domingo, 28 de fevereiro de 2021

G-SPOT TORNADO (1993)

 


Pouco depois um cancro levou-o. Criou até ao fim. Se recordo um dos seus últimos trabalhos não é por desconhecer os anteriores, que perscruto como criança em busca de novas sensações. É para sublinhar esse legado que foi a vida ela mesma. Digamos que Zappa e a música confundem-se. Há dias cruzei-me com ele numa fotografia partilhada nas redes sociais, altíssimo, aconchegando uma idosa que lhe ficava pelo ombro. Olhei a imagem como se estivesse a ouvir música. Depois fui buscar Hot Rats, salvo erro de 1969, e reparei que a malha de baixo no início de Little Umbrellas é igual à de um tema dos belgas dEUS. Devem ter usado um sampler. Não fui verificar, não me interessa, estou farto de plágios. Prefiro concentrar-me no humor único de Zappa, o grande sátiro do american dream que condena milhões de seres humanos a uma vida miserável de subserviência e de ressentimento. É a dúvida mais profunda que carrego desde que me lembro de haver pensado: com que propósito tanta gente sacrifica a própria vida, arrastando-se num regime continuado de autoflagelação, ódios mesquinhos, rancores, inveja e, sobretudo, querendo impor aos demais pontos de vista e perspectivas do mundo como se os demais não tivessem cabeça para pensar. Julgar-se-ão imortais? Acreditarão na eternidade? Olho as vaquinhas a mugir no campo enquanto ruminam e vejo-as logo, pobrezinhas, desfeitas em costeletas. Julgarão essas pessoas que o nosso destino é diferente do das vacas? Na ética dispendiosa proposta por Onfray a música é arte do tempo, oferece a fusão com o éter. Entre o princípio e o fim duma peça a gente vê a vida inteira a desvanecer. Esta aprendizagem é fundamental, para que não nos transformemos em peixes-bois. Isso queríamos nós. Amanhã vou roubar um peixe-boi à Marina.




AZEITE

 


Quitéria foi às compras e ficou confusa. Qualquer dia temperamos saladas com vasélina, desabafou.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

DO TEMPO OU O DESEJO DE ETERNIDADE

 


   Por entre as qualidades essenciais ao surgimento da magnanimidade, convém não nos abstrairmos do talento para o esquecimento, despesa do imoderado, consumo do excesso negativo. Este factor constitui a condição de possibilidade de toda a intersubjectividade, visto que o rancor impeliria, mais cedo ou mais tarde, à ruptura total com o que quer que fosse, sendo o mesmo válido para o ressentimento. Efectivamente, é impossível deparar com uma individualidade exclusivamente dotada de qualidades e desprovida de qualquer defeito. Mais cedo ou mais tarde sofreremos o efeito das fraquezas dos demais — que, pela sua parte, também não evitam esbarrar com as nossas. Da mesma forma, convém que nos resignemos, por pouco que seja, às extravagâncias e aos sofrimentos oriundos das negligências alheias, assim como devemos manifestar, tanto quanto for possível, a longanimidade. Acaso a soma dos desprazeres exceda a dos prazeres que devemos incutir ao parceiro ético, teremos de considerar a hipótese de uma ruptura, optar por esquecer inteiramente. Por outro lado, se o resultado aritmético se mostrar mais favorável a uma graça que uma indelicadeza, passaremos a agir activamente no sentido de alcançar o esquecimento. É evidente que tal não significa que devemos actuar como se nada do que foi dito ou efectuado, calado ou esquecido, tivesse sido real, mas antes agir no sentido de não tomar em consideração o pior que tivemos a lastimar. Há que evitar os parasitas, as interferências, desejar uma comunicação processada num registo clarividente, quer de uma parte, quer de outra. Esquecer é sinónimo de despender integralmente, esgotar a conta, liquidar. Imaginemos, de outro modo, uma existência onde a capacidade de esquecimento não tem lugar: viveríamos incessantemente com a memória dos sofrimentos, dos tormentos, das tristezas, das tragédias, das inexperiências e dos monstros mais obscuros. É estritamente necessário substituir estes fenómenos pelo desejo de paz, muito simplesmente porque do esquecimento advém uma maior satisfação que do ressentimento. Em caso de nãos er possível concretizá-la, é preferível recorrer a uma indiferença total, um esquecimento puro, não mais os próprios estragos, mas as pessoas que os causaram. Podemos equiparar esta ascese a uma catarse, uma purificação dos pesos e dos vagares que em nós residem. A partir do momento em que as zonas maléficas se instalam nos recônditos da alma, não há outro remédio senão a purgação, o dispêndio dos maus humores, como que procedendo a uma sangria ética. 
   Neste contexto, o esquecimento não equivale ao perdão em nome do amor pelo próximo; pelo contrário, ele é tecido em favor de um princípio de equilíbrio que satisfaz a harmonia do próprio. Com o objectivo de esconjurar as perturbações bem como os efeitos negativos do sofrimento que corrompe  um corpo habitado pelo desejo de vingança, a amnésia provocada limpa os céus carregados e nublados; ela activa a saúde, em detrimento das tensões mortíferas e das paixões mórbidas; o negativo ataca, destrói, deteriora profundamente o corpo e a alma, a ponto de paralisar toda a capacidade de agir, de reflectir. Guiado pelo ressentimento, o indivíduo deixa-se manobrar pelo seu desejo de vingança, ele pretende opor a violência à recordação do dissabor, cultivando, para este fim, a besta que apodrece dentro de si. A morte fervilha em cada um de nós, sob múltiplas formas; o rancor e o ressentimento encontram-se entre as mais activas, as mais temíveis. O homem que cultiva a animosidade é um ser medonho, vulgar por entre o seu ardor de fomentar as tensões destrutivas.


Michel Onfray, in A Escultura do Eu - A moral estética, trad. Nuno Russo, Quarteto Editora, Julho de 2003, pp. 124-125.

CONFINAMENTOS

A alegria do primeiro confinamento desapareceu, já não há DJs de parapeito nem palminhas à janela. Com a aproximação da Primavera, Quitéria deposita esperanças no sexo de varanda. Não será fácil, com tanta flor murcha ao redor.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

