segunda-feira, 30 de agosto de 2010

ECO

Dúvida:
Mas porque é que o mundo me está a imitar?

Hipótese:
É o céu que me está a roubar a voz.


Beatriz, 3 anos

ARTEFACTO



Nicanor Parra, Artefactos, 1972

A BATALHA CAMPAL


a coisa começa com um
DESFILE NOCTURNO DE ENERGÚMENOS
pelo centro da cidade:

morte sim!
funerais não!

morte sim!
funerais não!

morte sim!
funerais não!

OS ROBÔS OBSERVAM O DESFILE NOS SEUS
CARROS DE COMBATE

e continua no dia seguinte
À HORA DE PONTA
─entre a 1 e as 2 da tarde─
DEBAIXO DE UM SOL ABRASADOR
com uma
MANIFESTAÇÃO PACÍFICA DE ENERGÚMENOS
envoltos em lençóis ─com tochas e capuzes
FRENTE A UMA TENDA DE CERIMÓNIAS FÚNEBRES

Em teoria não molestam ninguém
e de facto não fazem outra coisa
senão cantar e dançar ao ritmo da cumbia
DUAS FRASES QUE REPETEM ATÉ AO INFINITO

morte sim!
funerais não!

morte sim!
funerais não!

morte sim!
funerais não!

MAS OS ROBÔS OBSERVAM ATENTAMENTE
OS ACONTECIMENTOS NOS SEUS CARROS
DE COMBATE

ao terceiro dia

OS ENERGÚMENOS
DIRIGEM-SE TRANQUILAMENTE PARA AS SUAS CASAS

após várias horas de baile desenfreado
FRENTE À MOEDA
quando aparecem em cena os robôs
e começa a batalha campal
E COMEÇA A BATALHA CAMPAL
E ..C O M E Ç A ..A ..B A T A L H A ..C A M P A L !



Nicanor Parra, in Otros poemas [1950-1968]
Versão de HMBF


Duas notas: Cumbia é uma música típica da Colômbia. La Moneda é a sede da Presidência da República do Chile.

domingo, 29 de agosto de 2010

A AMANTE HOLANDESA

J. Rentes de Carvalho (n. 1930) tem sido frequentemente apontado como um escritor português que vende muito na Holanda, para onde foi viver em 1956, mas poucos leitores conhecem em Portugal. Eu fazia parte dos poucos. Ainda que nunca seja tarde para descobrir um autor, aqui me penitencio por ter chegado tão tardiamente a uma obra que começou a ser publicada na segunda metade da década de 1960. Já lhe tinha lido algumas prosas na extinta revista Periférica, mas fico a dever o progresso para os livros à inquestionável qualidade dos posts que Rentes de Carvalho tem vindo a publicar no weblog Tempo Contado. A Quetzal, que em boa hora resolveu reeditar alguns dos títulos do escritor, facilitou-me a tarefa. Peguei naquele que estava mais à mão, este A Amante Holandesa (Quetzal, Julho de 2010), cuja primeira edição data de 2000, e procurei redimir-me de um mal que, felizmente, tem cura. Outros há que a não têm. Quando damos por ele, já o mal nos levou vontade e disponibilidade para remediar o que quer que seja. Lá iremos.

Dois dados a fixar antes de entrarmos pelo romance propriamente dito. Primeiro, estamos a falar de um livro escrito em idade adulta, aquilo a que alguns poderiam chamar “obra de maturidade”, houvesse idade para uma obra, ou, o que, a meu ver, faz mais sentido, uma obra onde a idade pesa sobre o que está escrito. Segundo dado importante: trata-se de uma história ocorrida, sobretudo, na província transmontana, com a qual Rentes de Carvalho mantém declaradas relações afectivas. Estes dados são importantes porque nos permitem presumir alguns elos entre o narrado e as vivências concretas do autor, ou seja, nem o cenário nem a situação existencial do narrador serão alheias àquele que as escreve. Numa época especialmente contaminada por realismos fantásticos e fantasiosas realidades, é bom encontrar um livro onde a principal preocupação parece ser a de contar bem uma história, sem abstraccionismos que pecam, tantas vezes, por se revelarem hiperbólicos na imaginação e imbecis na presunção de um estilo.

Além do mais, trata-se de um romance que escapa aos clichés urbano-deprimentes de tanta tralha que vai sendo publicada sem critérios minimamente inteligíveis. Na “arena”, temos dois amigos de infância que se reencontram numa dessas «aldeias tão longínquas que são apenas manchas brancas na paisagem» (p. 10). Um deles, o narrador, tem 57 anos e é professor em Bragança. O outro, quis o destino que ficasse pastor após um período de emigração pela Holanda. Pois que caberá ao segundo pôr o primeiro ao corrente das suas aventuras pelas terras baixas, onde deixou uma filha e uma inacreditável, de tão bela, amante. Porque o destino prega partidas, acaba o primeiro a cruzar-se com a filha holandesa do segundo. Deixo os detalhes à mercê dos potenciais leitores. Numa escrita escorreita e ágil, onde tudo parece ligeiro sem que nada seja superficial, o que nos oferece A Amante Holandesa é a história de um indivíduo em estado de crise.

Se fôssemos adeptos dos estádios de Erikson, diríamos que aquele professor de 57 anos antecipou o desespero da 8.ª idade. Está consciente de que já viveu o que tinha a viver, renega a vida sem poder recomeçá-la: «se sei o que não tive, não sei o que perdi» (p. 21); para logo acrescentar: «Futuro? O que ainda me resta será provavelmente feito de trivialidade, rotina, medo crescente. Mais também não espero» (p. 29). Não é um fracassado, mas as suas reflexões denotam um indivíduo resignado e submisso. Alimenta um casamento pautado pelo conformismo, uma vida desviada da regra apenas em contexto de mórbida, solitária e frouxa intimidade. Mas nem nesse espaço particular logra ele encontrar as aventuras que supõe e vislumbra nas histórias do amigo pastor. Interroga-se: «Que fiz eu para merecer este destino murcho, esta vida tépida, monótona, previsível? Sem fogo de paixão, sem drama, os meus dias arrastam-se na expectativa medíocre de que talvez amanhã aconteça alguma coisa. Amanhã. Sempre amanhã. E ao mesmo tempo agrilhoado à certeza de que nada acontecerá, porque me envolvo em seguranças, ponho travões, não dou passo que não seja calculado» (p. 35).

Não sendo unicamente sobre a velhice, este é um romance onde a velhice aparece retratada nas múltiplas dimensões da vida humana: psicológica, afectiva, social, etc. Mas esta também podia ser, assim o quiséssemos, uma parábola sobre uma nação acobardada, uma nação que é a nossa. Repare-se que à ousadia daqueles que partiram, J. Rentes de Carvalho contrapõe o amorfismo daqueles que foram ficando. O gerúndio é pertinente, pois mais que ficarem, eles foram apenas ficando. Foram ficando não por ser essa a sua decisão, mas por ter sido esse o resultado da inacção. Foram ficando medianamente conformados com o destino que lhes calhou, refugiando-se nos recantos onde a memória prevalece, consumidos pela inveja e por desejos recalcados. Que melhor retrato podemos esperar dos portugueses? Mais grave quando a idade pouco ensina: batendo-nos a aventura à porta, refreamos os sonhos, encolhemos as paixões, amedrontamos a vontade. Não é necessariamente cobardia, é o peso das consequências impedindo-nos de tomar nas próprias mãos a vida dos sonhos. Feito o balanço, só podemos concluir: «Sou a criança que queria manter a ilusão e, ao mesmo tempo, o velho ciente de que tudo tem preço, tudo tem fim» (p. 225). Vamos ficando.

Escrito para o Rascunho.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

MINEIROS

No Chile, 33 mineiros sobrevivem há vários dias a 700 metros de profundidade. Após uma derrocada, ficaram isolados debaixo de terra. Comunicam com o exterior através de dois buracos, por onde recebem alimentos, água, apoio psicológico, etc. As operações de resgate demorarão meses. Não estranho o relativo silêncio que esta história tem merecido por cá. Afinal, os homens ainda estão vivos. Logo, ainda não são notícia. Quando morrerem, a comoção tomará conta dos nossos solidários corações. Para eles, um fragmento da Descida aos Infernos:

Sempre para o centro da terra
onde os metais com sede
sonham devoradoramente
o sangue dos mineiros.

Queimando já a pele e os cabelos
nas combustões do enxofre, do granito,
desço alucinado
com pedra a ferver nos pulmões
e pedra em chamas a acender-me os gritos.

Como unhas de mercúrio fulgente
crescem-me dos olhos e dos dedos
nunca sonhados medos, nunca tanto
fulgor de lágrimas doentes
.


Carlos de Oliveira, de Descida aos Infernos, in Trabalho Poético, Círculo de Leitores, Abril de 2001, p. 94.

BRONZE

No regresso, acusaram-lhe o bronze. Nuns casos queriam dizer dei pela sua falta, noutros casos queriam dizer bela vida, e houve ainda quem simplesmente quisesse dizer que estranho, está com boa cor.

RETRACTO-ME DE TUDO O QUE FOI DITO

Antes de me despedir
Tenho direito a um último desejo:
Generoso leitor
..........................Queima este livro
Não representa o que quis dizer
Apesar de ter sido escrito com sangue
Não representa o que quis dizer.

A minha situação não pode ser mais triste
Fui derrotado pela minha própria sombra:
As palavras vingaram-se de mim.

Perdoa-me leitor
Amistoso leitor
Que não possa despedir-me de ti
Com um abraço fiel:
Despeço-me de ti
Com um triste sorriso forçado.

