegue? Só mais tarde saberemos.
   Podemos no entanto adiantar que algures entre a comédia de costumes e o romantismo inerente ao estilo, a companhia de teatro significa neste contexto muito mais do que uma mera trupe ambulante a fazer pela vida. A luta pela sobrevivência da companhia a cargo de Thomas Healy, interpretado por Anthony Quinn, tem no seu seio uma aliada fortíssima, uma arma tão poderosa como as que Jesse James e Wyatt Earp usavam para fins diversos. Essa aliada chama-se Angela Rossini, simplesmente Angie para os amigos, bela, provocante, sedutora, irresistível. E quem menos capacidade mostra para lhe resistir torna-se sua presa, estejamos nós a falar de empresários do mundo do espectáculo, empreendedores corruptos ou assassinos a soldo. Tal como na mesa de póquer ela aposta-se a si mesma, na vida o jogo estabelece-se constantemente nas jogadas de risco e no bluff. Poderia a vida de uma actriz no Old West ser de outra maneira?
   Neste filme que na era Harvey Weinstein seria politicamente incorrecto, desde logo pelo papel de assédio que aqui recai sobre a mulher, não com carga negativa, mas como arma a seu favor, os produtores são quem mais se ridiculariza. Era típico da época, aliás, como também sublinha Sadoul na sua História do Cinema Mundial, ao lembrar as comédias ligeiras que faziam o público acreditar no sonho americano e ofereciam dos milionários a imagem de «inocentes patetas cuja extravagância não excluía nem a caridade nem a bondade». Agarrem Essa Loira encaixa que nem uma luva neste tipo de leituras, não sendo por isso que perde o seu interesse.
   Sophia Loren lá está, na graça dos seus 26 anos, com um sotaque italiano irresistível, olhos penetrantes, linhas curvas tão naturais quanto o seu sorriso contagiante. E Anthony Quinn, que um ano antes tinha contracenado com Kirk Souglas no magnífico Last Train from Gun Hill (1959), surge agora com as fragilidades típicas de um amante das artes, sem qualquer domínio sobre a realidade, sonhador, utópico, incapaz de disparar uma arma. E acrescente-se que o filme tem a sua origem numa história de Louis L’Amour, sem dúvida um dos escritores que mais se dedicou a reescrever a mitologia do faroeste.  

UM POEMA DE JOÃO PAULO ESTEVES DA SILVA

À BEIRA DO LAGO DE TIBERÍADES

Aquele rapaz judeu, daqui, da Galileia,
que os romanos mataram para exemplo,
que curava pessoas, contava histórias,
aos que já não precisavam de as ouvir
por já acreditarem nele, enquanto
os descrentes, mais cegos e mais surdos
ficavam perante a luz e o som; esse rapaz,
nunca veria a beleza possível da justiça?
Seria todo ele, e só, amor divino?
Não vou discutir se era deus ou não.
A ideia de ter vindo para nos salvar,
sofrendo por todos, por amor de todos,
é uma ideia bonita, forma pregnante, fértil,
fundadora das nossas vidas ocidentais,
que já leva dois mil anos de carreira;
e quase que me levava pelo mito fora,
não fosse o pormenor, tantas vezes despercebido,
de o corpo escolhido para sofrer por todos
ser, como quem não quer a coisa, um corpo judeu.
Nisto, o meu coração tropeça, e desconfia.
Se a salvação depende do sofrimento dum judeu,
então não a quero, deus me livre de salvações destas.
E também não quero um mundo de amor puro
em que o Hitler e o imperador Constantino
que matou o filho, cozendo-o como uma lagosta,
tenham o mesmo lugar no seio da misericórdia
do que a Dona Ana, que enlouqueceu de dor e desamor,
ou aquela puta de olhos tão duros e tristes,
ou eu com sonhos de matar cavalos feridos.
Aliás, contam os sábios de Israel, que deus tentou
fazer o mundo só com amor, e a coisa não pegou;
tentou fazer o mundo só de justiça, e foi ainda pior.
Terá, então, feito este mundo que há, de mistura explosiva.
E é o que temos, e que talvez possa melhorar.
A dever escolher entre os dois mitos, prefiro o último,
mas compreendo que este mar de luz sobrenatural
deixe imensas saudades de um amor puro.


João Paulo Esteves da Silva, in Dois Bois e Uma Arma na Mão, Douda Correria, Abril de 2018, s/p.

GRAMÁTICA RACIAL


Se agentes da autoridade ameaçarem dirigentes políticos por delito de opinião choca menos do que “a bosta da bófia” é porque o Estado de direito já não nos interessa muito. Se quem nos deve proteger nos ameaça, só porque deles não gostamos, dificilmente podemos achar que vivemos numa democracia. E se nada acontecer aos agentes de forças de segurança que fizeram estas ameaças públicas (e privadas) temos boas razões para acreditar que ninguém defenderá Mamadou Ba

Daniel Oliveira, aqui. Tenham a gentileza de ler tudo.

Adenda: para conhecer melhor Mamadou Ba, ouvir aqui.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

RUI CAEIRO (1943-2019)


A fotografia é da Ana. Foi captada em 2005, na FNAC de Santa Catarina (Porto). Encontrámo-nos nas Caldas, passámos por Rio Maior, seguimos para o Porto. O Rui foi à boleia com o Luís. Sessão de Ventilan com exposição dedicada à & etc. Rui Caeiro falou, Ventilan tocaram. Manteve-se sentado no palco durante toda a sessão. No final, entregou à Inês Lourenço uns livrinhos acabados de imprimir. Foi há 14 anos, tenho tudo gravado em VHS. A serenidade de Rui Caeiro marcou-me, e a forma como a certa altura diz que a postura da & etc tem um preço a pagar. Mas nós gostamos, acrescenta. Um poema, aqui. O Carnaval dos Animais, aqui. Diálogos Marados/Um Maluco Vem Pousar-me Na Mão, aqui.Um diálogo marado: aqui. Uma tradução: aqui. E outra tradução: aqui. E tantas mais... Obrigado.