O HOMEM DAS DESCARGAS


    Heliogábalo pode ser definido como o homem das descargas, os respectivos consumos são loucuras completas que mais não confinam que ao impulso da morte em actividade. Para si o sexo é sinónimo de obra fúnebre, o esperma, líquido mortífero nunca suficientemente distanciado do sangue. A sua chegada a Roma é exibida ao mundo, espectáculo político e jogo com a energia. A procissão que o acompanha transporta consigo um carro de tamanho desmesurado, constituído autenticamente por uma carcaça de baleia na qual se pavoneia um formidável falo de dez toneladas de peso. Trezentos touros puxam o engenho, e para lhes suscitar um maior ardor, são seguidos por uma matilha de hienas em fúria na cabeça do cortejo. Por todo o lado, Turquia, Macedónia, Grécia, Balcãs, Áustria, o falo vai penetrando na Europa antes de ser instalado em pleno centro da capital do Império, mausoléu de um género novo que, ocasionalmente, acaba memso por exceder aquele que estava presente na praça Vermelha. Por todo o comprimento do trajecto, mais não vemos que dançarinas nuas, músicos em números ilimitados e bailarinos castrados que oferecem os respectivos membros à divindade; os sexos encontram-se tanados, exibidos em picos de outro, pendurados em arcos feitos de um metal nobre. Profusão de pedras preciosas, de tecidos ricos e perfumes raros, pois com certeza. Tudo se revela único, excepcional, e correspondendo ao sentido etimológico do termo, podemos definir tudo isto como algo de extraordinário. Durante toda a viagem, o Imperador patenteia bem as suas riquezas: presentes, donativos, alimentos, dinheiro, mulheres. Outros no seu lugar teriam empregue o incenso, o outro e a mirra. O desfile tende a encantar, a cativar e seduzir, é um modo de demonstrar a capacidade de abundância, o desejo de despesa e o limiar de uma era de êxito. 

Michel Onfray, in A Escultura do Eu - A moral estética, trad. Nuno Russo, Quarteto, 2003, pp 107-108. 

ONE O’CLOCK JUMP (1937)

 


Ouçam música, evitem as ruas fechadas. A música tem estradas largas, avenidas longas, abertas, ladeadas por explanadas efervescentes de riso. Inventem conchas com as mãos e tapem os ouvidos, fechem os olhos, calem-se, escutem. O mar ressoa dentro de quem escuta, a música tem pássaros, agita as asas do vento e faz dançar árvores rizomáticas com ninhos de cumplicidade nos galhos e frutos que não apodrecem. Ouçam. Overdoses de Eddie Durham, injecções de Buster Smith, nada de gloriosas paisagens manchadas de gente que não interessa. Afastem-se dos bichos intoxicados de si mesmos, são poluentes como o trabalho, passam o tempo agitados nas extravagâncias do futuro, muito inquietados por ninguém lhes prestar a atenção que julgam merecer, coitados, constantemente empenhados em destruir os edifícios dos outros com balas de borracha. Ó palermas, ouçam música, divirtam-se, está tão afoita a mortandade que se torna burlesco ouvir-vos as queixas. Olá a todos, a música não tem números de página nem lombadas. Ninguém se fere com o nome dos mortos. O que vos inquieta, ó patéticos? Dancem. Não têm pernas? Inventem-nas.

MEXILHÕES

Foi uma das grandes questões aquando da crise da dívida pública. É, aliás, sempre uma questão muito discutida quando há crises: quem deve pagar a crise? E enquanto o tema inspira discussões, preenche debates, ocupa páginas intermináveis, são sempre os mesmos que a pagam. É dito antigo e com sentido: quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão. Só não percebo por que ainda falam de burguesia, ó mexilhões.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

"Não haverá ninguém suficientemente bondoso que me estrangule durante o sono?"

 


   — Como tens passado ultimamente? — perguntou.
   — Estou sempre na mesma, um feixe de nervos.
   — As drogas não te vão ajudar, como sabes. Não gostavas de te tornar crente?
   — Quem me dera consegui-lo...
   — Não é difícil. A única coisa que tens de fazer é acreditar em Deus, acreditar em Cristo como filho de Deus e acreditar nos milagres que Cristo levou a cabo...
   — Consigo acreditar no Diabo.
   — Então, porque não em Deus? Se acreditas na sombra, também tens de acreditar na luz, não achas?
   — A escuridão sem luz existe, como sabe.
   — Escuridão sem luz?
   Apenas consegui ficar em silêncio. Tal como eu, também ele caminhava pela escuridão, acreditando, porém, que, se a escuridão existe, também a luz deve existir. A minha lógica e a dele só divergiam neste ponto. Contudo, para mim, isso seria certamente sempre um abismo intransponível. 
   — Mas a luz tem de existir. Os milagres provam-no. Ainda hoje acontecem milagres de vez em quando.
   — Sim, os milagres do Diabo talvez...
   — O que significa essa conversa sobre o Diabo?
   Senti-me tentado a contar-lhe aquilo que tinha experimentado no último ano mais ou menos, mas tive medo de que ele o contasse à minha mulher e aos meus filhos e que eu acabasse como a minha mãe, num sanatório mental.
   — O que é que tem ali? — perguntei.
   Este velho robusto virou-se para olhar para a estante envelhecida com uma expressão jocosa como a de Pã.
   — As obras completas de Dostoievski. Alguma vez leste Crime e Castigo?


Ryūnosuke Akutagawa, in Rashōmon e Outras Histórias, trad. Virgílio Tenreiro Viseu, 2.ª edição, Junho de 2019, pp. 326-327.

LI’L DARLIN’ (1957)

 


Composta por Neal Hefti para a Count Basie Orchestra, é considerada uma lição de como swingar num ritmo lento. Basie não queria que fosse tocada como uma balada, mas num tom meditativo. Um falso lento, dir-se-ia por cá adoptando a terminologia futebolística. Drunk-stupor, diz-se por lá em vocabulário adequado à ocasião. Ideal para os dias que correm, enquanto se atravessa uma avenida vazia ou se visitam campas no cemitério. A tristeza que paira no ar não é hostil. Se fosse, a gente desembaraçava-se dela aos murros. Talvez seja a isto que se chama melancolia, uma tristeza sedutora, consentida, que convida para dançar, e a gente aceita porque se sente incapaz de dizer vai-te embora. Como uma amante antiga que nos visita de noite, envolta num nevoeiro disperso pela melodia assobiada. Batemos o pé, estalamos os dedos, assobiamos, mandamos vir um copo antes que a morte deitada a nosso lado nos acorde. Que é feito da paixão com que desenhávamos catástrofes no ar? Apagou-se. É a vela de aniversário há décadas mordida e guardada numa caixa como recordação.



PÓ DE MARTE

Após o abençoado ar de Fátima enlatado, Quitéria tem para venda ar amaldiçoado de Marte. Há em lata e em garrafa. Também podem adquirir um pack com ambos pela módica quantia de apenas um e meio. As saquetas com pó de Marte ficaram retidas no Brasil, mas, assim que for possível retomar os voos comerciais, Quitéria terá também pó de Marte com aroma a loureiro. Façam já as vossas encomendas.