Pode ser que eu não seja mais que isto
Mas escuta a minha última palavra:
Retracto-me de tudo o que foi dito.
Com a maior amargura do mundo
Retracto-me de tudo o que disse.

Nicanor Parra, in Otros poemas [1950-1968]
Versão de HMBF

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

UN VIAJE PELIGROSO

Conta René de Costa que num belo dia de Abril, em 1926, o poeta chileno Vicente Huidobro surpreendeu tudo e todos ao publicar no La Nación um poema longo, dirigido a Jesus Cristo, onde confessava a sua paixão por uma mulher − «a mais triste, sem dúvida a mais bela». Essa mulher era Ximena Amunátegui, uma adolescente de 15 anos, filha de um influente homem de Estado. Provocado o escândalo, o poeta foi ameaçado de morte e viu-se obrigado a fugir do Chile, deixando para trás a mulher e os filhos. Por essa altura escreveu o seguinte: «Yo me embarco todos los dias para un viaje peligroso. Cuando no existan más los viajes peligrosos la vida habrá perdido todo interés». Exilou-se primeiro em Paris, instalando-se posteriormente em Nova Iorque. Nesta cidade, dedicou-se ao cinema, escrevendo guiões, ganhando dinheiro, “acolhido como um «latin-lover» pelas estrelas” do meio. Em 1928, sem dizer “água vai”, depois de Ximena ter cumprido a maioridade, fechou a porta do apartamento na Sétima Avenida e viajou clandestinamente até ao Chile, raptando a jovem amada à saída do colégio. Fugiram para a Argentina, rumando depois a Paris, onde chegaram já casados pela lei muçulmana (a única forma encontrada para legalizar a situação).

terça-feira, 24 de agosto de 2010

ARTE POÉTICA



Que o verso seja como uma chave
Que abra mil portas.
Uma folha cai; algo passa voando;
Quanto os olhos vejam criado seja,
E a alma do ouvinte fique a tremer.

Inventa novos mundos e zela pela palavra;
O adjectivo, quando não dá vida, mata.

Estamos no ciclo dos nervos.
O músculo está exposto,
Como recordação, nos museus;
Mas nem por isso temos menos força:
O verdadeiro vigor
Reside na cabeça.

Por que cantais a rosa, ó Poetas!
Fazei-a florescer no poema;
Somente para nós
Vivem todas as coisas debaixo do Sol.

O poeta é um pequeno Deus.



Vicente Huidobro, in El espejo de agua (1916)
Versão de HMBF

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

BRUNO SCHMITT BALTHAZAR

Camarada Van Zeller, já ouviu falar do jovem Bruno Schmitt Balthazar? Se não, eu digo-lhe: é um génio em terra de jumentos. Terminou o ensino secundário com 20 valores a Física e Matemática. Segundo noticia a imprensa, foi medalha de bronze nas Olimpíadas Internacionais de Física, em Zagreb, e quer prosseguir os estudos em Oxford, onde já terá sido admitido. Infelizmente, a família do Bruno não tem como suportar as despesas. O Expresso pegou no caso, a SIC foi atrás e eu fiquei com uma crise de urticária. Há pouco, ouvi a mãe do jovem dizer que escreveu para várias empresas a pedir apoio e ainda só obteve uma resposta. Negativa. Da Sonae. Não estou a ver como é que uma empresa de retalho, especializada em retalhar mão-de-obra barata, poderia responder positivamente a um apelo deste género. O Estado português, sazonal e “folcloricamente” preocupado com cérebros em fuga, parece não ter fundos que prevejam este tipo de investimento. De facto, para quê investir nos estudos do Bruno Schmitt Balthazar se depois não haverá como rentabilizá-los em Portugal? Que faria por cá um génio da física? Eis uma questão que me pôs a pensar um pouco mais do que é costume sobre distribuição de direitos, justificação de diferenças, fundamentação da igualdade, necessidades e obrigações. Pensei tanto que, ao ouvir passar um carro dos bombeiros, julguei que viesse apagar-me os neurónios em chamas. Como justificar junto dos mais desfavorecidos a existência do Estado? Assegurando-lhes vantagens, entre as quais destacaremos a igualdade de oportunidades. Se é verdade que as pessoas nascem em condições diversas, não deixa de ser aceitável que essa diversidade de condições não venha a determinar o futuro de um homem. Afinal, é também por isso que vivemos numa República e não numa Monarquia. Não obstante a República que nos calhou em sorte ser uma oligarquia nas mãos de meia dúzia de famílias que, pelo poder económico que detêm, mandam mais nos desígnios do país que os próprios governantes eleitos pelo povo. A pergunta que se me impõe é sobre a justiça ou injustiça de ver um jovem como o Bruno ficar pelo caminho porque os pais não têm condições de lhe suportar os estudos em Oxford. Será moralmente aceitável ver alguém morrer de fome enquanto nós nos empanturramos em comida? Deve tornar-se igual aquilo que nasce desigual? O que significa tornar igual? Neste caso, igualdade significa apenas proporcionar condições para que contingências económicas não prejudiquem o progresso nos estudos de um jovem que se distingue dos demais por ser excelente naquilo que a maioria dos portugueses se revela medíocre: Matemática, Física. Portanto, tudo estaria bem se este jovem tivesse nascido filho de um administrador da Sonae. Mas este jovem não nasceu filho de um administrador da Sonae. E, como se um azar não bastasse, nasceu o pobre desgraçado em Portugal. Deixando por instantes a ironia de lado, camarada Van Zeller, puxe lá da sua impagável imaginação e diga-me o que podemos nós fazer para que este cérebro não nos fuja.

ANTICRISTO



As obsessões não se materializam, excepto artisticamente. Neste caso, cinematograficamente. Lars von Trier tem uma obsessão com as mulheres (já agora, remeto os leitores para este post). Anticristo, dedicado ao mestre Tarkovsky, é o filme onde essa obsessão aparece materializada de um modo mais explícito. Paradoxalmente, é um dos mais poéticos e abstractos dos seus filmes (compreende-se a dedicatória), sobretudo porque faz, ao nível da imagem, uma espécie de radiografia nublada da natureza feminina. Como é óbvio, é o olhar de um homem que aqui prevalece, embora a actriz escolhida para o efeito, Charlotte Gainsbourg, pelo naturalismo da sua representação, ofereça a esse olhar uma credibilidade assaz convincente.
Alternando entre uma dimensão onírica, onde os traumas e os pesadelos, toda a matéria do inconsciente, vêm à tona sob a forma de alucinação, alternando entre esta dimensão feérica e “fabulosa” com uma outra dimensão muito mais realista, von Trier encena a natureza feminina a partir de um pretexto patológico: a perda acidental de um filho enquanto os progenitores faziam amor. A situação do prólogo, já de si deveras traumática, embora narrativamente estimulante, por nela se fundirem os principais elementos da vida (sexo e morte), coloca-nos no centro de uma crise. Chuvas de bolotas, animais moribundos que se alimentam de si próprios, outros em decomposição que subitamente ganham vida, ou, numa das cenas mais marcantes do filme, uma ave recém-nascida a ser devorada por formigas que é subitamente rapinada para ser devorada pela ave que a rapinou, quiçá a sua progenitora, são elementos que conferem ao filme uma complexa dimensão simbolista. No entanto, a este barroquismo contrapõe-se uma estética violentíssima pela sua cruel naturalidade.

O que há de chocante neste filme não são as cenas de sexo explícito, demasiado breves e estetizadas, nem os momentos de violência extrema, entre os quais muito se falou das cenas de automutilação e da ejaculação de sangue, que acabam por estar filmadas até de um modo algo dissimulado. O que há de mais violento no filme é o jogo de agressão psicológica que atravessa todos os capítulos (luto, dor, desespero…), onde o sentimento de culpa, a desordem interior, a exposição do medo e a ansiedade, confluem num impiedoso processo terapêutico.
Se Cristo é um símbolo da capacidade de perdoar, neste caso o anticristo é a ausência de perdão que leva o agredido (o homem) a matar o agressor (a mulher). Portanto, a narrativa inscreve-se para lá do bem e do mal. O corpo feminino representado neste filme, uma mãe algo negligente, uma mulher paranóica que tenta escrever uma tese (Ginocidio) sobre o mal infligido às mulheres, acabando por estancar a reflexão no mal das mulheres, não deve ser interpretado como a causa do mal. Não há mal nem bem no Éden onde um homem e uma mulher se isolaram para tentarem tratar uma situação de ansiedade extrema. Há, antes, uma recusa do perdão enquanto solução para as fobias avassaladoras que tomam conta do ser. Declaradamente anti-edipiano, Lars von Trier mata a mãe neste filme. Ele tem um problema com as mulheres. E isso torna-se claro em mais um epílogo hilariante, à semelhança do que acontecia em Breaking the Waves, de tão auto-irónico que nos parece.

sábado, 21 de agosto de 2010

A REVER

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

UM HOMEM

A mãe de um homem está gravemente doente
Parte em busca do médico
Chora
Na rua vê a sua mulher acompanhada de outro homem
Vão de mão dada
Segue-os a curta distância
De árvore em árvore
Chora
Agora encontra-se com um amigo da juventude
Há anos que não nos víamos!
Vão a um bar
Conversam, riem
O homem sai para urinar no pátio
Vê uma jovem rapariga
É de noite
Ela lava os pratos
O homem aproxima-se da jovem
Agarra-a pela cintura
Dançam uma valsa
Saem juntos para a rua
Riem
Há um acidente
A rapariga perdeu os sentidos
O homem procura um telefone
Chora
Chega a uma casa com luzes
Pede o telefone
Alguém o reconhece
Senta-te a comer, homem
Não
Onde está o telefone
Come, homem, come
Vais depois
Senta-se a comer
Bebe como um condenado
Ri
Fazem-no recitar
Recita
Acaba adormecido debaixo de uma secretária.