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #4


Ingrata é a História ou o historiador, minhas filhas, que à extrema popularidade em vida tem a consagrar na morte pouco mais que lacónica nota de rodapé. Assim sucede a Albino Forjaz de Sampaio, que na História da Literatura Portuguesa (A. J. Saraiva & Óscar Lopes) surge apenas no capítulo V nos termos que a seguir reproduzo: «Albino Forjaz de Sampaio (1884-1949), cuja notoriedade foi granjeada por umas Palavras Cínicas, 1905, sem originalidade, com 63.ª edição em 1978, a que depois opôs uma obra de erudição e exaltação do patriotismo nacional». Esqueçam a segunda parte, fiquem-se pela primeira. Cá por casa sobrevive a 9.ª edição (26.º milhar), ratada e suficientemente maltratada para que vos mereça toda a atenção. E topai como naquele tempo eram aos milhares as edições. Se pretendeis saber um pouco mais acerca deste best-seller português da primeira metade do século XX, podereis dar com ele na História de Portugal dirigida por José Mattoso. Não merecendo na da Literatura mais do que rodapé, na de Portugal tem atenções redobradas ao tomo VI:

Um dos mais espertos literatos desta época, Albino Forjaz de Sampaio, depurou a crítica naturalista de alguns restos de moralismo, e em 1905, aos 20 anos, depois de alguns versos à Nobre, publicou Palavras cínicas, um dos grandes sucessos literários do século XX em Portugal. Protegido de Fialho de Almeida, Sampaio adoptou a maneira desabrida do mestre e atacou os «bons sentimentos», o amor e a amizade, etc., sob o lema «Se não esmagares, serás esmagado». Nos anos seguintes prosseguiu, sempre com êxito, a sua exploração das «sensações fortes», em Crónicas imorais (1908), Lisboa trágica (1910), Prosa vil (1911), reportagens sobre a degradação da vida moderna em Lisboa (como jornalista de A Luta, de Brito Camacho).

À época, A Luta era A Lucta, tal como hoje acto é ato e afecto é afeto. Foi um órgão vinculado ao Partido Unionista (de direita democrática), denegrido como sendo coisa de intelectuais. Por ser de direita, podia ser desaconselhável. Por ser de intelectuais, evitável a todo o custo. Ficai sabendo, minhas filhas, que neste nosso querido país ser alguém chamado de intelectual é grave insulto, mais que ser-se estúpido ou filho da puta (neste caso pode até ser sinal de esperteza, a virtude predilecta dos portugueses). Mas o êxito impõe respeito, mesmo não garantindo admiração. A par de Júlio Dantas, foi Forjaz de Sampaio um dos autores portugueses que mais vendeu naqueles tempos. Do pessimismo inicial ao optimismo de Porque me orgulho de ser português 6000 exemplares em poucos meses, com fortes elogios do PR Bernardino Machado, de Gago Coutinho, do próprio Dantas, de Sebastião Magalhães Lima (grão-mestre da maçonaria) e de Fernando de Sousa (importante jornalista) , merece a pena ter em conta as subtilezas do tacticista:

A sua mensagem era simples: «Céu, mar, terra, mulheres, canções não há no mundo como o nosso Portugal.» E, alegremente, tratou de pilhar os conhecimentos acumulados pelos «nacionalistas» para provar como o céu de Portugal é mais azul, a mulher portuguesa a mais «feminina da Europa», etc..

Optimismo cínico, mero oportunismo, ou jogo de conveniências, o que importa salientar é o jogo de anca deste notável histrião das letras portuguesas. O leitor comia por vibrar com o escândalo, Forjaz de Sampaio servia-o requentado e com temperos inigualáveis. Acabou a chamar «poeta dos snobs» a António Nobre (homem rico, mandrião, egoísta, vadio, desenraizado, preocupado com a sua dor, indiferente à dos outros, foram outros epítetos que atribuiu ao autor de ), dedicando ao louco Ângelo de Lima palavras de ternura. Nas Palavras Cínicas podeis encontrar muito do seu pensamento, quase sempre revirado pela ironia, contaminado por uma vontade de denunciar em breves cartas muitos e longos vícios. Ficai com um aforismo de exemplo, colhido logo na primeira para dar o tom do que se segue:

De trinta mendigos a quem dei esmola hão-de nascer noventa patifes para me apedrejar.

Se discutíveis são os méritos do escritor, na aritmética não podemos dizer que tenha falhado.

A IDADE DOS HOMENS




Vais fazer 36 anos sem ter ido ao Japão,
sem ter feito um nome,
como é uso nas novas gerações.

Tens escrito mais, é verdade,
agora até calções usas
e as personagens que vais representando
mantêm distância do chão que pisas
de segunda a domingo.

Diz a auto-ajuda
que amas com maior sabedoria,
embora essa irritação
que te explode nos genes
continue a não dar jeito nenhum.

(tanta gente a quem ligares
pessoas suspensas no calendário
como quem adia milagres,
surpresas que não nos acontecem sozinhos).

Vais fazer 36 anos,
a idade do profeta ficou bem mais longe
e só te resta a idade dos homens.