CRISE NO BENFICA

No épico do Mahabharata, Pandu era o rei de Hastinapur. Conheceu Mia e foi amor à primeira vista. Casaram, tiveram muitos filhos. Assim nasceu a geração de PanduMia, os verdadeiros responsáveis pela época desastrosa do Benfica no ano da graça de 2021.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

LAWRENCE FERLINGHETTI (1919-2021)


 (aqui e aqui)

BOICOTE AO MUNDIAL DO QATAR

 


A FIFA também considera o número baixo. Pois eu considero que nenhum país digno se devia deixar representar num espectáculo destes. Se a selecção portuguesa for a este mundial, não terá o meu apoio. Se o mundo civilizado é isto, dispenso.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

SECOND BALCONY JUMP (1970)


 

Já ninguém sabe quem foi Earl Hines, o mais influente pianista de jazz a par de Art Tatum. Foi o primeiro afro-americano a tocar na rádio, em 1921. Há precisamente 100 anos. Parceiro de Louis Armstrong, com quem chegou a partilhar um carro, acabou a liderar uma grande orquestra em Chicago no The Grand Terrace (propriedade de Al Capone). Dizzy Gillespie e Charlie Parker fizeram parte da banda. Nat “King” Cole também. Eram o único agrupamento de negros a realizar digressões pelo sul, sob ameaças, intimidações, atentados à bomba, evitando contactos com fãs brancos. Com parte dos músicos a servir no exército durante a II Grande Guerra, contratou mulheres para continuar a actuar. Chegou a ter uma orquestra composta por 17 homens e 11 mulheres, algo extraordinário para a época. Sarah Vaughan era uma delas. Tornou-se, por essa altura, uma das maiores influências do bebop. Escute-se o tema Rosetta. Quando as big bands perderam fulgor, voltou a juntar-se a Armstrong. Mas queria liderar, fez os seus próprios grupos. A lista dos músicos com quem gravou é interminável. Estão lá quase todos os que importam. E há os solos, como se estivesse rodeado de uma big band. O piano de Earl Hines faz esquecer ausências. Ouçam o que ele fez com Do Nothin’ Till You Hear Form Me ou Just Squeeze Me, de Ellington. Só em 1974 gravou 16 álbuns. São mais de 100 enquanto viveu. Se um homem destes cai no esquecimento, esperar o quê das nossas vidas? Apenas o instante vale, aqui e agora, estar desfrutando de estar. O futuro é mera vanidade, o passado exemplo. Valha-nos que o mar fica perto e chama por nós.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

UM POEMA DE LILIANA S. RIBEIRO

Teatro anatómico

Passou com uma flor entre os dentes
uma senhora de pescoço alto, risco negro no seu vestido vermelho
(ou seria branco).
Passou como num filme mudo
acenando de lá aos curiosos de cá,
atravessou o arco, a praça, os pés ligeiros no jardim botânico,
dela era tudo.
Rezou na igreja de Santo António de Pádua
(adoentou-se em Lisboa)
colou a fotografia de um rapace sem que ninguém a visse
(fez voto de promessa)
(três ave-marias, um pai-nosso)
deixou ao santo o seu louvor.
Alçou-se da Ponte della Torricelle
e ao meio dia saiu do campo de visão.
Foi recolhida sem vestido para análise póstuma.
A sua boca, desmedida e infantil, impossível de dizer
mantinha a verde flor em troca de uma cura.

Liliana S. Ribeiro, in O Todo Pela Parte, Arranha-céus, 2014, p. 20.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

A VIDA DE UM HOMEM ESTÚPIDO (fragmento)

 


46. Mentiras

Sentiu o suicídio do marido da irmã como um golpe terrível. Agora era responsável pela família dela também. Pelo menos para ele, o futuro parecia-lhe tão sombrio como o fim do dia. Sentiu algo parecido com um riso sarcástico que a sua bancarrota espiritual despertava (estava ciente de todas as suas culpas e fraquezas, de cada uma delas), mas continuou a ler um livro atrás do outro. Até as Confissões de Rousseau estavam cheias das mais heróicas mentiras. E quando chegou a vez de Vida Nova, de Tōson, sentiu que nunca conhecera um hipócrita tão astuto quanto o protagonista daquele romance. Mas quem o comoveu verdadeiramente, contudo, foi François Villon. Encontrou nas muitas obras daquele poeta o «homem belo».
   Por vezes, em sonhos, chegava-lhe a imagem de Villon à espera de ser enforcado. Tal como Villon, por várias vezes quase tinha caído nas superlativas profundezas da vida, mas nem a sua situação nem a sua energia física lhe permitiam continuar a fazê-lo. Estava a ficar gradualmente mais fraco, como a árvore que Swift vira, há tanto tempo, a murchar de cima para baixo.


Nota: Diz-se que Jonathan Swift (1667-1745), pouco depois de cumprir 50 anos, apontou para uma árvore murcha e predisse com uma precisão inquietante: «Serei como aquela árvore. Morrerei a partir do topo», ver Robert Wyse Jackson, Jonathan Swift: Dean and Pastor (Londres: Society for Promoting Christian Knowledge, 1939), p. 94. [N.E.]


Ryūnosuke Akutagawa, in Rashōmon e Outras Histórias, trad. Virgílio Tenreiro Viseu, 2.ª edição, Junho de 2019, p.290.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

CARVON (1957)

 


Bastava o início e o fim, o trombone de Curtis Fuller à conversa com o contrabaixo de George Tucker afagado por um arco pesaroso. Para que precisamos nós do meio? Bastaria nascer, espreitar o céu, cheirar a terra, tocar nas pétalas de uma rosa, provar uma cereja, ouvir um pássaro, adormecer. Para quê o tempo esfraldado entre a primeira e a sétima posição do êmbolo? Ó, que estupidez, contradiz a cadela com meias luas de branco nos olhos. Tem hábitos estranhos, não gosta da rua à noite, foge das pessoas (consequências do confinamento), morde-nos os pés enquanto caminhamos. Estou convencido de que na sua cabeça os dedos dos meus pés são ossos suculentos. Deixo-a lamber-me, fazer-me cócegas, e quando morde as pontas dos dedos eu rio muito e ela fica parada a olhar para mim como quem pergunta: qual é a graça? Estranhos hábitos tem. Enche a boca de ração e corre, depois pára, abre a boca e espalha o granulado pelo chão. Parece rir. Só então dedica tempo a mastigar cada um dos grãos espalhados pelo tapete. Se o princípio e o fim bastassem, perder-se-ia o consolo de a observar. Não, o fim não basta e o princípio é pouco. A virtude está definitivamente na embocadura.

O MORTO

 


O MORTO
ODE DIDÁCTICA

Devo velar os meus mortos.
Vigiá-los, com doçura, mas vigiá-los.
Estar atento nas franjas do silêncio.
Alguma coisa deve acontecer
na espera. Alguma coisa, de algum modo
virá aclarar-se. O silêncio decanta,
evidencia o gesto menor, a amargura sem pausa
o ganga das lágrimas... O silêncio é na verdade puro
quando lhe damos um fundo irremediável.

Nascemos nos limites do reino da morte
com suas pompas, sua hierarquia, seus hábitos.
Deslizamos sem cessar nas entranhas desejáveis
e os predestinados, esses sim, vão, voam, adiantam-se
são belíssimos, têm o sangue dourado,
e, na verdade, são já os nossos mortos.

Um morto esquecido é tantíssimo perigoso.
Cuidado. Eles foram-se
para se fazer mais lembrados.
Se os recusamos aninham-se, somem-se
e, vingativamente, viram a vermina do futuro.