Nicanor Parra, in Otros poemas [1950-1968]Versão de HMBF

ADOECER

Publicado em Março passado pela Relógio D’Água, Adoecer, romance de Hélia Correia (n. 1949), mereceu uma excelente recepção crítica. Os elogios apontaram, sobretudo, uma escrita rigorosa e um esmerado trabalho de pesquisa documental. É este segundo elemento o que mais se impõe a quem leia o romance. Excelentemente escrito, cuidadosamente montado, pode por vezes sufocar o leitor menos preparado para a densidade informativa condensada ao longo de quase 300 páginas. Tendo como pano de fundo a Irmandade Pré-Rafaelita, grupo de artistas fundado em Inglaterra à entrada da segunda metade do séc. XIX, este livro não escapa a uma caracterização social da época, focalizada, mormente, nos aspectos morais que determinavam e definiam uma clara clivagem entre classes e géneros. Neste sentido, Adoecer pode também ser interpretado à luz do papel que as mulheres ocupavam na era vitoriana. Isto fica claro logo nas páginas iniciais ─ «Apenas uma espécie de mulheres, para além das rameiras, exibia a cabeleira solta» (p. 18) ─, sendo inúmeras as considerações que ao longo da narrativa nos enquadram o contexto que confere um certo grau de excepcionalidade à figura central desta história: Elizabeth Siddal (1829–1862), ou simplesmente Lizzie, «o modelo mais famoso dos Pré-Rafaelitas» (p. 20).

Trata-se, pois, de uma obra de ficção, como a autora fez questão de sublinhar numa nota final, que procura reconstruir uma situação autêntica tendo em conta os múltiplos aspectos que contribuem para essa reconstrução. Não se tratando de uma biografia de Elizabeth Siddal, este romance mantém um elo de verosimilhança com a verdade histórica que logra tornar mais fidedigna a reconstrução assim operada do que aquela eventualmente oferecida pela literatura de índole biográfica. Não deixa de ser sintomático que, a páginas 119, Hélia Correia reflicta sobre o assunto: «Os escritores de biografias redigem com os pulsos amarrados. (…) Não lidam com cadáveres mas com factos, os quais não sofrem decomposição. Empreendem esgotantes caminhadas e aqueles que têm asas não as usam. São gente dedicada ao pormenor, ao que pode observar-se e não ilude». Retirando os factos dos frascos onde a História os conserva, o romancista como que tem a capacidade de revivê-los. Não estará tão interessado em dissecá-los e reconstrui-los como poderá estar em dar-lhe uma nova vida, isto é, em deixar que os factos falem à imaginação. Dar uma nova vida aos factos é, neste caso, procurar revivê-los.

Deste modo, é evidente a força simbólica que subjaz à organização dos dados. Adoecer começa com uma visita, em 2005, ao Highgate Cemetery, onde Elizabeth Siddal foi enterrada e desenterrada. De resto, há toda uma estética necrófila que não deixou Lizzie em paz com a vida e, pelos vistos, não a deixará em paz com a morte. “Eternamente moribunda”, Lizzie ficará para a história não propriamente enquanto poeta e pintora, mas como a modelo que se fundiu com o objecto da representação na Ophelia de Sir John Everett Millais (1829–1896). «Millais pintou aquilo que jamais tencionou pintar: o incitamento às emoções necrófilas» (p. 60) É um facto que Lizzie adoeceu durante as sessões. Não obstante, a aura de mistério que envolve toda a sua existência não deverá ser apagada por explicações tão lineares. Do surgimento dos Pré-Rafaelitas à Ophelia de Millais, pintada em 1852, daqui ao encontro com Dante Gabriel Rossetti (1828–1882), há toda uma história que merece ser contada sem intentos simplificadores. E essa história é não tanto a da biografia de Lizzie como aparenta ser a de uma “relação patológica” mantida com Dante Gabriel Rossetti, o nome maior da Irmandade. Ter adoecido confunde-se, aqui, com um encontro onde o amor andará de braço dado com o impulso da criação.

Pautada pelo escândalo desde o início, a relação entre Dante Gabriel Rossetti e Elizabeth Siddal começa quando os dois vão viver juntos, à margem do que era moralmente aceitável no tempo vitoriano, para uma casa em Hampstead Heath. De raízes diversas, havia algo que os ligava intimamente. Ela odiava obrigações domésticas, ele não nutria qualquer respeito pelas convenções. Ligava-os o prazer de arriscar uma oportunidade de beleza. Hélia Correia pinta-nos esse risco. Para tal, chama à liça várias personagens que à época influenciavam ou se relacionavam directamente com o casal; desbrava o romantismo da intimidade, não esquecendo o reflexo que a relação produzia nos olhos dos outros. O retrato de Lizzie começa por ser o de uma mulher de feridas recalcadas, o de uma mulher que adoece perante a vida dúplice do marido, como se o seu encantamento adviesse daquilo que a matava: «Estava a adoecer com elegância, e o seu talento para a passividade construía uma imagem sedutora, a de alguém que se inclina para o chão, da folha que se deita para o Outono» (p. 105). No fundo, é o retrato de uma mulher/modelo impedida de se afirmar simplesmente enquanto mulher.

Este adoecer não se compadece com os espartilhos das relações afectivas convencionais. Naquele tempo, para aqueles artistas, o amor e a morte confundiam-se, eram duas faces de uma mesma moeda. O revivalismo romântico conferia ao erotismo uma dimensão lúgubre. Lizzie encarnava essa morte ambulante que fascinava os artistas do meio onde se achou cativa. De certa forma, ela era em carne e osso o que Dante Gabriel Rossetti almejava em termos artísticos. E essa foi a sua cruz. «Gabriel não via Lizzie, via apenas a sua própria construção mental, uma figura de mulher inexistente» (p. 173). A impossibilidade de um amor verdadeiro, autêntico, que não estivesse (conta)minado pelas ambições artísticas, empurrou Lizzie Siddal para o ópio, como que numa ânsia de supressão da realidade ou fuga de si mesma. Quando Dante acordou, era demasiado tarde. ««Podia ter agido e não agi», lê-se num verso» (p. 243). O remorso e o sentimento de culpa tomaram conta dele, tentou remediar o arrependimento com o casamento, mas Lizzie já se havia transformado no fantasma que o perseguiu até ao fim da vida. Mais que um romance sobre artistas, este é um romance onde o amor se encontra com a morte sob o signo da beleza, onde a beleza e o amor se afirmam paradoxalmente pela sua aparente impossibilidade.

Escrito para o Rascunho.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

UM HOMEM DO POVO

Camarada Van Zeller, tive uma epifania. Pedro Passos Coelho é um ovo da Páscoa, o brinde que o povo necessita. Não é preciso ir muito longe para perceber que Pedro Passos Coelho (PPC) é um homem do povo, que vem do povo e vive entre o povo (de Massamá e arredores). Como qualquer jovem do povo nascido em 1964, PPC é filho de um médico que, antes do 25 de Abril de 1974, exercia na ex-colónia de Angola. À época, pululavam homens do povo que exerciam medicina. Depois, estabeleceu-se em Vila Real e, como qualquer jovem do povo, estudou. Alguns tiveram de se fazer à vida trabalhando, mas este foi um mouro dos estudos. Empenhou-se tanto, tanto, tanto, que aos 36 anos conseguiu licenciar-se em Economia por uma universidade do povo, a Lusíada. Pelo meio, está claro, fez o que todos os jovens do povo fazem, vestiu a camisola da JSD. Foi membro do Conselho Nacional, presidente da Comissão Política, deputado à AR, vice-presidente do Grupo Parlamentar, candidato a presidente da CM da Amadora, tudo actividades plebeias de estóica dedicação. Este homem do povo sabe o que o povo sofre, o povo que trabalha sábados, domingos e feriados em centros comerciais e hipermercados, que ganha o salário mínimo nacional ou que é pago a recibos verdes, este homem sabe o que é viver sem subsídio de alimentação, sem subsídio de férias ou 13º mês, sem ter direito a qualquer subsídio de desemprego caso fique desempregado, este homem sabe tudo isso por experiência própria. Ou talvez não. Quando terminou a licenciatura em Economia, aos 36 anos, que é a idade com que qualquer jovem do povo termina uma licenciatura numa universidade privada, este homem do povo foi consultor da Tecnoforma e da LDN Consultores, director de departamentos e coordenador de programas esquisitos até ingressar como director financeiro no Grupo Fomentinvest. Como sabemos, qualquer licenciado em Economia numa universidade privada, do povo, tem acesso a um percurso destes e facilmente chega a docente de um Instituto Superior. Enfim, PPC é não só um homem do povo como facilmente o povo se reconhecerá nele. O povo anda há 36 anos a votar em homens do povo como estes que se alimentam e engordam através de sistemas de trituração do povo. Que tudo em seu redor cheire a tacho é mera disfunção olfactiva. Não acha, camarada Van Zeller?

