Terça-feira, 31 de Agosto de 2010

THIDWICK

Outras maneiras de afectar de forma importante a vida dos outros estão dentro do direito daquele que afecta. Se quatro homens propõem casamento a uma mulher, esta, ao decidir com qual deles casar, se é que decide casar-se com algum, afecta de forma importante a vida de cada uma daquelas quatro pessoas, a sua própria vida, e a vida de quaisquer outras pessoas que desejem casar com um destes quatro homens, etc. Será que alguém proporia, mesmo limitando o grupo de maneira a incluir apenas as partes directamente envolvidas, que as cinco pessoas votassem para decidir com quem ela casaria? Tem o direito de decidir o que fazer, e não se está aqui a ignorar qualquer direito dos outros quatro a ter uma palavra a dizer nas decisões que afectam de forma importante as suas vidas. Não têm direito a voto na matéria naquela decisão. Depois de ter dirigido a Orquestra Filarmónica de Nova Iorque, Arturo Toscani dirigiu uma orquestra chamada «Sinfonia do Ar». Para continuar a funcionar de uma maneira financeiramente lucrativa, essa orquestra dependia de o ter como maestro. Se ele se reformasse, os músicos teriam de procurar outro emprego, e provavelmente quase todos obteriam um emprego muito menos desejável. Como a decisão de Toscani de se reformar ou não afectaria significativamente o seu meio de subsistência, será que todos os músicos naquela orquestra tinham direito a tomar parte naquela decisão? Terá Thidwick, o alce generoso, de se submeter ao voto de todos os animais que vivem nas suas hastes, de não atravessar o lago para uma área onde a comida é mais abundante?

Robert Nozick, in Anarquia, Estado e Utopia, trad. Vitor Guerreiro, Edições 70, Novembro de 2009, pp. 322-323.

NOVAS OPORTUNIDADES

Ontem autografei um exemplar das Estórias Domésticas ao balcão. Não conhecia a cliente, nem sequer me encontrava na loja quando a compra foi feita. A minha colega é que se lembrou de me meter naquela alhada. E agora, interroguei-me, escrevo o quê? Que estou grato, pois claro. Mas, na realidade, enquanto escrevia que estava grato eu pensava noutra coisa. Pus-me a pensar num negócio de autógrafos. Imaginei uma loja onde as pessoas pudessem levar os livros dos seus escritores preferidos, o que não seria o caso, para serem autografados. O serviço consistiria em autografá-lo tal como o escritor o faria. Teríamos uma base de dados com autógrafos. De Goethe a Dostoiévski, de Nietzsche a Pessoa, autografaríamos todos os livros mediante o pagamento de um valor estabelecido numa tabela que tivesse em conta o grau de dificuldade do autógrafo. Assim, quem quisesse um autógrafo de Homero teria de abrir os cordões à bolsa. São raríssimos. Um pouco como os meus.

É DO JORGE ODIADO

− Tem um livro que se chama “O coelho Machado e a Ave Sinhá”?

Segunda-feira, 30 de Agosto de 2010

ECO

Dúvida:
Mas porque é que o mundo me está a imitar?

Hipótese:
É o céu que me está a roubar a voz.


Beatriz, 3 anos

ARTEFACTO



Nicanor Parra, Artefactos, 1972

BOA SORTE AOS CRÁPULAS


A fundamentação de um Estado de Direito, por mínimo que seja, assenta em princípios de justiça. Em nome de uma ideia de equidade, os cidadãos preferem hipotecar parte da sua autonomia, penhorar um pouco da sua liberdade, pagando ao Estado a gestão dessa ideia. Julgam, deste modo, estar menos à mercê das arbitrariedades dos mais poderosos. No fundo, o Estado serve para criar nos mais fracos a ilusão de que também podem ser fortes. Para tal, criam-se leis, cobram-se impostos, geram-se cargos administrativos. Há um erro de princípio neste processo. Nenhum Estado se organiza a pensar no direito à felicidade que todas as pessoas têm. Os estados organizam-se a partir do dever à bondade. Isto é, parte-se do princípio (errado) de que a bondade garantirá a felicidade. A bondade não garante a felicidade. O mundo do trabalho oferece-nos exemplos eloquentes desta realidade. Sem querer exagerar, eu diria mesmo que, no mundo do trabalho, quanto mais perverso mais feliz. No contexto laboral a felicidade advém de nos sentirmos devidamente recompensados pelas nossas tarefas. Ora, hoje em dia, poucos se sentirão devidamente recompensados pelo seu desempenho. A generalidade das pessoas é mal paga, os empregadores parecem preferir, muitas vezes, a rotatividade à especialização. Contratam um tipo por 6 meses, ele anda para ali numa ânsia danada a pensar se depois daqueles 6 meses ainda pretenderão os seus serviços ou como poderá desenrascar-se posteriormente. Passados esses fatídicos 6 meses, é posto na rua, dão-lhe um chuto no traseiro como quem chuta um cão tinhoso. Este indivíduo pode vir a passar por esta experiencia várias vezes. É um tipo aplicado, e nalguns casos com resultados excelentes, mas os interesses de quem o emprega sobrepor-se-ão às qualidades por si demonstradas. Em situações normais, tenderíamos a pensar que nenhum patrão se livra de um empregado com um desempenho excelente. Todavia, não vivemos em situações normais. O que acontece hoje é que um empregado com um desempenho excelente vê o seu trabalho recompensado exactamente na mesma medida de um trabalhador com um desempenho médio, um desempenho fraco ou um desempenho muito fraco. Isto quando vê. Os salários não se ajustam à qualidade dos desempenhos porque, na realidade, não existe uma avaliação criteriosa e consequente desses desempenhos. Logo, nivela-se por baixo. Paga-se pouco para, na iminência de algo se perder, não ser muita a perda. Esta realidade gera um sentimento de injustiça nas pessoas. Neste caso, esse sentimento não provém da constatação das desigualdades, mas do facto de essas desigualdades não serem reconhecidas e devidamente interpretadas com uma readaptação das recompensas. Será justo que um tipo que trabalha mais e melhor ganhe exactamente o mesmo que aquele que trabalha menos e pior? As respostas a este problema tendem sempre a encontrar uma solução na ilusão de uma recompensa futura. Mais tarde ou mais cedo, dizem, esse empenho será devidamente reconhecido e recompensado com uma promoção. Mas e se não for? E, sendo, não irá o indivíduo deparar-se sempre com estas discrepâncias? Estas dúvidas, legítimas e dolorosas, tenderão a perdurar na mente do injustiçado. A inclinação será, muito naturalmente, para uma desmotivação logo interpretada como baixa de rendimento/produtividade. Portanto, se Deus ainda fosse vivo, seria tudo mais fácil: as pessoas acreditariam no paraíso e atacariam o seu lugar paradisíaco post-mortem, seriam muito boazinhas em vida, ainda que pudessem ser muito mal tratadinhas, graças a Deus, à espera que o Senhor viesse a recompensá-las em devida altura. Tendo Deus morrido, e constatando-se a inexistência de paraísos na terra, aquilo que um cidadão comum pode esperar é que o seu esforço seja devidamente reconhecido e proporcionalmente recompensado. Não sendo, que podemos esperar desse cidadão? Que se transforme num crápula. Muito legítima, justificável e compreensivelmente. Boa sorte, então, aos crápulas deste mundo cuja origem do seu mal se fundamenta na injustiça de que foram alvo. Que a morte lhes seja leve.
Ao alto: arte de José Vilhena.

A BATALHA CAMPAL


a coisa começa com um
DESFILE NOCTURNO DE ENERGÚMENOS
pelo centro da cidade:

morte sim!
funerais não!

morte sim!
funerais não!

morte sim!
funerais não!

OS ROBÔS OBSERVAM O DESFILE NOS SEUS
CARROS DE COMBATE

e continua no dia seguinte
À HORA DE PONTA
─entre a 1 e as 2 da tarde─
DEBAIXO DE UM SOL ABRASADOR
com uma
MANIFESTAÇÃO PACÍFICA DE ENERGÚMENOS
envoltos em lençóis ─com tochas e capuzes
FRENTE A UMA TENDA DE CERIMÓNIAS FÚNEBRES

Em teoria não molestam ninguém
e de facto não fazem outra coisa
senão cantar e dançar ao ritmo da cumbia
DUAS FRASES QUE REPETEM ATÉ AO INFINITO

morte sim!
funerais não!

morte sim!
funerais não!

morte sim!
funerais não!

MAS OS ROBÔS OBSERVAM ATENTAMENTE
OS ACONTECIMENTOS NOS SEUS CARROS
DE COMBATE

ao terceiro dia

OS ENERGÚMENOS
DIRIGEM-SE TRANQUILAMENTE PARA AS SUAS CASAS

após várias horas de baile desenfreado
FRENTE À MOEDA
quando aparecem em cena os robôs
e começa a batalha campal
E COMEÇA A BATALHA CAMPAL
E ..C O M E Ç A ..A ..B A T A L H A ..C A M P A L !



Nicanor Parra, in Otros poemas [1950-1968]
Versão de HMBF


Duas notas: Cumbia é uma música típica da Colômbia. La Moneda é a sede da Presidência da República do Chile.

Domingo, 29 de Agosto de 2010

A AMANTE HOLANDESA

J. Rentes de Carvalho (n. 1930) tem sido frequentemente apontado como um escritor português que vende muito na Holanda, para onde foi viver em 1956, mas poucos leitores conhecem em Portugal. Eu fazia parte dos poucos. Ainda que nunca seja tarde para descobrir um autor, aqui me penitencio por ter chegado tão tardiamente a uma obra que começou a ser publicada na segunda metade da década de 1960. Já lhe tinha lido algumas prosas na extinta revista Periférica, mas fico a dever o progresso para os livros à inquestionável qualidade dos posts que Rentes de Carvalho tem vindo a publicar no weblog Tempo Contado. A Quetzal, que em boa hora resolveu reeditar alguns dos títulos do escritor, facilitou-me a tarefa. Peguei naquele que estava mais à mão, este A Amante Holandesa (Quetzal, Julho de 2010), cuja primeira edição data de 2000, e procurei redimir-me de um mal que, felizmente, tem cura. Outros há que a não têm. Quando damos por ele, já o mal nos levou vontade e disponibilidade para remediar o que quer que seja. Lá iremos.

Dois dados a fixar antes de entrarmos pelo romance propriamente dito. Primeiro, estamos a falar de um livro escrito em idade adulta, aquilo a que alguns poderiam chamar “obra de maturidade”, houvesse idade para uma obra, ou, o que, a meu ver, faz mais sentido, uma obra onde a idade pesa sobre o que está escrito. Segundo dado importante: trata-se de uma história ocorrida, sobretudo, na província transmontana, com a qual Rentes de Carvalho mantém declaradas relações afectivas. Estes dados são importantes porque nos permitem presumir alguns elos entre o narrado e as vivências concretas do autor, ou seja, nem o cenário nem a situação existencial do narrador serão alheias àquele que as escreve. Numa época especialmente contaminada por realismos fantásticos e fantasiosas realidades, é bom encontrar um livro onde a principal preocupação parece ser a de contar bem uma história, sem abstraccionismos que pecam, tantas vezes, por se revelarem hiperbólicos na imaginação e imbecis na presunção de um estilo.