Os meus mortos são severos. Exigem
toda uma côrte de pequenos ritos:
um beijo ao entrar na sala
um beijo ao sair da sala...
um dar contas permanente, fui à baixa
vi o nuno, cheguei tarde, desculpa, ando tonto, um beijo
ao entrar do quarto, um beijo ao sair do quarto...
O morto está em todo o lado, exige
agacha-se em tudo, e o fétiche aquieta-o.
O morto tem o pavor de já não servir.
Há que dizer-lhe que não, que é útil, e prová-lo
um beijo ao entrar da noite, um beijo ao entrar do dia...

Detesto parecer didáctico, mas eu conheço-os.
No longo hábito, na atenção, na espreita,
na muita dor, no silêncio extreme
alevantei o mapa dos reinos do visgo
e sei hoje coisas lineares e atormentadas
que me enchem de um permanente respeito, em que o calar
é uma linguagem sem lugar à atitude
e o sorrir de uma certa maneira, a única chave.

Um morto verdadeiro (se o morto fosse só o cadáver...)
um morto, dizia, reconhece-se com dificuldade,
mas há siglas únicas, coisas
que sós, são nada, mas juntas atingem com dureza o osso frontal
brocam, perfuram a nossa compreensão
e, como um vírus bom, destroem tudo
o que não é essencial.

E depois, o morto é um gesto e sem fala.
Não anda, sorri, levita, desloca-se nos hálitos,
nunca lhe vemos as costas, sépia e opaco
como uma velha fotografia.
É um olho de sombra pesada, um megacubo de silêncio
com a minúscula varejeira do sangue permanente
no centro geométrico da atenção.

Como o morto nunca nos diz nada
vem daí o extremo penoso da sua presença.

Com eles nem mistificar nem mitificar.
Despertamos-lhes o ódio ou o desprezo.
Colam-se-nos, com o suor, à ilharga
e um corujão sagrado de penas de seda, aloja-se
perpétuamente em nossa nuca.
O pio que nunca chega é castigo.

Outro sinal é o cheiro.
Particularmente doce, especialmente triste.
Quando fareja o morto, o nosso nariz
vira a pera sensível e sumarenta
comida no degrau da infância, ao poente.

É simptomático que o cheiro da morte
encerre tanta vida.

(...)


João Pedro Grabato Dias, in O Morto. Ode Didáctica, textos Caliban, edição do autor, Lourenço Marques, Setembro de 1971, pp. 11-15.

[escreves mas não queres]

 


 

escreves mas não queres
que fique escrito: pelo menos
tão completamente: daí as
metáforas, as alusões, os
enigmas biográficos: daí as
folhas amarrotadas, as frases
que já não se conseguem ler:
o que importa?: falaste contigo,
tentaste ver o lado invisível
do teu eu: (uma vez mais
sem sucesso):
 
Rui Tinoco (n. 1971), in poema aberto ao silêncio (Eufeme, 2020). Estreia em livro com O Segundo Aceno (Edições Sempre-em-Pé, 2011). Com o poema aberto ao silêncio, conjunto uniforme de versos minimalistas, fica clara uma tendência para o apagamento cultivada desde o início. Exemplo disso mesmo é também o livro Era Uma Vez o Branco (volta d’mar, 2013), título que de algum modo ironiza o processo de escrita a que esta poesia se submete. O branco é o vazio que a palavra preenche, a transparência que a tinta conspurca, o poema é o exercício da língua que atraiçoa a clarividência do silêncio. Pressupondo um propósito na escrita que é o da crença num contacto com o invisível, a hipótese da revelação resulta invariavelmente frustrante. Fechado sobre si mesmo, o eu não se revela e a escrita redunda numa repisada ineficácia. A verdade persiste aquém da nomeação. Porquê continuar? Porquê insistir? Os poemas de Rui Tinoco são uma interrogação ininterrupta acerca do sentido da escrita, desacordo entre a necessidade que é suposto o poema satisfazer e a insatisfação que dele se retira. Porque o irrevelado permanece irrevelável, o horizonte mantém-se inalcançável, a essência escapa e a linguagem tem os seus limites. São poemas marcados pela ausência, o uso insistente dos dois-pontos anuncia uma suspensão que nada define, nada determina, nada esclarece a não ser uma dúvida permanente acerca do mundo e das possibilidades de o representar, transfigurar, expressar através da língua.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

CARNIVAL SONG (1967)

 


Entraram dois homens em casa, não me recordo de alguém lhes haver aberto a porta, vinham arranjar o telhado, calafetar, vedar, diziam, antes que comece a chover. Subiram ao telhado e por lá ficaram a trabalhar na sua obra enquanto no andar de baixo a vizinha remodela o chão. Entre chão e telhado, a mulher 24h por dia a tratar das suas timesheets ao telefone. Tempos de merda. Será? A filha mais velha está em aula de canto, a cadela ladra, a filha mais nova pratica violino, a cadela ladra. Tapo os ouvidos com Tim Buckley e finjo estar tudo bem, tudo certo, é só um achaque passageiro, o mundo continua a dar as suas voltas e o sol não sai de onde está e, se tudo correr bem, dentro de 5000 milhões de anos isto vai passar, passa sempre, tudo passa. Na televisão anunciam a possibilidade de meter gente em Marte. Porra, levem-me já antes que alguém chegue. Deixem-me lá ficar com a minha colónia de caracóis e corninhos ao sol. Ou então façam menos barulho, por favor, que eu tenho uma canção para ouvir.

MARCELINO DE PORTUGAL

 


O Governo desculpou-se com uma imposição do PR: temos de abrir excepção para os livros escolares. Os da Porto Editora, portanto. Excepcionais exceções. Sobre as desculpas do Governo, tratado de alienação cultural, e a imposição de Marcelo, programática, muito haveria a dizer não tivesse o mordomo sido enterrado com honras de Estado. Portugal fede, é um fedor a bufos e a mofo proibicionista, fascista, racista, elitista, que não se pode. A excepção para os livros escolares lembrou-me uma que tive com a polícia do fisco. No meu primeiro ano de trabalho, era eu professor estagiário, trabalhador e estudante ao mesmo tempo, declarei aquela coisa do IRS. À época tudo em papel, molhos de facturas consumidas pela humidade, tinta Bic a desfazer-se em tom azul celeste. Fui chamado a depor. «O senhor tem para aqui um conjunto vasto de despesas que não entram». Bela introdução à sexologia fiscal: despesas que não entram, o buraco é estreito, fica quase tudo de fora. Quais, perguntei. Eram livros. Mas os livros técnicos não entram? «Esses entram, são ágeis e maneirinhos, mas estes não são técnicos». Para mim são, insisti. Era professor de filosofia, os meus livros técnicos podiam ser tanto a "Fundamentação da metafísica dos costumes" como o "Cunnus - Repressão e Insubmissões do Sexo Feminino". O especialista dizia que não, para ser técnico tinha que vir discriminado livro técnico. Isto é, nem uma factura era de livro técnico porque faltou-me a técnica de solicitar no acto de compra que especificassem a tecnologia do livro para que os tecnocratas das finanças pudessem excitar-se. Aquilo deu num grande berreiro, discussão interminável, eu a saltar para lá do balcão com ganas de desfazer o gasganete ao fiscal. O tipo a pedir-me que falasse baixinho, que ele é que sabia o que era ou deixava de ser técnico. Assim o PR e o Governo, todos eles técnica e escola. Cunnus a menos?

