− E os poetas?
− Uns lunáticos.
− Porquê?
− Que outra explicação encontra para que alguém perca tanto tempo a escrever coisas que ninguém lê?
− Hão-de ter os seus leitores.
− No nosso país, com sorte, duas, três centenas.
− Publicam-se livros.
− Pois publicam, em doses modestas, sustentáveis. Ainda assim, publica-se mais do que seria recomendável se existisse o mínimo de sentido crítico. E critérios. Faltam critérios.
− Acha mal que se publique?
− Bem, pessoalmente não acho nada mal. Má é a guerra. Nisto, o mais que pode haver é desperdício de pasta de papel.
− Então o que está mal?
− Nada. Está tudo bem. Os poetas escrevem, os editores editam, os leitores compram. Espero que leiam.
− Parece-me demasiado pessimista. Afinal, sempre são pessoas diferentes.
− Diferentes de quê? E de quem?
− Do comum dos mortais.
− Nesse aspecto, somos todos muito parecidos. A morte não olha a sensibilidades.
− Digamos que são pessoas mais sensíveis.
− Acha?
− É o que parece.
− Conhece muitas dessas pessoas sensíveis?
− Ao longe.
− Pois eu conheço algumas ao perto. Deixe-me que lhe diga que arrotam todos na mesma direcção. Sei de um que escreve lindíssimos poemas de amor, mas bate na mulher e não quer saber dos filhos. Sei de outro que consegue ser tão inconveniente como percevejos num colchão. E há aqueles que investem uma vida a dizer mal dos outros. Há os lambe botas, os beija mão… Enfim, patetas, idiotas, pedantes, vaidosos…
− Também há-de haver gente séria.
− Gente séria não escreve poemas.
− Então escreve o quê?
− Não escreve, simplesmente não escreve. Sócrates, o filósofo grego, era sério. Jesus foi um homem sério… Não escreveram.
− Acabaram mal.
− Pois, normalmente é o que sucede a quem é sério. Acaba mal.
− E você, como acabará você?
− Pela lógica das coisas, acabarei bem.
− Não é sério?
− Pelo menos, procuro não me levar a sério.
− O que quer dizer com isso?
− Escrevo muito. Escrevo para não me levar a sério.
− Tudo o que acabou de dizer… tem alguma credibilidade?
− Credibilidade?
− Sim. As pessoas que o ouvirem, que o lerem, deverão levá-lo a sério?
− Só se forem parvas.
− Então quer dizer que tudo aquilo que disse não é sério?
− Quero dizer que se me levarem a sério são parvas.
− Porquê?
− Porque o que eu digo não se escreve.
− Jesus não escreveu e as pessoas levaram-no muito a sério.
− Você tem graça. A ele?
− Sim.
− Olhe que está equivocada?
− Então?
− Se o tivessem levado a sério não o tinham crucificado. Tinham-no amado, tinham-lhe dado muitos filhos.
− Consta que nem teve mulher.
− É natural, as mulheres não interessam nem ao menino Jesus.
− Não nos desviemos do que interessa.
− Oiça, nada interessa. O que se passa é que aquilo que Jesus disse foi escrito por alguém, não o que ele disse mas o que alguém julgou ter-lhe ouvido. Relatos, histórias, coisas que se contam. Quem conta um conto, acrescenta um ponto. E esse é o problema. As pessoas metem-se a escrever e dão cabo de tudo.
− Que deveriam fazer?
− Deviam falar umas com as outras, darem as mãos e serem muito amigas, fraternas, solidárias, deviam escutar os passarinhos a cantar, dançar ao som do canto dos passarinhos, deviam procurar a felicidade…
− E se forem felizes a escrever?
− Deixá-las escrever.
− Mas então estarão a dar cabo de tudo, pelo menos segundo os seus pressupostos.
− Fazem muito bem, desde que não me dêem cabo da vida.
− Está a ser egoísta.
− Todos somos.
− Egoístas?
− Sim. E parvos.
− Parvos?
− Isso mesmo. Só isso explica que alguém perca tempo a ler esta entrevista.