Além do mais, trata-se de um romance que escapa aos clichés urbano-deprimentes de tanta tralha que vai sendo publicada sem critérios minimamente inteligíveis. Na “arena”, temos dois amigos de infância que se reencontram numa dessas «aldeias tão longínquas que são apenas manchas brancas na paisagem» (p. 10). Um deles, o narrador, tem 57 anos e é professor em Bragança. O outro, quis o destino que ficasse pastor após um período de emigração pela Holanda. Pois que caberá ao segundo pôr o primeiro ao corrente das suas aventuras pelas terras baixas, onde deixou uma filha e uma inacreditável, de tão bela, amante. Porque o destino prega partidas, acaba o primeiro a cruzar-se com a filha holandesa do segundo. Deixo os detalhes à mercê dos potenciais leitores. Numa escrita escorreita e ágil, onde tudo parece ligeiro sem que nada seja superficial, o que nos oferece A Amante Holandesa é a história de um indivíduo em estado de crise.

Se fôssemos adeptos dos estádios de Erikson, diríamos que aquele professor de 57 anos antecipou o desespero da 8.ª idade. Está consciente de que já viveu o que tinha a viver, renega a vida sem poder recomeçá-la: «se sei o que não tive, não sei o que perdi» (p. 21); para logo acrescentar: «Futuro? O que ainda me resta será provavelmente feito de trivialidade, rotina, medo crescente. Mais também não espero» (p. 29). Não é um fracassado, mas as suas reflexões denotam um indivíduo resignado e submisso. Alimenta um casamento pautado pelo conformismo, uma vida desviada da regra apenas em contexto de mórbida, solitária e frouxa intimidade. Mas nem nesse espaço particular logra ele encontrar as aventuras que supõe e vislumbra nas histórias do amigo pastor. Interroga-se: «Que fiz eu para merecer este destino murcho, esta vida tépida, monótona, previsível? Sem fogo de paixão, sem drama, os meus dias arrastam-se na expectativa medíocre de que talvez amanhã aconteça alguma coisa. Amanhã. Sempre amanhã. E ao mesmo tempo agrilhoado à certeza de que nada acontecerá, porque me envolvo em seguranças, ponho travões, não dou passo que não seja calculado» (p. 35).

Não sendo unicamente sobre a velhice, este é um romance onde a velhice aparece retratada nas múltiplas dimensões da vida humana: psicológica, afectiva, social, etc. Mas esta também podia ser, assim o quiséssemos, uma parábola sobre uma nação acobardada, uma nação que é a nossa. Repare-se que à ousadia daqueles que partiram, J. Rentes de Carvalho contrapõe o amorfismo daqueles que foram ficando. O gerúndio é pertinente, pois mais que ficarem, eles foram apenas ficando. Foram ficando não por ser essa a sua decisão, mas por ter sido esse o resultado da inacção. Foram ficando medianamente conformados com o destino que lhes calhou, refugiando-se nos recantos onde a memória prevalece, consumidos pela inveja e por desejos recalcados. Que melhor retrato podemos esperar dos portugueses? Mais grave quando a idade pouco ensina: batendo-nos a aventura à porta, refreamos os sonhos, encolhemos as paixões, amedrontamos a vontade. Não é necessariamente cobardia, é o peso das consequências impedindo-nos de tomar nas próprias mãos a vida dos sonhos. Feito o balanço, só podemos concluir: «Sou a criança que queria manter a ilusão e, ao mesmo tempo, o velho ciente de que tudo tem preço, tudo tem fim» (p. 225). Vamos ficando.

Escrito para o Rascunho.

Sábado, 28 de Agosto de 2010

UM DIA COMO OS OUTROS

Depois de ter vomitado os biscoitos que Bianca lhe fizera, Baltazar concluiu que não podia deitar-se de estômago vazio. Cozinhou uma omeleta com linguiça, degustou-a e estendeu-se na cama. Passou muito mal durante a noite. Ou porque a linguiça não era das melhores, ou porque os ovos estavam estragados, sofreu uma crise de azia que apenas teve solução com mais uma ida à casa de banho para deitar fora tudo o que havia posto dentro. A azia não o deixou dormir, mal o deixando adormecer. O pouco que se pode dizer ter Baltazar dormido, dormiu-o delirando com cenas de sexo sob o corpo de uma orca ao som de pombos correio em desinquieta algaraviada. No entanto, acordou cheio de energia. Neste caso, acordar cheio de energia significa acordar disposto a esticar as pernas, erguer o corpo, meter-se em posição vertical e pôr um pé à frente do outro. Ao lavar os dentes, cravou um pêlo da escova entre os molares. Só conseguiu sacar o pêlo com um palito, não sem antes ferir a gengiva, fazer sangue e deixar a boca num inchaço tremendo. Parece que lhe cresciam azeitonas nos maxilares. Depois, queimou a língua num café escaldado. Já antes, tinha entornado uma considerável poção de leite ao tentar abrir um pacote. Esbarrou no leite, bateu de cu nos azulejos da cozinha e ficou todo dorido. Sentou-se a enrolar um charro de hidroerva. Queria, pelo menos, um momento de descanso absoluto, de silêncio, de paz, de calmaria. Mas a ansiedade com que enrolou o charro não o permitiu. Depressa e bem, não há quem. O charro ficou mal enrolado. Enquanto o fumava, caía-lhe sobre os dedos uma chuva de pepitas de cinza em brasa. Ficou com a mão toda marcada por bolhas de queimaduras, abriu um buraco numa perna das calças, ficou com o sofá transformado num queijo suíço. Pensou então que podia ver um dos 57 episódios de Tarzan que guardava gravados em cassetes de vídeo. Como não encontrou o episódio que pretendia rever, resolveu sentar-se no sofá a olhar para a televisão apagada. Ao sentar-se, ouviu qualquer coisa a estalar. Era a cassete com o episódio que ele queria ver. Estava danificada. Pôs-se então a matutar no azar que tinha. Se Baltazar fosse Bianca, encontraria em tanto azar razões para se orgulhar. Dificilmente haveria no mundo alguém com mais azar na vida. Em termos de azar, ele era o melhor que havia. Podiam inscrever o seu nome no livro dos recordes e oferecer-lhe uma medalha: Baltazar, o homem mais azarento do mundo. Mas Baltazar não era Bianca. Os dois tinham níveis de auto-estima radicalmente antagónicos. Limitou-se a pensar que aquele era apenas mais um dia como outro qualquer. Por mais difícil que possa parecer, aquele era, de facto, um dia como todos os outros na vida de Baltazar.

Escrito para O Indesmentível.

AMIGOS #2

Há tempos fui abordado, ali para os lados do cemitério velho, por uma moça que saltou do carro para me cumprimentar efusivamente. Abraçou-me, deu-me dois beijos rechonchudos nas faces, pôs-me as mãos nos ombros. Queria saber como estava eu, há tantos anos que não me via, o que era feito de mim. Espantado com tamanha alegria, fui tentando satisfazer a curiosidade que me deixou embasbacado com uma dúvida inconfortável: quem é esta personagem? Ela conhecia-me, falou dos meus pais, olhou-me com uns olhos inquestionavelmente saudosos. Fez-se-me então alguma luz, não por me ter lembrado de quem era a pessoa com quem falava, mas por me ter essa pessoa recordado alguém de que andava esquecido. O Rui. E o Rui, foste vê-lo mais alguma vez? O Rui? – questionei. Sim, a mãe dele diz que nunca mais ninguém o foi visitar. O Rui. Não éramos propriamente amigos, mas fôramos da mesma turma e partilhávamos paixões clubistas. Ele era beto, eu era o que nunca deixei de ser: parvo. Mas um dia o Rui, que tinha muitos amigos, sofreu um acidente. Porque os pormenores não interessam, direi apenas que ficou gravemente lesionado. Quando o fui visitar ao Hospital de Santarém, senti-me estupidamente enojado com as recompensas da vida. O Rui não conseguia coordenar movimentos, palavras, nada. Contorcia-se numa cama e parecia espumar de raiva. Nunca mais o vi. Passaram, talvez, 13 anos. Imagino-o agora só, a viver com os pais, a ver os amigos pelo buraco de uma fechadura imaginária. Diz que vive muito revoltado. Os amigos nunca mais o visitaram.

FALAM, FALAM, FALAM

O gozo da argumentação permite a um entusiasta da retórica transformar causas simples em maquiavélicas conspirações. Marcar presença numa manifestação contra a lapidação quererá apenas dizer que se está contra a prática da lapidação, um pouco como estar presente numa manifestação pela descriminalização da IVG quer apenas dizer que estamos contra a criminalização de uma mulher que aborte em condições previstas pela lei. Remói-me o estômago pensar que alguém pode considerar uma forma de justiça matar uma mulher à pedrada. E não há-de ser isso que pensa quem, pelo tal gozo da argumentação, recorre a labirínticos e intricados argumentos para diminuir a relevância de uma manifestação deste tipo ou pura e simplesmente misturá-la com pretensões de índole política que só são para aqui chamadas porque há-de haver sempre alguém a ver lobos onde apenas existem cordeiros. Nestes domínios, o mundo muda pouco. Para que a escravatura pudesse ser abolida foi preciso haver quem levantasse a voz, quem fosse para a rua, quem se mexesse e fizesse o homem branco perceber que os pretos não eram gado. Nesses tempos, entre os homens brancos, também havia gente que se mexia, gente que se opunha a quem se mexia e os tais entusiastas da retórica vazia e inconsequente. É óbvio que estes se divertiram imenso com as suas querelas. No entanto, não foi devido ao seu divertimento que os pretos deixaram de ser olhados como gado. Também não ficaremos a dever às suas masturbações intelectuais o fim da lapidação.

INSTABILIDADE POLÍTICA

Anda muito boa gente com o fantasma da instabilidade política na boca. Em Portugal, a instabilidade política só tem um objectivo: redistribuir tachos. Nenhuma diferença substancial separa hoje o PS do PSD. Ora mamas tu, ora mamo eu. Tem sido assim desde o 25 de Abril de 1974. A instabilidade política é isso, perderem uns a teta para ficarem, durante uns tempos, a mamar na chucha.

Sexta-feira, 27 de Agosto de 2010

MINEIROS

No Chile, 33 mineiros sobrevivem há vários dias a 700 metros de profundidade. Após uma derrocada, ficaram isolados debaixo de terra. Comunicam com o exterior através de dois buracos, por onde recebem alimentos, água, apoio psicológico, etc. As operações de resgate demorarão meses. Não estranho o relativo silêncio que esta história tem merecido por cá. Afinal, os homens ainda estão vivos. Logo, ainda não são notícia. Quando morrerem, a comoção tomará conta dos nossos solidários corações. Para eles, um fragmento da Descida aos Infernos:

Sempre para o centro da terra
onde os metais com sede
sonham devoradoramente
o sangue dos mineiros.

Queimando já a pele e os cabelos
nas combustões do enxofre, do granito,
desço alucinado
com pedra a ferver nos pulmões
e pedra em chamas a acender-me os gritos.

Como unhas de mercúrio fulgente
crescem-me dos olhos e dos dedos
nunca sonhados medos, nunca tanto
fulgor de lágrimas doentes
.


Carlos de Oliveira, de Descida aos Infernos, in Trabalho Poético, Círculo de Leitores, Abril de 2001, p. 94.

INVEJA, COBARDIA, FIDELIDADE




É inveja. No fundo envergonho-me de quando me sinto assim, irracionalmente mesquinho, mas há ocasiões em que não só a felicidade alheia, mas até os desaires dos outros me
perturbam.
Que fiz eu para merecer este destino murcho, esta vida tépida, monótona, previsível? Sem fogo de paixão, sem drama, os meus dias arrastam-se na expectativa medíocre de que talvez amanhã aconteça alguma coisa. Amanhã. Sempre amanhã. E ao mesmo tempo agrilhoado à certeza de que nada acontecerá, porque me envolvo em seguranças, ponho travões, não dou passo que não seja calculado.
Isolo-me e, contrariamente, anseio por companhia, mas companhia ideal, livre de imperfeições e desacertos.
Mantenho-me fiel ─ fiel a quê ou a quem? À mulher? À minha cobardia? ─ enquanto me arrasto pelos deboches sem limite nem lei que só a imaginação pode conceber.
Dou-me à veleidade de sonhar vida nova. De, como já disse, querer refazer o meu mundo, abrir outros horizontes, enquanto de facto me sinto morrer aos poucos. Não tanto do corpo, mas da alma, com a impressão de que esta vai perdendo o que eu julguei impossível de perder e se aproxima dum temeroso vazio.