Nuno Costa Santos (n. 1974), in Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme (2012). Autor de uma obra dispersa por vários géneros, escreveu para cinema, televisão, rádio, teatro. Tem vários livros de crónicas publicados e um romance revelador da importância que atribui a uma busca incessante dos fundamentos, das raízes, do passado enquanto alicerce de uma existência não esgotável no quotidiano presente. Exímio coleccionador de aforismos, publicou também poesia: Os dias não estão para isso (Livramento, 2006) e Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme (Companhia das Ilhas, 2012). De carácter aforístico, a poesia de Nuno Costa Santos exibe um olhar atento ao mundo dos homens. As “pequenas coisas” sobrelevadas no segundo título surgem enquanto núcleo celular a partir do qual um corpo se desenvolve, sendo particularmente sensível o modo como se articulam estas pequenas coisas, supostamente irrelevantes, com uma noção de sentido para a vida emotiva e simplificadora. Poeta dos afectos, como também o foram O’Neill, Assis Pacheco ou mesmo Ruy Belo, Nuno Costa Santos denota uma segurança que lhe permite ser claro sem resvalar para o sentimentalismo ou para a gratuitidade emotiva. Mas ainda que essa clareza enuncie a busca de «uma luz própria e irrepetível», o lado sombrio da vida também tem lugar nestes versos sob a forma de uma nostalgia que relativiza toda e qualquer excessiva dramatização existencial.

LUGARES / LUGAR

É um homem de lugares - dos seus lugares - e não é dado a viagens. Qual é a relação que tem com a ilha e os seus recantos?

Eu sou um homem de um só lugar. Este onde adormeço todos os dias, e onde hei-de ficar, em pó, no para sempre. / Esta ilha dá-me a minha memória. A história, e a sombra, dos meus passos. / O Mar que está à nossa volta ajuda-me a não ter horizonte. É uma espécie de canal entre a vida e o depois dela. / O Mar é todo igual, poderão dizer-me. / Não é, afirmo-o com convencimento. O meu Mar é a água que só os meus olhos vêem. / Os outros lugares, são outros lugares. Lugares de outros, das outras pessoas.


Emanuel Jorge Botelho, entrevistado por Nuno Costa Santos e João Pedro Porto, in Grotta - arquipélago de escritores, n.º 3, 2018/2019, direcção de Nuno Costa Santos, Publiçor / Letras Lavadas Edições.

JANEIRO



TEATRO DA RAINHA, CALDAS DA RAINHA, 15 JANEIRO

A noite aconteceu, enorme. E lúcida. Os que se afastem do convívio com os palcos (de teatro, que os de concerto são outra música) perdem, sem o saber, contacto com a realidade, com o oxigénio. Por isto. O Henrique [Manuel Bento Fialho] resolveu recomeçar o ciclo lunar do «Diga 33 – Poesia no Teatro» com os supermanos, António [de Castro Caeiro] e José [Anjos]. A singeleza da encenação (foto na página de Graça Ezequiel) potenciou a cumplicidade entre os dois, com leituras, comentários e música. O Henrique manuseou a curiosidade como ferramenta e pôs o António a explicar-nos que o destino se faz corda de ringue nas nossas mãos, sendo o boxe apenas uma das possibilidades, cada qual tendo na mão a escolha de modalidades, combates, até de adversários. Ilustrou depois os versos ditos do Anjos à viola, antes de o fazer com lanterna, no fecho: «um quadrado de terra na cidade/ um verão de amendoeira/ uma flor, uma pedra luminescente no peito/ da igreja/ a respiração ainda quente de uma boca derrotada/ um dia cruel/um gato de sombra que nasceu da invenção/ de uma escada/ e a sombra de um gato que morreu/ como a divisão de uma casa// a dor à volta da qual tudo se constrói.»

João Paulo Cotrim, aqui.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

FIZERAM-ME HOJE ESTA PERGUNTA


Se o Berardo deve tanto dinheiro à Caixa, por que razão a Caixa não lhe fica com a colecção de arte?

sábado, 26 de janeiro de 2019

CAMPEÕES DE INVERNO


(clique na imagem para ver melhor)

O GRANDE CÓMICO


O Ricardo é agora principalmente conhecido por ser a estrela e locomotiva do Governo Sombra, um programa que reúne três (quatro?) personalidades unidas na sua perseguição política ao PS. O José Diogo Quintela foi para o esgoto a céu aberto sacar uns cobres a alimentar o clima de ódio e perseguição política ao PS. O Tiago Dores ingressou recentemente no Observador onde faz coro na madraça para a perseguição política ao PS. Resta o Miguel Góis, que aparenta ser apenas publicitário mas que, calhando imitar os colegas, tem muito por onde escolher se a intenção for a de ganhar dinheirinho do bom na perseguição política ao PS



Quem melhor para responder a Valupi senão o próprio Valupi, esse grande cómico? O último parágrafo deste post também é de antologia. 

COMO FOLHAS DE CAEIRO




Se o destino quisesse que eu me tivesse feito escritor,
teria posto a minha mão direita contemplando o impossível da
minha mão esquerda, e as duas servindo ao sonho de eu
não estar aqui, mas outro homem com caneta escrevendo
a vida desse deus que podia ter cabido em meu lugar
só para sonhar homens de mais serventia para o alto.
Se o destino escrevesse direito, como o crer dos crentes, nas
linhas vesgas que hoje me desfiguram as mãos com rios
imperfeitos ou erros da gramática, fingindo a cura das almas
renitentes e de todas as faltas de sentido com palavras como
sol, destino, deus, rios, palavras, então eu abriria as mãos
para te mostrar
como rouba a vida tudo quanto fica escrito.