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

DEPORTAÇÃO

Quitéria é pela deportação de Portugal inteiro para o planeta Sol.

JOAN MARGARIT (1938-2021)


 (aqui)
e

LOVER, YOU SHOULD’VE COME OVER (1994)

 


Por outro lado, veja-se o caso dos Buckley. Tim, o pai, morreu de overdose com apenas 28 anos. Gravou quase uma dezena de discos. Jeff, o filho, tinha 30 quando desapareceu depois de mergulhar no Wolf River. Terá sido acidental. Deixou apenas um álbum em vida, com o qual granjeará a eternidade. Penso neles como exemplo de evolução, apesar de a desgraça ter-se mantido fiel aos seus propósitos no percurso destas vidas. Há tanta gente a morrer, todos os dias somos apanhados pelo desaparecimento de alguém conhecido. Uns inesperadamente, outros cumprindo a lei da vida. Assim fica deprimente. As pessoas deviam nascer com o currículo feito, para que as celebrássemos logo à nascença. Em vez de darmos a notícia da morte de alguém, daríamos a notícia do nascimento. Nasceu Jeff Buckley em Anaheim, Califórnia, será um belíssimo rapaz com uma voz encantadora, passaremos a acreditar na existência de anjos ao ouvi-lo cantar, deixará gravado um disco com o título Grace que constará entre as mais belas criações humanas. Assim teria sido em 1966, assim seria hoje. Acabou de nascer no Centro Hospital do Oeste uma menina muito inteligente, descobrirá a cura para todos os cancros e com isso ganhará o Nobel da Medicina no ano de 2070. Tal como andamos torna-se difícil, os telejornais a abrirem diariamente com tragédias, queixas, notícias tristes e deprimentes, as falhas no hospital não sei de onde, o juiz cretino que disse não sei o quê, o governo não sei das quantas que faltou à promessa não sei de quantos. Que tacanhez. É tanta a maledicência, até parece que os poetas tomaram conta do mundo. Valha-nos Deus que tudo não passe de um equívoco.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

CADERNOS DE BERNFRIED JÄRVI

 

O que é isto? Já caem baratas do tecto? Se bem me lembro, quem o perguntou foi um jovem Luís Miguel Cintra no primeiro filme do João César Monteiro: «Quem espera por sapatos de defunto morre descalço» (1971). Grande título. A cena passa-se num café, como muitas das páginas nos Cadernos de Bernfried Järvi (Livraria Snob, Dexembro de 2019): «Os cafés transformaram-se, um após outro, em lares para solitários e depois em mausoléus, deixando à mostra a superfície branca e triste das mesas de mármore. As lâmpadas morrem aos poucos no tecto. Os espelhos trocam entre si olhares carrancudos, desconfiados. O Aviz está tão calmo a esta hora que podemos ouvir os pensamentos uns dos outros a voarem à nossa volta, com as suas asitas frementes, cruzando o ar com a rapidez de relâmpagos» (p. 137). São frases anteriores à pandemia, os cafés estavam abertos. Podemos supor que o país de João César Monteiro (n. 1939 – m. 2003) em 1971 era outro que não o de Rui Manuel Amaral (n. 1973) nestas primeiras décadas do século XXI, e porventura assim será. O que se repete é a porra das baratas a caírem do tecto.
   O mundo de Bernfried Järvi é tão diferente do nosso que chega a parecer igual. Aachen, onde supostamente a (in)acção decorre, pode descrever-se em duas frases: «Espécie de gaiola para moscas» (p. 18). Afinal basta uma. Há uma localidade com o mesmo nome na Alemanha, mas suponho que não tenha os mesmos cafés. A confusão começa aqui e é propositada. Não vale a pena tentar encontrar conexões entre as páginas destes cadernos e a realidade, pois o mundo que neles se fixa é fantasmagórico como o reflexo de um rosto num espelho. Imaginemos, porém, que em vez de um simulacro de rosto o espelho devolvia estados de alma, sentimentos, sensações, e que tudo o que nele se reflectia era plano e transparente como as águas plácidas de um lago, movendo-se apenas ligeiramente à passagem de uma brisa: «Um espelho observa-me com os seus olhos deformados» (p. 124). Tenham medo, viver é uma pena que se cumpre, o tédio o seu maior castigo.
   A única excitação que a espaços vai interrompendo a modorra destes dias surge na forma de sonhos, os quais vão sendo descritos por Järvi sem motivo para análises profundas. Não se julgue que nada acontece em Aachen, a dada altura até uma bela mulher baralha os dedáleos caminhos da ilusão. O espanto é o tédio que se prolonga na eterna expectativa do inesperado, a acção está em aguardar que algo aconteça. «Nada de relevante a assinalar», conclui-se a certa altura. E no entanto os cadernos vão sendo preenchidos com frases, hesitações, suspensões, definições, súbitas alterações de sentido, num jogo que consiste em fazer do enfadonho registo da rotina uma grande aventura do espírito. A meteorologia lá está, percorrendo as páginas ao longo do livro, para nos recordar que por cima dos grandes trânsitos da existência humana o céu mantém-se inalterável. Mais nuvem, menos nuvem, lá está ele a olhar para nós, a rir-se de nós e do tempo que desperdiçamos a pensar na morte da bezerra. Até os «pássaros bocejam».
   Então uma projecção, depois uma alucinação (será?), a monotonia dos dicionários pautando o ritmo dos dias, a grande ciência do marasmo. Bernfried Järvi tem amigos, claro, que encontra no Ceuta, no Aviz, no Piolho ou noutro café qualquer, pega em vários livros e esforça-se por lê-los, faz um minuto de silêncio em memória de si mesmo. Chega a elaborar questões que dariam para escrever tratados: «De que ovo saiu esta angústia?» (p. 42). Só que não lhes responde, a nulidade é nele a força que tudo suspende. A escrita é uma espécie de excepção momentânea, inscrita no movimento rotineiro dos ponteiros que marcam a passagem das horas num relógio.
   Rui Manuel Amaral escreve de acordo com uma tradição que vem de Laurence Sterne, o grande sabotador das convenções literárias, mas se desenvolveu com nuances humorísticas e absurdas em autores tais como Gogol, Pirandello, Kafka, o talvez menos citado Ryūnosuke Akutagawa (no estilo, nas técnicas de subversão narrativa), e, sobretudo, Daniil Kharms e Samuel Beckett. Alguns destes nomes ressoam nas páginas dos Cadernos de Bernfried Järvi, livro de um herói que anda no seu próprio encalço, repleto de sonhos cujo nonsense se desfaz pelo que de nós reconhecemos nas palavras dos outros: «— Às vezes ignoro se vivo ou se a minha vida não passa de uma história que alguém está a contar a outra pessoa qualquer. Palavra de honra, Bernfried, que pela forma como tudo se passa, chego a pensar nisso. Às vezes tenho a impressão de que atrás destas paredes acaba o mundo e que do outro lado começa um outro, erguido por mãos invisíveis, inteiramente desconhecido. Que somos simples títeres tremulando nos fios do destino. Que viemos da página em branco e para lá iremos voltar» (p. 148). Que mais posso dizer? Assim que as livrarias abrirem, invadam-nas e roubem todos os exemplares deste livro. Se o encontrarem. Sentem-se num café a lê-lo. Se ainda houver cafés.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