A PAIXÃO DA FOME, A FOME DA PAIXÃO

Não me recordo de alguma vez ter lido um romance tão bom que me surpreendesse tão pouco. É que não esperava mais nada de Fome, de Knut Hamsun (1859-1952), senão aquilo que me ofereceu: uma inquietante alegoria da paixão. O autor nasceu em Lom, na região central da Noruega. Foi o quarto filho do casal Pedersen. Tinha Knut Hamsun três anos quando a família se mudou para Hamarøy, ficando o pai a tomar conta de uma propriedade de Hans Olsen, seu cunhado. Impedido de trabalhar, Olsen reclamou junto dos Pedersen o dinheiro que lhes havia emprestado. Para que os pais pudessem pagar a dívida, Hamsun começou a trabalhar. Aos livros ia buscar alguma companhia. Em 1873, regressou a Lom e arranjou emprego numa loja. Caído de amores pela filha do dono da loja, teve de zarpar novamente para Hamarøy. Aí teve várias ocupações até rumar para outras paragens levando uma vida de mendigo. Os primeiros escritos apareceram aos 18 anos. 1878 foi o ano da chegada a Kristiania (actual Oslo), cenário escolhido para a narrativa que o consagrou: Fome (1890).

Knut Hamsun levou uma vida miserável em Kristiania, interrompida a espaços por algumas romagens aos EUA. Não custa acreditar que a sua experiência pessoal serviu de base à vida errante do jovem escritor caricaturado em Fome. Desta personagem, pouco mais sabemos que um nome fictício: Andreas Tangen. Vagueia faminto pela cidade, procura diversos empregos que lhe são sistematicamente recusados, perde-se em «invenções bizarras, caprichos, fantasias» que lhe sustentam artigos, publicados ou rejeitados nos periódicos locais, sem efeito que se note. Apesar da sua evidente indigência material e de um ameaçador estado de confusão mental que lhe vai tomando conta dos pensamentos e das acções, o jovem vagabundo mantém um optimismo e um sentido da dignidade que, muitas vezes, parece confundir-se com aquele tipo de orgulho que mantém verticais as pessoas caídas em desgraça. Os seus utensílios de escrita são uma réstia de esperança que o salvaguardam da penhora absoluta, são aquilo que o liga à sua mais vigorosa paixão.

Desorientado, prossegue caminho entre “mentiras úteis”, acessos de inspiração, «alucinações e sonhos loucos». A fome é tanta que o corpo cria intolerância à comida. Vomita tudo o que ingere, em sentido literal e figurado. Que fez ele para merecer tal desgraça? Ou melhor, o que terá deixado de fazer para que a desgraça o tivesse capturado? Às tantas, toda a situação nos parece absurda. Ninguém sobreviveria a uma fome daquelas. No entanto, esta fome não deve ser reduzida a uma dimensão meramente física. No prefácio, Paul Auster diz que «a fome não é uma metáfora, é o verdadeiro fulcro do problema». Tratar-se-á, então, de uma parábola sobre o artista que perdeu o controlo sobre si mesmo? Ao longo do romance são diversos os momentos em que a fome se assemelha a uma espécie de paixão. O jovem escritor está esfomeado, mas pouco parece querer fazer para matar essa fome. É como se se alimentasse da fome. A sua fome tornou-se uma razão de ser, é uma espécie de estado ontológico.

Andreas Tangen, chamemos-lhe assim, sente «o bem-estar do isolamento», tal como «aquela sensação do peito a roer»: «A fome roía-me insuportavelmente e não me deixava sossegar. Uma vez ou outra, engolia saliva para me alimentar um pouco e achei que isso resultava» (p. 91). No entanto, quando se lhe torna possível superar essa fome, ele ou rejeita a possibilidade ou simplesmente vomita. Quando sentia fome, os seus sentidos fundiam-se uns com os outros. Estas mesmas sensações serão como que repetidas após o estremecimento de um encontro com a paixão: «No largo do Sporting, encontrei uma rapariga que cravou os olhos em mim, quando ia a passar por ela» (p. 145). Fantasia? Loucura? A verdade é que por duas vezes ele nos diz do prazer que sente: uma, quando se liberta de algumas moedas para voltar a ser pelintra; outra, quando o coração lhe bate violentamente no peito perante a presença da amada. E quando diz a verdade, é isto que ele diz:

«Estive ali de pé, a tagarelar, tendo a sensação embaraçosa de que estava a aborrecê-la, de que nenhuma das minhas palavras atingia o alvo, no entanto, não me calei: Na verdade, podia ter-se uma natureza sensível sem que, por isso, se fosse louco; havia os que viviam quase de nada e que morriam de uma simples palavra. E deixei-a perceber que eu tinha esse tipo de natureza. A verdade era que a minha pobreza me tinha aguçado determinadas características, até um grau em que, infelizmente, também me causavam uma certa quantidade de situações desagradáveis, sim, garanto-lhe, situações desagradáveis. Mas, por outro lado, isso também tinha as suas vantagens, ajudava-me noutras situações. O inteligente pobre é muito melhor observador do que o inteligente rico. O pobre mede cada passo que dá, escuta atentamente cada palavra que ouve às pessoas que encontra. Cada passo que ele dá constitui para o seu cérebro e para a sua sensibilidade uma tarefa, um trabalho. Ele tem o ouvido apurado e é sensível, tem experiência, tem marcas de queimaduras na alma…» (p. 202)

Ora, a questão que cabe fazer é se temos aqui, ou não, uma teoria da criação literária? Será a experiência o alimento de que carece essa fome de fazer a que chamamos poesia? Se sim, que poesia podemos esperar das vidas burguesas e desapaixonadas que caracterizam hoje a maioria dos literatos? Terão fome? Estarão apaixonados? Ou será que se limitam a fantasiar uma condição social que lhes trará a ilusão e a expectativa de um anonimato abreviado?


Knut Hamsun, Fome, prefácio de Paul Auster, trad. Liliete Martins, Cavalo de Ferro, Outubro de 2008.

COLOCADA A QUESTÃO

Embora o poeta citado na terceira estrofe deste poema seja Alberto Pimenta (carta a uma iniciante, p. 192 de Obra Quase Completa), o diálogo que ali se mantém é com Alexandre O’Neill:

VENEZA AOS GATOS

Lisboa às moscas e Veneza aos gatos…
(os pombos da bondade só conspurcam
a praça de S. Marcos)
… ao gato perna alta que não vem quando o chamas,
ao contrário da patrícia mosca,
que não era para aqui chamada,
mas logo te soprou os últimos zunzuns
mal chegaste a Lisboa.

O gato de Veneza não te dá pretextos
para miares o que te vai na alma,
nem os sacros temores da miaulesca
esfinge rilkeana.
Não é um gato é um perfil de gato
tapando a saída da
calleta.

O gato veneziano é gato sem regaços
e sem selvajaria.
De Veneza o gato é sempre muitos gatos
que vão à sua vida…
… como tu, afinal, não vais à tua.

(De Veneza a Lisboa, num zunido,
já trazias a mosca no ouvido…)


Alexandre O’Neill, in Poesias Completas, Assírio & Alvim, Novembro de 2000, p. 243.

AS MÃES DA NAÇÃO


Temos um governo equilibrado. A ministra da educação contribui para que a ministra da cultura seja completamente irrelevante. A ministra da cultura acaba por contribuir para que a ministra da saúde tenha muito trabalho. A ministra do trabalho contribui para que todas as outras sejam muito felizes, podendo administrar os respectivos ministérios com mão-de-obra barata e precária. Como é óbvio, o contributo da ministra da saúde é indispensável nos domínios da cultura. Sabemos que não há cultura sem gente doente. O ministério da saúde não é outra coisa senão uma máquina de produção de gente doente, ou seja, gente fazedora de cultura.

CARTAS DO POETA QUE DORME NUMA CADEIRA



I
Digo as coisas tal como são
Ou sabemos tudo de antemão
Ou nunca saberemos absolutamente nada.

Só nos é permitido
Aprender a falar correctamente.

II
Sonho com mulheres a noite toda
Umas riem-se ostensivamente de mim
Outras dão-me o golpe de coelho.
Não me deixam em paz.
Estão em guerra permanente comigo.

Levanto-me com cara de trovão.

Do que se deduz que estou louco
Ou pelo menos que estou morto de susto.

III
Dá muito trabalho crer
Num deus que deixa as suas criaturas
Abandonadas à sua própria sorte
À mercê das ondas da velhice
E das doenças
Para não falar da morte.

IV
Sou dos que saúdam as carroças.

V
Jovens
...........escrevam o que quiserem
No estilo que vos pareça melhor
Correu demasiado sangue debaixo das pontes
Para continuar a crer ─ creio eu
Que só se pode seguir um caminho:
Em poesia tudo é permitido.

VI
Doença
...........Decrepitude
...............................e Morte
Dançam como donzelas inocentes
Ao redor do lago dos cisnes
Seminuas
...............ébrias
Com seus lascivos lábios de coral.

VII
Está provado
Que não há habitantes na lua

Que as cadeiras são mesas
Que as borboletas são flores em perpétuo movimento
Que a verdade é um erro colectivo
Que o espírito morre com o corpo

Está provado
Que as rugas não são cicatrizes.

VIII
De cada vez que por um ou outro motivo
Tive que descer
Da minha pequena torre de tábuas
Regressei tremendo de frio
De saudade
..................de medo
..............................de dor.

IX
Já desapareceram os eléctricos
Cortaram as árvores
O horizonte vê-se cheio de cruzamentos.

Marx foi negado sete vezes
Todavia nós continuamos por aqui.

X
Alimentar abelhas com fel
Inocular o sémen pela boca
Ajoelhar-se num charco de sangue
Espirrar na capela ardente
Ordenhar uma vaca
E deitar-lhe o seu próprio leite pela cabeça.

XI
Das nuvens carregadas do pequeno-almoço
Aos trovões da hora do almoço
E daí aos relâmpagos da comida.

XII
Não me ponho triste facilmente
Para ser sincero
Até as caveiras me fazem rir.
Saúda-as com lágrimas de sangue
O poeta que dorme numa cruz.

XIII
O dever do poeta
Consiste em superar a página em branco
Duvidando que tal seja possível.