Rui Costa

17/06/2008 (originalmente publicado: aqui)


sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

MAMADOU BA


Na generalidade, os comentários a esta notícia são o nojo que explica a idolatração de Salazar, 20 anos de Cavaco e até, porque isto anda tudo ligado, um país futebolizado do qual os tops das livrarias e os sucessos de audiência televisiva são meros sinais da mediocridade que nos subsidia. Os mesmos portugueses que passam a vida a chamar tudo e mais alguma coisa à sua classe política mostram-se indignadissímos quando alguém diz umas verdades, alguém que, por acaso, é preto. Mamadou Ba tem toda a razão no seu desabafo sobre a "bosta da bófia" portuguesa, que, como é óbvio, não é toda ela uma bosta, mas tem no seu seio uma grande quantidade de bosta que convinha limpar. Só faltou estender o qualificativo à sociedade portuguesa em geral, que está cada vez mais imersa na bosta e com um sorriso de orelha a orelha. Enquanto os racistas deste país, que são tantos, mas tantos, e tão visíveis e óbvios, fazem render as suas mensagens de ódio e sacam de todas as algibeiras que têm os seus argumentos falaciosos, outros vão metendo ao bolso mais uns milhões da Caixa Geral de Depósitos. Que, por acaso, são milhões de todos nós. Que, por acaso, andamos distraídos com tanta bosta que nem nos resta um pingo de indignação para o que verdadeiramente importa. A culpa é do preto, pois claro. De quem mais poderia ser?

Adenda: fixe, fixe, é o Albuquerque da Madeira. E o Rónaldo, claro:


MEMÓRIAS DOMÉSTICAS

No Som e Fúria, a responder ao manuel a. domingos: aqui.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

DÉJÀ VU


   Ouvi dizer que Lisboa estava a arder, que as chamas chegavam a Setúbal, que os pretos e os ciganos haviam invadido a Avenida da Liberdade (parece que os ciganos não), revirando tudo, partindo montras, incendiando autocarros, esquadras da polícia, viaturas civis, um caos. Fui ver. Há muito que me interesso por estes fenómenos e ansiava por este dia, anda sempre tudo tão calmo no nosso país. Excepto nas redes sociais. Aí, diz-me quem lá anda, é só bastonada e gente a atirar pedras e a disparar tiros de disparates. Meu Deus, o que há de violência nas redes sociais. Os Hospitais das redes sociais não devem ter mãos a medir com tanto ferido, com tanto sangue, com tanto rasgão na carne.
   Fui ver. Cheguei espantado com a calmaria no trânsito. À excepção de dezenas de trotinetas abandonadas pelos passeios e um enxame de tuk-tuks a transportarem asiáticos, nada vi de anormal. Mas logo a primeira pessoa com quem falei me disse ser absolutamente normal nos dias de hoje, assim como é normal a especulação imobiliária, gente posta fora de casa por não conseguir suportar os aumentos de renda, uma confusão de gananciosos sequiosos do dinheiro dos turistas que faz a vida negra aos portugueses. Qualquer dia, disseram-me, não haverá lugar para os portugueses no centro de Lisboa. A não ser para aqueles que aí se desloquem com a missão de transportar hordas de asiáticos. Vim-me embora de Lisboa há 18 anos, vai fazer 19, porque já naquele tempo não estava para viver na confusão. Imagino o que seja agora. Mas isto passa, tenham esperança. 
   Seja como for, quis ver a revolta dos excluídos, das vítimas de racismo, quis ver a polícia a actuar em tempo real. Infelizmente chego sempre atrasado a tudo. Não vi nada que não tivesse visto já. Histórias de agentes da autoridade a abusarem da autoridade é o que não nos falta, histórias de civis a faltarem ao respeito à autoridade dos agentes é o que não nos falta. Como nem tudo são histórias, bairros ditos problemáticos também não faltam, agentes sem receio de actuar devidamente nesses bairros talvez vão escasseando. O que haverá de novo, então, que tanto agita os corações humanos? Cheira-me a explosão, mas ainda o rastilho mal foi ateado. O que será que temos nestes últimos anos que possa ser digno de nota? 
1.º Uma geração de portugueses nascidos em Portugal que não se sente portuguesa, quer por ser alvo de segregação racial, que existe, quer por mal conhecer o país para lá das fronteiras do bairro onde reside, bairros quase sempre degradados e para os quais os restantes portugueses olham com desconfiança e medo, o que em nada contribui para a integração social das pessoas que aí vivem; 
2.º Um intenso fenómeno de gentrificação que está a atirar toda a gente para a periferia da periferia, causando choques inevitáveis e problemas de comunicação agravados pela frustração económica e social; 
3.º Um claro desenvolvimento de atitudes racistas e discursos xenófobos no interior das forças de segurança pública, o qual me parece mais subtil do que tem sido dado a ver em notícias de acusações de tortura e uso excessivo de violência; 
4.º Uma sociedade evidentemente mais agressiva e sem filtros morais, com gravíssimas deficiências ao nível da educação e, por consequência, com problemas evidentes de integração num mercado de trabalho que desde muito cedo faz as pessoas sentirem que estão a ser exploradas; 
5.º Uma comunicação social desesperada que sobrevive da exibição inadvertida do que venda, sangue, morte, crime, tragédia, empolando fenómenos banais de risco que facilmente se podem transformar, como uma bola de neve, em avalanches incontroláveis;
6.º E, por fim, há toda uma classe política que pretende capitalizar com este tipo de situações, uma classe que medra nos media, aí cresce, se mostra, sempre com discursos agressivos e intolerantes que vão ao encontro dos medos, anseios e receios das populações. 
   Portanto, até ver, é isto. E isto não muda com falinhas mansas no poder e discursos inflamados no café.