UNTITLED #1 (1995)

 


Apanhei nas redes sociais uma conversa sobre concertos na Aula Magna. Não me meti, ando sem paciência para conversas. Lembrei-me que fui a vários. Concerto memorável, o da banda do filho do contrabaixista Charlie Haden. Podia ter dito banda de Josh Haden, mas não seria a mesma coisa. É peso terrível que se carrega pela vida, o apelido, para mais quando o associamos a um génio ou a uma figura pública relevante. Penso nos herdeiros das grandes figuras do Partido Nazi. Que peso, meu Deus. Imaginem se Pessoa tivesse deixado filhos. Coitados. Seriam, certamente, umas miseráveis criaturas deprimidas e deprimentes. Bom mesmo é ter pais inúteis ou anónimos. Só desejo que as minhas filhas olhem sempre para mim como um inútil. A Beatriz chama-me totó, a Matilde queixa-se de que sou desmazelado. Abençoadas filhas. Que me vejam sempre como um desastre incorrigível, um acidente parado observando-se a si mesmo com repulsa. Será uma alegria saber que não lhes pesarei mais do que uma pena, o pai totó e desmazelado. Ou será desleixado? Dizem que devia ter mais vaidade em mim, cuidar do aspecto, essas coisas, mas eu gosto mesmo é das minhas peúgas rotas e dos boxers esgarçados e das calças rasgadas e dos colarinhos coçados e do borboto nas camisolas. No álbum dos Spain também tocam Petra Haden (violino) e Tanya Haden (violencelo). Reparo que esta é casada com o actor Jack Black. Desejo as maiores felicidades aos filhos que possam ter.

SENTENÇAS DA QUITÉRIA

Pessoas que fazem de Mamadou Ba “o assunto” das suas vidas deviam ser empaladas à maneira de Vlad Drakul. Pessoas que votam no Chega deviam ser castradas. Pessoas que só falam de dietas deviam praticar a dieta de Auschwitz até ao fim dos seus dias. Pessoas que só falam da pandemia deviam ser internadas na Ordem dos Cartuxos, aprender canto gregoriano, e permanecer num regime de estrito silêncio. Pessoas que lêem o Sol, o I e o Observador deviam levar choques eléctricos. Se o interesse for especialmente pelos cronistas desses jornais, não têm salvação. Solitária com elas. Pessoas que acham que não há racismo em Portugal deviam ser sujeitas à tortura do sono. Pessoas que são a bastonária da Ordem dos Enfermeiros deviam fazer clisteres de hora a hora. Pessoas que dizem impactante e parabenizar deviam trazer a boca cheia de favas 24h por dia. Adeptos das teorias da conspiração não deviam simplesmente existir. Se existem, é porque o mundo conspira contra nós. Um asteróide sobre o mundo, se faz favor. Pessoas para quem os mais ricos não têm responsabilidade nenhuma sobre os mais pobres deviam simplesmente ser pobres. Condenem-se ao franciscanismo (o verdadeiro, não o do padre Melícias). Pessoas que passam à frente nas filas ou nas bichas ou whatever deviam ser condenadas como Sísifo foi. Pessoas que dizem whatever só deviam falar em inglês. Pessoas que lêem o Correio da Manhã e vêem a CMTV deviam ser amarradas a uma rocha por toda a eternidade enquanto uma grande águia lhes comesse diariamente o fígado (se ainda tiverem fígado). Pessoas que acham que os comunistas comem criancinhas ao pequeno-almoço deviam ser obrigadas a usar fraldas e a comer Nestum o resto da vida. Pessoas que acreditam em salvadores da pátria deviam seguir o exemplo de Jesus: crucificação. Pessoas para quem o mundo começa e acaba na ponta do seu nariz deviam ser esmurradas no nariz. Pessoas para quem Greta Thunberg é o pior dos males deviam ser expatriadas e exiladas numa ilha de plástico algures no Pacífico. Pessoas que passam a vida a cagar sentenças deviam ser impedidas de comprar papel higiénico. Pessoas que leram isto até ao fim deviam ter feito outra coisa. Eu próprio devia ter feito outra coisa, mas esta é a minha condenação. 

sábado, 13 de fevereiro de 2021

PICASSO (1948)

 


Em memória de Chick Corea (m. 9/02/2021)

 

Ontem a terra tremeu. Estava a ver um western quando a senti tremer. Por instantes julguei tratar-se de um efeito tridimensional da cavalgada no ecrã. Tom Hanks tentando controlar uma carroça em vertiginosa descida a pique. Muita coisa pode passar-nos pela cabeça numa fracção de segundos. O prédio a descolar como uma nave a caminho dum planeta distante, habitado por mulheres com colares de mamas à volta do tronco, sem costas, todas feitas de peitos insaciáveis, faces à volta de faces, pés com forma de girassol, esféricas, belas. Um planeta sem homens. Perfeito, portanto. Perfeito de animais cúbicos como as pinturas de Picasso, sem língua, falando por meio de sons. Seres-saxofone, seres-piano, seres-bateria, seres-trompete, seres-guitarra, uma orquestra de seres comunicando harmónica e melodiosamente. E no lugar das árvores melopeias irrompendo do céu, onde têm raízes, largando frutos com a forma de nuvens. As coisas que nos passam pela cabeça numa fracção de segundos. A terra tremeu e eu temi que fosses tu a bater à porta explicando que o movimento do planeta, afinal, não é rotativo, mas uma espécie de vibração, um chocalho, gelo num misturador. Eu sempre acreditei que Deus fosse barman, mas o filme chama-se News of the World. E está tudo na mesma.