XIV
Só me conformo com a beleza
A fealdade produz-me dor.

XV
Última vez que repito o mesmo
Os vermes são deuses
As borboletas são flores em perpétuo movimento
Dentes cariados
..........................dentes quebradiços
Sou da tempo do cinema mudo.

Fornicar é um acto literário.

XVI
Aforismos chilenos:
Todas as cores têm manchas
O telefone sabe o que diz
Nunca a tartaruga perdeu mais tempo
Do que quando teve lições da águia.
O automóvel é uma cadeira de rodas.

E o viajante que olha para trás
Corre o sério risco
De a sua sombra não querer segui-lo.

XVII
Analisar é renunciar a si mesmo
Só se pode debater em círculo
Só se vê o que se quer ver
Um nascimento nada resolve
Reconheço que me caem as lágrimas.

Um nascimento nada resolve
Só a morte diz a verdade
Mesmo a poesia não convence.
Se nos ensina que o espaço não existe.

Se nos ensina que o tempo não existe
Mas de qualquer modo
A velhice é um facto consumado.

Seja o que a ciência quiser.

Dá-me sono ler as minhas poesias
E todavia foram escritas com sangue.


Nicanor Parra, in Otros poemas [1950-1968]
Versão de HMBF
(também na Di Versos n.º12, embora com algumas correcções)

sábado, 14 de agosto de 2010

Uma concha de Josep M. Rodríguez apanhada num acampamento índio algures na Costa Vicentina




TRAÇOS

Lá em cima
um avião traça o seu rasto,
desenha o seu destino

tal como o mar,
cujo rasto é a espuma da praia,
o reverso
dessa linha que é o horizonte.

Eu contemplo a minha sombra:

à noite torna-se eterna e cobre o mundo.



Josep M. Rodríguez, in A Caixa Negra, trad. Manuel de Freitas, Averno, Fevereiro de 2009, p. 67.

ACAMPAMENTO ÍNDIO




O dia seguinte é sempre o mais difícil, anuncia-nos o fim e aponta-nos o regresso. Nos últimos dias, as marés mudaram, a meteorologia ficou instável. As alterações atmosféricas produzem os seus efeitos. Deixo-me embalar pela vagabundagem de Andreas Tangen (ou será fulano de tal?) e ocupo o meu pensamento com coisas insignificantes. Comi a Fome enquanto o diabo esfrega um olho. Não esperava mais que o oferecido, o que não foi pouco. Li um conto excelente de Luigi Pirandello. O Signor Pardi enviuvou, caiu numa espécie de modorra, a perda deixou-o desorientado, órfão, confunde os dias com as noites, mergulhou no vazio: «He felt torpid, perplexed, with a sensation of emptiness inside and all around him». Diz a si próprio que a vida continua, é o que dizem sempre aqueles que ficam mediante o afastamento dos outros. Perante as partidas, as perdas, as ausências, nenhuma outra resposta parece sensata, apenas esta constatação conformada e conformista de que a vida continua. O que fazer?

O vento arrastou-me para a Samoqueira. Um brevíssimo passeio a pé na companhia da Maria João, da Sara e do Tomás. Não desci, como outrora, por temer a agressividade das vagas. Antes provei as camarinhas. No dia anterior, a prole tinha-se aventurado por Odeceixe. Quem chega e olha para o areal coberto de chapéus-de-sol pode ficar assustado, mas toda a vastidão guarda os seus recantos. É preciso descobri-los. Chegados ao areal, caminhámos o mais possível para sul. A maré está cheia, mas ainda permite atravessar para o lado das Adegas. Entre Odeceixe e as Adegas, uns metros quadrados de areia para improvisarmos o nosso acampamento índio. Não sou de construir castelos na areia, prefiro acampamentos índios. E por ali ficamos, observando a paisagem, aguardando o momento de baixar os calções e ir à água como viemos ao mundo. Tenho para mim esta teoria de que na praia devíamos andar todos nus. E que as mulheres jamais deveriam poder desatar os “sutiãs” deixando-os estrategicamente dobrados sobre as auréolas mamilares.

À noite, enquanto reflectia o assunto, fui visitado por um sapo enorme. Tão grande que era capaz de se alimentar à base de escaravelhos americanos. Fotografámos o sapo na esperança de lhe virmos a descobrir figuras de príncipes no espelho dos olhos. Parecia assustado, o bicho, ou perdido, tal como eu fico sempre que o vento ameaça os toldos, a maresia enregela os dedos, os olhos estendem-se contemplativamente para lá do horizonte. Sempre visitámos o Sargo, o do Bilal, mas não íamos com comezainas intenções. Demos corda à conversa, que se prolongou em grupo num jantar à mesa do Chill Out e, de sobremesa, no quintal da Esteveira. Os dias estão mais curtos, soltam-se-nos suspiros da boca, há um silêncio denunciativo em cada gesto, estamos à beira do fim. Restam fotografias, textos, memórias, desenhos e mais algumas páginas no negro caderno terapêutico:

gosto de encher a boca com ar puro, de olhar o que se esconde atrás das rochas, de ouvir as conversas dos velhos na esplanada do café, de mulheres deitadas na areia, gosto de observar as pessoas na praia, de vê-las descendo carregadas de óleos imprescindíveis, mirando o areal de ponta a ponta em busca de alguns metros de distância, de um certo recolhimento onde possa a toalha ser estendida, gosto de me abrigar das pessoas, de abrir um livro e de te desenhar de memória, gosto de escrever na areia versos que o vento confundirá e o mar rasurará, gosto de sentir as pessoas momentaneamente indiferentes aos terrores do mundo, de saber que não pensam em mim, que me desconhecem e ignoram, de lhes descobrir o olhar nos pontos inalcançáveis do desejo. para onde olharão elas quando olham sem distância? esperarão elas, como eu, que a maré lhes devolva os sonhos, algo surpreendente? o mar vai e vem, nada traz, apenas detritos, mais areia, peixes mortos. se tivermos sorte, boas ondas e uma estrela do mar. por isso, gosto dos objectos na praia, das plantas semeadas no quintal, dos vasos com ervas aromáticas, daquele casal que se sentou à sombra, do meu pé sobre as águas douradas deste infindo mar. e gosto de me sentar sozinho numa rocha, enterrar os pés na areia, sentir a maré subir enquanto avanço mais algumas páginas num livro. gosto de escutar a rebentação das ondas, as gaivotas agitadas em torno de um cardume, gosto de olhar para o nada enquanto o sol me queima a pele e nada me arrefece o coração, a não ser, talvez, a memória do que fica por fazer enquanto me sinto ínfimo, tal qual sou, neste inventário de gostar. é simples: não gosto especialmente das noites quentes, mas agrada-me estar no silêncio da rua jogando a sorte num bafo de vento que me refresque o rosto. gosto de sentir a brisa ligeira, uma baforada meiga, aquietar-me as faces durante as horas tórridas de uma noite de Verão, uma noite que chama os insectos para junto dos corpos suados. gosto das vacas apascentadas, das ruínas, dos prédios devolutos e das casas abandonadas. gosto de sentir o silêncio que as ocupa e de imaginar o ruído que outrora as habitou. gosto do bolo de batata doce do António José Simões, embora prefira o da amêndoa a acompanhar-me o café.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Uma concha de Daniel Falb apanhada na praia de Odeceixe




.....o que se fixa no teu corpo, que distúrbio nervoso faz encrespar a tua pele «como o vento a superfície do mar». pede uma comprovação disso,
vai ao médico, as tuas pernas estão aqui. salvem as baleias, salvem os mamíferos subaquáticos. distribuir
flyers, para ti. estes hábitos são recessivos,
........................dizes tu, e ajustas o teu biquíni, à nossa frente o mar. o que se fixa na tua
face, ali algures era a entrada principal,
eu sabia apreciar isso.


Daniel Falb, in naturezas-mortas sociais, trad. Pedro Sena-Lino e Tiago Rocha de Morais, Sextante, Novembro de 2009, p. 19.

BEATRIZ A MERGULHAR


©Bárbara Fonseca

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

RUY DUARTE DE CARVALHO 1941-2010

Escrevi sobre livros do autor aqui e aqui. Um poema aqui.

Uma concha de Djuna Barnes apanhada num saco de crustáceos




EM GERAL

Qual a toalha de altar, qual o pano fino
Que não tem um preço?
Para quê lances, truques ao jogo
Sem uma finalidade?
Mas a ti apreciámos-te ainda um pouco
Mais do que a Cristo.

Djuna Barnes, in O livro das mulheres repulsivas, trad. Fernanda Borges, &etc., Junho de 2007, p. 33.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

CONVERSA




A ausência da minha sobrinha trouxe algumas dificuldades: a Matilde ficou sem companhia para banhos de mar intermináveis e a Beatriz com menos uma cabeça para puxar cabelos. Ao levantar do pano para o segundo acto, continuo as peregrinações ao Três Arquinhos. Anteontem, encontrei-me por lá com a Sara. O Rodrigo tinha ficado em casa a alongar o sono, ela andava à procura de ingredientes para as saladas. À noite, juntámo-nos todos na Esteveira, bebemos cerveja, vinho, conversámos. Cada vez mais desabituado destes ritos, tal a misantropia a que me dediquei nos últimos tempos, dou comigo a reencontrar-me intimamente com o prazer da conversa que Stevenson tão bem descreveu; dessa conversa de objecto volátil mas sensível, o simples prazer de dar à língua sem custo nem abono, conversar por conversar, articulando palavras ao ritmo das ideias, contando histórias, repartindo projectos, pequenas confissões.