J. Rentes de Carvalho, in A Amante Holandesa, Quetzal, Julho de 2010, pp. 34-35.

BRONZE

No regresso, acusaram-lhe o bronze. Nuns casos queriam dizer dei pela sua falta, noutros casos queriam dizer bela vida, e houve ainda quem simplesmente quisesse dizer que estranho, está com boa cor.

SORTE MACACA

Tenho por hábito jogar no Euromilhões. Jogo sempre com os mesmos números. Guardo dois boletins preenchidos para o efeito, mas só jogo os dois se me sair alguma coisa naquele que registo regularmente. Hoje, convencido de que tinha acertado (aproximadamente) 25€ na semana passada, preparei-me para registar os dois boletins. Era o que teria feito, não se desse o caso de, afinal, não me ter saído nem um cêntimo. Em vez de ter registado o boletim habitual, registei o outro, o suplente. Eis a sorte que um homem guarda na vida revelada num episódio tão simples, mas ao mesmo tempo esclarecedor e exemplar. Sou daqueles que sempre que têm uma remota hipótese de ganhar alguma coisa, por acasos, contingências, descuidos, distracções, acabam acertando ao lado. Um optimista pensará: afinal, nada de mais, foi apenas mais uma semana como as outras, não ganhei nada. Um pessimista tenderá a pensar: não tenho sorte nenhuma na vida, sou uma desgraça, vou-me matar. Eu penso: se estivesse em causa o primeiro prémio, seria bem pior.

RETRACTO-ME DE TUDO O QUE FOI DITO

Antes de me despedir
Tenho direito a um último desejo:
Generoso leitor
..........................Queima este livro
Não representa o que quis dizer
Apesar de ter sido escrito com sangue
Não representa o que quis dizer.

A minha situação não pode ser mais triste
Fui derrotado pela minha própria sombra:
As palavras vingaram-se de mim.

Perdoa-me leitor
Amistoso leitor
Que não possa despedir-me de ti
Com um abraço fiel:
Despeço-me de ti
Com um triste sorriso forçado.

Pode ser que eu não seja mais que isto
Mas escuta a minha última palavra:
Retracto-me de tudo o que foi dito.
Com a maior amargura do mundo
Retracto-me de tudo o que disse.

Nicanor Parra, in Otros poemas [1950-1968]
Versão de HMBF

Quarta-feira, 25 de Agosto de 2010

AMIGOS

Ou a Maria João Freitas é uma excelente pessoa ou eu tenho péssimo feitio. 6 amigos é uma fartura. Aliás, depois de pensar em 3 amigos que me podem merecer tal consideração, tentei imaginá-los nas situações que as dúvidas da Maria João alvitram. Ora, se estou certo que todos eles me visitariam no hospital e me acompanhariam na viagem derradeira (quando eu morrer, não se esqueçam, não batam em latas – nada de barulheira, quero ir a dormir descansadinho), felizmente, nenhum deles responderia afirmativamente a esta questão:
Quantos conseguiriam adivinhar o nosso pensamento antes de nós?
Por outro lado, infelizmente, todos eles responderiam negativamente a esta:
Com quantos poderíamos estar uma hora em eloquente silêncio?
Somos todos uma cambada de tagarelas. Mas o pior de tudo é eu próprio não ter resposta para esta dúvida:
Quantos teriam paciência para ouvir o nosso coração despedaçado ao telefone durante várias horas, a repetir os mesmos pedaços de frases?
Não me imagino a falar ao telefone durante 10 minutos, quanto mais várias horas.




P.S: A disjuntiva na primeira frase deste post é completamente fortuita. Como é óbvio, a namorada de Wittgenstein só pode ser uma excelente pessoa e eu tenho um declarado péssimo mau feitio.

RECLAMAR

De termos vergonha no reclamar, passámos a um reclamar por tudo e por nada. Acho que vou começar a reclamar das reclamações.

VERNIZ

Uns querem plastificar cartões, outros querem lupas, outros pedem livros de recibos, mas nunca ninguém tinha perguntado se vendemos verniz. Numa livraria. Isto é normal?

UNIVERSOS DESFEITOS

Deixei a vida de professor, dez anos depois, para não me sujeitar às contingências dos concursos. O pretexto era “estar mais perto” das filhas, não ter de pagar o aluguer de um quarto, poupar em deslocações. Dois anos a trabalhar num centro comercial permitem-me agora perceber que: dos três pretextos, só dois são válidos. E nenhum deles é o mais importante.

JERRY WEST

Um homem que viva numa aldeia isolada na montanha consegue fazer 15 afundanços com uma bola de basquetebol em 150 tentativas. Todos os outros na aldeia apenas conseguem fazer 1 afundanço em 150 tentativas. O homem pensa (como os outros) que é muito bom nisso. Um dia aparece Jerry West. Ou, um matemático trabalha muito arduamente e de tempos a tempos consegue fazer uma conjectura interessante, provar elegantemente um teorema, e por aí em diante. Descobre então um grupo de craques de matemática. Inventa uma conjectura e eles provam-na ou refutam-na rapidamente (não em todos os casos possíveis, por causa do teorema de Church), elaborando provas muito elegantes; eles próprios concebem teoremas muito profundos, etc.
Em cada um destes casos, a pessoa concluirá que não era afinal
muito boa ou competente naquilo que fazia. Não há um cânone para se fazer uma coisa bem, independentemente de como é ou pode ser feita por outros. No fim do seu livro, Literatura e Revolução, ao descrever como será (a dada altura) o homem numa sociedade comunista, Leão Trotsky afirma:

O homem tornar-se-á imensuravelmente mais forte, sábio e subtil; o seu corpo tornar-se-á mais harmonioso, os seus movimentos mais rítmicos, a sua voz mais musical. As formas da vida ganharão um dinamismo dramático. O tipo humano médio elevar-se-á às alturas de um Aristóteles, um Goethe, ou um Marx. E acima deste cume novos picos surgirão.

Se isto ocorresse, a pessoa mediana, ao nível
apenas de Aristóteles, Goethe ou Marx, não se julgaria muito bom ou competente nessas actividades. Teria problemas de auto-estima! Alguém nas circunstâncias do jogador de basquetebol ou do matemático acima descritos podia preferir que os outros não tivessem os seus talentos, ou podia preferir que parassem de estar sempre a demonstrar o seu valor, pelo menos à sua frente; dessa maneira a sua auto-estima não seria afectada e poder-se-ia reforçá-la.

Robert Nozick, in Anarquia, Estado e Utopia, trad. Vitor Guerreiro, Edições 70, Novembro de 2009, pp. 292-293.

UN VIAJE PELIGROSO

Conta René de Costa que num belo dia de Abril, em 1926, o poeta chileno Vicente Huidobro surpreendeu tudo e todos ao publicar no La Nación um poema longo, dirigido a Jesus Cristo, onde confessava a sua paixão por uma mulher − «a mais triste, sem dúvida a mais bela». Essa mulher era Ximena Amunátegui, uma adolescente de 15 anos, filha de um influente homem de Estado. Provocado o escândalo, o poeta foi ameaçado de morte e viu-se obrigado a fugir do Chile, deixando para trás a mulher e os filhos. Por essa altura escreveu o seguinte: «Yo me embarco todos los dias para un viaje peligroso. Cuando no existan más los viajes peligrosos la vida habrá perdido todo interés». Exilou-se primeiro em Paris, instalando-se posteriormente em Nova Iorque. Nesta cidade, dedicou-se ao cinema, escrevendo guiões, ganhando dinheiro, “acolhido como um «latin-lover» pelas estrelas” do meio. Em 1928, sem dizer “água vai”, depois de Ximena ter cumprido a maioridade, fechou a porta do apartamento na Sétima Avenida e viajou clandestinamente até ao Chile, raptando a jovem amada à saída do colégio. Fugiram para a Argentina, rumando depois a Paris, onde chegaram já casados pela lei muçulmana (a única forma encontrada para legalizar a situação).

Terça-feira, 24 de Agosto de 2010

ARTE POÉTICA



Que o verso seja como uma chave
Que abra mil portas.
Uma folha cai; algo passa voando;
Quanto os olhos vejam criado seja,
E a alma do ouvinte fique a tremer.

Inventa novos mundos e zela pela palavra;
O adjectivo, quando não dá vida, mata.

Estamos no ciclo dos nervos.
O músculo está exposto,
Como recordação, nos museus;
Mas nem por isso temos menos força:
O verdadeiro vigor
Reside na cabeça.

Por que cantais a rosa, ó Poetas!
Fazei-a florescer no poema;
Somente para nós
Vivem todas as coisas debaixo do Sol.

O poeta é um pequeno Deus.



Vicente Huidobro, in El espejo de agua (1916)
Versão de HMBF

Segunda-feira, 23 de Agosto de 2010

CONDENAÇÃO

No primeiro dia de chuva os incêndios deixaram de ser notícia e voltaram os acidentes nas estradas, um bombardeamento na A 25 com famílias desfeitas e a infelicidade distribuída por vários hospitais. Estamos condenados a isto. Aos incêndios, ao crime nas estradas, às condolências e à lamúria. Os mais corajosos já partiram e os mais pudicos já se calaram.

Aqui.

BRUNO SCHMITT BALTHAZAR

Camarada Van Zeller, já ouviu falar do jovem Bruno Schmitt Balthazar? Se não, eu digo-lhe: é um génio em terra de jumentos. Terminou o ensino secundário com 20 valores a Física e Matemática. Segundo noticia a imprensa, foi medalha de bronze nas Olimpíadas Internacionais de Física, em Zagreb, e quer prosseguir os estudos em Oxford, onde já terá sido admitido. Infelizmente, a família do Bruno não tem como suportar as despesas. O Expresso pegou no caso, a SIC foi atrás e eu fiquei com uma crise de urticária. Há pouco, ouvi a mãe do jovem dizer que escreveu para várias empresas a pedir apoio e ainda só obteve uma resposta. Negativa. Da Sonae. Não estou a ver como é que uma empresa de retalho, especializada em retalhar mão-de-obra barata, poderia responder positivamente a um apelo deste género. O Estado português, sazonal e “folcloricamente” preocupado com cérebros em fuga, parece não ter fundos que prevejam este tipo de investimento. De facto, para quê investir nos estudos do Bruno Schmitt Balthazar se depois não haverá como rentabilizá-los em Portugal? Que faria por cá um génio da física? Eis uma questão que me pôs a pensar um pouco mais do que é costume sobre distribuição de direitos, justificação de diferenças, fundamentação da igualdade, necessidades e obrigações. Pensei tanto que, ao ouvir passar um carro dos bombeiros, julguei que viesse apagar-me os neurónios em chamas. Como justificar junto dos mais desfavorecidos a existência do Estado? Assegurando-lhes vantagens, entre as quais destacaremos a igualdade de oportunidades. Se é verdade que as pessoas nascem em condições diversas, não deixa de ser aceitável que essa diversidade de condições não venha a determinar o futuro de um homem. Afinal, é também por isso que vivemos numa República e não numa Monarquia. Não obstante a República que nos calhou em sorte ser uma oligarquia nas mãos de meia dúzia de famílias que, pelo poder económico que detêm, mandam mais nos desígnios do país que os próprios governantes eleitos pelo povo. A pergunta que se me impõe é sobre a justiça ou injustiça de ver um jovem como o Bruno ficar pelo caminho porque os pais não têm condições de lhe suportar os estudos em Oxford. Será moralmente aceitável ver alguém morrer de fome enquanto nós nos empanturramos em comida? Deve tornar-se igual aquilo que nasce desigual? O que significa tornar igual? Neste caso, igualdade significa apenas proporcionar condições para que contingências económicas não prejudiquem o progresso nos estudos de um jovem que se distingue dos demais por ser excelente naquilo que a maioria dos portugueses se revela medíocre: Matemática, Física. Portanto, tudo estaria bem se este jovem tivesse nascido filho de um administrador da Sonae. Mas este jovem não nasceu filho de um administrador da Sonae. E, como se um azar não bastasse, nasceu o pobre desgraçado em Portugal. Deixando por instantes a ironia de lado, camarada Van Zeller, puxe lá da sua impagável imaginação e diga-me o que podemos nós fazer para que este cérebro não nos fuja.