FEVEREIRO

 
Fevereiro avança 
indiferente aos nossos mortos e moribundos.
A natureza ri-se das dores dos homens 
E dá-lhes, por exemplo, esta inoportuna chuva
de fevereiro.
Os dias não esperam que fechem as feridas dos animais.
Ignoram a ética do luto. 
Caiu fevereiro sobre os nossos mortos e moribundos. 
A chuva assusta as vidraças da janela, 
afoga a papoila que se esforça por nascer,
escorre pela campa do meu último morto e 
enlameia as patas do próximo. 
Há sessenta noites que todos os dias
são regados pela tristeza.
Ensopou o tecido e colou-se aos ossos.
Por vezes, dou por mim a sacudi-los,
no gesto atávico do animal incomodado. 
Se houvesse um raio de sol, 
deitar-me-ia nele,
encostada às paredes da rua, 
com o focinho de encontro ao chão.
Mas não há sol, nem paredes, nem chão.
Só esta chuva triste,
e fevereiro,
e o desrespeito da natureza pelo tempo 
que demoram a sarar, as feridas dos animais.

 
 
 
Cuca, a Pirata (aqui)
7/Fevereiro/2021

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

QUATRO DIVERTIMENTOS

 


Divertimento n.º 10 (As gruas)

São sete as gruas que registo
Na tarde vagarosa de cidade
Onde um tempo nunca visto
Surge e se revela em claridade.

Nuvens brancas dizem melhoria
Horizonte da paisagem em écran
Amanhã vai nascer um novo dia
Mundo com menos uma manhã.


Divertimento n.º 16 (Hospital)

Não fosse a cruz prateada
Na sala de espera vulgar
Ninguém daria por nada
Duas mulheres a esperar.

Nesta moderna liturgia
Tempo antigo e eterno
Quem diria, quem diria
Um telemóvel moderno.


Divertimento n.º 19 (Nome)

Teu nome é uma caixa de segredos
A chave pode estar numa caneta
O poema que escapa pelos dedos
Já procura descobrir esse planeta.

Mesmo que ninguém dê por nada
O dia nesta cidade é uma batalha
Teu nome é uma paisagem povoada
O verso é este ofício que me calha.


Divertimento n.º 37 (Motivo)

Um poema, uma canção, uma mentira
Tudo isto cabe no desenho do futuro
No entanto há por aí quem prefira
Fingir de outro modo mais seguro.

Mais frágil e exposto e precário
Assim em cada linha uma certeza
Nas folhas perdidas do calendário
A solidão marca lugar a esta mesa.


José do Carmo Francisco, in Rosa Luz e Outros Poemas, Apenas Livros, Outubro de 2019.

POLÍMATAS

 "Os homens são como as maçãs: quanto mais os amontoamos, mais apodrecem."

A frase é de Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais (1732-1799) e parece-me válida. Curiosa é a apresentação do autor na Wikipédia: "Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais foi um polímata francês. Em vários momentos de sua vida, ele foi relojoeiro, inventor, dramaturgo, músico, diplomata, espião, editor, horticultor, negociante de armas, satirista, financista e revolucionário." Polímata, fui verificar, é aquele que estudou e sabe muitas coisas ou muitas ciências, pessoa cujo conhecimento não está restrito a uma única área, alguém que detém um grande conhecimento em diversos assuntos. Um homem da renascença, portanto. Não confundir com a multidão de maçãs nas redes sociais, nem com a proliferação de especialistas que comentam tudo e mais alguma coisa na imprensa (tudólogos?). Estes são mesmo treinadores de bancada.

ÚLTIMA HORA

Descoberta variante portuguesa do novo coronavírus (que já não é assim tão novo). Apanha-se a ver programas da Cristina Ferreira e do Hernâni Carvalho, a ouvir o Marques Mendes, a entreter o espírito com o Big Brother, a ler o João Miguel Tavares e a Clara Ferreira Alves, a ouvir a voz da Fátima Campos Ferreira, através dos olhos piscados e das orelhas hirtas do José Rodrigues dos Santos, com entrevistas do João Adelino Faria e aquela coisa do que dizem os teus olhos apresentada pelo Daniel Oliveira. Contrai-se igualmente com o próprio Daniel Oliveira e com os cronistas do Sol, do I e do Observador, com a Maria de Fátima Bonifácio e aquele estronço que foi director do Expresso, ia ganhar o Nobel e é filho dum respeitável historiador de literatura (ninguém escolhe os filhos que tem). Toda a cautela é pouca quando expostos aos poemas do José Tolentino Mendonça, às panelas da Joana Vasconcelos e aos sermões dominicais do Rui Santos (o gelado da Máscara). Cuidado com a imprensa em geral e o Camilo Lourenço em particular, o José Gomes Ferreira, o mau, é contágio certo e vídeos de um tal Tilly no YouTube são altamente infecciosos. O homem tem nome de chá, mas é puro veneno. Nada de contactar com cheganos, negacionistas, revisionistas e especialistas de bancada que citam estatísticas da Universidade Johns Hopkins como se estivessem a citar a Bíblia. Toda a distância é pouca quando o tema é covid-19. O próprio tema, aliás, é altamente epidémico, pandémico, endémico. Uma pessoa apanha só de ouvir falar. Por isso é melhor ficar por aqui. Protejam-se, o silêncio é uma arma.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

PELA ABOLIÇÃO DA SOCIEDADE MERCANTIL

 


Aqueles que fazem da Terra uma cloaca tornaram-se a cloaca da Terra. (p. 15)


O poder do dinheiro e o dinheiro do poder sempre foram inseparáveis. A loucura pelo dinheiro e o poder louco caminham de braço dado, fustigados pela avidez ascética e pelos prazeres reduzidos a dejectos da carência efectiva. (p. 23)


O dinheiro também apaga o nome das suas vítimas. (p. 30)


Que pode Maomé contra o profeta MacDonald? (p. 32)


A religião realizou-se naquilo que era: o gosto da morte instilado pela mordedura do pecado. (p. 35)


Hoje, o bolchevique com a faca entre os dentes enaltece os méritos de um dentífrico. (p. 49)


Os burocratas não precisam de se inquietar. Os seus inimigos falam a sua linguagem. (p. 71)


Basta fazer engolir sapos aos homens e aos povos, para que eles defequem víboras. (p. 97)


O primeiro território a libertar é o do nosso próprio corpo. (p. 116.)


Raoul Vaneigen, in Pela Abolição da Sociedade Mercantil / Por uma sociedade que Exalte a Vida, trad. Carlos Correia Monteiro de Oliveira, Teorema, 2003.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

MINOR MOOD (1953)


 

Os meus melhores amigos não são escritores, felizmente. Nem sei se me lêem. Facto é que nunca falamos sobre livros. Temos assuntos mais relevantes a tratar. Há dias um deles telefonou, ocupámos o tempo a partilhar maleitas. Às tantas comentei que parecíamos dois velhos na sala de espera duma clínica. Não tanto pelo pingue-pongue de queixas, mas pelo respeito exteriorizado face aos problemas de cada um. Ao longo de 35 anos, pelo menos, raras foram as ocasiões em que concordámos nalguma coisa. Discutimos sempre bastante, ele a partir de uma perspectiva vinculada à astrologia e eu sem perspectiva alguma. Só pelo gozo de manter o lume aceso. E desta feita até ao nos despedirmos concordámos: muito já a gente curtiu, a nós ninguém roubou a puta da juventude. Bebedeiras infindáveis, directas sem fim, lances sexuais e outros clarões que só por acaso ou muita sorte não se tornaram trágicos. O perigo espreitava e a gente ria. Falei-lhe do Clifford Brown, desaparecido deste mundo com apenas 25 anos. Drogas, perguntou de imediato. Não, esclareci, num acidente de viação. Era um dos raros génios do jazz que não bebia nem se drogava. O destino é irónico, quando não é cego.