Adenda: sobre este tema, ler o Ricardo António Alves: aqui.

CARTAS & OSTRAS



   Comecemos pelas ostras, que dão sempre boa entrada. Paulo da Costa Domingos (n. 1953), escritor, editor, antiquário de livros, organizou Ostras, Doc. Interno (Janeiro de 2019, Viúva frenesi) enquanto relatório para distribuição pública «por ocasião da mostra evocativa dos quarenta anos da frenesi na Biblioteca Nacional». Carimbo no cólofon informa: cancelada. Assim mesmo, sem mais. A frenesi é uma das relevantes casas editoriais portuguesas do século XX, nascida em relação de proximidade com a & etc de Vítor Silva Tavares. O legado impressiona qualquer amante de livros, não só pela poesia portuguesa e pelas traduções. Ao cuidado gráfico aliou-se, desde a primeira hora, uma atitude desafiadora com polémica garantida e alguns momentos hilariantes. A memória de um desses momentos foi agora recuperada, não fosse o olvido fazer das suas numa época que cada vez mais se exibe sem passado nem futuro.
   Convém declarar acerca dos dois objectos que motivam este texto serem eles testemunho e tomada de posição. Testemunho enquanto contributo para uma história que vale a pena inscrever e tomada de posição sobre o momento actual, o qual se afigura, pela vertigem dos acontecimentos e aceleração dos fenómenos, cada vez mais indiferente a um passado do qual não pretende colher exemplos nem lições. As consequências são óbvias, com meticulosas omissões e uma capacidade selectiva anormal a fazerem a cama a um estado de coisas que já nem pode ser acusado de revisionista. Porque não revê nada, é pura rasura ao serviço da ignorância e, por consequência, de poderes hegemónicos a quem essa ignorância não só convém como serve. Se assim é a nível político e social, poderia não o ser no mundo das letras?
   Precisamente contra tais poderes hegemónicos surgiu há 40 anos e foi crescendo até hoje a editora frenesi, agora Viúva frenesi. Do catálogo, um dos livros que deu que falar foi o anónimo Subsídio, Suicídio, Ostras Geladas (frenesi, Março de 1998). A questão da autoria era ali omissa com o propósito específico de deixar à nora a crítica literária, objectivo alcançado como o comprovam as recensões agora elencadas por Paulo da Costa Domingos. O “autor desconhecido” aguçou a imaginação, chegando a haver quem fizesse apostas. Sucede que o autor eram três: «Os três-autores-três, que haviam escrito e sequenciado o livro, constavam entre os mais mal tratados, ou reduzidos pelo silêncio, de todo o catálogo da frenesi». Lidos cegamente passaram a ter qualidades que olhos esbugalhados jamais haviam descortinado. Tem graça o divertimento, por ter conseguido «ridicularizar o cientismo crítico literário». Sabe-se hoje, por via da publicação de três livros na Viúva frenesi de 2017, que os três implicados no objecto lírico não identificado eram Rui Baião, Manuel Fernando Gonçalves e Paulo da Costa Domingos.
   Outro mosqueteiro destas frenéticas andanças foi Al Berto, que assinou com Paulo da Costa Domingos e Rui Baião a importante antologia Sião (frenesi, Fevereiro de 1987). Dos autores daquilo a que podemos chamar, com precavidas reservas, “grupo frenesi” mais correcto seria “núcleo apoiante” , Al Berto foi quem teve maior exposição mediática. O facto, por si só, não garante nada, a não ser certo folclore que no caso redundou num bolinho à venda nas pastelarias de Sines e num filme absolutamente medíocre. O contributo de Paulo da Costa Domingos vai no sentido de recuperar uma dignidade que outros parecem apostados em ajavardar. O extenso título é sintomático: «Al Berto: A Busca. A Solidão. A Morte. E Sempre Este Nosso Idioma [cartas inéditas e outras raridades, transcrição quase diplomática anotada por Paulo da Costa Domingos, seguidas de um poema deste último] (Viúva frenesi, Janeiro de 2019).
   Destas cartas, datadas do início da década de 1980, restauramos a ideia de um escritor com os seus tormentos e dúvidas: «será mesmo importante que as pessoas leiam o que escrevo?» (p. 3) A dedicação à escrita, para ser levada mais a sério do que por aí se propagandeia, faz-se acompanhar de sentimentos de exílio, solidão, depressão, num tom que nada tem que ver com o das cornucópias caleidoscópicas que ofuscam com brilhos artificiais a nebulosa por detrás dos acontecimentos: «no alentejo é frequente as pessoas livrarem-se da vida, aliviarem-se talvez, por enforcamento. é talvez por isso que os meus sonhos são, por vezes, atravessados por cordas. a herança destas planícies. a agonia dos dias imensos, sem ninguém…» (p. 6) Sobre este ninguém pesa a palavra solidão, tantas vezes repetida nestas missivas curtas mas altamente reveladoras de um estado de alma que não se coaduna com a putativa alegria de uma boémia que, bem entendida, é já em si mesma fuga e resposta à solidão interior e ao exílio exterior.
   O excelente ensaio de Óscar Faria que encerra Ostras, Doc. Interno é, aliás, um forte contributo para a contextualização do “divertimento” nestas matérias. Ao invés da mera provocação inconsequente e esvaziada de conteúdo, temos nestas duas publicações exemplos de um esforço ao serviço da desmitificação. Nas Cartas, desmitificação da persona. A certa altura o próprio Al Berto refere-se a si mesmo como «o novo-falso-mito», acrescentando: «eles não sabem que uma das atitudes possíveis é mantermo-nos de rosto virado, mostrar-lhes um pouco da máscara» (p. 8). Nas Ostras, a desmitificação opera-se numa primeira instância ao nível da autoria e, por consequência, resulta numa desmitificação da “imprensa cultural”: «Ao propor um livro escrito por autor anónimo, a frenesi operou um gesto dirigido sobretudo para dentro do meio literário, mais especificamente o das recensões de livros de poesia, pois sem autor, sem uma biografia, um contexto, o que resta para dizer?» (p. 26)
   O desafio é exactamente este, percorrer caminho na direcção do que resta. E o que resta para lá do Autor, essa marca que pode ser apagada pelo anonimato, pela heteronímia ou pela pessoa colectiva, é a palavra na sua máxima expressão, expurgada de rosto, palavra cortante, em estado bruto, palavra cruel, selvagem, pura palavra. Seria de supor que o debate crítico se desse apenas com esse texto, não carecendo de fotografia ilustrativa. Seria de supor do crítico uma coragem no confronto com o desconhecido que ele de todo não tem. Como em terra de cegos quem tem olho é rei, afasta-se de todo a leitura cega. Há reinados de um só olho que poucos estão dispostos a perder, sendo múltiplas e diversas as tácticas de conservação e os escudos protectores. Que façam bom proveito.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