ANTICRISTO



As obsessões não se materializam, excepto artisticamente. Neste caso, cinematograficamente. Lars von Trier tem uma obsessão com as mulheres (já agora, remeto os leitores para este post). Anticristo, dedicado ao mestre Tarkovsky, é o filme onde essa obsessão aparece materializada de um modo mais explícito. Paradoxalmente, é um dos mais poéticos e abstractos dos seus filmes (compreende-se a dedicatória), sobretudo porque faz, ao nível da imagem, uma espécie de radiografia nublada da natureza feminina. Como é óbvio, é o olhar de um homem que aqui prevalece, embora a actriz escolhida para o efeito, Charlotte Gainsbourg, pelo naturalismo da sua representação, ofereça a esse olhar uma credibilidade assaz convincente.
Alternando entre uma dimensão onírica, onde os traumas e os pesadelos, toda a matéria do inconsciente, vêm à tona sob a forma de alucinação, alternando entre esta dimensão feérica e “fabulosa” com uma outra dimensão muito mais realista, von Trier encena a natureza feminina a partir de um pretexto patológico: a perda acidental de um filho enquanto os progenitores faziam amor. A situação do prólogo, já de si deveras traumática, embora narrativamente estimulante, por nela se fundirem os principais elementos da vida (sexo e morte), coloca-nos no centro de uma crise. Chuvas de bolotas, animais moribundos que se alimentam de si próprios, outros em decomposição que subitamente ganham vida, ou, numa das cenas mais marcantes do filme, uma ave recém-nascida a ser devorada por formigas que é subitamente rapinada para ser devorada pela ave que a rapinou, quiçá a sua progenitora, são elementos que conferem ao filme uma complexa dimensão simbolista. No entanto, a este barroquismo contrapõe-se uma estética violentíssima pela sua cruel naturalidade.

O que há de chocante neste filme não são as cenas de sexo explícito, demasiado breves e estetizadas, nem os momentos de violência extrema, entre os quais muito se falou das cenas de automutilação e da ejaculação de sangue, que acabam por estar filmadas até de um modo algo dissimulado. O que há de mais violento no filme é o jogo de agressão psicológica que atravessa todos os capítulos (luto, dor, desespero…), onde o sentimento de culpa, a desordem interior, a exposição do medo e a ansiedade, confluem num impiedoso processo terapêutico.
Se Cristo é um símbolo da capacidade de perdoar, neste caso o anticristo é a ausência de perdão que leva o agredido (o homem) a matar o agressor (a mulher). Portanto, a narrativa inscreve-se para lá do bem e do mal. O corpo feminino representado neste filme, uma mãe algo negligente, uma mulher paranóica que tenta escrever uma tese (Ginocidio) sobre o mal infligido às mulheres, acabando por estancar a reflexão no mal das mulheres, não deve ser interpretado como a causa do mal. Não há mal nem bem no Éden onde um homem e uma mulher se isolaram para tentarem tratar uma situação de ansiedade extrema. Há, antes, uma recusa do perdão enquanto solução para as fobias avassaladoras que tomam conta do ser. Declaradamente anti-edipiano, Lars von Trier mata a mãe neste filme. Ele tem um problema com as mulheres. E isso torna-se claro em mais um epílogo hilariante, à semelhança do que acontecia em Breaking the Waves, de tão auto-irónico que nos parece.

Domingo, 22 de Agosto de 2010

TUDO NA MESMA

Eram imensas as expectativas que tomavam conta do pombo Benjamim no regresso a casa. Como estaria Baltazar? E Bianca? E os gatos persas? Rapidamente se apercebeu de que estavam exactamente na mesma. Após tamanha odisseia, nem um pêlo tinha nascido na barba nazarena de Baltazar. Nada havia mudado. É verdade que Baltazar resolvera abrir-se, isto é, declarar-se a Bianca, pôr tudo em pratos limpos, falar-lhe do que guardava no coração, mas depois lembrou-se de que não sabia o que guardava no coração. Fechou-se em copas, a meditar com os seus botões, isto é, a olhar para os seus botões, para o tecto esmaecido do quarto, sem nada dizer, sem nada pensar, porque ele só conseguia pensar o quanto lhe custava pensar no que quer que fosse. Já Bianca convencera-se de que Baltazar a amava. A sua personalidade era como a de um drogado vencido pela droga que hospedou no corpo. Ora, como a sua droga eram os livros de auto-ajuda, nada poderia abalar a extrema confiança que tinha em si mesma. Ainda que qualquer espelho fosco pudesse mostrar o contrário, para si própria ela era linda, magnífica, deslumbrante. Logo, Baltazar só podia estar apaixonado por ela. Sendo assim, num impulso estrondoso, resolvera certificar-se desse amor. Para tal, cozinhou um prato de biscoitos com comida de gato persa. Se Baltazar comesse os biscoitos sem esboçar protesto, isso quereria dizer que ele a amava. Baltazar comeu os biscoitos. E, porque nunca protestava pelo quer que fosse, comeu-os e engoli-os em seco, tendo, à primeira oportunidade, metido os dedos à boca para vomitá-los até ao mais ínfimo cibo de biscoito de gato persa. Porém, Bianca não o viu vomitar, ficando assim ainda mais auto-convencida acerca da objectividade das suas suspeições: Baltazar amava-a, ela estava certa disso, embora ele não fizesse a mínima ideia. Ela tinha a prova de que precisava. Ele tinha uma grave crise de azia por resolver. Os gatos persas aproveitavam o fogo da dona, refrescado com quilos e mais quilos de gelado, para raparem os tupperwares. Notava-se nos gatos uma fome selvagem, um desespero desumano, isto é, desfelino, típico em gatos ciumentos deixados ao abandono. Via-se nos olhos esbugalhados dos persas, no pêlo arrepiado, nas garras afiadas e nos dentes salivantes, essa fome de devorar um mundo que deles andava esquecido. Benjamim evitou-os. Queria contar-lhes da sua odisseia, mas achou prudente manter-se à distância. Procurou antes o ombro de Baltazar. E ainda que não lhe pudesse contar nada, por entre eles intrometer-se a impossibilidade de uma linguagem comum, foi com uma enorme comoção que Benjamim recebeu o olhar brilhante, vítreo, lacrimejante de Baltazar ao revê-lo depois de tanto tempo passado. Tanto tempo passado num instante desfeito. Depressa reparou o pombo que aquele não era um olhar de saudade e emoção, aquele era, simplesmente, o olhar da hidroerva que Baltazar continuava a consumir em doses industriais.

Escrito para O Indesmentível.

Sábado, 21 de Agosto de 2010

VIOLÊNCIA: HANS LANDA

Odeio cenas de violência. Devo ter andado meia dúzia de vezes à porrada. Só me lembro de duas. Devia ter 12 e 14 anos, não consigo precisar. Falo de violência física. A outra, a chamada psicológica, é exercida sobre nós tanto quanto as nossas defesas o permitem. Tenho as minhas. Também nós a exercemos sobre os outros, voluntária e/ou involuntariamente. Não podemos prever as consequências das nossas palavras nos corações dos outros, embora possamos, com a maturidade, aperceber-nos tanto da sua pertinência como da sua absoluta inutilidade. Claro que os julgamentos posteriores serão sempre subjectivos e estarão inevitavelmente contaminados por relações de oscilante simpatia com os envolvidos. Este tipo de violência pode acontecer de um modo prolongado ou esporádico, sendo que a variabilidade dos processos também é bastante subjectiva. Por exemplo, há momentos de violência psicológica, aqueles que passam por uma postura de provocação momentânea, que pela sua inconveniência e desconforto acabam por parecer intermináveis. São momentos de intimidação, coerção, ameaça. Seja em que circunstância for, o agressor nunca passará de um burgesso, de um pulha, de um ser medíocre que nada fica a dever àquele tipo de trogloditas que proliferam em claques de futebol ou em grupelhos de neo-nazis.

A REVER

O ÁRABE E O BRASILEIRO

Dois indivíduos envolveram-se à pancada. Sem sequer ter perguntado, no espaço de 5 minutos escutei dois relatos completamente diferentes do sucedido. Numa só informação coincidiam: um dos indivíduos era árabe, o outro era brasileiro.

FRUSTRAÇÃO

Não me frustra fazer qualquer coisa que sai mal. Já estou habituado. Piores são aquelas situações em que estou tão convencido de que fiz o meu melhor que ouvir alguém atribuir o resultado do meu esforço à sorte é como sentir um punhal a cravar-se nas costas.

P.S.: Na verdade, um punhal cravado nas costas seria bem pior.

Sexta-feira, 20 de Agosto de 2010

ESCUTADO AO BALCÃO

− Raios parta o Verão, qu’é só gajas boas por todo o lado, as que são más parecem boas e as boas parecem ainda melhores do que são.

BÜCHLEIN FÜR CIPRIANO DA COSTA DOMINGOS

Levanto o copo ao tecto com a delicadeza dum suspiro. Tenho nódoas nos dedos, as unhas marcadas de sarro, calos nas mãos maltratadas. Meu nome: Cipriano da Costa Domingos. Cantam-me fados às cinquenta, mas vou de piano sempre que a noite chega de mansinho. Hoje estendi-me: troquei vinho por aguardente das madeiras de Espanha. Mergulho para trás no azedume da vizinhança. Mulheres: só vê-las pelas costas, ao domingo, depois de comidas na sombra duma parra, empoeiradas e curtidas. Pedem-me canções sempre que a pança aperta. Falta-me a garganta, que trago entalada a meio do peito. Tenho dias. Mas nunca canto por tostões, era o que mais me faltava. Gosto, é óbvio, de coroações, pontapés de bagaço. Dispenso porém abraços ao balcão, cuspo nas pegadas dos doutores que me chegam com falas mansas. Pensam-me o quê? Pau para toda a obra? Isso é que era bom! Ajeito a boina, dou-lhe no ar arrepiado com a anca, faço vénias à sombra de todos os mortos que passam por mim. Mas nada de favores aos vivos. Cipriano da Costa Domingos, de meu nome já meu pai dizia: não tenho poemas, não tenho cimento, sou das estradas batidas. Meus carreiros vão com a terra a lugares sem nome, vendo sonhos às mulheres desdentadas, desarmadas, carpidas. Se quiseres minha bênção, uiva aos montes palmilhados. Chama-me os filhos, os afilhados e pergunta-lhes por: Cipriano da Costa Domingos. Cigano que dá à costa aos domingos? Sou eu. Laréu. Olhando para o céu como quem olha tudo o que Deus lhe deu. Mais a terra, do diabo, que trago nas entrelinhas do fado que em sorte me escolheu. Haja saúde, serei sempre eu.