Acompanhados pela música que o vento trazia, os grilos, os gafanhotos e as traças juntaram-se a nós. São olhados de soslaio, com alguma desconfiança, embora não me seja difícil imaginar que cirandam de um modo cadenciado, como que fazendo das nossas palavras a valsa dos seus voos. Cada palavra que vibra nas cordas vocais e salta para o ar ocupado pelos insectos traz-me à boca um paladar que andava adormecido, o paladar da cavaqueira sem glosa, onde os intervenientes se ocupam daquilo que verdadeiramente importa: ouvir o que cada um tem a dizer sem o prejuízo roedor das interpretações torcidas, tendenciosas, pretensiosas e enfatuadas, ouvir sem pretender ser jocoso, espiritual, artificialmente gracioso. Conversar sem os ouvidos de uma sala emparedada, num pátio a céu aberto. Observados lá do alto por um infinito mar de estrelas.

Dou comigo a ponderar as dificuldades que sempre senti em conversar com os da minha geração. Por vezes, sinto-me desenquadrado da paisagem competitiva, mais exibicionista do que aquilo que ambiciono para os meus dias; noutras ocasiões, noto nos argumentos uma artificialidade que transforma os meus pares em clones dos pais, mas sem a experiência de vida destes. Poucas situações me são mais desagradáveis do que tentar alimentar um diálogo com um espírito arcaico num corpo imaturo. Não é de hoje, este desfasamento. Quando era adolescente, ficava a aturar os velhos nas tabernas enquanto os meus amigos engatavam miúdas nas discotecas. Sinto-me frequentemente mais integrado entre gente com quem sinto ter algo a aprender. Mesmo admitindo as excepções, que não asseguram saber na idade nem superficialidade na juventude, comigo tem sido assim.

É verdade que me vou cruzando com gente velha cuja experiência de vida se resume às aventuras que nunca viveram. Passam os dias a remorder a vida dos outros, tão mal tratados que foram pelas próprias vidas. E tenho conhecido malta nova a quem vale a pena topar os gestos, os tiques, os sonhos e as vontades. Ora, se o encontro com a Sara e o Rodrigo tinha a previsibilidade de alguns e-mails previamente trocados, ter avistado o Miguel e a Catarina a baixarem à praia da Arrifana foi completamente inesperado. Vinham extasiados com os dotes culinários de um Bilal (como o tipo dos comics, assegura o Miguel) com cozinha montada num restaurante em Monte Clérigo. O entusiasmo das descrições foi convincente, pelo que tenciono passar por lá antes de rumar a Norte. A Catarina juntou-se às miúdas fantasiando castelos na areia, deixando o Miguel dar largas a uma desconhecida personalidade de Lobo do Mar.

Pena que as safias e o robalo oferecidos pelo Luís não tenham sido argumentos suficientemente fortes para os fazer pernoitar uma noite na Esteveira. À chegada, outros argumentos haveria. O Vivaldo deixou de brinde, pendurada na porta, uma saca cheia de percebes, caranguejos, lapas e mexilhão. Entre os crustáceos, encontrei também uma concha de Djuna Barnes. Foi tudo ao lume numa panela com água e sal. Preparei duas caipirinhas e depois abri a Fome para degustar mais umas páginas:

«Fiquei deitado um bocado com os olhos fixos no escuro, naquela espessa massa escura que não tinha fundo nem cujas dimensões era possível apreender. O meu entendimento não conseguia entender. Era uma escuridão sem igual e eu sentia a sua presença exercer pressão sobre mim. Fechei os olhos, comecei a cantarolar meio alto só para mim e atirei-me uma vez e outra para cima da tarimba para me distrair, mas não me valeu de nada. A escuridão apoderou-se dos meus pensamentos e não me deixou em paz um só instante. Imagine-se que eu próprio me dissolvia na escuridão, que me fundia com ela!» (Knut Hamsun, in Fome, trad. Liliete Martins, Cavalo de Ferro, Outubro de 2008, pp. 97-97)

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Uma concha de Paulo da Costa Domingos apanhada num milheiral do Rogil




LONGA VIDA AOS QUE AINDA RESPONDEM AO APELO TELÚRICO

Cultivo
contra aquilo que alguns de nós
já não conseguimos estancar
a irrepreensível
sedição da Natureza.

Ervas daninhas (mas sê-lo-iam?)
que obstruem a progressão indiferente
do minar com ódio branco
a força dos campos de girassóis:
unânime.

Contra o sopro a ranço da vazante
admiro as mulheres em ângulo
de bruços sobre gavinhas
de um insólito
elixir.



Paulo da Costa Domingos, in Carmina, Antígona, 1995, p.108.

domingo, 8 de agosto de 2010

AS VACAS




Não há no tempo o vagar dos velhos que passam, muito esporadicamente, enquanto finalizo a leitura d’A Amante Holandesa no quintal da Esteveira. Passa um de bicicleta, pedala como que em câmara lenta, com as mangas arregaçadas até aos cotovelos, as calças estrategicamente adelgaçadas com molas. Ninguém gosta de bainhas manchadas pelo óleo das correntes. Se falássemos metaforicamente, diríamos que na praia, antes de se aventurarem no sal das ondas, os banhistas oleiam as bainhas. Elas espalham pelos ombros deles protectores perfumados, eles espalham pelas costas delas bronzeadores aromáticos. Observo-os discretamente, enquanto pauso a leitura de uma antologia de contos. Sholom Aleichem, russo, «the most popular of all Yiddish writers», desvia-me a atenção dos corpos bronzeados, tatuados, tonificados. A verdade é que os olho e não consigo evitar o esmorecimento. Estou flácido, pesado, desgastado, crescem-me pêlos brancos nas barbas, sinto dores no corpo todo, meia corrida atrás de uma bola na praia leva-me ao tapete, à areia.

Apesar de tudo, as mulheres logram desculpas mais plausíveis para a indesmentível ditadura do tempo. Vêem umas mamas rijinhas e põem-se logo a falar de silicone, um cu firme, liso, sem ponta de celulite, só pode resultar de censuráveis ociosidades: não têm mais que fazer, passam o tempo todo nos ginásios. Recrimino-me, penso que não devia ter deixado de praticar desporto, digo a mim próprio que não devia fumar tanto, que talvez devesse beber menos, mas depois arrumo todas as considerações num cantinho muito obscuro da vontade e acendo mais um cigarro, leio um poema do Rui Pires Cabral e pergunto-me: serão aqueles belos corpos mais felizes do que a velha que agora passa, metida nos seus botins de borracha, curvada, com uma bata negra a protegê-la do calor e um chapéu de palha a fazer-lhe sombra sobre o nariz? Não estará a todos reservado o mesmo destino curvado? De certo modo, andamos todos com molas a adelgaçarem as bocas das fazendas. E eu mais que os outros.

Dir-me-ão que estou louco, julgarão untuosas, talvez antiquadas, as minhas confessadas reflexões, mas a verdade é que nos parcos 35 anos que o corpo me carrega antevejo já as dores de um indesejável enfraquecimento físico. Por isso, pouco mais me resta do que sentar-me a olhar, a observar, a beber, a fumar, a ler, a desenhar. Podia fazer algo mais, é certo, mas faltam-me incentivos pelo menos tão fortes quanto o prazer de ficar por ali simplesmente a… olhar, a observar, a beber, a fumar, a ler, a desenhar. Desde que cheguei que ando para rabiscar uma vaca no pastoreio. Ainda não consegui. Também não posso dizer que me tenha esforçado muito. Na verdade, não me esforcei minimamente. Sempre que passo por elas, algo mais forte me chama. O bagaço no Três Arquinhos e, nos últimos dias, a cativante amante holandesa de J. Rentes de Carvalho. Para já, são essas e pouco mais as minhas preocupações: encontrar locais protegidos dos trogloditas que o Festival Sudoeste atrai por esta altura, arranjar resposta para as desafiantes interrogações da Beatriz.

− Onde é que o dono da praia guarda a mangueira para encher o mar?

Porque começo a fugir de um sítio quando pressinto dificuldades de estacionamento, sigo mais para sul. Levo debaixo do braço A Amante Holandesa. Estendemos a toalha na areia, entreolhamo-nos, vamos à água, sorrimos, ficamos. Livro tramado, daqueles que nos agarram sem nos deixarem defesa. Para quem, como eu, tem uma relação tão intermitente com a ficção, pior ainda com a ficção portuguesa, sempre repleta de personagens hiperbólicas e nauseantes de excessiva cultura literária, é um gozo folhear páginas assim, reveladoras de uma maturidade de pensamento atenta aos pormenores da vida comum. Remorsos, inveja, cinismo, melancolia em doses existencialmente suportáveis, num registo convincente porque bem medido. Nada de exageros, tudo provável, isto é, tudo plausível, verosímil, identificável. E mais não é preciso do que uma cidade como Bragança e uma aldeia, um pastor, um professor, gente comum a quem é possível descobrir sentimentos, histórias de vida, segredos e paradoxos literariamente entusiasmantes. Metam os olhos nesta escrita: «Que fiz eu para merecer este destino murcho, esta vida tépida, monótona, previsível? Sem fogo de paixão, sem drama, os meus dias arrastam-se na expectativa medíocre de que talvez amanhã aconteça alguma coisa. Amanhã. Sempre amanhã» (pp. 34-35). E mais não digo, fica para amanhã…

…que hoje esteve mau tempo, o vendaval nocturno trouxe uma densa neblina. Ainda assim, não afastou o calor. Aproveitámos a meteorologia instável, assim como o regresso da minha irmã, ainda a cheirar a aborígenes australianos, para descer até Lagos. Os meus pais vieram de pendura. Vejo-os cada vez mais raramente e nunca os tinha apanhado nestes modos. Conversamos, recordamos, comovemo-nos. Os miúdos estão crescidos, os crescidos estão mais velhos, os velhos estão reformados. Juntamos duas mesas numa cervejaria, mandamos vir percebes, sapateiras, ostras, camarão. Sentada a uma ponta da mesa, a minha mãe queixa-se da barriga inchada. Depois da refeição, afasta-se para soltar gases. Se o fez pelo ribombar da maleita, não valia a pena dar-se ao incómodo. Toda a gente ouviu. O meu pai queixa-se, diz que não consegue dormir tal a frequência da aflição. Eu e a minha irmã rimo-nos cumplicemente.