FUGA AO FISCO COM SORRISO PEPSODENT


Nem uma hora esteve Cristiano Ronaldo no Tribunal da Audiência Provincial, em Madrid, onde marcou presença esta manhã, acompanhado por Georgina Rodríguez e o advogado José António Choclán. O internacional português saiu sorridente, acenou aos presentes e até deu alguns autógrafos.

Na audiência, Ronaldo terá assumido culpa de quatro delitos fiscais entre 2011 e 2014 – durante a sua passagem pelo Real Madrid –, aceitando pagar 18,8 milhões de euros de multa, além de 23 meses de prisão, com pena suspensa.


A notícia é de A Bola, que além do sorriso de Ronaldo salienta igualmente a indumentária de Georgina. E pronto, agora gritemos todos juntos: “Rónaldo, Rónaldo, Rónaldo!!!!”

Meu Deussh!


Penso que me aparecem poemas por duas razões: para alterar a vida, como chicote elétrico de alergia às coisas, ao nosso nojo e dos outros, por uma espécie de repulsa da inanidade, da malícia e da fealdade, ou então para passar a mais gente o que precisamente vai passar e a que queremos voltar, queremos gravar para mostrar e mitigar a maioria do quotidiano que é a prisão e a invalidez


Margarida Vale de Gato, d'ama sem segrredo, aqui. Ao som de mais uma edição impagável de Et de plomb et de plume, a 057, além.

CREIO NO MEU PAÍS


meu país cheio de fluxo de silêncio e absurdo
meu país de horror de cautela de medo em partes iguais
meu país em que tudo fracassa e se dilui
meu país impossível sem canto sem desejo
meu país queimando morto
meu país de nada nada
meu país de tormentos e papoilas
de assassinos bufões e monstros desvelados

deste puro gritar deste verão insone
desta sombra em que nada adquire qualquer sentido
deste asco deste horror desta madeira
surgirá por fim a luz que incendei a nossa rua
a estrela que nos guie
a estância clara e a memória em chamas?

sim
surgirá por fim a luz que incendeia a nossa rua
a estrela que nos guia
a estância clara
e a memória em chamas
sim

Edgar Bayley, in Antología - La poesía del siglo XX en Argentina, Edición de Marta Ferrari, La Estafeta del Viento, Colección Visor de Poesía, dirigida por Luis García Montero y Jesús García Sánchez, 2010, p. 132. Versão de HMBF

ESCÂNDALO NACIONAL


   Não sei se a vossa memória chega a tanto, mas há umas décadas isto não era assim. Ninguém bebia vinho em Portugal. Depois fizeram-se campanhas promovendo os nossos vinhos, a produção modernizou-se, investiu-se nos rótulos, o vinho foi-se tornando moda. Hoje em dia o ridículo da moda atinge pináculos intoleráveis, um dos quais é bastante perceptível no preço dos vinhos que constam nas cartas dos restaurantes. 
   Entendo e aceito o preço de um prato confeccionado na hora, é fruto do trabalho e da recriação de quem o cozinha no momento. Não entendo, julgo revoltante, inadmissível, o preço dos vinhos nos restaurantes. Quero que me expliquem por que razão tenho de pagar por uma garrafa de vinho num restaurante o quíntuplo do que ela custa num supermercado ou numa casa de vinhos. 
   A situação é ainda mais grave se tivermos em conta que o preço ao consumidor nos hipermercados não é o mesmo que a restauração consegue negociar junto dos seus fornecedores. Como se justifica que uma garrafa que custa 3 € no minimercado aqui da esquina surja a 12 € na carta de vinhos de um restaurante logo ali ao lado? Isto merece uma revolução, merece a indignação de todos nós. 
   Todos os revolucionários do país deviam unir-se contra este tipo de situação. Se há matéria que justifica uma manifestação violenta de coletes amarelos, esta é uma delas. Estamos a ser roubados, vergonhosamente roubados.Comparado com o preço da gasolina, da luz, do gás ou da água, a inflação exercida sobre uma garrafa de vinho servida num restaurante é absolutamente escandalosa. E um homem precisa de gasolina para sobreviver. 
   Pela parte que me toca, vou optar pela desobediência civil. Agora, sempre que for comer fora levarei comigo uma garrafa de vinho. Quando me perguntarem o que quero beber, responderei que trouxe de casa. 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