In Estórias Domésticas (e Outros Problemas), Ovni, Dezembro de 2006, pp. 166-167.

ROBINSON CRUSOE


Se houvesse dez Robinson Crusoe, cada qual trabalhando sozinho durante dois anos em ilhas separadas, que descobrissem a existência uns dos outros e os factos acerca das suas alocações diferentes através da comunicação via rádio com transmissores ali deixados vinte anos antes, não poderiam eles fazer reivindicações uns aos outros, supondo que era possível transferir bens de uma ilha para a seguinte? Será que aquele que tivesse menos não faria uma reivindicação com base na necessidade, ou no facto de a sua ilha ser mais pobre em recursos naturais, ou no facto de ele ser menos naturalmente dotado para se sustentar a si próprio? Não poderia ele afirmar que a justiça exigiria que os outros lhe dessem mais alguma coisa, declarando ser injusto receber tão pouco e talvez ficar indigente, talvez a morrer de fome?
Robert Nozick, in Anarquia, Estado e Utopia, trad. Vitor Guerreiro, Edições 70, Novembro de 2009, pp. 230-231.

O PROBLEMA ESTÁ NOS CARIMBOS

Discutia-se o recâmbio cigano a decorrer por terras gaulesas. Um argumentava que aquilo só é possível porque são os franceses a fazê-lo, fossem os portugueses ninguém calava o bico. Outro dizia que aquilo devia ser feito em todos os países. Ora, eu não resisti e perguntei: se todos os países expulsassem os ciganos, para onde iam eles? O rapaz que estava de serviço olhou para mim com um ar desconfiado, deve ter notado a tez aciganada. Iam para a terra deles, respondeu. A terra dos ciganos sempre foi uma boa terra. Digam-me onde fica que eu quero ir para lá morar. Bloqueado na peleja, o jovem ficou sem saber para onde se voltar. E então atalhou caminho: «sabe, o problema disto tudo está nos carimbos, um tipo anda aqui a trabalhar e chegam esses ucranianos e pedem um carimbo, ganham mais dinheiro a não fazer nada do que eu a trabalhar». Ainda estive para lhe sugerir que deixasse de trabalhar, mas resisti à provocação. Assim sente o povo, meus caros. Noutros tempos assim sentiu. Deu no que deu. Não aprendemos nada com a História.

Quinta-feira, 19 de Agosto de 2010

BASE DE DADOS



Em França, cerca de 700 ciganos romenos aceitaram um incentivo económico para regressarem à Roménia. Portanto, os franceses estão a pagar aos ciganos para se verem livres deles. Sucede que esses ciganos não são propriamente cidadãos sem pátria, são cidadãos de um país da UE. Supostamente, isto quer dizer que eles poderão regressar a França quando bem entenderem. Ou não. OSCAR é o nome da base de dados onde ficarão registados os movimentos destes indivíduos. Tratando-se de ciganos, é natural que não se façam por cá manifestações contra este “grave precedente”. Na generalidade, os portugueses não gostam de ciganos, olham-nos com desconfiança. À excepção daqueles portugueses que também são ciganos. Os responsáveis franceses chamam a estes indivíduos “pessoas não desejadas”. Até aposto que já há em Portugal gente a pensar num programa similar. Podiam chamar ALHO à base de dados portuguesa. Depois juntavam as duas numa grande base de dados chamada OSCARALHO, que, no fundo, é para onde querem mandar essa vil ciganagem.

A ENTREVISTA

− E os poetas?
− Uns lunáticos.
− Porquê?
− Que outra explicação encontra para que alguém perca tanto tempo a escrever coisas que ninguém lê?
− Hão-de ter os seus leitores.
− No nosso país, com sorte, duas, três centenas.
− Publicam-se livros.
− Pois publicam, em doses modestas, sustentáveis. Ainda assim, publica-se mais do que seria recomendável se existisse o mínimo de sentido crítico. E critérios. Faltam critérios.
− Acha mal que se publique?
− Bem, pessoalmente não acho nada mal. Má é a guerra. Nisto, o mais que pode haver é desperdício de pasta de papel.
− Então o que está mal?
− Nada. Está tudo bem. Os poetas escrevem, os editores editam, os leitores compram. Espero que leiam.
− Parece-me demasiado pessimista. Afinal, sempre são pessoas diferentes.
− Diferentes de quê? E de quem?
− Do comum dos mortais.
− Nesse aspecto, somos todos muito parecidos. A morte não olha a sensibilidades.
− Digamos que são pessoas mais sensíveis.
− Acha?
− É o que parece.
− Conhece muitas dessas pessoas sensíveis?
− Ao longe.
− Pois eu conheço algumas ao perto. Deixe-me que lhe diga que arrotam todos na mesma direcção. Sei de um que escreve lindíssimos poemas de amor, mas bate na mulher e não quer saber dos filhos. Sei de outro que consegue ser tão inconveniente como percevejos num colchão. E há aqueles que investem uma vida a dizer mal dos outros. Há os lambe botas, os beija mão… Enfim, patetas, idiotas, pedantes, vaidosos…
− Também há-de haver gente séria.
− Gente séria não escreve poemas.
− Então escreve o quê?
− Não escreve, simplesmente não escreve. Sócrates, o filósofo grego, era sério. Jesus foi um homem sério… Não escreveram.
− Acabaram mal.
− Pois, normalmente é o que sucede a quem é sério. Acaba mal.
− E você, como acabará você?
− Pela lógica das coisas, acabarei bem.
− Não é sério?
− Pelo menos, procuro não me levar a sério.
− O que quer dizer com isso?
− Escrevo muito. Escrevo para não me levar a sério.
− Tudo o que acabou de dizer… tem alguma credibilidade?
− Credibilidade?
− Sim. As pessoas que o ouvirem, que o lerem, deverão levá-lo a sério?
− Só se forem parvas.
− Então quer dizer que tudo aquilo que disse não é sério?
− Quero dizer que se me levarem a sério são parvas.
− Porquê?
− Porque o que eu digo não se escreve.
− Jesus não escreveu e as pessoas levaram-no muito a sério.
− Você tem graça. A ele?
− Sim.
− Olhe que está equivocada?
− Então?
− Se o tivessem levado a sério não o tinham crucificado. Tinham-no amado, tinham-lhe dado muitos filhos.
− Consta que nem teve mulher.
− É natural, as mulheres não interessam nem ao menino Jesus.
− Não nos desviemos do que interessa.
− Oiça, nada interessa. O que se passa é que aquilo que Jesus disse foi escrito por alguém, não o que ele disse mas o que alguém julgou ter-lhe ouvido. Relatos, histórias, coisas que se contam. Quem conta um conto, acrescenta um ponto. E esse é o problema. As pessoas metem-se a escrever e dão cabo de tudo.
− Que deveriam fazer?
− Deviam falar umas com as outras, darem as mãos e serem muito amigas, fraternas, solidárias, deviam escutar os passarinhos a cantar, dançar ao som do canto dos passarinhos, deviam procurar a felicidade…
− E se forem felizes a escrever?
− Deixá-las escrever.
− Mas então estarão a dar cabo de tudo, pelo menos segundo os seus pressupostos.
− Fazem muito bem, desde que não me dêem cabo da vida.
− Está a ser egoísta.
− Todos somos.
− Egoístas?
− Sim. E parvos.
− Parvos?
− Isso mesmo. Só isso explica que alguém perca tempo a ler esta entrevista.

CRIMINOSOS


Leio no jornal que, 130 anos depois, Billy the Kid foi perdoado por todos os crimes cometidos. Foram precisos 130 anos para perdoar um criminoso. Quantos anos serão necessários para os condenar? A questão surge-me depois de ler, no mesmo jornal, a notícia da retirada da última brigada de combate norte-americana destacada no Iraque.

MANIFESTAÇÕES

Subitamente, eu que nem sou muito de me manifestar colectivamente, recebo dois convites para duas manifestações. Uma é contra as touradas, a outra é contra o apedrejamento de seres humanos. Não sei se os da primeira estarão presentes na segunda, nem se os da segunda estarão preocupados com a primeira. Sabê-lo é irrelevante. Cada qual com as suas prioridades. É óbvio que uma não impede a outra, mas se eu pudesse marcar presença em alguma delas seria na segunda. Faltando-me o dom da ubiquidade, há que fazer opções.

Quarta-feira, 18 de Agosto de 2010

UM HOMEM

A mãe de um homem está gravemente doente
Parte em busca do médico
Chora
Na rua vê a sua mulher acompanhada de outro homem
Vão de mão dada
Segue-os a curta distância
De árvore em árvore
Chora
Agora encontra-se com um amigo da juventude
Há anos que não nos víamos!
Vão a um bar
Conversam, riem
O homem sai para urinar no pátio
Vê uma jovem rapariga
É de noite
Ela lava os pratos
O homem aproxima-se da jovem
Agarra-a pela cintura
Dançam uma valsa
Saem juntos para a rua
Riem
Há um acidente
A rapariga perdeu os sentidos
O homem procura um telefone
Chora
Chega a uma casa com luzes
Pede o telefone
Alguém o reconhece
Senta-te a comer, homem
Não
Onde está o telefone
Come, homem, come
Vais depois
Senta-se a comer
Bebe como um condenado
Ri
Fazem-no recitar
Recita
Acaba adormecido debaixo de uma secretária.


Nicanor Parra, in Otros poemas [1950-1968]
Versão de HMBF

TRABALHO FORÇADO

O homem que decide trabalhar mais tempo para ganhar um rendimento mais do que suficiente para as suas necessidades básicas prefere alguns bens ou serviços adicionais ao lazer e a actividades que podia realizar durante o possível horário pós-laboral; ao passo que o homem que decide não trabalhar o tempo extra prefere as actividades de lazer aos bens ou serviços extras que podia adquirir trabalhando mais. Dado isto, se seria ilegítimo um sistema fiscal reter um pouco do lazer de um homem (trabalho forçado) com o fim de servir os necessitados, como pode ser legítimo que um sistema fiscal apreenda alguns dos bens de um homem para esse fim? Porque devemos tratar o homem cuja felicidade exige certos bens materiais ou serviços diferentemente do homem cujas preferências e desejos tornam esses bens desnecessários para a sua felicidade? Porque deve o homem que prefere ver um filme (e que tem de ganhar o dinheiro para o bilhete) estar aberto ao apelo para ajudar os necessitados, mas não a pessoa que prefere observar um pôr-do-sol (e portanto não precisa de ganhar dinheiro extra)?

Robert Nozick, in Anarquia, Estado e Utopia, trad. Vitor Guerreiro, Edições 70, Novembro de 2009, pp. 218-219.

ADOECER

Publicado em Março passado pela Relógio D’Água, Adoecer, romance de Hélia Correia (n. 1949), mereceu uma excelente recepção crítica. Os elogios apontaram, sobretudo, uma escrita rigorosa e um esmerado trabalho de pesquisa documental. É este segundo elemento o que mais se impõe a quem leia o romance. Excelentemente escrito, cuidadosamente montado, pode por vezes sufocar o leitor menos preparado para a densidade informativa condensada ao longo de quase 300 páginas. Tendo como pano de fundo a Irmandade Pré-Rafaelita, grupo de artistas fundado em Inglaterra à entrada da segunda metade do séc. XIX, este livro não escapa a uma caracterização social da época, focalizada, mormente, nos aspectos morais que determinavam e definiam uma clara clivagem entre classes e géneros. Neste sentido, Adoecer pode também ser interpretado à luz do papel que as mulheres ocupavam na era vitoriana. Isto fica claro logo nas páginas iniciais ─ «Apenas uma espécie de mulheres, para além das rameiras, exibia a cabeleira solta» (p. 18) ─, sendo inúmeras as considerações que ao longo da narrativa nos enquadram o contexto que confere um certo grau de excepcionalidade à figura central desta história: Elizabeth Siddal (1829–1862), ou simplesmente Lizzie, «o modelo mais famoso dos Pré-Rafaelitas» (p. 20).