À mesa, histórias da Austrália. O meu pai queixa-se que a imperial nunca mais vem. A minha irmã conta que foi ver os primos, estão bem, ficaram comovidíssimos. A minha mãe queixa-se que o pão torrado nunca mais vem. Um dos primos cursou teologia, agora faz fortuna a vender frango com piripiri ou coisa que o valha. O meu pai queixa-se que os percebes nunca mais vêm. Que a Austrália é um país enorme, organizado, não se vê polícia nas ruas, só câmaras de vigilância, são pontualíssimos. O meu pai queixa-se dos empregados de mesa que não lhe trazem a porra da imperial. Porra é um exagero meu. A minha mãe diz que o primo teólogo, quando foi o “zunami”, andou por lá a prestar ajuda aos mortos. E o pão torrado, já pediram pão torrado? A minha irmã diz que os aborígenes estão tão protegidos pelo governo que nem se vêem. Eu penso de mim para mim que devem ser como as ostras. Os únicos aborígenes que se vêem, pretos pretos de cabelo liso, os mais feios que há, andam bêbedos nos tugúrios da urbe. É tudo caríssimo, mas bonito, elegante, gente bem-educada e simples, sem ponta de ostentação. Entretanto, chegaram os camarões, o pão torrado, as sapateiras, os percebes, as ostras, o vinho branco. Só não chegou a porra da imperial. Tenho um azar tramado, lamenta o velho, comigo é sempre assim, sou o primeiro a pedir e o último a ser servido.

sábado, 7 de agosto de 2010

Uma concha de Rui Pires Cabral apanhada na Praia da Bordeira




«As folhas dos dias estavam em branco.»

Em Agosto havia
tempo e vagar. Obras
paradas, cães sem coleira
e um vizinho sentado à janela
entre cortinas de mofo.
Hang on
sleepy town. Tudo adiado.

Sobrávamos nós, os conspiradores,
murados no terraço pela sombra
das montanhas; sobravam
também, toda a tarde,
as luzidias ilhas de vinil
em rotação –

e enquanto o espinho
de diamante as percorria,
víamos por vezes
acender-se na penumbra
a cidade de onde nos tinham
degredado desde sempre

e para sempre, tão forte
era o apelo da estranha língua
nativa: ruas sem retorno, negras
escadarias, túneis que levavam,
madrugada dentro, aos enredos
do futuro –

por favor, por favor,
que tudo comece. Num silêncio
sem paz nem sossego
ficávamos depois abandonados.
E esses foram, já se sabe,
os melhores dias.



Rui Pires Cabral, in Oráculos de Cabeceira, com ilustrações de Daniela Gomes, Averno, Junho de 2009, pp. 16-17.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Uma concha de Luís Maffei apanhada na Praia da Amoreira




A SAL

É qualquer coisa como um gosto
a sal e água sem chuva, um
lugar preciso em que se move
dentro
o papel de vida que se joga quando
as coisas teimam em fazer
algum sentido.
É qualquer coisa como o embaraço de
solstícios, inverno avesso a muitas cores e
próprio a ares que gostam de dizer
alguma coisa muito
muda
muito
ao contrário de dizer sem
dizer nada.
É qualquer coisa assim como algum
branco, como um gosto que se vai da
boca à escrita sem que nada seja
necessariamente
em pauta. É como
qualquer coisa de difícil faina, como se eu
pudesse
aqui
neste lugar sem chuva ou sal ou invernos,
neste lugar de fora de alguns muitos
sítios, arrancar da folha já sem fonte e sem
origem
uma alfazema um relicário
ou
qualquer coisa como um gosto a ti.



Luís Maffei, in Telefunken, Deriva, Abril de 2009, p. 48.

A BORBOLETA



Era assim o Verão em 1855: «feiras, bailes e grelhados meio crus» (Adoecer, p. 193). Nada que entusiasmasse Lizzie por aí além. Ainda a levei à praia, a ver se ganhava cor, mas a senhora Rossetti não ajudou. Preferiu afogar-se em láudano a banhar-se entre as rochas atapetadas de vegetação da Carreagem. Descer aquelas arribas não é fácil. Não era no séc. XIX, sobretudo para mulheres frágeis com longos vestidos, não é no séc. XXI, para indivíduos carregados com filhos, lancheiras, chapéus-de-sol. O camarada Luís levou a cana de pesca. Enquanto tentava enganar robalos e safias, eu pescava as últimas páginas do romance de Hélia Correia já com uma “amante holandesa” debaixo de olho. Sem ser uma biografia rigorosa, não deixa de ser uma reconstrução do ambiente que fertilizou a irmandade Pré-Rafaelita e proporcionou a intrigante relação entre Gabriel Rossetti e Lizzie Siddal. Guardarei mais considerações para o regresso. No entretanto, vou-me refazendo do reencontro com velhos amigos: Byron, Shelley, Tennyson, Lewis Carroll, William Morris, Dickens, Swinburne, entre tantos outros, vagueiam por aquelas páginas reavivando estragos morais que importa preservar no devido lugar: «A disputa entre o que pode ser pensado e dito e aquilo que, em baixo voo, vai por dentro do coração humano e o seu horror prova-se irresolúvel e sem tréguas» (p. 279).

É assim o Verão em 2010: praia, campo e grelhados bem passados. O passeio à Amália estimulou a imaginação das crianças. Não chega atravessar, pelo asfalto, milheirais e estufas imensas, com o sol a cair sobre os girassóis e os “sarracenos” (assim chama Beatriz a umas aves brancas que proliferam por estes campos) depenicando o couro das vacas em pastoreio. É preciso ver fantasmas na casa abandonada. Dizem que pela noite seres com capacidades mediúnicas logram ouvir ali o canto da fadista. Tendo em conta a fauna que aprecia o local, com sua aromática flora ardendo entre os dedos e insuflando os pulmões de espiritualidade, não duvido. O percurso pedestre que ladeia um ribeiro de água doce, dentro de um túnel de refrescante vegetação, transporta a Matilde para estimulantes aventuras imaginárias. Estamos na selva, e não foi preciso sair da Costa Vicentina. Na Carreagem e na Amoreira, apesar dos cenários diversos, mantém-se esta inclinação para as fantasias hiperbólicas. Faz-me bem regressar a este olhar microscópico que nos leva a ver gigantescas criaturas ameaçadoras onde os adultos apenas vislumbram um caranguejo, uma estrela-do-mar, algas. Sem deixar de saber o que as coisas são, é agradável inventar-lhes novos sentidos, renovados significados, proporções desconformes. Poesia.

No regresso da praia, continuo a peregrinar na direcção do Três Arquinhos. Café e bagaço para começar o dia, a mesma dose para entrar na noite. Calhou que ontem a bola me prendeu os olhos ao monitor diabólico de uma caixa de Pandora. Uns tipos de camisola verde e branca, pelos quais em tempos nutri estouvada admiração, voltaram a excitar os olhos do adepto em estado de latência. Pretexto para uma travessa de caracóis, pão torrado, imperiais. Chamam-lhe o marisco dos pobres, a mim soube-me ricamente. Também não resistimos às filhoses. «É para uma boa causa», fizeram questão de informar as vendedeiras. «Estamos a angariar para a construção de uma igreja». Com filhoses desta categoria, disse-lhes, ainda acabam a construir uma catedral. Realmente, a Ana já tinha reparado na ausência. Vimos cemitério, mas igreja nada. Nunca tal foi coisa vista por aqui. Onde irão à missa? Perguntava a Ana. Eu já tinha avistado uma reunião evangélica, mas, de facto, nem uma pequena capela católica tinha ainda topado nas redondezas. Com campos destes, quem precisa de uma casa para Deus? Não deixa de ser ironia do destino ter-me calhado em fortuna um local sem igreja. Neste país, deve ser como encontrar uma agulha num palheiro. Porque a minha gulodice é mais forte que o ateísmo, não me importei de contribuir para a catedral. As gustativas agradeceram e o mundo sorriu de fé e de alegria.

Deus Nosso Senhor estava atento e quis recompensar-me. Hoje, enquanto preparava a brasa para o almoço, com um copo de vinho na mão − «wine, that purveyor of dreams and gaiety» (Guy de Maupassant) – fui visitado por uma criatura angélica. Uma borboleta esplendorosa pousou nas flores do quintal e disse: trago-te a luz das coisas simples, aproveita enquanto a noite não chega. Depois voou. É tudo o que sei.


quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Uma concha de Rui Costa apanhada na praia da Carreagem




O ACIDENTE VI
[CLÁSSICO FINAL]


Não sei, amor, o que dizias
quando no mar que nunca
vimos a onda se desfez.

Mas sei a calma dessa onda
aos meus pés chegando e que
o meu corpo todo se mexia

como a dizer-te adeus.


Rui Costa, in As Limitações do Amor são Infinitas, Sombra do Amor, Junho de 2009, p. 19.