BIENVENUE À MARLY-GOMONT


A história verídica de um médico congolês que, para fugir à ditadura de Mobutu, se instala com a família numa aldeia francesa. Outrora Zaire, a República Democrática do Congo foi desgovernada por Mobutu Sese Seko entre 1965 e 1997. O filme de Julien Rambaldi (n. 1971) recria a história do médico Seyolo Zantoko na década de 1970. Formado em Paris, recusou regressar ao Zaire como médico pessoal de Mobutu. Preferiu ser colocado numa aldeia a norte da capital francesa. A decisão acarreta riscos, mas a vontade de obter nacionalidade francesa para poder exercer medicina no país que o formou impõe-se aos benefícios imediatos da cedência ao regime natal. Com a mulher desesperada e os filhos acabrunhados, a família instala-se numa aldeia refundida. Aí terá de se impor junto de uma comunidade onde ainda prevalecem os preconceitos racistas. Comédia romântica, se assim se pode dizer, povoada de mensagens políticas e sociais, Bienvenue à Marly-Gomont (2016) é um filme que se vê com condescendência numa tarde de domingo. Mais eficaz nos momentos emotivos do que nas charlas cómicas, torna-se algo vazio quando pretende expor os comportamentos da comunidade rural onde se instala a família Zantoko. A paisagem e o provincianismo das personagens não justificam tamanho aparvalhamento, supondo-se que a integração tenha acarretado momentos bem mais agrestes do que a paleta colorida e ligeira permite adivinhar. No papel de Anne Zantoko, mulher do protagonista, reencontramos Aïssa Maïga, que entrou com menos 10 anos em Paris, je t’aime (2006). Só pela sua presença já não se dá o tempo por perdido.

sábado, 19 de janeiro de 2019

"POESIA REUNIDA", DE MANUEL RESENDE


De um poeta que raramente publica diz-se bissexto, presumo que pela raridade dos anos com 366 dias. Sucede que essa raridade repete-se de quatro em quatro anos, o que torna a expressão algo desajustada quando falamos de um poeta que entre o livro de estreia e o segundo deixou que passassem 15 anos. Manuel Resende (n. 1948) estreou-se com Natureza Morta Com Desodorizante (1983), no mesmo ano em que Jorge Sousa Braga (n. 1957) publicava De manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu. O segundo livro surgiu apenas em 1998, com o título Em Qualquer Lugar. Tiveram de passar mais 6 anos até que Manuel Resende publicasse O Mundo Clamoroso, Ainda (2004). Estes três livros são o corpo essencial da Poesia Reunida (Cotovia, Abril de 2018), ao qual se juntaram três inéditos e um conjunto de 11 poemas atribuídos ao heterónimo Mika Ahtisaari. A reserva em termos editoriais contradiz a expansividade dos versos, os quais assumem formas diversas e manifestam assimilações quer da tradição, quer da contemporaneidade, que tornam os poemas vigorosos é ricos. Contemporâneo de Manuel António Pina (n. 1943 - m. 2012), de quem foi amigo, tradutor entre os melhores, Manuel Resende é um dos nossos mais relevantes poetas vivos. 
   Osvaldo M. Silvestre oferece a esta Poesia Reunida algumas pistas de leitura no posfácio intitulado A R(e)alidade e as Cerejas, nomeadamente ao referir-se a um vínculo à História que nada tem que ver com a paisagística datada daquilo a que por norma se dá o nome de poesia política. Herdeiro do Maio de 1968, Manuel Resende denota nos seus poemas tanto a influência do surrealismo como do situacionismo. Mas do primeiro parece preferir uma vertente mais empenhada na desconstrução da realidade do que na expressão de conteúdos inconscientes, enquanto do segundo absorve o ímpeto crítico da sociedade civil e a pulsão contestatária inerente a essa atitude crítica. Isto torna-se perceptível em poemas onde o tempo histórico surge claramente nomeado em factos e situações facilmente identificáveis: Entre Abril e Junho 74 (poema longo em 4 partes), Lament of J. P. M. in 1975 (escrito em língua inglesa), Sarajevo Srebrenica (Poema em três capítulos), Bombardeamentos de Dubrovnik, Tsintsum e Auschwitz, Marek Edelman, Herói do Gueto de Varsóvia, etc..
   O que todos estes poemas, ora em verso, ora, a espaços, em prosa, uns mais longos, outros mais curtos, o que todos eles transparecem é um certo desencanto histórico, ou seja, neles nada se glorifica, a humanidade surge encalhada num mar de lágrimas com a morte no horizonte. Ainda que a ironia, cultivada com mestria, disfarce a desesperança, é esta a emoção que mais vezes ecoa por dentro de uma inquietude que não raras vezes também desloca o leitor da paisagem externa para os campos da intimidade:

A PARTEIRA DA HISTÓRIA

Já nem sequer se consegue amar nem odiar a parteira da História e, vendo bem, que nos resta senão o humilde gosto de saber o trabalho bem feito quando o há,
De escovar a mão por fim preguiçosa na cadeira acabada?
Quanto a corpo, temos conversado, menino mimado sempre a pedir atenção e médicos e cama de dormir.
De repente, caímos em nós, dentro de nós, e não há nada lá dentro
A que nos agarrarmos.