Trata-se, pois, de uma obra de ficção, como a autora fez questão de sublinhar numa nota final, que procura reconstruir uma situação autêntica tendo em conta os múltiplos aspectos que contribuem para essa reconstrução. Não se tratando de uma biografia de Elizabeth Siddal, este romance mantém um elo de verosimilhança com a verdade histórica que logra tornar mais fidedigna a reconstrução assim operada do que aquela eventualmente oferecida pela literatura de índole biográfica. Não deixa de ser sintomático que, a páginas 119, Hélia Correia reflicta sobre o assunto: «Os escritores de biografias redigem com os pulsos amarrados. (…) Não lidam com cadáveres mas com factos, os quais não sofrem decomposição. Empreendem esgotantes caminhadas e aqueles que têm asas não as usam. São gente dedicada ao pormenor, ao que pode observar-se e não ilude». Retirando os factos dos frascos onde a História os conserva, o romancista como que tem a capacidade de revivê-los. Não estará tão interessado em dissecá-los e reconstrui-los como poderá estar em dar-lhe uma nova vida, isto é, em deixar que os factos falem à imaginação. Dar uma nova vida aos factos é, neste caso, procurar revivê-los.

Deste modo, é evidente a força simbólica que subjaz à organização dos dados. Adoecer começa com uma visita, em 2005, ao Highgate Cemetery, onde Elizabeth Siddal foi enterrada e desenterrada. De resto, há toda uma estética necrófila que não deixou Lizzie em paz com a vida e, pelos vistos, não a deixará em paz com a morte. “Eternamente moribunda”, Lizzie ficará para a história não propriamente enquanto poeta e pintora, mas como a modelo que se fundiu com o objecto da representação na Ophelia de Sir John Everett Millais (1829–1896). «Millais pintou aquilo que jamais tencionou pintar: o incitamento às emoções necrófilas» (p. 60) É um facto que Lizzie adoeceu durante as sessões. Não obstante, a aura de mistério que envolve toda a sua existência não deverá ser apagada por explicações tão lineares. Do surgimento dos Pré-Rafaelitas à Ophelia de Millais, pintada em 1852, daqui ao encontro com Dante Gabriel Rossetti (1828–1882), há toda uma história que merece ser contada sem intentos simplificadores. E essa história é não tanto a da biografia de Lizzie como aparenta ser a de uma “relação patológica” mantida com Dante Gabriel Rossetti, o nome maior da Irmandade. Ter adoecido confunde-se, aqui, com um encontro onde o amor andará de braço dado com o impulso da criação.

Pautada pelo escândalo desde o início, a relação entre Dante Gabriel Rossetti e Elizabeth Siddal começa quando os dois vão viver juntos, à margem do que era moralmente aceitável no tempo vitoriano, para uma casa em Hampstead Heath. De raízes diversas, havia algo que os ligava intimamente. Ela odiava obrigações domésticas, ele não nutria qualquer respeito pelas convenções. Ligava-os o prazer de arriscar uma oportunidade de beleza. Hélia Correia pinta-nos esse risco. Para tal, chama à liça várias personagens que à época influenciavam ou se relacionavam directamente com o casal; desbrava o romantismo da intimidade, não esquecendo o reflexo que a relação produzia nos olhos dos outros. O retrato de Lizzie começa por ser o de uma mulher de feridas recalcadas, o de uma mulher que adoece perante a vida dúplice do marido, como se o seu encantamento adviesse daquilo que a matava: «Estava a adoecer com elegância, e o seu talento para a passividade construía uma imagem sedutora, a de alguém que se inclina para o chão, da folha que se deita para o Outono» (p. 105). No fundo, é o retrato de uma mulher/modelo impedida de se afirmar simplesmente enquanto mulher.

Este adoecer não se compadece com os espartilhos das relações afectivas convencionais. Naquele tempo, para aqueles artistas, o amor e a morte confundiam-se, eram duas faces de uma mesma moeda. O revivalismo romântico conferia ao erotismo uma dimensão lúgubre. Lizzie encarnava essa morte ambulante que fascinava os artistas do meio onde se achou cativa. De certa forma, ela era em carne e osso o que Dante Gabriel Rossetti almejava em termos artísticos. E essa foi a sua cruz. «Gabriel não via Lizzie, via apenas a sua própria construção mental, uma figura de mulher inexistente» (p. 173). A impossibilidade de um amor verdadeiro, autêntico, que não estivesse (conta)minado pelas ambições artísticas, empurrou Lizzie Siddal para o ópio, como que numa ânsia de supressão da realidade ou fuga de si mesma. Quando Dante acordou, era demasiado tarde. ««Podia ter agido e não agi», lê-se num verso» (p. 243). O remorso e o sentimento de culpa tomaram conta dele, tentou remediar o arrependimento com o casamento, mas Lizzie já se havia transformado no fantasma que o perseguiu até ao fim da vida. Mais que um romance sobre artistas, este é um romance onde o amor se encontra com a morte sob o signo da beleza, onde a beleza e o amor se afirmam paradoxalmente pela sua aparente impossibilidade.

Escrito para o Rascunho.

A VERDADEIRA MORTE DE OPHELIA



Lizzie apontou para o láudano. Parecia ainda um desafio, mas não era. Estavam para além da medição de forças. Quando ela ameaçou que tomaria uma dose perigosa se ele saísse, Gabriel pegou no frasco e entregou-lho.
«Toma-o todo», disse. E bateu com a porta.

A mão da lenda entrava pela janela, rearrumando tudo como queria. Que Gabriel, dominado pela exasperação, dissesse aquela frase terminal não consta, é claro, dos escritos de família. Foi Oscar Wilde quem transportou esse rumor para dentro do tinteiro dos biógrafos. Porém, durante trinta e cinco anos, ele manteve-se vivo, preservado por pequenos murmúrios, até chegar à alma do irlandês. Fazia parte de uma história resistente, de uma história perfeita no seu mal. É essa a mesma história que nos conta que, ao voltar para casa, Gabriel deu com Lizzie encostada às almofadas, de olhos fechados. Respirava como quem se acha profundamente adormecido. Gabriel tentou, em vão, que ela acordasse. Ao tocar-lhe nos ombros, deparou com uma nota presa na camisa. «A minha vida é tão miserável que não a aguento mais», escrevera. No frasco que caíra aos pés da cama não restava uma gota de láudano.



Hélia Correia, in Adoecer, Relógio D’Água, Março de 2010, p. 278.

Terça-feira, 17 de Agosto de 2010

UM HOMEM DO POVO

Camarada Van Zeller, tive uma epifania. Pedro Passos Coelho é um ovo da Páscoa, o brinde que o povo necessita. Não é preciso ir muito longe para perceber que Pedro Passos Coelho (PPC) é um homem do povo, que vem do povo e vive entre o povo (de Massamá e arredores). Como qualquer jovem do povo nascido em 1964, PPC é filho de um médico que, antes do 25 de Abril de 1974, exercia na ex-colónia de Angola. À época, pululavam homens do povo que exerciam medicina. Depois, estabeleceu-se em Vila Real e, como qualquer jovem do povo, estudou. Alguns tiveram de se fazer à vida trabalhando, mas este foi um mouro dos estudos. Empenhou-se tanto, tanto, tanto, que aos 36 anos conseguiu licenciar-se em Economia por uma universidade do povo, a Lusíada. Pelo meio, está claro, fez o que todos os jovens do povo fazem, vestiu a camisola da JSD. Foi membro do Conselho Nacional, presidente da Comissão Política, deputado à AR, vice-presidente do Grupo Parlamentar, candidato a presidente da CM da Amadora, tudo actividades plebeias de estóica dedicação. Este homem do povo sabe o que o povo sofre, o povo que trabalha sábados, domingos e feriados em centros comerciais e hipermercados, que ganha o salário mínimo nacional ou que é pago a recibos verdes, este homem sabe o que é viver sem subsídio de alimentação, sem subsídio de férias ou 13º mês, sem ter direito a qualquer subsídio de desemprego caso fique desempregado, este homem sabe tudo isso por experiência própria. Ou talvez não. Quando terminou a licenciatura em Economia, aos 36 anos, que é a idade com que qualquer jovem do povo termina uma licenciatura numa universidade privada, este homem do povo foi consultor da Tecnoforma e da LDN Consultores, director de departamentos e coordenador de programas esquisitos até ingressar como director financeiro no Grupo Fomentinvest. Como sabemos, qualquer licenciado em Economia numa universidade privada, do povo, tem acesso a um percurso destes e facilmente chega a docente de um Instituto Superior. Enfim, PPC é não só um homem do povo como facilmente o povo se reconhecerá nele. O povo anda há 36 anos a votar em homens do povo como estes que se alimentam e engordam através de sistemas de trituração do povo. Que tudo em seu redor cheire a tacho é mera disfunção olfactiva. Não acha, camarada Van Zeller?

A PAIXÃO DA FOME, A FOME DA PAIXÃO

Não me recordo de alguma vez ter lido um romance tão bom que me surpreendesse tão pouco. É que não esperava mais nada de Fome, de Knut Hamsun (1859-1952), senão aquilo que me ofereceu: uma inquietante alegoria da paixão. O autor nasceu em Lom, na região central da Noruega. Foi o quarto filho do casal Pedersen. Tinha Knut Hamsun três anos quando a família se mudou para Hamarøy, ficando o pai a tomar conta de uma propriedade de Hans Olsen, seu cunhado. Impedido de trabalhar, Olsen reclamou junto dos Pedersen o dinheiro que lhes havia emprestado. Para que os pais pudessem pagar a dívida, Hamsun começou a trabalhar. Aos livros ia buscar alguma companhia. Em 1873, regressou a Lom e arranjou emprego numa loja. Caído de amores pela filha do dono da loja, teve de zarpar novamente para Hamarøy. Aí teve várias ocupações até rumar para outras paragens levando uma vida de mendigo. Os primeiros escritos apareceram aos 18 anos. 1878 foi o ano da chegada a Kristiania (actual Oslo), cenário escolhido para a narrativa que o consagrou: Fome (1890).

Knut Hamsun levou uma vida miserável em Kristiania, interrompida a espaços por algumas romagens aos EUA. Não custa acreditar que a sua experiência pessoal serviu de base à vida errante do jovem escritor caricaturado em Fome. Desta personagem, pouco mais sabemos que um nome fictício: Andreas Tangen. Vagueia faminto pela cidade, procura diversos empregos que lhe são sistematicamente recusados, perde-se em «invenções bizarras, caprichos, fantasias» que lhe sustentam artigos, publicados ou rejeitados nos periódicos locais, sem efeito que se note. Apesar da sua evidente indigência material e de um ameaçador estado de confusão mental que lhe vai tomando conta dos pensamentos e das acções, o jovem vagabundo mantém um optimismo e um sentido da dignidade que, muitas vezes, parece confundir-se com aquele tipo de orgulho que mantém verticais as pessoas caídas em desgraça. Os seus utensílios de escrita são uma réstia de esperança que o salvaguardam da penhora absoluta, são aquilo que o liga à sua mais vigorosa paixão.