ATLÂNTICO




À chegada, tínhamos ovos no frigorífico. É novo, assim como a televisão – objecto que não só dispenso, como evito. Pela manhã, ao abrir a porta da cozinha que dá acesso ao tanque, reparei numa caixa com batatas, pimentos, melancia, curgete, feijão verde… O Vivaldo passou por aqui de mansinho e deixou-nos presentes. Não há noite mal dormida, e são tantas, que me demova desta definição de poesia. Ela está nestes gestos simples, silenciosos, acolhedores. Voltarei a lembrar-me da poesia quando desafiar as ondas com mergulhos que não deixam lugar para dúvidas: estou a ficar velho. É simples, a constatação, mas nada acolhedora. Sinto-o nas articulações, sempre que venho à tona. Que se lixe. Refaço-me com uns bafos de pólen, uma bebida fresca no bar da praia, um conto de Chekhov: «In a society where coolness, hauteur and nonchalance are judged signs of breeding and good manners, one must hide one’s passions».

É o sexto ano consecutivo na casa da Esteveira. Sendo tudo idêntico, nada é exactamente igual. Tenho vindo a notar nos gestos uma dimensão ritualista que me conforta, o que não deixa de ser curioso num feitio avesso a rituais e desesperado perante a persistência das rotinas. Talvez a ausência de expectativas, uma predisposição para o acaso, uma indiferença às circunstâncias que nos julgam a conveniência das acções torne tudo mais ligeiro. Basicamente, ando-me nas tintas. Dispenso jornais, televisão, mundo. Levo Elizabeth Siddal e Dante Gabriel Rossetti de companhia e sinto-me seguro e feliz. Não preciso de mais. Estes dois já me dão quefazeres suficientes.

Sentamo-nos no Três Arquinhos a beber bagaço pela manhã, depois de um café e de uma generosa fatia de bolo de amêndoa. Olho para eles ainda com uma certa desconfiança, talvez do mesmo tipo daquela que me é dedicada pelos pedreiros, pelos pescadores e por outros mentirosos reunidos neste café onde a maioria dos veraneantes não pára mais do que o tempo necessário para comprar tabaco, beber a bica, esticar as pernas antes de se aportar em Sagres, Lagos ou noutra zona allgarvia de recomendável interesse turístico. Para a maioria, o Rogil é local de passagem. Para mim, tem sido local de paragem.

Com os Pré-Rafaelitas por companhia, embora numa relação intervalada por períodos distribuídos “ametodicamente” (um caderno de desenhos onde vou apontando os olhares, outras leituras que incluem contos, poemas, adágios para a alma), sigo caminho. Confesso que nunca nutri especial interesse pelo grupo de Rossetti, tendo sempre apontado as antenas para Byron, Percy B. e Mary Shelley. Leio o romance de Hélia Correia com um esforço que não evita os bons dias à velha que passa debaixo do seu chapéu de palha, enfiada num avental e nuns botins de borracha. Quero dizer que me distraio com alguma facilidade, a muita informação recolhida está organizada num modo que me prende apenas a espaços.

Reparo que na página 73 sublinhei duas frases: «Sofriam ambos de mal-estar social e sentiam os olhos um do outro postos no chão, sem arte para a conversa. Entre eles passava a mesma linguagem que não era a do amor mas a do exílio». Estas relações de um certo séc. XIX (vitoriano) entristecem-me, fazem-me sentir que pouco mudou. Mesmo tendo em conta que as mulheres se libertaram, na sua maioria, do tom adoentado que as tornava atraentes, não deixo de constatar que prevalece nas relações entre homens e mulheres um ideal cuja razoabilidade é a todo o momento desmentida pelos mais banais pormenores da chamada vida real. E isto é doentio, apesar de (continuar) a ser muito atraente.

É preciso desmentir os ideais com um pouco de azeite e vinagre. Aos românticos que ainda hoje vislumbram formosura onde os espartilhos disfarçam banhas, seria recomendável, no mínimo, um forno, carvão, uma grelha e várias carnes para churrasco. Não há melhor remédio para os incêndios do amor do que ocupar a mente com esses afazeres domésticos que Lizzie desprezava. Eu receito: atear o lume, descascar batatas, lavar tomates, cortar cebola, regar a salada, salgar as entremeadas, as salsichas, as febras, temperá-las, levar as carnes à brasa, assar pimentos, juntar tudo sobre uma mesa devidamente composta, pratos, copos, talheres, um bom vinho de premeio. E depois escrever nas bordas da página: ofereceste-me um segredo. Se a intimidade de um homem pode ser circunscrita pelos segredos que ele preserva, então tu ofereceste-me intimidade.

Poesia? Perguntem a Ruskin, ele é que é o crítico. Indiferente à resposta, penetro os dias com os olhos postos no Atlântico. «não tócupes, olha o atlântico! é lindo o atlântico, não é? caraças, até ponho caixa alta: Atlântico. Parece um navio». (Jorge Fallorca)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Uma concha de Renata Correia Botelho apanhada no Restaurante da Praia


um seixo em cada mão e o mar
às costas. a tua ausência será

um calendário de pedras.


Renata Correia Botelho, in Um Circo no Nevoeiro, Averno, Outubro de 2009, p. 23.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Uma concha de Vítor Nogueira apanhada na praia de Vale dos Homens





SINTAXE

Anda a gente um dia inteiro atrás de um verso.
Os delírios soltos, claro, não adiantam
grande coisa. É como curar maleitas
com fumos e cataplasmas. Enfim,
deve ser o nosso táxi. Na rádio (bossa nova,
cha cha cha, easy listening) o futebolista
fala a língua de todos os homens:
«sempre foi um treinador que no qual
adorei jogar ao lado dele». Seja como for,
nunca o venceremos com palavras.
No campo, escusado dizer, pior ainda.

Vítor Nogueira, in Mar Largo, &etc., Setembro de 2009, p. 47.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

«OIÇO OS GUIZOS»

Saímos tarde de casa. Pelo menos, com um ano de atraso. Fosse o mundo perfeito, nunca teríamos de fazer da Esteveira a excepção à regra. Não é que viver em Caldas da Rainha seja mau. Longe disso. Dou-me lindamente com a faiança local. A questão é que, passado um ano, regresso aqui com a mesma sensação de sempre: passou um ano para aqui poder chegar. Ando nisto há pelo menos 14 anos, mais dois que os da sobrinha que este ano nos acompanha durante a primeira semana de férias. A mãe, minha irmã, foi para a Austrália caçar crocodilos. Que a sorte a acompanhe.
A Ana fez o favor de vir a conduzir, o que me deixou mãos livres para Raso Como o Chão, de Álvaro Lapa. A distracção fez com que deixássemos a auto-estrada uns metros mais abaixo do que era suposto. O mal veio por bem. Parámos em Grândola, para esticar as pernas e beber café. As miúdas deram asas aos cabelos no balancé do parque. Enquanto voavam, eu sublinhava a página 103:

O PASSEIO

A matéria negra arde entre escolhos. Tudo avança lentamente, posto que avança. Vai indo entre rodas, rumo ao húmido. É o passeio. Rumo ao mais fresco. É o Verão. Para lá dos cães, além da pedra com o talho da cabeça, nos pneus que escorregam ainda amiúde (o pó solto; a excitação) verás o rio. Em baixo, lago de lume, ardido ao ar, entre escolhos. Degraus o puxam, degraus o trazem. Pula no ar, desfaz-te em rio. É o passeio. Vitorioso passeio fora do dado, quase desconhecido, apenas visto. A aventura sem as palavras, perdida em fôlegos, em contracenagens, em infracções. Ida por dentro, rasgada a terra. Volta por fora, pelo céu da estrada. Rudimentos do inesquecível, permanência do revelado: a toponímia de cada metro ciceroneado, por quem o sabe. Dentro é de um, por fora é o outro, os construtores da tarde. Os que asseguram. E asseveram. E assim procedem. Os (dois) guias eventuais da descoberta.

Álvaro Lapa, in Raso como o chão, Estampa, Agosto de 1977.

Há 33 anos escrevia-se assim, hoje jamais se publicariam palavras destas. Infelizmente. Curiosamente, a parte final do livro coincidiu no título – Os Ciganos e as suas Propriedades – com uma charada da Matilde: um cigano é uma pessoa grande, um ciganito é uma pessoa pequena. À pergunta falta muito para chegarmos?, a Beatriz responde: chegamos de aqui a muito longe. As crianças animam a viagem, tão longa que já tenho saudades, comentam com risos, e sob a música do Jamiroquai não há tristeza que medre.
A receber-nos, uma chave debaixo do tapete. Não valia a pena darem-se ao trabalho, a porta estava aberta. Esta despreocupação como que marca o começo das férias, é uma espécie de portal para uma segunda vida, para um ansiado processo de reconstrução moral. A Beatriz senta-se no pátio, inspira fundo e diz-me: vou pôr o meu ar puro todo na boca, põe o teu também. Sigo-lhe o conselho, mas logo de seguida acendo um cigarro. Concentro-me nas melopeias do quintal, refaço-me pelos ouvidos: grilos, cigarras, rãs e rolas. Ao longe, as vacas. Um burro lento. Um cão, de quando em vez. E já sei, um galo pela matina. Um galo acertado nas horas. Pássaros cujo nome desconheço, uma brisa ligeira nos canaviais. É preciso comer. «A cabeça pesa-me no estômago vazio». Vamos a Odeceixe matar o bicho, tratamos do lume amanhã.

domingo, 1 de agosto de 2010

Uma concha de Bénédicte Houart apanhada na praia da Arrifana





passou-se assim o dia
sem fazer nenhum

se não me prenderam ainda
sabei que sou alegremente culpada
do pior crime de todos
o de desacertar palavras


Bénédicte Houart, in vida: variações, Cotovia, Março de 2008, p. 97.