ESTÉTICA E IDEOLOGIA

 


A arte esteticamente emancipada está com efeito fora de qualquer ideologia. Na verdade, ao nosso nível de consciência, uma arte esteticamente emancipada não pode deixar de ser o silêncio, uma forma qualquer de silêncio, mesmo daquele silêncio que fala. Ora o futurismo falou alto de mais, o futurismo é um movimento obviamente empenhado. Os futuristas italianos foram fascistas; os futuristas russos foram comunistas; os surrealistas franceses foram por vezes comunistas (trotskistas) e por vezes não. Tais adesões políticas são o corolário de um deslizamento em épocas de transição entre o conhecimento a nível estético e a nível ético-social. Muitos dos artistas em causa identificaram com efeito uma certa ideologia com o fim da opressão ideológica a que até então tinham estado sujeitos. Ambiguidade lamentável, como no caso de Marinetti? Incomensurável ingenuidade, como no caso do russo Tretjakov? Com efeito, Tretjakov identificou a ideologia do partido comunista soviético com o fim da opressão ideológica e o engano saiu-lhe caro. Primeiro, porque negara o princípio do cânone 'eterno' da arte, perguntando:

«em que medida é que a arte da nossa revolução é também uma arte revolucionária, isto é, uma arte que modifica incessantemente os seus métodos e processos na execução de novas tarefas?»

Depois, porque negou a validade da continuação de uma arte ideológico-afirmativa, ao dizer:

«O homem que ainda há pouco cantava em versos muito bem medidos a noite estrelada, o perfume das flores, ou a sua melancolia e nostalgia, começa agora a cantar a Revolução: trabalhador/suor, unidade/liberdade.»

Que espantosa lucidez!

Alberto Pimenta, in O Silêncio dos Poetas, Livros Cotovia, 1.ª edição em língua portuguesa, 1978, 2003, pp. 173-174.

MARCH OF THE BOB CATS (1937)

 


Lá fui mais uma vez fazer de figurante. Depois de aprendiz de revolucionário numa tabaqueira, acabei como preso político na Angra do Heroísmo de 1935. Passei o tempo todo de coto nas mãos, a cera a escorrer pelos dedos e eu sem dar por isso de tão concentrado no meu papel. Minto, pensava naquela personagem do Tarkovsky a evitar que a chama se apague enquanto atravessa uma piscina vazia. Passo a passo, dia a dia, uma vida inteira como figurante numa guerra de pólvora seca. Podia ser pior. Podia ser chamado a servir no exército, acabar como Glenn Miller, desaparecido no Canal da Mancha depois de o avião onde seguia se ter despenhado (há quem diga que morreu de ataque cardíaco num bordel parisiense, mas não convinha manchar-lhe a reputação). Foram imensos os músicos de jazz que serviram no exército durante a guerra (Bob Crosby, líder dos Bob-Cats, por exemplo), mas também a maioria acabou por fazer de figurante. Tocavam em bandas para animar as linhas da frente. A cantiga é uma arma. Alguns regressaram com problemas psicológicos, não sendo certo que não os tivessem já quando foram chamados a servir. O que importa é manter a chama acesa, deixar o papel de herói para as estrelas, desconfiar dos cabeças de cartaz.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

NOITE DE LUAR-BOLOR.


    O que mais admiro nos homens (e o que neles mais me desgosta também) é a sua extraordinária capacidade de resistir à monotonia da realidade — às vezes tão medíocre que nem deveria merecer a honra de lhe chamarmos realidade.
   Aqui entre nós, gaita para as mesmas flores!, para a chuva repetida!, para o Sol igual!, para os fatos idênticos, amanhã, depois de amanhã, daqui a um século, pela eternidade fora — ora bolas!
   Até hoje — e já não sou criança — ainda não encontrei ninguém que se insurgisse contra este decalque de coisa nenhuma a papel químico. Ou que me increpasse com mau humor de vulcão chateado, a desabafar:
   — Apre! Estou farto destas árvores! Arranjem-me outras, depressa! Árvores voadoras, por exemplo. Com raízes nas nuvens...
   Pelo contrário: a realidade chocha não lhes basta. Exigem-na também encaixilhada, em tal qual, nas pinturas, nos romances, nas peças, nos filmes... Não percebem que, para os artistas verdadeiros, este famoso mundo não passa dum caos-tema para variações de novos deslindes e astros diversos.
   E que uma das mais transcendentes missões sociais da Arte seria essa luta contra a monotonia, que concede aos homens a faculdade de transformar a natureza, modificar as leis eternas, pôr tudo do avesso e dar um pouco de férias revoltas ao tédio organizado em que vivemos.
   Eu, pelo menos, quando me sinto cansado dos pêndulos dos relógios, da injustiça, dos automóveis, do bater dos corações, do vento, dos satélites, dos astronautas, das plantas sempre verdes, dos telhados sempre vermelhos, dos homens sempre com cabeça, tronco e membros, recorro aos poetas. Procuro neles a ilusão de outra lógica. Imagino-me na cidade-em-que-as-ruas-arrombam-as-casas e os cavalos correm com mil pernas azuis. Deliro a sonhar o meu retrato com asas. Enlouqueço, em suma, provisoriamente, que é ainda a maneira mais cómoda de repousar.

   Agora mesmo, por exemplo, abri a janela e olhei para o céu. 
   Lá estava a Lua, a tonta! A Lua bolorenta que ninguém estoira com dinamite ou atravessa com flechas. A Lua redonda.
   Fechei a janela com furor.
   E sentei-me à mesa a desenhar uma paisagem nocturna, saudosamente iluminada por uma lua quadrada.


José Gomes Ferreira, in Imitação dos Dias (1966), Círculo de Leitores, 2004, pp. 22-23. 

domingo, 7 de fevereiro de 2021

À ESPERA DE ALICE (2005)

 

Pior do que perder-te seria saber-te perdida, ficar ainda mais só nesta bola de escaravelho a remoer angústia com a garganta fechada a sete chaves. O rosto nas costas e um bafo a saturação resfriando contra as paredes cobertas de musgo. Pior seria ver extinto o fogo dos olhos, as pálpebras transformadas em cinza resignada e entre uma e outra a distância dos desertos. Muito pior seria a metáfora neo-romântica deste amor necrófilo que invadiu os dias, o vento a chicotear de chuva o vidro das janelas fechadas. Os beijos já não têm força de beijos. Exangues e secos como o pó que adolesce por todo o lado, os beijos são a trepidação que resta dum motor avariado. Só falta deitar a chave ao lixo. De preferência, depois de aberta a garganta.