Desorientado, prossegue caminho entre “mentiras úteis”, acessos de inspiração, «alucinações e sonhos loucos». A fome é tanta que o corpo cria intolerância à comida. Vomita tudo o que ingere, em sentido literal e figurado. Que fez ele para merecer tal desgraça? Ou melhor, o que terá deixado de fazer para que a desgraça o tivesse capturado? Às tantas, toda a situação nos parece absurda. Ninguém sobreviveria a uma fome daquelas. No entanto, esta fome não deve ser reduzida a uma dimensão meramente física. No prefácio, Paul Auster diz que «a fome não é uma metáfora, é o verdadeiro fulcro do problema». Tratar-se-á, então, de uma parábola sobre o artista que perdeu o controlo sobre si mesmo? Ao longo do romance são diversos os momentos em que a fome se assemelha a uma espécie de paixão. O jovem escritor está esfomeado, mas pouco parece querer fazer para matar essa fome. É como se se alimentasse da fome. A sua fome tornou-se uma razão de ser, é uma espécie de estado ontológico.

Andreas Tangen, chamemos-lhe assim, sente «o bem-estar do isolamento», tal como «aquela sensação do peito a roer»: «A fome roía-me insuportavelmente e não me deixava sossegar. Uma vez ou outra, engolia saliva para me alimentar um pouco e achei que isso resultava» (p. 91). No entanto, quando se lhe torna possível superar essa fome, ele ou rejeita a possibilidade ou simplesmente vomita. Quando sentia fome, os seus sentidos fundiam-se uns com os outros. Estas mesmas sensações serão como que repetidas após o estremecimento de um encontro com a paixão: «No largo do Sporting, encontrei uma rapariga que cravou os olhos em mim, quando ia a passar por ela» (p. 145). Fantasia? Loucura? A verdade é que por duas vezes ele nos diz do prazer que sente: uma, quando se liberta de algumas moedas para voltar a ser pelintra; outra, quando o coração lhe bate violentamente no peito perante a presença da amada. E quando diz a verdade, é isto que ele diz:

«Estive ali de pé, a tagarelar, tendo a sensação embaraçosa de que estava a aborrecê-la, de que nenhuma das minhas palavras atingia o alvo, no entanto, não me calei: Na verdade, podia ter-se uma natureza sensível sem que, por isso, se fosse louco; havia os que viviam quase de nada e que morriam de uma simples palavra. E deixei-a perceber que eu tinha esse tipo de natureza. A verdade era que a minha pobreza me tinha aguçado determinadas características, até um grau em que, infelizmente, também me causavam uma certa quantidade de situações desagradáveis, sim, garanto-lhe, situações desagradáveis. Mas, por outro lado, isso também tinha as suas vantagens, ajudava-me noutras situações. O inteligente pobre é muito melhor observador do que o inteligente rico. O pobre mede cada passo que dá, escuta atentamente cada palavra que ouve às pessoas que encontra. Cada passo que ele dá constitui para o seu cérebro e para a sua sensibilidade uma tarefa, um trabalho. Ele tem o ouvido apurado e é sensível, tem experiência, tem marcas de queimaduras na alma…» (p. 202)

Ora, a questão que cabe fazer é se temos aqui, ou não, uma teoria da criação literária? Será a experiência o alimento de que carece essa fome de fazer a que chamamos poesia? Se sim, que poesia podemos esperar das vidas burguesas e desapaixonadas que caracterizam hoje a maioria dos literatos? Terão fome? Estarão apaixonados? Ou será que se limitam a fantasiar uma condição social que lhes trará a ilusão e a expectativa de um anonimato abreviado?


Knut Hamsun, Fome, prefácio de Paul Auster, trad. Liliete Martins, Cavalo de Ferro, Outubro de 2008.

POETAS

Nada há de mais tolo do que ser-se ambicioso entre miseráveis. É um pouco como o sem abrigo que se revolta porque lhe levaram a primeira página do jornal, restando-lhe agora tapar-se com as centrais.

COLOCADA A QUESTÃO

Embora o poeta citado na terceira estrofe deste poema seja Alberto Pimenta (carta a uma iniciante, p. 192 de Obra Quase Completa), o diálogo que ali se mantém é com Alexandre O’Neill:

VENEZA AOS GATOS

Lisboa às moscas e Veneza aos gatos…
(os pombos da bondade só conspurcam
a praça de S. Marcos)
… ao gato perna alta que não vem quando o chamas,
ao contrário da patrícia mosca,
que não era para aqui chamada,
mas logo te soprou os últimos zunzuns
mal chegaste a Lisboa.

O gato de Veneza não te dá pretextos
para miares o que te vai na alma,
nem os sacros temores da miaulesca
esfinge rilkeana.
Não é um gato é um perfil de gato
tapando a saída da
calleta.

O gato veneziano é gato sem regaços
e sem selvajaria.
De Veneza o gato é sempre muitos gatos
que vão à sua vida…
… como tu, afinal, não vais à tua.

(De Veneza a Lisboa, num zunido,
já trazias a mosca no ouvido…)


Alexandre O’Neill, in Poesias Completas, Assírio & Alvim, Novembro de 2000, p. 243.

SAPO



Findo o jantar, uma visita inesperada. Espantou-me a desenvoltura. Mostrou-se, bateu à porta, disse o que tinha a dizer em silêncio e foi-se embora. Eu sei quem era, eu sei. Disfarçou-se só para ali chegar. Era a mosca.

«ALBERTINA» OU «O INSECTO-INSULTO» OU «O QUOTIDIANO RECEBIDO COMO MOSCA»

O poeta está só, completamente só.
Do nariz vai tirando alguns minutos
De abstracção, alguns minutos
Do nariz para o chão
Ou colados sob o tampo da mesa
Onde o poeta é todo cotovelos
E espera um minuto que seja de beleza.

Mas o poeta é aos novelos;
Mas o poeta já não tem a certeza
De segurar a musa, aquela
Que tantas vezes arrastou pelos cabelos...

*

A mosca Albertina, que ele domesticava,
Vem agora ao papel, como um insecto-insulto,
Mas fingindo que o poeta a esperava...

Quase mulher e muito mosca,
Albertina quer o poeta para si,
Quer sem versos o poeta.
Por isso fica, mosca-mulher, por ali...

*

─ Albertina!, deixa-me em paz, consente
Que eu falhe neste papel tão branco e insolente
Onde belo e ausente um verso eu sei que está!

─ Albertina!, eu quero um verso que não há!...

*

Conjugal, provocante, moreno e azulado,
o insecto levanta, revoluteia, desce
E, em lugar do verso que não aparece,
No papel se demora com um insulto alado.

E o poeta sai de chofre, por uns tempos desalmado...


Alexandre O'Neill, in Poesias Completas, Assírio & Alvim, Novembro de 2000, pp. 76-77.

AS MÃES DA NAÇÃO


Temos um governo equilibrado. A ministra da educação contribui para que a ministra da cultura seja completamente irrelevante. A ministra da cultura acaba por contribuir para que a ministra da saúde tenha muito trabalho. A ministra do trabalho contribui para que todas as outras sejam muito felizes, podendo administrar os respectivos ministérios com mão-de-obra barata e precária. Como é óbvio, o contributo da ministra da saúde é indispensável nos domínios da cultura. Sabemos que não há cultura sem gente doente. O ministério da saúde não é outra coisa senão uma máquina de produção de gente doente, ou seja, gente fazedora de cultura.

CARTAS DO POETA QUE DORME NUMA CADEIRA



I
Digo as coisas tal como são
Ou sabemos tudo de antemão
Ou nunca saberemos absolutamente nada.

Só nos é permitido
Aprender a falar correctamente.

II
Sonho com mulheres a noite toda
Umas riem-se ostensivamente de mim
Outras dão-me o golpe de coelho.
Não me deixam em paz.
Estão em guerra permanente comigo.

Levanto-me com cara de trovão.

Do que se deduz que estou louco
Ou pelo menos que estou morto de susto.

III
Dá muito trabalho crer
Num deus que deixa as suas criaturas
Abandonadas à sua própria sorte
À mercê das ondas da velhice
E das doenças
Para não falar da morte.

IV
Sou dos que saúdam as carroças.

V
Jovens
...........escrevam o que quiserem
No estilo que vos pareça melhor
Correu demasiado sangue debaixo das pontes
Para continuar a crer ─ creio eu
Que só se pode seguir um caminho:
Em poesia tudo é permitido.

VI
Doença
...........Decrepitude
...............................e Morte
Dançam como donzelas inocentes
Ao redor do lago dos cisnes
Seminuas
...............ébrias
Com seus lascivos lábios de coral.

VII
Está provado
Que não há habitantes na lua

Que as cadeiras são mesas
Que as borboletas são flores em perpétuo movimento
Que a verdade é um erro colectivo
Que o espírito morre com o corpo

Está provado
Que as rugas não são cicatrizes.

VIII
De cada vez que por um ou outro motivo
Tive que descer
Da minha pequena torre de tábuas
Regressei tremendo de frio
De saudade
..................de medo
..............................de dor.

IX
Já desapareceram os eléctricos
Cortaram as árvores
O horizonte vê-se cheio de cruzamentos.

Marx foi negado sete vezes
Todavia nós continuamos por aqui.

X
Alimentar abelhas com fel
Inocular o sémen pela boca
Ajoelhar-se num charco de sangue
Espirrar na capela ardente
Ordenhar uma vaca
E deitar-lhe o seu próprio leite pela cabeça.

XI
Das nuvens carregadas do pequeno-almoço
Aos trovões da hora do almoço
E daí aos relâmpagos da comida.

XII
Não me ponho triste facilmente
Para ser sincero
Até as caveiras me fazem rir.
Saúda-as com lágrimas de sangue
O poeta que dorme numa cruz.

XIII
O dever do poeta
Consiste em superar a página em branco
Duvidando que tal seja possível.

XIV
Só me conformo com a beleza
A fealdade produz-me dor.

XV
Última vez que repito o mesmo
Os vermes são deuses
As borboletas são flores em perpétuo movimento
Dentes cariados
..........................dentes quebradiços
Sou da tempo do cinema mudo.

Fornicar é um acto literário.

XVI
Aforismos chilenos:
Todas as cores têm manchas
O telefone sabe o que diz
Nunca a tartaruga perdeu mais tempo
Do que quando teve lições da águia.
O automóvel é uma cadeira de rodas.

E o viajante que olha para trás
Corre o sério risco
De a sua sombra não querer segui-lo.

XVII
Analisar é renunciar a si mesmo
Só se pode debater em círculo
Só se vê o que se quer ver
Um nascimento nada resolve
Reconheço que me caem as lágrimas.

Um nascimento nada resolve
Só a morte diz a verdade
Mesmo a poesia não convence.
Se nos ensina que o espaço não existe.

Se nos ensina que o tempo não existe
Mas de qualquer modo
A velhice é um facto consumado.

Seja o que a ciência quiser.

Dá-me sono ler as minhas poesias
E todavia foram escritas com sangue.


Nicanor Parra, in Otros poemas [1950-1968]
Versão de HMBF
(também na Di Versos n.º12, embora com algumas correcções)

TRABALHAR CANSA

De há uns tempos a esta parte andamos de colete. Não de salvação, mas de perdição. Com o calor, então, é um desespero. Visto o colete, pergunto pelas novidades enquanto assino o ponto, vejo os e-mails. Livros novos? Nem por isso, sabes como é, em Agosto pára tudo – diz-me o chefe. Pouco depois, sorri perante o meu patético contentamento. Afinal há livros novos. Seis meses depois, começaram a chegar os livrinhos de poesia solicitados para compor a estante respectiva. Lá estão eles, os da Angelus, da Assírio, da Cotovia, da Deriva, da &etc, da OVNI, da Relógio D’Água, entre outros outros outros… Agarro-me a dois que tinha encomendado por vício a jogos de azar. Julgava-os esgotados. Prazer maior, no regresso, era impossível: ver a loja "a encher-se" de livros novos datados de há 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1 anos. São estas as novidades por que esperava. Ao pé destas, as outras poderão assazonar. E agora, sempre que me apetecer, já posso folhear o meu guia laboral em pleno local de trabalho: Trabalhar Cansa.