   Outra pista de leitura pode ser colhida naquilo a que Silvestre chama uma ausência de «conflito entre ser clássico e ser moderno», o que terá que ver com um culto da experimentação denunciado em poemas de temática diversa. Mas esta inclinação não deixa de sugerir igualmente uma noção do Tempo já não circunscrito aos factos, antes consciência interna da efemeridade que atravessa as coisas do mundo. Sendo que, neste caso, a função do poema pode ser entendida como tentativa de superação dessa transitoriedade. Daí a recuperação de formas ditas clássicas, lado a lado com exercícios lúdicos aos níveis fonético e formal. Todo o poema Crítica da Razão Pragmática seria um bom exemplo desta conjugação do clássico com o moderno, fazendo-se o primeiro representar logo no primeiro verso «Rumai meus ledos dedos ó romeiros», enquanto a modernidade se impõe ao longo de 4 partes até ao remate no melhor estilo de um Álvaro de Campos: «Esmaga-me a boca para que possa enfim dar um, grito / Impuro insólito complicado:» (p. 29). Golo.
   Não obstante, julgo que os melhores momentos desta Poesia Reunida surgem quando o sujeito poético se desamarra da História e do Tempo. Esse gesto libertador oferece-nos o fogo de uma inquietação interior que eleva a emoção acima do pensamento, revolvendo os (pre)conceitos com que adornamos a vida e justificamos a morte. Nesses poemas é o amor e a liberdade quem nos fala, não é já a revolta social falhada nem o grito desesperado, é o desassossego individual de Um Dia de Vida (Crítica da razão heróica), desafiante poema em prosa do primeiro livro, é a evocação de certo O’Neill num quotidiano denunciador dos limites da existência:

VOLTAR PARA CASA

Mas porque tem a pessoa de voltar para casa
E seguir o rasto das árvores no chão,
Pelo caminho conhecido, com o coração mirrado nas mãos
E as mãos nos bolsos como um apontamento antigo?
Não haverá outra história para viver, um jornal para cada um,
E súbita a esperança a queimar os lábios, a palpitar na boca,
Pronta a saltar e a arder todo o corpo?
Mas porque tem a pessoa de voltar para casa,
Cabisbaixa?

   Nestes poemas a História do mundo sintetiza-se na história de um sujeito, não estão separados, integram-se um no outro, o sujeito imerso no mundo, o mundo absorvido pelo sujeito. E ambos se espelham num reflexo débil que ecoa do fundo do Tempo a pergunta derradeira: «Com que então, era isto a vida?» (p. 123) É isto a vida. Às vezes parece que é pouco, outras vezes parece que é demais. Que entre o sopro inicial e o suspiro final possa o riso contornar-lhe as figuras baças:

CONFISSÃO

Abri a vida à nimzo-índia.
Digamos que sou um sujeito oblíquo e chato de viver
E só à força de distracção
Ainda por aqui ando.
Se me abrirem a cabeça
Só encontrarão uma massa cinzenta e retorcida,
Isso garanto.
Sei muito bem,
Mergulhei muitas vezes em mim
E, confesso, custa a respirar lá dentro.
Agora, não dou é pormenores.

Digamos que me saiu o jackpot
Nas slot machines
E que voltei a gastar tudo no mesmo jogo.
Fiquei cheio de bolhas na mão.

Mas também, mundo, descansa,
Em breve te entregarei
A última prestação,
Pouco mais serei do que uma simples tosse
Que um dia passou por alguns corredores,
Não muitos.

Por isso, Santo Expedito das Causas Urgentes,
Da próxima vez, cara, me dá
Uma voz de rouxinol
Para cantar nos jardins,
Ou uma voz estentórea
Para ir para a baixa incomodar a gente que passa.
Dá-me uma força de catástrofe natural,
Género tufão, vendaval, inundação,
Não interessa a espécie,
Dá-me coragem
E absolve-me preventivamente de todos os pecados:
Eu seja o próprio amor
E a própria liberdade em marcha,
Que só usa o corpo como simples
Plataforma de apoio, parceiro leal
Veículo de fundo e
Substância essencial.

LINGUADOS


Linguados
Catálogo da exposição
Máquinas de Escrever Literatura

Edição da Associação Cultural Mandriões no Vale Fértil / Câmara Municipal da Sertã
Vários Autores
Coordenação de Miguel-Manso
Novembro de 2018


Erika, p. 60.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

UM SOL




Não há uma laranja perfeitamente redonda
Não há um dia perfeito
Há um sol para os que lutaram
contra as sombras
jamais se rendendo
de noite
de dia
nas margens do lago
sob o sicómoro e o salgueiro
entre rochas e anémonas
Para esses há — haverá — um sol
porque lutaram contra as sombras
contra sua própria obscuridade
sua lâmpada turva
sua ignorante relutância
Para eles
sim
haverá um sol
mas não há
não haverá nunca um dia perfeito
uma laranja perfeitamente redonda.

Edgar Bayley, in Antología - La poesía del siglo XX en Argentina, Edición de Marta Ferrari, La Estafeta del Viento, Colección Visor de Poesía, dirigida por Luis García Montero y Jesús García Sánchez, 2010, p. 131. Versão de HMBF

DÚVIDA DO DIA


Quem é o político que, um destes dias, vai à Casa mais badalada do país fazer punhetas de bacalhau?


Eduardo Pitta, aqui.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

INTERVALO DOLOROSO



Gazeta das Caldas, n.º 5260, sexta-feira, 11 de Janeiro de 2018.

  
(também aqui)