É OFICIAL: REGRESSEI AO TRABALHO

Pega num pack com dois livros. Olha um dos lados, olha o outro, pergunta:

− Isto é 10€ no total ou 10€ por cada um dos lados?

Segunda-feira, 16 de Agosto de 2010

«HÁ UM POEMA NESTA PRAIA»


PRAIA DA ARRIFANA

escrevo (não soube evitar) na absoluta
maré baixa vicentina

ao sol das dezanove
o melhor rabo das férias veste
em definitivo o calção
vai embora

posso então, aos poucos, debruçar-me
sobre a sombreada sobranceria
da falésia

aproximar-me da morte
ou do fim do verão
usando metáforas

hoje não houve, contudo, a onda onde
entrar à mergulhão em voo picado
e uma nuvem estacou ao fim da praia



Miguel-Manso, in Santo Subito, Edição do Autor, Março de 2010, p. 111.

SÍTIO N.º6


A Revista Sítio é uma publicação do Académico de Torres Vedras editada pelo Luís Filipe Cristóvão. O n.º 6 foi coordenado pelo manuel a. domingos. Colaboram E. Ethelbert Miller (versões de manuel a. domingos), bruno béu, Rui Almeida, Rute Mota, Susana Miguel, Jorge Vaz Nande, Rui Manuel Amaral, Sandra g.d., Paulo Rodrigues Ferreira, Paulo Kellerman, João Camilo e eu próprio. Deixo os dois primeiros parágrafos do meu texto:


INVENTAR A REALIDADE


...Não há nada a fazer. A dor é a dor e com músculos rasgados não se brinca. Trabalha-se. Não sei quem foi Gustave Caillebotte. Nunca me preocupei em aprofundar as suas dores. Não trabalho a arte como quem afaga o chão, sou de distracções brutas no que toca a pormenores e acabamentos. Pior que isso, sou da preguiça. Sou do não querer saber mais, do ficar a olhar e sentir, vindos não sei de onde, uma série de comichões internas que, por vezes, se tornam tão insuportáveis como uma distensão muscular. Os meus amigos ladrilhadores não conhecem o quadro. Já lhes tenho dito: em 1998, quando estive no Museu d’Orsay, vi-vos por lá. Eles não acreditam. Como lhes digo estas coisas em momentos de bebedeira, pensam que estou a alucinar, que é mentira, que é mais um dos meus delírios pseudopoéticos. Mas eu não deliro com quadros de Caillebote. Eu deliro com corpos femininos e citações de Nietzsche: «a arte não é apenas imitação da realidade da natureza mas precisamente um suplemento metafísico da realidade da natureza, e a ela adicionado com o fim de superá-la» (O Nascimento da Tragédia, trad. Teresa R. Cadete). Trata-se, é certo, de uma citação inicial, mas tão luminosa quanto Os Afagadores de Soalho, de Gustave Caillebotte.
...Falemos, então, de citações. As primeiras epígrafes do livro inicial de Fernando Guerreiro são de Hermann Melville, Joseph Conrad, Charles Baudelaire. Os albatrozes tinham ficado para trás, assim como «o grosso pelicano dos mitos». «A metáfora chega onde sangra o real». «Há que economizar calorias, alegrias, em estação de escassez» (
Livros Iº e IIº, 1977). São poemas atravessados por marés, estações, povoados de aves em pleno voo. Um pelicano junta-se às gaivotas e aos albatrozes numa ilha onde os veleiros ainda vão naufragar. Ninguém sabe destas ilhas nem de seus faróis ilusórios. O leitor pressente uma tempestade, a chuva intensa disparada contra os vidros, pressente a trovoada, caem mísseis no vazio, rebentam sons, não abrem fendas. Rilke é arrastado pela ventania como se de uma folha em queda se tratasse. Eis que parte do ofício se explica: escrever é inventar a realidade, levar o relâmpago aos olhos do leitor, mostrar-lhe «pequenos quadros / velhos, guaches pendurados nas paredes, que um pintor, afogado / nos seus símbolos, metonimicamente transfere, inverte e corrige». As possibilidades de sentido serão tantas quantos os sujeitos posicionados perante o objecto. Não se trata tanto de relativizar a relação sujeito-objecto, como de promover no acto de observar uma dimensão de (re)criar, ou seja, de atribuir significado a. O sentido e o significado, enquanto enigma em processo de continuada (re)construção é o que está em causa nesta teoria da literatura.

(...)

O DONO DA PRAIA I

O dono da praia tinha uma mangueira com a qual enchia, todos os dias, a praia de mar. Certo dia, uma gaivota deu uma bicada no areal e a praia furou-se. O dono da praia ficou com um deserto.

O DONO DA PRAIA II

O dono da praia estendeu a toalha e deitou-se no areal. Adormeceu. Veio uma onda enorme e levou-o. Pensava que estava a sonhar. Quando acordou, era uma ilha.

O PRAZER DE URINAR


À beira de um rio morava uma mulher e um homem totalmente nus. De cada vez que um deles saía a porta sem dizer ao outro para onde ia, era quase certo ir urinar ao pé do rio, a descer. Um dia o homem estava a urinar e o sol dava-lhe na cara e nos olhos e os insectos voavam em volta das plantas. O homem fechou os olhos e a sorrir, sentiu uma grande força dentro dele. Era a alegria. Quando voltou a casa foi comer uma laranja e beijar a pele da mulher que era loira.

Álvaro Lapa, in Raso Como o Chão, Estampa, Agosto de 1977, p. 117.

DUAS COISAS

No regresso, uma coisa boa e uma coisa má. A coisa má a gente varre para um canto e esquece. A coisa boa a gente guarda só para nós, não vão os maus olhos torná-la coisa má.

Sábado, 14 de Agosto de 2010

Uma concha de Josep M. Rodríguez apanhada num acampamento índio algures na Costa Vicentina




TRAÇOS

Lá em cima
um avião traça o seu rasto,
desenha o seu destino

tal como o mar,
cujo rasto é a espuma da praia,
o reverso
dessa linha que é o horizonte.

Eu contemplo a minha sombra:

à noite torna-se eterna e cobre o mundo.



Josep M. Rodríguez, in A Caixa Negra, trad. Manuel de Freitas, Averno, Fevereiro de 2009, p. 67.

ACAMPAMENTO ÍNDIO




O dia seguinte é sempre o mais difícil, anuncia-nos o fim e aponta-nos o regresso. Nos últimos dias, as marés mudaram, a meteorologia ficou instável. As alterações atmosféricas produzem os seus efeitos. Deixo-me embalar pela vagabundagem de Andreas Tangen (ou será fulano de tal?) e ocupo o meu pensamento com coisas insignificantes. Comi a Fome enquanto o diabo esfrega um olho. Não esperava mais que o oferecido, o que não foi pouco. Li um conto excelente de Luigi Pirandello. O Signor Pardi enviuvou, caiu numa espécie de modorra, a perda deixou-o desorientado, órfão, confunde os dias com as noites, mergulhou no vazio: «He felt torpid, perplexed, with a sensation of emptiness inside and all around him». Diz a si próprio que a vida continua, é o que dizem sempre aqueles que ficam mediante o afastamento dos outros. Perante as partidas, as perdas, as ausências, nenhuma outra resposta parece sensata, apenas esta constatação conformada e conformista de que a vida continua. O que fazer?

O vento arrastou-me para a Samoqueira. Um brevíssimo passeio a pé na companhia da Maria João, da Sara e do Tomás. Não desci, como outrora, por temer a agressividade das vagas. Antes provei as camarinhas. No dia anterior, a prole tinha-se aventurado por Odeceixe. Quem chega e olha para o areal coberto de chapéus-de-sol pode ficar assustado, mas toda a vastidão guarda os seus recantos. É preciso descobri-los. Chegados ao areal, caminhámos o mais possível para sul. A maré está cheia, mas ainda permite atravessar para o lado das Adegas. Entre Odeceixe e as Adegas, uns metros quadrados de areia para improvisarmos o nosso acampamento índio. Não sou de construir castelos na areia, prefiro acampamentos índios. E por ali ficamos, observando a paisagem, aguardando o momento de baixar os calções e ir à água como viemos ao mundo. Tenho para mim esta teoria de que na praia devíamos andar todos nus. E que as mulheres jamais deveriam poder desatar os “sutiãs” deixando-os estrategicamente dobrados sobre as auréolas mamilares.

À noite, enquanto reflectia o assunto, fui visitado por um sapo enorme. Tão grande que era capaz de se alimentar à base de escaravelhos americanos. Fotografámos o sapo na esperança de lhe virmos a descobrir figuras de príncipes no espelho dos olhos. Parecia assustado, o bicho, ou perdido, tal como eu fico sempre que o vento ameaça os toldos, a maresia enregela os dedos, os olhos estendem-se contemplativamente para lá do horizonte. Sempre visitámos o Sargo, o do Bilal, mas não íamos com comezainas intenções. Demos corda à conversa, que se prolongou em grupo num jantar à mesa do Chill Out e, de sobremesa, no quintal da Esteveira. Os dias estão mais curtos, soltam-se-nos suspiros da boca, há um silêncio denunciativo em cada gesto, estamos à beira do fim. Restam fotografias, textos, memórias, desenhos e mais algumas páginas no negro caderno terapêutico:

gosto de encher a boca com ar puro, de olhar o que se esconde atrás das rochas, de ouvir as conversas dos velhos na esplanada do café, de mulheres deitadas na areia, gosto de observar as pessoas na praia, de vê-las descendo carregadas de óleos imprescindíveis, mirando o areal de ponta a ponta em busca de alguns metros de distância, de um certo recolhimento onde possa a toalha ser estendida, gosto de me abrigar das pessoas, de abrir um livro e de te desenhar de memória, gosto de escrever na areia versos que o vento confundirá e o mar rasurará, gosto de sentir as pessoas momentaneamente indiferentes aos terrores do mundo, de saber que não pensam em mim, que me desconhecem e ignoram, de lhes descobrir o olhar nos pontos inalcançáveis do desejo. para onde olharão elas quando olham sem distância? esperarão elas, como eu, que a maré lhes devolva os sonhos, algo surpreendente? o mar vai e vem, nada traz, apenas detritos, mais areia, peixes mortos. se tivermos sorte, boas ondas e uma estrela do mar. por isso, gosto dos objectos na praia, das plantas semeadas no quintal, dos vasos com ervas aromáticas, daquele casal que se sentou à sombra, do meu pé sobre as águas douradas deste infindo mar. e gosto de me sentar sozinho numa rocha, enterrar os pés na areia, sentir a maré subir enquanto avanço mais algumas páginas num livro. gosto de escutar a rebentação das ondas, as gaivotas agitadas em torno de um cardume, gosto de olhar para o nada enquanto o sol me queima a pele e nada me arrefece o coração, a não ser, talvez, a memória do que fica por fazer enquanto me sinto ínfimo, tal qual sou, neste inventário de gostar. é simples: não gosto especialmente das noites quentes, mas agrada-me estar no silêncio da rua jogando a sorte num bafo de vento que me refresque o rosto. gosto de sentir a brisa ligeira, uma baforada meiga, aquietar-me as faces durante as horas tórridas de uma noite de Verão, uma noite que chama os insectos para junto dos corpos suados. gosto das vacas apascentadas, das ruínas, dos prédios devolutos e das casas abandonadas. gosto de sentir o silêncio que as ocupa e de imaginar o ruído que outrora as habitou. gosto do bolo de batata doce do António José Simões, embora prefira o da amêndoa a acompanhar-me o café.